5 de dez de 2016

O que o Ministro Barroso tem a dizer sobre o último abuso da Lava Jato?


Não há limites para os abusos da Lava Jato. Conversas particulares entre pai e filha sendo divulgados para a imprensa. Pouco importa se o pai é o execrável Eduardo Cunha. Esse tipo de abuso seria intolerável em qualquer regime democrático.

O que o arauto do novo iluminismo, Ministro Luís Roberto Barroso, teria a dizer sobre esses abusos? Ele, que tolera o estado de exceção, foi alvo de chantagens explícitas de blogs e da Veja, apontando para a compra de um apartamento em Miami por sua esposa, com nome de solteira e através de uma offshore.

Em vez de reagir contra o abuso, de esclarecer a compra, Barroso foi pelo caminho mais fácil: cedeu ao arbítrio e tornou-se ele proprio um defensor do estado de exceção, a maneira mais cômoda das pessoas de pouca coragem de garantir uma blindagem para si e para os seus.


‘Dad, infelizmente não tenho cacife para comprar tudo que gostaria’, disse filha a Eduardo Cunha

Quebra de sigilo telemático do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB) pegou mensagens trocadas por ele com a filha




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Como o marketing reduziu a economia a um produto de boutique


A melhor tradução desses tempos de superficialidade e redes sociais foi a afirmação do publicitário Nizan Guanaes, na reunião do CDES (Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social), sugerindo a Michel Temer aproveitar sua impopularidade para tomar medidas impopulares.

Comprova que nas últimas décadas a discussão econômica e política tornou-se refém dos refrãos de mercado, da criação de reputações vazias e do salvacionismo da purgação dos pecados: a economia está ruim porque pecamos, gastando mais do que tínhamos; se for feita a lição de casa, com sacrifícios (dos outros), recuperaremos o caminho da salvação.

Nada exprime mais esse vazio, esse falso intelectualismo, do que as manifestações do Ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal.

Diz ele que o governo é ruim, mas a equipe econômica é competente. Qual o nível de análise para chegar a tal conclusão? Nenhum. Não analisou a produção acadêmica, não conhece a atuação pregressa de nenhum deles, não demonstra o menor conhecimento para uma avaliação minimamente competente de sua atuação à frente da Fazenda ou do Banco Central. No entanto, opina, e com a carteira de Ministro do Supremo e porta-voz de um iluminismo de butique.

É de uma superficialidade assustadora, uma mera repetição do que ouviu na Globonews e se tornou um bordão de bom pensamento, como uma marca de gravata, uma indicação de um bom livro ou boa música. E diz Barroso, com aquele tom alarmista dos gansos do Capitólio, que o atraso é permanente no Brasil, porque as forças que o sustentam são poderosas.

Mire-se no espelho. O atraso ancestral é decorrente da superficialidade escandalosa de pessoas como ele, que supostamente deveriam representar uma elite letrada, porque um dos grandes juristas do país, mas que se movem no mercado de ideias da mesma maneira que socialites nas colunas sociais, esforçando-se atrás de frases de senso comum para serem in.

No Brazil Forum UK 2016 – feito para especialistas – Barroso apresentou como uma das vantagens do Brasil a estabilidade democrática e um conjunto de condições para o desenvolvimento, dentre os quais, a educação. Para a mídia e o populacho de suas relações sociais, apresenta como saída política o estado de exceção e como saída econômica a PEC 241, analisando as estratégias fiscais com a mesma superficialidade com que se analisa uma conta de padaria.

O gênio Henrique Meirelles

Foi esse processo de banalização das análises que transformou em gênio financeiro o Ministro da Fazenda Henrique Meirelles, que jamais passou de diretor da área internacional de um banco médio dos Estados Unidos – embora deixasse divulgar a informação de que “global president” seria presidente global, e não de um mero diretor de área internacional, que respondia por menos de 8% dos ativos do banco.

Mestre na arte do marketing pessoal, levou Lula no bico. E, por ser permanentemente disponível para o mercado, o próprio mercado e os papagaios da mídia trataram de construir a imagem de grande Ministro, assim como fizeram com Antônio Palocci, enquanto lhes serviu e, antes dele, com Pedro Malan.

Agora, tenta-se criar o mito Armínio Fraga, um especialista em ganhar dinheiro, arte que exige uma espécie de talento que nada tem a ver com a construção de políticas macroeconômicas sustentáveis, com visão de nação.

