18 de dez de 2016

Entrevista com o Sen Roberto Requião


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Por que as ruas permanecem silenciosas?


Algumas razões são conjunturais.

O anúncio das medidas de destruição dos direitos sociais e aniquilamento dos setores públicos de educação e saúde, entre outros; liquidação de empregos industriais qualificados e duvidosa recuperação dos investimentos em infraestrutura, agora a cargo de firmas estrangeiras – elas todas vem sendo feia com habilidade, incerteza, de forma confusa e sem o suporte do único meio de comunicação eficiente do país, a Rede Globo de Televisão.

Fatores diversionistas estão sendo acionados — de anúncios otimistas ao clima de inquérito policial que domina os noticiários — sempre em busca de culpados pelo que vão fazer e sabem criminoso.

A medida mais séria — o congelamento da economia — será sentida gradualmente. A liquidação dos direitos trabalhistas atingirá primeiro as categorias menos organizadas.

[Os americanos são fantásticos em estratégias de controle da opinião pública. Estudo o assunto há 50 anos]

Mas há outro fator: a recessão que se manifesta em estados-chaves (Rio, RS etc.) e o temor difuso de um futuro de incerteza.

A situação repete o quadro psicológico da recessão. Nele, preocupados com a sobrevivência, os trabalhadores se recolhem.

O maior exemplo foi o da era vitoriana da Europa do Século XIX, após a guerra franco-prussiana, a comuna de Paris e a queda de Napoleão III. Os bancos da City impuseram forte recessão, forçaram diáspora de europeus (para a América, Oceania, África, Oriente distante), dirigiram investimentos para objetivos distantes (suntuários, artísticos, científicos, arquitetônicos, típicos da belle époque).

A era de agitação que marcara a revolução industrial regrediu em um silêncio social espantoso. Não que houvesse adesão ou aceitação. O que se formou foi uma multidão rancorosa, racista, movida por medo e ódio. Sua face ganhou traços de loucura e crime na frenologia, falsa ciência da época, e seu caráter malévolo e incontrolável, sua grosseria e irascibilidade geraram dois livros muito importantes, “A multidão criminosa”.de Scicpio Sighele, e “Psicologia das Massas” de Gustave Le Bon – em 1894-1895.

É para conter a massa rancorosa descrita nessas obras de cabeceira dos criadores — nazistas e liberais — das modernas técnicas de controle de opinião, que se estabeleceram os estreitos limites em que cabe hoje a palavra democracia.

Nilson Lage é professor de Jornalismo, aposentado, da UFRJ e da Federal de Santa Catarina. É autor, entre outros muitos livros, de  “Controle da Opinião Pública – Um ensaio sobre a verdade conveniente”, Editora Vozes, 1998.
No Tijolaço
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Como decifrar o ‘Delenda Globo’ da carta de Dirceu a Fernando Morais

Ainda vivo e sonhando
Muitos leitores perguntam de onde vem a expressão ‘Delenda Globo’ que Zé Dirceu usou na carta que enviou da prisão para Fernando Morais.

Para simplificar, Dirceu afirmou, com a sutileza possível: “A Globo tem que ser destruída”.

Foi como que uma resposta — fina, quase erudita e bem humorada — a uma sentença que Fernando Morais tem repetido à exaustão: “A Globo é inimiga do Brasil e como tal deve ser tratada.”

Historicamente, é uma frase latina que sobreviveu ao tempo.

Sob o comando do general Aníbal, um dos maiores estrategistas da história, Cartago (hoje Tunísia) foi o maior pesadelo militar sofrido pelo império Romano.

Um inovador comparado pelos historiadores a Alexandre, o Grande, Aníbal usou táticas jamais vistas em sua luta contra Roma, como um exército de elefantes. Com suas tropas, Aníbal ocupou parte da Itália por vinte anos, no início do século 3 AC. Roma jamais enfrentara antes esse tipo de coisa.

Os inovadores elefantes de Aníbal
Os inovadores elefantes de Aníbal
A reação romana contra Aníbal foi fortemente estimulada pelo senador Catão, um colosso de Roma. Catão sempre terminava seus discursos com a frase: “Delenda Cartago“. Cartago tem que ser destruída. Este o significado.

E foi.

