12 de nov de 2016

Decisões judiciais sobre mansão de Paraty atribuída aos Marinho são descumpridas

A Paraty House
O juiz federal Ian Legal Vermelho, de Angra dos Reis, autorizou o uso da força policial para a União retomar a praia de Santa Rita, em Paraty, que é tratada como particular pelos proprietários da mansão atribuída à família Marinho, da Rede Globo.

A decisão é de 3 de maio deste ano e foi tomada em resposta a um relatório de dez páginas, com fotografias, em que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO) denuncia o descumprimento da decisão judicial de seis anos atrás.

Nessa decisão, os proprietários da mansão eram obrigados a retirar a estrutura de cerco instalada no mar, aparentemente dedicada à criação de animais marinhos, mas que, na prática, servia para impedir a aproximação das pessoas à praia de Santa Rita.

A primeira decisão que mandou desobstruir a Praia de Santa Rita é de 30 de novembro de 2010. Os réus tinham prazo de sete dias para retirar a cerca e, além disso, desmontar os brinquedos instalados na areia da praia, como o tubo-água e uma piscina, e se abster “de criar qualquer tipo de embaraço ao acesso e permanência do público na Praia de Santa Rita”.

Segundo o relatório do ICMBIO, seguranças armados impediam o desembarque de banhistas na areia da praia. Não só de banhistas, mas, pelo menos em uma ocasião, os seguranças armados impediram o desembarque de uma equipe de fiscalização do ICMBIO, que estava ali para fazer um levantamento por determinação do Ministério Público Federal.

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A sentença de maio liberando o acesso à praia: ignorada
Um dos analistas ambientais que fazia parte da equipe conta que todos voltaram para Angra dos Reis e pediram o apoio da Polícia Federal. Alguns dias depois, retornaram para lá e fizeram o levantamento, que constatou diversas irregularidades na ocupação da área, como desmatamento sem autorização, construção acima do limite permitido e construção de equipamentos de lazer em área pública — no caso, a praia.

Mesmo com essa constatação, que gerou “três ou quatro autos de infração”, que fundamentaram decisões reiteradas da Justiça para que a área seja devolvida ao público e a natureza seja recuperada, os proprietários continuam descumprindo a sentença do juiz.

Em consequência dessa última decisão, a de 3 de maio de 2016 — duas semanas depois que a Câmara autorizou o Senado a abrir o processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff —, os fiscais do Instituto Chico Mendes voltaram lá e fizeram um levantamento fotográfico da área. Tudo continua como antes, ou seja, a praia continua privativa dos donos da mansão.

Por que a decisão não é cumprida, mesmo depois de seis anos da primeira sentença?

“Isso é o que eu também quero saber. Que força impede que a medida seja cumprida?”, questiona o analista ambiental do Instituto que acompanha o caso desde o início — ele já foi alvo de represália e pede para que o nome não seja divulgado.

“Em Paraty, todo mundo sabe que a mansão é da família Marinho, mas até hoje nós só tratamos com os advogados e já questionamos o Ministério Público sobre o não cumprimento da decisão. Mas não adianta. Ninguém consegue fazer essa decisão judicial ser cumprida. Isso é grave. Mostra que, no Brasil, é lei não é igual para todos”, acrescenta.

Durante cinco anos, a razão alegada no processo para o descumprimento da decisão é a não localização dos representantes da Veine Patrimonial Ltda, empresa formalmente responsável pela propriedade.

A Veine é uma brasileira empresa controlada por uma empresa do exterior, a Vaincre LCC, com sede em Las Vegas, Nevada, Estados Unidos, por sua vez aberta pela MF Corporate Service, com sede na mesma cidade de Las Vegas, e que tem como administrador uma empresa de paraíso fiscal, a Camille Services S.A., do Panamá.

Segundo registro da Receita Federal, a Veine funciona na Avenida Bulhões de Carvalho, 296, apartamento 601, Copacabana, Rio de Janeiro. Não é difícil chegar lá. Retirei uma imagem do Google Earth. O prédio fica numa rua movimentada de Copacabana (veja abaixo).

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Nesse endereço, também está formalmente sediada uma empresa registrada em nome de Paula Marinho e de seu pai, João Roberto Marinho, neta e filho de Roberto Marinho, fundador das Organizações Globo, já falecido.

