19 de dez de 2016

Assim a Globo derrubou a Dilma

E a Dilma engordou a Globo



Como a Rede Globo manipulou o impeachment da presidente do Brasil, Dilma Rousseff

Estudo mostra como o jornal O Globo e o Jornal Nacional demonizaram e deslegitimaram de maneira sistemática a então presidente Dilma Rousseff.

Por Teun A. van Dijk - Universidade Pompeu Fabra, Barcelona

Resumo

O presente artigo tem como objetivo demonstrar que o impeachment da ex-presidente do Brasil, Dilma Rousseff, ocorrido em 2016, resultou de um golpe orquestrado pela elite oligárquica e conservadora contra o Partido dos Trabalhadores, que estava no poder desde 2002, no qual a imprensa de direita brasileira desempenhou um papel determinante ao manipular a opinião pública, além dos políticos que votaram contra Dilma. Destaca-se o envolvimento do poderoso conglomerado midiático Organizações Globo que, utilizando-se de seus veículos de comunicação, como o jornal O Globo e o noticiário televisivo de mais alta audiência no país, o Jornal Nacional, demonizou e deslegitimou de maneira sistemática a então presidente Dilma, o ex-presidente Lula e o PT em suas reportagens e editoriais ao seletivamente associá-los à corrupção disseminada e culpá-los pela séria recessão econômica. Após um resumo desse contexto sociopolítico, e uma breve definição de manipulação, serão analisadas algumas das estratégias de manipulação empregadas pelos editoriais do jornal O Globo, no período que compreende março e abril de 2016.

Introdução

Em 31 de agosto de 2016, o Senado brasileiro votou a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff, pois ela teria feito ajustes no orçamento nacional por meio de operações financeiras “ilegais”. Tal fato ocorreu após meses de debate nacional acirrado, travado na grande imprensa, na internet e na Câmara dos Deputados. Após os bem-sucedidos oito anos de governo de seu mundialmente famoso antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva (Lula), e quatro anos de seu primeiro mandato, Dilma foi re-eleita em 2014, com uma vitória apertada, mas uma taxa de aprovação geral de 60%. 

Como explicar que, em 2016, sua taxa de aprovação caiu drasticamente e mais de dois-terços da Câmara e do Senado decidiram acusá-la e condená-la por uma prática financeira comum entre seus antecessores?

Neste artigo, mostro que esse impeachment foi resultado de uma enorme manipulação feita pelas Organizações Globo, o maior conglomerado midiático do país, voz da classe-média conservadora e, de maneira mais geral, representante da elite oligárquica conservadora brasileira.

Juntamente com outros jornais e revistas, o jornal O Globo e, especialmente, a Rede Globo, com seu Jornal Nacional, o noticiário televisivo mais assistido no país, aumentaram de maneira acentuada, desde 2012, seus ataques a Lula, Dilma eu seu partido, o Partido dos Trabalhadores (ver Souza, 2011). A imprensa seletivamente os culpou pela pior crise econômica enfrentada pelo país em décadas, além de acusá-los de corrupção, como ocorreu no caso da Petrobrás.

A campanha midiática, exacerbando o descontentamento geral com relação à corrupção política disseminada e o ressentimento da direita contra a coalizão de esquerda liderada pelo PT, instigou, em março de 2016, enormes protestos feitos pela classe média conservadora. Nesse contexto sociopolítico, o parlamento usou as operações financeiras realizadas por Dilma Rousseff como pretexto para por fim em 13 anos de governo petista. 

Apesar de não ser nada surpreendente o fato de uma imprensa conservadora criticar um governo e uma presidente de esquerda, uma análise sistemática dos editoriais do jornal O Globo, publicados entre março e abril de 2016, mostra que a opinião pública, os protestos, e a subsequente decisão política tomada foram manipuladas por uma cobertura parcial e deturpada. Tratarei deste assunto com mais detalhe após um apresentar um resumo da teoria da manipulação, dentro do arcabouço da nossa abordagem multidisciplinar e sociocognitiva dos Estudos Críticos do Discurso.

Limitações

Há muitos elementos que, infelizmente, não são apresentados neste artigo. Em primeiro lugar, apenas ofereço um resumo de algumas propriedades teóricas da manipulação, e não uma nova teoria ou resenha de pesquisas anteriores sobre o tema – o que demandaria um estudo muito mais volumoso, um livro. Em segundo lugar, para entender os editoriais de O Globo, seria necessária uma seção dedicada ao contexto sociopolítico brasileiro, à grande imprensa brasileira e, especialmente, às Organizações Globo.

O contexto sociopolítico no Brasil

O impeachment da ex-presidente Rousseff (comumente chamada somente pelo primeiro nome, Dilma, conforme o costume brasileiro – refere-se a políticos e outros famosos da mesma maneira) deve ser analisado dentro de um contexto sociopolítico complexo de polarização entre a esquerda, liderada pelo PT, e a direita, liderada pelo PSDB (um dos partidos da oposição na época), cujo candidato, José Serra, perdeu as eleições de 2010 para Dilma (para análise a respeito do recente contexto sociopolítico do impeachment, ver, p.ex. Jinkings, Doria & Cleto, 2016; Souza, 2016; para um histórico político mais geral, ver, p.ex., Power, 2000; Hunter, 2010).

Desde a eleição do ex-presidente Lula em 2002, sua re-eleição em 2006 até os dias de hoje, a direita brasileira, em geral, e a imprensa, em particular, buscam deslegitimar tanto a ele quanto ao PT, apesar do sucesso espetacular e internacionalmente reconhecido que obtiveram na luta contra a pobreza, com as políticas do Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida – destinadas à população de baixa renda. Essa oposição se tornou mais evidente com a eleição de sua sucessora Dilma Rousseff, em 2010 e, especialmente, após sua re-eleição em 2014, quando ela ganhou (por pouco) do candidato da oposição Aécio Neves, do PSDB.

As políticas progressistas do PT e partidos aliados contribuíram para tirar milhões de brasileiros da pobreza e para aumentar a fama de Lula – motivos suficientes para gerar ressentimento entre partidos, políticos e mídia conservadores e neoliberais (ver Hunter, 2010). Além disso, em 2005, o PT – entre outros partidos – esteve envolvido no escândalo do Mensalão, um esquema de corrupção para compra de votos favorecendo propostas do governo. Apesar do envolvimento de outros partidos no escândalo do mensalão, a mídia seletivamente colocou seu foco no PT e nos políticos do PT, além do próprio Lula.

A intensidade dos editoriais e a parcialidade das reportagens do jornal O Globo em 2016 não devem ser explicadas apenas em termos da oposição ideológica, ou partidária, entre a direita e a esquerda. De diferentes maneiras, o discurso da direita e o da mídia demonstra um profundo ódio contra Lula, não apenas porque ele era a pessoa-símbolo do PT enquanto inimigo político, por causa de sua fama internacional e do sucesso de seus programas sociais, ou mesmo da corrupção da qual o PT participou, assim como os demais partidos. Conforme também mostrarei em nossa análise do discurso, há também uma questão de profundo ressentimento de classe, em um país com uma profunda e resiliente desigualdade social (e racial). Lula sempre foi visto pela elite (branca) conservadora como o metalúrgico pobre que conseguiu ganhas as eleições de 2002, finalmente derrotando o PSDB – o último presidente eleito pelo partido foi Fernando Henrique Cardoso (FHC), um conhecido professor de sociologia da Universidade de São Paulo. Em 2014, o candidato tucano Aécio Neves, ex-governador do estado de Minas Gerais, perdeu as eleições para Dilma.

Durante a presidência de Dilma Rousseff, a história se repetiu em um escândalo de corrupção muito maior (às vezes chamado de “Petrolão”) na estatal petrolífera Petrobras, além de outras grandes empresas, como a empreiteira Odebrecht, acusada de pagar propinas a políticos e partidos. A investigação desse escândalo de corrupção, chamada Operação Lava-Jato, foi (e ainda é) uma operação enorme que levou diversos empresários conhecidos, além de políticos de diversos partidos (ver verbete da Wikipedia sobre a Lava-Jato) a serem processados (e muitos! condenados). Mais uma vez, tanto a acusação, principalmente o juiz Sérgio Moro, da cidade de Curitiba, localizada no sul do país e centro da Operação Lava-Jato, e a mídia, voltaram mais sua atenção ao PT e a Lula do que a outros políticos e partidos. A própria Dilma, que já havia sido ex-diretora da Petrobras, nunca foi formalmente acusada de corrupção; mesmo assim, a mídia rotineiramente a associava ao escândalo, além de ter acusado a ela (e a Lula) repetidas vezes de obstruir as investigações da Operação. 

Principalmente por conta da intensa cobertura midiática dedicada a esses grandes escândalos, a opinião pública já tinha uma visão muito negativa da corrupção generalizada no Brasil, principalmente em relação aos políticos e, mais especificamente, ao PT, apesar da contínua popularidade de Lula e de Dilma entre milhões de brasileiros. Simultaneamente, em 2015, a crise financeira internacional também chegou ao Brasil, e a situação econômica do país se deteriorou rapidamente, contribuindo ainda mais para uma atmosfera geral de crise, afetando boa parte da população.

