8 de jan de 2017

Massacres expressam a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam

As matanças nos presídios de Manaus e Boa Vista não refletem apenas o criminoso sistema carcerário e as indiferenças perversas das classes média e alta, que servem de anteparo para a omissão dos governos em seus deveres penais. As explosões da violência encarcerada, crescentes em frequência e em Estados atingidos, expressam também a realidade mal conhecida de perigos que nos rondam a todos.

Degolados e degoladores, outros assassinados e outros assassinos, que hoje nos horrorizam, até há pouco estavam entre nós. Há estimativas de quantos estão nos presídios, quantos são os prováveis presos de tal ou qual facção — mas quantos entre nós? Os presos integrantes do PCC, do CV e de outras iniciais não são mais do que amostras, não só numérica, de uma força que se desconhece. E, para sorte geral, talvez ainda desconheça a si mesma.

O PCC e o CV expandem-se pelo país. Paulistas do PCC infiltram-se no Rio do CV para dominar os serviços de favelas, como está constatado na Rocinha. Há sinais de presença das duas facções já além-fronteira, na Bolívia, no Paraguai e no Peru. Dão assim uma ideia, a única, da dimensão que têm.

Com incontáveis milhares de jovens disponíveis, na marginalidade e no desemprego, para mais arregimentação. Seu arsenal, soube-se pela perícia de uma ação nas primeiras terras bolivianas, entrou no nível das metralhadoras pesadas, armas de guerra.

O MST lembra, na internet, uma ponderação de Darcy Ribeiro em 1982: "Se não construirmos escolas agora, daqui a 20 anos faltará dinheiro para construir os presídios necessários". PCC, CV e outras, por sua dimensão, não são mais aprisionáveis.

As facções cuidam de tráficos e do domínio das áreas chamadas "de baixa renda" (como se salário mínimo e desemprego fossem renda). E deixam por sua conta de cidadã ou cidadão algumas reflexões sobre o que será se, um dia, as facções quiserem mais do que tráfico e domínio de áreas humildes. Afinal, força é poder

Uma fria

Prova, até o momento em que escrevo, nem mesmo o relatório oficial de acusações à Rússia mencionou. Ou, primeira hipótese, Obama e os democratas intensificam as afirmações de interferência russa contra a candidata Hillary Clinton para, próximo da posse, tentar sustá-la; ou, segunda hipótese, mais fraca, tentam um desarranjo com a Rússia capaz de comprometer as boas relações de Trump e Putin.

De repente, fica-se sob o risco mais inesperável: torcer por Trump. Se vitoriosos nessa segunda disputa, os democratas reabrem a Guerra Fria, como prenunciam com o retorno à velha linguagem.

Mas não se ganharia muito: Trump traz o risco de criar a sua Guerra Fria — com a China.

Qualquer que seja o desfecho, a América Latina estará, outra vez, na primeira fila dos prejudicados.

De volta

O financiamento do BNDES à obra de uma empreiteira brasileira em Honduras foi parte do escarcéu originado na Lava Jato, para acusar Lula de favorecimentos pela participação do banco.

Às vésperas de completar-se o oitavo mês de suspensão daquele financiamento e da exportação de serviços de engenharia, o BNDES volta a financiar a obra em Honduras e reabre a carteira para esses negócios.

A suspensão seguiu-se ao afastamento de Dilma da Presidência, em maio, antes do processo de impeachment.

Foi mais um farto conjunto de prejuízos causados pelos escândalos de "vazamentos" seletivos da Lava Jato e da falsa moralização propalada por Michel Temer. Ninguém pagará por esses e pelos muitos outros danos desnecessários.

Janio de Freitas
No fAlha

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.