O endereço é também de outras empresas de Alexandre Chiapetta de Azevedo, até outubro do ano passado marido de Paula. MF Corporates em Las Vegas, que abriu a Vaincre, controladora da Veine, é uma empresa da Mossak & Fonseca, do Panamá, epicentro de uma dos maiores escândalos de lavagem de dinheiro da história, conhecido como Panamá Papers.

No processo sobre a mansão em Paraty, em seis anos, as duas pessoas que constam da papelada da Veine como seus representantes, Lúcia Cortes Rosemburgue e Celso de Campos, não foram localizados para assinar o mandado que mandava desobstruir a Praia de Santa Rita.

Mas, nesse período, seus advogados informaram à Justiça que haviam obtido autorização legal para a maricultura nas águas da praia, razão pela qual o juiz, seis anos depois, restringiu a obrigação, “por ora”, à retirada dos brinquedos e à devolução da praia ao público.

Mas nem essa decisão foi cumprida.

Alguns anos atrás, depois que o caso da mansão da Praia de Santa Rita foi denunciado pelo Ministério Público, o programa Fantástico, da Rede Globo fez uma reportagem que foi apresentada assim pelo apresentador, Zeca Camargo. Mas não menciona a família Marinho.

“Mais um flagrante de desrespeito à lei e à natureza. É mais um escândalo da ocupação ilegal de terra no Brasil”, diz o apresentador.

Corte para a apresentadora, também séria:

“A gente está falando de áreas de proteção ambiental que deveriam ser preservadas, mas que são invadidas para dar lugar a casas de alto luxo, para conforto de poucos.”

O repórter Rodrigo Alvarez começa a narrar:

“A gente se aproxima da Ilha das Cavalas, em Angra dos Reis…”

Alvarez aparece de helicóptero, num parapente com motor, de barco e também a pé. Entra e mostra mansões e hotéis de luxo construídos em área de proteção.

A reportagem tem quase 13 minutos, detona um deputado federal do Maranhão, dois empresários de Campos de Jordão, um dono de mansão em Angra dos Reis, o do Ilha das Cavalas, e outro de Paraty, cujo nome o coordenador da Secretaria de Estado do Ambiente do Rio de Janeiro, que acompanha a reportagem no voo de helicóptero, tenta esconder:

“Quem é o proprietário desta casa?”, pergunta o repórter, ao sobrevoar a propriedade, que tem mansão e heliporto.

“Não é bom falar isso, não”, responde o coordenador José Maurício Padrone.

Mas o repórter, corajoso, denuncia:

“O dono é o empresário Alexandre Negrão”.

Nenhuma palavra sobre a casa atribuída a seus patrões, perto dali.

Na última cena, a imagem mostra a mansão do Negrão e o repórter da Globo conclui:

“Pode até parecer contraditório, mas, para aqueles que se empenham na defesa do meio ambiente, ainda vai ser preciso muita dinamite para deixar a natureza em paz”.

Era uma referência à ordem da Justiça para demolir construções irregulares como a casa atribuída à família Marinho.

O mundo mudou de lá para cá.

No período de muita tensão, no início do ano, com o cerco a Dilma Rousseff se fechando, emergiu o escândalo da Paraty House. Dilma caiu, mas mansão e seus brinquedos continuam de pé.



Joaquim de Carvalho
No DCM
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Híbrido de Jabor e Dr. Cuca Belludo: Alexandre Garcia, o corajoso inimigo das ocupaçõe


Quando os cientistas conseguirem criar um híbrido de Arnaldo Jabor e Doutor Cuca Belludo, o resultado será Alexandre Garcia.

Garcia é o rei do comentário pedestre, óbvio, o senso comum corporificado numa barba bem aparada e numa fala soporífera. Exceto quando se trata de emitir opinião sobre estudantes, cotistas, médicos cubanos — aí sua segunda natureza aflora.

No Dia do Professor, ele apontava que “não custa lembrar: professor é quem faz despertar o prazer do conhecimento, do saber pensar, do saber fazer, do saber viver. E quem sabe, não precisa de adornos”. Obrigado.

Também acha que “é preciso revogar a lição de que dinheiro é mais que honestidade”. Incrível.

