27 de ago de 2016

Senador Jorge Viana: "Golpe de morte na nossa democracia"


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Quando o jornalismo vai à guerra

Um homem acusado do pior dos crimes — um suposto genocídio de repercussão global — foi julgado inocente, mas o fato não virou manchete. Nem a BBC, nem a CNN cobriram. The Guardian permitiu um breve comentário. O fato foi enterrado ou suprimido, compreensivelmente. Ele deixaria muito claro como os senhores do mundo governam.

O Tribunal Criminal Internacional para a Ex-Iugoslávia (ICTY, na sigla em inglês) absolveu o falecido presidente sérvio, Slobodan Milosevic, dos crimes de guerra cometidos durante a guerra com a Bósnia (1992-95), incluindo o massacre de Srebrenica.

Longe de conspirar com o condenado líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, Milosevic na verdade “condenou a limpeza étnica”, opôs-se a Karadzic e tentou deter a guerra que desmembrou a Iugoslávia. Escondida perto do final de um julgamento de 2.590 páginas sobre Karadzic, em fevereiro passado, esta verdade além disso demole a propaganda que justificou o ataque ilegal da OTAN à Sérvia, em 1999.

Miloservic morreu de ataque cardíaco em 2006, só em sua cela em Haia, durante o foi um falso julgamento por um “Tribunal Internacional” inventado pelos norte-americanos. A cirurgia que poderia ter salvo sua vida foi negada; sua saúde piorou e foi monitorada — mas mantida em segredo — por funcionários dos EUA, conforme revelou o WikiLeaks.

Milosevic foi vítima de uma propaganda de guerra que hoje corre solta por nossas telas e jornais e acena com grande perigo para todos. Ele foi o protótipo do demônio, vilipendiado pela mídia ocidental como como o “açougueiro dos Balcãs”, suposto responsável por um “genocídio”, especialmente na província iugoslava separatista de Kosovo. O primeiro ministro britânico Tony Blair disse isso, invocou o Holocausto e demandou ação contra “esse novo Hitler”.

David Scheffer, o embaixador itinerante dos EUA para crimes de guerra [sic] declarou que um número tão vasto quanto “225.000 homens da etnia albanesa, entre 14 e 59 anos” poderiam ter sido assassinados pelas forças de Milocevic.

Essa foi a justificativa para o bombardeio da OTAN, encabeçado por Bill Clinton e Blair, que matou centenas de civis em hospitais, escolas, igrejas, parques e estúdios de televisão e destruiu a infraestrutura econômica da Sérvia. Ele foi descaradamente ideológico; em uma notória “conferência de paz” em Rambouillet, na França, Milosevic foi confrontado por Madeleine Albright, a secretária de Estado norte-americana que alcançaria a infâmia com seu comentário de que a morte de meio milhão de crianças iraquianas “valeu a pena”.

Albright fez a Milosevi uma “oferta” que nenhum líder nacional poderia aceitar. A menos que ele concordasse com a ocupação militar estrangeira de seu país, com as forças de ocupação “excluídas do processo legal”, e com a imposição de um “livre mercado” neoliberal, a Sérvia seria bombardeada. Isso estava escrito em um “Apêndice B”, que a mídia não leu ou suprimiu. O objetivo era esmagar o último Estado “socialista” independente.

Assim que a OTAN começou o bombardeio, teve início uma debandada de refugiados de Kosovo “fugindo de um holocausto”. Quando ele terminou, equipes policiais internacionais baixaram em Kosovo para exumar as vítimas. O FBI não conseguiu encontrar uma única vala comum e voltou pra casa. A equipe forense espanhola fez o mesmo, seu líder com raiva denunciando “uma pirueta semântica pelas máquinas de propaganda de guerra”. A contagem final dos mortos em Kosovo foi de 2.788. Isso inclui combatentes dos dois lados e sérvios e ciganos assassinados pela Frente de Liberação de Kosovo, pró-OTAN. Não houve genocídio. O ataque da OTAN foi uma fraude e um crime de guerra.