Uma boa síntese da superficialidade de análise do mercado em relação à economia pode ser lida na excelente entrevista de Alexa Salomão e Ricardo Grinbaum com o mega-operador Luis Stuhlberger (https://goo.gl/xAd2uy) o mais bem-sucedido administrador de fundos hedge.

Stuhlberger é o que de mais sofisticado o mercado produz. Mesmo assim, é dono de um pensamento mecanicista, incapaz de entender o jogo nacional de maneira sistêmica, os limites da ação política, os impactos dos ajustes fiscal e monetário sobre a economia real, o estado de espírito da população com o aprofundamento da crise, seus impactos sobre a ação legislativa. Ou mesmo entender a enorme cadeia produtiva que passa ao largo da influência das grandes corporações. Por aí se explica o fato de só depois do desastre consumado se dar conta de que a realidade não obedeceu às expectativas do mercado.

Para esses gestores, mesmo os mais sofisticados como Stuhlberger, a economia se resume ao Banco Central e aos investimentos de private equity. E como são os grandes compradores de análise econômica, os economistas e consultores se limitam a atender às demandas do freguês.

É o chamado paradoxo das expectativas positivas:

1. Se os gestores financeiros acreditarem no país, eles investirão e o país volta a crescer, independentemente das condições das demais variáveis da economia.

2. Mas os investidores só investirão se as demais variáveis apresentarem expectativas positivas.

Como operadores como Stuhlberger só conseguem analisar grandes agregados, caem do cavalo quando percebem que apenas o poder da fé não basta para mover as montanhas.

É por aí que se entende a geração da última expectativa: Armínio Fraga e sua inacreditável proposta de acentuar ainda mais o ajuste fiscal, com a economia rumando para a depressão, mesmo após a comprovação ampla dos desastres cometidos pelo pacote Joaquim Levy e da ameaça de pacote Meirelles.

A lógica suicida do Banco Central

O mesmo acontece com o Banco Central, com as inacreditáveis taxas reais de junho em um quadro em que a economia caminha para a depressão.

Anos atrás, cunhei a expressão “cabeças de planilha” inspirado na planilha de Ilan Goldjan, então diretor do Banco Central, atualmente seu presidente.

Ao lado de Armínio, Ilan foi um dos instituidores do sistema de metas inflacionárias, visando a coordenação das expectativas dos agentes econômicos. Montou uma planilha que definia resultados automáticos para cada situação, desde as previsões de inflação, a partir de dados desagregados, até a intensidade do ajuste da Selic.

Todo o mercado, então, passou a trabalhar em torno da planilha do Ilan. Não interessava acertar o que aconteceria com a economia, mas com a planilha do Ilan, estivesse certa ou errada.  Acertar o resultado da planilha significaria acertar o nível da taxa Selic, as taxas dos leilões do Banco Central e do Tesouro, toda uma indústria montada com as apostas em torno da inflação.

A cadeia improdutiva da arbitragem criou a mística da inflação como a variável-chave de toda a economia. Bastaria a inflação cair para o centro da meta para todos os problemas se resolverem, caírem as taxas longas de juros, o investimento voltar, trazendo de volta o crescimento. Pouco importa se, para chegar ali, deixou-se para trás uma terra arrasada.

Mais que isso, desenvolveram a tese de que cada instrumento de política econômica só pode ter um objetivo. Ou seja, geração de dívida pública, apreciação cambial, impacto no crescimento, nada disso importava: a política monetária só tinha como alvo a inflação e nenhum obstáculo poderia ser imposta a ela, nem a denúncia de custos excessivos

Essa visão insuportavelmente simplista não se reciclou nem após a crise pós-eleição, que desmontou toda a noção de equilíbrio macroeconômico. Era evidente que o passado não mais servia de balizamento para o futuro, porque vive-se uma situação inédita de recessão com queda de receita fiscal e crescimento agudo da dívida.

Momentos de instabilidade, como o atual, exigem um pensamento muito mais sofisticado e pragmático, capaz não apenas de analisar os indicadores, mas intuir de bate-pronto os movimentos da economia, entender as novas correlações, identificar os pontos centrais da crise para formular diagnósticos rápidos e certeiros.

Exige experiência de mundo real e inteligência para se mover em fatos nunca antes ocorridos.

Nada foi feito.

