9 de fev de 2017

Football

O futebol americano já foi descrito como rúgbi para moças. O rúgbi é mais violento do que o football e é jogado sem nenhuma proteção, em contraste com os capacetes, as máscaras de ferro e os outros protetores usados pelos americanos. A comparação é injusta: apesar de toda a proteção, há mais lesionados no football do que no rúgbi. É raro ver-se um jogador de rúgbi sendo atendido no campo, ou saindo de campo amparado, como é comum no football. Existe até um movimento para acabar com o football nos Estados Unidos, tantos são os casos de contusão cerebral de jogadores. Um movimento que, claro, não prosperará enquanto se repetirem espetáculos sensacionais como o do último Super Bowl.

A relativa ausência de mortos e feridos entre seus praticantes é um dos mistérios do rúgbi. O maior mistério, para mim, é a definição de falta num esporte em que, aparentemente, vale tudo. Dizem que num jogo de rúgbi, o juiz só apita falta se, além de derrubar, soquear e chutar um adversário, o jogador também insultar a sua mãe. No futebol americano também é difícil entender o que vale e o que não vale quando as linhas de ataque e defesa se chocam e se amontoam daquele jeito. Parece que, além de não insultar a mãe, não pode bolinar.

O “quarterback”, que comanda as ações do seu time, é uma espécie de idealização do homem americano, embora nem todos sejam bonitos e casados com a Gisele como o Tom Brady. Sua imagem é a de um intelectual orgânico, como o descreveria Gramsci se acompanhasse o football: um pensador arriscado a também ser derrubado, mas sem medo de se sujar com a vida. Nos combates medievais, um grito que ecoava com frequência quando as coisas se complicavam era “Protejam o rei!”. No football, também é assim: o time todo se mobiliza para proteger o rei. O rei é o “quarterback”. King Brady.

Curiosidades: os nomes de certos times de futebol americano têm ligação com a história ou a geografia dos lugares onde têm suas sedes. Os “Patriots” do Tom Brady têm este nome porque são da Nova Inglaterra, berço da guerra pela independência do país. Os “Seahawks” de Seattle se chamam Falcões do Mar porque Seattle é um importante porto no Pacífico. Já a explicação para o time de Baltimore se chamar “Ravens”, Corvos, é mais esotérica. Baltimore era a cidade de Edgar Allan Poe, cujo poema mais conhecido era O Corvo. Daí...

Luís Fernando Veríssimo

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