Apenas uma fração dos norte-americanos soube de que os mísseis “precisamente guiados” não atingiram alvos militares, mas civis, inclusive os estúdios jornalísticos da Rádio e Televisão Sérvia, em Belgrado. Dezesseis pessoas foram mortas, incluindo operadores de câmera, produtores e um maquiador. Blair descreveu os mortos, profanamente, como parte do “comando e controle” da Sérvia.

Em 2008, a procuradora do Tribunal Criminal Internacional para a Ex-Iugoslávia, Carla Del Ponte, revelou que foi pressionada para não investigar os crimes da OTAN.

Esse foi o modelo para as invasões subsequentes de Washington no Afeganistão, Iraque, Líbia e, dissimuladamente, na Síria. Todas podem ser classificadas como “crimes supremos” segundo os padrões do Julgamento de Nuremberg; tudo depende da propaganda na mídia. Enquanto o jornalismo tabloide desempenhava seu papel tradicional, foi o jornalismo supostamente sério, com credibilidade, frequentemente liberal, o mais efetivo. Vale lembrar a promoção evangélica, pelo The Guardian, de Blair e suas guerras; as mentiras incessantes sobre as armas de destruição em massa não-existentes de Saddam Hussein no Observer e o New York Times e o toque de clarim certeiro da propaganda governamental pela BBC, no silêncio de suas omissões.

Na época do bombardeio, Kirsty Wark, da BBC, entrevistou o general Wesley Clark, comandante da OTAN. A cidade sérvia de Nis acaba de ser pulverizada com uma penca de bombas norte-americanas, matando mulheres, velhos e crianças num mercado ao ar livre e num hospital. Wark não fez uma única pergunta sobre isso, ou sobre qualquer outra morte de civis.

Outros foram ainda mais cínicos. Em fevereiro de 2003, dia seguinte àquele em que Blair e Bush tocaram fogo no Iraque, o editor de política da BBC, Andrew Marr, ficou foi Downing Street, a sede do governo britânico, e fez o que equivalia a um discurso de vitória. Excitado, contou a seus telespectadores que Blair havia “dito que eles seriam capazes de tomar Bagdá sem um banho de sangue, e que no final os iraquianos iriam celebrar. E em ambos os pontos, provou estar definitivamente correto.” Hoje, com um milhão de mortos e uma sociedade em ruínas, as entrevistas de Marr na BBC são recomendadas pela embaixada dos EUA em Londres.

Os colegas de Marr alinharam-se para declarar que Blair estava “vingado”. O correspondente da BBC em Washington, Matt Frei, disse: “Não há dúvida de que o desejo de fazer o bem, levar os valores da América para o resto do mundo, e especialmente ao Oriente Médio … está agora cada vez mais ligado com o poder militar.”

A reverência aos Estados Unidos e seus colaboradores como uma força benigna que “faz o bem” corre solta no jornalismo do establishmentocidental. Ele assegura que a atual catástrofe na Síria é culpa exclusiva de Bashar al-Assad, que o Ocidente e Israel há muito conspiram para derrubar, não por qualquer preocupação humanitária, mas para consolidar o poder agressivo de Israel na região. As forças jihadistas articuladas e armadas pelos EUA, Grã Bretanha, França, Turquia e seus procuradores da “coligação” servem a esse fim. São eles que administram a propaganda e vídeos que se transformam em notícias nos EUA e na Europa, e providenciam acesso a jornalistas e garantem a “cobertura” totalmente parcial da guerra civil da Síria.

Agora, Aleppo está no noticiário. A maioria dos leitores e telespectadores não saberão que a maior parte da população da cidade vive na parte ocidental, controlada pelo governo. Que eles sofrem bombardeio diário de artilharia da Al-Qaeda, patrocinada pelo ocidente – isso não é notícia. No dia 21 de julho, bombas francesas e norte-americana atacaram um vilarejo pró-governo na província de Alepo, matando mais de 125 civis. O fato foi noticiado na página 22 do Guardian; não havia fotos.