Seus textos são reproduzidos em 20 jornais. Tem um programa de entrevistas na GloboNews, é comentarista do Bom Dia Brasil e apresentador substituto do Jornal Nacional. É dono de uma coluna na Rádio Estadão.

Ficou mais famoso, recentemente, com suas diatribes contra as ocupações. É quando deixa de lado a faceta tio do pavê para mostrar seu pacote de maldades.

Comparou a interrupção de uma aula na Universidade de Brasília a uma ação da Juventude Hitlerista em 1939 (!?). No rádio, desancou os alunos do Paraná, dizendo que a maior parte deles não sabe o que está fazendo, antecipando a idiotice proferida por Michel Temer.

Ainda sugeriu, malandrão, que cada um deles escrevesse uma redação de vinte linhas justificando os motivos para sua militância. Segundo Garcia, “o partido por trás das invasões de escolas é o mesmo que enganou os jovens com a guerrilha do Araguaia, há mais de 40 anos.”

Usou, sem qualquer pudor, o assassinato de um rapaz num colégio no Paraná para atacar os garotos e garotas. “Que futuro, hem!”, disse.

Assim como utilizou a morte do capitão da seleção de 70, Carlos Alberto Torres, para evocar um tempo de “crescimento chinês — com o entusiasmo de todos”.

Complementou: “Inclusive eu, estudante na época, como todo mundo, tinha no carro o plástico: ‘ame-o ou deixe-o’, que era um recado para os terroristas, entre os quais estava a Dona Dilma.” Todo mundo quem??

Garcia foi porta-voz de Figueiredo de 1979 a 1980. Virou uma subcelebridade e, na época, já mostrava seus métodos. Apareceu seminu numa revista masculina chamada Ele & Ela, da Bloch. Ele explicou como ele mesmo editou a matéria, uma fraude jornalística qualquer nota.
Eu havia sido entrevistado para a “Playboy” e aí o Flavinho Cavalcante, na época da Bloch, disse que a “Ele & Ela” também queria uma entrevista. Só que maior, com fotos. Fui perguntar para o meu guru, o ministro Golbery, que respondeu: “Pode, sim. Vamos, em breve, tirar o Farhat. Vamos extinguir a Secretaria de Comunicação Social e queremos que você fique como secretário de Imprensa. Nada como dar uma entrevista para uma revista masculina para projetar mais o seu nome, para virar depois secretário de Imprensa”. Dei a entrevista, revisei, praticamente copidesquei. Então aquilo que está lá é meu mesmo. O Flavinho me trouxe o primeiro exemplar que entreguei para o Figueiredo ler. O Figueiredo leu a bordo de um Búfalo em uma viagem a Pindamonhangaba.
Aos 76 anos, Alexandre Garcia descobriu uma maneira de sobreviver no jornalismo. Não é a mais decente, mas ninguém pode acusá-lo de não ser coerente.

alexandre garcia posa na ele-ela
Garcia na Ele & Ela

Kiko Nogueira
No DCM
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Assinatura no cheque de 1 milhão que pode derrubar Temer é de Aécio

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2016/11/12/assinatura-por-tras-do-cheque-de-1-milhao-que-pode-derrubar-temer-e-de-aecio/

O empresário Otávio Marques de Azevedo disse em sua delação que doou 1 milhão de reais de propina para a campanha da então candidata Dilma Roussef à reeleição.

A campanha de Dilma demonstrou que esse recurso não foi entregue ao PT, mas num cheque ao então candidato a vice e agora presidente da República, Michel Temer.

andrade gutierrez

O assunto se tornou pauta em alguns veículos e de repente a OAB nacional, presidida por Claudio Lamachia, emite a seguinte nota:

É absolutamente necessário e urgente o esclarecimento a respeito do repasse de R$ 1 milhão para a campanha que elegeu a chapa Dilma-Temer em 2014. A sociedade precisa saber se esses recursos são legítimos ou fruto de propina. Outro ponto que precisa ser esclarecido é sobre qual conta foi usada para receber o dinheiro. A OAB acompanha com atenção os desdobramentos desse fato para cumprir com rigor sua função de defender os interesses da sociedade e o cumprimento da Constituição. Se necessário, a OAB usará de suas prerrogativas constitucionais para fazer valer os interesses da cidadania.”

