4 de ago de 2016

Argentina: Justiça determina prisão de Hebe de Bonafini, líder das Mães da Praça de Maio

Bonafini é acusada de desviar fundos públicos de projeto social de construção de moradias; ‘Se querem me prender, que me prendam’, respondeu ativista


A Justiça federal da Argentina determinou, nesta quinta-feira (04/08), a prisão de Hebe de Bonafini, presidente da Associação das Mães da Praça de Maio, acusada de desviar dinheiro público por meio de projetos sociais.

A ordem foi emitida pelo juiz federal Marcelo de Martínez de Giorgi após Bonafini ter se recusado a comparecer a duas audiências para tratar do caso de desvio de fundos por meio do projeto social de construção de moradias populares, Sueños Compartidos. O juiz quer que a ativista passe a noite presa e deponha na manhã de amanhã.

Diante do pedido de prisão, foi formado um cordão humano ao redor de Bonafini — que estava na Praça de Maio para a tradicional marcha da quinta-feira — para impedir que ela fosse detida.

Bonafini nega as acusações. Ela havia enviado hoje uma carta ao juiz, por meio de seus advogados, em que afirmava estar sendo perseguida pela Justiça. A ativista disse ainda que as Mães da Praça de Maio, que participam do projeto Sueños Compartidos, forneceram elementos para auxiliar as investigações do caso.

“Se querem me prender, que me prendam, minha vida já não vale mais nada, tenho 90 anos. Eu não tenho medo das consequências, nunca meço as consequências. Para mim, o mais importante é a vida e a honra dos meus filhos e dos 30 mil [desaparecidos durante a ditadura argentina]”, disse Bonafini à imprensa.

“Quem é Martínez de Giorgi? É um comprado pelo Clarín [jornal argentino]. Que tome a decisão que queira. Eu o estou esperando”, afirmou a ativista de direitos humanos.

No Fórum
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MP abre inquérito contra Anastasia por irregularidades na desapropriação da área da Cidade Administrativa de MG


Anastasia, o relator do golpe, era sócio do Jockey Club, dono do terreno que foi desapropriado pelo Estado para a construção da sede do governo. Em 2010, foi acordada uma indenização de R$ 24 milhões para os sócios do clube. “O Anastasia era secretário e sócio do Jockey. Ele negociou com ele mesmo”, ressalta o deputado estadual Rogério Correia, autor da denúncia. Os deputados petistas Marília Campos, Dr. Jean Freire e Cristiano Silveira também assinam a representação.

Sócio de um clube falido, em 2004, o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) conseguiu que o governo que integrava, como todo poderoso secretário do Planejamento, desapropriasse a área de 1,8 milhão de metros quadrados da entidade para dar lugar à Cidade Administrativa. Depois, como membro do conselho deliberativo, alterou o estatuto do clube para se livrar de quase 10 mil sócios e guardou para um grupo seleto de 20 pessoas uma gorda fatia dos R$ 12 milhões estimados para a indenização.

Não satisfeito, depois que o negócio foi feito pelo governo de Minas, pediu na Justiça uma reavaliação do preço do terreno, junto com os outros 19 sócios. Faturou um acordo que duplicou os ganhos. Nessa época, já era vice-governador: em 9 de abril de 2010 foi assinado acordo que ampliou a indenização para R$ 24 milhões. Duas semanas depois, era inaugurada a Cidade Administrativa. No dia seguinte, Anastasia se tornaria governador.

Entenda a negociata

Tudo começou no segundo ano do governo Aécio Neves (PSDB). Em 11 de maio de 2004 foi feita a alteração no estatuto do Jockey Clube para que, em caso de dissolução, apenas fossem considerados sócios com direito a cotas aqueles que não estivessem inadimplentes. De 10 mil sócios, o número caiu para apenas 20, entre eles, o então secretário de estado do Planejamento, Antonio Anastasia. Além de sócio, ele era membro do conselho deliberativo do clube, responsável pela alteração do estatuto.

Em 9 de fevereiro de 2006, em reunião extraordinária do conselho deliberativo foi comunicado que um assessor de Anastasia havia confirmado a desapropriação da área de 1,8 milhão de metros quadrados para que fosse construído o novo centro administrativo do governo. A ata da reunião relata com riqueza de detalhes a negociata, incluindo a autoria do projeto arquitetônico para Oscar Niemeyer e estimando o valor a ser pago pelo terreno entre R$ 8 e 12 milhões.
Uma semana depois, em 16 de fevereiro, o decreto de desapropriação foi publicado no Diário Oficial do Estado.

Mas não parou por aí. Em 2008, quando Anastasia já era vice-governador, o Jockey Clube aproveitou o processo de desapropriação para rever para cima o valor da indenização.
Apesar da conhecida morosidade da Justiça, o acordo saiu rapidamente. Em 25 de março de 2010, foi selado acordo na Justiça para pagamento de R$ 24.095.395,94, ou seja, o dobro do que inicialmente havia sido estimado.

Mais informações sobre o inquérito civil: Clique Aqui

Rogério Correia
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Que direito perdi hoje?

A luta contra este golpe de estado é a luta pela educação pública
Foto: Lidyane Ponciano
Desde que o governo golpista Michel Temer assumiu, no dia 12 de maio deste ano, em cada dia da sua existência, perdemos um direito. Às vezes, perdemos mais de um direito por dia. A ofensiva é tamanha que muitas vezes não nos damos conta disso.

Hoje, tentaram me arrancar o direito de ser professora. Ao ler o artigo publicado na Revista Veja, cujo título é “Professor ganha mal?”, a agressividade da publicação não deixa dúvidas dos seus objetivos: ataque à escola pública.

Nós, professoras, fomos tratadas como quem trabalha pouco, consumimos o orçamento do Estado porque não ensinamos direito, nos aposentamos cedo… Enfim, somos um “grupo que vivemos de privilégios”. E, evidentemente, somos responsáveis pelos resultados da escola, quando não alcançam as metas definidas nos gabinetes.

Para que o “projeto de educação” do governo Michel Temer tenha condições de ser implementado é preciso que a sociedade perca o respeito pelo professor; é preciso que se naturalizem as agressões que serão feitas. Agressões que passam pela criminalização e mordaça da profissão docente por meio do projeto “Escola sem Partido”.

Passa pela privatização da educação, que deixa de ser um direito social e se transforma em mercadoria. Isso está começando pela pós-graduação, com a cobrança de mensalidades, a campanha pelo fim da gratuidade do ensino superior, iniciada pelo governo em parceria com os meios de comunicação, a instalação de parcerias-público-privadas, com o discurso de defesa da eficiência do que é privado.

Não satisfeitos com o que lucram, com o pagamento dos juros da dívida pelo Estado brasileiro, resolveram atacar a parte do orçamento que antes era destinada à saúde e à educação. Esse é o objetivo do limite de gastos da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241. É possibilitar que se apropriem da parcela do orçamento que ainda não controlam.

Para isso, é preciso construir na sociedade à imagem de pessoas privilegiadas que trabalham pouco, ganham muito pelo pouco que produzem e se aposentam cedo à custa do Estado. De uma só vez justificam a Reforma da Previdência que acabará com a aposentadoria especial das professoras e professores, o fim da política nacional do Piso Salarial Profissional e a diminuição de investimentos em educação que acontecerá durante a próxima década.