Tendo criado e subvencionado o jihadismo no Afeganistão nos anos 1980, na Operação Ciclone — uma arma para destruir a União Soviética — os EUA estão envolvidos em algo semelhante na Síria. Como os Mujahideen afegãos, os “rebeldes” são os soldados dos Estados Unidos e da Grã Bretanha. Muitos lutam pela Al-Qaeda e suas variantes; alguns, como o Fronte Nusra, renomearam-se para adequar-se à sensibilidade norte-americana relacionada ao 11 de Setembro. A CIA os opera, com dificuldade, assim como opera jihadistas em todo o mundo.

O objetivo imediato é destruir o governo em Damasco, o qual, segundo as pesquisas mais confiáveis (YouGov Siraj), a maioria dos sírios apoiam, ou ao menos busca nele proteção, a despeito da barbárie em suas sombras. O objetivo de longo prazo é negar à Rússia um aliado chave no Oriente Médio, como parte de uma guerra de atrito da OTAN contra a Federação Russa, para ao final tentar destruí-la.

O risco nuclear é óbvio, embora suprimido pela mídia no “mundo livre”. Os que escrevem os editoriais do Washington Post, tendo promovido a ficção das armas de destruição em massa (WMD, na sigla em inglês) no Iraque, demandam que Obama ataque a Síria. Hillary Clinton, que regojizou-se publicamente por seu papel de carrasco durante a destruição da Líbia, tem indicado repetidamente que, como presidente, ela “irá além” de Obama.

Gareth Porter, um jornalista baseado em Washington, revelou recentemente os nomes daqueles que provavelmente ocuparão o gabinete de Hillary, que planeja um ataque à Síria. Todos têm histórias beligerantes na Guerra Fria. O ex-diretor da CIA, Leon Panetta, diz que “o próximo presidente terá de considerar o aumento de forças especiais em terra”.

O que é mais notável sobre a propaganda de guerra, agora em maré cheia, é seu absurdo e familiaridade patentes. Estive revendo os filmes de arquivo de Washington nos anos 1950, quando diplomatas, servidores civis e jornalistas sofriam caça às bruxas e foram arruinados pelo senador Joe McCarthy por desafiar as mentirar e paranoia sobre a União Soviética e a China. Como um tumor que ressurge, o culto anti-Rússia retornou.

Na Grã Bretanha, Luke Harding, do Guardian, lidera os odiadores da Rússia de seu jornal, numa corrente de pseudo-jornalismo que atribui a Vladimir Putin toda iniquidade da Terra. Quando o vazamento dos Panama Papers foi publicado, a primeira página falava de Putin e havia uma foto do Putin. Não importa que Putin não fosse mencionado em lugar nenhum nos vazamentos.

Como Milosevic, Putin é o Demônio Número Um. Foi Putin que derrubou um avião da Malásia sobre a Ucrânia. Manchete: “No que me diz respeito, Putin matou meu filho”. Nenhuma evidência foi exigida. Putin foi culpado pelanderrubada, em 2014, do governo eleito em Kiev, executada, segundo está documentado, por Washington. A campanha de terror subsequente, feita pelas milícias fascistas contra a população de língua russa da Ucrânia, foi o resultado da “agressão” de Putin.

Impedir que a Crimeia se tornasse uma base de mísseis da OTAN e proteger a maioria da população russa, que votou num referendo pela reunificação com a Rússia — da qual a Crimeia havia sido separada — foram outros exemplos da “agressão” de Putin. Difamação pela mídia torna-se inevitavelmente guerra pela mídia. Se eclodir uma guerra contra a Rússia, planejada ou por acidente, os jornalistas terão grande parte da responsabilidade.

Nos EUA, a campanha anti-Rússia foi elevada a realidade virtual. Paul Krugman, colunista do New York Times e um economista que recebeu um Prêmio Nobel, chamou Donald Trump de “Candidato siberiano” — porque Trump é um homem de Putin, dizem. Trump ousou sugerir, num raro momento de lucidez, que a guerra com a Rússia pode ser uma má ideia. De fato, ele foi além e tirou o envio de armas norte-americanas à Ucrânia da plataforma do Partido Republicano. “Não seria ótimo se nos déssemos bem com a Rússia”?, perguntou ele.

