22 de dez de 2016

Uma aula de antijornalismo — assista


A reportagem do Jornal Hoje, da Globo, sobre o ataque aos trabalhadores proposto pelo governo Temer, é simplesmente vergonhosa. Veja com seus próprios olhos.



O texto lido pela apresentadora tenta pintar como positiva uma reforma trabalhista que obviamente favorece o empresário e prejudica o trabalhador — se o negociado entre patrão e empregado prevalece sobre a lei, a parte mais forte na negociação (o empresário) estará em flagrante vantagem —, chamando-a de “modernização das leis trabalhistas”.

Moderno é sinônimo de novo, novo remete a algo positivo, então a tal modernização deve ser uma coisa boa. A manipulação é grosseira.

Na sequência da reportagem é mostrado um trecho do discurso de Paulo Skaf, presidente da FIESP, um dos grandes articuladores do golpe e representante-mor do empresariado, especialmente o paulista.

Ele também fala em modernização e em "valorização das pessoas". Essas pessoas valorizadas não serão, obviamente, as trabalhadoras.

Depois é mostrado o representante de uma tal Nova Central Sindical dizendo que as propostas são boas para os trabalhadores.

E fim da reportagem.

Nada de críticas, o outro lado, a posição das maiores centrais sindicais.

Uma aula de antijornalismo. Ou bandidagem mesmo.

É uma verdadeira aberração, uma agressão pesada à democracia, ao debate público de ideias, a utilização de uma concessão pública para manipular o noticiário político dessa forma. O fato de a Globo deter a hegemonia da audiência deixa o quadro mais absurdo.

A direita tem medo do debate, porque seu projeto político/econômico tem como premissa a retirada de direitos dos trabalhadores.

Resta a tentativa de lavagem cerebral, suprimindo o outro lado do debate.

Por isso, quando a direita governa, direciona todas as verbas de publicidade para a mídia conservadora, corta qualquer verba para as vozes dissonantes e ataca ferozmente as televisões públicas, que poderiam fazer um contraponto.

Um exemplo: os deputados gaúchos aprovaram ontem um pacote do governo Sartori (PMDB) que extingue diversas fundações estaduais. É o costumeiro desmonte do Estado como resposta — ineficiente — para a crise.

Dentre essas fundações está a Fundação Cultural Piratini, responsável pela televisão pública do Rio Grande do Sul.

O que poderia ser um espaço de pluralidade de ideias é simplesmente extinguido.

O monopólio da informação da RBS, afiliada da Globo no RS e investigada na Operação Zelotes por sonegar mais de R$ 100 milhões em impostos, é reforçado.

A estratégia de tirar a voz do outro lado é padrão em governos de direita: o governo Temer está matando a TV Brasil, seja nomeando apaniguados da mídia corporativa para postos chave, seja cortando verba.

Obrigar a maior parte da população a se submeter à voz única da máfia midiática é utilizar lavagem cerebral como estratégia política.

Mas talvez seja esta a única estratégia possível para o conservadorismo.

Afinal, como ganhar um debate defendendo um projeto que tem como premissa o sofrimento das pessoas?

Pedro Breier
No Cafezinho
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10 razões para amar o Cristo de Saramago (ainda que você não seja cristão)

José Saramago em Lanzarote. 
Foto: João Francisco Vilhena
Tem um livrinho clássico de Miguel de Unamuno, São Manuel Bueno, Mártir, que conta a história do padre de uma cidadezinha no interior da Espanha que esconde um terrível segredo. O segredo de Dom Manuel, admirado por todos os moradores graças a sua bondade, generosidade e pelas palavras que apaziguam corações, é que ele não tem fé. Imaginem: um padre que não crê. E a maior prova de fé do padre sem fé é levar o consolo da religião aos demais, sendo que ele mesmo não o possui.

“Eu estou aqui para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para fazê-los felizes, para que sonhem ser imortais e não para matá-los. (…) Com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E isto faz a igreja, fazê-los viver. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto forma de fazer viver espiritualmente aos povos que as professam, enquanto lhes consolam de haver tido que nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, ainda que o consolo que lhes dou não seja o meu”, diz Dom Manuel no livro, ao revelar o segredo a seu “confessor”.


Vejo esta “fé dos que não têm fé” muito presente no livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Ateu, Saramago criou um Cristo maravilhosamente falível, capaz de revigorar a fé de muitos. Na época em que foi lançado, em 1991, o livro sofreu ataques da igreja católica, porque Saramago ousou mexer com os dogmas do cristianismo. O então sub-secretário de Estado da Cultura português, Antonio Sousa Lara, chegou a vetar o romance em uma lista de indicações literárias sob o argumento de que ofendia a “moral cristã”. Quando Saramago morreu, em 2010, o jornal do Vaticano o chamou de “ideólogo antirreligioso, um homem e um intelectual que não admitia metafísica alguma”.

Leram muito mal o romance, porque não há nada mais cristão do que este evangelho de um ateu: é o retrato de um Jesus Cristo humano, demasiado humano, consciente da grandeza de sua tarefa e aterrorizado por ela. Não era esta a intenção de Deus ao mandar seu filho à Terra, que ele fosse o mais próximo possível de seus semelhantes, em vez do Cristo “divino”, milagreiro e marqueteiro de si mesmo que surge nos evangelhos?

De certa forma, o escritor português melhorou o Jesus do Novo Testamento ao desnudar a complexidade (e a crueldade) do papel que lhe cabia na história. Quem lê a obra de José Saramago não sai menos cristão e sim mais solidário a Jesus. Não dá para entender como puderam ficar contra um livro que é impregnado do mais puro, verdadeiro cristianismo. Desconfio que Saramago era como o Dom Manuel de Unamuno, só que ao contrário. Sua assumida falta de fé ocultava uma fé profunda –na humanidade.

Veja abaixo 10 razões para amar o Cristo de Saramago (ainda que você seja ateu).

1. Maria, como toda mãe, não é virgem: Jesus é gerado não pela visita de um anjo, mas pela conjunção carnal entre Maria e seu marido José. A semente de Deus está misturada à de José. “Deus, que está em toda a parte, estava ali, mas, sendo aquilo que é, um puro espírito, não podia ver como a pele de um tocava a pele do outro, como a carne dele penetrou a carne dela, criadas uma e outra para isso mesmo, e, provavelmente, já nem lá se encontraria quando a semente sagrada de José se derramou no sagrado interior de Maria, sagrados ambos por serem a fonte e a taça da vida, em verdade há coisas que o próprio Deus não entende, embora as tivesse criado”.

2. Jesus nasce da mesma maneira que todo mundo: “O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso de suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”

3. Os “reis” magos trazem presentes úteis: os três “reis magos” são, na verdade, pastores, e, em vez de trazerem ouro, incenso e mirra, presentes absolutamente inúteis naquela situação, trazem leite, queijo e pão.

4. José e Jesus têm uma relação pai-filho: ao contrário dos relatos do Novo Testamento, que praticamente ignoram a existência de relação entre Jesus e seu pai terreno, o carpinteiro José, o evangelho de Saramago mostra que eles tinham uma proximidade especial e se irmanam na morte, crucificados injustamente ambos aos 33 anos.

5. Jesus é moreno: no Novo Testamento não há alusão à aparência de Jesus, o que favoreceu a imagem europeizada que se fez dele, louro de olhos azuis, pouco condizente com a aparência de um palestino. “Os cabelos são pretos como os do pai e da mãe, as íris já vão perdendo aquele tom branquiço a que chamamos cor de leite não o sendo, tomam o seu próprio natural, o da herança genética direta, um castanho muito escuro.”

6. O demônio não é tão feio quanto pintam: o “pastor” do romance de Saramago é um dos “reis” que visitam Jesus ainda na manjedoura e lhe leva o pão. Sua função não é representar o mal e sim a consciência sobre os sofrimentos que viverão Jesus e seus seguidores em nome de Deus. Quando Jesus o encontra no deserto, não é para “tentá-lo” e sim para ensinar a ele sobre a vida. O demônio é uma espécie de preceptor para um jovem sem experiência, o alter ego do próprio Deus. “Também se aprende com o diabo”, diz Jesus.

7. Jesus conhece o amor de uma mulher: o filho do Homem, como muitos homens no passado, se inicia sexualmente com uma prostituta, Maria Madalena, Maria de Magdala. “Nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão, As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gêmeos de uma gazela, mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e, tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e, enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro, Aprende, aprende o meu corpo.”

8. Jesus tem noção que é um sacrifício o que Deus lhe destina: ao encontrar Deus no deserto, Ele não diz que Jesus é seu filho, e sim que lhe dará glória e poder em troca de sua vida. Quem diz a Jesus que Deus é seu pai é o diabo. É só ao se aproximar a hora da crucificação que Jesus é informado do tamanho sacrifício que fará para alargar a influência no mundo de um Pai vaidoso, que desejava ser admirado por muito mais gente. “E qual foi o papel que me destinaste no teu plano”, pergunta Jesus a Deus. “O de mártir, meu filho, o de vítima, que é o que de melhor há para fazer espalhar uma crença e afervorar uma fé.”

