14 de jan de 2017

Uma seleção de craques progressistas

Certa vez, Reinaldo, ex-atacante e ídolo do AtléticoMG, declarou em entrevista concedida à Revista Placar que “o futebol sempre foi um meio reacionário”. E continua sendo até os dias atuais.

Recentemente, nas últimas eleições presidenciais, Ronaldo Fenômeno e Neymar, dois dos principais atacantes da história da seleção brasileira, manifestaram explicitamente o seu apoio ao candidato conservador Aécio Neves (PSDB-MG). Outro dianteiro que também fez história vestindo a “amarelinha”, Romário (PSB-RJ), foi mais além e elegeu-se senador para defender medidas reacionárias. Até Pelé, o melhor de todos os tempos, chegou a ser garoto propaganda do ditador militar Emílio Médici e teve seu nome vinculado a um projeto educacional de seu governo, o Plano Pelé para a Educação.


Mas, se a escuridão é vasta, mais as estrelas brilham e se destacam. Sendo assim, selecionamos um timaço extremamente politizado, cujo posicionamento destoa do pensamento dominante dessa classe ultraconservadora.

1 – Fernando Prass


Em uma partida, válida pelo Campeonato Brasileiro de 2016, entre Flamengo e Palmeiras, ocorreu um conflito entre torcidas, mais uma vez violentamente reprimido pela PM dentro do estádio. O uso de gás de pimenta feito pelos policiais chegou a atingir os jogadores dentro do campo, o que causou revolta de parte deles que se manifestaram com declarações na saída do campo. Fernando Prass, goleiro do Palmeiras e convocado para defender a seleção nas últimas Olímpiadas, foi além em suas críticas e, ao ser questionado em rede nacional, mexeu em uma ferida que seguramente a emissora conservadora Rede Globo não esperava transmitir ao vivo:
“Não é o futebol. É o nosso país que está assim. A gente viu o que aconteceu há uma semana, no Rio de Janeiro, com a menina, aconteceu agora em São Paulo, com o garoto de 10 anos. Isso é o fim do país, uma criança de 10 anos ser morta pela polícia, independente da versão. Ela estando armada ou não. Na verdade, não sei qual é a pior.”


2 – Cafu


Marcos Evangelista de Morais, o Cafu, foi um dos maiores laterais direitos da história. Fez parte das equipes vencedoras das Copas do Mundo de 1994 e 2002, sendo ele o capitão do Penta. Jogou também nas copas de 1998 e 2006. Hoje, o ex-jogador toca a Fundação Cafu, que se define como uma “entidade sem fins lucrativos, geradora de oportunidades de desenvolvimento que atua no combate à desigualdade social”.

No ano passado, em participação no programa “Boa Noite FOX” do canal fechado Fox Sports, Cafu aproveitou para dar seu recado em solidariedade aos estudantes da Universidade de São Paulo, em greve, e ainda defendeu as cotas sociais.

“Estão dizendo que os alunos são vândalos, são baderneiros, pelo contrário. Os alunos da USP estão lutando pelo direito de igualdade, pelo direito de cota racial, cota social, direito de igualdade de grandes funcionários, professores gabaritados que estão sendo mandados embora e não estão colocando os professores à altura para que nosso ensino possa ser melhor.

Acabaram com a cota do HU da USP, estão eliminando os dormitórios para os alunos que vêm de fora”, denunciou.

Na TV, ele ainda cobrou do governo maior atenção às reivindicações dos estudantes e destacou que a universidade “é do povo”.

“Acho que tem que levar em consideração o que esses meninos estão reivindicando. Não são baderneiros, não são bagunceiros, estão reivindicando aquilo que é deles. A USP é do povo. E o povo merece ter um ensino adequado. A USP era uma de nossas maiores referências. E tem que continuar sendo uma das maiores referências no ensino brasileiro. Vocês que têm o poder deem uma olhada melhor o que está acontecendo lá na USP”, concluiu.

3 – Carlos Alberto Torres


Lateral-direito detentor de forte poder de marcação, a ponto de poder ter atuado, já como veterano, na zaga – posição na qual é escalado em nosso time -, Carlos Alberto Torres foi eternizado na conquista do tricampeonato mundial na Copa do Mundo de 1970 no México – quando foi capitão da seleção – sendo um dos símbolos do clássico futebol brasileiro.

Falecido no ano passado, aos 72 anos, vítima de um enfarto fulminante, o “Capita”, como também é conhecido, era filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT) de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro. Foi vereador de 1989 a 1993, ocupando a vice-presidência e a primeira secretaria da Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, e em 2008 chegou a tentar uma vaga para vice-prefeito da capital fluminense, na chapa de Paulo Ramos – à época no PDT, hoje no PSOL – porém não se elegendo.

4 – Wladimir


Considerado por muitos como o melhor lateral-esquerdo da história do Corinthians, Wladimir Rodrigues dos Santos será improvisado na zaga nesta seleção.