O ‘Delenda Globo’, de Dirceu, é muito mais uma brincadeira, um sonho remoto, do que qualquer outra coisa. O Brasil, hoje, como já foi notado, parece uma concessão da Globo.

Quanto teve poder, de resto, Dirceu pouco fez para delendar a Globo. Ou, pelo menos, para reduzir-lhe o poder.

O dinheiro público permaneceu jorrando para a Globo, na forma sobretudo de publicidade federal. 600 milhões de reais ao ano.

Segundo depoimento do senador Requião, Dirceu imaginava que o governo Lula garantiria a simpatia da Globo com as multimilionárias verbas publicitárias.

Foi talvez seu maior erro de cálculo. Na prática, o PT se tornou o primeiro partido no poder a pagar para apanhar da Globo. Em boa parte a Globo financiou seu jornalismo de guerra com recursos oriundos dos dois governos petistas.

O que verdadeiramente há de animador na carta de Dirceu é o tom positivo, de quem continua a combater o bom combate, a despeito de tudo. Ele exorta as lideranças da esquerda a saírem para as ruas na luta pelas diretas, e cobra de Fernando Morais, aos 70 anos, que cuide da saúde. “Vamos precisar de você pelos próximos vinte anos.”

A mensagem real de sua carta, afinal, é esta: “Delenda desesperança”.

A desesperança tem que ser destruída.

Ou suportaremos o que está aí por muito tempo.

Paulo Nogueira
No DCM
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Ei, você aí


O governo Temer decidiu acabar com as multas sobre demissões sem justa causa.

Significa o seguinte: para combater o desemprego, Temer criou uma ferramenta de estímulo às demissões arbitrárias.

Deu para entender?

Não, não a medida. Essa é incompreensível.

Estou falando de você que, movido por um antipetismo pedestre, manipulado por uma mídia de merda, orientado por jornalistas idem e embevecido pela própria indigência intelectual colocou essa quadrilha no poder.

Deu para entender o bosta que você é?

Leandro Fortes
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A bravura indômita de Michel Temer


Michel Temer é um governante que não teve a chancela das urnas e não se sente amarrado a este importante contrato democrático com a população. Com apoio maciço do Congresso e da grande imprensa, o não eleito parece bastante à vontade para tomar medidas impopulares e cruéis como a PEC do Apocalipse e a reforma da Previdência. O discurso de que essas medidas são um mal necessário para recuperar a economia escamoteia a opção política de botar a crise no lombo da maioria da população que depende do Estado – e esta não é uma questão de opinião, mas um fato. Uma ex-diretora de Educação do Banco Mundial, analistas alemães e até o aliado Geraldo Alckmin (PSDB) observam a gravidade que é o congelamento de gastos nos serviços públicos.

Temer tem se apresentado como o médico da nação que está tendo peito para enfiar goela abaixo do povo um remédio amargo. Ele não estaria preocupado com sua popularidade, mas com o futuro do Brasil, tanto que tem feito questão de ressaltar sua própria coragem em discursos públicos:
“Hoje, no Brasil, se você não tiver coragem, você não consegue governar. Se você não tiver coragem, para que eu vou restringir os gastos num governo de dois anos e pouco? Nenhum sentido teria essa restrição.”
“Nós precisamos reformar a Previdência hoje para garantir a Previdência amanhã. E por isso nós temos coragem. Coragem para fazer coisas aparentemente impopulares, mas que gerarão popularidade logo ali adiante.”
“Se não tivéssemos coragem, para que eu vou mexer na questão da Previdência?”
É sobre essa coragem de quem ostenta o verbo “temer” no sobrenome que vamos nos debruçar. Ela pode ser facilmente comprovada através de manchetes dos grandes jornais. Apreciemos a bravura indômita do não eleito:





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Não bastou o temor das vaias nas Olimpíadas, o não eleito se tremeu todo até mesmo com a possibilidade de ser vaiado em velórios. Essa semana, Temer evitou a cerimônia fúnebre de Dom Paulo Evaristo Arns por medo de vaias, mas o caso mais emblemático foi o das vítimas da tragédia da Chapecoense, quando Temer anunciou que não iria, mas acabou mudando de ideia depois que o pai de uma das vítimas afirmou que ele “deveria ter vergonha na cara”. Diante do desastre que comoveu o mundo, este brasileiro que se julga destemido, que diz não ter medo de tomar medidas impopulares, fez cálculos para saber o que seria mais danoso para a sua imagem. Quando Temer diz que “hoje, no Brasil, se você não tiver coragem, você não consegue governar””, fica até parecendo um pedido implícito de renúncia, já que os fatos comprovam que este atributo inexiste em sua personalidade.

