29 de jan de 2017

1017

Se medidas drásticas não forem tomadas agora para diminuir o aquecimento global, Mr. Trump, os efeitos disso se agravarão de tal maneira que é impossível prever como será o mundo daqui a mil anos. O que nos leva a imaginar o que deveria ter sido feito há mil anos para impedir que chegássemos a este ponto. Como evitar, retroativamente, o processo que hoje ameaça a vida do planeta?

Deixa ver. Mil anos atrás. O ano de 1017. Um programa de conscientização do público teria que começar com recomendações para controlar o número de fogueiras e queimadas e diminuir o fogo nos fogões e, em hipótese alguma, adotar aquela novidade, o carvão, que só traria sujeira e desgraça.

O carvão, aliás, deveria ser proibido antes de as pessoas descobrirem o que era.

Todos teriam que ser convencidos de que a mula, o cavalo, o boi, a carroça e, vá lá, a carruagem eram o máximo que se poderia desejar em matéria de transporte e que o melhor era mesmo acabar com aquela mania de ir de um lugar para outro.

Todo mundo deveria ficar sossegado em casa e, principalmente, deixar de inventar coisas ou pensar em fazer coisas, acima de tudo coisas que produzissem fumaça.

Mas talvez 1017 já fosse tarde demais. Algum profeta do apocalipse teria que interferir vários milhares de anos antes e, com sorte, chegar à Idade da Pedra Lascada no local exato e na hora certa.

— Pare, o que você está fazendo!

— Mas eu só estava...

— Inventando a roda. Ainda bem que chegamos a tempo. Você não tem ideia do que estava começando. Parando agora, você estará salvando milhões de vidas humanas. Estará salvando o próprio planeta. Desista. Invente outra coisa.

— Mas eu só estava fazendo uma mesa de centro.

— É o que você pensa. Estava inventando o automóvel, o engarrafamento, o monóxido de carbono, os cartéis do petróleo, guerras...

— Mas...

— Faça uma mesa de centro quadrada. E outra coisa.

— O quê?

— Nos leve ao cara que está descobrindo como fazer fogo.

— Por quê?

— Temos que eliminá-lo.

Luís Fernando Veríssimo

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