Esse Brasil – que Barroso reputa de iluminista – tem o brilho da luz neon de uma Lava Jato e as purpurinas douradas da falsa sofisticação.

Luís Nassif
No GGN
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Veja o depoimento em que Cerveró cita interferência de Temer na Petrobras



Leia o depoimento na íntegra:

Juiz Federal:- Então nessa ação penal 505160623, depoimento do senhor Nestor Cunat Cerveró, senhor Nestor, o senhor foi chamado nesse processo como testemunha, na condição de testemunha, o senhor tem o compromisso com a justiça em dizer a verdade e responder as perguntas que lhe forem feitas, certo?

Depoente:- Certo.

Juiz Federal:- Eu vou advertir o senhor, por força de lei, que se o senhor faltar com essa verdade, o senhor fica sujeito a um processo criminal, certo?

Depoente:- Certo.

Juiz Federal:- Além disso, senhor Nestor, é conhecido que o senhor teria celebrado um acordo de colaboração com a Procuradoria Geral da República, que teria sido homologado pelo Supremo Tribunal Federal, é isso mesmo?

Depoente:- É isso.

Juiz Federal:- Através desse acordo o senhor se comprometeu a dizer apenas a verdade perante a justiça?

Depoente:- Sim.

Juiz Federal:- Então também vou lhe advertir, senhor Nestor, que se o senhor faltar com a verdade, além do falso testemunho, o senhor responde pela penas, o senhor também perde o seu acordo, certo?

Depoente:- Certo.

Juiz Federal:- Dito isso eu vou passar a palavra aqui à defesa do senhor Eduardo Cunha, que arrolou o senhor como testemunha.

Defesa:- Obrigado Excelência, boa tarde, senhor Cerveró.

Depoente:- Boa tarde.

Defesa:- São rápidas as perguntas e objetivas.

Depoente:- Pois não.

Defesa:- Como que se deu a sua nomeação para a diretoria internacional da Petrobras?

Depoente:- Eu fui nomeado em janeiro de 2003, quando no novo governo Lula, o Lula tinha sido eleito, e fui indicado pra ser diretor internacional da Petrobras em 2003.

Defesa:- Houve participação do então senador Delcídio do Amaral e do Zeca do PT na sua nomeação?

Depoente:- Sim, minha indicação formalmente foi feita pelo governador Zeca, por indicação do senador Delcídio.

Defesa:- Houve algum pagamento de vantagem indevida ao senhor Delcídio do Amaral?

Depoente:- Não na ocasião, houve posteriormente.

Defesa:- O senhor se aproximou do PMDB quando?

Depoente:- Na realidade não fui eu que me aproximei do PMDB, o PMDB que se aproximou de mim em 2006, logo depois do mensalão.

Defesa:- Através de quem?

Depoente:- Através do ministro Silas Rondeau, que fazia parte do grupo do PMDB, que na época havia a divisão do PMDB da câmara, do PMDB do senado. Então na realidade eu fui procurado pelo Silas, que me apresentou ao senador Renan, ao senador … na época deputado Jader Barbalho, mas fazia parte do grupo do senado e que me informaram que eles também passariam … eu passaria a ser apoiado por esse grupo.

Defesa:- Se eu entendi nos seus termos de colaboração, o senhor afirmou em 2006, foi pago 6 milhões para os senadores Renan Calheiros, Jader Barbalho, Delcídio do Amaral e ao ex ministro Silas Rondeau, a título de participação nos negócios da Petrobras e isso visaria o apoio pra continuação no cargo, é isso?

Depoente:- Foi pago … realmente foi um acerto que houve com o comando, esse comando PMDB. O Delcídio não fazia parte desse 6 milhões, o Delcídio foi uma outra contribuição. Mas houve uma destinação de 6 milhões de dólares pra esse grupo aí.

Defesa:- E como que se deu esse pagamento?

Depoente:- Esse pagamento se deu através de resultado obtido de negociações de propinas dos negócios … basicamente da sonda … da primeira sonda que nós contratamos, que a Petrobras contratou, e de uma parte da comissão … porque, como eu disse, o Delcídio não fez parte desses 6 milhões de dólares. Os 6 milhões de dólares foi dirigido para o PMDB.

Defesa:- E aí um período depois o senhor foi substituído na diretoria da Petrobras?

Depoente:- Dois anos, quase dois anos depois.

