11 de dez de 2016

Nota à Imprensa


À propósito da matéria de capa de IstoÉ, publicada neste sábado, a Assessoria de Imprensa de Dilma Rousseff esclarece:

É despropositada a peça de ficção assinada por Debora Bergamasco, repórter de IstoÉ, que faz prosa de baixo nível em vez de texto jornalístico. A campanha difamatória movida pela Editora Três ao longo de 2015 e 2016 continua a tentar destruir a reputação da ex-presidenta da República.

Dilma Rousseff refuta qualquer insinuação de pedido de recursos – a quem quer que seja – contida nas páginas de IstoÉ. As afirmações são mentirosas e levianas. Mais uma vez, a revista sequer teve o cuidado de ouvir o outro lado, um princípio básico do jornalismo praticado por repórteres honestos e cumpridores de seu dever profissional.

Ao fazer jornalismo de guerra, a revista mira a ex-presidenta da República, justamente quando a própria IstoÉ confere a Michel Temer o título de “Brasileiro do Ano”. É uma clara manobra diversionista, diante do que está sendo divulgado pela imprensa neste final de semana. A revista dá sinais visíveis de que está a serviço de interesses partidários e não do jornalismo e da sociedade.

Mais uma vez, a Editora Três, a revista, a repórter e os editores de IstoÉ serão acionados judicialmente para reparação de danos à imagem de Dilma Rousseff. É na Justiça, onde já respondem a uma queixa-crime, que irão se explicar.

Assessoria de Imprensa
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É este

O Millôr dizia que há um instante na vida de qualquer pessoa em que ela pensa: nunca me senti tão feliz como neste exato momento. E que, em seguida, vem outro pensamento: nunca mais me sentirei tão feliz como agora. Eu me lembrava do Millôr contando que seu momento fugidio de prazer inédito viera dirigindo um conversível pela Avenida Atlântica, em Copacabana. Ainda moço, bem pago (na revista Cruzeiro, que circulava por toda a América Latina), festejado como humorista e pensador, sentindo a brisa do mar nos cabelos que ainda existiam, o Millôr tinha todas as razões para dizer daquele momento: é este. E como este, nunca mais.

Mas no almoço em homenagem ao Casé, há dias, no “Guimas”, o Ziraldo liquidou com a minha memória. Segundo o Ziraldo, Millôr nunca teve um conversível. Teve outros carros flamantes, mas nunca um conversível. Talvez, pensei, ele descrevera outro carro e outro momento de felicidade e eu inventara um conversível para ele cruzar pela Copacabana dos anos 50, achando que era o que ele merecia.

Nós caminhando na direção de casa, a Mariana na minha cacunda (grande palavra, “cacunda”), a Fernanda pela mão, as duas pequeninas, o Pedro ainda por nascer – pronto, meu momento. Mas não posso dizer que outros momentos, antes e depois, não chegaram perto. Desmenti a segunda parte da filosofia do Millôr: tive momentos reincidentes de felicidade, mais do que a maioria de pessoas com menos sorte do mundo. Nunca disse “nunca mais”. E ainda viriam a Lucinda e o Davi para alegrar as nossas vidas, se bem que eu não possa carregar mais ninguém na cacunda.

Muitas vezes, o instante não é reconhecido no momento em que acontece, só depois. Nada mais triste do que a frase “eu era feliz e não sabia”. Mas, segundo o Millôr, a pessoa sempre sabe. O momento pode vir como uma vontade incontrolável de rir ou de chorar, ou simplesmente como um calor bom na barriga. Fique atento e não desespere. Seu momento ainda pode estar por vir.

Luís Fernando Veríssimo
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Mãe Joana

A Mãe Joana original, nos diz o Google, viveu entre 1326 e 1382. Era rainha de Nápoles e condessa da Provence, para onde foi exilada pela Igreja por levar uma vida desregrada e se meter em conspirações. Ela regulamentou as casas de prostituição da Provence e se hospedava nelas para se refugiar. Em Portugal, “paço da mãe Joana” virou sinônimo de bordel. No Brasil, onde “paço” era expressão pouco usada, a casa da Mãe Joana voltou a ser casa, e eternizou-se na linguagem como um lugar em que tudo é permitido, ninguém se entende, e a bagunça é geral.

Sabe-se pouco sobre o que acontecia na casa da Mãe Joana original. Imagina-se que todos andassem dentro da casa arrastando-se contra as paredes para evitar ataques pelas costas, lascivos ou mortais. Qualquer um podia entrar na casa, desde que assinasse um compromisso de nunca chamar a polícia ou se queixar para as autoridades, não importava o que lhe acontecesse lá dentro, e deixar toda a roupa na entrada. A própria Joana devia comandar os espetáculos que divertiam os visitantes todas as noites:

— Que entrem os anões besuntados!