O que está em curso modificará estruturalmente a escola pública como a conhecemos, retrocedendo em direitos hoje assegurados, como transporte escolar, alimentação escolar, recursos para o caixa escolar, livro didático, Educação de Jovens e Adultos, ensino técnico, expansão do ensino infantil, médio e superior. Mas não podem correr o risco de ter professores protestando contra isso, fazendo greves, denunciando, alertando a população. É preciso antes desqualificá-los e desmoralizá-los para que não tenham condições de resistir.

A parceria entre o governo golpista e os grandes meios de comunicação para desmoralizar o professor é estarrecedora. Um país sério não aceita que seus professores sejam atacados desta forma.

Então, respondendo que direito perdi hoje, tentaram me arrancar o direito de ser professora. Estão tentando roubar o que a escola tem de “público” e nos amordaçar.

Perder isso é um caminho para uma sociedade marcada não apenas pela desigualdade social, mas, pelo autoritarismo. A luta contra este golpe de estado é a luta pela educação pública. Sem democracia, não há direitos!

Beatriz Cerqueira é professora, coordenadora-geral do Sind-UTE/MG e presidenta da CUT/MG.
No Viomundo
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O aparelhamento no Ministério de Relações Exteriores por Serra


Quem conhece a vida do Ministério de Relações Exteriores (MRE), hoje comandado por José Serra (PSDB), garante que o decreto assinado pelo interino Michel Temer (PMDB) em julho, praticamente uma reforma administrativa a toque de caixa no setor, é uma “bofetada na cara do Itamaraty”.

“O MRE cortou na carne e o MPDG [Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão] teve de disponibilizar cargos para Serra fazer o que quiser. Nem nos tempos de Celso Lafer, o último ministro não diplomata [da era Collor], havia gente de fora da carreira trabalhando com o ministro. É o comitê eleitoral dele”, disse uma fonte entendida do assunto ao GGN, sob condição de anonimato.

O decreto que serviu a Serra é o nº 8.817, de 21 de julho de 2016, que “altera a estrutura regimental e o quadro demonstrativo de cargos em comissão e das funções de confiança do MRE”. A ideia era extinguir, remanejar ou “substituir cargos em comissão do grupo DAS (Direção e Assessoramento Superior) por FCPE (Funções Comissionadas Técnicas do Poder Executivo).” Só no grupo DAS, 310 postos de trabalhos foram extintos.

No documento, o artigo 8 aparentemente foi pensado para atender ao “gabinete pessoal de Serra”. Os cargos, distribuídos em São Paulo e Brasília, foram emprestados do Ministério do Planejamento e, por isso, estão em “caráter transitório”, mas valem até meados de 2017.


Serra solicitou 5 cargos do grupo DAS 102.5 (assessor especial), um do grupo DAS 102.3 (assessor técnico) e um do grupo DAS 102.2 (assistente). Desse total de sete assessores, quatro foram lotados em São Paulo (dois assessores especiais, um assessor técnico e um assistente), restando em Brasília três assessores especiais.

A queixa de funcionários do MRE é que nunca antes cargos do DAS 102.5, destinado a assessores próximos do titular da pasta, foram ocupados por pessoas que não preenchem os critérios técnicos para acompanhar, em tese, um diplomata. No próprio decreto há brecha para que nomes de fora do Itamaraty sejam nomeados para alguns dos postos.

Os nomeados

No Diário Oficial da União desta quinta (4) aparecem dois dos nomeados para compor o gabinete pessoal de Serra por empréstimo do Ministério do Planejamento.


Luiz Paulo Alves Arcanjo e Hideo Augusto Dendini, ambos admitidos na função de DAS 102.5 (assessor especial), têm algo em comum: acompanham Serra há décadas e estão envolvidos em alguns escândalos.

Arcanjo, que de acordo com despacho da Casa Civil ficará lotado em São Paulo, era “assistente parlamentar júnior” de Serra quando este ocupava a cadeira de senador. Ganhava R$ 9.456,13. Em 1998, enquanto Serra era ministro da Saúde, Arcanjo estava lotado na pasta como “assessor técnico”, código 102.3.

Em 2011, a Época denunciou que Arcanjo era o intermediário entre Serra e um Roberto do Amaral, consultor de Daniel Dantas, ligado à Andrade Gutierrez. Em e-mails levantados pela Operação Satiagraha, Arcanjo aparece nos contatos de Amaral como “Niger”.

“Trata-se, de acordo com os investigadores da PF, do endereço eletrônico que era usado por Luiz Paulo Alves Arcanjo, secretário particular e motorista de Serra. Nos e-mails remetidos por Amaral a luizpauloarcanjo@uol.com.br, ele [Amaral] escreve como se falasse diretamente com Serra, menciona assuntos de interesse de Dantas e exige providências no âmbito do governo em relação a eles. Serra negou. Não há nenhuma prova de que ele tenha intercedido em favor das pretensões de Amaral. Em duas ocasiões, porém, as ações do governo FHC coincidiram com essas pretensões.”

A primeira, quando derrubou Andrea Calabi do Conselho de Administração do Banco do Brasil, pois não era interessante para os negócios de Dantas que ele ocupasse este posto. A segunda, quando conseguiu imprimir as digitais de Dantas na composição de conselheiros da Previ, fundo de pensão dos funcionários do BB.


O outro assessor, Dendini, é ex-policial militar envolvido no massacre do Carandiru. Esteve no banco dos réus, após a invasão do pavilhão 9 da Casa de Detenção, em 2 de outubro de 1992, deixar 111 presos mortos. No gabinete de Serra no Senado era “assistente parlamentar sênior”. Ganhava R$ 14.184,25.

Cíntia Alves
No GGN
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Parlamentares “clientes” da lavagem de dinheiro

Três congressistas e uma empreiteira "se valeram dos serviços da organização criminosa" desbaratada pela Operação Turbulência da Polícia Federal, segundo denúncia da Procuradoria da República em Pernambuco. De acordo com a acusação, os senadores Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE) e Benedito de Lira (PP-AL); o deputado Artur Lira (PP-AL); e a construtora OAS são "clientes" do principal líder denunciado, o operador João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho. A empreiteira Camargo Corrêa pagava propinas para Bezerra e o falecido ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), conforme a denúncia criminal apresentada pelo procurador Cláudio Henrique Cavalcante Machado Dias à 4ª Vara Federal do Recife.

O Ministério Público não denunciou os políticos, mas citou suas condutas para contextualizar o crime cometido por 18 integrantes de uma "organização criminosa", comandada por João Carlos Lyra, Eduardo Freire e Apolo Santana, que fazia "agiotagem e o escamoteamento da origem e do destino de capitais, incluindo verbas oriundas de superfaturamento em obras públicas, envolvendo o pagamento de propinas a agentes políticos e funcionários públicos".

O três congressistas respondem aos inquéritos nº 4.005 e 3.994 no Supremo Tribunal Federal (STF) relacionados à Operação Lava-Jato. Procurados ontem, todos negaram as acusações. Segundo o advogado de Bezerra, André Callegari, nos depoimentos dos ex-funcionários da Camargo Corrêa Gilmar Campos e Wilson Costa "não há sequer a citação do nome do senador Fernando Bezerra". No STF, a defesa de Artur Lira argumenta que o valor que lhe é atribuído à propina é um empréstimo para o ex-deputado Pedro Corrêa (PE). A assessoria de Benedito Lira afirma que ele sequer conhece João Carlos Lyra e seus parceiros na suposta organização criminosa. A OAS, que negocia um acordo de leniência com a Lava-Jato, não quis comentar o caso.