É nesse cenário complexo que a direita e sua mídia viram, em 2015 e 2016, uma oportunidade para finalmente acabar com o PT no poder e promover o impeachment de Dilma Rousseff, sob o pretexto das pedaladas fiscais, de esquemas financeiros (como empréstimos “ilegais” do Banco Central) para financiar programas sociais, a despeito do baixo orçamento nacional. Apesar de governos anteriores terem lançado mão de esquemas financeiros semelhantes, nesse caso a maioria dos políticos aproveitou a oportunidade para acusar a presidente de “crime de responsabilidade”, uma das condições formais para o impeachment no Brasil – uma democracia presidencialista.

Quando, em março de 2016, seu parceiro de coalizão, o PMDB e seu vice-presidente, Michel Temer (PMDB), deixaram o governo, tornou-se possível angariar votos para o início do processo de impeachment na Câmara dos Deputados. O poderoso e manipulador presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), ele próprio acusado de corrupção e lavagem de dinheiro (e atualmente preso), tornou- se o principal inimigo da presidente, pois o PT não impediu que Cunha fosse investigado na Comissão de Ética da Câmara.

Uma das principais estratégias midiáticas, que pode ser observada nos editoriais de O Globo, é a de repetidamente enfatizar a legitimidade e constitucionalidade do impeachment – uma repetição que acaba por sugerir que poderia haver dúvidas sobre sua legitimidade, já muito questionada por juristas brasileiros renomados (ver também Carta Capital, /Intervozes, 16 de abril de 2016).

Enquanto isso, em meados de abril de 2016, principalmente por conta da influente manipulação feita pela mídia, manifestações enormes (cujos participantes, em sua grande maioria, da classe-média conservadora) contra o PT e contra Dilma foram realizadas em todo o país, obviamente infladas pela mesma mídia e usadas como argumento populista para persuadir parlamentares a votar contra a ex-presidente. Ocorreram também manifestações menores a favor de Dilma, mas foram minimizadas pela mídia. 

Um importante antecedente dessas manifestações, por exemplo, foram os protestos locais ocorridos em 2013 contra o aumento das tarifas de ônibus, cujos participantes foram muitas vezes descritos pela mídia como vândalos (ver também Silva & Marcondes, 2014). Isso significa que em 2016 já havia um potencial generalizado de ocorrência de protestos, que logo a mídia estendeu para todo o país, só que desta vez os participantes não eram “vândalos”, mas todo o povo Brasileiro. Obviamente, conforme discutirei mais adiante, os protagonistas dos protestos a favor de Dilma foram apenas descritos como militantes e não como parte do povo. É interessante notar que, já nas manifestações antiDilma de março de 2015, pedia-se o impeachment da ex-presidente (ver também Catozzo & Barcellos, 2016).

Por fim, após a aprovação na Câmara, presidida por Eduardo Cunha, e sem o impedimento da Suprema Corte (que deixou o parlamento decidir – ver também, Feres, 2016), era tarefa constitucional do Senado julgar a presidente e, com mais do que a necessária maioria de dois-terços, em 31 de agosto de 2016, o voto pelo impeachment venceu.

Apesar das grandes e constantes manifestações contra ele, e apesar não ser admirado ou amado por ninguém, o vice-presidente Michel Temer se tornou automaticamente presidente. Pela esquerda, era visto como um traidor do governo Dilma e também a figura do que foi, de maneira geral, visto como um golpe contra ela. Todos os opositores ao impeachment de Dilma chamaram-no de ‘golpista’, assim como seu governo, o conglomerado Globo, além de outros veículos midiáticos e políticos envolvidos no golpe.

Como se para contrabalancear o impeachment anterior contra Dilma, no dia 12 de setembro de 2016, a Câmara finalmente cassou o mandato parlamentar do poderoso, porém, odiado Eduardo Cunha (ele já havia sido suspenso do posto de presidente da Câmara), o que o fez perder foro privilegiado por prerrogativa de função. É óbvio que, após o processo de impeachment, ele deixou de ser útil e se tornou motivo de vergonha para a direita por conta de seus conhecidos atos de corrupção e lavagem de dinheiro, além de (ter mentido sobre) suas contas na Suíça.

O conglomerado Globo e mídia brasileira

A mídia brasileira é dominada por poucas (umas quatro ou cinco) famílias ricas e conservadoras cujas empresas detêm o monopólio dos jornais impressos, programas televisivos e outros serviços. Além do jornal O Globo, há a influente Folha de São Paulo, lida principalmente pela elite intelectual e empresarial, e o Estado de São Paulo (chamado de Estadão) que, juntamente com as Organizações Globo, apoiou a ditadura militar em 1964 – contudo, a Globo reconheceu que seu apoio à ditadura foi um “erro” (ver Costa, 2015; Magnolo & Pereira, 2016). Por conta de seu papel no impeachment de Dilma Rousseff, esses jornais foram, de maneira geral, chamados de ‘golpistas’ nos diversos protestos contra o impeachment. A venda desses jornais relativamente é baixa (entre cerca de 160.000, como O Globo, e 350,000 cópias, como a Folha) para um país tão grande com mais de 200 milhões de habitantes.

Além desses grandes jornais, existem as revistas semanais, como a Época, das Organizações Globo, a Isto É e, principalmente, a Veja (cuja venda é superior a 1 milhão de cópias) e todas participaram da demonização midiática generalizada de Dilma, Lula e do PT (ver, p.ex., Matos, 2008; Porto, 2012).

É impressionante o fato de um país tão vasto como o Brasil, e com uma forte tradição de esquerda, não ter um único jornal progressista, como é o caso da Argentina (Página 12) ou do México (La Jornada), e apenas uma revista semanal progressista, a Carta Capital, lida pela elite de esquerda (mas cujas vendas não ultrapassam cerca de 75,000 cópias). Contudo, muitos brasileiros (principalmente os jovens), têm acesso à internet e leem notícias e opiniões publicadas por veículos alternativos (em 2014, 55% dos brasileiros tinham acesso à internet e 45% usavam as redes sociais).   

A poderosa mídia conservadora brasileira é, às vezes, chamada de Partido da Imprensa Golpista (PIG) – ver página informativa da Wikipedia – por conta de suas ações políticas e influência nos processos de tomada de decisão do país. Seu principal objetivo era “não deixar o PT ganhar” (Mauricio Dias, in Carta Capital 19/05/2010). O mesmo texto crítico da Wikipedia, além de listar muitos exemplos de desinformação e abuso de poder por parte da mídia, cita a opinião de José Antonio Camargo, presidente do Sindicato Profissional dos Jornalistas do Estado de São Paulo, e secretário-geral da Federação Nacional dos Jornalistas:

Distorcer, selecionar, divulgar opiniões como se fossem fatos não é exercer o jornalismo, mas, sim, manipular o noticiário cotidiano segundo interesses outros que não os de informar com veracidade. Se esses recursos são usados para influenciar ou determinar o resultado de uma eleição configura-se golpe com o objetivo de interferir na vontade popular. Não se trata aqui do uso da força, mas sim de técnicas de manipulação da opinião pública. Neste contexto, o uso do conceito “golpe midiático” é perfeitamente compreensível.

A frase acima resume perfeitamente algumas das conclusões a que cheguei após analisar os editoriais publicados pelo jornal O Globo

Grupo Globo

De todos os conglomerados midiáticos conservadores, a Organizações Globo, além de ser o maior do Brasil, está entre os quatro maiores da América Latina. Mais relevante ao contexto deste estudo não é apenas o jornal O Globo e seus ataques contínuos a Lula, Dilma e o PT (ver, p.ex., Almeida & Lima, 2016), mas principalmente o noticiário diário Jornal Nacional (JN), que é transmitido pela televisão todas as noites por volta das 20.30, entre duas novelas de grande audiência. Apesar de sua audiência ter caído em cerca de 30%, ele permanece o noticiário televisivo mais influente, assistido por milhões de brasileiros – para muitos dos quais o JN é a única fonte de informação sobre o que ocorre no país em geral, e sobre o governo, corrupção e o processo de impeachment (ver, p.ex., Becker & Alves, 2015). Não há dúvidas de que a diminuição do apoio popular a Lula e a Dilma se deve, em boa parte, à demonização diária feita pelo Jornal Nacional.

Como será visto adiante, uma das características interessantes dos editoriais do jornal O Globo em 2016 foi sua reação à cobertura crítica ao impeachment feita pela imprensa internacional de qualidade, principalmente pelo jornal The Guardian, que chegou a usar o tempo golpe (ver os blogs Carta CapitalIntervozes, 28/4/2016; Comunidade PT, 12/5/2016).