9. Jesus tem dúvidas: ao ser informado de seu sacrifício por Deus, Jesus se comporta como qualquer ser humano naquela situação e pensa em desistir. “Rompo o contrato, desligo-me de ti, quero viver como um homem qualquer”, ele diz a Deus, mas este faz troça: “Palavras inúteis, meu filho”. O raciocínio divino é que, sendo ele um deus, não acreditariam em sua palavras; na de um homem, sim. Daí o envio do filho à Terra. “Serás a colher que eu mergulharei na humanidade para a retirar cheia dos homens que acreditarão no deus novo em que me vou tornar.”

10. Jesus se apieda dos que morrerão em seu nome: Jesus questiona Deus sobre o futuro da humanidade após sua morte, se serão mais felizes, e o Pai responde que, pelo contrário, muitos morrerão por conta desta fé, a começar por seus melhores amigos. “Será uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”, diz o Todo Poderoso, desfiando os horrores das perseguições aos cristãos e das mortes na Inquisição, a marteladas, queimados vivos, decapitados, crucificados, empalados. Tudo em nome de Deus. “Jesus compreendeu que viera trazido ao engano como se leva o cordeiro ao sacrifício, que a sua vida fora traçada para morrer assim desde o princípio dos princípios, e, subindo-lhe à lembrança o rio de sangue e de sofrimento que do seu lado irá nascer e alagar toda a terra, clamou para o céu aberto onde Deus sorria, Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.”

Cynara Menezes
No Socialista Morena
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Atropelar? Por que não? É a nova regra do jogo

Há muitos anos, no final de 1962, depois de estudar dezoito meses nos Estados Unidos, ao voltar a São Paulo, fiquei impressionadíssimo com a selvageria do nosso trânsito, quando comparado com o do Meio-Oeste americano. Por que tamanha diferença? Porque a sinalização de trânsito era melhor, porque as multas eram maiores, porque a fiscalização estava mais presente — essas eram razões óbvias. Mas, em artigo na imprensa, naquela época, sugeri que havia uma razão mais profunda. Enquanto nos Estados Unidos todos tinham carro, de forma que havia apenas uma “classe” de cidadãos, os motoristas, que em alguns momentos se tornavam pedestres, e os respeitavam, no Brasil havia duas classes bem distintas — os motoristas e os pedestres. Em consequência, enquanto nos Estados Unidos havia uma solidariedade entre os motoristas, aqui havia uma “luta de classes” entre os motoristas, todo-poderosos, que dirigiam como se quisessem atropelar que estivesse pela frente, e os pedestres “que atrapalhavam o trânsito”.

Passaram-se os anos, e o trânsito tornou-se mais civilizado em São Paulo. A sinalização tornou-se excelente, o Código Nacional de Trânsito definiu penas mais elevadas, a fiscalização melhorou. Mas nas marginais os motoristas continuavam a atropelar os pedestres. Em julho de 2015, depois de ouvir longamente os técnicos, que lhe diziam que a redução da velocidade reduziria o número de acidentes e não prejudicaria o fluxo, porque a diminuição da velocidade seria compensada pela diminuição das brecadas, o prefeito Fernando Haddad introduziu a mudança sugerida.

Inicialmente levantou-se um vozerio dos motoristas. Indignados. OK, eles não sabiam dos benefícios da mudança. Mas aos poucos foi ficando claro que o conselho dos técnicos e a decisão do prefeito haviam sido corretíssimos. O número de atropelamentos caiu verticalmente, e o número de acidentes envolvendo outro veículo também diminuiu. Maravilha!

Maravilha por quê? O prefeito eleito, João Dória, já determinou o gradual aumento da velocidade nas marginais para os níveis anteriores. Por que? Porque esta é a nova regra do jogo no Brasil: a luta de classes, de cima para baixo, dos ricos contra os pobres, dos motoristas contra os pedestres. Se os acidentes com outros veículos houvessem caído tanto quanto caiu o número de atropelamentos, ainda seria o caso de pensar duas vezes...

Mas é realmente essa a nova regra do jogo? Basta ver os raios e trovões que o Palácio do Planalto lança todos os dias. Foi a emenda do teto de gastos, necessária, mas não da forma irracional em que foi aprovada; é a emenda da previdência, novamente necessária, mas não a emenda draconiana proposta; são as medidas provisórias hoje anunciadas que simplesmente derrogam a Consolidação das Leis do Trabalho ao permitir que sindicatos sem representatividade façam acordos coletivos de trabalho contra a CLT.

Sim, esta é a nova regra do jogo. É a regra do jogo de uma elite liberal e cosmopolita e de uma classe média tradicional cheia de ódio, que lograram substituir no poder uma presidente honesta e comprometida com interesse público, mas pouco competente, por um bando de políticos oportunistas ainda mais incompetentes, sem compromisso com o interesse público. Estes, para se “legitimarem” perante as elites neoliberais e seu partido, o PSDB, traíram seus compromissos com os eleitores que elegeram vice-presidente da República seu líder, Michel Temer, e adotaram a nova regra do jogo: a luta de classes de cima para baixo, com o argumento que todo o problema brasileiro é fiscal, nada tem a ver com os juros exorbitantes pagos pelo Estado, nem com os elevado déficits em conta corrente que apreciam o câmbio e inviabiliza a indústria; a clássica culpabilização das vítimas através da qual os ricos e os poderosos tranquilizam sua consciência.

Enquanto isso a recessão não dá trégua, as delações e agora a abertura do acordo da Odebrecht com os Estados Unidos revelam que todo o grupo governante está enredado até a cabeça não apenas em doações caixa dois, mas na corrupção em sentido estrito — em propinas. Em uma República as leis são sagradas — são as normas que a sociedade adota para resolver seus conflitos e permitir o avanço econômico e social. Ora, vemos horrorizados que as propinas não foram recebidas apenas em troca de obras; foram também recebidas em troca de emendas às leis — o que representa uma corrupção ainda maior, porque envolve mais do que dinheiro: envolve as instituições do país.

Mas a operação Lava Jato não está aí para acabar com a corrupção? Sim, mas, por enquanto, o Judiciário está voltado apenas contra uma velha, muito velha, regra do jogo: a corrupção de alguns políticos. Quanto à nova regra do jogo — a da luta dos ricos contra os pobres, a da culpabilização das vítimas — o Judiciário não tem poder. Quem tem poder para exercê-la é um Executivo e um Legislativo desmoralizados. Poder no curto prazo, poder decorrente de um impeachment que desestabilizou as instituições maiores do país. Poder que lhe será cobrado nas eleições.

A serem realizadas quando? Não daqui a dois anos. O país não suportará tanta violência e tanta ilegitimidade. Precisamos de eleições diretas já. O grito dos brasileiros não deve ser “Fora Temer”, porque poderemos ter alguém tão ruim ou pior do que ele o substituindo. Precisamos de “Diretas Já”.

Luiz Carlos Bresser-Pereira
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Mensagem de Lula



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“Já estamos vivendo uma depressão. Caminhamos para uma convulsão social no país”

Franklin Martins: “A elite brasileira despreza a democracia. É um grupo de predadores. A nossa elite, na verdade, não é uma elite”.
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Em 1964, Franklin Martins tinha 15 anos de idade quando o golpe civil-militar contra o governo de João Goulart virou sua vida ao avesso. Militante do movimento estudantil e repórter iniciante na agência de notícias Interpress, foi se envolvendo cada vez mais na luta de resistência contra a ditadura que teve um de seus ápices em 1969 quando integrou o grupo, formado por militantes da Ação Libertadora Nacional e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro, que seqüestrou o embaixador americano Charles B. Elbrick para forçar o governo militar a libertar 15 presos políticos.

A partir dessa ação teve que sair do país. Viveu em Cuba, no Chile, chegou a retornar ao Brasil mas, em 1974, teve que sair mais uma vez, indo para a França. Só voltou em 1977, quando a ditadura começava a dar sinais de exaustão.

Após tornar-se um dos principais jornalistas políticos do país e ser ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social do governo Lula, Franklin Martins não imaginava que, 52 anos depois, viveria de novo a experiência de um golpe.

“Tenho que fazer um mea culpa. Eu não esperava por isso. Achava que a ditadura tinha ensinado a esquerda e a direita. Nos últimos meses fui obrigado a repensar muitas coisas. A elite brasileira despreza a democracia. É um grupo de predadores. A nossa elite, na verdade, não é uma elite”, diz o jornalista que esteve em Porto Alegre na última quinta-feira para participar de um debate sobre Comunicação, Resistência e Democracia, promovido pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e outras entidades sindicais.

Em entrevista ao Sul21, Franklin Martins fala sobre a experiência de ter vivido dois golpes, aponta as diferenças entre os dois processos históricos, critica a agenda regressiva do governo Temer que vem desmontando de modo acelerado as conquistas sociais dos últimos doze anos e alerta para o momento perigoso que o Brasil está vivendo.

“Nós já estamos vivendo uma depressão. A economia caiu cerca de 5% nos últimos dois anos. E não há nenhuma perspectiva de melhora. Para o ano que vem, as estimativas falam de -1%. O clima que está se alastrando no país é muito negativo. Nós estamos caminhando para uma convulsão social no país. Estamos vivendo uma situação dramática por absoluta irresponsabilidade das forças conservadoras no Brasil”.

No debate realizado pela CUT na Assembleia Legislativa, você mencionou o fato de já ter experimentado dois golpes de Estado, o de 1964, quando tinha 15 anos, e agora o golpe parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff? Quais são as semelhanças e diferenças entre esses dois momentos históricos?