Defesa:- E o senhor fez alguma cobrança de que esses senadores do PMDB lhe apoiassem para o senhor se manter no cargo?

Depoente:- Sim, eu conversei, porque a substituição não foi de uma hora pra outra, foi um processo que levou uns 6 meses, uma coisa assim, se iniciou com uma pressão do PMDB da câmara, um grupo de … foi dito depois nos contatos que eu tive com o pessoal em Brasília, que eu fui procurar, quer dizer, esse apoio do grupo do senado, que me disse isso, que havia um grupo muito grande de deputados do PMDB liderados pelo falecido deputado Fernando Diniz, do PMDB de Minas, que pediam a minha substituição na diretoria internacional. Aí eu fui até com o (incompreensível)cobrar o apoio do grupo do PMDB da câmara, mas naquele momento o PMDB da câmara …  do senado estava muito enfraquecido, porque foi na ocasião do que o senador Renan teve que renunciar por conta da história da filha dele, que era pago uma pensão, e ele renunciou. Então esse grupo tinha perdido … isso eu descobri nas negociações que, quer dizer, nas tentativas de permanência e tal que duraram coisas de 6 meses.

Defesa:- E o então deputado Fernando Diniz queria colocar quem no seu lugar?

Depoente:- A primeira … não foi… não foi … não sei se foi o deputado Fernando Diniz. Eu sei que esse grupo era, me foi dito, até pelo na época deputado Michel Temer,  que eu estive com ele, que ele tinha que atender a bancada, ele falou que tinha tido as melhores referências, mas que ele não podia deixar de atender a bancada. E aí o primeiro nome que surgiu pra minha substituição, foi no final de 2007, que eu fui substituído em março de 2008, foi o nome do João Augusto Henriques, que já havia sido diretor da BR no passado e tal, mas devido a um processo que ele tinha … teve no TCU, o nome dele estava impedido de exercer qualquer cargo de direção em empresas estatais. Então foi indicado o nome do meu substituto, doutor Jorge Zelada.

Defesa:- Nesse período, o senhor acabou … recebeu alguma proposta financeira pra permanecer no cargo de diretor?

Depoente:- Sim, um representante desse grupo me procurou, era até um deputado de Minas, Vicente … eu não me lembro, faz parte do … mas eu não me lembro o nome exatamente, através de um pequeno empreiteiro, uma empreiteira que eu tinha conhecimento, trouxe pra falar comigo lá de Belo Horizonte e me deram esse recado, que se eu me dispusesse a estabelecer um acordo, um pagamento mensal da ordem de 700 mil dólares, que esse grupo não faria … não havia nenhuma exigência que fosse … quem fosse, desde que fosse atendido esse compromisso. Aí eu não concordei, porque não tinha como fazer isso.

Defesa:- Esse grupo que o senhor se refere era…

Depoente:- Grupo da bancada do PMDB.

Defesa:- Da onde?

Depoente:- Não, aí eram… aí era diverso. A liderança me foi dito que era do Fernando Diniz, deputado Fernando Diniz.

Defesa:- Eu pergunto porque é relevante para o processo isso aí.

Depoente:- Ah, bom. Não …, evidentemente não eram 50 deputados (incompreensível). Eram deputados do PMDB.

Defesa:- Que eram liderados, como o senhor disse, pelo Fernando Diniz?

Depoente:- Quem estava comandando o movimento, me foi dito era.

Defesa:- O então presidente do PMDB, o deputado, à época, Michel Temer, acompanhava essa movimentação?

Depoente:- Eu estive com o Michel Temer, levado até pelo doutor Bumlai, que conhecia … Bumlai … eu tinha conhecido o doutor Bumlai. E ligou, marcou uma audiência com o deputado Michel Temer, no escritório dele em São Paulo, e eu fui lá, e ele me recebeu muito bem, inclusive ele confirma isso, porque isso faz parte do meu depoimento, mas me disse isso, que ele não podia contrariar os interesses, o objetivo da bancada que ele comandava. Que ele era o presidente do PMDB.

Defesa:- Teve a participação de uma pessoa chamada Jorge Luz nesse assunto?