Parodiando Mino Carta, é do conhecimento até do mundo mineral que a Andrade Gutierrez sempre foi “a empreiteira do Aécio”. Não porque ele fosse dono da mesma, mas porque seus “negócios” sempre foram majoritariamente realizados com ela.

A quem interessar possa, a Andrade Gutierrez foi a empreiteira que construiu a Cidade Administrativa de Minas. O custo, 1 bilhão de reais. Um investimento monstruoso para um governo do estado.

A despeito desse imenso negócio realizado com o então governador, quando da sua delação, Otávio Marques Azevedo, o presidente da Andrade Gutierrrez, não citou Aécio com beneficiário de propina.

Afirmou que os 20 milhões que doou ao então candidato a presidente em 2014 foi por vias legais, mesmo tendo uma série de mensagens absolutamente suspeitas trocadas com Oswaldo Borges, ex-presidente da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais, e apontado como tesoureiro informal do tucano.

As mensagens podem ser lidas nesta matéria do blogue do Fausto Macedo.

Aliás, também no blogue do Fausto Macedo pode-se ler as mensagens dos executivos da Andrade Gutierrez torcendo e fazendo campanha por Aécio.

Então por que um delator que doou 20 milhões para um candidato com qual teve um negócio de 1 bilhão foi lembrar de um cheque de 1 milhão que, segundo ele, havia sido dado a campanha de Dilma?

E como esse delator não se lembrava que havia repassado esses recursos num cheque exatamente para o agora presidente da República, Michel Temer, que era o então candidato a vice na chapa de Dilma?

Ingenuidade do delator? Um erro?

Sigamos um pouco mais então…

Como, de forma tão rápida, o presidente da OAB que foi convidado a cinco dias pelo PSDB de Aécio para discutir a reforma política, como se pode ver neste post da Veja emite um nota colocando Temer numa situação no mínimo constrangedora.

Evidente, caro Watson, o senador Aécio Neves é quem assina essa operação do cheque da propina para Temer.

Aécio desistiu de Temer e alguns de seus aliados mais próximos já não fazem mais de esconder isso nos corredores do Congresso.

Primeiro porque esperava mais do atual presidente. Esperava que lhe desse mais poder.

Segundo, porque Aécio, sabe que 2018 não será o seu ano se ficar esperando a caravana passar. Até porque a cada dia que passa a candidatura de Geraldo Alckmin fica mais forte dentro do PSDB.

E já deve ter feito as contas que conseguiria montar uma operação para ser um candidato viável numa eleição indireta no ano que vem.

O cheque do Temer, amigos, ainda vai render muitas histórias.

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Com a proa em Ítaca


É quando a mentira
domina e prima,
e a indignidade
vira regra,
hábito,
etiqueta,
daqueles que professam,
cultuam,
praticam,
sem necessidade de templo
ou liturgia,
a mais rasteira e porca
hipocrisia,
que o justo busca a razão,
reúne a coragem,
para seguir
na reta travessia.

É quando a injustiça
esquece as normas do Direito,
se rasga a Constituição,
a garantia de defesa,
aceita-se a chantagem,
a pressão,
a violência,
o abuso,
o massacre
e o desvio,
premia-se a delação
e a calúnia,
distorce-se a Lei a serviço
de uns poucos,
enquanto sua espada
só se abate sobre outros,
enchendo as prisões,
pela imposição
da arrogância,
do casuísmo e do arbítrio,
que o justo busca a razão,
reúne a coragem,
para seguir
na reta travessia.

É quando conspurca-se
a verdade,
distorcem-se os fatos,
traveste-se
e mascara-se
a memória,
com as cores do cinismo,
do embuste,
da impostura,
e urdem boatos,
e os disseminam,
para justificar a maldade
e a infâmia,
que o justo busca a razão,
reúne a coragem,
para seguir
na reta travessia.

É quando se negocia,
na calada da noite
ou à luz do dia,
a entrega das riquezas,
abjeta e infame,
abaixo e acima de onde pisamos
- dos veios das montanhas,
ao fundo do oceano -
das armas que estamos construindo,
e daquilo que chamam de mercado
(a força de quem compra,
de seu trabalho insano,
que aumentará agora,
em esforço e anos,
até pouco antes que
a morte sobrevenha)
aos estrangeiros,
que o justo busca a razão,
reúne a coragem,
para seguir
na reta travessia.