Nós temos uma tendência de analisar os fenômenos políticos a partir da bagagem que a gente traz na vida. Assim, há uma tendência normal de associar o golpe atual com o golpe de 1964. De certo modo, isso está resumido naquela expressão do Chico (Buarque de Hollanda): “Golpe de novo, não!”. Na verdade, são duas coisas diferentes.

Os dois são golpes de Estado, são atentados à democracia que, por mecanismos diferentes, depõem presidentes constitucionais. Os dois investem contra direitos dos trabalhadores e tem projetos de uma inserção subserviente e submissa no capitalismo internacional. Mas as diferenças são grandes.

O golpe de 64 foi dado contra um movimento crescente que tinha uma enorme expectativa de mudança. É o período das lutas pelas reformas de base, dos anos dourados, do nacionalismo, industrialização, urbanização, da luta pela reforma agrária, da vitória da Revolução Cubana, da ascensão da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

Vivia-se um ambiente de grande expectativa de mudanças no mundo e também aqui no Brasil, com uma mobilização que ainda não tinha sido vista na história do país.

O golpe foi dado contra essa expectativa de mudança. O golpe de 2016, por sua vez, não foi dado contra uma expectativa de mudança, mas sim contra a experiência da mudança. Nos últimos doze anos, o povo brasileiro experimentou um processo extraordinariamente amplo e profundo de mudanças que tirou 40 milhões da pobreza, que mostrou que era possível governar o país para a maioria das pessoas.

Neste período de doze anos, houve uma explosão de acesso à educação, à saúde, à luz elétrica, de redução das desigualdades regionais, de crescimento do Nordeste a taxas superiores a das demais regiões do país, fatos que acabaram constituindo um leque extraordinário de mudanças.

Tivemos ainda a política das cotas raciais que propiciou um aumento da presença de negros, índios e pobres na universidade, entre outros programas que trouxeram grandes transformações.

Então, o golpe não foi dado contra expectativas de mudanças. As pessoas experimentaram a mudança e isso, de certa forma, desnaturalizou o discurso das forças conservadoras no Brasil cuja essência é naturalizar a opressão.

A essência desse discurso é mais ou menos a seguinte: eu até gostaria de governar para todo o país, mas não dá; então eu faço o que eu posso. Quanto aos outros dois terços da população, eu lamento, mas não tenho o que fazer.

O que a experiência dos últimos doze anos mostrou é que o povo não só cabe no Brasil, como não é um peso, um estorvo, algo que precisa ser carregado. Pelo contrário, o povo é um patrimônio e se tiver oportunidade tem uma energia produtiva e criativa extraordinária.

Propiciar essa oportunidade é uma condição sine qua non para o Brasil crescer, deixar de ser injusto internamente e se tornar um país importante no mundo. Eu acho que as pessoas tiveram essa experiência. Isso significa que o golpe não foi contra o que poderia ser, mas sim contra o que foi e nós perdemos.

Acredito que a principal fonte de energia política em uma sociedade é a experiência das pessoas. Milhões de pessoas tiveram a experiência de que é possível mudar em um ambiente democrático, sem confrontações sociais.

Hoje em dia vejo muitas pessoas dizendo que a experiência mostra que é preciso ter uma revolução, destruir as instituições e reprimir o outro lado para poder conquistar alguma coisa. Acho que é o contrário. A experiência mostrou que com competência, habilidade, firmeza e um norte político claro é possível ter essas conquistas sem rupturas violentas ou esmagamento de setores da sociedade.

A segunda grande diferença entre 2016 e 1964 é que o golpe de 64 foi estrategicamente concebido e acumulado.

Ele começa, na verdade, com a tentativa de deposição de Getúlio, em 1954, volta a carga com a tentativa de impedir a posse de JK em 1955, o que se repete com João Goulart em 1961 e, finalmente, se consuma em 1964. Durante dez anos, o Estado Maior das Forças Armadas fez movimentos para tomar o comando da cena política.

Eles tinham um projeto que consistia em manter uma inserção submissa do país no cenário internacional, interromper qualquer reforma de base e organizar a economia de forma a criar grandes grupos econômicos que consolidassem a sua ação ao preço de um arrocho brutal.

Eles tinham um projeto, um núcleo de comando e estavam dispostos a aniquilar qualquer reação. Quem não entendeu isso, como Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Ademar e o próprio Juscelino, que acharam que um ano depois teria eleições, foi percebendo depois que não era nada daquilo.

E quais são, na sua avaliação, os traços característicos de golpe de 2016 que se diferenciam deste padrão de 1964?

O que aconteceu agora foi um golpe de oportunidade. As forças conservadoras conseguiram atrair forças do centro da sociedade e perceberam que estava diante de uma oportunidade única para interromper o processo de mudanças iniciado há doze anos.

Inclua-se neste grupo de forças setores do Judiciário, do Ministério Público, da Policia Federal e da Receita Federal, todas carreiras que ganham muito bem, a mídia, grandes grupos empresariais, especialmente o setor financeiro, e um grupo de partidos comandado pelo PSDB e PMDB.

Esse conjunto de forças percebeu que estava diante de um governo enfraquecido e que isso abria uma janela de oportunidade. O golpe foi dado contra os grandes acertos destes últimos doze anos que demoliram a naturalização da opressão, da exclusão social, da desigualdade regional e da submissão internacional.

Todas as políticas implementadas neste período sofreram uma forte resistência. Bolsa Família, aumento real do salário mínimo, Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos, Fies, Prouni, cotas, pré-sal, tudo o que se fez foi objeto de uma reação brutal do outro lado. E eles foram derrotados politicamente em todas essas áreas.

Na época da construção do modelo de exploração do pré-sal, que privilegiou a indústria nacional e os investimentos em saúde e educação, os conservadores sequer conseguiram apresentar um projeto diferente no Congresso. Agora, após o golpe, uma de suas primeiras medidas foi apresentar um projeto para mudar o regime de exploração do petróleo.

Lá atrás eles foram politicamente derrotados neste debate e, agora, querem fazer tudo rápido justamente para não existir debate. O mesmo se aplica à valorização do salário mínimo, ao Bolsa Família, de onde já estão tirando gente, e a outras políticas.

Além de não ter um projeto, eles também não têm uma liderança clara. Temer é líder de alguma coisa? Temer não é líder de nada.

É um sujeito que teve dificuldade para se eleger deputado em São Paulo nas duas últimas eleições que disputou. É um político de ocasião, dos corredores do palácio, das mesóclises. É um político medíocre, um sujeito secundário que viu-se diante de uma oportunidade que, em condições normais, jamais ocorreria.

Quais foram os elementos que acabaram propiciando o surgimento dessa oportunidade?

Pelos erros que nós cometemos, nós não fizemos a disputa política com a intensidade que deveria ter sido feita e aceitamos, de certo modo, a agenda que o outro lado tentava impor ao país, desde 2010, através da mídia, que é a agenda dos maus feitos.

Esses maus feitos têm que ser sempre combatidos, mas o centro da agenda não podia ser esse. Tinha que ser inclusão social, redução das desigualdades e aprofundamento das mudanças. Nós não fizemos essa disputa e, em política, quando você abdica disso, prevalece aquilo que está naturalizado pelas elites e pelo poder dominante.

Eles achavam que iam ganhar as eleições de 2014. Perderam porque a disputa não foi em torno da agenda dos maus feitos, mas sim em torno da alternativa “retrocesso ou aprofundamento das mudanças”.

Na campanha eleitoral, a presidente Dilma assumiu a agenda e o enfrentamento corretos que tinham ficado meio enevoados durante os anos anteriores, quando faltou uma disputa política mais qualificada. Sem disputa política, a esquerda não consegue formar maioria na sociedade.

Você fez referência ao papel da mídia neste processo. Uma coisa que parece se repetir em 2016, em 1964 e em anos anteriores, é o comportamento antidemocrático da mídia brasileira. Em todas as tentativas e execuções de golpes, de Getúlio até hoje, ela sempre costuma estar do mesmo lado. Quais são, na sua opinião, as origens dessa postura?

Essa não é uma característica só da imprensa brasileira. Com exceções aqui e ali, a imprensa latino-americana segue esse mesmo padrão. De um modo geral, as forças progressistas nunca conseguiram construir um contraponto a esse poder midiático hegemônico.

No período do Getúlio, conseguiu construir a Última Hora, mas era algo isolado. Tinha alguma coisa de rádio, a televisão ainda tinha esse peso que tem hoje. Em 64, não houve um quadro de unidade como ocorreu agora, embora os órgãos de imprensa maciçamente tenham apoiado o golpe.

O jornal Última Hora, a rádio Roquete Pinto e a TV Excelsior foram exceções e todas elas foram decepadas depois do golpe. Creio que essa tradição está ligada a uma coisa mais profunda que é o fato de nós nunca termos tido no Brasil uma elite apoiada em valores progressistas.

Tivemos alguns fenômenos isolados como a campanha pelo abolicionismo e, mais tarde, de uma forma ditatorial, a construção de um Estado nacional com Getúlio. Mas nós nunca tivemos, por um largo período, como ocorre em muitos outros países, a existência de uma elite conservadora e de uma elite progressista com valores democráticos.

