31 de jul de 2016

As matérias mais lidas da Veja são a imagem e semelhança de Temer

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O governo interino argumentou que os sites de jornalismo da mídia independente não são de interesse público, nem produzem conteúdo jornalístico relevante.

Foi essa a justificativa para quebrar contratos de publicidade estatal com esses sites, e concentrar os investimentos em revistas como a Veja.

Fui tomado assim por certa curiosidade mórbida e acessei o site da Veja, para quem sabe aprender um pouco sobre o que seja “conteúdo jornalístico relevante” e “interesse público”, na visão do interino.

O que encontrei foi a mais perfeita confirmação da máxima de Pulitzer: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

O top 5 das matérias mais lidas no dia tem algo de trágico para um veículo que um dia já teve sua relevância. Um mix de fuxico sobre a vida de celebridades, maledicências e sensacionalismo político.

Declarações românticas de Carlos Alberto de Nóbrega e Kristen Stewart ocupam as duas primeiras posições. E não são nem matérias exclusivas, mas requentadas de programas como o TV Fama, de Nelson Rubens, e da revista de amenidades Elle.

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Na terceira posição, sensacionalismo barato a repercutir barracos em um reality show da tevê.

Em quarto, uma matéria sobre animais morrendo nos zoológicos da Venezuela. Numa abordagem que serve apenas para atiçar o ódio contra bolivarianos, comunistas ou petralhas venezuelanos, e que por isso chegou às mais lidas.

Fechando o top 5, uma notícia sobre um petista investigado, candidato à prefeitura de Recife, que certamente a maioria dos leitores de Veja sequer conhece, mas compartilha por ser um petista investigado.

É difícil imaginar um retrato mais claro do “interesse público” na revista. De um público que em geral se interessa em primeiro e segundo lugar pela vida das celebridades, que sonha em ser rico e glamuroso como elas, e vê no comunismo bolivariano petralha o seu maior inimigo.

Um púbico que não se interessa por política, que a consome somente na forma de escândalos. E que com Temer na presidência pode voltar a dizer que política não se discute, que isso não é interesse público, desde que impere o conservadorismo.

Um público para quem a vida em sociedade é muito simples: basta trabalhar e não pensar em crise. Confiar em Deus e no livre mercado para prosperar e dormir tranquilo. Quem sabe sonhar com uma viagem à Disney ou com domésticas uniformizadas servindo fartos cafés da manhã, como na novela.

Um público que entre um brioche e outro, discute a vida amorosa do apresentador de A Praça É Nossa. Que exercita mesóclises, lê a Veja e sai para trabalhar com a certeza de que tudo agora está em ordem. Ordem e progresso.

Leonardo Mendes
No DCM
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Proposta de solução final

OBScena: o golpe paraguaio é o coroamento do esforço dos grupos mafiomidiáticos para que a Veja possa retornar às capas anteriores a 2002

Veja capa380Qual era a capa da Revista Veja depois de oito anos de FHC? Na edição de 22 de janeiro de 2002, a Veja apresentava o resultado de 8 anos de privataria tucana: “Miséria ─ O Grande Desafio do Brasil”.  Oito anos depois, as políticas sociais do grande molusco tirou 36 milhões da miséria. A partir deste resultado, Ali Kamel foi  escalado pela Rede Globo para atacar as políticas de inclusão social. E ele deixou para a posteridade estampado em livro o testemunho do racismo global contra as políticas de inclusão social: “Não somos racistas”. Se isso já é muito, não é tudo. A plutocracia não parou por aí.

A RBS, fiel escudeira dos métodos da Rede Globo, a quem se filia e se perfila, também registrou, por meio de Luis Carlos Prates, outra pérola do pensamento caro a plutocracia vira-lata que patrocina caça ao grande molusco: “qualquer miserável agora tem carro”.
O ódio foi disseminado e a criminalização do bolsa família ganhou ares de batalha do bem contra o mal. Dos de Benz, contra os sem Benz. Mas, como dizem os golpistas, as instituições estão funcionando. Estão funcionando à moda antiga, porque ainda vige um velho brocardo jurídico, filho bastardo da máxima bíblica segundo a qual se deve dar a César o que é de César…: “dar a cada um o que é seu”; ao pobre, a pobreza, aos ricos, a riqueza. O ódio a quem inverteu a lógica dos investimentos públicos é de quem pensa que ajuda aos pobres priva os ricos da exclusiva posse de caros e viagens exclusivas, sem o estorvo dos filhos de porteiros, pedreiros e empregadas domésticas.