Essa é a razão por que o establishment liberal belicista o odeia. Seu racismo e arenga demagoga não têm nada a ver com isso. Os registros de racismo e extremismo de Bill e Hillary Clinton podem superar o de Trump qualquer dia. (Nesta semana acontece o 20º aniversário da “reforma” do sistema de bem-estar social de Clinton, que desencadeou uma guerra contra os afro-americanos.) Quanto a Obama: enquanto a polícia norte-americana mata seus companheiros afro-americanos, a grande esperança na Casa Branca nada vez para protegê-los, nada para aliviar seu empobrecimento, enquanto mantém quatro guerras vorazes e uma campanha de assassinatos sem precedentes.

A CIA exigiu que Trump não seja eleito. Os generais do Pentágono exigiram que ele não seja eleito. O pró-guerra New York Times — tomando um fôlego de sua implacável difamação de Putin — exige que ele não seja eleito. Algo acontece. Essas tribunas da “guerra perpétua” estão apavoradas com o fato de que o multibilionário negócio da guerra, pelo qual os Estados Unidos mantêm seu domínio, será abalado se Trump fizer um acordo com Putin, depois com Xi Jinping da China. Seu pânico com a possibilidade do maior poder do mundo falar sobre paz — ainda que improvável — seria a maior das comédias, não fossem as questões tão terríveis.

“Trump adoraria Stalin!”, vociferou o vice-presidente Joe Biden num comício para Hillary Clinton. Com a concordância de Hillary, ele gritou: “Nunca nos dobramos. Nunca nos curvamos. Nunca nos ajoelhamos. Nunca cedemos. É nossa a última palavra. Isso é quem somos. Somos a América”.

Na Grã Bretanha, Jeremy Corbyn também provocou histeria nos guerreadores do Partido Trabalhista e numa mídia empenhada em destruí-lo. Lord West, um ex-almirante e ministro trabalhista, disse bem. Corbyn estava assumindo uma “ultrajante” posição antiguerra “porque leva as massas irracionais a votar com ele”.

Num debate com Owen Smith, que desafia sua liderança no Partido Trabalhista, Corbyn foi questionado pelo moderador: “Como você agiria num caso de violação, por Vladimir Putin, de um estado-membro da OTAN?”

Corbyn respondeu: “Para começar, seria preciso tentar evitar que isso acontecesse. Construiria um bom diálogo com a Rússia… Tentaríamos introduzir uma desmilitarização das fronteiras entre a Rússia, a Ucrânia e os outros países entre a Rússia e a Europa Oriental. O que não podemos permitir é uma catastrófica série de aumentos das tropas em ambos os lados, que só podem nos levar a um grande perigo.”

Pressionado a dizer se ele autorizaria uma guerra contra a Rússia “se você tivesse que”, Corbyn respondeu: “Não pretendo ir à guerra — o que desejo é chegar a um mundo em que não precisemos fazer guerra”.

A linha das perguntas deve muito à ascensão dos guerreadores liberais na Grã Bretanha. O Partido Trabalhista e a mídia ofereceram a eles muitas oportunidades de carreira. Por algum tempo, o tsunami moral do grande crime do Iraque deixou-os se debatendo. Suas inverdades foram um constrangimento temporário. A despeito do Relatório Chilcot e a montanha de fatos comprometedores, o ex-ministro Tony Blair continua a ser sua inspiração, porque ele teria sido um “vencedor”.

O jornalismo e os acadêmicos dissidentes têm sido, desde então, banidos; e as ideias democráticas, esvaziadas e preenchidas com “políticas identitárias”, que confundem gênero com feminismo e angústia pública com liberação, enquanto ignoram intencionalmente a violência de Estado e os lucrativos armamentos que destroem incontáveis vidas em lugares distantes, como o Iêmen e a Síria — e acenam para uma guerra nuclear na Europa e através do mundo.

O mobilização comovente de pessoas de todas as idades em torno da espetacular ascensão de Jeremy Corbyn antecipa isso, até certo ponto. Sua vida foi dedicada a iluminar o horror da guerra. O problema para Corbyn e seus apoiadores é o Partido Trabalhista. Nos EUA, o problema dos milhares de seguidores de Bernie Sanders era o Partido Democrata, para não falar da sua traição final por sua grande esperança branca.