A elite brasileira é predadora. Ela despreza a democracia e não tem um projeto para o país. Ou seja, a nossa elite não é uma elite.

Outra coisa que pesa no comportamento da mídia brasileira é que o nosso modelo de radiodifusão desde o início está assentado no setor privado, diferente do que ocorreu na Europa, por exemplo, onde ele nasce baseado na comunicação pública e permanece assim até os anos 80.

Essa é, aliás, uma das razões pelas quais lá foram criados mecanismos de regulação, para evitar que a comunicação pública fosse apropriada por governos de ocasião como uma comunicação privada.

Aqui no Brasil, a comunicação privada se insurgiu desde o primeiro momento contra qualquer limite, como se o espaço eletromagnético que ela ocupa fosse uma propriedade dela e não da sociedade.

O Brasil é o único grande país do mundo que não tem qualquer tipo de regulação das comunicações eletrônicas. Os Estados Unidos não tem uma regulação do padrão europeu, mas têm uma regulação pela via econômica que impede, por exemplo, a propriedade cruzada de meios de comunicação.

Se essa regulação fosse aplicada no Brasil, aqui no Rio Grande do Sul quem tivesse emissora de televisão não poderia, ao mesmo tempo, ter rádio e ter jornal. Quem tivesse jornal, não poderia ter rádio ou televisão e assim por diante. Por que isso? Para que a sociedade tenha um mecanismo de defesa contra a monopolização da produção de informação.

No Brasil nós temos uma mídia, não só muito concentrada como, nos últimos dez anos, oligopolizada no sentido de que até a opinião é acertada entre eles.

Basta ver a cobertura política que temos hoje. É exatamente a mesma. Nós tivemos grandes manifestações em Brasília contra a PEC 55 que foram fortemente reprimidas. Isso simplesmente não sai na televisão.

No debate realizado na Assembleia, você falou da falta de unidade que caracteriza o governo golpista e seus aliados em diferentes instituições. Na última quinta-feira, o ministro Gilmar Medes, do Supremo Tribunal Federal, confrontou diretamente o juiz Sérgio Moro no Senado, uma cena impensável até bem pouco tempo. Qual é, afinal, a solidez dessa articulação que propiciou o golpe?

O golpe, como eu disse anteriormente, foi um negócio de ocasião articulado por diferentes atores e setores que não têm uma unidade e carecem de qualquer legitimidade. O que temos visto nos últimos dias é o governo Temer virando um mingau.

Esse governo não tem qualquer possibilidade de comandar o país . É uma aberração. Gilmar Mendes e Sérgio Moro estão juntos na Lava Jato, mas o Moro acha que é preciso acabar com o Estado de Direito.

Já o Gilmar Mendes não quer que o Estado de Direito acabe para a turma dele. Enquanto for só para o PT, Gilmar Mendes topa, mas ele sabe que isso pode pegar o PMDB, o PSDB, o PP, o DEM e assim por diante. Isso mostra que eles não têm unidade para ir muito a frente.

Acho que o plano A deles é manter o Temer, pois é sempre ruim fazer uma substituição destas, mas o Temer pode não se agüentar também. Mas quem vier depois dele também não vai agüentar, pois a política de regressão que eles estão impondo ao país é um desastre completo que está liquidando a economia brasileira.

Você falou que a ameaça nem é mais de uma nova recessão, mas sim de uma depressão…

Nós já estamos vivendo uma depressão. A economia caiu cerca de 5% nos últimos dois anos. E não há nenhuma perspectiva de melhora. Para o ano que vem, as estimativas falam de -1%.

O clima que está se alastrando no país é muito negativo. Eles não vão obter legitimidade da política. Não vejo eles construindo legitimidade pela expansão econômica, reativação da economia.

Tampouco vejo eles fazendo isso por meio de um desarmamento social. Pelo contrário.

Nós estamos caminhando para uma convulsão social no país. E quem paga o preço quando ocorre uma convulsão social é o povo, que perde direitos, perde possibilidades, oportunidades e que é sempre reprimido.

Então, nós estamos vivendo uma situação dramática por absoluta irresponsabilidade das forças conservadoras no Brasil que, diante de uma construção histórica de expectativas de mudanças, viu uma oportunidade, potencializada pelos nossos erros, derrubou o governo eleito e agora não tem condições de estabilizar esse processo, pois não tem legitimidade política, econômica nem social.

Na sua opinião, a experiência do que foi conquistado nos últimos anos é o maior capital que a esquerda e as forças progressistas têm para tentar enfrentar a agenda golpista. Até aqui pelo menos, essa experiência não foi suficiente para deter essa agenda. Em que medida essa experiência pode ser um antídoto para essa ameaça de convulsão social que enxerga no horizonte ou para a emergência de coisas mais regressivas ainda como as propostas defendidas pelo deputado Bolsonaro?

Em primeiro lugar, creio que é preciso entender que a reação ao golpe não teve a energia suficiente para detê-lo por causa dos nossos erros. O primeiro erro, que já referi, foi o debate político absolutamente insuficiente. As forças políticas do nosso lado ficaram paradas vendo o outro falar e fazer o que bem quis.

Em segundo lugar, ao não ter enfrentado a questão do oligopólio da mídia, deixou só o lado de lá com instrumentos para falar com o amplo conjunto da população, tirando algumas situações excepcionais como a campanha eleitoral de 2014.

Quando houve uma janela de igualdade de espaço no período eleitoral, foi possível reverter, mas é evidente que isso é absolutamente insuficiente para dirigir o país.

Precisamos considerar ainda o nosso sistema político que foi se montando de modo que, quem ganha a eleição majoritária, não consegue ter maioria no parlamento, sendo obrigado a negociar no varejo. O presidencialismo de coalizão é, na verdade, um nome pomposo e acadêmico para negociação permanente de varejo.

Isso já está acontecendo também no governo Temer. Mas cometemos alguns outros erros importantes.

Penso que, ao ser reeleita, a presidenta Dilma não percebe a gravidade da situação que estava se configurando e adotou medidas que foram vistas pela população como a adoção de parte do programa que ela tinha criticado ou, pelo menos, como o reconhecimento que a crise tinha uma gravidade que ela não tinha admitido na campanha.

Acho que ela não conseguiu dialogar de modo adequado sobre esse tema com a população. Isso gerou uma perplexidade justamente em quem tinha dado a vitória para ela.

Houve um sentimento de estelionato eleitoral, que é fortíssimo e quando aparece é devastador. Acho que isso paralisou o lado de cá e fez com que o lado de lá olhasse e percebesse a abertura de uma oportunidade.

Por outro lado, penso que a experiência das pessoas já está reintroduzindo a questão de fundo que é deter o retrocesso. As pessoas começam a perceber o que está acontecendo: fim das políticas sociais, precarização das relações de trabalho, perspectiva de aumento do tempo para aposentadoria, entre outras coisas.

Ao verem isso, percebem que o retrocesso não é algo que só aparece no discurso.

As pessoas também estão percebendo que a crise econômica não é uma herança maldita do governo da Dilma, mas sim que está sendo produzida por essa política regressiva do governo Temer.

A própria questão da corrupção, que foi levantado como algo que era praticado apenas por forças ligadas ao PT, começa a ser percebida como um problema generalizado de um sistema promíscuo.

Quanto à possibilidade de um Bolsonaro da vida ser visto como uma solução, eu não vejo muitas chances disso acontecer. Olho para a frente e pergunto: que nomes eles têm para 2018, se é que eles virão para a disputa? Aécio? Não vai a lugar nenhum. Serra? Também não vai a lugar nenhum.

O próprio Alckmin, ao meu ver, não sai muito de São Paulo. O Moro não segura três meses de campanha. É de uma mediocridade total.

Na verdade, eles não têm um nome e, isso se deve ao fato de que eles não têm um projeto para o país. Neste processo do golpe, eles destruíram a política e inclusive os nomes deles.

Quem são as grandes referências que ainda estão aí? Há o Lula que, ao meu ver, crescerá cada vez mais. Além dele, há a Marina, em decadência, que pode crescer no discurso da não política. Tem o Ciro que pode crescer e o Bolsonaro, que pode crescer, mas não ao ponto de ganhar uma eleição. Mas eles irão para uma eleição sabendo que perderão? Acho que, de moto próprio, não irão. Nós teremos força para impor a realização de eleições?

Estamos vivendo uma situação muito complexa porque não há uma hegemonia clara na sociedade. A que existia, no projeto anterior, foi seriamente atingida. Eles construíram algo com valores que não são permanentes e são insuficientes para sustentar um projeto de longo prazo.

O resultado é que eles não tem respostas para os problemas da sociedade. Creio que, no médio prazo, as pessoas vão querer defender aquilo que tiveram, se o nosso lado tiver liderança e projetos que sejam capazes de fazer esse debate na sociedade.

Acho que o Lula vem desempenhando um papel muito positivo nos últimos meses, mas temos um longo e difícil caminho pela frente.