Em seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu sete ministros envolvidos em casos de corrupção. Michel Temer, em pouco mais de seis meses, perdeu seis ministros pelo mesmo motivo, mas não teve coragem de demitir oficialmente nenhum. Coragem que lhe sobrou na hora de demitir 61 garçons, copeiros, encarregados e auxiliares de serviços gerais do Palácio do Planalto.

Antes de colocar sua turma para aprovar a PEC do Apocalipse e impulsionar a reforma da Previdência, Temer aumentou salário do Judiciário, as verbas para as Forças Armadas e as verbas para a imprensa — não é à toa que alguns veículos o considerem o Brasileiro do Ano. O Maquiavel de Tietê (falo da sua cidade natal, não do rio) afagou muito bem essas elites antes de mandar a conta da crise para os mais pobres pagarem — o que me parece muito mais um ato de covardia do que de coragem.

Com um presidente fraco, decorativo, ilegítimo, rejeitado pela maioria da população e sem perspectivas de melhora na economia, cresce a possibilidade de Temer não conseguir terminar o governo. Até um importante aliado como Ronaldo Caiado (DEM) já anda pedindo “um gesto maior” do presidente: a sua renúncia e “antecipação do processo eleitoral”.

Eleições diretas parecem ser o único caminho possível para tirar a democracia brasileira do buraco e lhe dar legitimidade, mas o núcleo político de Temer já se apressou para barrar a possibilidade do povo escolher o seu presidente caso haja renúncia. Eles querem, na pior das hipóteses, eleições indiretas. Aí, meus amigos, é só aguardar qual será o próximo homem branco, rico e de fibra que será escolhido pelo congresso mais conservador desde 1964.

João Filho
No The Intercept
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Dirceu: todos às ruas para derrubar o Temer!

Delenda est Globo!


O Conversa Afiada reproduz a correspondência de José Dirceu, condenado à prisão perpétua pelo cachalote, com o escritor Fernando Morais, no Nocaute:

José Dirceu, da prisão em Curitiba: “É hora de ação, de pressão, de ir às ruas, de exigir, liderar e apontar rumos. É agora ou nunca.”

Da prisão em que cumpre pena, em Curitiba, José Dirceu escreve ao jornalista Fernando Morais, editor do Nocaute. Na carta, Dirceu conclama a todos pela volta à democracia: “Stédile, Boulos e Vagner Freitas agora têm a missão de ir às ruas e exigir justiça para todos, a renúncia de Temer e caterva e eleições gerais.” Leia a íntegra da carta:
Mestre Fernando

Fiquei feliz pela foto em Havana com Raul e os companheiros, além da Mônica, unicamente senti não estar com vocês, mas me senti representado por você e o Breno.

Não vi Rafael Correa, enviou algum representante? Vice-Presidente?

Lá estavam João Pedro, Boulos e Vagner que agora tem a missão de ir ‘as ruas e exigir justiça para todos, a renúncia de Temer et caterva, eleições gerais, constituinte, antes que façam um acordão, como já vem sendo pensado por Gilmar Mendes, a falada “operação contenção” para salvar o tucanato e o usurpador Temer.

É hora de ação, de pressão, de ir às ruas, de exigir, liderar e apontar rumos. É agora ou nunca. Sem conciliações e acordos, é hora de um programa de mudanças radicais, na política e na economia.

Bem, já está de bom tamanho para quem está preso e não deve meter o bedelho!

Você está gordo, cuide-se, precisamos de você, agora como nunca!

Temos ainda 20 longos anos de luta pela frente.

Até a vitória, sempre.

Delenda Rede Globo…

Daniel
Obs: O STF se acumpliciou com as ilegalidades do Moro, com o golpe e pior, com a impunidade, o corporativismo judiciário!”

Em tempo: na mesma linha de raciocínio, compare essa carta do Dirceu com outra que o ansioso blogueiro psicografou. - PHA

Em tempo 2: sobre a proposta irresistível do Dirceu - delenda est Globo - ver o verbete na Wikipédia.
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Desmoralização

Injustiça dizer que Donald Trump é contra as minorias. Seu gabinete, além de um número sem precedentes de generais, inclui muitos membros da menor minoria de todas, a dos multimilionários.