Aos que lutaram pelo fim do Bolsa Família, segue outra sugestão para melhor aproveitamento de crianças pobres. Se no tempo de Swift as crianças pobres poderiam servir de alimento aos ricos, a modernidade sugere o o tráfico de seus órgãos. Sirvam-se!

Modesta proposta para melhor aproveitamento dos filhos das pessoas pobres

Sebastiao Nunes – dom, 31/07/2016 – 07:51

 
Jonathan Swift, deão da catedral anglicana de Saint Patrick, em Dublin, nasceu em 1667, morrendo surdo e louco em 1745. Sua obra mais conhecida é “Viagens de Gulliver”. Uma dessas viagens foi para Lilliput, termo que significa “pequena puta”. Outra, para Laputa, que dispensa tradução.

            Dele, o texto curto mais importante é “Uma modesta proposta”, sendo o título completo “Uma modesta proposta para impedir que os filhos das pessoas pobres da Irlanda sejam um fardo para os seus progenitores ou para o País, e para torná-los proveitosos aos interesses públicos”.

            Como o Brasil caminha a passos largos para se transformar numa indisfarçada antidemocracia, me apresso a reproduzir alguns trechos dessa notável e valiosíssima Proposta, contribuindo assim para que o Interino, seus ministros-interinos e a cúpula da FIESP possam aplicar tais ideias em seus experimentos antidemocráticos.

            Trata-se de obra amplamente disseminada entre intelectuais, mas não estou certo de que nossos políticos e juristas, mais empenhados em arquitetar golpes e colecionar malfeitos, tenham chegado a conhecê-la.

TEM POBRE DEMAIS NO BRASIL

            “É motivo de tristeza, para aqueles que andam por esta grande cidade ou viajam pelo país, verem as ruas, as estradas ou as portas dos barracos apinhadas de mendigos do sexo feminino, seguidos por três, quatro ou seis crianças, todas esfarrapadas, a importunar os passantes com solicitações de donativos. Essas mães, em vez de poderem trabalhar pelo seu honesto sustento, são forçadas a perambular o tempo todo atrás de esmolas, a fim de sustentar seus pequenos desvalidos, os quais, à medida que crescem, se tornam ladrões, por falta de trabalho.”

            “Uma criança que tenha saltado recentemente do ventre de sua mãe pode muito bem ser mantida com o leite dela durante um ano inteiro, e com pouca nutrição adicional: quando muito, não mais que o valor de dois xelins, ou mesmo com as sobras, que a mãe poderá certamente conseguir por meio de uma honesta mendicância. E é exatamente na idade de um ano que proponho aplicar-lhes minha solução, de modo que, em lugar de se tornarem um fardo para seus pais ou para a paróquia, ou de carecerem de alimento e vestuário pelo resto de suas vidas, virão, pelo contrário, contribuir para alimentar e, em parte, para vestir muitos milhares de outros.”

EQUACIONANDO O PROBLEMA

            “Agora, proporei humildemente minhas próprias ideias, que acredito não serão suscetíveis da menor objeção.”

            “Um americano, muito experiente, me disse em Londres que uma criança nova, saudável e bem nutrida é, com a idade de um ano, um petisco bastante delicioso e salutar, seja servida ensopada, assada, grelhada ou cozida; e não tenho dúvida de que poderá ser preparada como um fricassê ou um ragu.”

