30 de set de 2016

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Luis Fernando Veríssimo festeja 80 anos

Uma das raras unanimidades do Brasil lança coleção de cerca de 800 verbetes organizados em ordem alfabética e que trazem comparações, máximas, mínimas e metáforas

Verbetes. Livro traz exemplos de humor sintético e cartuns
A modéstia é uma das qualidades de Luis Fernando Veríssimo, um dos escritores mais admirados do País. Mas, uma recente descoberta o obrigou a mudar de atitude: ao assistir ao mais recente filme de Woody Allen, Café Society, Veríssimo surpreendeu-se quando um dos personagens disse algo assim: “O ideal é viver cada dia como se fosse o último – um dia, você acerta”. “Eu disse ou escrevi essa frase há algum tempo. Quem diria, Woody Allen me plagiando”, diverte-se ele, uma das raras unanimidades positivas do Brasil.

Ninguém duvida de sua capacidade criativa, mas, àqueles que só acreditam vendo, basta folhear Verissimas (Objetiva), coleção de cerca de 800 verbetes organizados em ordem alfabética e que trazem comparações, máximas, mínimas e metáforas do mestre do humor sintético. O lançamento da coletânea marca a comemoração dos 80 anos de Veríssimo, que foram festejados na segunda-feira, 26. A cereja do bolo será a chegada, em outubro, de As Gêmeas de Moscou, obra que marca sua estreia como autor para o público infantil (veja abaixo).

Verissimas tem uma origem curiosa, pois foi organizado pelo publicitário e jornalista Marcelo Dunlop a partir de seu arquivo pessoal. Tudo começou em 1989, quando ele estava com 10 anos e descobriu, ao ler um texto de Veríssimo, que mesmo a morte poderia ser engraçada. Depois de muito gargalhar, ele recortou a crônica e iniciou uma coleção regularmente alimentada nas duas últimas décadas.

“Não se faz uma piada dessas impunemente com uma criança”, escreve Dunlop no prefácio de Verissimas, que será lançado na Livraria Cultura do Conjunto Nacional no dia 4 de outubro, a partir das 19 horas. “Um dos principais objetivos dessa antologia foi apurar se aquelas tantas frases espalhadas pela internet eram de fato dele.”

Veríssimo até se acostumou com a enxurrada de material que circula na rede internacional com a sua assinatura. Sempre que pode, nega a autoria, mas, às vezes, cria uma resistência. É o caso de um texto intitulado Quase. “É bem escrito e tem um tom de autoajuda. Logo, descobri que foi uma garota quem escreveu. O fato é que o texto correu o mundo e, certa vez, quando eu estava no Salão do Livro em Paris, uma senhora disse que tinha traduzido vários autores brasileiros como Clarice, Drummond e, no meu caso, o Quase, que virou Presque”, conta o autor.

“Fico sem graça de dizer que não é meu. Em outra oportunidade, uma senhora veio me dizer que não gostava tanto dos meus textos, exceto do Quase, que era maravilhoso. O que posso dizer? Melhor não decepcionar. E, quando vou a escolas, onde os alunos encenam um texto que, na verdade, não é meu?”, continua.

Uma das explicações para justificar tamanha reverência é o fato de Veríssimo conseguir ser, em seus textos, popular e não popularesco. Qual a receita? “Não tenho”, jura. “Acredito que, antes de mais nada, é ter clareza na escrita. E, como a crônica normalmente não é um texto grande, torna-se acessível a qualquer público.” Veríssimo não aceita ser chamado de humorista. “O tipo de graça faço é para provocar um sorriso, não uma gargalhada. Não tenho essa pretensão.”

Cronista, cartunista, ficcionista, saxofonista, gourmet e torcedor fanático do Internacional, Luis Fernando Veríssimo é autor de quase 60 livros que já venderam cinco milhões de exemplares (entre eles, os best sellers O Analista de Bagé e A Comédia da Vida Privada) e de personagens emblemáticos (a Velhinha de Taubaté, que criticava a ditadura, o detetive Ed Mort, as Cobras).

Filho do também autor Erico Veríssimo, ele só começou a escrever aos 32 anos, depois de ter passado por várias escolas de arte e desenho, inacabadas; de ter tentado o comércio “só para reforçar o mau jeito da família”; e de ter passado por uma rápida carreira jornalística, de revisor e colunista de jazz a cronista principal do jornal gaúcho Zero Hora.