Daqueles
que vieram antes,
a poder de tempo,
de suor e de sangue
e nos legaram,
história,
terra,
vergonha na cara,
herdamos nossas cores,
nossos panos e bandeiras,
nossas lanças
e adagas,
o anseio e os planos
de grandeza e de futuro,
de Justiça,
de Pátria e Liberdade.

E a honra de pelear
a vida inteira,
por princípios,
ideias,
ideais,
mesmo quando
o que move a maioria,
é o sonho egoísta
de uma "meritocracia",
que muitas vezes
se compra
com diploma
e concurso.

Há a nave de seguir
mar e curso,
mesmo quando
o vento for contrário.

Que venha o sal amargo
da tempestade
bater em nosso rosto,
com a força do ódio
infame e tosco,
que explode
em meio
aos relâmpagos
e trovões.

Não importam,
como ao Odisseu,
os meses e os anos,
nem os cíclopes,
nem as sereias,
canalhas,
que sussurram
em telas
e caracteres
ofertas e ilusões.

Nem que caiam
de um lado e de outro,
companheiros,
e outros emerjam
do ventre da Utopia,
da brasilidade,
da indignação
e da esperança,
para cobrir seus postos,
atrás dos remos,
das velas e escudos.

Ítaca existe,
para além dos desafios,
rochedos,
abismos,
redemoinhos,
horizontes,
oceanos.

Ítaca resiste
em cada onda,
a cada embate,
o Brasil insiste,
como estandarte
entrevisto na batalha,
gravado a fogo,
em nossos braços e punhos,
em nossas mentes

e nossos corações.
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Sete propostas explicam vitória de Trump

A mensagem de Trump não é semelhante à de um partido neofascista europeu. Ele não é um ultradireitista convencional.


A vitória de Donald Trump (como o “Brexit” no Reino Unido, ou a vitória do “não” na Colômbia) significa, primeiro, uma nova e estrepitosa derrota da grande mídia dominante e dos institutos de pesquisa de opinião. Mas significa também que toda a arquitetura mundial, estabelecida no final da Segunda Guerra Mundial, se vê agora desordenada e desmorona-se. As cartas da geopolítica vão se embaralhar de novo. Começa outra partida. Entramos em uma nova era cujo traço determinante é o “desconhecido”. Agora tudo pode acontecer.

Como Trump conseguiu inverter uma tendência que o dava como perdedor e conseguir se impor na reta final da campanha? Esse personagem atípico, com suas propostas grotescas e suas ideias sensacionalistas, já havia destroçado até agora todos os prognósticos. Diante de pesos-pesados como Jeb Bush, Marco Rubio ou Ted Cruz, que contavam, além de tudo, com o decidido apoio do establishment republicano, poucos o imaginavam se impondo nas primarias do Partido Republicano, e ele sem dúvida carbonizou seus adversários, reduzindo-os a cinzas.

Há que se entender que desde a crise financeira de 2008 (da qual ainda não saímos) já não é nada igual em nenhuma parte. Os cidadãos estão profundamente desencantados. A própria democracia, como modelo, perdeu credibilidade. Os sistemas políticos foram sacudidos até as raízes. Na Europa, por exemplo, se multiplicaram os terremotos eleitorais (entre eles, o Brexit). Os grandes partidos tradicionais estão em crise. E em toda parte percebemos o aumento de instituições de extrema direita (na França, na Áustria e nos países nórdicos) ou de partidos antissistema e anticorrupção (Itália, Espanha). A paisagem política aparece radicalmente transformada.