Depoente:- O Jorge Luz era um operador, foi um operador muito atuante na Petrobras, que inclusive foi sócio do João Augusto no passado, eles são até, não tenho certeza, mas eles têm uma relação de … um é padrinho do casamento do outro, não sei exatamente, acho que o Jorge Luz é padrinho de um dos casamentos do João Augusto. Eles tinham uma relação muito próxima. Então o Jorge Luz foi quem divulgou junto a esse grupo, as … vamos chamar assim, as vantagens que poderiam advir da diretoria internacional. Eu conheci o Jorge Luz … uma informação adicional, o Jorge Luz foi quem fez a operação da transferência desses 6 milhões de dólares que eu me referi, de apoio ao PMDB.

Defesa:- O senhor tomou a época conhecimento de que haveria alguma participação do senhor Eduardo Cunha na sua substituição?

Depoente:- Não, na época não me lembro da citação do deputado Eduardo Cunha.

Defesa:- Ele não foi mencionado?

Depoente:- Não, porque isso já faz 10 anos, quase, 9 anos, e o que me foi dito foi isso, que eu procurasse o Fernando Diniz, acabei não falando com ele, não tive … mas eu preferi conversar, por indicação do próprio Bumlai, “bom vamo falar com o presidente do PMDB, que …”.

Defesa:- Essa proposta financeira que o senhor recebeu pra se manter no cargo, de pagar 700 mil dólares por mês, também foi levada ao presidente do PMDB à época?

Juiz Federal:- Não doutor, aí eu estou indeferindo essa questão, isso não é objeto da acusação e não tem competência este juízo pra esse tipo de questão.

Defesa:- Ok. Ainda já caminhando para o final, dentro dos temas desse processo, o senhor trabalhou com o senhor Eduardo Musa na Petrobras?

Depoente:- Eduardo Musa foi meu gerente na Petrobras.

Defesa:- Nesta época o senhor tomou conhecimento sobre a negociação do campo de petróleo de Benin?

Depoente:- Não, eu nunca tinha ouvido falar, a negociação do campo de Benin já foi … eu já estava na diretoria da BR. Eu soube pela imprensa.

Defesa:- E a participação do senhor Eduardo Cunha nesse negócio de Benin, à época, o senhor teve alguma ciência?

Depoente:- Não. Eu não tive ciência do negócio de Benin, então não sei quem estava envolvido.

Defesa:- Não foi no seu período da Petrobras que aconteceu essa …

Depoente:- Não, foi bem depois. Não, eu já era diretor da BR, eu sou diretor da BR, eu fui diretor da BR a partir de março de 2008.

Defesa:- Em relação a Pride, o Júlio Camargo afirmou que foi fechada uma negociação de uma sonda com a diretoria internacional da Petrobras com a empresa Pride. …

Depoente:- Sim.

Defesa:- Mas que ele foi chamado, isso é afirmação dele, pelo Renato Duque, pra que saísse do negócio, já que os negócios com a Pride deveriam ser tratados só com Hamylton Padilha. O senhor tinha conhecimento dessa informação, ela é verdadeira?

Depoente:- É verdadeira, inclusive essa reunião ocorreu no meu gabinete. Foi o Duque, o Júlio Camargo e eu, e foi dito ao Júlio que ele não poderia participar,-  foi bastante explícito o Duque-, pra não atrapalhar e não repetir a atuação que ele tinha tido na segunda sonda que nós contratamos.

Defesa:- O senhor recebeu alguma vantagem indevida nessa negociação com a Pride?

Depoente:- Sim, mas foi trazido pelo … eu e o diretor Duque, isso consta também lá.

Defesa:- São essas as perguntas, excelência.

Juiz Federal:- Ministério Público.

Ministério Público Federal:- Tudo bem?

Depoente:- Tudo bom.

Ministério Público Federal:- Nesse contexto de pagamentos de vantagens indevidas na área internacional, o senhor já mencionou a influência do partido PMDB, especificamente em relação aos negócios da África, o que o senhor sabe sobre as aquisições da África no final dos anos 2000, incluindo essa de Benin ou Namíbia? Ou não chegou a participar?

Depoente:- Não, no final dos anos 2000 eu já não estava mais na diretoria internacional. Eu saí, como eu falei, em março de 2008, e Namíbia, pelo que eu acompanhei depois, Namíbia e Benin já foram feitas pelo meu sucessor, já não…

Ministério Público Federal:- Projeto Suricato o senhor sabe alguma coisa também?

Depoente:- Não.

Ministério Público Federal:- Não tenho mais perguntas, excelência.

