12 de jan de 2017

Alusões

O discurso da Meryl Streep foi o mais contundente, mas a cerimônia de entrega dos prêmios Golden Globe esteve cheia de referências à eleição de Donald Trump e ao próprio presidente eleito. A começar pelo apresentador Jimmy Fallon que, no seu monólogo inicial, destacou que os premiados da noite tinham sido os mais votados, uma alusão ao fato de, nas eleições recentes, a candidata Hillary Clinton ter recebido quase três milhões de votos a mais do que Trump, e perdido. Depois, Hugh Laurie, ao receber seu prêmio como melhor ator coadjuvante de uma série de TV, disse que o nome da Associação dos Jornalistas Estrangeiros de Hollywood, que distribuía os prêmios, continha três palavras com um novo significado em tempos de Trump — que ataca a imprensa, quer expulsar estrangeiros e abomina Hollywood. Outros premiados falaram da importância da diversidade e de evitar divisões étnicas, em críticas abertas ou veladas a Trump e ao governo que se aproxima, o mais contestado — mesmo antes de tomar posse — da história do país. Hollywood terá outra chance para atacar Trump na próxima entrega dos Oscars, e Trump terá os meios de se vingar de Hollywood depois de empossado. Vai sair faísca.

“Hollywood” tem uma história nem sempre louvável de relações com governos. Na época do macarthismo, executivos da indústria cinematográfica deram repetidas mostras de canalhice na submissão aos inquisidores de Washington, colocando atores, escritores e outros supostos simpatizantes da esquerda nas famosas listas negras de banidos, impossibilitados de trabalhar ou obrigados a usar pseudônimos. “Hollywood” também produziu alguns políticos lamentáveis, como o ultraconservador Ronald Reagan e, mais recentemente, o Schwarzenegger. A contestação ao governo Trump exemplificada pelo discurso da Meryl Streep e pelos outros pode não significar nada, ou pode representar o clima de insurgência que dominará o país a partir de agora. Por enquanto, tivemos apenas um trailer.

Outros

Nada contra o Cristiano Ronaldo e o Messi se alternarem como craques do ano, mas sempre me intrigou a ausência de outros nomes entre os vencedores, entra ano e sai ano. Por que nunca se lembraram do holandês Robben? E o inglês Gareth Bale, do Real Madrid? São jogadores tão completos quanto os multipremiados. Mistério.

Luís Fernando Veríssimo

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