11 de jan de 2017

A conexão Brasil-Ucrânia dos neonazistas


Do Financial Times, edição de ontem, texto do correspondente Joe Leahy. A tradução livre é minha:

Quando o policial brasileiro Paulo César Jardim lançou uma série de ataques às casas de supostos neonazistas no estado do Rio Grande do Sul, revelou-se uma trama bizarra: o movimento neonazista que ocorre no país, com seu aparato secreto de suásticas, propaganda de ódio e violência nas ruas, está sendo convocado por extremistas de direita da Ucrânia para lutar contra militantes pró-russos na guerra civil do país europeu.

A Divisão de Misantropos da Ucrânia, grupo de extrema-direita alinhado com o Batalhão Azov, tropa paramilitar ultranacionalista que apoia o regime de Kiev, está por trás da campanha de recrutamento, alegou Jardim, o principal caçador neonazista do Brasil.

Uma pessoa foi detida nas invasões de dezembro com 47 cartuchos de pistola de 9 mm e depois liberada. A polícia investiga se os brasileiros já se juntaram à luta na Ucrânia, disse o policial, negando-se a dar mais informações.

Um porta-voz do Batalhão Azov – agora incorporado à Guarda Nacional ucraniana – negou, em Kiev, que haja brasileiros incorporados à tropa.

A revelação, se comprovada, de que os movimentos ultranacionalistas subterrâneos do Brasil buscam experiência de combate no exterior é desenvolvimento preocupante de um fenômeno que chocou o país que se considera um caldeirão racial.

O surgimento de neonazistas no Brasil tem desafiado o mito popular de que o racismo, pelo menos a variedade evidente em exibição nos EUA e outros países ocidentais, não existe lá.

Com mais de metade da população reivindicando pelo menos alguma herança africana, os brasileiros se orgulham das relações relaxadas entre os diferentes grupos raciais do país. Mas tem havido fluxo constante de ataques nos últimos anos. Apenas no ano passado, os neonazistas atacaram com facas e machadinhas uma banda de punk que defendia a igualdade de direitos para homossexuais;.

A extrema-direita ainda é vista como à margem da política em um país que se libertou de duas décadas de ditadura militar apenas em meados dos anos 80, mas analistas sustentam que políticos ultraconservadores e seus partidários estão dispostos a preencher o vácuo político que se desenvolveu depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff,.

Jair Bolsonaro, congressista de extrema-direita e ex-capitão do exército, conquistou as manchetes no ano passado por elogiar conhecido torturador da era da ditadura. Ele nega ser neonazista, mas os críticos o acusam de compartilhar muitos pontos de vista do movimento, como o racismo e a intolerância.

Também no ano passado, um grupo de ultraconservadores invadiu o Congresso pedindo o retorno do governo militar.

Os neonazistas no Brasil se concentram no Sul e Sudeste do país, do Rio de Janeiro e São Paulo ao Rio Grande do Sul, regiões que receberam a maior parte dos imigrantes alemães, italianos e poloneses.

Embora a América do Sul também tenha recebido nazistas fugindo da derrota da Alemanha de Hitler na segunda guerra mundial, os movimentos neonazistas surgiram, na maioria, mais recentemente, de sites de ódio na Internet.

O Brasil, com 200 milhões de habitantes, tem 150 mil “simpatizantes” envolvidos em movimentos neonazistas, segundo artigo da antropóloga Andriana Dias, da Unicamp.

“A violência expressa por esses grupos, sejam ataques físicos a negros, judeus ou homossexuais, seja a disseminação de literatura de ódio, tem exigido nos últimos anos muito trabalho, tanto em termos de investigação e condenações ”, escreveu ela.

“Nunca imaginei que o neo-nazismo fosse possível no Brasil porque este é o país do futebol, do carnaval. . . Nós somos um povo feliz ”, disse o policial Paulo César Jardim.

No Tijolaço

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