            “Assim, ofereço humildemente à consideração do público o seguinte: que de cada 120 mil crianças nascidas, 20 mil possam ser apartadas para a reprodução, das quais apenas uma quarta parte serão machos, o que é mais do que costumamos fazer com as ovelhas, as vacas ou os porcos. Que as 100 mil remanescentes possam ser, com um ano de idade, oferecidas a pessoas de qualidade e posses em todo o reino, sempre advertindo as mães para que as amamentem bem no último mês, de modo que fiquem bem cheinhas e fornidas para uma boa mesa. Uma criança dará dois pratos numa recepção de amigos e, quando a família jantar sozinha, os quartos anteriores ou posteriores fornecerão um prato razoável; e, com uma pitada de pimenta e de sal, aguentará bem até o quarto dia, especialmente no inverno.”

            “Admito que esse alimento seja caro, portanto adequado aos proprietários, os quais, já tendo devorado os pais, têm todo o direito de fazer o mesmo com os filhos.”

ESCLARECENDO MELHOR

            “Já computei os custos de nutrição de uma cria de mendigo, como orçando em torno de dois xelins por ano, farrapos incluídos; e acredito que nenhum cavalheiro se queixaria de dar dez xelins pela carcaça de uma boa criança gorda, a qual, como já disse, fornecerá quatro pratos de carne excelente e nutritiva, quando ele tiver apenas algum amigo ou sua própria família para jantar. Então o proprietário aprenderá a ser um bom patrão e ganhará popularidade entre seus peões, a mãe açambarcará oito xelins de lucro líquido e estará em condições de trabalhar até produzir outro filho.”

            “Aqueles que são mais econômicos (como, devo confessar, estes tempos andam a pedir) poderão esfolar a carcaça, cuja pele, adequadamente curtida, proporcionará luvas admiráveis para as senhoras e botas de verão para os cavalheiros.”

MAGNÍFICOS RESULTADOS

            “Suponho que as vantagens da proposta que faço são óbvias e diversas, bem como da mais alta importância.”

            “Os arrendatários mais pobres, que nunca souberam o que é ter dinheiro, possuirão alguma coisa de valor, a qual por lei poderá estar sujeita a confisco, a fim de ajudar a pagar o aluguel aos proprietários, já tendo sido o seu gado e o seu milho devidamente pilhados.”

            “As parideiras constantes, além do ganho de oito xelins por ano com a venda de seus filhos, estarão livres do fardo de sustentá-los após o primeiro ano de vida.”

            “Finalmente, haveria um grande incentivo ao casamento. Aumentaria o cuidado e a ternura das mães pelos filhos, pois estariam certas de uma colocação para seus pobres bebês no futuro, obtendo ganhos anuais em vez de despesas. Observaríamos em breve um honesto sentimento de emulação entre as mães, a fim de verem quem traria o filho mais gordo para o mercado. Os homens teriam tanto interesse por suas esposas, durante o tempo da gravidez, quanto têm agora por suas éguas, suas vacas ou suas porcas em vias de parir; e não mais se prontificariam a bater nelas (como é a prática frequente), receando com isso um aborto.”

            Fica, portanto, encaminhada a Modesta Proposta do deão Jonathan Swift, transcrita sem qualquer alteração, que decerto não desagradará ao Interino, a seus ministros, aos membros do Supremo Tribunal Federal e de nosso judiciário, além da cúpula da FIESP, todos, sem dúvida, apreciadores de pratos delicados, raros e caros.

No Ficha Corrida
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A quem o senhor engana falando em ‘nova esquerda’? Carta aberta a Cristovam Buarque

Biografia no lixo
Esta é mais uma da série das Cartas Abertas aos Golpistas. O destinatário agora é Cristovam Buarque. No futuro, as cartas poderão ser reunidas num livro que recapitule o golpe de 2016.

Caro Cristovam:

Li outro dia o senhor falando numa “nova esquerda”. Senador: o senhor não tem vergonha de falar em “nova esquerda” quando se aliou ao que existe de mais putrefato na velha direita brasileira num golpe que destruiu 54 milhões de votos e, com eles, a democracia?

Como o senhor dorme, senador? A consciência não lhe pesa? Que mentiras o senhor conta a si mesmo para conviver com tamanha ignomínia?

Já tivemos tempo para verificar qual foi o real propósito do golpe. Os ricos são favorecidos e os pobres castigados. É assim que funciona, desde sempre, a plutocracia brasileira.

