26 de fev de 2017

Janta com o diabo

Todo fim de ano o diabo recebe um pequeno grupo para jantar no que chama de sua anticobertura, um duplex no último subsolo do inferno, escolhendo entre as almas condenadas as mais interessantes e de melhor papo. Os pratos são sempre grelhados, e o vinho é de produção local, marca Diabo, mas o principal é que todos se divertem, falando mal de Deus e todo o mundo. Mas, ultimamente, a questão de quem merece e quem não merece estar no inferno vem sendo muito discutida nos jantares, e as queixas dos que se acham injustiçados por estarem lá se multiplicam.

O diabo tenta cortar os lamurientos da sua lista de convidados, mas não pode prescindir da presença de Oscar Wilde, um dos seus comensais favoritos, apesar das suas constantes críticas à comida, à companhia e à ausência de ar-condicionado, e que foi quem primeiro expressou sua revolta. E o diabo já sabe que, em breve, estará enfrentando uma verdadeira rebelião de almas pedindo revisão de sentença e perdão retroativo. E que seus jantares nunca mais serão os mesmos.

Tudo começou quando Wilde, fazendo uma cara feia depois de provar o vinho, comentou como estavam se tornando comuns, na Terra, o casamento entre homosexuais.

— Eu fui preso, execrado e excomungado por ser homossexual — disse Wilde. — Se fosse hoje, em vez de condenado e exilado, eu poderia ser, sei lá, um conselheiro matrimonial. Não faz muito, a mesma Igreja Anglicana que me mandou para cá ordenou um bispo gay. O que é que eu estou fazendo aqui?

O diabo tentou mudar de assunto, mas Wilde continuou:

— Me transfira para o céu, D. Nada pessoal contra você, mas aposto que o vinho lá é melhor. Sem falar no clima.

Não adiantou o diabo argumentar que nem ele nem Deus são senhores dos tempos, que mudam, ou da justiça divina, que não tem apelação. Wilde só prometeu epigramas cada vez mais pesados, mas o diabo se prepara para a gritaria dos indignados do inferno.

Como os que foram mandados para o inferno por usura, no tempo em que era pecado. E — como gosta de lembrar o diabo, com um sorriso malicioso — a Igreja ainda não inventara o purgatório justamente para acomodar os usurários, pois, sem eles, não haveria empréstimo a juros, bancos e sistemas financeiros. Hoje a usura não só é o que faz o capitalismo rodar, como é o capitalismo financeiro que manda no mundo. E, principalmente, não é mais pecado, pois os juros não são mais uma abominação aos olhos do Senhor, e até a Igreja tem bancos. E os condenados por usura no inferno perguntam se não têm direito à mesma respeitabilidade conquistada pelos banqueiros, que hoje enriquecem em vida sem o risco das suas almas penarem na morte, e à absolvição.

Ou pelo menos a um upgrade para o purgatório.

Luís Fernando Veríssimo

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