Esse fenômeno chegou aos Estados Unidos, um país que já conheceu, em 2010, uma onda populista devastadora, encarnada então pelo Tea Party . A irrupção do multimilionário Donald Trump na Casa Branca prolonga esse fenômeno e constitui uma revolução eleitoral que nenhum analista soube prever. Ainda que sobreviva, nas aparências, a velha bicefalia entre democratas e republicanos, a vitória de um candidato tão heterodoxo como Trump constitui um verdadeiro terremoto. Seu estilo direto, populista, e sua mensagem maniqueísta e reducionista, apelando aos baixos instintos de certos setores da sociedade, muito diferente do tom habitual dos políticos americanos, lhe conferiram um caráter de autenticidade aos olhos do setor mais decepcionado do eleitorado de direita. Para muitos eleitores irritados com o “politicamente correto”, que acham que já não se pode dizer o que se pensa sob pena de ser acusado de racista, a “palavra livre” de Trump sobre os latinos, os imigrantes ou os muçulmanos é percebida como um autêntico alívio.
A esse respeito, o candidato republicano soube interpretar o que poderíamos chamar de “rebelião das bases”. Melhor que ninguém, percebeu a fratura cada vez maior entre as elites políticas, econômicas, intelectuais e midiáticas, de um lado, e a base do eleitorado conservador, do outro. Seu discurso violentamente anti-Washington e anti-Wall Street seduziu, em particular, os eleitores brancos, pouco cultos e empobrecidos pelos efeitos da globalização econômica.

É preciso notar que a mensagem de Trump não é semelhante à de um partido neofascista europeu. Não é um ultradireitista convencional. Ele mesmo se define como um “conservador com senso comum” e sua posição, no leque da política, se situaria mais exatamente à direita da direita. Empresário multimilionário e estrela ultrapopular da tele-realidade, Trump não é um antissistema, nem obviamente um revolucionário. Não censura o modelo político em si, somente os políticos que o têm pilotado. Seu discurso é emocional e espontâneo. Apela aos instintos, às tripas, não ao cérebro, nem à razão. Fala para essa parte do povo americano entre o qual começou a se propagar o desânimo e o descontentamento. Dirige-se às pessoas que estão cansadas da velha política, da “raça”. E promete injetar honestidade ao sistema; renovar nomes, rostos e atitudes.

A mídia deu grande divulgação a algumas de suas declarações e propostas mais odiosas, estapafúrdias, patafísicas, a la Ubu. Recordemos, por exemplo, sua afirmação de que todos os imigrantes ilegais mexicanos são “corruptos, delinquentes e estupradores”. Ou seu projeto de expulsar os 11 milhões de imigrantes ilegais latinos, os quais quer colocar em ônibus e expulsar do país, mandando-os ao México. Ou sua proposta, inspirada no “Game of Thrones”, de construir um muro fronteiriço de 3.145 km ao longo de vales, montanhas e desertos, para impedir a entrada de imigrantes latino-americanos e cujo custo de 21 milhões de dólares seria financiado pelo governo do México. Nessa mesma ordem de ideias, também anunciou que proibiria a entrada de todos os imigrantes muçulmanos… E atacou com veemência os pais de um militar americano de confissão muçulmana, Humayun Khan, morto em combate em 2004, no Iraque.

Também sua afirmação de que o casamento tradicional, formado por um homem e uma mulher, é “a base de uma sociedade livre” e sua crítica à decisão do Supremo Tribunal de considerar que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é um direito constitucional. Trump apoia as chamadas “leis de liberdade religiosa”, estimuladas pelos conservadores em vários estados, para negar serviços às pessoas LGBT. Sem esquecer suas declarações sobre o “equívoco” da mudança climática que, segundo Trump, é um conceito “criado por e para os chineses, para fazer com que o setor manufatureiro americano perca competitividade”.

Esse catálogo de disparates horripilantes e detestáveis foi, repito, massivamente difundido pela mídia dominante não só nos Estados Unidos como no resto do mundo. E a principal pergunta que muita gente se fazia era: como é possível que um personagem com ideias tão lamentáveis consiga uma audiência tão considerável entre os eleitores americanos que, obviamente, não podem estar todos lobotomizados? Algo não encaixava. Para responder a essa pergunta tivemos que penetrar na muralha informativa e analisar mais de perto o programa completo do candidato republicano e descobrir os sete pontos fundamentais que defende, silenciados pela grande mídia.