Juiz Federal:- Esclarecimentos muito rapidamente do juízo, sinteticamente, o senhor relatou, havia contratos da Petrobras na área internacional que geravam pagamento de vantagem indevida de propinas, é isso?

Depoente:- Sim.

Juiz Federal:- O senhor mesmo recebeu vantagens indevidas em seu próprio benefício pessoal?

Depoente:- Sim.

Juiz Federal:- E parte desses valores eram destinados também a agentes políticos, é isso?

Depoente:- A maior parte era destinada a agentes políticos.

Juiz Federal:- E o senhor mencionou que o senhor foi substituído na direção internacional, a fim de atender os interesses do PMDB da câmara, foi isso?

Depoente:- Isso.

Juiz Federal:- Especificamente da bancada mineira?

Depoente:- Não, da bancada mineira não, eu falei que, desculpe, esse grupo, me foi informado pelos contatos que eu fiz, que quem tinha aglomerado, feito, tomado a liderança desse grupo, era um deputado que era líder da bancada de Minas do PMDB.

Juiz Federal:- Ah sim.

Depoente:- Mas não era … porque quem me esclareceu o número de deputados, foi na conversa que eu tive com o deputado Michel Temer, na época, presidente do PMDB, que me disse que havia um grupo de cerca de 50 deputados, que ele sabia que tinham interesse em me substituir, e que ele não podia contrariar o interesse do partido.

Juiz Federal:- E que o líder desse grupo era esse deputado da bancada mineira?

Depoente:- Esse deputado Fernando, que é falecido já há alguns anos.

Juiz Federal:- E o senhor João Augusto Henrique Rezende, o senhor conhecia ele?

Depoente:- Já, já conhecia, João Augusto foi diretor da BR, no final da década de 90. Uma coisa assim.

Juiz Federal:- Ele é acusado nesse processo de ter intermediado propinas em contratos da Petrobras, também já foi acusado em outro processo, o senhor chegou a ter alguma situação dessa espécie com ele?

Depoente:- Não, o João nunca, nós… Eu conheci o João, mas ele não … eu não tive nenhum negócio com o João durante a minha diretoria lá, nem antes, nem depois.

Juiz Federal:- Naquela ação penal que foi julgada relativamente aos navios sondas vitória 10.000 e Petrobras 10.000, naquele caso é um dos casos que o senhor recebeu dos contratos?

Depoente:- Na Petrobras 10.000. Foi a primeira sonda que nós contratamos da Samsung … as duas primeiras sondas, da Petrobras 10.000 e da vitória 10.000, foram com a Samsung, que o operador que trouxe foi o Júlio Camargo. A gente recebeu a participação na Petrobras 10.000 e na segunda ele nunca pagou a participação.

Juiz Federal:- E teve também um componente político nesses contratos?

Depoente:- Exatamente o que eu falei, parte … a maior parte dessa propina da Petrobras 10.000 foi destinada, compuseram esses 6 milhões de dólares que foi destinado ao PMDB do senado.

Juiz Federal:- Aquela outra ação penal há uma afirmação do senhor Fernando Soares, …  que operava esses pagamentos também, não é?

Depoente:- Sim.

Juiz Federal:- Há um afirmação do Fernando Soares que ele teria destinado parte desses valores ao então deputado Eduardo Cunha, o senhor tinha conhecimento disso na época?

Depoente:- Isso foi depois, isso foi na sonda vitória dez 10.000.

Juiz Federal:- Ah sim.

Depoente:- Que como eu disse, o Júlio Camargo não cumpriu o pagamento combinado e aí o Fernando, anos depois, eu já estava fora da diretoria internacional, me disse isso, que tinha pedido apoio do deputado Eduardo Cunha e que teria havido uma negociação onde o Júlio Camargo teria pago parte do que ele devia de propina.

Defesa:- Pela ordem, essas questões não são desses autos, acho que são parte de outro processo.

Juiz Federal:- Ah sim, mas é que existe um contexto aqui, doutor, que pode ser relevante.

Isso o senhor ficou sabendo na época, ou só depois agora com essas investigações?

Depoente:- Não, eu fiquei sabendo na época, porque o Fernando me disse isso, que tinha feito o contato com o deputado Eduardo Cunha, e que o Eduardo Cunha … eles teriam pressionado … ele teria pressionado o Júlio Camargo, e o Júlio Camargo teria chegado a um acordo, um meio termo pra encerrar o assunto.