Marco Weissheimer
No Sul21
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Minha cartinha aberta ao Dallagnol:


Meu caro colega Deltan Dallagnol,
"Denn nichts ist schwerer und nichts erfordert mehr Charakter, als sich in offenem Gegensatz zu seiner Zeit zu befinden und laut zu sagen: Nein."
(Porque nada é mais difícil e nada exige mais caráter que se encontrar em aberta oposição a seu tempo e dizer em alto e bom som: Não!)
Kurt Tucholsky
Acabo de ler por blogs de gente séria que você estaria a chamar atenção, no seu perfil de Facebook, de quem "veste a camisa do complexo de vira-lata", de que seria "possível um Brasil diferente" e de que a hora seria agora. Achei oportuno escrever-lhe está carta pública, para que nossa sociedade saiba que, no ministério público, há quem não bata palmas para suas exibições de falta de modéstia.

Vamos falar primeiro do complexo de vira-lata. Acredito que você e sua turma são talvez os que têm menos autoridade para falar disso, pois seus pronunciamentos têm sido a prova mais cabal de SEU complexo de vira-lata. Ainda me lembro daquela pitoresca comparação entre a colonização americana e a lusitana em nossas terras, atribuindo à última todos os males da baixa cultura de governação brasileira, enquanto o puritanismo lá no norte seria a razão de seu progresso. Talvez você devesse estudar um pouco mais de história, para depreciar menos este País. E olha que quem cresceu nas "Oropas" e lá foi educado desde menino fui eu, hein... talvez por isso não falo essa barbaridade, porque tenho consciência de que aquele pedaço de terra, assim como a de seu querido irmão do norte, foram os mais banhados por sangue humano ao longo da passagem de nossa espécie por este planeta. Não somos, os brasileiros, tão maus assim, na pior das hipóteses somos iguais, alguns somos descendentes dos algozes e a maioria somos descendentes das vítimas.

Mas essa sua teorização de baixo calão não diz tudo sobre SEU complexo. Você à frente de sua turma vão entrar na história como quem contribuiu decisivamente para o atraso econômico e político que fatalmente se abaterão sobre nós. E sabem por que? Porque são ignorantes e não conseguem enxergar que o princípio fiat iustitia et pereat mundus nunca foi aceita por sociedade sadia qualquer neste mundão de Deus. Summum jus, summa iniuria, já diziam os romanos: querer impor sua concepção pessoal de justiça a ferro e fogo leva fatalmente à destruição, à comoção e à própria injustiça.

E o que vocês conseguiram de útil neste País para acharem que podem inaugurar um "outro Brasil", que seja, quiçá, melhor do que o vivíamos? Vocês conseguiram agradar ao irmão do norte que faturará bilhões de nossa combalida economia e conseguiram tirar do mercado global altamente competitivo da construção civil de grandes obras de infraestrutura as empresas nacionais. Tio Sam agradece. E vocês, Narcisos, se acham lindinhos por causa disso, né? Vangloriam-se de terem trazido de volta míseros dois bilhões em recursos supostamente desviados por práticas empresariais e políticas corruptas. E qual o estrago que provocaram para lograr essa casquinha? Por baixo, um prejuízo de 100 bilhões e mais de um milhão de empregos riscados do mapa. Afundaram nosso esforço de propiciar conteúdo tecnológico nacional na extração petrolífera, derreteram a recém reconstruída indústria naval brasileira. Claro, não são seus empregos que correm riscos. Nós ganhamos muito bem no ministério público, temos auxílio-alimentação de quase mil reais, auxilio-creche com valor perto disso, um ilegal auxílio-moradia tolerado pela morosidade do judiciário que vocês tanto criticam. Temos um fantástico plano de saúde e nossos filhos podem frequentar a liga das melhores escolas do País. Não precisamos de SUS, não precisamos de Pronatec, não precisamos de cota nas universidades, não precisamos de bolsa-família e não precisamos de Minha Casa Minha Vida. Vivemos numa redoma de bem estar. Por isso, talvez, à falta de consciência histórica, a ideologia de classe devora sua autocrítica. E você e sua turma não acham nada de mais milhões de famílias não conseguirem mais pagar suas contas no fim do mês, porque suas mães e seus pais ficaram desempregados e perderam a perspectiva de se reinserirem no mercado num futuro próximo. Mas você achou fantástico o acordo com os governos dos EEUU e da Suíça, que permitiu-lhes, na contramão da prática diplomática brasileira, se beneficiarem indiretamente com um asset sharing sobre produto de corrupção de funcionários brasileiros e estrangeiros. Fecharam esse acordo sem qualquer participação da União, que é quem, em última análise, paga a conta de seu pretenso heroísmo global e repassaram recursos nacionais sem autorização do Senado. Bonito, hein? Mas, claro, na visão umbilical corporativista de vocês, o ministério público pode tudo e não precisa se preocupar com esses detalhes burocráticos que só atrasam nosso salamaleque para o irmão do norte! E depois fala de complexo de vira-lata dos outros!

O problema da soberba, colega, é que ela cega e torna o soberbo incapaz de empatia, mas, como neste mundo vale a lei do retorno, o soberbo também não recebe empatia, pois seu semblante fica opaco, incapaz de se conectar com o outro.

A operação de entrega de ativos nacionais ao estrangeiro, além de beirar alta traição, esculhambou o Brasil como nação de respeito entre seus pares. Ficamos a anos-luz de distância da admiração que tínhamos mundo afora. E vocês o fizeram atropelando a constituição, que prevê que compete à Presidenta da República manter relações com estados estrangeiros e não ao musculoso ministério público. Daqui a pouco vocês vão querer até ter representação diplomática nas capitais do circuito Elizabeth Arden, não é?

Ainda quanto a um Brasil diferente, devo-lhes lembrar que "diferente" nem sempre é melhor e que esse servicinho de vocês foi responsável por derrubar uma Presidenta constitucional honesta e colocar em seu lugar uma turba envolvida nas negociatas que vocês apregoam mídia afora. Esse é o Brasil diferente? De fato é: um Brasil que passou a desrespeitar as escolhas políticas de seus vizinhos e a cultivar uma diplomacia da nulidade, pois não goza de qualquer respeito no mundo. Vocês ajudaram a sujar o nome do País. Vocês ajudaram a deteriorar a qualidade da governação, a destruição das políticas inclusivas e o desenvolvimento sustentável pela expansão de nossa infraestrutura com tecnologia própria.

E isso tudo em nome de um "combate" obsessivo à corrupção. Assunto do qual vocês parecem não entender bulhufas! Criaram, isto sim, uma cortina de fumaça sobre o verdadeiro problema deste Pais, que é a profunda desigualdade social e econômica. Não é a corrupção. Esta é mero corolário da desigualdade, que produz gente que nem vocês, cheios de "selfrightousness", de pretensão de serem justos e infalíveis, donos da verdade e do bem estar. Gente que pode se dar ao luxo de atropelar as leis sem consequência nenhuma. Pelo contrário, ainda são aplaudidos como justiceiros.

Com essa agenda menor da corrupção vocês ajudaram a dividir o País, entre os homens de bem e os safados, porque vocês não se limitam a julgar condutas como lhes compete, mas a julgar pessoas, quando estão longe de serem melhores do que elas. Vocês não têm capacidade de ver o quanto seu corporativismo é parte dessa corrupção, porque funciona sob a mesma gramática do patrimonialismo: vocês querem um naco do estado só para chamar de seu. Ninguém os controla de verdade e vocês acham que não devem satisfação a ninguém. E tudo isso lhes propicia um ganho material incrível, a capacidade de estarem no topo da cadeia alimentar do serviço público. Vamos falar de nós, os procuradores da república, antes de querer olhar para a cauda alheia.

Por fim, só quero pontuar que a corrupção não se elimina. Ela é da natureza perversa de uma sociedade em que a competição se faz pelo fator custo-benefício, no sentindo mais xucro. A corrupção se controla. Controla-se para não tornar o estado e a economia disfuncionais. Mas esse controle não se faz com expiação de pecados. Não se faz com discursinho falso-moralista. Não se faz com o homilias em igrejas. Se faz com reforma administrativa e reforma política, para atacar a causa do fenômeno é não sua periferia aparente. Vocês estão fazendo populismo, ao disseminarem a ideia de que há o "nós o povo" de honestos brasileiros, dispostos a enfrentar o monstro da corrupção feito São Jorge que enfrentou o dragão. Você e eu sabemos que não existe isso e que não existe com sua artificial iniciativa popular das "10 medidas" solução viável para o problema. Esta passa pela revisão dos processos decisórios e de controle na cadeia de comando administrativa e pela reestruturação de nosso sistema político calcado em partidos que não merecem esse nome. Mas isso tudo talvez seja muito complicado para você e sua turma compreenderem.

Só um conselho, colega: baixe a bola. Pare de perseguir o Lula e fazer teatro com PowerPoint. Faça seu trabalho em silêncio, investigue quem tiver que investigar sem alarde, respeite a presunção de inocência, cumpra seu papel de fiscal da lei e não mexa nesse vespeiro da demagogia, pois você vai acabar ferroado. Aos poucos, como sempre, as máscaras caem e, ao final, se saberá que são os que gostam do Brasil e os que apenas dele se servem para ficarem bonitos na fita! Esses, sim, costumam padecer do complexo de vira-lata!

Um forte abraço de seu colega mais velho e com cabeça dura, que não se deixa levar por essa onda de "combate" à corrupção sem regras de engajamento e sem respeito aos costumes da guerra.