1) Os jornalistas não lhe permitem, em primeiro lugar, que ataque de frente o poder midiático. Reprovam que ele constantemente anime o público em seus comícios falando sobre a mídia “desonesta”. Trump costuma afirmar: “Não estou competindo contra Hillary Clinton, estou competindo contra os corruptos meios de comunicação.” Em um tweet recente, por exemplo, escreveu: “Se os repugnantes e corruptos meios de comunicação me dessem uma cobertura honesta e não injetassem significados falsos às palavras que eu digo, estaria ganhando da Hillary por uns 20%.” Por considerar injusta ou enviesada a cobertura midiática, o candidato republicano não teve dúvida em retirar as credenciais de imprensa para cobrir seus atos de campanha de vários meios importantes, como The Washington Post, Politico, Huffington Post e BuzzFeed. E até se atreveu a atacar Fox News, a grande cadeia do direitismo panfletário, apesar desta apoiá-lo a fundo como candidato favorito…

2) Outra razão para que a grande mídia atacasse Trump com ódio é que ele denuncia a globalização econômica, convencido de que esta acabou com a classe média. Segundo ele, a economia globalizada está frustrando cada vez mais a mais pessoas, e recorda que , nos últimos quinze anos, nos Estados Unidos, mais de 60.000 fábricas tiveram que fechar e desapareceram quase 5 milhões de empregos industriais bem pagos.

3) É um fervoroso protecionista. Propõe aumentar as taxas sobre todos os produtos importados. “Vamos recuperar o controle do país, faremos com que os Estados Unidos voltem a ser um grande país”, costuma afirmar, retomando seu slogan de campanha. Partidário do Brexit, Donald Trump revelou que, uma vez eleito presidente, tratará de tirar os Estados Unidos do Tratado de Livre Comercio da América do Norte, o NAFTA. Também atacou o TPP Acordo de Associação Transpacífico e afirmou que, alcançando a presidência, tirará o país do mesmo: “O TPP seria um golpe mortal para a indústria manufatureira dos Estados Unidos”. Em regiões como o rust belt, o cinturão do óxido do nordeste, onde os deslocamentos e o fechamento de fábricas de manufaturados deixaram altos níveis de desemprego e de pobreza, esta mensagem de Trump está calando fundo.

4) O mesmo ocorre como sua repulsa aos recortes neoliberais em matéria de seguridade social. Muitos eleitores republicanos, vítimas da crise econômica de 2008 e que têm mais de 65 anos, precisam se beneficiar da Social Security (aposentadoria) e do Medicare (seguro de saúde) que o presidente Barack Obama desenvolveu e que outros lideres republicanos querem suprimir. Trump prometeu não tocar nesses avanços sociais, baixar o preço dos medicamentos, ajudar a resolver os problemas dos sem-teto, reformar a tributação dos pequenos contribuintes e suprimir o imposto federal que afeta 73 milhões de lares modestos.

5) Contra a arrogância de Wall Street, Trump propõe aumentar significativamente os impostos dos corretores de hedge funds, que ganham fortunas, e apoia o restabelecimento da Lei Glass-Steagall. Aprovada em 1933, em plena Depressão, esta lei separou a banca tradicional da banca de inversões com o objetivo de evitar que a primeira pudesse fazer inversões de alto risco. Obviamente, todo o setor financeiro se opõe absolutamente ao restabelecimento dessa medida.

6) Em política internacional, Trump quer restabelecer uma aliança com a Rússia para combater com eficácia o Estado Islâmico (ISIS), ainda que para isso Washington tenha que reconhecer a anexação da Criméia por Moscou.

7) Trump estima que com sua enorme dívida soberana, os Estados Unidos já não dispõem dos recursos necessários para conduzir uma política externa intervencionista indiscriminada. Já não podem impor a paz a qualquer preço. Em contradição com vários caciques do seu partido, e como consequência lógica do final da guerra fria, quer mudar a OTAN: “Nunca mais haverá garantia de uma proteção automática dos Estados Unidos para com os países da OTAN.”