Juiz Federal:- Então está bom, eram esses os esclarecimentos do juízo, eu declaro encerrado então o depoimento do senhor Nestor Cerveró.
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Lava Jato e Folha mantêm perseguição a Lula e afundam no ridículo

Charge: Aroeira
A Oi informou ao Ministério Público Federal que Kalil Bittar, irmão de Fernando Bittar, em cujo nome está registrado o “sítio do Lula” em Atibaia, pediu à operadora a instalação de uma antena de celular em uma área próxima ao sítio.

A Folha dá a notícia com aquela parcialidade manipuladora de sempre: ‘Sócio de filho de Lula pediu para a Oi instalar antena em Atibaia’ é a manchete, porque Kalil Bittar é sócio de um dos filhos de Lula na empresa Gamecorp.

A Oi apresentou um e-mail enviado por Kalil a um diretor da Oi no qual ele aponta o local onde não haveria cobertura de nenhuma operadora.

A Oi disse aos procuradores que os estudos mostraram que haveria clientes suficientes para o investimento, que recebe pedidos semelhantes desde 2011 e que boa parte foi atendida.

Resumindo: o sítio é de Fernando Bittar e foi seu irmão, Kalil, quem fez o requerimento de instalação da antena à Oi, mas como Lula frequentava o sítio e Kalil é sócio do filho de Lula em uma empresa, a instalação da antena só pode ser mais uma evidência de que o sítio era de Lula.

E é com esse tipo de forçada de barra monstra que a Lava Jato quer sustentar a teoria de que Lula, o grande líder do esquema de corrupção na Petrobras segundo o power point do Dallagnol, favoreceu empreiteiras em negócios de bilhões de dólares em troca de quinquilharias como reformas em um sítio e agora com a instalação de uma antena de celular, apesar de não haver qualquer relação da Oi com as empreiteiras e com os desvios na Petrobras.

A teoria já seria ridícula se o sítio realmente fosse de Lula, mas nem isso o MPF está remotamente perto de provar.

A assessoria de Lula define bem a situação na sua resposta à matéria da Folha: 'o tema dessa investigação não tem qualquer relação com desvios na Petrobras, que supostamente é o tema da Lava Jato, e o vazamento desses materiais mostra que a investigação não objetiva apurar fatos, apenas fazer barulho midiático contra Lula. Apenas confirma o ‘lawfare’, uma perseguição, fútil e infrutífera, com nítidos objetivos políticos’.

Pedro Breier
No Cafezinho
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Xadrez do desmonte da democracia


Peça 1 – os referenciais para analisar a crise

Os referenciais em torno dos quais montaremos nossos cenários:

1.     O maior agente político continua sendo a massa dos bestificados que saem às ruas impulsionados pelo ódio e pela intolerância exarados pela mídia e pela Lava Jato.

2.     Quase todas palavras de ordem pré-impeachment se esvaziaram. Agora, o alvo da mobilização é o Congresso, com todos seus defeitos, o último setor de manifestação do voto popular. E a turba sendo engrossada por procuradores e juízes, em uma nítida perda de rumo das instituições.

3.     Agora, se tem um Judiciário brigando com o Legislativo, procuradores de Força-Tarefa assumindo a liderança da classe, se sobrepondo ao Procurador Geral, em um quadro de indisciplina generalizada e crescente.

4.     Esse clímax se dará com a revelação das delações da Odebrecht, tornando mais aguda a crise, a desmoralização da política e a busca de saídas milagrosas.

5.    Se terá então a crise econômica se ampliando, o vácuo político se acentuando, e massas raivosas atrás de qualquer solução, por mais ilusória que seja, como esse cavalo de batalha contra a Lei Anti-abusos.

Vamos montar, por partes, esse mapa do inferno.

Peça 2 – o fim de Temer, o breve

A economia se moverá seguindo o roteiro abaixo:

1.     O governo Michel Temer acabou. Trata-se de um político menor e pior do que as piores avaliações sobre ele.

2.      A era Henrique Meirelles também acabou.

3.     O país está à beira de uma depressão, com convulsão social e com um governo sem diagnóstico e sem condição de comandar a recuperação. Mas o mercado insistirá em uma última tentativa, seguindo o jogo das expectativas sucessivas, conforme você poderá conferir no artigo “Como o marketing reduziu a economia a um produto de boutique” (https://is.gd/WXBqJW).