Nos Estados Unidos, morada dos grandes movimentos de direitos civis e antiguerra, são o Black Lives Matter e as mulheres pela paz do Codepink que estabelecem as bases para uma versão moderna destas lutas.

Pois somente um movimento que ocupe cada rua e atravesse fronteiras e não desista pode deter os belicistas. No ano que vem, completará um século desde que Wilfred Owen escreveu algo que todo jornalista deveria ler e lembrar.

Se você pudesse ouvir, a cada sobressalto, o sangue
Vir borbulhando dos pulmões de espuma corrompida
Obsceno como câncer, amargo como o que se regurgita
De chagas vis, incuráveis em línguas inocentes,
Meu amigo, você não iria contar com tanto entusiasmo
Às crianças ardentes por alguma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.

 Tradução de Inês Castilho.
John Pilger, do site Outras Palavras
No Blog do Miro
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A cobertura repulsiva da Globonews sobre a fase final do julgamento do Senado

Fâmula da plutocracia: Lo Prete
É repulsiva a cobertura da Globonews sobre o julgamento final do Senado sobre o golpe.

Não sou masoquista. Não vejo a Globonews porque não aprendo nada sobre jornalismo e desaprendo sobre caráter.

Mas fiquei algum tempo ali por razões excepcionais: o julgamento.

Ouviu alguma coisa estranha? Sou eu vomitando.

Nesta sexta houve um episódio exemplar.

Renan e Gleisi tiveram uma treta, como todos sabem.

Gleisi disse que o Senado não tinha autoridade moral para julgar Dilma, e Renan deu uma patada nela. Caiu sua máscara — fajutíssima desde cedo, é claro — de ‘magistrado imparcial’.

Como a Globonews tratou o assunto?

Lewandowski chamou um intervalo.

O comando das transmissões voltou à sede da Globonews, no Rio. Eis que a âncora chama três repórteres presentes em Brasília.

A primeira era Andreia Sadi, afilhada de Aécio e casada com um primo dele, também jornalista de política da Globo.

Logo em seguida, foi Renata Lo Prete. E mais Cristiana Lobo.

As três, sorridentes, narravam em tom de furo uma conversa com Renan no cafezinho do Senado. Pareciam amiguinhas no recreio do colégio.

O furo: Renan disse que recebeu um telefonema de Gleisi depois da encrenca e não atendeu.

Falo como jornalista: três repórteres da Globonews para ouvir Renan e ninguém para ouvir Gleisi?

Claro que Renan estava se gabando. O subentendido é que Gleisi ligara para pedir desculpa. Era isso que as três comadres da Globonews procuravam transmitir, para ajudar a imagem de Renan.

Mas foi isso mesmo? Gleisi deixou recado? Queria dizer o quê? Mais tarde, ela reafirmou, num dos grandes momentos desta fase final de julgamento, que o Senado não tem autoridade para julgar Dilma. Esta a frase que enfureceu Renan.

Mas repare.

Três comadrinhas tomando café com Renan e trazendo suas fofocas autocongratulatórias e ninguém com Gleisi.

Logo depois, dois compadres se juntariam a elas. Os repórteres Valdo Cruz e Gerson Camarotti. Formou-se um quinteto, e todos falando a mesma língua pró-Renan e prógolpe. Nunca tinha visto Valdo Cruz, um jornalista que me pareceu da minha geração, formada nos anos 1980: mas que repórter patético. A Globo lotou suas redações de tipos assim, fâmulos dos patrões, gente cuja missão é apenas defender a plutocracia.

Não é jornalismo. Ou especificamente: é jornalismo de guerra. Você junta um monte de pseudojornalistas para enganar o povo.

Não existe nada remotamente parecido com equilíbrio e isenção. Uma concessão pública é usada pela família Marinho para promover lavagem cerebral no público que vê a Globonews.

Ainda ontem, no Twitter, o jornalista Glenn Grenwald citou as três maiores pragas brasileiras.