Eugênio Aragão
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CLT: a história dos direitos que vão assassinar


Informa-se que o Usurpador dará como presente aos brasileiros, antes mesmo do Natal, o assassinato da Consolidação das Leis do Trabalho, promulgada há 73 anos.

A nova legislação permitirá a anulação de quase todos os direitos conquistados nos últimos 113 anos, incluindo a jornada de oito horas diárias, o regime de férias e a integridade dom 13° salário.

Na oportunidade, resenhei um breve histórico dos direitos que a canalha no poder dispõe-se a nos retirar. Os dados são oficiais:

“No fim do Império, em 1889, existiam 55 mil operários — a maioria imigrantes — trabalhando em pequenas oficinas e poucas fábricas de grande porte. Com os imigrantes, começa a se formar o que viria a ser a classe operária brasileira. O auge da primeira fase da imigração vai de 1870 a 1914, ano do início da I Guerra Mundial. Só de italianos, o Brasil recebeu, entre 1884 e 1903, mais de um milhão.

A primeira das leis promulgadas sobre as relações de trabalho é de 1903. O Decreto 979 concedia aos trabalhadores da agricultura e de empresas rurais o direito de organizarem-se em sindicatos.

Em 1907, o decreto 1.637 garante a sindicalização aos trabalhadores urbanos.

Em 1919 é promulgada uma lei de proteção a acidentados no trabalho e, em 1923, apareceram as normas para a instituição das caixas de pensão destinadas a ferroviários. Surge também um dispositivo que buscava disciplinar o emprego de menores de 18 anos.

As reivindicações mais comuns eram o aumento de salários, a redução de jornada — trabalhava-se de 12 e mais horas diárias —, o fim da exploração de menores e mulheres e a melhoria das condições gerais de trabalho.

Em 1930, à frente de uma revolução, assume o governo Getúlio Vargas, com duas metas iniciais: recuperar a economia cafeeira e disciplinar a organização do mundo do trabalho. Começava a maior ruptura institucional brasileira desde a Independência. A partir dali, o Estado nacional seria reformulado, o país marcharia por um processo acelerado de industrialização e as relações entre as classes sociais mudariam.

A nova administração criaria direitos sociais em escala e amplitude inéditos. Ao mesmo tempo, implantava, aos poucos, um governo ditatorial em meio a fortes tensões políticas.

Poucas semanas depois de assumir o poder, em 26 de novembro de 1930, Getulio Vargas cria o Ministério do Trabalho Indústria e Comércio. Em março de 1931, é promulgada a primeira lei sindical brasileira, o Decreto 19.770., com o objetivo de tornar as organizações sindicais de empresários e de trabalhadores órgãos de colaboração do Estado.

Em 1933, Vargas aprova a concessão de férias anuais aos trabalhadores de comércio e bancos, estendida, mais tarde, a outras categorias. Inicia-se a montagem da previdência social e proíbe-se o trabalho para crianças menores de doze anos.

No ano seguinte, uma nova Constituição foi aprovada. Ela consagrava — no capítulo “Ordem Econômica e Social” — vários parágrafos relativos à organização e aos direitos do trabalhador, como salário mínimo, férias e descanso semanal remunerado. Em 1935, nova lei garantia a estabilidade no emprego, estipulando indenização aos assalariados demitidos sem justa causa.

Em 1º de maio de 1940, o governo atende a uma antiga reivindicação dos trabalhadores, a criação de um salário-mínimo nacional. Finalmente, em maio de 1943, todo o conjunto de leis, decretos e normas existentes é sistematizado na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ela se voltaria basicamente para três questões: os direitos do trabalhador, a organização sindical e a Justiça do Trabalho.”

Nilson Lage
No Tijolaço
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Pesquisa Vox Populi: Lula é imbatível!

Quanto mais o Moro bate...

Dallagnol, não é convicção, não! Essa faixa tem dono!
Via CUT/Vox Populi:

LULA, o mais admirado e o melhor presidente do Brasil, é imbatível nas urnas, no primeiro e no segundo turnos, em 2018.

É isso o que a pesquisa CUT/Vox Populi realizada entre os dias 10 e 14 de dezembro, em 168 municípios do Brasil, confirmou.

Quem é o melhor presidente do Brasil? - perguntou a CUT/Vox ao povo. 43% cravaram o nome de Lula. Só 13% escolheram FHC.

E quem você admira/gosta muito? Deu Lula de novo, com 33%. Para Aécio Neves (PSDB-MG), sobraram meros 8%. Já a Geraldo Alckmin (PSDB-SP), seu desafeto, conseguiu um ponto a mais, 9%.

Detalhe importante, 96% dos brasileiros responderam que ficaram sabendo que Lula foi indiciado pelos procuradores da Operação Lava Jato.

Para o presidente da CUT, os resultados da pesquisa CUT/Vox mostram que “os brasileiros, mesmo os mais pobres e simples, têm discernimento, refletem e julgam racionalmente, não se deixam influenciar pela avalanche de denúncias sem provas e sensacionalismo da mídia conservadora”.

É o que mostram também as respostas espontâneas e estimuladas sobre as eleições para presidente da República de 2018. Lula está à frente de todos os concorrentes em todas as simulações feitas no primeiro e no segundo turnos.

Lula tem 31% das intenções de voto espontâneas.

Bem atrás vem Aécio, com 5%; Marina Silva (Rede-AC), 4%; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), 3%; e Alckmin, com 2%.

Na estimulada, Lula também ganha de todos.

Tem 37% contra Aécio, o mineirinho, que atinge 13%; tem 38% contra Alckmin, o santo, que atinge 12%; Marina atinge somente 10%.

Nas simulações de segundo turno, Lula também está à frente de todos.

Tem 43% contra Aécio (20%); 45% contra Alckmin (20%) e 42% contra a Marina, que tem 21% das intenções de votos para 2018.

A pesquisa Datafolha, de 7 e 8 de dezembro, colocou Marina com estratosféricos 43% no segundo turno de 2018. Segundo o instituto da família Frias, contra Marina, Lula teria apenas 34%.

O legado de Lula pode ser boicotado pelos meios de comunicação, mas o povo não esquece. As críticas a ele e muitas das convicções dos denunciantes não afetam o que é mais relevante: Lula acertou mais do que errou.

Para a CUT/Vox, 56% dos brasileiros disseram que Lula fez mais coisas certas do que erradas (35%). E 58% dos entrevistados disseram que suas vidas melhoraram nos governos do PT.

No CAf
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Xadrez do pacote econômico alternativo


Corre no Senado um estudo, ainda em análise pela liderança da oposição, que, pela primeira vez, traça um diagnóstico realista da crise e das medidas para impedir o aprofundamento da recessão.

O pacote é interessante por dois motivos.

O primeiro, por abordar de forma objetiva razões e saídas para a crise. O segundo por demonstrar claramente a influência de ideologia nas formulações econômicas.

A boa gestão econômica consiste em uma análise objetiva da realidade, um diagnóstico preciso e o uso das ferramentas necessárias para enfrentar os problemas que se apresentam. Nenhum dos instrumentos óbvios para superar a crise é acenado pela equipe econômica, porque afronta a ideologia a que ela está atrelada.

Na gestão do dia-a-dia da economia, os grandes economistas se destacaram pelo pragmatismo. O viés ideológico se apresenta em questões pontuais, até no desenho de um modelo futuro de economia. Não na administração dos problemas imediatos, especialmente quando a economia enfrenta crises graves: nas contas externas, quando a inflação sai do controle ou, como agora, quando a economia ameaça mergulhar em depressão.

Celso Furtado e Raul Prebisch – principais nomes da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina), teóricos da industrialização – aplicaram planos de estabilização convencionais para enfrentar a inflação. Pai da ortodoxia econômica, Eduardo Gudin defendia uma maxidesvalorização cambial (seguida da unificação do câmbio) para dotar o Brasil dos anos 50 da mesma competitividade recém-adquirida pela Coreia. Outro ícone do liberalismo, Roberto Campos, defendeu a encampação de empresas elétricas estrangeiras, quando se deu conta de que não teriam condições de investir para acompanhar o desenvolvimento brasileiro.

Hoje em dia, a discussão econômica virou conversa de botequim e de editorias de economia de jornais. Alguém diz que a equipe econômica é competente, ou que determinados baluartes da escola econômica A ou B são brilhantes. A Globonews diz e o Ministro Luís Roberto Barroso repete. E, como ele, a multidão dos homens massa, que se guia apenas pelos slogans.

Em outros tempos, media-se o conhecimento de um economista pelo currículo Lattes, pelas obras acadêmicas, pelas grandes descobertas teóricas, pelo conhecimento multidisciplinar. Hoje em dia, é pelo espaço em jornais e programas de TV e pela capacidade de repetir bordões de boa procedência.

Qualquer economista de fôlego, independentemente da linha de pensamento seguida, não sairia muito das medidas propostas pelo pacote, descritas abaixo. Mas a guerra ideológica transforma em anátema mesmo medidas essenciais. Ela se manifesta na questão tributária – nas discussões sobre quem paga a conta -, na questão orçamentária – quem se apropria do orçamento público.

Vamos a um apanhado das medidas propostas pelo pacote e os obstáculos de ordem ideológica.