Em 21 de abril de 2016, o The Guardian publicou um artigo de opinião do jornalista David Miranda, intitulado “The real reason Dilma Rousseff’s enemies want her impeached” [O verdadeiro motivo pelo qual os inimigos de Dilma Rousseff querem seu impeachment], no qual ele informa o público internacional a respeito do poder das Organizações Globo e de outros veículos midiáticos, de seus donos ricos e de como eles manipulam a opinião pública contra Dilma. O vice-presidente das Organizações Globo, João Roberto Marinho, imediatamente reagiu com uma carta ao The Guardian, afirmando que a mídia brasileira é independente e diversa, que a Globo não é um monopólio midiático, que não incitava os protestos contra Dilma e o PT. O próprio David Miranda fez uma análise irônica dos argumentos em um longo artigo de opinião publicado no website The Intercept(25 de abril de 2016), no qual ele detalha ainda mais o papel do Grupo na política nacional enquanto “o maior agente propagandista da oligarquia brasileira”. Ele lembrou que os Repórteres sem Fronteiras, em seu último ranking internacional sobre liberdade de imprensa, colocou a mídia brasileira na escandalosa baixa posição de número 104. Também mencionou uma matéria do The Economist, publicada em junho de 2014 e intitulada “Globo Domination” [A dominação da Globo], segundo a qual metade da população brasileira assiste ao Jornal Nacional diariamente. Talvez a estimativa seja muito alta, mas isso não quer dizer que o Jornal Nacional não domine e que não seja extremamente influente no Brasil.

Arcabouço Teórico: Manipulação

Como este estudo não tem como principal objetivo contribuir para a teoria da manipulação, fará apenas um breve resumo do arcabouço teórico aplicado a este artigo, com base em meu trabalho anterior sobre manipulação e discurso (Van Dijk, 2006), e em outros trabalhos aos quais fiz referência, mas não comentários, a seguir.

1) A manipulação é um fenômeno complexo que requer um arcabouço multidisciplinar (ver também De Saussure & Schultz, 2005), que inclui:

(a) um estudo filosófico da manipulação enquanto algo antiético ou ilegítimo, majoritariamente utilizado como termo crítico para descrever a conduta de outros, e dificilmente a nossa própria;

(b) um estudo sociológico da manipulação como forma de interação social e como forma de abuso de poder e, portanto, um objeto relevante aos Estudos Críticos do Discurso;

(c) um estudo político da manipulação por políticos ou governantes;

(d) um estudo comunicacional da manipulação pela grande mídia;

(e) um estudo analítico-discursivo da manipulação na forma de texto ou fala;

(f) um estudo cognitivo dos processos e representações mentais envolvidos na manipulação.

2) A manipulação pode ser interpessoal, quando indivíduos manipulam uns aos outros, ou social, quando organizações ou instituições poderosas manipulam coletivos de pessoas (como leitores de um jornal, eleitores ou a opinião pública de maneira geral). Neste estudo, eu apenas abordo a manipulação social, apesar de tal manipulação poder ser implantada localmente, ou exercida na interação diária entre membros de grupos ou instituições.

3) A maior parte dos estudos psicológicos da manipulação é experimental e com foco nas várias formas de engano interpessoal na interação e no discurso que, no entanto, não é o mesmo que manipulação. Tal engano pode ser descrito conforme as várias formas de violação do Princípio Cooperativo de Grice (1979), ex. por meio de implicações ocultas (ver, p.ex. McCornack, 1992; e uma versão atualizada em McCornack, Morrison, Paik, Wisner, & Zhu, 2014; ver também Jacobs, Dawson & Brashers, 1996; Van Swol, Braun & Malhotra, 2012).

4) A manipulação social, como forma de dominação ou abuso de poder, envolve organizações ou instituições enquanto agentes manipuladores se utilizando de recursos de poder, como acesso a, controle sobre conhecimento ou discurso público (ver, p.ex., Goodin, 1980; Kedar, 1987; Riker, 1986; Stuhr & Cochran, 1990). Os alvos da manipulação são normalmente caracterizados como tendo menos recursos (conhecimento, por exemplo) para resistir a tal dominação.

5) Corporações e outras organizações poderosas, assim como Estados, podem organizar seu poder comunicativo de várias maneiras, com departamentos de RP, coletivas de imprensa, notas à imprensa, entrevistas, campanhas, publicidade, propaganda etc. – todas voltadas para comunicar informações que geralmente interessam à organização, incluindo formas de autorrepresentação positiva (ver Adams, 2006; Day, 1999; Key, 1989; MacKenzie, 1984).

6) O primeiro objetivo cognitivo da manipulação é o controle da mente, ou seja, ter influênciar sobre o que elas acreditam, como, por exemplo, seus modelos mentais (incluindo a emoção) em relação a acontecimentos específicos ou seu conhecimento mais genérico, atitudes ou ideologias, em geral a respeito de questões sociais importantes. O objetivo secundário, indireto é controle da ação: fazer as pessoas agirem (votarem, comprarem, marcharem, lutarem etc.) a partir de tais crenças e emoções (ver também Hart, 2013; Van Dijk, 1998).

7) Mais especificamente, a manipulação discursiva não raro envolve a comunicação da definição preferida da situação, que é descrita como a formação ou mudança dos modelos de situação mental, como as identidades e os papéis dos participantes envolvidos em um acontecimento, além de qual ação ou acontecimento está ocorrendo e quais suas causas e consequências (Johnson-Laird, 1983; Van Dijk & Kintsch, 1983).

Por exemplo, o discurso manipulador pode esconder, obscurecer ou permanecer vago a respeito da identidade de agentes ou organizações de elite responsáveis. As frases na voz passiva ou nominações podem deixar implícito quem é responsável por uma ação (por exemplo, a palavra discriminação não expressa quem discrimina e quem sofre discriminação). (ver p.ex., Fowler, Hodge, Kress & Trew, 1979; Van Dijk, 2008). Da mesma maneira, ações ou acontecimentos negativos podem ser descritos com o uso de termos eufemísticos (ex. insatisfação popular em vez de racismo, ver Van Dijk, 1993). Essa análise cognitiva do papel dos modelos mentais na manipulação é muito diferente dos estudos populares a respeito de “controle da mente” (ver também Jones & Flaxman, 2015).

8) Diferentemente de formas legítimas de controle da mente e da ação, como educação ou persuasão, a manipulação geralmente se dá conforme os interesses do manipulador e não os do manipulado. É típico da manipulação que as motivações, as razões, os objetivos ou interesses do manipulador fiquem mais ou menos encobertos (ver, p.ex., Adams, 2006; Day, 1999; Key, 1989; Mackenzie, 1984).

9) Uma das características cruciais da manipulação discursiva, de acordo com o contexto comunicativo, é, por exemplo, o tipo e as características (identidade, papel, relações) dos participantes, os objetivos ou intenções do discurso ou interação, além de seus recursos sociais e cognitivos (Van Dijk, 2008,2009). Os estudos pragmáticos da manipulação têm como foco esses aspectos do contexto. Assim, Billig & Marinho (2005) fazem uma distinção entre a manipulação de informação e os atos de manipulação de pessoas (ver também De Saussure & Schulz; Vázquez Orta & Aldea Gimeno, 1991).

Manipulação e Discurso

Conforme vimos em alguns dos exemplos/afirmações(?) acima, o discurso manipulador pode, de diversas maneiras, influenciar ou controlar os modelos mentais dos receptores ao, por exemplo, esconder a identidade ou reponsabilidade de ações negativas, a natureza de ações ou acontecimentos, suas causas e consequências ou, ainda, por outro lado, atribuir ações negativas a opositores ou ‘grupos externos’ [outgroups].

Conforme veremos mais detalhadamente, há muitas estruturas e estratégias discursivas que podem ser usadas para controlar os modelos mentais desejados para além da estrutura gramatical das frases, como

. Itens lexicais parciais (ex. depreciativos) (ver, p.ex., Cheng & Lam, 2012; Li, 2010);

. Implicações e implicaturas (ver, p.ex., Jacobs, Dawson & Brashers, 1996);

. Generalizações (Bilmes, 2008; Van Dijk, 1984,1986);

. Formas de descrições de agentes (Van Leeuwen, 1996);

. Granularidade e outros modos de descrição de eventos que podem ser mais ou menos precisos ou completos, detalhados ou vagos, próximos ou distantes etc. (Bhatia, 2005; Van Dijk, 2014; Zhang, 2015);

. Storytelling [narração de histórias] (ver, p.ex., Auvinem, Lamsa, Sintonen & Takala, 2013; Van Dijk, 1984);

. Argumentação (Boix, 2007; Ilatov, 1993; Kienpointer, 2005; Nettel & Roque, 2012).

. Categorias superestruturais (esquemáticas), como manchetes em artigos jornalísticos (Van Dijk, 1988a, 1988b);

. Polarização ideológica geral entre ‘grupos internos’ [ingroups] (Nós) e ‘grupos externos’ (Eles) (Van Dijk, 1988).