Um jornalista americano pesquisou e descobriu que os ricos escolhidos por Trump têm em comum não apenas muito dinheiro, mas o fato de serem todos leitores e admiradores da Ayn Rand, a americana nascida na Rússia que, nos seus livros, faz a apologia do egoísmo criativo e endeusa empreendedores com mais audácia do que escrúpulos.

Rand morreu em 1982 e tornou-se uma espécie de santa padroeira do neoliberalismo, proporcionando ao capitalismo desenfreado uma absolvição filosófica. O jornalista duvida que o próprio Trump seja leitor da Ayn Rand — talvez esteja esperando seus livros saírem em quadrinhos — mas conclui que nunca um gabinete americano teve tal coesão de princípios, com todos se imaginando heróis de uma das ficções de Rand.

Outro jornalista americano, Paul Krugman, escreveu um artigo sobre Trump com o título “O candidato da Sibéria”. A alusão é ao filme “O candidato da Manchúria” (em português, “Sob o domínio do mal”), em que um soldado americano capturado por comunistas chineses é condicionado a agir como assassino segundo ordens subliminares que receberá ao voltar para os Estados Unidos.

Sua missão, quando receber o comando, é eliminar um candidato à Presidência para favorecer o candidato que os comunistas querem. Ou coisa parecida. A CIA descobriu que os russos deram uma mão aos republicanos na recente eleição presidencial americana, hackeando e intervindo nas comunicações dos democratas.

A única prova de que Trump não é uma marionete dos russos, apoiado por eles para desmoralizar para sempre a democracia, é que Trump não esconde sua admiração pelo Putin. Se fosse uma “toupeira” — na linguagem da espionagem, um agente infiltrado num país inimigo esperando, às vezes durante anos, a hora de ser acionado — Trump esconderia sua admiração.

De qualquer maneira, é fascinante imaginar Trump, uma personificação do capitalismo sem freios, como agente russo. O fato é que, de propósito ou por acidente, a democracia foi desmoralizada.

Feio não

Dizem que os apelidos dados pela Polícia Federal e procuradores a políticos sendo investigados está revoltando os apelidados mais do que a revelação das suas falcatruas.

“Corrupto” tudo bem, mas “Feio” não! Não se sabe como são escolhidos os apelidos. Haveria só um dando codinome aos delatados ou isto seria trabalho de uma equipe, que discutiria as sugestões?

— O que vocês acham de “Angorá” para o Moreira Franco?

— Perfeito!

Luís Fernando Veríssimo
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A turma do "je suis Dallagnol" não se emenda


Há algumas semanas atrás, sugeri que a ministra Carmen Lúcia, na qualidade de presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça, não faria bem em se solidarizar com juiz federal de primeiro grau que ordenara um jabaculê no Senado. Afinal, a iniciativa era mui controversa e não cabia à ministra, que preside um órgão de controle externo do poder judiciário, bater boca com o presidente do Senado, que cumpria seu papel político ao demonstrar sua indignação com a invasão do espaço legislativo, ainda que chamara, o juiz de piso, de "juizeco". Afinal, um "je suis juizeco" não pegava bem para a ministra.

Hoje anunciou-se declaração do senhor procurador-geral da república, em que critica de forma dura a propositura de ação por danos morais pelo Ex-Presidente Lula contra o procurador Dallagnol, de Curitiba, por este ter protagonizado espetáculo deprimente de entrevista coletiva em que exibira um "PowerPoint" simplório, para atribuir ao ex-chefe do executivo federal, a qualidade de "comandante do esquema Petrobrás". Tanto quanto Renan, Lula está no seu direito de indignar-se e o procurador-geral da república não anda bem em atacá-lo por isso. Inusitado é o chefe do parquet se solidarizar com quem é acusado de violar a honra e a reputação de Lula, pois também ele, o PGR, preside um órgão de controle externo, o do ministério público, que pode vir a ser chamado a dizer sobre os excessos do procurador integrante da chamada força tarefa da operação "Lava Jato". Um "Je suis Dallagnol" é tão despropositado quanto um "Je suis juizeco".