Introdução – o diagnóstico da crise

Sobre o falso diagnóstico da crise

Os defensores da PEC 55 argumentam que a piora nos indicadores fiscais decorre de um aumento descontrolado da despesa pública e que o resultado fiscal levou à queda do nível de atividade. Foi a piora no crescimento econômico que levou a uma piora no resultado fiscal e tal piora não decorreu de um aumento descontrolado da despesa, mas sim de uma queda da receita.

Essa dinâmica nos colocou em um círculo vicioso, onde novos cortes de despesa só têm piorado os resultados fiscais.

Sobre as causas reais da crise

As razões do baixo crescimento estão na queda de investimentos da Petrobras, na quebra de grandes, médias e pequenas empresas da construção civil; no corte dos investimentos da União, dos Estados e dos municípios e, finalmente, da redução de crédito por parte dos bancos públicos.

Estes fatos, em conjunto, provocaram a redução do emprego e da renda e, em consequência, da demanda. A queda de atividade econômica em geral fez cair a arrecadação tributária e aumentar o déficit.

O governo de Michel Temer aumentou os juros e contraiu as despesas públicas o que agravou a crise das empresas e do emprego e fez cair as receitas tributárias e aumentar o déficit fiscal. Enquanto isto, os ganhos do setor financeiro aumentaram vertiginosamente.

Sobre o cenário econômico

Não há, no cenário próximo, qualquer ambiente de recuperação do crescimento e o crescimento do PIB do 3º trimestre só reforça esse entendimento.

A queda do PIB no terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior foi de 0,8%, uma queda maior do que a dos dois trimestres anteriores, 0,5 e 0,4%, no 1º e 2º trimestres respectivamente.

Quanto à confiança, a partir de maio, o mercado passou a melhorar as expectativas negativas de crescimento da economia brasileira, mas, desde outubro, as expectativas tanto para 2016 quanto 2017 têm caído a cada semana.

Estamos vivendo uma das piores recessões da nossa história e sem perspectiva de melhora. E o que o governo tem feito: aumentado o ajuste fiscal e amarrado as mãos do setor público pelos próximos 20 anos.

Os programas anunciados para retomar o crescimento, como o cartão reforma e concessões, são pífios em termos de impacto macroeconômico. No caso das concessões, sem resolvermos o problema das empresas do setor de construção, não há saída.

A crença de que a aprovação de uma lei irá levar a uma onda de investimentos, quando há uma grande ociosidade da capacidade já instalada, só pode ser mesmo por uma crença em algo fora do normal (“fada da confiança”).

Proposta 1 - Proteger os trabalhadores

Estimular o crescimento da renda dos salários e o investimento público em programas sociais em habitação, emprego e transferência de renda para os mais pobres.

·      Aumento real do salário mínimo

É preciso ampliar o salário mínimo em termos reais, pois os trabalhadores que recebem salário mínimo têm uma propensão a gastar tudo o que ganham, estimulando a economia.

Observação: se no agregado o princípio acima está correto, no desagregado, não. Há um impacto do aumento em toda a cadeia de salários, afetando setores que não conseguirem os ganhos de produtividade e de escala proporcionais aos aumentos salariais. Se não vier acompanhado de uma política cambial competitiva, tende a impactar também as exportações. Daí a necessidade de estar inserido em uma política maior de emprego e renda.

·      Aumentar o Bolsa Família e qualificar as famílias beneficiárias

É importante o reajuste de 20% nos valores do Bolsa-Família e alterar a faixa de pobreza (renda familiar per capita) do Bolsa Família para incorporar mais famílias, assim como, ampliar a política de formação profissional visando o emprego para os beneficiários do programa Bolsa Família. Instituição do 13º no programa Bolsa Família.

·      Programa de investimento em obras sociais nas regiões da seca no Nordeste

Essas obras têm alto potencial de empregar a população, além de ampliar a qualidade de vida da população.

Observação: frentes de trabalho sempre se constituíram em saídas lógicas para a crise. O New Deal é um exemplo.

·      Ampliação do Programa Minha Casa, Minha Vida

Retomar as obras destinadas à faixa de rendimentos mais baixos do programa, que estão paralisadas, a que compreende o maior subsídio e ampliam o patrimônio, além de instituir plano para financiamento a longo prazo de reformas residenciais.

·      Aumentar as parcelas do benefício do seguro desemprego

Há uma previsão legal para ampliar as parcelas em momento de alto desemprego. Em 2009, essa previsão foi utilizada com muito sucesso.

Proposta 2 - fortalecer as empresas brasileiras

·      Linhas emergenciais do BNDES para refinanciamento de dívida e capital de giro

Ao invés de devolver os R$ 100 bilhões para o Tesouro, o BNDES deveria fazer, como em 2009/2010, uma linha de crédito de giro e renegociar as dívidas das empresas em pior situação financeira.

Observação – o ideal é amarrar uma operação envolvendo também o setor privado, com o BNDES atuando como agente coordenador e indutor.

·      Recuperar as empresas de construção civil

É preciso urgentemente separar o tratamento da pessoa jurídica daquele à pessoa física, por meio de acordos de leniência e outras medidas, para permitir que esse setor volte a ser dinâmico e empregador.

Observação – funciona desde que o governo recupere a capacidade de investimento.

·      Câmbio competitivo

Recentemente, tínhamos voltado a ter um câmbio competitivo, mas tudo indica que novamente o BC voltou a utilizar esse artifício, mantendo enormes diferenciais de taxas de juros em relação ao resto do mundo. E o que é mais grave, não há, para os empresários, qualquer forma de prever a trajetória cambial. É preciso, portanto, estabilizar o câmbio em patamares mais competitivos, garantindo competitividade e previsibilidade para as empresas. 

Observação – o trabalho evita abordar a questão estrutural do controle de fluxos de capitais.

·      Reduzir as taxas de juros básicas e às empresas

Não há qualquer incentivo à atividade produtiva com taxas básicas de juros reais próximas a 6%, ainda mais quando o custo de crédito às empresas é proibitivo. Diante do cenário de convergência da inflação para meta e da forte recessão, é importante se reduza rapidamente as taxas de juros e que se controle os spreads no crédito, principalmente para capital de giro.

Observação – Há um burocrata alucinado no comando do Banco Central. Com a economia caminhando para a recessão, a única flexibilidade sussurrada é a de aumentar o ritmo de redução da taxa Selic para 0,5 ponto por trimestre.

·      Fortalecer o BB e expandir o crédito agrícola para investimento e com refinanciamento de dívidas

Um aumento das linhas de crédito, em especial para investimento, permitiria uma recuperação dos investimentos estimulando o setor de máquinas e implementos agrícolas. Para os agricultores mais endividados, poderia ser feito uma renegociação das dívidas para recuperar a capacidade de voltarem a expandir a produção.

·      Apoiar os setores de alta tecnologia e defesa

O Brasil possui setores de ponta tecnológica na cadeia de petróleo e gás, eletroeletrônica, biotecnologia e equipamentos de defesa. Essas são as indústrias nacionais de maior valor agregado e que precisam ser estimuladas, principalmente, por compras públicas e recuperação do setor de petróleo e gás.

Proposta 3 - recuperar a capacidade de investimento do Estado

·      Aumento da carga tributária por meio de tributação progressiva

É preciso uma medida emergencial de aumento da carga tributária, apenas para recompor as perdas dos últimos anos. Se voltarmos ao nível pré-crise, 2008, já recuperaríamos a capacidade de investimento do Estado brasileiro. Esse aumento deve ser feito sobre aqueles que, apesar de sua alta renda, não pagam imposto, tais como a taxação de lucros e dividendos e o fim da isenção tributária de juros sobre capital próprio.

Observação  - a CPMF seria a linha de menor resistência para um plano emergencial. Tributação progressiva nesse momento é apenas livre-pensar. Não há força política nem para medidas de menor impacto.

·      Aumento da carga tributária por meio de combate à sonegação e recuperação de dívida ativa

Acelerar as medidas de combate à sonegação e recuperação da dívida ativa para ampliar a arrecadação sobre aqueles que devem ao Estado brasileiro. Estima-se R$ 500 bilhões de sonegação e a dívida ativa está em torno de R$ 1,3 trilhão.

Observação – em geral, de baixa eficácia. Na dívida ativa entram empresas em liquidação ou que já desapareceram. Com a crise, nem os parcelamentos estão sendo honrados.

·      Meta fiscal para o crescimento econômico

É preciso urgentemente estabelecer uma nova regra fiscal que seja ajustada ao ciclo econômico para evitar o caráter pró-cíclico da política fiscal, crescimento dos gastos na expansão e cortes na recessão. Com essa nova regra, seria possível estabelecer um plano de médio prazo para estabilização da dívida pública que permitiria metas mais baixas nesse período de baixo crescimento econômico, que, combinadas com aumento da carga tributária, recuperariam a capacidade de investimento do setor público, o grande dinamizador do crescimento.

Observação – medida de racionalidade econômica, mas de ordem estrutural. Seria um bom contraponto a essa maluquice da PEC 55.

·      Redução dos encargos da dívida pública

Para garantir uma taxa de juros real, próxima aos nossos vizinhos, em torno de 2 a 3% real, deveríamos instituir o duplo mandato do Banco Central e alterar o sistema de metas de inflação para ampliar o período de cumprimento da meta e mudar o método de cálculo para ao invés de IPCA cheio, estabelecer meta para o núcleo de inflação.