Corpus

Meu corpus consiste em 18 editoriais sobre Dilma, Lula, o PT e o impeachment publicados no jornalO Globo, nos meses de março e abril de 2016, que estrategicamente precedem a decisão da Câmara dos Deputados de dar início ao processo de impeachment contra a presidente. Os editoriais acompanham milhares de matérias, tanto no O Globo quanto em outras mídias conservadoras, apresentando uma sistemática e grotesca desinformação parcial a respeito de Dilma, Lula e do PT. Os editoriais foram escolhidos para esta pesquisa porque formulam explicitamente as opiniões do jornal. Também farei uma breve análise das manchetes correspondentes às matérias de capa a respeito deles, pois essa informação é frequentemente presumida nos editoriais (uma análise completa da Epistêmica da informação presumida em editoriais seria um tema interessante a ser estudado).

Os editoriais, tradicionalmente publicados próximos do final (página 18) da primeira seção do jornal (onde ficam as notícias nacionais), têm, em geral, de 500 a 1000 palavras, quatro colunas, o marcador de gênero ‘Opinião’ acima do título e um breve resumo entre as colunas.

O gênero editorial

Enquanto gênero textual, os editoriais seguem um esquema canônico (superestrutura), que consiste em categorias, como: Resumo dos Acontecimentos, Comentários/Opinião sobre os Acontecimentos e Conclusão/Recomendação. Essas categorias, por sua vez, pode ser/são(?) organizadas em estruturas argumentativas ou (outros) marcadores do discurso de persuasão. Seu estilo é a relativamente formal linguagem jornalística (ver, p.ex., Bagnall, 1993; Simon-Vandenberg, 1985; Van Dijk, 1988b). Opiniões são expressas em vários tipos de avaliações (ex. julgamentos sobre Lula, Dilma, o PT ou o impeachment) (Martin & White, 2005). Uma análise mais aprofundada de um grande número de editoriais de O Globo pode revelar estruturas mais específicas relativas ao gênero ‘editorial’ em jornais brasileiros, e seria necessária pesquisa de campo para saber mais sobre o contexto comunicacional, como, por exemplo, quem os escreve.

Métodos

Uma análise sistemática do discurso global e local dos editoriais se concentrará principalmente nas propriedades que podem ter influência sobre os modelos mentais e as atitudes dos leitores de maneira não explícita e que, portanto, podem ser chamadas de manipuladoras. Tal influência pode consistir na formação dos modelos mentais preferidos dos acontecimentos, a formação ou confirmação de atitudes, que os leitores de O Globo já podem ter – e com as quais eles podem muito bem concordar. Neste caso, a influência também é crucial, pois opiniões negativas sobre a presidente ou sobre o PT podem ser legitimadas por esse ou aquele jornal, ou pelo conhecimento de opiniões e atitudes de outros leitores ou brasileiros, conforme veiculadas pelo jornal.

Desta forma, primeiro me concentrarei nas macroestruturas semânticas (temas) das manchetes de capa e, em seguida, nas dos editoriais para, depois, prosseguir à análise de estruturas locais, especialmente as semânticas, como a identificação e descrição dos agentes, além de várias estratégias de argumentação e legitimação. Editoriais consistem em um gênero persuasivo, então, é claro que nos concentraremos nas propriedades destinadas à manipulação de opinião.

Análise das Estratégias e Estruturas de Manipulação de O Globo

Manchetes

Para melhor entendimento dos editoriais, é necessária uma breve análise dos principais acontecimentos ocorridos nas semanas que antecederam o processo de impeachment, principalmente porque os editoriais não raro pressupõem conhecimento de tais acontecimentos e comentam sobre deles. No entanto, tal conhecimento pode derivar não apenas das notícias a respeito dos principais acontecimentos do dia, mas também, de maneira mais geral, da cobertura dos mesmos ou de fatos relacionados a eles nas últimas semanas, ou até meses. Tais notícias foram veiculadas em milhares de matérias, e também em colunas, reportagens, entrevistas, e outros gêneros – e, portanto, iriam requerer uma vasta análise epistêmica que vai muito além da abrangência do presente artigo. Portanto, limitarei minha análise a uma breve descrição das manchetes de todas as principais matérias de capa publicadas entre os meses de março a abril de 2016, conforme indicado pelo tamanho e posição da manchete. Por definição, uma das principais funções das manchetes é exprimir as mais elevadas macroestruturas semânticas da matéria jornalística, ou seja, seu tema principal (Van Dijk, 1988b). Porém, manchetes também têm a função de chamar a atenção e podem ser ideologicamente parciais. Por exemplo, se Lula é acusado de algum ato criminoso, tal fato pode ser colocado em evidência na manchete mesmo não se tratando do assunto principal. Isso se dá por conta da orientação ideológica de O Globo, que irá enfatizar os aspectos negativos de seu inimigo ou do ‘grupo externo’ em geral (o PT ou a esquerda etc.).

Quarenta e cinco das 60 principais manchetes publicadas de março e abril de 2016 tinham como tema Dilma, Lula, PT ou o impeachment de Dilma ou seu governo (um número impressionante). Apenas no final desse período, após o início do processo de impeachment na Câmara, algumas das principais manchetes de capa voltaram atenção para Temer (enquanto presidente interino) e seu governo. Com frequência, mais de uma matéria de capa tratam de Dilma ou Lula. Mesmo quando nenhum acontecimento importante relacionado a eles tenha ocorrido, eles podem ser mencionados em manchetes de matérias de capa menores. Dependendo da interpretação dada a elas (para a qual uma análise avaliadora detalhada do discurso seria necessária), a maior parte das manchetes explicitamente acusa ou associa Dilma e/ou Lula a atividades criminosas, geralmente por meio de acusações da Operação Lava-Jato ou de muitos delatores que assinaram acordo com a Operação. A seguir, alguns exemplos característicos (MdC significa Manchete de Capa).

MdC01 Delação de Delcídio põe Dilma no centro da Lava-Jato. Presidente é acusada de interferir em investigação. Lula mandou silêncio de Cerveró. (04/03/2016)

MdC02 Lava-Jato força Lula a depor e petista apela à militância. (05/03/2016)

MdC03 Lava-Jato desmente versão de Lula sobre tríplex. (06/03/2016)

MdC04 MP de São Paulo denuncia Lula por lavagem e falsidade. (10/03/2016)

MdC05 MP pede prisão de Lula. (11/03/2016)

MdC06 Brasil vai às ruas contra Lula e Dilma e a favor de Moto. Protesto pacífico reuniu 3,4 milhões de pessoas em 329 cidades de todos os estados e no Distrito Federal. (14/03/2016)

MdC07 Dilma pode dar a Lula superpoderes no governo. (15/03/2016)

MdC08 Diálogo ameaça Dilma. (17/03/2016)
MdC09 Aliados de Dilma e Lula fazem atos em todos os estados. (19/03/2016)

          PT reúne 275 mil. 7% do público das manifestações pelo impeachment.
MdC10 Defesa de Lula pede ao STF que pare Moro. (21/03/2016)

MdC11 Supremo investiga se Dilma tentou obstruir Justiça. (24/03/2016)

MdC12 Dilma usará Bolsa Família contra impeachment. (04/04/2016)

MdC13 Procurador acusa Dilma de tentar obstruir a justiça. (08/04/2016)

MdC14 Comissão aprova relatório pelo impeachment de Dilma. (12/04/2016)

MdC15 Por 337 votos, 25 a mais do que o necessário, Câmara aprova autorização para processo de impeachment da presidente Dilma.

PERTO DO FIM (18/04/2016)

MdC16 Ministros do STF: Dilma ofende instituições ao falar em golpe. (21/04/2016)

Uma primeira análise mostra que a maioria das manchetes correspondentes às (principais) notícias publicadas em O Globo durante as duas semanas cruciais antecedentes à votação na Câmara apresenta Dilma e/ou Lula como participantes ativos ou passivos de acontecimentos ou atividades ligadas a questões legais ou penais. Ambos são representados como sendo ativamente envolvidos em algum crime, ou na Operação Lava-Jato ou, ainda, são acusados de crimes por terceiros. Nas manchetes publicadas mais tarde, o foco está nos acontecimentos ocorridos na Câmara, até 18 de abril, quando, detalhadamente, com precisão numérica, os votos da Câmara são noticiados e seguidos de uma enorme manchete que vai de ponta a ponta da página: PERTO DO FIM. Outras manchetes de capa, também contendo números, aparecem em 14 de abril, quando os enormes protestos contra Dilma foram noticiados. Nesse caso, contudo, as principais notícias da manifestação não ficam limitadas à primeira página; em vez disso, continuam por nove páginas inteiras, em muitas outras matérias, colunas e fotos. Comentarei a respeito dessas matérias na análise dos editoriais. Em 19 de março, os manifestantes a favor de Dilma também estão na capa, juntamente com números, mas nesse caso em uma comparação negativa com o número de manifestantes contra Dilma para minimizar a relevância dos pró-Dilma e enfatizar sua menor quantidade de apoiadores. Uma análise funcional da organização do tópico-comentário e das manchetes, em geral, coloca a Lava-Jato, delatores, a Polícia Federal (PF) ou o Supremo Tribunal Federal (STF) na posição de primeiro tema enquanto agentes (em sua maioria) acusadores que colocam Dilma e Lula em posição focal e de paciente semântico da acusação. Apenas em algumas manchetes, Dilma ocupa posição focal e de agente, como em situações em que ela é diretamente acusada de algum ato (negativo) – ex. quando ela possivelmente nomeará Lula e lhe dará poderes especiais, ou quando ela (ameaça) acabar com o Bolsa Família.