Em 1982, o politizado Wladimir foi um dos líderes da Democracia Corinthiana, um movimento cujo objetivo era revolucionar o futebol brasileiro e permitir que os jogadores participassem de todas as decisões técnicas (os jogadores votavam se queriam ir para a concentração ou não, por exemplo), em plena ditadura militar. Tal mobilização causou muitas controvérsias, mesmo com o time conseguindo ser campeão paulista daquele ano. No entanto, mais importante que o regimento do próprio Corinthians naquele período foi a forma como o time usou isso para externar o engajamento na luta pela redemocratização no país.

5 – Sorín


Completando a linha de defesa, aparece o primeiro gringo da lista: o lateral-esquerdo argentino Sorín.

O ex-jogador da seleção argentina e do Cruzeiro manifestou seu apoio ao movimento dos estudantes das escolas estaduais paulistas, o Ocupa Escola, contra as medidas da reorganização propostas pelo governo de Geraldo Alckmin, assim como o nosso lateral oposto Cafu.

“Sou Juan Pablo Sorín, jogador de futebol, comentarista. Me formei na escola pública na Argentina. E a partir de agora, a escola nunca mais será a mesma. Espero que o mundo do futebol, através de vídeos, das manifestações, apoiem vocês”, disse Sorín, em vídeo divulgado no seu Twiter.

6 – Sócrates


Médico e futebolista, Sócrates Sampaio de Souza Vieira de Oliveira, mais conhecido como Sócrates e também referido como Dr. Sócrates, Dr. ou Magrão, é um dos maiores do futebol mundial.

Ídolo do Corinthians que fez parte da memorável seleção canarinho de 1982, foi um dos principais idealizadores do movimento Democracia Corintiana, ao lado do já citado Wladimir, e participou da campanha Diretas Já que reivindicava eleições diretas e o fim da regime militar. Por suas atividades e opiniões políticas, chegou a ser “fichado” pela ditadura que oprimia o Brasil na época, juntamente com seu colega de equipe e grande amigo, Casagrande.


Durante sua segunda internação, em 2011, Sócrates declarou que gostaria de trabalhar com o presidente venezuelano Hugo Chávez em projetos sociais ligados ao esporte.

Também foi articulista da revista Carta Capital e batizou um de seus filhos como Fidel Brasileiro, em homenagem ao dirigente cubano (que muitos se referem como ditador) Fidel Castro (para saber mais sobre Fidel, leia 12 fatos sobre ele aqui), do qual era admirador.



7- Afonsinho


Afonsinho é considerado por muitos como um verdadeiro pioneiro na conquista dos direitos dos atletas no Brasil. Em um certo dia de 1971, no auge da tensão repressora do regime militar, o meia teve a combinação de barba e cabelos compridos considerada como “subversiva” por seu clube. O jogador do Botafogo então se recusou a adaptar o visual e foi impedido de atuar pela diretoria. Assim, resolveu ir à Justiça para se tornar o primeiro atleta do país a conquistar o passe livre, instantaneamente virando um emblema de liberdade, um ícone para a resistência da esquerda.

Após a morte de Sócrates, o primeiro futebolista emancipado do Brasil substituiu-o como colunista da Carta Capital.

8- Petkovic


Ídolo da torcida do Flamengo, Dejan Petkovic, ou simplesmente Pet, nasceu no ano de 1972, em Majdanpek, um pequeno município da antiga Iugoslávia, localizado na República Socialista da Sérvia, perto da fronteira com a Romênia. Na época de seu nascimento, o líder iugoslavo ainda era o Marechal Josip Broz Tito, que em 1945, junto dos partisans (guerrilheiros), livrou o país das garras do fascismo durante a segunda guerra, em seguida proclamando-o socialista.

Por isso, Pet nunca hesitou em defender o regime titoísta, frente à propaganda negativa da mídia tradicional conservadora, sempre quando teve oportunidade.



Pelo visto, os relatos que Petkovic faz sobre seu país no período socialista, não agrada muito a mídia, que já chegou a interromper uma entrevista com ele ao vivo por conta disso:



9- Maradona


Dentro das 4 linhas, Diego Armando Maradona foi o maior jogador da história do futebol argentino e um dos maiores de todos os tempos no âmbito mundial. Fora delas, o craque é mais conhecido pelos seus problemas acerca da dependência química.

No entanto, não só de polêmicas é feita a vida pessoal de Maradona. Extremamente politizado, ele manifesta suas posturas quase como um ativista – e com um êxtase que também caracterizou seu estilo como jogador.

Desde o ano 2000 até 2004, o ex-astro realizou um tratamento contra a dependência das drogas em Cuba. Daí em diante, o ex-jogador transformou-se em um ferrenho defensor do regime castrista. Maradona tatuou a efígie do argentino e ex-líder guerrilheiro ErnestoCheGuevara, além de também ostentar, em sua panturrilha esquerda, a imagem de Fidel Castro – falecido no fim de 2016 – o qual considerava como um segundo pai.