Observação – duplo mandato significa definir metas de inflação e de emprego para o Banco Central. No entanto, a manutenção do sistema de metas inflacionárias – ainda que mitigado – é uma temeridade. Trata-se de um sistema que tem imposto custos altíssimos para o país e de eficácia duvidosa, conforme atestam inúmeros trabalhos acadêmicos.

·      Fundo Nacional de Desenvolvimento e Emprego

Esse fundo seria destinado a obras de infraestrutura, saneamento, habitação, Petrobrás, mobilidade urbana, energia renovável. Há várias fontes para isso, como os R$ 100 bilhões que o BNDES irá devolver, o FGTS que irá reduzir a multa e vai passar parte do lucro para os trabalhadores poderia adiar essa medida e utilizar esses recursos para investimentos. E ainda se poderia pensar em utilizar parte das reservas internacionais

Proposta 4 - Investimento em infraestrutura

·      Concluir com urgência absoluta a Transposição do São Francisco

As secas prolongadas, cada vez mais, são uma triste perspectiva para o Nordeste em razão das mudanças climáticas. A economia e a vida social moderna das suas grandes cidades e de suas regiões de agricultura irrigada poderá ficar inviabilizada se essa obra não for concluída até meados de 2017

Observação – sem reduzir a relevância da obra, parece mais uma isca para atrair as bancadas nordestinas.

·      Recuperar e duplicar as principais rodovias de acesso a todas as capitais e principais cidades brasileiras

A razão dessa medida é econômica, social e humanitária. Ela tem o poder de diminuir êxodo populacional e o congestionamento das grandes cidades em favor das regiões mais próximas, reduzir o custo e tempo de transporte e reduzir significativamente as mortes nas estradas.

·      Redução o custo de energia elétrica

A energia elétrica brasileira é a mais cara do mundo entre os grandes países em desenvolvimento. É o dobro ou o triplo do custo de alguns concorrentes internacionais, apesar do custo de geração médio brasileiro ser um dos menores do mundo, graças à predominância de fontes hidroelétricas. A razão disso é o ineficiente modelo de regulação. A solução é adotar o modelo de regulação pelo custo, usado na maioria dos estados norte-americanos e na maior parte mundo.

Observação – proposta estrutural importante, mas para um segundo momento.

·      Expandir a produção de energia elétrica focada em energias renováveis baratas

Temos os menores custos em potencial do mundo para produção de energia renovável principalmente eólicas, solar (que está barateando internacionalmente e aproveitando que Brasil tem uma combinação única de insolação, alto consumo, ampla rede de transmissão e perfeita complementariedade com o sistema hidroelétrico de grandes reservatórios) e bioeletricidade (queima de subprodutos da agroindústria e lixo)

Observação – misturam-se propostas de política industrial com programa de estabilização.

·      Completar as obras ferroviárias de integração nacional

Estão paradas as obras das ferrovias Norte-Sul, Transnordestina, leste-oeste entre outras. Elas são fundamentais para reduzir o custo de transporte e de alimentação em todo o país. Elas podem gerar milhões de empregos em razão da maior competitividade que proporcionam a indústria e a agricultura

Proposta 5 - Salvar a Petrobrás e o Pré-Sal

·      Concluir as obras paradas da Petrobrás, especialmente plataformas e refinarias

Parar centenas de obras quase concluídas foi o grande erro do país nos últimos anos. Equipamentos de bilhões de dólares estão se enferrujando, a empresa está deixando de faturar centenas de bilhões de reais acumulados por não ter investido uma pequena fração disso para concluir essas obras e equipamentos. O primeiro passo será a realização de um acordo de leniência.

Observação – medida de efeito imediato, inclusive para reverter expectativas;

·      Reestruturar a dívida em moeda nacional e estrangeira da Petrobrás

No caso das dívidas em moeda estrangeira, basta que os bancos públicos, como agentes do Banco Central, usem as reservas cambiais para comprar esta dívida, que possui taxas de juros até 10 vezes superiores ao rendimento dessas reservas.

·      Impedir e reverter a fragmentação, destruição e privatização da Petrobrás

Estabelecer regras na legislação que impeçam a privatização disfarçada e a preços vis de ativos da Petrobrás e a entrega de blocos gigantes do Pré-Sal, que estão sendo realizadas por este governo

·       Fortalecer a política de conteúdo nacional e compras da Petrobras

Nos últimos 2 anos, centenas de milhares de empregos foram perdidos nas empresas que fornecem à Petrobrás. Vamos restabelecer e reformular os programas de conteúdo nacional.

·      adequação da tributação federal sobre a exploração do pré-sal

A tributação sobre a exploração de petróleo no Brasil é certamente uma das menores do mundo entre os países exportadores. Os parâmetros internacionais de tributação para campos equivalentes é superior a 75% para o óleo-lucro. É possível fortalecer o financiamento da educação brasileira por meio da adequação da tributação federal sobre a exploração do pré-sal. Essa medida permitirá cumprir o objetivo histórico de financiar o investimento de 10% do PIB em educação e, assim, termos educação gratuita de Primeiro Mundo para todos os brasileiros.

Proposta 6 - Salvar estados e Municípios

·      Renegociação das dívidas dos estados e plano emergencial

Há consenso que a taxas de juros que vigoraram sobre a dívida dos estados foi abusiva e que é preciso renegociá-la. O projeto aprovado no Senado Federal está exigindo contrapartidas que irão colocar os estados na mesma trajetória de medidas recessivas da PEC 55 e da desestatização. Portanto, uma solução importante é garantir o recurso, sem condicionalidade.

·      Rateio da multa da repatriação sem condicionalidades (tipo FMI)

A arrecadação com repatriação foi de quase R$ 50 bilhões, dos quais apenas ¼ irá para estados e municípios. Uma forma de aumentar rapidamente o repasse para eles é também repassar parte da multa (50% do valor arrecadado). No entanto, para isso, o governo está exigindo contrapartidas que irão colocar os estados na mesma trajetória de medidas recessivas da PEC 55. Portanto, uma solução importante é garantir o recurso, sem condicionalidade. Ainda assim, o recurso da multa não será suficiente e deveria ser complementado por:

a)     Crédito para estados e municípios mais ricos

b)     Repasse a fundo perdido para estados e municípios mais pobres

·      Adequar a tributação estadual sobre o Petróleo e outros minerais

Aumentar os royalties do petróleo de 15% para 20%. 2,5% ficariam para os estados produtores; 2,5% seriam divididos entre todos os demais, segundo as regras do FPE, caso o petróleo fique abaixo de 55 dólares. Esses 5% de aumentos dividido para os estados não-produtores, segundo o FPE, caso o petróleo fique acima de 55 dólares. Reestabelecimento do princípio constitucional que estabeleceu o ICMS de até 13% para exportação de matérias primas minerais em estado bruto (25% vai para os municípios). Para tornar os estados produtores mais preparados para as oscilações dos preços do petróleo e os estados não-produtores melhor atendidos em termos de justiça federativa

Luís Nassif
No GGN
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Duas partes

Ludwig Wittgenstein, o austríaco naturalizado britânico que muitos consideram o principal filósofo moderno (morreu em 1951) publicou apenas um livro de filosofia em vida, o Tractatus Logico-Philosophicus, mas foi o autor de frases e aforismos que também ficaram. Ele escreveu que as fronteiras da sua linguagem eram as fronteiras do Universo, e que o que se pode dizer deve ser dito claramente, o que não se pode falar deve ficar no silêncio. Mas se contradisse em um texto que escreveu sobre o seu Tractatus: “Meu trabalho consiste em duas partes, uma a apresentada no livro, outra a que eu não escrevi. E é precisamente este segunda parte que é importante”. Pronto: escritores e principalmente cronistas tem a bênção de Wittgenstein para sua ambição secreta, que é de serem entendidos não pelo que escrevem, mas pelo que deixam de escrever. Todos os nossos textos são tratados filosóficos, nas estrelinhas. O que aparece impresso é apenas a parte menos importante.

Wittgenstein era um crítico feroz de quem considerava seus inferiores. Foi ele quem disse que a poesia de Rilke era venenosa e causava indigestão. Um contemporâneo do filósofo declarou que uma conversa com ele era como viver o dia do Juízo Final. Não era mole, nosso patrono.

* * *

Fui ao programa do Jô algumas vezes. Ele sempre contava que tinha ido almoçar na nossa casa em Porto Alegre e que, quando me perguntou há quanto tempo morávamos ali, respondi “mais de 50 anos”, e quando perguntou quantos quartos tinha na casa — eu não sabia! A primeira vez que fui ao programa do Jô ainda era no SBT e os outros convidados eram o Luís Carlos Prestes e o Lula.

Não sei por que eu estava naquela companhia, talvez porque também era um Luis. Enquanto esperávamos o início do programa, comentei com o Lula que era amigo do Marco Aurélio Garcia. “Grande figura” disse o Lula. Virei para o Prestes e comentei que um tio do meu pai, Nestor Verissimo, tinha participado da Coluna Prestes. “Grande figura”, disse o Prestes. O papo não prosperou. E ainda dizem que eu não sou de puxar conversa.

O Luís Carlos Prestes já morreu, eu ainda não, mas que fim levou o Lula?

Luís Fernando Veríssimo
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