Não é de hoje que o tom do conflito entre instituições do estado tem subido muito acima do aceitável. Gritos de juiz em audiência, porque atribui a advogados do réu "abuso de direito de defesa", quando da insistência em perguntas a testemunhas, são tão grotescos quanto querer sugerir "cerceamento da acusação", porque o réu não aceita a pornográfica violação da presunção de sua inocência por um membro do ministério público e busque responsabilizá-lo na justiça.

O tom de hostilidade à defesa e a advogados foi inaugurado no famigerado processo do mensalão, com os estribilhos incensurados do então relator, ministro Joaquim Barbosa. Como o exemplo vem de cima, parece que, com essa atitude, abriu-se a temporada de caça aos causídicos defensores. E a ordem dos advogados permanece estranhamente em silêncio.

A investigação da "Lava Jato" tem sido um festival de abusos contra garantias processuais mais comezinhas, numa conivência entre o complexo policial-judicial e a mídia, com indisfarçável escopo de atingir a reputação de alguns bem escolhidos atores políticos. Quando interessa fazer barulho, investigados são presos ou conduzidos com ostensivo aparato repressivo, sendo mostrados publicamente algemados. Que se dane a excelsa súmula vinculante Daniel Dantas, que veda o uso de algemas quando não há resistência do detido ou do conduzido! Nem se vê, por sinal, o STF, através de seus eloquentes ministros, exigir o cumprimento de dita súmula. Aliás, como é notório, a operação tem se excedido, também, nas próprias conduções coercitivas, sem que se desse razão para tanto. Investigados são exibidos de forma constrangedora "de baraço e pregão pelas ruas da villa", no melhor estilo das Ordenações Filipinas.

Triste é constatar que o senhor procurador-geral da república, ao invés de cumprir com seu papel de chefe da instituição a que incumbe a proteção dos direitos fundamentais, prefere se identificar com quem os fere e bater boca com quem não se conforma. Está claro, desde já, que se Lula for representar contra esses abusos ao chefe do ministério público federal, como é legitimo, vai encontrar oiças mocas, pois este já declarou: "Je suis Dallagnol".

Este episódio mostra mais uma vez o quanto é urgente debater na sociedade e no legislativo a responsabilização de agentes públicos por abuso de autoridade, pois se nem o Congresso e nem um ex-presidente da república respeitam, o que se dirá do cidadão comum? Corporativismo e populismo são infelizmente duas pragas que corroem nossas instituições mais caras para a democracia, que, com isso, se tornam incapazes de defender quem delas mais precisa. Jogam para uma plateia irada, sedenta para assistir um massacre de gladiadores na arena do Coliseu. E, com isso, nem tanto pelo pão, mas muito pelo circo, as instituições ganham a simpatia das massas, num projeto evidente de poder da respectiva corporação.

Cantem ao povo uma nova canção, senhores procuradores e, quem sabe, consigam reverter sua a desmoralização que não tardará: a democracia não precisa de heróicos salvadores da pátria, mas, sim, de magistrados equilibrados que façam justiça por via da apreciação dos fatos e sua subsunção à lei e não para atender o grito histriônico dos que querem um show de ataque aos direitos fundamentais.

Eugênio Aragão



Aragão: esses coxinhas são ‘minions’!

Na última terça-feira (13/12), o procurador federal e professor da UnB, Eugênio Aragão, participou do evento “O Papel do Ministério Público na Democracia”. O encontro, organizado pelo sindicato dos professores universitários do Rio Grande do Sul, aconteceu no auditório da Faculdade de Economia da UFRGS, em Porto Alegre.

Aragão, que foi ministro da Justiça no governo da presidenta Dilma Rousseff, falou sobre a história do Ministério Público Federal (MPF) e examinou o atual perfil do órgão, que adotou uma linha persecutória e abraçou o discurso sensacionalista e acusador da grande imprensa.

Ao final do encontro, o ex-ministro analisou também o presente cenário político do país. Aragão afirmou que não há uma saída fácil da atual situação: “Não sei como a gente começa a corrigir isso. Acho que estamos em um tremendo de um imbróglio, sem entrada e nem saída.”

“O que nós podemos fazer é, sim, mostrar claramente as nossas posições para que, amanhã, quando este processo se exaurir, as pessoas saibam quem resistiu e quem não resistiu. Estamos construindo a narrativa deste Golpe para que amanhã se saiba claramente quem estava do lado certo e quem estava do lado errado. Esse é o nosso papel.”

