19 de jan de 2017

Procuradora diz que policiais federais não devem criticar Lava Jato na mídia


A procuradora da República Thaméa Danelon, integrante do Núcleo de Combate à Corrupção do Ministério Público de São Paulo, disse em entrevista à Folha desta quinta (19) que membros da Polícia Federal que estão chateados ou possuem denúncias contra a força-tarefa do Ministério Público Federal que atua na Lava Jato deveriam se reportar a órgãos de investigação internos, e não expor as rixas na imprensa.

Danelon disse isso ao responder uma pergunta da Folha sobre uma reportagem do delegado Maurício Grillo à Veja, alegando que os procuradores mandaram a PF investigar uma série de denúncias feitas a partir de delações de políticos, sem provas.

"Se ele acha de fato que foi uso político, ele tem que tomar as providências cabíveis. Se ele realmente acha isso, ele tem que comunicar as instâncias correcionais. Mas em hipótese nenhuma qualquer ato é praticado por cunho político. É uma instituição independente, autônoma, temos uma chefia escolhida pela própria classe. Então, se ele acha que tem alguma coisa errada, ele não deve procurar a imprensa, ele tem que procurar os órgãos correcionais", rebateu a procuradora.

A finalidade da entrevista de Danelon à Folha parece exatamente este, o de pedir que a Polícia Federal recolhe as armas e pare de evidenciar uma crise institucional. 

A procuradora disse que a PF não deveria se sentir menosprezada por ter ficado de fora das delações da Odebrecht. Para ela, "quanto menos gente participando num ato sigiloso, melhor. Menos possibilidade de vazamento vai ter."

Depois, explicou que a PF não deveria ter interesse em participar das delações porque, nesta fase, apenas os procuradores da República têm condições de oferecer vantagens aos delatores. "A Polícia Federal fez um trabalho extraordinário na Lava Jato e em outras situações. Mas vou te fazer uma pergunta: por que a polícia quer tanto participar de um acordo de colaboração? E por que a Receita Federal não quis participar? Por que a CGU (Controladoria-Geral da União) não quer participar? A gente tem que ver qual é a necessidade. Qual o objetivo do acordo de delação premiada? É obter provas, quanto mais provas, melhor. A PF tem interesse de obter provas? Sim, claro, o trabalho da PF é esse: investigar e coletar provas, realizar a diligências e as medidas cautelares."

E continuou: "Agora veja, no acordo de colaboração premiada, se por um lado o objetivo dos órgãos de investigação é obter provas, por outro lado, o do colaborador é obter benefícios. E quem pode oferecer benefícios? O titular da ação penal. Um dos benefícios a serem oferecidos é esperar meses até oferecer a ação penal. Quem oferece uma ação criminal, uma denúncia, é o ministério público federal. A polícia não poderia prometer isso. Outro benefício, como por exemplo, que a pessoa cumpra um determinado período de tempo na prisão. Quem vai decidir isso é o juiz ouvindo o Ministério Público."

Danelon também tentou jogar panos quentes e disse que a disputa entre PF e procuradores na Lava Jato é algo de caráter pessoal, não institucional.

"Algumas pessoas falam que tem rivalidade entre agentes e delegados da Polícia Federal. E que alguns delegados teriam com o MPF. Assim, a eventual existência de rixa não é institucional. É entre pessoas, né? Uma pessoa pode não concordar com o trabalho da outra e criticar o trabalho da outra. Eu acho errado isso. As instituições têm que se unir. Nenhum procurador ou promotor quando quer investigar quer presidir o inquérito policial. Ninguém quer usurpar a função do outro, só quer cumprir o seu papel."

E voltou a dizer, em seguida, que "não é agradável" a PF criticar o MPF até mesmo com o projeto das dez medidas contra a corrupção, por exemplo. "Eu não concordo. Eu penso que a gente tem que se unir. Nós não temos que brigar entre nós, mas contra o crime, contra o corrupto, contra o traficante."

A entrevista completa está disponível aqui.

No GGN

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