A primeira delas era a Globo. Vinham depois o PMDB e Gilmar Mendes.

Mas no topo do pódio, com a medalha de ouro da infâmia pendurada no peito, reinava a Globo.

Paulo Nogueira
No DCM
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Meirelles aumentará impostos. Cadê o pato?

Em audiência na Comissão Especial sobre Novo Regime Fiscal da Câmara Federal, na quarta-feira (24), o ministro interino da Fazenda, Henrique Meirelles, voltou a falar que o governo golpista estuda elevar os impostos. “Não podemos descartar no futuro”, afirmou. Ele garantiu que seria um “tributo transitório” para resolver os problemas de caixa da União e criticou as “políticas de expansão fiscal e de desoneração seletivas” da presidenta Dilma, que visaram exatamente inibir os efeitos da crise econômica internacional e estancar o aumento do desemprego no país. Para o neoliberal convicto, porta-voz dos banqueiros, o fundamental agora é recuperar a “confiança na estabilidade” do deus-mercado.

Segundo relato do Jornal do Brasil, “Henrique Meirelles admitiu que o aumento de impostos temporários pode ser necessário... Ele voltou a dizer que o governo não pode resolver o problema do déficit e da dívida simplesmente por meio de aumento de impostos porque a carga tributária já cresceu muito nos últimos anos e está entre as mais altas do mundo”. Daí a proposta do draconiano ajuste fiscal, com cortes nos investimentos nas áreas sociais, e também da venda do patrimônio público, com uma nova rodada de privataria. “Estamos propondo uma regra estável do piso para valer para saúde e educação”, afirmou para justificar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que limita os gastos nestes setores.

Diante destes riscos iminentes, fica a dúvida: cadê os “coxinhas” com os seus patos amarelos da Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) contrários ao aumento da carga tributária? No caso de Paulo Skaf, o presidente eterno da entidade golpista, dá até para entender o seu sumiço. Nesta semana, ele prestou depoimento ao Ministério Público sobre as graves denúncias de desvio de grana para a sua fracassada campanha eleitoral pelo PMBD – o mesmo partido do Judas Michel Temer. Segundo notinha bem minúscula da Folha, publicada nesta sexta-feira (26), “ele foi chamado por denúncia anônima de suposta irregularidade no uso dos recursos da federação e de entidades como Sesi e Senai”.

E a turma de “midiotas” que serviu de massa de manobra para os golpistas? Cadê as panelas e as marchas contra o aumento dos impostos? Será que os “coxinhas” já se arrependeram da besteira que fizeram? Um aumento de impostos logo após o impeachment de Dilma talvez sirva para acordá-los? É bom esta turma também não confiar no discurso de otimismo na economia disseminado pelos “calunistas” da mídia. Antigos “urubólogos” agora se converteram em entusiastas das políticas ortodoxas de Henrique Meirelles. Mas o cenário futuro não é nada animador. Vale conferir o artigo desta quinta-feira (25) na Folha da economista Laura Carvalho, que não segue a cartilha “eufórica” da mídia rentista.

* * *

Brasil não dá sinais claros de retomada da economia

A fase de retomada de uma economia é definida, em geral, como iniciando-se na primeira ocorrência de uma taxa positiva de crescimento econômico após um período de recessão e encerrando-se quando a economia atinge ou excede os níveis máximos de emprego e produto que vigoravam antes da queda.

Uma retomada, depois de iniciada, pode não ser nada rápida. Desde junho de 2009, o mês que marcou o fundo do poço da crise econômica nos EUA, o nível de emprego demorou 51 meses para atingir o seu pico pré-crise, em uma das recuperações mais lentas de sua história.

Passados nove trimestres de recessão econômica, o desemprego no Brasil continua aumentando em todas as regiões, segundo os números mais recentes do IBGE. A economia brasileira encolheu 3,8% em 2015, e as previsões são de que encolha esse ano mais 3,3%. Interpretar esta leve queda no ritmo da retração como um sinal claro de retomada da economia pode ser produto de "wishful thinking" ou má-fé.