Apesar de consagrado, Verísimo ainda não se considera capaz de escrever uma “literatura com L”, como costuma dizer. “Esse tipo de literatura depende de uma ambição, de uma necessidade de escrever, e isso eu nunca tive. Quando comecei, tinha apenas a necessidade de ter uma carreira”, conta ele, que concorda plenamente com o velho amigo Zuenir Ventura, para quem, melhor que escrever, é ter escrito. “Quando produzimos um texto, estamos envolvidos com a técnica, o que impossibilita saborear essa escrita. O prazer parece que vem depois, especialmente quando agrada a outras pessoas. Gosto de ler coisas que escrevi há anos e ainda acho bem boladas. Por outro lado, eu me afasto das bobagens.”

Veríssimo também evita a leitura dos comentários ferinos que seus textos, especialmente os políticos, recebem. “Nunca escondi minha simpatia pela esquerda e pelo PT original. Mas, hoje, mesmo criticando a forma como o PT se afastou da esquerda, sou atacado, mas não sei de que forma, pois, quando percebo se tratar de uma lista de ofensas, nem termino de ler.”

O escritor gaúcho faz observações também sobre a forma de falar do presidente Michel Temer. “O português é uma língua danada. Falar corretamente é algo tão raro que chama atenção, como no caso do Temer. Colocar o pronome no lugar certo é elitismo.”

Trama sobre gêmeas é a primeira obra infantil

Desde o nascimento da primeira neta, Lucinda, há alguns anos, Luis Fernando Veríssimo passou a dedicar mais espaço para retratar o mundo infantil. O maravilhamento logo o convenceu a estrear na literatura para jovens com As Gêmeas de Moscou, que a Companhia das Letrinhas lança em outubro, próximo do dia 12.

Com ilustrações de Rogério Coelho, a obra acompanha Olga e Tatiana, irmãs gêmeas e bailarinas. Mesmo parecidas, as duas se diferenciam pelos atos – Olga se destacava mais que Tatiana no balé, mas era arrogante e tratava mal a irmã, que, mesmo assim, com seu jeito doce, sempre a apoiava. Certa noite, porém, quando a meia-calça de Olga cai durante uma apresentação, ela acaba recebendo uma valiosa lição.

Na conversa, Veríssimo falou sobre o prazer de ser bem recebido pelo público infantojuvenil. “Encontro muitos adolescentes que dizem ter se iniciado na leitura com livros meus”, comentou. “Isso é gratificante. De alguma forma, eu me sinto participante dessa luta, desse bom combate que é tentar criar um público leitor.”

Veríssimo gostou particularmente de saber que o organizador dos verbetes de Verissima, o jornalista e publicitário Marcelo Dunlop, aproximou-se de suas crônicas justamente sobre uma que tratava da morte. “Isso é raro, pois, normalmente jovens buscam ler sobre seus heróis ou outros assuntos mais próximos.”
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Vício

Ninguém desconfiou que os 10% por mês sobre o capital aplicado oferecido pelo megavigarista americano Bernard Madoff era bom demais para ser verdade. Grandes aplicadores, que você imaginaria escolados em vigarices, perderam milhões, quando a tramoia foi revelada. O próprio Madoff, ao ser preso, se declarou surpreso com o sucesso do seu esquema. Como ele funcionara durante tanto tempo?

Paul Krugman escreveu, na época, que não havia muita diferença entre o esquema de Madoff e o que em essência acontecia, às claras, em todo o setor. Madoff se autodenunciou e foi preso, mas a prática de premiar o capital especulativo até a beira da falcatrua continua, só com retorno menos espetacular do que o que Madoff prometia.

O capital se protege de várias maneiras e uma delas é a de atuar dentro de limites que chamam de éticos, mas que são práticos, valendo-se de uma certa elasticidade moral. Grandes bancos não podem fechar, mesmo que atuem na zona crepuscular entre o permitido e o criminoso. E a leniência se estende a outras formas de autopreservação da espécie. Quando executivos das três maiores montadoras de carro dos Estados Unidos chegaram a Washington para pedir dinheiro ao governo, cada um veio no seu jato particular. A desculpa era que teriam ido de carro se seus carros fossem de confiança. Pelo menos as montadoras gastaram bem o presente que ganharam e hoje estão em boa situação. Muitos dos bancos subsidiados para não falirem na mesma época usaram parte da ajuda para dar as regalias e os milionários abonos de sempre aos seus executivos.