Todas estas propostas não invalidam em absoluto as inaceitáveis, odiosas e às vezes nauseabundas declarações do candidato republicano difundidas a bumbo pela grande mídia dominante. Mas explicam melhor o por quê do seu êxito. Em 1980, a inesperada vitória de Ronald Reagan à presidência dos Estados Unidos tinha feito o planeta entrar num ciclo de 40 anos de neoliberalismo e de globalização financeira. A vitória de Donald Trump pode nos fazer entrar em um novo ciclo geopolítico cuja perigosa característica ideológica principal – que vemos surgir por toda parte e em particular na França com Marine Le Pen – é o “autoritarismo de identidade”. Um mundo se desmorona, portanto, e provoca vertigem…

Ignacio Ramonet é jornalista e um dos criadores do Le Monde Diplomatique.
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Oliver Stone entrevista Lula para o Nocaute


Em visita ao Brasil para o lançamento de seu filme “Snowden”, o cineasta norte-americano Oliver Stone, ganhador de três Oscar, visitou o ex-presidente Lula, com quem almoçou e a quem entrevistou com exclusividade para o Nocaute. Participaram da entrevista o venezuelano Maximilien Arvelaiz e a intérprete Gala Dahlet. Assista ao bloco 1 da entrevista.

“Temos uma guerra aqui no Brasil. Aconteceu um processo de violência contra a democracia.”



Lula: Quando nós dois nos encontramos em Caracas, não, em Maracaibo, era um momento de muito otimismo na América Latina. Nós acreditávamos que estávamos construindo uma estrutura política mais prolongada. Mas aí veio a morte do Chávez, a morte do Kirchner, a minha saída da Presidência. E aí o trio que tentava organizar a América do Sul não existia mais. Foi uma pena. Uma pena. E eu sei que você tinha muita esperança, muita expectativa, mas precisamos começar tudo outra vez. Eu queria lhe dar os parabéns pelo novo filme, espero que tenha muito sucesso, como os outros. Bem vindo ao Brasil.

Oliver: Muito obrigado.

Lula: É uma pena que você veio muito mal acompanhado. (risos) O Max não é uma boa companhia.

Oliver: Ele me levou a restaurante muito barulhento ontem à noite. (risos) Eu gostaria muito de ver o senhor ser presidente novamente.

Lula: Olha, temos uma guerra aqui no Brasil. No Brasil aconteceu um processo de violência contra a democracia. Há todo um trabalho de construção de uma teoria mentirosa para justificar o afastamento da Dilma e a criminalização do PT. Eu fico pensando: não teria sentido eles darem o golpe parlamentar que deram e dois anos depois me devolverem a Presidência!

Eu acho que neste momento eles trabalham com a ideia de tentar evitar que eu tenha qualquer possibilidade de participar das eleições de 2018. E como eles não podem evitar a decisão do povo, eles estão tentando via Poder Judiciário. Há uma quantidade enorme de mentiras, as coisas mais absurdas, quem nem uma criança de parque infantil admitiria. E há uma combinação perfeita da imprensa, da Policia Federal e do Ministério Público que constroem, cada um a seu tempo, as mentiras. Só para você ter ideia, de março a agosto o principal canal de televisão aqui do Brasil, no seu principal jornal, teve 14 horas de matéria negativa contra mim. Em cinco meses.

Maximilien: Ele se refere à TV Globo.

Lula: E eu não sei como é que vai terminar, porque eu tenho desafiado eles a provar que algum empresário tenha me dado dinheiro. Eu vou até pedir ajuda pra CIA, para ver se conseguem descobrir uma conta minha no exterior. (risos) Agora, por falta de prova, eles dizem o seguinte: não peçam provas, porque o Lula criou um partido, esse partido é uma organização criminosa, o Lula indicou os ministros para roubar, portanto Lula é o chefe. Eu não tenho provas, eles dizem. Nós não temos provas, mas temos convicção. Então o que deixa eles preocupados é que quando eles fazem pesquisa de opinião pública eu apareço em primeiro lugar para 2018. Então eu não sei como é que vai ficar. Por enquanto, paciência.

Oliver: o senhor tem grandes parceiros com quem pode contar, que lhe deem apoio?

Lula: Nós entramos com um processo nas Nações Unidas, em Genebra, temos um movimento sindical internacional fazendo campanhas de denúncias, e vamos trabalhar agora os processos juridicamente.

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Programa Pensamento Crítico: Educação e Ocupações na UFSC


Programa de análise da conjuntura brasileira e latino-americana, produzido pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos, com a participação de Elaine Tavares, Waldir Rampinelli, Mario Mondek e Davi Goulart. Nesta edição discutindo a educação e as ocupações na UFSC.

Mês/novembro/ 2016

Imagens e edição: Rubens Lopes

www.iela.ufsc.br

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