Durante essas semanas (e muitas semanas anteriores, desde 2014), todas as manchetes transmitiam de maneira geral a informação (repetida, portanto, como a principal informação no modelo mental do evento na memória dos leitores) de que: (a) Dilma e Lula (são acusados) de atividades criminosas e (b) que (portanto) Dilma tem de sofrer impeachment. Também crucial é a ênfase que se dá às repetidas informações negativas sobre Lula – o que condiz com a atitude de O Globo em relação a ele. A principal intenção de tal retrato é deslegitimá-lo perante os milhões de brasileiros que costumavam amá-lo ou adorá-lo. E o elemento mais relevante politicamente é a condenação de Lula por corrupção (uma empresa supostamente teria pagado uma reforma em seu apartamento), algo que o impossibilitaria de ser candidato à presidência em 2018 – o que seria uma ameaça à direita, por que Lula, pelo menos até então, permanecia sendo o político mais querido/popular(?) do país.

Os Editoriais

Principais temas e parcialidades

Os temas gerais dos editoriais são, como esperado, semelhantes àqueles das principais matérias do dia ou do dia anterior, como acusações contra Lula, Dilma ou o PT. A seguir, os principais tópicos dos 18 editoriais (ver Tabela 1): 

Data

Manchete

Temas principais

03/03/2016


PT descontente é promessa de mais pressão sobre Dilma


PT pressiona Dilma para mudar o Ministro da Justiça, mas resiste em limitar a autonomia da Polícia Federal.

05/03/2016


Uma reafirmação de princípios republicanos


Delatores acusam Lula de corrupção. Acusações também atingem Dilma. Operação Lava-Jato é independente.

06/03/2016


Em 13 anos de escândalos


Treze anos de desastres econômicos e escândalos de corrupção devido ao governo do PT.


15/03/2016


Um ‘basta’ das ruas a Dilma, Lula e PT


Milhões de manifestantes contra Lula, Dilma e o PT, e a favor do juiz Moro da Operação Lava-Jato. Processo de impeachment iniciado.

17/03/2016


Lula e Dilma apostam tudo para sobreviver


Dilma quer nomear lula como ministro para protegê-lo de acusação.


18/03/2016


Vale-tudo empurra Dilma e Lula à ilegalidade


Conversa telefônica mostra que Dilma e Lula estão obstruindo a justiça.


19/03/2016


O impeachment é uma saída institucional para a crise


As instituições, o parlamento, devem começar o processo de impeachment imediatamente.


22/03/2016


A preocupante ofensiva do governo contra a Lava-Jato


Dilma nomeia novo ministro da Justiça, que quer paralisar a Operação Lava-Jato. As instituições funcionam: a comissão de impeachment iniciou os trabalhos.


24/03/2016


Dilma radicaliza e fala de um país imaginário


Dilma compara o impeachment com o golpe militar de 1964 e quer apenas agitar os fãs.


30/03/2016


A farsa do ‘golpe’ construída pelo lulopetismo.


O PT manipula as pessoas com acusação absurda de ‘golpe’.


31/03/2016


Tentativa desesperada com o velho fisiologismo


Depois de o PMDB deixar governo, Dilma marca reuniões para angariar votos contra o impeachment.

06/04/2016


Tempo no impeachment corr
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Perseguição a Lula vai gerar efeito bumerangue?


Nas conversas de rua, com pessoas simples, sobretudo, já é possível notar um certo enfado das pessoas como o grau de perseguição a Lula.

Com o agravamento da crise e à medida em que vai ficando claro que a chuva de pétalas de rosas prometida com o impeachment não virá, mais e mais pessoas vai ligando uma coisa à outra — aliás, algo confessado pelo jurista do golpe, Miguel Reale Júnior, que diz hoje ao Valor que, sem o impedimento da Presidenta, Lula não seria réu.

Não é disparatado supor que isso também possa estar contribuindo para Lula abrir vantagem nas pesquisas eleitorais. Como diz a nota expedida hoje pela assessoria de Lula, vai ficando evidente que tudo  tem como objetivo impedir que Lula seja candidato em 2018.

A jornalista Helena Chagas, hoje, no site Os Divergentes, com todas as ressalvas de que não há ninguém acima da lei,lança o desafio:  desafio: “encontrar um cidadão brasileiro que tenha se tornado réu cinco vezes, ao longo de cinco meses, sendo as duas últimas denúncias aceitas com prazo de três dias entre uma e outra — 16 e 19 de dezembro — e apresentadas pelo Ministério Público apenas sete e quatro dias antes, respectivamente”.

E isso, lembra ela, ” ficou mais rápido depois do Datafolha que, há oito dias, mostrou Lula à frente de todos na corrida eleitoral em primeiro turno, perdendo apenas para Marina Silva no segundo.”

É vó ver a Globonews e ler os jornais que é isto o que perseguem: matar Lula e ressuscitar Marina, para ocupar o lugar até que tenham — se tiverem — um nome para 2018 ou antes, se for o caso.

Se tiverem…

Fernando Brito
No Tijolaço
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Lula réu e Nardes e RBS inocentes é puro delírio fascista


O ministério público denunciou Lula novamente. Com a aceitação da denúncia pelo judiciário, que era previsível, Lula passou a ser passou réu na Operação Zelotes por “tráfico de influência (três vezes), lavagem de dinheiro (nove vezes) e organização criminosa” [sic].

Para os advogados do ex-presidente, a denúncia “é fruto de novo devaneio de alguns membros do ministério público que usam das leis e dos procedimentos jurídicos como forma de perseguir Lula e prejudicar sua atuação política”.

A Zelotes foi deflagrada em março de 2015 para investigar a prática de crimes de sonegação fiscal e previdenciária por grandes grupos econômicos e pessoas ricas junto ao CARF, o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do governo federal. Na lista de quase 80 implicados figuram Bradesco, Banco Safra, Santander, Bank Boston, Newton Cardoso, FORD, Mitsubishi, Gerdau, Camargo Correa etc e o Partido Progressista [PP, do Maluf e ex-partido do Bolsonaro], cuja bancada inteira de deputados está denunciada na Lava Jato.

Estima-se que a sonegação praticada neste esquema, apenas em oito anos investigados, supera os R$ 20 bilhões, cifra que é mais de três vezes a quantidade de dinheiro desviado com corrupção na Petrobrás.

O Grupo de mídia RBS, afiliado da Rede Globo que controla e monopoliza o noticiário no sul do país, é acusado de ter sonegado R$ 671,52 milhões. A fraude para redução deste valor milionário foi efetivada por intermédio da empresa Planalto Soluções e Negócios, pertencente ao sobrinho [e sócio até 2005] do conselheiro do Tribunal de Contas da União [TCU] João Augusto Nardes.

Existem indícios de que Nardes recebera R$ 1,65 milhão na falcatrua com o sobrinho. Apesar disso, porém, ele continua tranqüilo no TCU, Casa na qual os conselheiros são tratados pomposamente como “ministros”.

Antes da indicação ao Tribunal de Contas pela Câmara dos Deputados, Nardes foi deputado pelo PP do Rio Grande do Sul. No TCU, ele foi determinante na instauração do regime de exceção consolidado com o golpe de Estado. Ele foi o responsável pela construção da fraude original que deu base para o processo fraudulento de impeachment da Presidente Dilma.

Foi Nardes quem elaborou o parecer de exceção das tais pedaladas fiscais; parecer que serviu para o absurdo pedido de impeachment comprado pelo PSDB por 45 mil reais a Janaína Paschoal, Reale Jr. e Hélio Bicudo, e que foi aceito pelo sócio do Temer no golpe, o hoje presidiário Eduardo Cunha.

A Rede Globo festejou a quarta incriminação do Lula — como as anteriores, sem provas; mas com muita convicção dos policiais federais, procuradores da república e juízes que agem partidariamente. Com indisfarçável satisfação, as Lo Pretes, Lobos e Leitões, os Mervais, Dannys e outros narradores oficiais do golpe comemoraram o indiciamento do ex-presidente.

Em menos de duas semanas, na exata proporção em que o governo golpista foi derretendo e Lula confirmando nas pesquisas o favoritismo para se eleger presidente do país pela terceira vez, o condomínio jurídico-midiático-policial entrou em pânico, e redobrou os ataques a ele.