O socorro que o capital dá a si mesmo lembra aqueles programas adotados em países que, em vez de combaterem o comércio de drogas, dão dinheiro para o usuário manter seu vício sem precisar recorrer ao crime. As instituições financeiras responsáveis pela crise atual estão sendo pagas com dinheiro público para manter seus maus hábitos. Os grandes aplicadores que confiaram em Madoff não foram imprudentes, apenas sucumbiram ao sonho de todo rentista, o sonho do lucro fantástico. Confiaram que Papai Noel existia.

Luís Fernando Veríssimo
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Moraes mostra que governo tenta influenciar Lava Jato

Nem a "investigação" do ministro da Justiça se justifica, antes devendo-se um agradecimento a esse precário Alexandre de Moraes; nem é verdadeiro que desembargadores paulistas tenham apenas anulado os cinco julgamentos e condenações precedentes dos 74 PMs do massacre de 111 presos no Carandiru.

A tal investigação, por Moraes ter informado jornalistas de nova operação da Lava Jato nesta semana (a prisão de Antonio Palocci), está a cargo da Comissão de Ética da Presidência. A Comissão, porém, não tem condições de investigar a ética de alguém, se não olha à sua volta e toma as providências consequentes.

Está na sua vizinhança, com banca de ministro na Presidência, um "anão do orçamento", integrante do grupo de deputados que fraudava o Orçamento nacional em proveito próprio. Também com banca na Presidência, também o recordista de fraudes em concorrências, mancomunado com as grandes empreiteiras quando governador do Estado do Rio. E, para não perder mais tempo, um presidente homenageado por delações na Lava Jato e pendurado em processos na Justiça Eleitoral. Nenhum deles notado pela Comissão de Ética.

Acima de tudo, Alexandre de Moraes fez uma delação verdadeira. Quando delações de óbvia falsidade são feitas para receber prêmios, e aceitas como válidas, a delação que se comprovou, já de um dia para o outro, não deveria passar pela inversão ética de ser ela a perseguida.

Se esses argumentos forem insuficientes, ainda há o serviço prestado ao país por Alexandre de Moraes, como convém a um ministro da Justiça. No governo Dilma, os aécios não se cansaram de propalar que o governo interferia na Lava Jato, prejudicava-a, queria controlá-la. Até que o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, em nome da Lava Jato, disse que o governo jamais fez, ou tentou, qualquer interferência na operação.

Moraes e sua delação aos repórteres revelaram mudança essencial. Mostrar-se informado de próximas ações da Lava Jato significa que o governo atual extinguiu a distância que o separaria das operações, como se deu com a liberdade plena entregue, por Dilma e José Eduardo Cardozo, à ação da Polícia Federal.

Conhecimento das ações da Lava Jato, sendo a PF subordinada ao ministro, só tem sentido se for para praticar o poder hierárquico de influência. Para quem se lembra do que disseram Romero Jucá e outros, sobre a necessidade e modo de "parar essa sangria" feita pela operação, Moraes deu sinal de grande utilidade. Por mim, muito obrigado.

O sexto julgamento do Carandiru, por sua vez, ocorre quase um quarto século depois do massacre. Os desembargadores Ivan Sartori, relator, Camilo Léllis e Edison Brandão determinam que o processo volte ao começo. Por sorte, não pensaram em começá-lo um pouco mais atrás, pelo morticínio de 111 presos.

Cinco conjuntos de condenação anulados em sequência, um quarto de século de liberdade e impunidade dos acusados — o que é isso, se não for uma forma de absolvição? Os 74 PMs estão absolvidos de fato, em demonstração irrefutável do massacre que o sistema de Justiça — não os juízes como indivíduos, o sistema que os engolfa — aplica na ideia de Justiça.

Memória

Shimon Peres era o último estadista vivo. Com a grandeza que tinha, sua simples existência era suficiente para impedir a natureza dos netanyahus de levá-los até onde desejariam.

Mistério

Pesquisas Datafolha: entre a de 21 e a de 26 de setembro, o líder Marcelo Crivella cai de 31% para 29%. Pesquisas Ibope, fechadas em 13 e 25 de setembro: o líder Marcelo Crivella sobe de 31% para 35%. Apenas 24 horas entre os fechamentos e, no entanto, tendências opostas com seis pontos de diferença (ou cerca de 20%).

Nos demais candidatos, curiosamente, os resultados das duas pesquisas foram iguais ou vizinhos.

Mais problemas, daqui a pouco.

Janio de Freitas
No fAlha
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