Henrique Meirelles e sua tropa deixarão de ser a equipe brilhante que salvaria a economia. Daqui para a frente, serão colocados no limbo, e a nova equipe brilhante será a do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que é um Meirelles elevado à tríplice potência.

O problema da equipe econômica que assumiu as rédeas é que o seu objetivo não é o de recuperação da economia, impedindo um desastre social, mas o de destruir qualquer vestígio do modelo anterior, um ideologismo barato e cego, marca, aliás, de boa parte do pensamento econômico brasileiro.

Peça 3 – o governo de transição

Com o fim do governo Temer, aventa-se uma eleição indireta com Fernando Henrique Cardoso, trazendo Armínio Fraga para aprofundar o ajuste fiscal.

Aparentemente, essa loucura não se consumará por dois motivos.

Motivo 1 – FHC refugou.

Em duas manifestações seguidas, FHC admitiu o óbvio: sem a recuperação do voto, através de novas eleições diretas, será impossível a implementação de qualquer programa econômico minimamente consistente. Na verdade, FHC tem noção de suas próprias limitações. Em momentos menos graves — como no processo inicial de consolidação do Real e no início do segundo mandato — FHC foi incapaz de uma ação proativa sequer. Limitou-se a seguir o receituário de seus economistas, de um enorme aperto fiscal, que contribuiu, nos dois casos, para uma economia estagnada durante seus dois mandatos.

Motivo 2 – a aposta errada no aperto

Além disso, caiu a ficha da classe empresarial sobre a loucura de persistir nessa política suicida. Mesmo no mercado, a sensação é que a persistência do quadro recessivo não permite ganhos a ninguém, mesmo ao mercado. E abre o risco de algum populismo de direita, que transforme o mercado no bode expiatório.

A discussão que se iniciará agora é sobre o momento e a oportunidade das novas eleições diretas, uma discussão que levará em conta o potencial eleitoral de Lula e do PT e as alternativas do atual grupo de poder.

O fator Nelson Jobim

Com o PSDB pedindo para afastar de si este cálice, o nome mais forte aventado — lembrado pelo Xadrez de algumas semanas atrás — é do ex-Ministro da Defesa e ex-Ministro do Supremo Nelson Jobim. Tem bom trânsito junto ao PSDB e ao PT e familiaridade com as Forças Armadas, pela condução do Plano Nacional de Defesa.

Como presidente, será uma incógnita. Como candidato potencial, é a melhor aposta até agora.

Mas todas essas alternativas caminham sobre o pântano, representado pelo estímulo fascista às manifestações de rua. Abriu-se nova temporada de estímulo à violência, mostrando que a marcha da insensatez se abateu também sobre os operadores da lei.

Peça 4 - sobre a irresponsabilidade dos golpistas

Não era surpresa para quem tem um mínimo de visão e de responsabilidade institucional. O golpe desmontou definitivamente a democracia brasileira, o modelo que garantiu o equilíbrio político do país desde a Constituição de 1988. Uma mescla de aventureirismo, oportunismo, despreparo, covardia promoveu a abertura da Caixa de Pandora.

Agora, a democracia está desmontada, a economia caminhando para uma depressão. E, no momento, o que se tem é o seguinte:
  • O Executivo liquidado.
  • Uma campanha pesada visando inviabilizar o Congresso.
  • Uma briga de foice entre instituições, com uma cegueira generalizada sobre a gravidade do atual momento.
  • E a ultradireita sendo definitivamente bancada pela parceria Lava Jato-Globo.
O fato de um mero procurador regional ousar afrontar o Congresso em nome pessoal, ameaçando “pedir demissão” de uma força-tarefa para o qual ele foi indicado, mostra a desmoralização institucional do país e a quebra total de hierarquia no próprio Ministério Público Federal. Qualquer deslumbrado, com um metro e meio de autoridade, e uma tonelada de atrevimento, coloca em corner não apenas o Congresso, mas o próprio Procurador Geral.

Até onde irá esse clima? Difícil saber.

Com a delação da Odebrecht, os procuradores da Lava Jato insuflando as manifestações, a crise se aprofundando, o caldeirão das ruas entrará novamente em ebulição, sem que haja uma saída institucional à vista.

A crise começou seu trabalho de espalhar um pouco de bom senso. Mas ainda é uma gota em um oceano de insensatez.

Luís Nassif
No GGN
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