Segundo o procurador Cláudio Machado Dias, as citações aos parlamentares mostram que eles "apenas se valeram dos serviços da organização criminosa, sem a integrarem". Ele justifica que os eventuais crimes dos congressistas estão em análise no STF, porque eles têm foro privilegiado.

Dinheiro vivo

Segundo a denúncia, João Carlos Lyra lavava dinheiro desviado dos cofres públicos e "vendia" dinheiro vivo, atuando como caixa dois da OAS. "Fazia, assim, circular os capitais que movimentava em razão do segundo crime, de branqueamento de capitais, mediante a "venda" de dinheiro em espécie (...), esquema do qual eram seus "clientes", a Construtora OAS, o deputado federal Arthur Lira, o senador Benedito de Lira, o falecido ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos e o atual ministro de estado (sic) Fernando Bezerra Coelho." A apuração começou a partir da morte de Campos, em agosto de 2014, quando se descobriu que João Carlos, Freire e Santana eram os verdadeiros donos da aeronave que matou o ex-candidato à Presidência da República em um desastre aéreo.

Para o MPF, João Carlos era "a pessoa encarregada de entregar a propina devida" pela Camargo Corrêa a Fernando Bezerra e Eduardo Campos. "São absolutamente imprecisas as afirmações feitas pela Procuradoria da República em Pernambuco na denúncia", rebate André Callegari, defensor do senador. Ele disse que, mais de um depois da abertura do inquérito nº 4.005 no STF, o caso "segue sem qualquer prova sobre a participação do senador em qualquer atividade ilícita, e continua calcado tão somente nas informações conflitantes fornecidas por delatores, declarações estas que não vêm com sequer um documento comprobatório".

Já Eduardo Freire indicou a empresa de fachada Câmara & Vasconcelos para que o doleiro Alberto Youssef depositasse recursos desviados da Petrobras, diz o MPF na denúncia. O Ministério Público afirma que os beneficiários do dinheiro eram o deputado Arthur Lira e seu pai, o senador Benedito Lira. O advogado do deputado, Pierpaolo Bottini, não quis comentar o caso. Mas, em depoimento no inquérito, o parlamentar já relatou que o ex-deputado Pedro Corrêa afirmou em sua colaboração premiada que o depósito em discussão era um empréstimo destinado a ele, e não a Lira.

» Líderes

João Carlos Lyra Pessoa de Mello Filho, Eduardo Freire Leite e Apolo Santana Vieira "assumiram o papel estratégico e de proeminência no seio do grupo criminoso, representando-o frente aos "clientes", isto é, às pessoas que desejavam lavar dinheiro", como políticos e empreiteiras.

» Gerentes

Próximos dos líderes, compunham o quadro societário das empresas de fachada, cooptavam laranjas e emprestavam suas contas para movimentar o dinheiro. São eles: Paulo Morato (não foi denunciado pois está morto), Artur "Tuta" Rosal, Paulo Sampaio e Severina Divanci.

» Colaboradores

Por razões pessoais ou para tomarem empréstimos, cediam contas de empresas verdadeiras ou de fachada para dissimular o dinheiro sujo. São eles: João Victor Sobral, Carlos Macedo, Gilberto Pereira, Pedro Vasconcelos, Carolina Câmara e Sérgio Mariz.

» Subordinados

Eles participavam da administração das empresas ou das contas sob ordem dos líderes e gerentes. São eles: Bruno Moutinho, Carolina Gomes, Cledeilson Nogueira, Neusa de Sousa, Silvânia Dantas e Vlamir Nogueira.

No Amigos do Presidente Lula
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Laerte Coutinho explica por que grita golpe


“Precisamos enfrentar uma discussão séria sobre o nosso modelo de representação política e partidária, de eleição. Todo esse arranjo precisa ser revisto, senão os golpes vão se suceder”, afirma a cartunista Laerte Coutinho, ao programa Jogo de Carta.

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A maior vitória dos que se batem contra o golpe

É golpe, e assim será conhecido através dos tempos
Li, alguns anos atrás, o relato das Guerras do Ópio segundo um historiador chinês.

Estava curioso para ver como os chineses tratavam de um episódio em que foram devastados abjetamente pelas potências ocidentais, a começar pela Inglaterra.

As guerras aconteceram em meados do século XIX. A Inglaterra tinha um déficit comercial enorme com a China, por conta de importações de chá, cerâmica e seda.

Para equilibrar a balança, os ingleses tentaram vender bugigangas recém-saídas da Revolução Industrial. Os chineses não se interessaram por nenhuma delas.

Veio então uma ideia sordida. Vender ópio para os chineses. O ópio era produzido na Índia.

A China reagiu e proibiu o ópio em seu território. Eram terríveis os estragos que a droga vinha fazendo entre os chineses.

Os ingleses viram na proibição uma oportunidade de declarar guerra em nome do “livre comércio”. Os chineses eram pacíficos, os agressores não: estavam armadíssimos por conta das guerras napoleônicas.

É um episódio que, com o tempo, traria vergonha aos próprios vencedores. Nos livros de história ingleses, as Guerras do Ópio são tratadas como uma infâmia do passado imperial.

No livro chinês que li, o autor afirma, com imensa sabedoria, que o maior triunfo da China foi haver conseguido batizar a devastação como “Guerras do Ópio”.

Nada, dali por diante, poderia salvar a imagem imunda da ação britânica na China.

Contei isso porque há um paralelo fascinante com o que ocorre hoje no Brasil.

A maior vitória dos que se batem pela democracia e contra o impeachment não se dará no Senado, na decisão viciada que em breve será tomada.

Ela já aconteceu, e foi na consagração da palavra “golpe”. Como nas Guerras do Ópio, nada vai eliminar a expressão “golpe” quando o assunto for tratado pelos historiadores e pela posteridade.

Todos aqueles que se aliaram na manobra espúria de exterminar 54 milhões de votos serão inevitavelmente conhecidos como “golpistas”.

Já não há nada que eles possam fazer para evitar a vingança da história. Cada vez que se manifestam a situação só piora para eles.

São cínicos, são hipócritas, são canalhas.

E assim serão, para sempre, conhecidos, como os ingleses que destroçaram a China para poderem vender livremente o mesmo ópio que proibiam em seu país.

Paulo Nogueira
No DCM
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Promotor que denunciou jornalista e estudantes foi autor de ação para “desmontar bases criminosas do MST”

Em 2008, promotor classificou acampamentos do MST como “verdadeiras bases operacionais destinadas à
prática de crimes e ilícitos civis”.
O promotor Luís Felipe de Aguiar Tesheiner, que denunciou terça-feira (2) oito estudantes, o jornalista Matheus Chaparini, do Jornal Já, e o cinegrafista independente Kevin D’arc, por dano qualificado e desobediência civil, no episódio da ocupação da Secretaria Estadual da Fazenda, foi autor em 2008 de uma polêmica ação civil pública contra o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Naquele ano, o promotor Luís Felipe de Aguiar Tesheiner, juntamente com o promotor Benhur Biancon Junior, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, foram autores de uma ação civil pública pedindo a desocupação de dois acampamentos do MST, localizados próximos à fazenda Coqueiro, na região Norte do Estado.