Sim, é possível que cheguemos ao fundo do poço em algum momento no ano que vem. Poderíamos até ter chegado um pouco antes, se o governo no ano passado não tivesse dedicado todo o seu esforço justamente para cavá-lo.

À contração no total de despesas efetivas primárias federais – descontando as chamadas despedaladas – da ordem de 2,5% reais e de mais de 30% nos investimentos públicos, somaram-se uma aceleração inflacionária provocada pelo reajuste brusco nos preços administrados e sucessivas elevações nas taxas de juros.

Isso sem contar os efeitos deletérios dos discursos proferidos não apenas pela grande mídia, mas também pelo próprio governo, que, ao vender-se como uma grande família em crise, só contribuiu para abalar ainda mais a confiança de famílias brasileiras realmente vulneráveis.

Como se não bastassem os malefícios da própria política econômica, o país ainda teve de absorver no ano passado – assim como a maior parte dos países emergentes exportadores de commodities – os impactos negativos no curto prazo de uma desvalorização cambial.

Impactos esses que foram agravados pelo endividamento em dólar de boa parte das empresas brasileiras nos anos de expansão da economia. E para completar, ainda tivemos de lidar com a Lava Jato, a seca e a má vontade do Congresso.

Cavar o poço mais devagar que em 2015 não parece, portanto, ser uma tarefa muito difícil. Sem a pressão dos analistas e com a súbita tolerância dos parlamentares, uma previsão de deficit maior garantirá que haja crescimento real das despesas primárias efetivas superior a 2%.

Mesmo sem a retomada dos investimentos públicos e de outros itens com alto multiplicador fiscal, a interrupção na contração de despesas já tirou um dos bodes da sala. O bode das subidas bruscas do dólar também parece ter saído para um passeio no jardim, graças à manutenção dos juros baixos nos Estados Unidos.

Infelizmente, cavar menos o poço não significa que sairemos dele em breve. Em meio aos seus tantos sinais contraditórios – expansão fiscal fisiológica no curto prazo e promessa de contração fiscal perpétua a partir de 2019, por exemplo –, os primeiros cem dias de governo Temer foram inequívocos em ao menos um aspecto: a total ausência de agenda para a recuperação dos níveis pré-crise de emprego, renda e desigualdade.

Altamiro Borges
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Le Monde desmascara o golpe


“Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.”

Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil, está vivendo seus últimos dias no comando do Estado. Praticamente não há mais dúvidas sobre o resultado do julgamento de sua destituição, iniciado na quinta-feira (25) no Senado. A menos que aconteça uma reviravolta, a sucessora do adorado presidente Lula (2003-2010), que foi afastada do cargo em maio, será tirada definitivamente do poder no dia 30 ou 31 de agosto.

Dilma Rousseff cometeu erros políticos, econômicos e estratégicos. Mas sua expulsão, motivada por peripécias contábeis às quais ela recorreu bem como muitos outros presidentes, não ficará para a posteridade como um episódio glorioso da jovem democracia brasileira.

Para descrever o processo em andamento, seus partidários dizem que esse foi um “crime perfeito”. O impeachment, previsto pela Constituição brasileira, tem toda a roupagem da legitimidade. De fato, ninguém veio tirar Dilma Rousseff, reeleita em 2014, usando baionetas. A própria ex-guerrilheira usou de todos os recursos legais para se defender, em vão.

Impopular e desajeitada, Dilma Rousseff acredita estar sendo vítima de um “golpe de Estado” fomentado por seus adversários, pela mídia, e em especial pela rede Globo de televisão, que atende a uma elite econômica preocupada em preservar seus interesses supostamente ameaçados pela sede de igualitarismo de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).

“Artimanha”, “farsa”, “golpe”: as opiniões de Dilma sobre o impeachment

Inimiga número um de parte dos brasileiros

Essa guerra de poder aconteceu tendo como pano de fundo uma revolta social. Após os “anos felizes” de prosperidade econômica, de avanços sociais e de recuo da pobreza durante os dois mandatos de Lula, em 2013 veio o tempo das reivindicações da população. O acesso ao consumo, a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas não conseguiam mais satisfazer o “povo”, que queria mais do que “pão e circo”. Ele queria escolas, hospitais e uma polícia confiável.

