1 de fev de 2017

A PF entre os almofadinhas e os policiais


O delegado Egor chegou à sede da Polícia Federal, um pouco chateado com o sucesso recém-conquistado do policial hipster, que saiu em várias reportagens de jornal. Afinal, a cara da Polícia Federal precisa ser o Delegado Yuppie, bem penteado, bem vestido, não um hipster qualquer que bota um rabo-de-cavalo e sai invadindo espaços, flashes, reportagens de jornal como um plebeu invadindo o castelo reservado à nobreza da PF.

Não, não podia perder a grande batalha depois de meses de trabalhos exaustivos, na grande disputa por uma tira nos jornais, um espaço nos online ou pela suprema glória de um minuto nos jornais televisivos. Não, não jogaria fora o esforço diária de pensar no tema mais manchetável, na barganha com o setorista, eu te passo um vazamento, você mais adiante me paga com uma manchete.

Por isso mesmo, lembrou da canção que o pai lhe cantava, levanta, sacode a poeira, dá a vota por cima, e foi com esse estado de espírito que escolheu o terno mais alinhado, a camisa engomada, com a marga de grife que ele selecionou no site modaparamacho.com, a gravata italiana que comprou em uma viagem internacional de cooperação, o coldre elegante Pistol Hoster, adquirido na Alibaba, pois detestava coldres vulgares, tipo Bope, e se preparou para o grande desafio do dia.

Chegou no escritório aparentando pressa, aquele jeito apressado e misterioso dos grandes detetives, como se estivesse permanentemente farejando a próxima pista. Tomou um café Nespresso e, antes de sentar na poltrona,  se preparou como quem vai para a guerra, vestiu o blusão cáqui sobre a camisa e a gravata italiana, o que lhe deu um ar blasé aventureiro dos grandes secretas, olhou de soslaio a imagem refletida no monitor e, seguindo o exemplo da autoconfiança dos times de vôlei antes das grandes batalhas (que ele aprendera na ESPN) encarou a imagem refletida no monitor e gritou esmurrando o ar com o punho fechado.

- Dá-lhe, Tom Cruise!

E deu início ao ritual diário.

No e-mail privativo da PF recebeu a informação sobre um novo nome que surgira nas delações: o professor Camarosano, ao que parece vidente e astrólogo.

Imediatamente, tomou as providências de praxe.

Investigador atilado, primeiro se logou no banco de dados da COAF, para saber se havia alguma movimentação estranha em nome de Camarosano.  Depois, no servidor da Receita, para conferir suas declarações de renda.  Na sequencia, olhou em volta para se prevenir de eventuais atos terroristas e avançou sobre o banco de dados eleitoral, para pegar seu endereço.  No Banco Central, levantou os gastos com cartão de crédito e as contas de previdência do misterioso Camarosano.

Depois imprimiu tudo, bateu o carimbo e passou para a frente. E aproveitou para dar uma passadinha pelo Facebook e mandar um sinal de positivo para as fãs.

Terminava assim, mais um dia de trabalho heroico e estafante do Delegado Egor, similar ao dia anterior, ao trasantonte, como se dizia nos seus tempos de classe média baixa, antes de se tornar personagem global. Como ele não é acomodado, também desenvolveu uma boa técnica de pesquisar o Google e o Facebook.

Vez ou outra, a rotinha era quebrada por ação. Algumas diligências espalhafatosas em locais sem risco, busca, apreensão e condução coercitiva de pessoas que não resistiam. E, depois, correr para o abraço na frente das câmeras.

A parte efetivamente difícil da empreitada era escolher um tema que lhe garantisse um bom espaço em entrevistas na mídia. O último repórter que o procurou mostrou-se mais exigente que procurador em delação premiada: só o entrevistaria se ele fizesse afirmações de maior impacto que a entrevista do delegado anterior.

- Se não me fornece o lide, não tem conversa – lhe disse o repórter, definitivo como um procurador da Lava Jato.

Residia ali o maior desafio do Delegado Egor: como transformar consultas a bancos de dados em episódios heroicos? Certamente não daria manchete a cena dele invadindo a casa do suspeito, entrando no quarto do casal e fuçando na penteadeira da esposa. Nem inserindo sua senha no banco de dados da COAF, apesar do tom épico que imprimia ao gesto de apertar a tecla ENTER. Afinal, todo o treinamento para dar o ENTER no banco de dados do COAF não tinha apelo televisivo.