Na ação, os promotores classificaram os acampamentos Jandir e Serraria como “verdadeiras bases operacionais destinadas à prática de crimes e ilícitos civis causadores de enormes prejuízos não apenas aos proprietários da Fazenda Coqueiros, mas a toda sociedade”. Na primeira página da inicial da ação, os promotores comunicam que seu trabalho era resultado de uma decisão do Conselho Superior do Ministério Público do RS para investigar as ações do MST que “há muito tempo preocupam e chamam a atenção da sociedade gaúcha”. No dia 18 de junho de 2008, Tesheiner disse ao jornal Zero Hora que não se tratava simplesmente de remover acampamentos, mas sim de “desmontar bases que o MST usa para cometer reiterados atos criminosos”.

Conselho do MP queria “dissolução do MST”

Em 2007, o MP do Rio Grande do Sul, através de uma decisão de seu Conselho Superior (CSMP), decidiu colher dados e produzir um relatório (elaborado pelos promotores Luciano de Faria Brasil e Fábio Roque Sbardelotto) sobre a atuação do MST no Rio Grande do Sul (processo n° 16.315-0900/07-9). O Conselho Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul em Ata no 1.116, de 03/12/2007, aprovou o voto e os encaminhamentos propostos pelo procurador e Conselheiro Gilberto Thums, que tinha, entre outras recomendações: “designar uma equipe de Promotores de Justiça para promover ação civil pública com vistas à dissolução do MST e a declaração de sua ilegalidade”.

O documento que embasou a ação civil pública contra o MST em 2008 anuncia que os promotores Luciano de Faria Brasil e Fábio Roque Sbardelotto realizaram um “notável trabalho de inteligência” sobre o tema. Uma nota de rodapé definiu esse trabalho de inteligência nos seguintes termos:

O art. 1º, § 2º, da Lei nº 9.883/99, que instituiu o Sistema Brasileiro de Inteligência e criou a ABIN, definiu a inteligência como sendo “a atividade que objetiva a obtenção, análise e disseminação de conhecimentos dentro e fora do território nacional sobre fatos e situações de imediata ou potencial influência sobre o processo decisório e a ação governamental e sobre a salvaguarda e a segurança da sociedade e do Estado”

Autores subversivos: Florestan Fernandes, Paulo Freire…

MST sofreu uma forte campanha de criminalização durante o governo Yeda Crusius. (Foto: CUT-RS)
MST sofreu uma forte campanha de criminalização durante o governo
Yeda Crusius.
Foto: CUT-RS
O relatório dos promotores apresenta o MST como uma ameaça à sociedade e à própria segurança nacional. O resultado do trabalho de inteligência inspirado nos métodos da ABIN é composto, na sua maioria, por matérias de jornais, relatórios do serviço secreto da Brigada Militar e materiais, incluindo livros e cartilhas, apreendidas em acampamentos do MST. Textos de autores como Florestan Fernandes, Paulo Freire, Chico Mendes, José Marti e Che Guevara são apresentados como exemplos da “estratégia confrontacional” adotada pelo MST. Na mesma categoria, são incluídas expressões como “construção de uma nova sociedade”, “poder popular” e “sufocando com força nossos opressores”. Também é “denunciada” a presença de um livro do pedagogo soviético Anton Makarenko no material encontrado nos acampamentos.

Na introdução da ação, os promotores fazem um “breve histórico do MST e dos movimentos sociais”. Esse histórico se refere à organização do Movimento dos Agricultores Sem-Terra (Master) no Rio Grande do Sul, nos anos 1960, e à “atmosfera de crescente radicalização ideológica”. As Ligas Camponesas de Francisco Julião, em Pernambuco, são acusadas de “sublevar o campo e incentivar a violência contra os proprietários de terra, criando um clima de guerra civil”. Essa “agressividade”, na avaliação dos promotores, contribuiu para o “movimento político-militar de 1964”. O “movimento político-militar de 1964” a que os promotores se referem é o golpe civil-militar que derrubou o governo constitucional de João Goulart, suprimiu as liberdades no país e deu início à ditadura militar.

Trabalho de inteligência baseado na revista Veja

Logo em seguida, a ação apresenta uma caracterização do MST, toda ela baseada na visão de uma única pessoa, o sociólogo Zander Navarro. O trabalho de inteligência dos promotores também se baseia, em várias passagens, em uma “revista de circulação nacional” (Veja) e em matéria críticas ao MST publicadas em jornais como Folha de São Paulo, Zero Hora e Estado de São Paulo, entre outros. Após apresentar um “mapa” dos movimentos sociais no campo brasileiro, os promotores questionam, em tom de denúncia, as fontes de financiamento público desses movimentos.

Os promotores citam ainda o relatório da CPMI da Terra, realizada no Congresso Nacional, sustentando que haveria malversação de verbas públicas, “pelo repasse de dinheiro público efetuado diretamente pelo Incra, na forma de distribuição de lonas, cestas básicas e outros auxílios”. Além disso, citam a “doação de recursos por entidades estrangeiras, notadamente organizações não-governamentais ligadas a instituições religiosas, como a organização Caritas, mantida pela Igreja Católica”. E identificam, em tom crítico, a rede de apoio internacional ao MST que mostraria ao público estrangeiro “uma visão do Brasil frontalmente crítica à atuação do Poder Público e inteiramente de acordo com os objetivos estratégicos do MST”. Citando o jornal Zero Hora, os promotores apontam que a Escola Florestan Fernandes (do MST) foi construída “com vendas do livro Terra, com texto do escritor português José Saramago, fotografias de Sebastião Salgado e um disco de Chico Buarque, além de contribuições do exterior”

Dinheiro das FARC e planos para criar “território liberado” no RS

Ao falar sobre a estratégia do MST, os promotores valem-se de relatórios do serviço secreto da Brigada Militar. O relatório do coronel Waldir João Reis Cerutti, de 2 de junho de 2006, afirma que os acampamentos do movimento são mantidos com verbas públicas do governo federal, recursos de fontes internacionais e até das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). O coronel Cerutti não apresenta qualquer comprovação da existência do “dinheiro das FARC” e segue falando da suposta influência da guerrilha colombiana sobre os sem-terra. Segundo ele, o MST estaria planejando instalar um “território liberado” dentro do Estado: “Análises de nosso sistema de inteligência permitem supor que o MST esteja em plena fase executiva de um arrojado plano estratégico, formulado a partir de tal “convênio”, que inclui o domínio de um território em que o governo manda nada ou quase nada e o MST e Via Campesina, tudo ou quase tudo”.

Em seguida é apresentado um novo relatório do Estado Maior da Brigada Militar sobre as ações do MST no Estado. Esse documento pretende analisar a “doutrina e o pensamento” do MST, identificando, entre outras coisas, as leituras feitas pelos sem-terra. Identifica um “panteão” de ícones inspiradores do movimento, “a maior parte ligada a movimentos revolucionários ou de contestação aberta à ordem vigente” (onde Florestan Fernandes e Paulo Freire estão incluídos, entre outros). E fala de “uma fraseologia agressiva, abertamente inspirada nos slogans dos países do antigo bloco soviético (“pátria livre, operária, camponesa”)”. A partir dessas informações, os promotores passam a discorrer sobre o caráter “leninista” do MST, invocando como base argumentativa o livro “A democracia ameaçada – o MST, o teológico-político e a liberdade”, de Denis Rosenfield, que “denuncia” que o objetivo do movimento é o socialismo.

