22 de jan de 2017

A indigência do jornalismo


A crise de paradigmas no jornalismo e o cara da kombi que quer do RS ao Alasca

De há muito venho me debruçando sobre a metodologia empregada no trabalho jornalístico (escrito, falado e televisionado). Minha já clássica crítica é a do repórter que, para mostrar a enchente, tem de ficar com água pelo pescoço. Trata-se da tentativa, consciente ou inconsciente (não sei se isso é ensinado desse modo nas faculdades que, se forem como as de direito, já imagino...) de fazer uma “isomorfia” entre palavras e coisas. Uma espécie de imbecilização do telespectador. Dias atrás vi uma matéria em um canal tratando do preço do óleo diesel na lavoura. E lá se foi o rapaz se enfiando no meio do trigal. Em vez de falar tecnicamente do cerne da matéria, resumiu-se a entrevistar um agricultor que disse: está muito caro o óleo. Bingo. E o repórter, de forma genial, complementou a matéria, dizendo que “o lucro da safra, com o aumento do diesel, poderia virar fumaça”... Claro, quando ele disse, espaçadamente, “virar fumaça”, a câmara mostrou...a fumaça saindo da descarga do trator. Mas que coisa genial, não? Nobel. Prêmio Nobel para o jornalismo. Urgente.

A cobertura do acidente da Chapecoense foi de chorar. De raiva, quando o repórter enfiava o microfone na cara do parente ou de um transeunte qualquer. A clássica pergunta “e agora como a senhora se sente com a perda de fulano”, é claro, foi feita várias vezes e a câmara ficou até que as lágrimas rolassem. Escrevi uma coluna no jornal O SUL sobre isso.

Nesta semana li uma reportagem de página inteira em jornal de destaque, a Zero Hora. Titulo da matéria de pagina inteira: JOVENS COMEÇAM PELO LITORAL GAÚCHO PLANO DE VIAJAR DE KOMBI AO ALASCA.

O tema: um gaiato quer ir do Rio Grande ao Alasca, em uma Kombi 1994, caindo aos pedaços. Com uma namorada. A Kombi estragou antes de sair do estado. Pois é. Na matéria do jornal constava que o viajante seria alguém com espirito aventureiro, que largara o emprego para correr o mundo. Teria – isso não fica claro – vendido seus bens, pedido demissão e comprado a Kombi. Foi dormir no teto da Kombi (sinal de que deve ter vendido a casa ou saiu da casa dos pais ou da ex-namorada) e por lá passou uma moça que resolveu ir com ele. E lá se foram. Na Kombi caindo aos pedaços. Observação: o subtítulo da matéria diz: “A aventura nasceu da insatisfação de fulano de tal com uma vida estável e convencional”. Pois é. Dá para ver. E como.

Pela matéria, entende-se que o tal viajante é um pelado. Não tinha nem dinheiro para comprar peças da Kombi. Ela quebrou logo. Ele foi ajudado por posteiros na divisa RS-SC. E ganhou lanche. Mas, espera um pouquinho: a matéria fala que o sujeito esse tinha dinheiro para dar volta ao mundo a passeio, mas preferiu ir de Kombi. Diz o personagem da Kombi: “a gente já tinha juntado dinheiro para dar três voltas ao mundo, só que a gente estava comprando apartamento, comprando carro, sabe?”. Hum, hum.

Outra coisa: se a moça se encontrou com ele há pouco, deu tempo para fazer visto norte-americano? O viajante tem o visto? Ou ele acha que, indo de Kombi, não necessita de visto? Sabe ele que o Alasca é território norte-americano? O repórter não perguntou nada disso. Matéria fraca. Jornalisticamente inconsistente. Serve para quê? Para preencher espaço no jornal? Vai mal o ensino nas faculdades de jornalismo e comunicação. Se é isto que ensinam... Pior: provavelmente a reportagem tenha sido elogiada internamente. E até por leitores desavisados.

Sigo. Na TV, assisti a uma reportagem sobre a falta de passarelas na BR 116. O que a repórter mostrou? Pessoas tentando atravessar a rua. Claro: entrevistaram transeuntes, que disseram: faltam passarelas. Bingo. Prêmio nobel. E a repórter terminou a matéria... caminhando sobre uma passarela. Que genial, não? O que faltou? Faltou dizer o custo de uma passarela, o que o diretor do DNIT tem a dizer sobre isso e quantas pessoas foram atropeladas nos últimos dois ou três anos. Quando foi feita a última passarela? Como telespectador, quero saber coisas técnicas. Quero respostas. Só não preciso saber o que o transeunte pensa. E não preciso de imagens de passarelas. Como na enchente, basta mostrá-la. Não precisa o repórter molhar os pés. E nem atravessar a BR.

No rádio, agora é moda as mensagens dos ouvintes. Ora, se ligo o rádio, é para ouvir alguém bem informado que me ajude a compreender os acontecimentos ou algo assim. O que interessa saber o que alguém por uatsap diz sobre um assunto? Tem programa que, se tirar as mensagens, desaparece. Acho esse tipo de interatividade simplesmente despicienda e, quiçá, ridícula. Se quero saber o que o garçom pensa sobre a posse do Trump, vou ao bar. Por qual razão, no rádio, preciso saber o que um torcedor pensa do Renato ou do Zago? Se o sujeito tem um programa, tudo indica que tem competência para tocá-lo em frente, sem a escora de mensagens inócuas, que absolutamente nada acrescentam. Além disso, as leituras são seletivas. Mandei um uats para um importante comunicador de programa de rádio, retificando uma informação equivocada que um advogado acabara de dar. Mas o apresentador não admite que erra.

Há uma crise de paradigmas no jornalismo. Aliás, onde não há crise? O que falta nos veículos de comunicação é autocritica. Ombudsmans. Isso sem contar o moralismo presente nos discursos. Semana passada falei de um “comentarista” de um programa em TV UHF que disse ser tão de direita que retirara o rim esquerdo. Muito engraçado. Na sequencia, falou que os presos tinham que ser mortos. Bingo. A coisa não vai bem em Pindorama. E eu vou estocar comida. Vou para as montanhas. As montanhas tem um cume.

Lenio Streck
No Esquerda Caviar

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