O ex-ministro também citou a dificuldade de estabelecer um diálogo produtivo com uma parcela grande da população - em especial, a classe média que, apoiada no discurso do PiG, deu suporte ao Golpe.

“Nós não podemos ter a ilusão de que vamos desfazer esse cocô que está na cabeça desses dois neurônios de coxinha. Não tem como. Esses caras são ‘minions’!”, disse, em referência aos vilões “fofinhos” da animação “Meu Malvado Favorito”.

“São ‘minions’ de dois neurônios, não tem como você lidar com eles. Como que você vai querer explicar pra esse povo o que que é o processo político? Eles sempre vão dar um jeito de dizer que você está errado!”



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Antônio e Luana

Naquela noite, como em todas as noites, frei Antônio atirou-se na sua cama de pedra coberta com aniagem e palha, e tentou não pensar nela. Tinha dado suas nove voltas no claustro, rezando e tentando não pensar nela. Tinha comido o pão seco e a sopa rala no refeitório, entre os outros freis, tentando não pensar nela. Agora, na cama, a única maneira de não pensar nela era dormir. Mas frei Antônio não conseguia dormir, pensando nela. Ela se chamaria Lua. Ou Luana. Qualquer coisa assim.

Dois séculos depois:

Bacana! - disse Luana, quando entrou no quarto. Que era mesmo uma beleza. Tinham aproveitado as celas do velho mosteiro para fazer o hotel. O quarto era pequeno e as paredes de pedra tinham sido mantidas. Mas a decoração era linda e o quarto não era frio, era aconchegante, bem como dizia no prospecto. Aconchegante. 

- O que é aquilo? - perguntou Luana.

Acho que era onde os monges dormiam.

Assim, em cima da pedra?

É, Lu. Mas a nossa cama é aquela ali...

O quarto só tinha uma janela alta e estreita, como uma seteira. Naquela noite, depois do amor (“Nunca pensei, fazer isto num mosteiro...”), Luana ficou olhando a luz da lua cheia que entrava pela janela alta e estreita.

Frei Antônio olhava a janela alta e estreita por onde entrava a luz da lua cheia. Lua. Ela se chamaria Lua. Teria cabelos loiros. Seria uma Lua loira. Senhor, que a porta se abra agora e entre uma Lua loira. Uma Lua nua. Uma Lua loira e nua. Senhor. Agora, Senhor. Lua e nua e loira... Quando finalmente dormia, frei Antônio não sonhava com ela. Sonhava com o inferno. Sonhava com o fogo do Sol. Às vezes, acordava no meio da noite, suado, e pensava: “As chamas são para você aprender, Antônio. São o seu castigo”. Mas castigo por que, se a Lua não se deitava com ele, se a Lua só existia na sua imaginação? Eu a amo e ela nunca virá. E eu arderei no Inferno só pelo que pensei.

Imagina a vida que eles levavam, Túlio.

Quem?

Os monges. Deviam ficar ali, deitados na pedra, coitadinhos...

Pensando em mulher.

Será? Acho que não. Tinham escolhido uma vida sem mulher. Sem sexo. 

Falando nisso, chega pra cá, chega.

Não. Para. Como seria o nome dele?

De quem?

Do monge que vivia nesta cela?

Sei lá. Isto aqui deixou de ser mosteiro há uns cem anos...

Luana ficou pensando no último monge que ocupara aquela cela. Como seria ele? Passou a imaginá-lo. Imaginou-se entrando na sua cela e deitando-se com ele. Assim como estava, nua. Ele a expulsaria da sua cama de pedra? Pobrezinho.

Frei Antônio sentiu que havia outro corpo com ele na cama. Sentiu seu calor. Mas não abriu os olhos. Não virou a cabeça. Estava sonhando, claro. Tinha medo de abrir os olhos e descobrir que não havia ninguém ali. Tinha medo que o calor fosse embora. Ouviu uma voz de mulher perguntar:

Como é o seu nome?

Antônio. E o seu?

Mas não houve resposta. Frei Antônio abriu os olhos e viu a luz da Lua cheia saindo pela janela, como se fugisse.

Antônio...

Ahn?

O quê?

Você disse “Antônio”.

Eu? Tá doido? 