Para os promotores, já existiriam na época “regiões do Brasil dominadas por grupos rebeldes” (p. 117 da ação). A prova? “A imprensa recentemente noticiou….” (uma referência as ações da Liga dos Camponeses Pobres, no norte do Brasil). Em razão da “gravidade do quadro em exame”, concluem os promotores, “impõe-se uma drástica mudança na forma de trato das questões relativas ao MST e movimentos afins”. A conclusão afirma que o “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra não constitui um movimento social, mas, isso sim, um movimento político”. O MST, prosseguem os promotores, “é uma organização revolucionária, que faz da prática criminosa um meio para desestabilizar a ordem vigente e revogar o regime democrático adotado pela Constituição Federal”. Em nenhum momento da ação, o “notável trabalho de inteligência” dos promotores tratou de problemas sociais no campo gaúcho.

Ação motivou carta de repúdio ao MP

Elton Brum da Silva foi assassinado pelas costas, com um tiro de fuzil, por um policial militar, durante a execução judicial de um mandado de reintegração de posse, no dia 21 de agosto de 2009, em São Gabriel.
Elton Brum da Silva foi assassinado pelas costas,
com um tiro de fuzil, por um policial militar, durante a
execução judicial de um mandado de reintegração de
posse, no dia 21 de agosto de 2009, em São Gabriel.
No dia 27 de junho de 2008, juristas, representantes de entidades ligadas à questão agrária e integrantes de movimentos sociais divulgaram uma carta de repúdio ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, que pediu em um relatório citado por Tesheiner, a “dissolução” do MST e a “declaração de sua ilegalidade.” O referido relatório serviu de base para oito ações judiciais contra integrantes do MST, como proibições de marchas, autorização de despejos e deslocamento de acampamentos. Um dos trechos do relatório afirmava: “Cabe ao MP-RS agir agora: quebrar a espinha dorsal do MST. O momento é histórico no país e se constitui no maior desafio já apresentado à instituição desde o pós-1988: a defesa da democracia.”

Na época, o juiz de direito do Rio Grande do Sul, Luis Christiano Aires, considerou a decisão do MP inconstitucional. “É surpreendente que o Conselho Superior do MP tenha aprovado uma proposta dessas. O aspecto jurídico foi completamente esquecido”, afirma. “Há algum tempo temos percebido que os pareceres do MP, em especial em momentos de conflito, têm se manifestado a favor dos proprietários. O que nos surpreendeu foi o Conselho ter decidido por unanimidade a favor de uma política tão contrária a existência dos movimentos sociais”, disse o magistrado.

Cerca de um ano depois, no dia 21 de agosto de 2009, o crescente processo de criminalização do MST faria uma vítima fatal. O sem terra Elton Brum da Silva foi assassinado pelas costas, com um tiro de fuzil, por um policial militar, durante a execução judicial de um mandado de reintegração de posse, em São Gabriel.

Marco Aurélio Weissheimer
No RS Urgente
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Austeridade Contra a Cidadania | José Gomes Temporão

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A garota que expôs o ‘pintinho’ inquieto de Feliciano é uma heroína

Uma heroína, mesmo que recue
Boechat famosamente mandou Malafaia procurar uma rola.

A busca, caso efetivada, não vai dar em nada se Malafaia recorrer a Feliciano. Porque ali, segundo uma jovem que acusa com pesadas evidências Feliciano de atacá-la sexualmente, o que existe é um mero “pintinho”.

Esta a grande frase de um áudio em que a garota conversa com um aparente intermediário do pastor interessado em convencê-la a se calar. “Se vale um conselho, manda o Feliciano aquietar o pintinho dele.”

Clap, clap, clap. De pé.

Muita coisa ainda vai acontecer no escândalo sexual de Feliciano. Os poderosos farão um esforço incrível para transformar a vítima em culpada.

Mas uma coisa é certa: Feliciano jamais será o mesmo. As pessoas rirão dele. Escarnecerão dele. Terão vontade de gargalhar ou de vomitar a cada vez que ele fizer um pronunciamento moralista em defesa da família cristã.

Feliciano virou, seja qual for o desfecho do caso, um morto vivo na política, uma piada ambulante, um símbolo eterno de hipocrisia e de corrupção moral.

Homens como ele levaram a política nacional a um estado de degradação jamais visto. Feliciano só não é tão deletério quanto Eduardo Cunha porque tem menos poder.

A menina que ousou denunciá-lo é uma heroína. Mesmo que, intimidada, assustada, encurralada, aterrorizada, recue, ela já prestou um serviço inestimável à sociedade.

Expôs um câncer. Ou, para usar as palavras dela, um pintinho capaz de enormes, descomunais safadezas.

Paulo Nogueira
No DCM



'Me levou a fazer coisas à força', diz mulher sobre Feliciano

Em áudio, jovem diz que se reúne com o chefe de gabinete de Feliciano, Talma Bauer, em Brasília – e confirma denúncia

Brasília - “Se vale um conselho, manda o Feliciano aquietar o pintinho dele , guardar o pintinho dele''

“Eu não sou uma menina burra. Eu tenho provas, tenho conversas, que saíram do telefone dele''

“Provavelmente eu não fui a primeira, e não sou a última. Eu serei a primeira que vai falar! Eu não aceito nada em troca. O que ele fez foi impagável''.

“Ele não me deixou sair ( do apartamento ), fez coisas à força, eu tenho a mensagem dele: 'Feliciano, a minha boca ficou roxa'. Ele ri''

“Se você conhece o Marco Feliciano e trabalha com ele, você com certeza deve saber da conduta dele, da índole dele. Não sejamos hipócritas''.

“Eu corri atrás de todos os pastores para pedir ajuda e não posso sair prejudicada. Porque se eu sair prejudicada, eu vou à delegacia''.

* * *

“Eu não levei à delegacia ainda porque eu sou cristã, eu amo a minha igreja! (.. ) eu não fui para a delegacia porque eu sei que isso vai prejudicar não só a igreja, não é só o ministério do Feliciano, mas todo o evangelho. Eu amo a igreja''.

“Você está fazendo um bem, de você perdoar, e posso pedir para você por uma pedra em cima? O partido vai continuar tudo igual para você'' (voz atribuída a chefe de gabinete de Feliciano)

Vídeo: Áudio Caso Feliciano



A polêmica começa quando a Coluna solta uma nota sobre assédio sexual de um deputado federal a uma jovem de Brasília – caso que se revelou muito mais grave, após ela relatar pessoalmente, diante de duas testemunhas, o que houve. Ela procurou este repórter pelo WhatsApp, número passado por um amigo em comum, com a mensagem: “Oi. Preciso de ajuda''. Era dia 24 de julho.

Desde então o repórter passou a trocar mensagens de WhatsApp com a mulher de 22 anos que acusou de agressão e assédio sexual o pastor Marco Feliciano, deputado federal, líder do PSC e do Ministério do Avivamento, um braço evangélico que criou. A Coluna tem as evidências de provas passadas pela menina – na troca de mensagens repete que faria o B.O. na polícia – e numa reunião. Diante de um jornalista paulista e do advogado da Coluna, ela confirmou tudo. Ontem, a Coluna revelou o caso.

A menina que se diz vítima entregou os prints das trocas de mensagem que atribui a Feliciano – confirmamos em áudio com dois funcionários do PSC que se tratava do telefone pessoal dele – e também um áudio, o qual revelamos agora. Nele, a jovem diz que se reúne com o chefe de gabinete de Feliciano, Talma Bauer, em Brasília – e na conversa confirma tudo o que denunciou ao repórter e o que foi publicado.