Ou:

— Soltem o urso tarado!

Guardas ficariam na porta da casa não para evitar que bêbados ou arruaceiros entrassem, mas para atirá-los para dentro. Etc., etc.

O Brasil está uma casa da Mãe Joana, só que menos divertida. Vivemos no clima das delações da Odebrecht, uma tsunami moral que ameaça varrer metade do gabinete do Temer, se não levar o próprio Temer. Um ministro do Supremo pede o afastamento do presidente do Senado, o Senado se nega a entregar a cabeça do seu presidente, e uma maioria do mesmo Supremo diz que tudo bem — para evitar uma crise institucional que já está aí há anos.

Pode-se imaginar o que a Joana diria de tudo isso:

— Pouca-vergonha!

Luís Fernando Veríssimo
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Renan cria inquietações para permutá-las por conveniências suas

O embate entre Supremo e Senado não está encerrado. Vai até ganhar, em breve, novos ingredientes ácidos. De imediato, arma-se uma etapa adicional da divergência que as duas partes, e muitos mais, pensaram encerrada com ganhos espúrios de ambas. O desacato de Renan Calheiros a uma decisão emitida em nome do Supremo ainda tem o que render. Mas, subjacente aos fatos visíveis, a fermentação é ainda mais ativa e tóxica.

É mesmo problemática a assimilação de um desenlace por meio de acordo entre o Supremo e políticos, à maneira dos conchavos parlamentares recebidos pela opinião pública, tantos deles, com repugnância. Réu em processo de peculato pode ser presidente da República? Collor, em um mergulho na sensatez, responderia que não. E presidente do Supremo, cume do Poder Judiciário, poderia ser réu de peculato? Mesmo os saqueadores da Petrobras responderiam com o óbvio. E presidente do Congresso e do Senado?

Ah, todo aquele que não queira repetir Calheiros, e desacatar decisão do Supremo, dirá que o cargo e réu de peculato são compatíveis. É o que seis ministros do Supremo, contra três, informam ao país.

O afastamento de Calheiros seria um fato sem arestas se, nada mais que isso, ele o acatasse e recorresse ao próprio Supremo. Seu desafio à lei e ao Judiciário exacerbou a tensão do país entregue a um governo obtuso e inconfiável. Nas circunstâncias, seria compreensível alguma concessão política para desatar o novo nó. Nunca, porém, concessão do Supremo. Seus ministros têm os encargos de guardiães da Constituição. E contra a Constituição nenhuma concessão é admissível. Esta mesma é a razão de ser do Supremo.

Mais extravagante é que a concessão transportava vantagens para Calheiros e para o Judiciário. A presidente do Supremo, Cármen Lúcia, já expôs sua repulsa ao projeto, criado por Calheiros e por ele posto na iminência de votação, contra abuso de autoridade. O grupo da Lava Jato e várias associações de juízes repelem o projeto. A omissão do Supremo, na aplicação das exigências convencionais para o cargo de presidente do Congresso e do Senado, levou ao pronto recolhimento do projeto por Calheiros. O seu método de ação é, desde sempre, o de criar inquietações para permutá-las por conveniências suas.

Sabe-se de alguns participantes de conversas com um lado ou com outro, mas não se sabe como as coisas se passaram. Apenas coincidência de generosidade mútua não é crível. Quando Cármen Lúcia subverteu a ordem dos votantes no Supremo, para que o decano Celso de Mello lançasse uma tese, ficou evidente a existência de uma combinação entre ministros. A favor de Calheiros, como o decano logo confirmaria.

Há, porém, um outro indício. Mais valioso porque sugere que o então destituído presidente do Congresso sabia o que o Supremo lhe reservava. Com o sigilo possível e em paralelo à sessão do Supremo, o líder do DEM, Ronaldo Caiado, apresentou um requerimento no Senado subscrito por vários senadores. Ato requerido: retirada de pauta do projeto contra abuso de autoridade. Efeito esperável: uma iniciativa do DEM desvincularia a retirada do projeto e a já falada existência de um acordo para vantagem mútua.

Mútua, mas não equilibrada. Quanto o Supremo perdeu em respeitabilidade é imensurável, até por incluir o que lhe será debitado em casos gritantes de abuso de poder. Calheiros só ganhou. O Senado em breve terá pela frente as associações de magistrados, que já reclamam –com razão– de perdas que as "reformas" de Temer querem impor, inclusive, aos juízes. E ainda há a ameaça extra: a fúria de Gilmar Mendes, que, ao voltar do "tour" sueco, não verá no Senado o projeto do qual é inspirador e patrono.

Janio de Freitas
No fAlha
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