Estava sonhando com quem?

Com ninguém.

Chega pra cá, chega.

Ó Túlio. Você só pensa nisso?

É que, sei lá. Este quarto está carregado de sexo. Tem sexo escorrendo pelas paredes. Você não sente?

Não.

Já sei! Vamos fazer amor na cama de pedra.

Não. Na cama dele, não.

Luís Fernando Veríssimo
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Quando se imaginaria que veríamos o Congresso sob domínio de aventureiros?

Dois em cada três brasileiros desejam a renúncia de Michel Temer. Só dez em cada cem lhe concedem a graça de um apoio, proporção verificada ainda antes dos "vazamentos" da Lava Jato sobre Temer. Única preocupação que de fato o inquieta e mobiliza, essa fragilidade crescente será revertida em grande parte, na opinião de Temer e ao seu redor, com o aproveitamento promocional durante o recesso parlamentar e judicial, de agora a fevereiro. Providências nesse sentido já estão em curso, dirigidas a setores da imprensa e da TV. Mas não falta o "outro lado".

O aproveitamento do recesso está nos planos também dos opositores a Temer e às suas alegadas reformas. Partes importantes dos movimentos sociais planejam aproveitar este período para organizar, com redes de internet e com o setor sindical, reações aos retrocessos originários do governo Temer.

Entre o otimismo aflito e a remobilização pretendida, os políticos deixaram sinais sugestivos e vão recolher em seus Estados, queiram ou não, impressões influentes. Deputados e senadores deixaram claro que as dúvidas sobre a permanência de Temer estavam cada vez menos sutis. No PSDB, sócio do governo, e no DEM as menções a Fernando Henrique eram claras quanto a acontecimentos possíveis, ou previstos, para 2017. No PMDB, Nelson Jobim foi citação corrente, inclusive como solução a que o PT não se oporia. Foi nos dois esteios da própria base governista, portanto, que a substituição de Temer se tornou cogitada no Congresso.

Em seus Estados, o que os deputados e senadores vão encontrar será a figuração em carne, osso e voz daquele desequilíbrio esmagador entre Temer e a expectativa dos brasileiros. É um velho consenso em política, embora nem sempre confirmado, que os parlamentares de volta dos recessos não são os mesmos que o iniciaram. A repetir-se mais uma vez a influência dos conterrâneos, já se sabe em que rumo os acontecimentos virão.

Mas é muito difícil entender como o Brasil permitiu-se chegar à baixeza cultural e política que ostenta — e levou-a ao paroxismo nas duas últimas semanas. Só países muito chinfrins se deixam estropiar por um governo inerte e incapaz, repleto de exemplares da pior condição moral. E ver sem reagir a sua já insuficiente indústria desintegrar, o comércio fechar portas incontáveis, o investimento fugir, o futuro apodrecer antes de ser.

E o povo sofrido perder outra vez, como nos 500 anos anteriores aos poucos em que pela primeira vez deixara de perder. E perdida a pequena melhoria, é o desemprego de volta, é a queda dos salários, o atraso do pagamento. É a perda de direitos. É a pobreza de volta à miséria.

E quando se imaginaria, retirada a ditadura, que nas altitudes das instituições democráticas assistiríamos — passivos, como se apenas víssemos um filme — ao Congresso sob o domínio de aventureiros e presidido por um réu e acusado em numerosos inquéritos? E esse Congresso, o Ministério Público e o Judiciário a se engalfinharem na disputa de desrespeitos e abusos de poder.

Nesse país ensandecido, e vergonhoso, faz-se o teste definitivo dos militares: se têm resíduos dos tempos cucarachos ou se, como parece, passaram adiante do país em civilização.

Como descobriu o "Drive Premium", informativo de Fernando Rodrigues e equipe, na quarta-feira Michel Temer recebeu João Roberto Marinho para jantar. Foi a segunda vez, sendo a primeira logo ao tomar posse. Mas o que Temer queria agora? Queixar-se de certo noticiário da TV Globo. Quer conter as divulgações negativas para sua imagem. Poderia, talvez, incomodar-se um pouco com as informações negativas sobre a situação do país.

Na mesma quarta, opositores faziam uma reunião em São Paulo, inclusive com presenças ilustres, para examinar hipóteses de mobilização.

Janio de Freitas
No fAlha
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