A garota está fora de Brasília, sem os pais. Bauer confirma que esteve com a jovem, 'numa conversa como de pai para filha', para orientá-la, mas sobre o áudio, apesar de não ter ouvido, diz que pode ser montagem. ( Detalhe, as vozes coincidem, a garota confirmou para o repórter e testemunhas que o gravou, e enviou o áudio por whatsapp para a Coluna. Não há indícios de montagem e não há qualquer interrupção no mesmo. Vamos publicar os primeiros 28 minutos dos 57 minutos da conversa reveladora).

Após sair de Brasília, levada por um assessor do PRB, misteriosamente a garota mudou toda a versão, apesar das provas entregues à Coluna e das testemunhas. Ela gravou vídeo para o youtube chamando Feliciano de 'bacana ( confrontada por este, ela o retirou do ar ).  E agora espalha que foi usada e o repórter mente. Gravou outro vídeo que circula agora pelo WhatsApp, dizendo ser 'coisa da esquerda', e ao lado de quem? Do querido novo amigo Bauer, alvo dessa gravação e a quem deu seguidos recados de que não poderia ficar abandonada.

Isso é só parte da verdadeira história.

Com os leitores, a prova da denúncia. Parte da transcrição abaixo, e parte no canal da Coluna Esplanada no Youtube:

Homem – Sou chefe de gabinete do Feliciano, sou um conselheiro dele. Eu pediria a você para dirimir qualquer dúvida.

Mulher – Se você conhece o marco Feliciano e trabalha com ele, você com certeza deve saber da conduta dele, da índole dele. Não sejamos hipócritas. Não estou aqui para ganhar nada de ninguém. você não é a primeira pessoa que me procurou.

Conheci o Feliciano dentro da Câmara. Ele simplesmente chega nas pessoas e usa o que ele tem. Todo mundo erra, mas uma coisa é você ser hipócrita.. eu só perco e me exponho, eu não sou uma menina burra. Eu tenho provas, tenho conversas, que saíram do telefone dele.

Homem – Sim, eu etendo. Você se sentiu prejudicada.

Mulher – Lógico que me senti.

Homem – Qual o dano que te causou?

Mulher – Moral. Ele falou para muita gente. (..) Eu me considero uma pessoa honesta, e não estou mentindo.

Homem – É quando a gente conversa assim olho no olho a gente não mente.

Mulher – Eu não tô aqui para falar de você. Tô aqui para falar do Feliciano. (..) Ele usou de um cargo público para se aproximar, tenho provas, são provas concretas, com base. não quero prejudicar ninguém, mas não quero sair prejudica.

Homem – Eu tô com você em gênero, número e grau.

Mulher – A primeira coisa que não tô mentindo é que procurei pastores, não tô mentindo, se estivesse mentindo não chegaria aonde eu cheguei. O que coloco é o seguinte: Marco Feliciano errou, Marco Feliciano continua errando. O senhor está com ele há quantos anos?

Homem – Quinze anos.

Mulher – Então o senhor sabe o que ele faz. Eu estou falando em questão de mulheres. Custo acreditar que não saiba. Por mais que seja uma relação profissional. (..) Provavelmente eu não fui a primeira, e não sou a última. Eu serei a primeira que vai falar! Eu não aceito nada em troca. O que ele fez foi impagável.

(..) Ele usou um cargo de influência, de deputado e de pastor, para aproximar. Ele abusa desse cargo para chegar e ele veio conversando comigo de formas estranhas, colocando ‘a gente poderia se encontrar’. Não é cantando, é descaradamente dando em cima.

Homem – eu sou homem, tenho minhas vontades. tenho que ser sutil. (..)

Mulher – É por isso que a gente não tá aqui falando de você. Você tem noção. Quer entender com todas as letras o que aconteceu? Ele deu em cima de mim de forma descarada, tá bom?, Me levou a fazer coisas à força – tenho a prova disso. Dentro da casa dele. Falou que estava tendo reunião da UNE, eu fui para lá e não estava tendo, ele não me deixou sair, fez coisas a força eu tenho a mensagem 'Feliciano, a minha boca ficou roxa'. Ele ri. Sim, aonde eu falo 'a minha boca ficou roxa', saiu do número dele, cujo qual ele usava, não sei se usa mais; Ele fala 'ah, passa um batom por cima'. Eu tenho todas essas provas, o que estou falando consigo sentar com o senhor e provar.

Homem – Mas ninguém está duvidando de você;

Mulher – (..) Quando a gente fala uma coisa, principalmente quando a gente está incriminando alguém, por eu estudar direito eu sei que a gente tem que ter provas. E eu tenho todas as provas. A maior prova que eu tenho até o momento é que o Feliciano está preocupado..

Homem – Isso fica, eu estou preocupado!

Mulher – Mas ele está a ponto de ligar para as pessoas, e inventar histórias que não existem. Olha para mim, você sabe quem o Feliciano é? Então você sabe o que o Feliciano faz.

Homem – Às vezes pelo fato .. você tem uma beleza diferente.

Mulher – Mas senhor.. isso não justifica! eu tô falando de uma pessoa que é casado, deputado, pai de três filhos. Eu poderia ser a Gisele Bündchen.

Homem – Eu te asseguro (..) que eu, o que te prejudicou eu conserto. No partido, quem ficou triste com você, eu conserto.

Mulher – No partido está todo mundo sabendo da história!

Homem – Pra você, estou pedindo desculpa em nome da família.

Mulher – Eu não levei à delegacia ainda porque eu sou cristã, eu amo a minha igreja! (.. ) eu não fui para a delegacia porque eu sei que isso vai prejudicar não só a igreja, não é só o ministério do Feliciano, mas todo o evangelho. eu amo a igreja. (..) Eu corri atrás de todos os pastores para pedir ajuda e não posso sair prejudicada. Porque se eu sair prejudicada, eu vou à delegacia.

Homem – Você está com meu telefone, ele fica ligado dia e noite, vou seguir sua orientação para consertar. Por exemplo, no partido você vai ter acesso direto e reto, você vai ter espaço..

Mulher – Se vale um conselho, manda o Feliciano aquietar o pintinho dele, é guardar o pintinho dele. Eu não estou fazendo favor a ninguém.

Homem – Você falou a verdade, não está fazendo favor a ninguém, você está fazendo um bem, de você perdoar, e posso pedir para você por uma pedra em cima? O partido vai continuar tudo igual para você, e para melhor. (..) está pior para ele do que para o partido.

Mulher – A partir do momento que eu ver que não vou mais ser prejudicada – eu não estou falando mais em nome do Feliciano não, em nome da igreja, em nome da bandeira que defendo. Pensa bem se levo isso para uma delegacia, com que cara vou chegar numa comissão?

Coluna de Leandro Mazzini
No O Dia
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Renan acelera o golpe do impeachment

Após negociar alguns carguinhos no governo, no descarado balcão de negócios em que se transformou o Palácio do Planalto, o camaleônico Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, anunciou nesta quarta-feira (3) que vai antecipar a data de início da votação do impeachment da presidenta Dilma — de 29 para 25 de agosto. “Com certeza, temos como concluir isso antes do final do mês. Vou trabalhar para que isso aconteça", afirmou. Numa prova da sua paixão pelo trabalho, ele acrescentou que, “se for necessário, o Senado trabalhará no sábado e no domingo para acelerar a decisão”. A manobra do peemedebista revoltou vários senadores, que o acusaram de ter cedido às pressões do Judas Michel Temer para encurtar o direito de defesa da presidenta afastada.