Por isso somos uma das sociedades mais desiguais e mais abjetas do mundo.

E o senhor está ao lado dessa calamidade. Contribuiu, com seu voto, para mais uma vitória da plutocracia que, no passado, matou GV e derrubou Jango.

Vou citar o nome de alguns de seus companheiros de jornada.

Eduardo Cunha. Bolsonaro. Malafaia. Todos aqueles deputados federais que viraram piada no mundo na sessão do impeachment. Janaína Paschoal.

Os irmãos Marinhos da Globo. A família Frias da Folha. Os Civitas da Abril.

Michel Temer. Renan Calheiros. Collor. Gilmar Mendes.

Todos os analfabetos políticos que, manipulados pela mídia plutocrata, vestiram a camisa da CBF e foram às ruas bradar pelo golpe. Os idiotas que bateram panelas, igualmente induzidos pela imprensa.

Os comentaristas e editores recrutados pelas empresas de mídia em seu jornalismo de guerra. Todos eles.

É uma amostra da escória à qual o senhor se juntou, senador.

Como homem da Educação, o senhor bem sabe o valor dos livros. Qual o papel que os livros lhe reservarão no futuro?

É uma pergunta fácil de responder. O de um fâmulo da plutocracia. O de um golpista.

O senhor atirou sua biografia no lixo. Seus descendentes serão obrigados a conviver com a infâmia de um antepassado que optou pelos privilegiados em detrimento dos miseráveis com argumentos cínicos.

E o senhor ainda ousa falar em “nova esquerda”. A quem o senhor engana, senador? Nem ao senhor, presumo. O senhor não é tão mentecapto para acreditar em tamanho disparate.

Sinceramente.

Paulo

No DCM
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Os "coxinhas" e as demissões no Judiciário

Segundo vários relatos da mídia, as marchas golpistas pelo "Fora Dilma" sempre tiveram a expressiva presença dos servidores do Poder Judiciário. Muitos trajavam camisetas e carregavam cartazes com mensagens de apoio ao "justiceiro" Sérgio Moro e à sua midiática Operação Lava-Jato. Eles também revelavam insatisfação com as medidas de ajuste fiscal do governo Dilma. Agora, porém, diante das notícias sobre os planos da equipe econômica do Judas Michel Temer, muitos já devem ter percebido que serviram de massa de manobra para o "golpe dos corruptos" que vai arrochar ainda mais o setor. Neste domingo (31), a edição nacional do jornal espanhol El País divulgou uma informação que deve apavorar muitos "coxinhas" do serviço público.

De acordo com a matéria, assinada pelo repórter Afonso Benites, "uma proposta legislativa que deve implicar na limitação de investigações dos casos de corrupção e na drástica diminuição da prestação de serviços de advocacia pública para pessoas pobres deve começar a ser votada nesta segunda-feira (01/08) pela Câmara dos Deputados, na volta do recesso parlamentar. O projeto de lei complementar (PLP) 257/2016, que trata da renegociação das dívidas dos Estados, embute uma série de alterações orçamentárias que poderão resultar na demissão em massa de promotores de Justiça e de defensores públicos. Além disso, com as restrições nos orçamentos do Judiciário, é possível que dezenas de comarcas judiciais espalhadas pelo interior do Brasil sejam fechadas". 

Estas mudanças legais foram propostas em março ainda no governo Dilma, mas esbarraram em forte resistência. Agora, elas foram "encampadas pela gestão interina de Michel Temer (PMDB) e fazem parte do seu pacote de ajuste fiscal". O jornal El País consultou especialistas e dirigentes de entidades sindicais para analisar o impacto das medidas. A conclusão é trágica. "No meio judicial a proposta é conhecida como 'o projeto do juízo final'. 'A situação é tão caótica que alguns dos Ministério Públicos Estaduais terão de demitir todos os seus servidores e mais de 30% de seus promotores', afirmou a presidenta da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público, Norma Angélica Cavalcanti".
No caso das Promotorias e dos Tribunais de Justiça a razão para as demissões e para o fechamento de comarcas é puramente técnica. "Pelas regras atuais, os MPs podem gastar até 2% da receita corrente líquida dos Estados com o pagamento de pessoal. Nos TJs, esse limite é de 6%. O PLP 257/2016 modifica a Lei de Responsabilidade Fiscal e transfere para a rubrica 'despesas com pessoal' algumas contas que antes não estavam previstas, como valores das gratificações, gastos com terceirizados, salários de estagiários e pagamentos de pensões e aposentadorias. Dessa forma, ao menos 15 MPs e 23 TJs deixariam de cumprir o limite previsto na legislação atual. Todos teriam prazo de até dez anos para se adequar. Porém, já calculam que uma série de cortes ocorreria imediatamente".

