26 de fev de 2017

Com 'risco' de ampliar alvos, Lava Jato enrolou para prender lobista-mor

Jato lerdo é mais uma originalidade da produção nacional. Como o nome sugere, criada nos laboratórios da Lava Jato, que também deu (com a colaboração de peessedebistas) muitas provas da eficácia do invento. Sujeita, no entanto, a frequentes contestações. Todas, é verdade, relegadas ao descaso, que é a vala comum reservada aos argumentos e evidências inconvenientes ao poder. Por acaso ou por contingências incontornáveis, porém, a criação de repente se autodenuncia.

Detidos nos Estados Unidos, os brasileiros Jorge Luz e seu filho, Bruno Luz, entram na Lava Jato com rapidez, em relação ao pedido do juiz Sérgio Moro de que fossem localizados pela Interpol. Já a Lava Jato levou quase três anos até dar aos dois a atenção que trabalharam muito para merecer. Não é que fossem desconhecidos ou mal conhecidos dos coletores de delações. Bem ao contrário. Já o delator dos delatores, Paulo Roberto Costa, apontou-lhes o dedo ainda no início de sua nova e logo bem sucedida carreira.

Além disso, Jorge Luz tem dezenas de anos de serviço e de respeito no seu meio profissional, pela extensão da sua área de operações e pelo domínio das técnicas de sua especialidade –lobby e intermediação de negócios ilícitos. Em particular, nas fraudes em concorrências públicas. Jorge Luz – um nome fácil de guardar para sempre – está na ativa desde os tempos da ditadura.

Experiência e memória extensos demais para um plano de ação com jatos concentrados em área delimitada. Quem vem de longe passa pelos anos 80 e 90, não só pelos de 2000. Lembrança puxa lembrança, uma citação desavisada, um nome referido só como ilustração – e pronto, está extrapolada a delimitação. Um risco.

Jorge Luz e sua atividade baixaram ao limbo. Mesmo que, depois de Paulo Roberto, outros o mencionassem lá por 2014. Mas só em janeiro deste ano lhe chegaram sinais de perigo, levando-o ao encontro do filho já morador de Miami.

Jorge Luz não pôde escapar da Lava Jato. Mas a Lava Jato não pôde escapar de Jorge Luz.

Purezas

Além da embaralhada acusação de José Yunes, portador da credencial de "amigo de Temer", e da cirurgia que substitui o Carnaval pela próstata, o ministro Eliseu Padilha foi posto sob processo na Comissão de Ética da Presidência. Essa finalidade declarada no nome e a localização idem já se desentendem. Mas processar Padilha por dizer, em público, que uma pessoa eminente foi preterida, para ministro da Saúde, por necessidade de nomear alguém do PP – isso não é processo: é gaiatice. Primeiro, por ser público que os governos trocam ministérios por votos na Câmara e no Senado; depois, por que seria preferível uma resposta mentirosa?

O Supremo considerou nepotismo a nomeação, pelo prefeito Crivella, de seu filho para um cargo na Casa Civil.

Feita a primeira eleição direta de governadores, ainda na ditadura que começava a ruir, o admirável Franco Montoro nomeou um filho para o seu gabinete de governador paulista. Foi forte a reação de imprensa/TV. Até a última vez em que nos vimos, ele não esquecera que argumentei a favor da nomeação, afinal mantida.

Um parente sério, competente e responsável não pode ser depreciado por ser parente, o que em muitos casos nem escolheu.

Supô-lo mero aproveitador é injusto e insultuoso. Para quem nomeia, um auxiliar competente e de tamanha confiança está mais do que justificado.

A correção do exagero para um lado não é o exagero para o outro.

Janio de Freitas
No fAlha

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