Renan Calheiros, conhecido por seu pragmatismo, negou à pressão. “O presidente Temer não faria a mim esse apelo. Ele não falou da votação do processo”, garantiu, logo após sair de mais uma reunião com o usurpador. Mas nem a mídia chapa-branca abonou a declaração do velhaco oportunista. A própria Folha confirmou a pressão palaciana. “Após a articulação montada pelo governo interino para que o julgamento final do processo de impeachment não se estenda até setembro, o presidente do Senado afirmou que o processo de votação deve começar em 25 ou 26 de agosto. A data precede a que havia sido acordada com o presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski”, confirmaram os repórteres Gustavo Uribe, Mariana Haubert e Marina Dias.

Mas a pressão foi tão escancarada que repercutiu até no Senado. “É uma interferência indevida desse presidente interino e golpista. Ele não pode interferir assim no processo”, criticou Lindbergh Farias (PT-RJ). “Como esse presidente temporário quer chegar aqui e marcar a data? É uma atitude desrespeitosa para com o Senado”, protestou Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). O advogado de Dilma, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, também reagiu: "É um absurdo o governo fazer pressão para encurtar o processo de impeachment. O que a defesa quer é apenas exercer seu direito de defesa. Eles têm medo do quê? De que Cunha seja cassado antes e que apareça alguma coisa que está escondida? É incrível que um governo que é interino queira interferir no cronograma".

Apesar das críticas, Renan Calheiros impôs a antecipação, o que mostra que os golpistas temem que os protestos cada vez maiores na sociedade interfiram na votação do Senado. Muitos senadores, preocupados com suas bases eleitores, estão temerosos com a repercussão — nacional e internacional — das vaias e do grito de “Fora Temer” nas Olimpíadas. Há também o medo-pânico de que o ex-presidente da Câmara Federal, o correntista suíço Eduardo Cunha, resolva abrir o bico após ter sido descartado pelos golpistas. Nesta semana, segundo o Estadão, o vingativo lobista começou a montar um dossiê sobre os parlamentares que ajudou a eleger. Antes da sua renúncia, ele já havia ameaçado “derrubar” um segundo presidente, num referência direta ao Judas Michel Temer.

Altamiro Borges
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A Lava-jato e o Vice-Almirante

http://www.maurosantayana.com/2016/08/a-lava-jato-e-o-vice-almirante.html


Em uma sentença que chama a atenção pela severidade e a ausência de proporcionalidade, o ex-presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva, foi condenado, ontem, por um juiz do Rio de Janeiro — com uma decisão que atingiu também a sua filha — a 43 anos de prisão por crimes supostamente cometidos durante as obras da usina nuclear de Angra 3.

O vice-almirante Othon é um dos maiores cientistas brasileiros, um dos principais responsáveis pelo programa de enriquecimento de urânio da Marinha, que levou o Brasil, há 15 dias, a fazer a sua primeira venda desse elemento químico — usado como combustível para reatores nucleares — para o exterior, para uma empresa pertencente ao governo argentino.

Em qualquer nação do mundo, principalmente nos EUA — país que, justamente por ser brasileiro, e não norte-americano, o teria espionado, “plantando” um homem da CIA ao lado do seu apartamento — o vice-almirante Othon estaria sendo homenageado, provavelmente com uma medalha do Congresso ou da Casa Branca, por serviços de caráter estratégico prestados ao fortalecimento da Nação e ao seu desenvolvimento.

No Brasil de Itamar Franco — um homem íntegro e nacionalista, que cometeu a besteira de confiar em quem não devia e abriu a Caixa de Pandora da tragédia neoliberal dos anos 1990, ao apoiar para sua sucessão um cidadão em cujo governo, segundo o Banco Mundial, o PIB e a renda per capita recuaram e a dívida pública duplicou, deixando ainda um papagaio, com o FMI, de 40 bilhões de dólares — o Almirante Othon recebeu, em 1994, da Presidência da República, a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico.

Ele também é Comendador da Ordem do Mérito Naval; da Ordem do Mérito Militar; da Ordem do Mérito Aeronáutico; da Ordem do Mérito das Forças Armadas; da Medalha do Mérito Tamandaré; e recebeu, além disso, a Medalha do Pacificador, a Medalha do Mérito Santos-Dumont e a Medalha Militar de Ouro.

No Brasil kafquianamente imbecilizado, midiotizado, manipulado, plutocratizado, deturpado, moralmente, da atualidade, que caminha a passos largos para a instalação de um governo — de fato — de exceção e fascista — e, ainda por cima, entreguista e anti-nacional — a partir de 2018, ele está sendo condenado por uma justiça em que muitos membros recebem acima do teto constitucional, perseguem jornais que os denunciam, e podem fazer palestras remuneradas sem ter que declarar quanto estão, conforme resolução do CNJ divulgada no início deste mês de julho.

Com uma maioria de patriotas, nacionalistas, legalistas, constitucionalistas, os militares brasileiros tem suportado em silêncio digno a interrupção e as ameaças que pairam, como aves de rapina, sobre numerosos projetos de defesa que tiveram início na última década e sobre as empresas responsáveis por eles, como o dos submergíveis convencionais e o do submarino atômico — de cujo desenvolvimento do reator já participou o próprio Almirante Othon — sob responsabilidade da Odebrecht, um dos grupos mais prejudicados e perseguidos pela Operação Lava-Jato, que já teve que demitir mais de 120.000 pessoas no último ano, também encarregada, por meio da Mectron, da construção, em conjunto com a Denel sul-africana, do míssil A-Darter que irá armar os novos caças Gripen NG-BR, que estão sendo — também por iniciativa dos dois últimos governos — desenvolvidos com a Suécia por itermédio da SAAB.

Tudo isso, em nome de um pseudo combate à corrupção hipócrita, ególatra, espetaculoso e burro, em que, para descobrir supostos desvios de um ou dois por cento em programas estratégicos de bilhões de dólares, condena-se ao sucateamento, atraso ou interrupção — como era o caso, há anos, das obras de Angra 3 antes de sua retomada justamente pelo Vice-Almirante Othon — os outros 97% dos projetos, sem nenhuma consideração pela aritmética, a lógica, o bom senso, a estratégia nacional, o fortalecimento ou o desenvolvimento brasileiros.

Isso, ainda, para vender, falsa e mendazmente, com a cumplicidade de uma parcela da mídia irresponsável, apátrida, estúpida e venal, a tese de que se estaria "consertando" o país, quando o que se está fazendo é jogar o bebê pela janela junto com a água do banho, e matando a boiada inteira para exterminar meia dúzia de carrapatos, no contexto de um projeto de endeusamento de um personagem constantemente incensado por uma potência estrangeira — justamente aquela que espionou o próprio Almirante Othon — quando se sabe que para prender corruptos não era preciso arrebentar com as maiores companhias de engenharia do país, como se está arrebentando, nem com os principais projetos bélicos e de infraestrutura em andamento, ou com a Estratégia Nacional de Defesa, árduamente erguida nos últimos anos, ou com um conjunto de programas do qual toma parte, ainda, o Astros 2020 da Avibras; a nova família de fuzis de assalto IA-2, da IMBEL; o Cargueiro Militar multipropósito KC-390 da Embraer; a nova linha de radares SABER; os 1050 novos tanques Guarani, desenhados pelo Departamento de Engenharia do Exército, até algum tempo atrás — ao que se saiba — ainda em construção pela IVECO; os novos navios de superfície da Marinha; ou o novo satélite de comunicações que atenderá às Forças Armadas.