No caso das Defensorias Públicas, o PLP define o teto em 0,7% da receita do Estado. "Ocorre que 16 das 27 unidades da federação já extrapolam esse patamar, que é considerado baixo. Caso o projeto seja aprovado, todas elas também teriam de demitir parte de seus quadros. Dois Estados simbolizam bem esse problema: Mato Grosso do Sul (que gasta 1,8%) e Tocantins (1,2%). O primeiro estima que apenas 35 dos 173 defensores públicos continuariam em suas funções. O segundo prevê o fechamento de 39 dos 42 núcleos espalhados pelo interior tocantinense. “Hoje, 69% das comarcas do país não têm defensores. Se o projeto for aprovado, alguns Estados ficarão com 10 ou 15 defensores para atender toda a população pobre. Estamos diante de um retrocesso incomensurável”, afirma o presidente da Associação Nacional dos Defensores Públicos, Joaquim Neto.

Um levantamento feito pelo Conselho dos Tribunais de Justiça (CTJ) constatou que Estados como São Paulo e Minas Gerais (dois dos maiores do país), por exemplo, extrapolariam o novo limite em até 4,5 pontos percentuais. Hoje gastam em torno de 5% da receita líquida do Estado com pessoal, pelos cálculos poderiam a chegar entre 7,5% e 9,5%. “Nem se demitíssemos todos os comissionados conseguiríamos chegar no limite pretendido pelo projeto. Sem poder ter servidor, sem poder nomear novos juízes, várias comarcas seriam fechadas e o processo judicial, que já é moroso no Brasil, ficaria mais moroso ainda”, avaliou o desembargador Pedro Bitencourt, presidente do CTJ.

Já o promotor de justiça e doutorando na área de ciências jurídico-políticas, Luiz Antônio Freitas de Almeida, avalia que a medida é um retrocesso institucional que reduzirá os quadros funcionais a montantes semelhantes ao dos anos 1980, justamente em um período em que novas medidas anticorrupção são mais esperadas pela população. “Num momento em que todos foram e vão às ruas com o espírito de combater e punir a corrupção que assola o país, o enfraquecimento do Ministério Público, do Poder Judiciário e demais instituições de controle só mostraria descompasso e o descolamento da classe política com a vontade do povo". Diante deste grave diagnóstico, muitos "coxinhas" do Judiciário que foram às ruas contra a corrupção devem estar com cara de otários!

Altamiro Borges
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A máquina misógina e o fator Dilma Rousseff na política brasileira

A questão da misoginia relacionada ao golpe contra a democracia vivido no Brasil atual ainda não foi suficientemente analisada. Na tentativa de expor seus fundamentos e seus efeitos redigi o texto que segue a partir de minha participação como testemunha no “Tribunal Internacional em Defesa da Democracia no Brasil” presidido por Juarez Tavares no Rio de Janeiro em 19 de julho de 2016.

Minha intenção é propor que analisemos o machismo como um jogo de linguagem para que possamos avaliar a função central da misoginia em suas operações.

Ora, a misoginia é o discurso de ódio contra as mulheres, um discurso que faz parte da história do patriarcado, do sistema da dominação e dos privilégios masculinos, daquilo que podemos chamar de machismo estrutural, o machismo que petrifica a sociedade em sua base e impede transformações democráticas.