Diante da monumental ausência de fatos para indiciá-lo na Lava Jato, os agentes públicos fascistas incrustados na polícia federal, ministério público, judiciário e incensada pela Globo, passou a fabricar ações judiciais para enquadrar Lula como ficha suja e impedi-lo de concorrer na eleição. O desejo da oligarquia golpista, sem lugar a dúvidas, é que Moro decrete a prisão do Lula, mesmo que ao custo de jogar o país na imponderabilidade e na violência.

Este método fascista não surpreende. Desde o inicio da Zelotes os investigadores desviavam as investigações para focar em Lula [artigo Operação: Zelotes. Alvo: Lula].

Neste contexto de delírio fascista que assoma as instituições de Estado, Lula corre risco de ser responsabilizado pelo desastre de Mariana/MG. Afinal, foi no seu período de governo que a Vale do Rio Doce se tornou uma empresa líder mundial nas áreas de mineração, siderurgia e energia. É a aplicação da teoria do domínio do fato, dirão os justiceiros.

Esta nova violência contra Lula expõe com nitidez o regime de exceção instaurado com o golpe de Estado no Brasil. Fraudes jurídicas e policiais — infâmias nojentas — são forjadas para o aniquilamento dos adversários do regime.

Ao mesmo tempo, o regime de exceção se auto-protege numa cumplicidade criminosa. Os agentes perpetradores do golpe — funcionários públicos [conselheiros do TCU, procuradores, policiais e juízes] que aparelham o Estado para aniquilar adversários políticos — e a mídia golpista e sonegadora de impostos, ficam imunizados e pairam acima da Lei e do Estado de Direito.

Jeferson Miola
No Cafezinho
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Europa pode embarcar na 3ª Guerra Mundial: Embaixador russo assassinado na Turquia


O responsável pelo ataque gritou "Allahu Akbar" ("Alá é grande"), de acordo com um fotógrafo da agência de notícias AP que estava presente no local. 



O atirador foi morto no local por forças de segurança, de acordo com a imprensa turca. Segundo o site britânico Independent, ele foi identificado pelo Ministério das Relações Exteriores da Turquia como Mevlut Mert Altintas. O atirador tinha 22 anos e trabalhava para uma tropa de choque da polícia de Ancara nos últimos dois anos e meio.

Assassino do embaixador russo O assassinato de Andrei Karlov, nos leva a fazer um paralelo com o fato ocorrido em Em 28 de junho de 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando da Áustria, o herdeiro do trono da Áustria-Hungria, pelo nacionalista iugoslavo Gavrilo Princip, em Sarajevo, na Bósnia, foi o gatilho imediato da guerra.

Na época as políticas imperialistas das grandes potências da Europa, como o Império Alemão, o Império Austro-Húngaro, o Império Otomano, o Império Russo, o Império Britânico, a Terceira República Francesa e a Itália, visavam uma redivisão da riqueza e do poder no mundo, tal qual acontece nestes tristes dias de 2016. A agravante agora é que EUA e Rússia, entre outras potências bélicas, possuem armas nucleares com poder de destruição do planeta em pouquíssimo tempo.

Resta saber se Putin conseguirá reagir corretamente a esta clara provocação das demais potênciais ocidentais e deter os belicistas russos que certamente reivindicarão a vingança ao embaixador morto.

E se conseguir detê-los, por quanto tempo o logrará fazer?

Acaba 2016, acaba, mas não em guerra!

Bertoni
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Xadrez da tacada final do golpe da Constituinte


Capítulo 1 – o sentimento de salve o Brasil

No Brasil real, meu amigo Vinicius, de 16 anos, criou um grupo no WhatsApp com o título “Salvar nosso Brasil”. O histórico trabalhista Almino Afonso, no meio da conversa deixa escapar um “precisamos salvar nosso país”. Minha tia Clélia reza todo dia para Deus salvar o Brasil, embora não saiba exatamente como e de quem. O jurista Celso Antônio Bandeira de Mello diz, no meio do almoço, que precisamos salvar o Brasil. Pelo Twitter, o governador maranhense Flávio Dino repete a mesma expressão.

Testemunhei todos esses apelos em menos de meio dia. Em todos os pontos do país há um sentimento difuso de que o Brasil derrete, se desmancha, em um suicídio lento e ritual. E a angústia de querer e nada poder fazer, porque o destino do Brasil não está nas mãos do Brasil real, mas de uma realidade virtual montada em Brasília.

Capítulo 2 – o Brasilguai da estufa Brasília

Em um reino distante chamado Brasilguai, nos limites entre um Brasil que já era e simulando um Paraguai que já foi, a realidade é envolta em manchetes feéricas e em redes sociais onde borbulham babas de ira e sangue, compondo o cenário em que as mais altas autoridades disputam os clicks da turba e as dobras do poder.

É o pessoal da corte, do país improdutivo que vive em uma estufa onde são cultivadas as intrigas, os jogos de lisonja e de poder, um mundo invertebrado, em que as carreiras são construídas por artimanhas, puxadas de tapete e de saco, palco de cenas desse nível:

·      A presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) brada: “Onde um juiz é destratado, eu também sou” (https://goo.gl/rC9FJd). Recebe 1.450 cliques no Facebook.

·      O Procurador Geral da República adapta o brado: “Atacar um procurador é atacar todo o Ministério Público”, e corre a se informar sobre a quantidade de cliques que a frase irá merecer.

·      O decano, que não é de ferro, aproveita e se exibe em um self em um shopping da moda, sabendo que o discurso anticorrupção é o creme de leite que, com sua densidade, disfarça qualquer massa de má consistência.

·      Não se sabe se o presidente do Senado aproveitou o mote e bradou: “Quem ataca um senador, ataca o Senado”. Se não gritou, pensou. Se pensou e não realizou, perdeu o direito aos clicks.

·      E, como a realidade virtual não está sujeita às limitações enfadonhas da realidade, o Ministro da Justiça declara seu modesto plano de ação: erradicar toda a maconha do continente. A julgar pelos selfies que tirou no Paraguai, desbastando uma a uma as mudas de cannabis. Repetindo o que disse a Comissão de Ética da Presidência: "cala-te, Magda!".

É esse simulacro de país virtual que comanda o Brasil real, um país que poucos anos atrás ambicionava o status de nação moderna. É lá, que se desenrola essa ópera que não é bufa, por trágica, cujos próximos capítulos descreveremos a seguir.

Capítulo 3 – um apanhado do momento atual

No Brasilguai, ora são denúncias contra Michel Temer, ora loas a um simulacro de pacote econômico, ora o Procurador Geral investe contra o presidente do Senado, ora o Ministro do Supremo contra a Lava Jato; o PGR e o Ministro se acusam mutuamente do objetivo comum de blindar o presidenciável tucano, enquanto associações de juízes e de procuradores pressionam o Congresso e procuradores e juízes cometem “estudantadas”, mostrando menos maturidade que os secundaristas do Brasil real.

Enfim, um retrato claro da balbúrdia institucional que se instalou no país improdutivo, aquele que não gera riquezas, mas consome o futuro e deixou de cumprir com sua responsabilidade constitucional.

Para não perder o fio da narrativa, o leitor deve se fixar apenas no roteiro principal, que consiste no desmonte do Estado. Idas e vindas são apenas variações em torno do tema principal. Aí se dará conta de que o que era intuído há alguns meses, hoje em dia é ação consumada e ostensiva, mostrando a coerência da narrativa central:

·      O jogo político da Lava Jato em benefício do PSDB. Mais de dois anos de operação e nenhuma exceção sequer para confirmar a regra.

·      O desmonte do Estado.

·      O desmonte de garantias individuais, sociais e ambientais com o avanço do estado de exceção.

·      A porteira aberta para os negócios do Congresso. Deputados preparam a volta do jogo, ruralistas liquidam com regras ambientais, o senador Romário avança uma trapaça com APAEs e Sociedades Pestalozzi, o governo ameaça rever as reservas indígenas.

Essa imoralidade ampla e irrestrita é aceita pelo polo condutor do golpe como uma espécie de dano colateral inevitável para se alcançar os objetivos finais: o desmonte total do Estado nacional, das políticas sociais e dos modelos de atuação proativa do Estado, substituindo a ação política pelo modelo tecnocrático-jurídico globalizante, já identificado em várias obras acadêmicas.

Antes de avançar neste Xadrez, aliás, é útil a leitura sobre as estratégias em torno do chamado “capitalismo de desastre”.  Trata-se da fórmula já incorporada às estratégias globais, conforme você poderá conferir aqui (https://goo.gl/5NmavZ) e no ”Xadrez da Teoria do Choque e do Capitalismo de Desastre” (https://goo.gl/V4XdVZ)).

A partir daí, fica mais fácil entender a tacada final do golpe: a tentativa de Constituinte exclusiva com a atual composição do Congresso.