Passou o dia ensimesmado, pensando no que poderia oferecer ao repórter. Os colegas, ao lado, percebiam seu ar preocupado e imaginavam o que estaria trabalhando o Delegado Egor, qual estratégia fantástica estaria nos seus planos?

Os delegados presenciais

O Delegado Egor, personagem de ficção obviamente, hoje em dia se tornou a cara da PF. E aí se comete uma enorme injustiça para com a corporação. A PF não são os delegados simulacros de yuppies, com seu exibicionismo vulgar, tornando-se literalmente um herói de quadrinhos, que só corre riscos virtuais e jamais encara os perigos reais que os delegados e agentes de verdade acostumaram-se a correr.

São homens que não foram forjados na linha de frente do combate ao crime. Antigamente, mesmo o pessoal da inteligência da PF recebia ensinamentos dos policiais da linha de frente, para atuar em todas as áreas e, em alguns momentos, corriam risco efetivo de vida.

Compare-se esse pesquisador de bancos de dados almofadinha com as verdadeiras lendas da PF, como o delegado aposentado Antônio Celso, o homem que desvendou o golpe do assalto ao cofre do Banco Central em Fortaleza.

O planejamento da operação deixaria no chinelo feitos como o assalto ao trem pagador brasileiro, ou o assalto ao trem pagador inglês, cometido por Ronald Bigs, e considerado até então o roubo do século – levou US$ 4,2 milhões, em dólares da época (1963).

Em Fortaleza, os assaltantes cavaram túneis, tiraram R$ 164,7 milhões dos cofres do banco e sumiram na poeira, deixando a polícia embasbacada (https://goo.gl/Io05sz).

A quadrilha foi montada com a convocação de vários grupos de marginais, dos altamente perigosos, pertencentes ao PCC, aos de baixa periculosidade.

De Fortaleza foram para o Paraguai, montaram assalto semelhante, foram pegos, mas conseguiram um acerto com a polícia. Mesmo saindo ilesos, deixaram pistas que a PF tratou de seguir.

Durante um ano o delegado Antônio Celso monitorou a quadrilha e descobriu que planejavam um grande assalto em Porto Alegre. O planejamento do assalto parecia roteiro de filme hollywoodiano.

Primeiro, compraram um prédio no centro de Porto Alegre, leiloado pelo INSS, depois de retomado de um devedor. Criaram uma empresa de prestação de serviços, especializada em reformas de imóvel. Colocaram na empresa todos os fichas limpas que faziam parte da quadrilha.

A empresa ocupou o prédio, simulou reforma-lo, colocou caçambas enormes na frente. Todo dia cavavam o túnel em direção à agência de um banco e despejavam os detritos nas caçambas. Havia estrito controle de todo mundo que entrava no prédio.

Como o prédio ficava em região de muitas agências bancárias, a ambição falou mais alto e decidiram abrir um ramal no túnel, em direção a um segundo banco. Foi ali que o monitoramento os alcançou.

Trabalhavam todos os dias, fim de semana, feriado. E a PF monitorando.

Na semana decisiva, o delegado Antônio Celso instalou duas câmeras para permitir que o então delegado-geral da PF, Paulo Lacerda, pudesse acompanhar todos os detalhes da operação.

O prédio ficava de frente para o porto. Uma das câmras ficou em uma sala no porto er a outra em um prédio em frente, onda a PF alugou uma sala estrategicamente colocada.

Os assaltantes até então não usavam armas. As armas só viriam no dia decisivo. A força tarefa da PF já tinha em seus radares o grupo de São Paulo que levaria as armas para o dia do assalto. A quadrilha teria que ser detida antes de pegar os armamentos.

Definiriam que a operação seria deflagrada dois dias antes da chegada das armas.

Antes das 6 da manhã os monitores da PF em Brasília já mostravam a operação em Porto Alegre. Às 6:30 chegou o ônibus do Comando de Operações Táticas da PF. Quinze minutos depois, Antônio Celso telefona para Paulo Lacerda, que o vê falando ao telefone com ele próprio. No chão, 33 assaltantes algemados, sem que se tivesse disparado um só tiro.

Pergunto, dá para comparar com os delegados online? É evidente que não.

Portanto, não cometa a injustiça de considerar que a PF são os almofadinhas. Há grandes servidores públicos, policiais e agentes efetivamente treinados na arte de investigar e não no trabalho burocrático de cruzar bancos de dados, se exibir no Facebook e candidatar-se a celebridade da mídia.

Luís Nassif
No GGN

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