Quero dizer com isso que a luta pela democracia hoje se confunde com a luta contra a misoginia e todos os ódios a ela associados no espectro amplo do ódio à diferença. Mas a misoginia não é feita apenas de ódio, o afeto como a inveja também merece atenção conforme falaremos adiante.

O que aconteceu com Dilma Rousseff nos faz saber que o poder violento do patriarcado não se volta apenas contra as mulheres, mas contra a democracia como um todo, sobretudo na sua versão cada vez mais radical intimamente relacionada com as propostas do feminismo como luta por direitos ao longo do tempo.

O que aconteceu com Dilma Rousseff nos ensina a compreender o funcionamento de uma verdadeira máquina misógina, máquina do poder patriarcal, ora opressor, ora sedutor, a máquina composta por todas as instituições, do Estado à família, da Igreja à escola, máquina cuja função é impedir que as mulheres cheguem ao poder e nele permaneçam.

Dilma Rousseff é a personagem que está em jogo hoje em dia no Brasil e será necessariamente incluída em nossa história como uma grande heroína. É em torno de sua figura que todo um sistema de práticas sedimentadas vem sendo desmontado. É em torno dela, figura central, que se desenvolvem todas as estratégias que movem a política no Brasil hoje.

Como mulher, sacrificada politicamente nesse momento, independentemente das críticas pontuais que possamos tecer acerca de seu governo, Dilma se torna uma figura exemplar, altamente simbólica da democracia representativa, aquela mesma que é aniquilada nesse momento pelo governo da traição golpista representada pela figura de Michel Temer, personagem fundamental nessa história.

Estamos diante de personagens com narrativas, operadores, como todos nós, de um jogo de linguagem hegemônico, o jogo de linguagem do poder, mas nesse caso, o jogo de linguagem machista que é sinônimo do poder.

Para compreender essa ideia, convém colocar em questão que o governo não representativo de Michel Temer enuncia-se como uma espécie de ditadura do “pater potestas”, de uma soberania tirânica que subjuga e exclui o povo dos processos governamentais.

Seu governo dá espaço apenas ao homem branco capitalista, coronelista e colonialista e exclui, nesse gesto, a imensa população marcada por toda sorte de diferenças.

Michel Temer vem a representar um poder de caráter antiquado. A extinção de ministérios e a retirada de representantes negros e mulheres, em outras palavras de todos os sub-representados que se tornam agora absolutamente não representados, é a prova do tom da política atualmente imposta como um velho jogo de linguagem.

Ora, quando dizemos jogo de linguagem, queremos dizer dos processos discursivos, mas não só. Tudo o que é simbólico, imaginário, todo o campo das representações, está em questão no que é dito e no que é feito, mas também no que é encenado.

Dilma, presidenta

Dilma Rousseff se confirma no gesto excludente e antidemocrático de Michel Temer como um tabu. Sabemos como um tabu pode virar totem em termos de política.

Não voltando ao seu cargo, sua chance de se transformar em heroína histórica aumenta e ela pode se tornar publicamente o que já é em seu fundamento: símbolo da representação das mulheres extirpadas da política.

Dilma Rousseff foi barrada do lugar ao qual chegou pelo voto que instaura a vontade popular democrática e soberana. Lugar, diga-se de passagem, de mulher que foi eleita.

É preciso, contudo, ponderar sobre o papel da reeleição em seu destino político. Dilma não apenas foi eleita, mas o foi duas vezes. Dilma foi a mulher reeleita. Isso incomodou as elites machistas e se intensificou quando, como reeleita, insistiu em ser chamada como “presidenta” e não como presidente.

A autodenominação serviu de afronta ao poder patriarcal e pode ser elencada entre os fatores que aceleraram o ódio – e também a inveja – despertado pela mulher que se afirmou como presidenta.

Sabemos que uma feminista desperta mais o ódio por se dizer feminista do que por agir como uma feminista. O ódio à presidenta, com a e não com e, é do nível da idiossincrasia fascista, um ódio idiossincrático, ou seja, sem muita explicação, altamente gratuito, um ódio cujos motivos parecem não existir.