Capítulo 4 – O golpe final da Constituinte

Em um Congresso integrado por trânsfugas, fisiológicos, conservadores e preconceituosos de toda espécie, não há maior ameaça aos setores populares e modernizantes que o deputado carioca Miro Teixeira e sua proposta de Constituinte (https://goo.gl/xsvtfp).

Miro é um Cristóvão Buarque profissional. Hoje, é o principal homem da Globo no Congresso.

Discreto, só interfere no jogo em momentos decisivos, como foi na CPMI de Carlinhos Cachoeira, quando a mídia, especialmente a revista Veja, entrou na linha de fogo.

Sua proposta de uma Constituinte com os atuais integrantes do Congresso é, de longe, a maior ameaça aos direitos sociais desde que o golpe foi desfechado.

A pretexto de discutir a reforma política, o fator Miro Teixeira se impõe com essa tese esdrúxula de uma Constituinte com o Congresso atual.

O parágrafo 2 do artigo 101 define o que não poderá ser deliberado, de tal maneira que abre espaço para transformar o pior Congresso da história em poder constituinte (https://goo.gl/yMNMg0).  O tal parágrafo diz que a Assembleia nacional Constituinte deliberará “preferencialmente” sobre reforma política. Não é exclusivamente: é preferencialmente. E veda apenas as propostas abolindo  I- o Estado democrático de Direito II- a separação dos Poderes; III- o voto direto, secreto, universal e periódico; IV- a forma federativa de Estado V- os direitos e garantias individuais e VI- o pluralismo político.

Ou seja, não avançando até esse limite, tudo pode.

Tendo a demolição do Estado de bem-estar como peça central, entram-se nas variáveis, a principal das quais é o destino do governo Michel Temer.

Capítulo 5  – as peças do jogo principal

Como o processo atual é essencialmente dinâmico, vamos, primeiro, a uma avaliação do estágio atual dos principais personagens, para entender o papel de cada um no jogo:

Núcleo duro

O núcleo duro continua integrado pela Globo e o mercado. O Ministério Público Federal, através do PGR, e o PSDB tornaram-se meros caudatários. O endosso da opinião pública à Lava Jato é pontual e tem prazo de validade, como em todo processo catártico.

A Globo implementou um discurso único para seus comentaristas, de ataque continuado ao sistema político e de exaltação permanente à Lava Jato. Joga com Michel Temer, mas aguarda sua queda. Manobra com a Lava Jato para queimar Renan Calheiros e manter Lula sob fogo cerrado, enquanto prepara o próximo tempo do jogo.

A PGR e o Judiciário

A cada movimento vai ficando claro que o PGR não possui dimensão política para atuar como organizador do golpe. Teve papel decisivo no golpe, sim, conforme antecipado pelo GGN. Mas é um mero seguidor de script desenvolvido por instâncias profissionais.

Com a narrativa midiática-ideológica vitoriosa, construindo a figura do inimigo interno (PT-Lula) e apresentando a fórmula salvadora (o desmonte do Estado), cria-se o movimento de manada e os fatos acabam se sucedendo por inércia: Ministros do STF intimidados ou deslumbrados, procuradores e juízes de inquéritos paralelos procurando mostrar serviço e a escalada rápida do estado de exceção, com juízes arremetendo contra qualquer coisa que cheire esquerda. Vide tentativa de cassar os direitos políticos do senador Lindbergh, imediatamente após ele ter enfrentado o juiz Sérgio Moro, porque havia o logotipo da prefeitura em um saco de leite distribuído.

O PSDB

Não tem mais protagonismo algum. Assumiu a condição de terceirizado do mercado, e é o que resta do quadro partidário. Por esse papel supletivo, é poupado: do lado da mídia, registrando as menções dos delatores, mas não insistindo na repercussão; do lado do Supremo e do PGR, postergando os resultados dos inquéritos.

Por exemplo, o Ministro Gilmar Mendes e o Procurador Janot, não se bicam, mas estão na mesma missão de poupar o PSDB. Quando um dos dois atua em benefício do PSDB, o outro se sente aliviado e aproveita para espicaçar o adversário-parceiro.

Ao mesmo tempo em que preserva o PSDB, Janot investe pesadamente contra o presidente do Senado Renan Calheiros e estimula perseguição implacável a Lula, concentrando inquéritos e denúncias divulgados em momentos estratégicos, como agora, diluindo um pouco as delações da Odebrecht.

As forças políticas

Não se ataca Renan por seu histórico, mas por ser o general maior da resistência do Senado aos esbirros do MPF e do Judiciário. Na verdade, o bastão político está entregue, hoje em dia, ao comando solitário de Renan no Senado, e à liderança de Lula no Brasil real. O apoio de Renan à PEC  55 foi estratégico, para manter o Senado no jogo. Mas não infunde confiança no comando do golpe, que sabe que Renan tem voo próprio.

É por aí que se entende a sequência de ataques aos dois polos.

Michel Temer, o breve

Um a um o golpe vai decepando cada braço político de Temer. Eliseu Padilha e Moreira Franco estão com os dias contados. Romero Jucá será o próximo alvo do MPF. Aguarda-se apenas o autor da bala de prata: se as delações da Odebrecht ou de Eduardo Cunha.

Consumada, restarão dois destinos inglórios para Temer:

1.     O impeachment através do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

2.     A interdição, com o PSDB assumindo o controle do governo e mantendo um presidente decorativo.

Tivesse dimensão política mínima, se poderia esperar uma saída honrosa, tipo comandar uma tentativa de salvação nacional através da convocação de lideranças de todos os poderes e partidos. O momento demanda saídas assim. Mas Temer jamais deixará de ser um mero mercador das pequenas demandas fisiológicas.

Assim, se entrará na próxima tentativa do golpe sem ninguém que possa exercer o papel de algodão entre cristais.

Capítulo 6  – a desestabilização econômica

Para que a proposta da Constituinte seja aceita, e os princípios defendidos pela Globo-Miro empurrados goela abaixo do Congresso, há a necessidade de sucessivos choques que criem um estado de desorientação tornando os parlamentares receptivos a propostas salvadoras de seus mandatos.

Mas no meio do caminho tem uma baita crise econômica, trazendo ampla desorganização econômica, social e política, podendo se desdobrar em várias alternativas.

Como Temer está enfrentando a borrasca?

A ofensiva neoliberal esbarrou em um problema lógico.

Precisa contar com a desordem geral, a falta de perspectiva para apresentar as propostas salvadoras, que consistem na redução radical do papel do Estado. Aliás, precisa aproveitar o estado de desorientação geral para ser bem sucedida.

No entanto, só se conseguirá sair da crise com uma intervenção decidida do Estado, através dos investimentos públicos e de um amplo envolvimento dos bancos públicos comandando o processo geral de renegociação dos passivos de empresas e pessoas físicas.

O jogo consiste em ir até às últimas instâncias com o desmonte, através da implementação de medidas irreversíveis. Mas como administrar a crise, sem criar um caos de tal ordem que abra espaço para aventureiros?

O pacote contra a crise anunciado por Michel Temer é de um ridículo, que nem a pós-verdade da mídia conseguiu disfarçar. Fizeram a xepa, abrindo as gavetas da Fazenda e do Planejamento e retirando de lá propostas irrelevantes.

Qual o sentido de apresentar como grande saída contra a recessão a diferenciação de preços para compras à vista e por cartão, ou a redução em um ponto da multa do FGTS (https://goo.gl/PCkoL3)?

Só a paixão repentina do Estadão por Temer para encontrar alguma eficácia nesse pacote e tratar essa bobagem como “uma boa surpresa” (https://goo.gl/9eIklw), algo que nem a Globo ousou endossar.

Considerações parciais

Esses são os dados do momento.

Por outro lado, o agravamento da crise produzirá um sentimento cada vez maior de urgência para a busca de saídas. Dependendo das circunstâncias, poderá levar ao entendimento ou ao endurecimento final do regime.

O grande problema desses personagens fakes do Brasilguai é a incapacidade total de entender o dinamismo dos processos sociais, políticos e econômicos. Assim como a parte mais superficial do mercado financeiro, esses personagens projetam o futuro a partir dos dados do presente, sem nenhuma sofisticação analítica para perceber a dinâmica dos processos.

Vamos a alguns exercícios simples de futurologia

1.     Ministério Público e Judiciário

Daqui a alguns anos o mundo político estará pacificado. Seja qual for o partido no poder, ou mesmo uma ditadura, a reação será o embate com o MPF e o Judiciário, pela simples razão de que nenhum sistema político conseguirá funcionar minimamente com a margem de arbítrio conquistada pelo MPF, Tribunal de Contas e outras instituições do funcionalismo público. Em caso de ambiente democrático, não haverá o embate direto, mas o estrangulamento orçamentário gradativo e as restrições aos salários e vencimentos da categoria. Será o fim da era dos concurseiros. Em caso de ditadura, basta bater a bota para colocar os bravos para correr.

