1 de jan de 2017

A serpente

Éramos livres, integrados com a natureza, e portanto bons.. Vivíamos em harmonia com o mundo. Mas então uma serpente entrou no jardim do Eden, e o nome da serpente era...

Para alguns, o nome da serpente que nos roubou do paraíso era “Ordem”. Organização social. “Não havia mais integração. A matéria e o espírito se separavam e o ser humano não era mais inteiro. Era impelido por ambição, cobiça, ciúmes, medo... O conflito tornou-se a condição da sua vida, o indivíduo contra seu vizinho, contra a sociedade, contra ele mesmo. Como tornar o Homem livre outra vez? Como voltar ao Eden? Destruindo o que destruiu sua liberdade. A ordem.  

Para um socialista, ao contrário, organização social é o que salva o ser humano da sua pior natureza. Evita o conflito e traz a harmonia. Portanto “Ordem” não é um bom nome para a serpente. Já para um fascista, só a submissão a uma ideia e a uma autoridade integradoras resgata a felicidade. Portanto “Ordem” também é elogio, não nome de serpente. E para um liberal, se a serpente nos tirou do paraíso mas inaugurou o ser humano competitivo, então viva ela, seja qual for o seu nome. 

Que nome merece a serpente? Acho que um bom nome seria “Precisão”. Foi quando desenvolveu o dedão opositor e se tornou capaz de, primeiro, catar pulgas com mais eficiência e eventualmente esgoelar o próximo e fabricar e empunhar implementos sem deixar cair — enfim, quando se tornou preciso — que o ser humano começou a sair do paraíso. Acabou a inabilidade digital, que nos igualava aos outros animais e nos impedia gestos especulativos, como o de segurar um cristal contra o Sol e ficar filosofando sobre a luz decomposta em vez de se integrar com a Natureza como um bom bicho. 

O dedão opositor está nas origens do arco e flecha, daí para o zíper e as centrais nucleares foi um pulo — no abismo. A nossa queda começou pelo polegar. 

Alguém desesperado com as seguidas derrotas das suas convicções socialistas pelo reacionarismo crescente pode se consolar com a ideia de que a reação é apenas uma ilusão óptica, um rio que parece correr para trás quando todos os rios correm sempre para o mar, que é a redenção da humanidade e a liberdade ilimitada. Um consolo para desesperados de todas as épocas.

Luís Fernando Veríssimo

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