13 de fev de 2017

Empresa dos Estados Unidos pesquisa subsolo de cidades do Oeste catarinense

Foto feita no trecho da BR-282 nas proximidades de São Miguel do Oeste em 09/02/2017
Um comboio de caminhões vibradores nas principais rodovias do Oeste de Santa Catarina chama a atenção de moradores e motoristas e provoca curiosidade. No Paraná, porém, esses mesmos caminhões e o trabalho que realizam estão provocando protestos e aprovações de leis em várias cidades. As máquinas são de uma empresa dos Estados Unidos, a Global Geophysical Services, que foi contratada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), por R$ 74 milhões, para a aquisição de dados sísmicos na Bacia do Paraná, que compreende, no Brasil, o Centro-Sul. A pesquisa também foi feita em outros estados.

Os caminhões são equipados com instrumentos que provocam “vibrações”, terremotos induzidos que geram ondas que atravessam as rochas, retornam à superfície e são registradas para coleta de dados.

Ao contrário das garantias divulgadas pela ANP, a COESUS (Coalizão Não Fracking Brasil pelo Clima, Água e Vida) publicou artigo intitulado “Sete razões para você se preocupar com os testes sísmicos e a pesquisa da ANP” que deveria alertar as autoridades e a população catarinense. Além do impacto que os testes sísmicos provocam, o pior ainda pode estar por vir. A perfuração de poços para comprovar o real potencial das reservas tem uma tecnologia altamente poluente, consome grande quantidade de água e causa impactos ambientais, econômicos e sociais. E, se for comprovada a existência de gás de xisto, este impacto será ainda maior, porque pode contaminar o estratégico Sistema Aquífero Integrado Guarani/Serra Geral, que se localiza na Bacia do Paraná e abrange 1,1 milhão de quilômetros quadrados de uma área na qual vivem mais de 15 milhões de pessoas em 4 países da América do Sul. A exploração de gás de xisto nos Estados Unidos já provocou tantos estragos que virou até filme de Hollywood. Coloque nos sites de busca o seguinte: “filme xisto estados unidos”.

O Paraná foi o primeiro estado brasileiro a ter resultados para evitar mais esta ameaça ambiental, sancionando, em dezembro passado, a Lei 18.947/2016, que suspende o licenciamento para exploração do gás de xisto através do fraturamento hidráulico, método não convencional conhecido como fracking. As pesquisas sísmicas também estão suspensas e a população vai acionar o Ministério Público se os caminhões contratados pela ANP retornarem ao Paraná.

Na cidade paranaense de Toledo, prefeito, vereadores, lideranças políticas, religiosas, ambientais e climáticas, sindicatos de produtores rurais e de trabalhadores, empresários e toda a comunidade já foram às ruas diversas vezes para protestar e firmar posição contra o fraturamento hidráulico, como mostra notícia da COESUS.

A pesquisa na Bacia do Paraná faz parte do Plano Plurianual de Estudos de Geologia e Geofísica (PPA) da ANP. Segundo o site da Agência, é um programa de aquisição sistemática de dados geológicos e geofísicos para aumentar o conhecimento geológico das bacias sedimentares brasileiras e sobre o potencial petrolífero dessas áreas. Os projetos são financiados com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento do Governo Federal (PAC).

Diz um trecho do texto publicado no site da ANP:

“Os estudos ficam concentrados nas bacias terrestres de nova fronteira, que são áreas inexploradas e pouco conhecidas. Eles visam à redução do risco exploratório, à atração de investimentos estatais e privados, ao desenvolvimento regional, à descentralização dos investimentos em exploração e produção de hidrocarbonetos e à valoração dos ativos da União. Os projetos conduzidos pela Agência são altamente relevantes e estratégicos para o Brasil, pois têm como propósito incrementar e ampliar as bases energéticas brasileiras, essenciais para o desenvolvimento econômico do País, estando em perfeita sintonia e aderência com a política energética nacional de autossuficiência.”

Com o sistemático desmonte e privatização do Sistema Petrobrás, este discurso cai por terra, ainda mais quando não fica claro o modo de tratamento dos dados obtidos pela pesquisa feita pelos caminhões, que são de uma empresa com sede no Texas e Colorado (EUA).

Vale mencionar que as notícias da imprensa do Oeste de Santa Catarina sobre a pesquisa praticamente reproduziram informações da ANP, como mostram os links abaixo, ressaltando a possibilidade de investimentos, postos de trabalho e “riquezas para os municípios”.

É interessante comparar também a cobertura do G1 Santa Catarina e do Paraná. Enquanto a do Estado vizinho entrevista lideranças contrárias à exploração do gás de xisto e aponta seus perigos, a matéria do G1 SC ignora esta abordagem. E isto apesar de morar em Santa Catarina um dos mais importantes pesquisadores sobre o tema, o professor emérito da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Fernando Scheibe, que tem feito um grande combate em defesa do Aquífero Guarani. Veja entrevista com ele em:


Vale mencionar também que, no âmbito da Assembleia Legislativa de Santa Catarina existe o Fórum Permanente para Preservação do Aquífero Guarani e das Águas Superficiais. Portanto, material para uma notícia mais completa não falta.

Matérias de veículos do Oeste Catarinense:





Matérias do G1 de Santa Catarina e do Paraná:



Sete razões para você se preocupar com os testes sísmicos e a pesquisa da ANP


As mobilizações em Toledo, no Paraná:


No Desacato

Um comentário:

  1. Olá! Boa noite a todos os leitores/seguidores do "Contexto Livre"...
    Sintomático! Esta permissividade auto invasiva da ANP (Agência Nacional do Petróleo), e por extensão, á estadunidense Global Geophysical Services, só tornou-se possível, ante a covarde e traiçoeira política ¨entreguista¨, a que foi submetida a Soberania Nacional, após o infame GOLPE de ESTADO de 2016...
    Em tempo: - Se permitirem ao candidato derrotado "nas Presidenciais de 2014", assumir o comando da re-pública Vale do Rio Doce (pública de novo), ¨ele¨ vai acabar privatizando o Estado de Minas Gerais, ao "Capital Internacional Especulativo (&U@ ou U$@)"...

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