2.     Ascensão social

O que ocorrerá com essa multidão que ascendeu socialmente, que conquistou comida na mesa e filhos nas universidades? Aceitará passivamente o recuo para as profundezas da miséria? É evidente que não, o que acarretará distúrbios populares cada vez mais intensos.

3.     A Lava Jato

Na Itália, quando a opinião pública se deu conta do estrago produzido na economia pelas Mãos Limpas, a operação morreu. A destruição da economia formal abriu espaço para um crescimento sem paralelo da máfia, que hoje domina perto de 30% da economia italiana. O que ocorrerá com o aprofundamento da crise, quando cair a ficha que não foi a corrupção, mas o álibi da corrupção fornecendo os instrumentos para uma destruição consciente e antinacional da economia pelo MPF?

4.     Os movimentos sociais

Na era Lula-Dilma os movimentos sociais foram institucionalizados. Passaram a acreditar no jogo democrático, nas ações visando legalizar terras devolutas e a pressionar por políticas públicas. O que ocorrerá com eles se passarem a ser reprimidos pela Polícia Militar e pelas Forças Armadas?

5.     As Forças Armadas

No momento, comportam-se profissionalmente. O modelo de confronto, no entanto, demandará cada vez mais sua intervenção. Como reagirão os militares se novamente colocados como guardiões do regime, em um jogo em que os principais atores civis e públicos estão envolvidos em suspeitas de corrupção ou pensando exclusivamente em seus interesses corporativistas? Continuarão aceitando as ordens passivamente?

Enfim, são perguntas óbvias e grandes desafios analíticos para personagens públicos absolutamente medíocres, a pior geração de burocratas em um país em que a burocracia pública, em outros tempos, se constituía no principal instrumento de modernização. Apenas do papel didático da crise se poderá esperar alguma surpresa. E temo não ser surpresa boa.

Luís Nassif
No GGN
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Prisão de Hortêncio, o “terrorista”, é o retrato do Brasil do ministro Alexandre de Moraes








Vejam os vídeos acima, especialmente o terceiro. É o depoimento de Hortêncio Yoshitake diante de um juiz. Ele foi preso na Operação Hashtag, aquela que supostamente desbaratou uma célula terrorista que atacaria durante as Olimpíadas. Certamente esta história será um dia bem contada por algum repórter investigativo.

Ela não ficará completa sem voltar no tempo. A Guerra contra as Drogas foi formalizada em 1971 pelo então presidente dos Estados Unidos Richard Nixon. Foi a militarização do trabalho policial.

Além dos objetivos óbvios, ela escondia outros: desenvolver aparato de segurança e vigilância pela indústria, mais tarde utilizado em ações de controle de multidões (os distúrbios estudantis de 1968 pegaram a polícia de surpresa) e servir de cobertura para ações de inteligência do governo estadunidense através da DEA, a polícia das drogas, que sempre trabalhou paralelamente ao FBI, CIA e diplomacia dos Estados Unidos.

A guerra contra as drogas fracassou espetacularmente, embora o ministro da Justiça do governo golpista, Alexandre de Moraes, tenha decidido com 45 anos de atraso “erradicar” a maconha.

Foi a guerra contra as drogas que permitiu aos Estados Unidos invadir um país soberano, o Panamá, às vésperas de permitir aos panamenhos que ‘governassem’ o canal estratégico situado em seu território. Derrubaram o general Manuel Noriega não pelo envolvimento com o tráfico, mas para instalar um governo civil ‘aceitável’.

Com o suposto objetivo de controlar o tráfico, os EUA militarizaram a Colômbia e o México, com resultados desastrosos: destruição da soberania local, matança indiscriminada de civis de lado a lado e um poder ao aparato policial e militar local — a “meganhagem” — que terá impactos de longo prazo.

Na Colômbia, com o dinheiro da guerra contra as drogas altas patentes migraram para outros negócios e exercem influência política e econômica muito acima da garantida pela posição na hierarquia militar.

A Guerra contra o Terror, oficializada pelo presidente George W. Bush em 2001, seguiu pelo mesmo caminho.

Os objetivos de policiamento dela se misturam com os objetivos estratégicos dos Estados Unidos, já que se considera que qualquer ponto do planeta pode servir de plataforma para ataques a interesses dos EUA. Lançou a semente de um aparato policial, militar e judicial global.

Recentemente, uma única juíza de Virginia, nos Estados Unidos, autorizou buscas do FBI em 8 mil computadores de 120 países, numa investigação sobre pornografia.

Já a guerra global contra o terror, sob a ótica de Washington, exige legislação razoavelmente homogênea — e o Brasil, para receber a Copa e as Olimpíadas, sob a ex-presidente Dilma Rousseff, adotou a lei antiterror que levou Hortêncio à cadeia basicamente por um delito de opinião. Se todos aqueles que pregaram a morte de Dilma e do ex-presidente Lula nas redes sociais tivessem tido o mesmo destino…

Hortêncio vive na periferia de São Paulo com o irmão. Não trabalha. A mãe, o irmão mais velho e a tia vivem no Japão. A mãe manda 3 mil reais mensais para ajudar em casa. Ele passava o dia na internet. Como é muito comum nas redes, se enturmava contando lorotas e batendo no peito.

Toda a audiência tem um ar de subamericanismo de filme B, com a presença do “terrorista” Hortêncio emoldurada por agentes fortemente armados e algumas perguntas completamente sem sentido. Na sua simplicidade às vezes treinada — certamente a defensora pública o ajudou — Hortêncio deixa um procurador sem fala quando diz que as mensagens reproduzidas no processo foram “tiradas do contexto”.

A questão central é que Hortêncio não conhecia nenhum daqueles com os quais “formou quadrilha” — ele também foi enquadrado por “promover organização terrorista”. Como notou um colega jornalista, esta audiência num futuro próximo poderá muito bem tratar do MST ou do MTST.

Dos 15 presos inicialmente pela Operação Hashtag, 8 foram denunciados e apenas 4 seguem presos. Hortêncio foi solto depois da audiência, vai responder ao processo em liberdade.

Desde o primeiro ataque às Torres Gêmeas, em 1993, os Estados Unidos denunciam o risco de “terrorismo” a partir de Foz do Iguaçu, na Tríplice Fronteira.

É um lugar estratégico para o controle do Atlântico Sul, próximo à usina hidrelétrica de Itaipu e ao aquífero Guarani.

Do ponto-de-vista de Washington, de onde se originaram as informações para a Operação Hashtag — prints do Facebook e quebra de sigilo de dois grupos do Telegram — é isso o que realmente interessa: a militarização da Tríplice Fronteira diante de “iminente” ameaça terrorista.

Hortêncio teve sua vida destruída apenas para servir de bucha de canhão.

No Viomundo
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O depoimento de Igor Ramos Pontes sobre o triplex no Guarujá




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Xô, Depressão!!!


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Moro aceita denúncia contra Lula, outra vez? E poderia ser diferente?


Sabe aquela velha história de que não se sabe o que vai sair da cabeça de juiz? Esqueça.

Aqui, agora, todo mundo já sabe o que o juiz vai decidir, e isso é sinal de que não há justiça.

Os jornais anunciam que Sérgio Moro aceitou mais uma denúncia contra Lula, a apresentada semana passada pelos rapazes da Força Tarefa, agora sobre o prédio que é do Lula mas não é do Lula e o apartamento do vizinho de Lula, que não é do Lula , mas é do Lula.

Nada descreve melhor a equação que, desde o início dos tempos, move os operadores da Lava Jato: tudo de  escuso, obscuro ou levemente suspeito tem que ser do Lula.

As cartas nem mesmo estão marcadas, estão viradas, mesmo.

A parcialidade de Sérgio Moro nem precisa de sinais, está evidente.

Pergunte a dez pessoas se Moro condenará Lula e onze responderão que sim.

Aliás, com tantos processos, não importa que sejam por quinquilharias que soam ridículas para quem é apontado nos powerpoint dos procuradores como “o grande chefe do maior escândalo de corrupção da história do Brasil”, talvez Moro possa absolve-lo em um, para mostrar como é “bonzinho” e condená-lo em vários outros.

Isso, claro, se conseguir conter o ódio que lhe transborda.

Mais do que provas, falta nas ações contra Lula o mínimo de lógica.

Os que seriam seus subordinados roubaram dezenas de milhões de dólares; o que seria  “chefe” nem ganhou um apartamento no Guarujá…

O palestrante que ganhava milhões de reais por palestas para empresas — várias delas, como a Globo e a Microsoft — não poderia ter retirado delas um ou dois para comprar um apartamento, se o quisesse comprar?

Nem afetaria seu patrimônio, porque, afinal, não recebia pessoalmente os recursos destas palestras, senão no reembolso de despesas das próprias atividades.

Ontem, na Folha, Lula era “denunciado” por receber tratamento de chefe de Estado ao visitar Angola.

Aqui, recebe o de “inimigo do Estado”, dado pelas corporações que nele se encastelam, guardiões seletivos da moralidade, destruidores do Brasil.

Fernando Brito
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