Os alegados 4 milhões de reais em "propina" eventualmente pagos em consultoria ao Almirante Othon — uma das razões de sua condenação a mais de 40 anos de prisão — seriam, caso sejam comprovados, uma migalha diante do que ele mereceria receber, em um país mais patriótico e menos hipócrita, como cientista e como compatriota, e uma quantia irrisória, se formos considerar, por exemplo, o preço de um apartamento de quatro quartos em Higienópolis, em São Paulo — há os que são vendidos a preço de “ocasião” — ou o fato de ratos como Eduardo Cunha, Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, com dezenas de milhões de dólares na Suíça, terem sido soltos pelo Juiz Sérgio Moro e, tranquilos, estarem em casa neste momento.

Só no Brasil, também, um cientista desse porte é enxovalhado, como o Vice-almirante Othon está sendo, nas redes sociais, por um bando de energúmenos, ignorantes, preconceituosos e estúpidos que não tem a menor ideia do que está ocorrendo no país, e que pensam mais com o intestino do que com a cabeça.

Só não dá para dizer que dá vergonha de ser brasileiro porque o Brasil é maior que esta corja tosca, anti-nacional, vira-lata, manipulada e ignara, e porque mesmo que os cães ladrem a caravana irá passar, finalmente, um dia, altaneira e impávida.

Como diria Cazuza, o tempo não pára.

Aos que estão arrebentando com a Pátria — e com as suas armas, seus heróis e seus exemplos — sacrificando-os no altar de suas inconfessáveis, imediatistas e rasteiras ambições, sobrará o inexorável e implacável julgamento da História.
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Idiotas

“Idiota” já foi um elogio. No seu sentido original grego significava uma pessoa privada (não, não uma pessoa vaso sanitário, você sabe o que eu quero dizer). Alguém que tinha seus próprios valores e seus próprios caprichos (daí “idiossincrasia”) independentemente dos valores públicos e das convenções sociais. Com o tempo, passou-se a enfatizar o contraste entre o privado, o fechado em si, e o público, e “idiota” passou a ser o que não participava da vida comunitária, por alguma deficiência ou por escolha. Como não participava da vida comunitária, era ignorante. Vem daí o sentido de infenso à política e o sentido moderno de simples, burro ou desligado. Mas, durante muito tempo, na Grécia antiga, “idiota” era o que, não se interessando por política, desdenhava da política. O oposto de cidadão. A primeira vez que se xingou alguém de “idiota” foi para criticar sua omissão, pois, para os gregos, era na participação política que o homem exercia sua cidadania, assumia sua liberdade e se distinguia dos servos e dos bichos – e das mulheres, diga-se de passagem.

Corta para o Brasil de hoje — ou, pensando bem, para qualquer país do mundo atual. Idiota, lhe dirá qualquer eleitor desencantado, é quem se deixa levar pela política e pelos políticos. Houve um momento, na história recente da humanidade, em que “idiota” perdeu seu sentido de infenso à política e ganhou seu significado moderno de ludibriado pela política. Não dá para precisar quando isso aconteceu, no Brasil. O desencanto com políticos talvez tenha começado, ou pelo menos se agravado, com a renúncia de Jânio Quadros. As frustrações de hoje são apenas as mais recentes de uma sucessão de blefes que foram liquidando com nossas forças cívicas. Assim como a falta de calorias vai nos imbecilizando, a privação política vai nos idiotizando. Muita gente gostaria de resgatar o significado original da palavra para poder dizer que é idiota no bom sentido, no sentido de quem só se interessa pela administração do próprio umbigo.

“Blefe”, eis outra palavra de múltiplos sentidos. No pôquer, blefar significa dar a entender que se tem cartas na mão que realmente não se tem. Fora do pôquer, o blefe perde a sua, digamos assim, respeitabilidade. Geralmente é aplicado a pessoas que não são o que pareciam ser. A história política do Brasil tem sido a de um blefe depois de outro.

Luís Fernando Veríssimo
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Afastamento de Dilma é hipocrisia como jamais houve no Brasil

Quem não aceita ver golpe partidário na construção do impeachment de Dilma Rousseff pode ainda admitir, para não se oferecer a qualificações intelectual ou politicamente pejorativas, que o afastamento da presidente se faz em um estado de hipocrisia como jamais houve por aqui.

O golpe de 64 dizia-se "em defesa da democracia", é verdade. Mas o cinismo da alegação não resistia à evidência dos tanques na rua, às perseguições e prisões nem aos crimes constitucionais (todos os militares do golpe haviam jurado fidelidade à Constituição que acabavam de trair: sem exceção, perjuros impunes). Todos os golpes tentados ou consumados antes, incluída a Proclamação da República, tiveram na formação aquele mesmo roteiro, com diferença de graus. A força das armas desmoralizava a hipocrisia das palavras.

Os militares, hoje, não são mais que uma lembrança do que foi a maior força política do país ao longo de todo o século 20. Ao passo em que a política afunda na degeneração progressiva, nos últimos 20 anos os militares evoluíram para a funcionalidade o mais civilizada possível no militarismo ocidental. A aliança de civis e militares no golpismo foi desfeita. A hipocrisia do lado civil não tem mais quem a encubra, ficou visível e indisfarçável.

Há apenas cinco dias, Michel Temer fez uma conceituação do impeachment de Dilma Rousseff. A iludida elegância das suas mesóclises e outras rosquinhas faltou desta vez (ah, que delícia seria ouvir Temer e Gilmar Mendes no mesoclítico jantar que tiveram), mas valeu a espontaneidade traidora. Disse ele que o impeachment de Dilma Rousseff é uma questão "política, não de avaliação jurídica deles", senadores. Assim tem sido, de fato. Desde antes de instaurados na Câmara os procedimentos a respeito: a própria decisão de iniciá-los, devida à figura única de Eduardo Cunha, foi política, ainda que por impulso pessoal.

Todo o processo do impeachment é, portanto, farsante. Como está subentendido no que diz o principal conspirador e maior beneficiado com o afastamento de Dilma. Porque só seria processo autêntico e legítimo o que se ocupasse de avaliação jurídica, a partir da Constituição, de fatos comprovados. Por isso mesmo refere-se a irregularidades, crimes, responsabilidade. E é conduzido pelo presidente, não de um partido ou de uma Casa do Congresso, mas do Supremo Tribunal Federal.

As 441 folhas do relatório do senador Antonio Anastasia não precisariam de mais de uma, com uma só palavra, para expor a sua conclusão política: culpada. O caráter político é que explica a inutilidade, para o senador aecista e seu calhamaço, das perícias técnicas e pareceres jurídicos (inclusive do Ministério Público) que desmentem as acusações usadas para o impeachment.

Do primeiro ato à conclusão de Anastasia, e até o final, o processo político de impeachment é uma grande encenação. Uma hipocrisia política de dimensões gigantescas, que mantém o Brasil em regressão descomunal, com perdas só recompostas, se o forem, em muito tempo — as econômicas, porque as humanas, jamais.

E ninguém pagará por isso. Muito ao contrário.

Janio de Freitas
No fAlha
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