O escândalo de corrupção em grande escala ligado ao grupo petroleiro Petrobras foi a gota d’água para um país maltratado por uma crise econômica sem precedentes. Profundamente angustiados, parte dos brasileiros fizeram do juiz Sérgio Moro, encarregado da operação “Lava Jato”, seu herói, e da presidente sua inimiga número um.

A ironia quis que a corrupção fizesse milhões de brasileiros saírem para as ruas nos últimos meses, mas que não fosse ela a causa da queda de Dilma Rousseff. Pior: os próprios arquitetos de sua derrocada não são santos.

O homem que deu início ao processo de impeachment, Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, é acusado de corrupção e de lavagem de dinheiro. A presidente do Brasil está sendo julgada por um Senado que tem um terço de seus representantes, segundo o site Congresso em Foco, como alvos de processos criminais. Ela será substituída por seu vice-presidente, Michel Temer, embora este seja considerado inelegível durante oito anos por ter ultrapassado o limite permitido de doações de campanha.

O braço direito de Temer, Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento do governo interino, foi desmascarado em maio por uma escuta telefônica feita em março na qual ele defendia explicitamente uma “mudança de governo” para barrar a operação “Lava Jato”.

Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.
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Capacitismo não tem fim. Sanidade editorial, sim

A revista Vogue, preferida pela classe A e B para contemplar as ofertas fashions de Milão, Paris e New York, acaba de apresentar ao mundo a maior campanha capacitista já publicada no século XXI. Não é a primeira vez que a revista se envolve em campanhas polêmicas: fez outubro rosa para falar de câncer, sem mulheres de câncer e matéria com crianças em poses sensuais com direito à denúncia ao MPF. Direitos Humanos e respeito à dor alheia não é o forte da revista, pois como antropóloga eu achava que devia ler de tudo, e confesso, gosto de moda, e amo a blogueira de beleza da Vogue, Vic Ceridono, que eu li por anos, mas deixei de comprar a revista na absurda matéria fotográfica de Vogue Kids: me deu vômito.

Agora, a revista faz uma matéria sobre Jogos Paralímpicos sem os atletas, com artistas globais como se fossem pessoas com deficiência. De fato, há pessoas que desejam por transformações corporais, se tornarem pessoas com deficiência. Marco Antonio Galverioz da UFSCAR escreve brilhantemente sobre o tema. Mas, ao que se sabe, não é o caso de Cleo Pires nem de Paulo Vilhena. O último aliás, faz uma referência fotográfica ao Oscar Pistorius, assassino de sua esposa. Prova de que o capacitismo da Vogue não tem fim. Sua sanidade editorial, sim.

A discriminação das pessoas com deficiência, ableism em inglês, no Brasil traduzido por capacitismo para unificar traduções em língua portuguesa e espanhola, é a narrativa social que pensa o corpo da pessoa com deficiência como menos humano, menor, patológico, menos capaz. Isso se dá como escreveu Oliver, porque como escreveu Oliver, porque os corpos deficientes sofreram historicamente classificações debilitantes. Ou seja, desde que o mundo é mundo, ou por motivo religioso ou por motivo biopolítico e biomédico somos pensados como débeis. Inferiores. Segundo a Vogue, até para representar a nós mesmos. Inclusive quando nós mesmos significa ATLETAS OLÍMPICOS. Não é só questão de representação, tem muito medo envolvido.
Explico: é melhor que a mocinha do Leblon veja o Vilhena e a do Jardins veja a Cleo. O rapaz também. Porque ver uma atleta como Daniele Bernardes, o tesão do Jeferson Gonçalves, em campo, ou o lindo Daniel Dias nadando, para citar apenas três, podem despertar sentimentos complicados na turma da elite. E ser devotee para eles pode ser algo difícil de explicar aos pais. Porque nossos corpos, além de capazes são desejáveis. E como são.

Adriana Dias Higa
Estudos sobre Deficiência & Antropologia
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