Em 2005, esteve ao lado de Kirchner, Chávez, Lula e Evo, quando estes disseram, na cara de George W. Bush, que a América do Sul rejeitava a ALCA. O transgressor Diego chama os Estados Unidos de “ianques imperialistas”.

No ano passado, após a admissibilidade do processo de impeachment no Senado e o afastamento da presidente Dilma Rousseff, o argentino publicou uma foto em seu perfil do Facebook segurando uma camisa da seleção brasileira com o nome de Lula e o número 18, o que pode ser uma referência às eleições presidenciais de 2018 e, ainda, afirmou ser “um soldado de Lula e Dilma”.

Também foi amigo de Hugo Chávez e jogou bola com Evo Morales no topo de uma montanha, a seis mil metros de altura, quando a FIFA tentou proibir os jogos na altitude. Tornou-se o futebolista-símbolo do bolivarianismo e fala da “pátria grande” com a mesma ênfase usada pelos presidentes da região.

Na Argentina, defende enfaticamente o kirchnerismo e a polêmica Ley de Medios.

10- Éric Cantona


Explosivo e e habilidoso, o francês Cantona foi eleito (pelos próprios torcedores do clube) o melhor jogador da história do Manchester United. Mas, ainda assim, o ex-craque será sempre lembrado, também, por suas polêmicas. Uma das mais famosas é sua voadora seguida de socos em um torcedor do Crystal Palace no Selhurst Park em 1995.

A vitíma foi Matthew Simmons, um hooligan – torcedor que vai ao estádio para agredir torcedores rivais. O astro bad boy reagiu a provocação de Simmons que da arquibancada dizia aos berros: “Volte para a França com a vagabunda da sua mãe, seu francês de merda”.


Mais recentemente, o ex-jogador e agora ator, garantiu em uma entrevista que está disposto a alojar refugiados em sua casa e ainda pediu que cada compatriota faça o mesmo, para ajudar a população que chega diariamente à Europa.

Antes disso, em 2010, Cantona também havia feito um apelo para que todos seus compatriotas retirassem dinheiro dos bancos, como forma de protesto contra o sistema financeiro.



11- Reinaldo


Dos grandes atacantes da história do futebol brasileiro, José Reinaldo de Lima é o único que ousou assumir um posicionamento político diferenciado. O maior ídolo do Atlético-MG defendia abertamente a queda da ditadura, o retorno da democracia e, numa época de preconceitos contra tudo, peitou a todos ao defender sua amizade com o radialista Tutti Maravilha, declaradamente homossexual.

Reinaldo também comemorava seus gols com o punho erguido, imitando o gesto do grupo Panteras Negras que lutava pelos direitos civis dos negros nos EUA, o que provocara a ira dos chefes militares que comandavam o país na época.

Técnico: João Saldanha


Para comandar uma constelação subversiva, é necessário o pulso firme de um “João Sem Medo”. Filiado ao PCB, Saldanha foi assistente político do grupo que conduziu a guerrilha camponesa do Porecatu, no Paraná, em sua fase mais dedicada da militância no partido.

Em 1957, o Botafogo o convidou para técnico. Ele não tinha experiência, no entanto isso não o impediu que conseguisse tornar o clube vitorioso do campeonato estadual. O título credenciou João Saldanha a assumir o comando da seleção brasileira após o fiasco da Copa de 1966.

Quando Saldanha foi convocado, o Brasil vivia sob ditadura militar, durante a era do general Artur da Costa e Silva, que mantinha uma fachada “democrática”. Contudo 1968 foi um ano de grandes mobilizações de massa, especialmente do movimento estudantil, e, em dezembro, veio o AI-5, o golpe dentro do golpe.

Em agosto de 1969, Costa e Silva, considerado da ala moderada das Forças Armadas, adoece. Assume uma Junta Militar e, a seguir, é nomeado para a chefia da Ditadura o general Emílio Garrastazu Médici. Este não simpatizava com um comunista dirigindo a Seleção, especialmente quando convocou a CBD para uma reunião, e João Saldanha não compareceu. Ele justificou:
“…Eu não teria prazer em apertar a mão de um homem que tinha matado vários amigos meus. Não sei se foi ele quem mandou ou deixou. O caso é que, coincidentemente, trezentos e tantos morreram naquele Governo, o mais assassino da História do Brasil”.
No dia que Médici resolveu fazer um comentário, dizendo que gostaria de ver Dadá Maravilha — limitado centroavante do Atlético Mineiro — na seleção, Saldanha não fez por menos:
O general nunca me ouviu quando escalou o seu Ministério. Por que, diabos, teria eu que ouvi-lo agora?
Após ‘peitar’ Médici e não convocar Dario para Copa de 70, João Saldanha foi destituído do cargo de treinador da seleção.

Luan Toja
No Voyager

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