12 de jan de 2017

O verdadeiro objetivo do relatório do governo dos EUA sobre suposto hacking pelos russos


Algumas ideias sobre "Campanha da Rússia para influenciar as eleições presidenciais de 2016 nos EUA" [ing. "Russia's Influence Campaign Targeting the 2016 US Presidential Election"] relatório não sigiloso recentemente divulgado pelo Gabinete do Diretor da Inteligência Nacional. Clique aqui para abrir o relatório [ing.]

1. O objetivo básico do relatório cujo sigilo acaba de ser levantado, e que não oferece nem vestígio de prova que confirme o que ali se lê, que a Rússia teria hackeado a campanha presidencial nos EUA, é desacreditar Donald Trump.

Não estou dizendo que não houve hacking dos
e-mails de John Podesta. Estou dizendo que até agora não apareceu nem vestígio de prova material que confirme a acusação. Essa acusação – o sen. John McCain declarou que o suposto esforço dos russos seria ato de guerra – é o primeiro disparo no que será campanha incansável, puxada pelos establishments Republicano e Democrata, com respectivos grandes empresários aliados e jornais e televisões da mídia de massas, para destruir a credibilidade do presidente eleito e preparar o caminho para o impeachment.

As acusações que se leem no relatório, amplificadas em 'comentários', 'opiniões' e 'declarações' 'repercutidas' por uma mídia-empresa que opera num universo criado por ela, que nada tem a ver com fatos, tão terrivelmente pernicioso como o outro universo paralelo no qual Trump vive, estão concebidas para mostrar Trump no papel de idiota útil a serviço de Vladimir Putin. Trump será alvo de uma campanha orquestrada e sustentada de calúnias e assassinato de caráter. Quando o impeachment for afinal proposto, Trump já não terá qualquer apoio público e quase nenhum aliado e terá sido já convertido em figura abertamente ridícula nos/pelos veículos da mídia-empresa.

2. O segundo objetivo do Relatório é ampliar a campanha McCarthyista de difamação contra veículos da mídia independente, entre os quais nosso Truthdig, apresentando-nos como agentes conscientes ou 'teleguiados' do governo russo. A proibição das emissões em inglês de Al-Jazeera e TeleSur, ao lado do colapso do rádio público de alcance nacional criado para dar voz aos não integrados às redes de interesses das empresas de mídia e dos partidos políticos, deixa RT America e Democracy Now! de Amy Goodman como os dois únicos veículos com alcance nacional que ainda oferecem uma plataforma para críticos do poder político das grandes empresas e do imperialismo, como Julian Assange, Edward Snowden, Chelsea Manning, Ralph Nader, Medea Benjamin, Cornel West, Kshama Sawant, eu e tantos outros.

Sete páginas do relatório são dedicadas a RT America, canal onde apresento meu programa, "On Contact." O relatório infla muito o alcance e a influência dessa rede de TV por cabo. Também inclui alguns erros flagrantes, dentre os quais a declaração de que "RT passou a apresentar dois novos programas 'Breaking the Set' dia 4/9 e 'Truthseeker' dia 2/11 – ambos dedicados a criticar os EUA e governos ocidentais, e a promover o radicalismo das manifestações de desacordo." "Breaking the Set," com Abby Martin, saiu do ar há dois anos. De modo algum teria 'causado' a derrota de Hillary Clinton.

A mal disfarçada fúria do Diretor da Inteligência Nacional James Clapper na recente audiência na Comissão de Serviços Armados do Senado sobre ameaças de ciberataques foi ainda mais acintosa quando acusou RT de estar "promovendo um específico ponto de vista, atacando nosso sistema, o que chama de nossa hipocrisia quanto aos direitos humanos, etc." Essa fúria é pequena amostra do ódio que dissidentes provocam no establishment. Clapper já mentiu antes. Em março de 2013 cometeu perjúrio quando, três meses antes de Snowden revelar a extensão universal da vigilância pelo Estado nos EUA contra os cidadãos norte-americanos, Clapper jurou perante o Congresso que a Agência de Segurança Nacional não coletava "qualquer tipo de dados" dos cidadãos norte-americanos. Depois de o estado tomado por empresários fechar RT, Clapper sairá à caça de Democracy Now! e de um punhado de sites progressistas, inclusive esse nosso, que garante voz a opiniões dissidentes. Até a censura total contra todos.

3. O terceiro objetivo do relatório é oferecer alguma justificativa para expandirem a Organização do Tratado do Atlântico Norte para além da Alemanha – violação da promessa que Ronald Reagan fez a Mikhail Gorbachev da União Soviética, depois de derrubado o Muro de Berlin. Expandir a OTAN para a Europa Oriental abre todo um novo mercado para a indústria da guerra. Novos membros da OTAN têm de comprar armas ocidentais a serem incorporadas ao arsenal da OTAN. Essas vendas, que estão dessangrando os apertados orçamentos nacionais de países como a Polônia, são 'explicadas' pelo 'alto risco' de futuro confronto contra a Rússia. Se a Rússia não for 'uma ameaça', as vendas de armas desabam. Guerra é ferramenta.

4. O objetivo final do relatório é dar ao Partido Democrata 'cobertura' plausível pela catastrófica derrota eleitoral que sofreu. Clinton começou por
culpar o diretor do FBI James Comey pela derrota. Na sequência, trocou-o pelo muito mais facilmente demonizável Putin. A acusação de que russos teriam interferido nada é além da premissa absurda de que centenas de milhares de apoiadores de Clinton teriam repentinamente decidido votar em Trump ao ler os e-mails vazados de Podesta. Isso ou, então, sintonizaram o canal RT America e imediatamente decidiram votar no Partido Verde.

O Partido Democrata não é capaz de encarar, e com certeza não pode admitir publicamente, que sua traição doentia contra a classe trabalhadora e as classes médias nos EUA desencadeou a ampla e profunda revolta em todo o país, que resultou na eleição de Trump. Já estava em andamento desde que o presidente Barack Obama assumiu, perdendo 68 assentos na Câmara, 12 assentos no Senado e 10 governos estaduais. Obama perdeu mais de 1.000 postos eleitos em todo o país, entre 2008 e 2012. Desde 2010, os Republicanos tomaram os lugares de 900 deputados estaduais Democratas. Se fosse Partido sério e real, toda a liderança teria sido descartada pelo próprio Partido. Mas os Democratas não são partido político. São cobertura para candidatos eleitos por grandes empresas e pela mídia frenética, ofegantemente antidemocrática.

Partido Democrata precisa manter a ficção de liberalismo e democratismo, assim como o Partido Republicano precisa manter a ficção de conservadorismo e democratismo. Mas nem são dois partidos: são um mesmo partido – partido dos empresários. Esse pessoal sempre trabalhará orquestradamente, como se viu na aliança entre líderes Republicanos como McCain, e líderes Democratas como Chuck Schumer, para derrubar Trump, silenciar qualquer dissidência, enriquecer a indústria da guerra e promover a farsa que todos eles chamam de "democracia".

Chris Hedges,
No Truthdig

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