Mas o que realmente está em jogo no caso de uma pessoa que se auto-define como presidenta, além de uma autoafirmação que pode levar ao ódio?

Ora, o jogo de linguagem machista opera por hétero-denominação e hétero-determinação. Isso quer dizer: homens falam e dizem sobre mulheres.

Ora, o poder é uma questão de voz, de discurso, de quem fala e de quem escuta. O poder também se cria por meio do ato de falar sobre o outro. A categoria do “outro” é criada em um discurso. Assim é que se cria a mulher ideal e, ao mesmo tempo, se demoniza a mulher fora do “ideal”.

Fato é que Dilma Rousseff, ao dizer-se “presidenta” causou mal estar ao machismo. Interrompeu, talvez sem perceber, o jogo de linguagem machista da história da política no Brasil. Ao afirmar-se presidenta, ela se afirmou como eleita e reeleita potencializando seu lugar – único e pioneiro – de representante justamente das mulheres, histórica e atualmente ainda mais sub-representadas no cenário da democracia brasileira.

No estado de exceção em que nos encontramos, em que a vigência da ilegalidade é a lei, a figura incomum e inadequada de Dilma Rousseff é colocada à margem.

Banida de seu cargo, lançada para fora do governo por não ser igual em nada – nem em gênero, nem em desonestidade – aos cleptocratas que a julgam hoje e usurpam seu lugar, Dilma Rousseff se torna hoje um fator político, aquele que define o lugar das mulheres na política e, fundamentalmente seu futuro em nosso país.

Sabemos que o que aconteceu com Dilma Rousseff pode acontecer com todos, mas talvez não tivesse acontecido se ela não fosse mulher e se, como mulher, não fosse tão diferente de tudo o que se pode esperar de uma mulher. No futuro, a expectativa plantada pelo governo do golpe é de que não seja mais possível que uma mulher venha a estar no cargo máximo da política. E isso quer dizer que elas – e todos os sub-representados – não terão lugar.

O voto, todos sabemos, com ou sem novas eleições, já não significa nada no Brasil no estado de exceção velado em que estamos vivendo.

Dilma, culpada e banida

Dilma Rousseff foi a primeira mulher eleita – e reeleita – presidenta de um país em que os números de participação feminina na política são vergonhosos. Se cerca de 10 % de mulheres estão presentes na vida parlamentar é, no mínimo, sinal de que vivemos em um país em que as mulheres não são bem-vindas à política. Atraso da nossa política? Certamente. E um país atrasado não é atrasado por acaso.

Enquanto vimos há menos de um ano o primeiro ministro do Canadá nomeando metade do seu ministério tendo em vista a paridade de gêneros, buscando assim uma representação contemporânea e atualizada da democracia, no Brasil podemos dizer que estamos no século 19.

O governo atual não pretende sequer manter as aparências da democracia para não pegar mal. Honestidade e idoneidade não contaram para a escolha dos ministros do governo no golpe, por que a questão gênero deveria contar?

Tocar na questão gênero quando se trata de falar de Dilma Rousseff é chover no molhado, mas quando políticos do século 19, evidentemente mumificados, que praticam entre nós o populismo da ignorância, vem vociferando contra a expressão gênero, é uma chuva altamente política.

Sabemos, desde Simone de Beauvoir, que ser mulher é ser marcada por sua sexualidade. Gênero tem a ver com essa marcação. A marcação a que me refiro é o jogo de linguagem do machismo do qual saímos apenas no momento em que nos tornamos feministas. E temos nos tornado cada vez mais feministas.

No contexto da misoginia, fala-se mal de mulheres de muitos modos, seja inventando uma essência para elas, seja ocultando as hétero-denominações que pesam sobre elas, seja criando e intensificando as ideologias femininas, tais como a ideologia da maternidade, da juventude, da sensualidade, todas essas que fazem parte do sistema do machismo estrutural.

Todo esse sistema ideológico não prevê mulheres no poder. Porque o poder é coisa que os homens querem para eles. É evidente que toda mulher vai ter que pagar um preço imenso quando tomar para si alguma coisa desejada pelos homens.

A misoginia, cabe dizer, nunca é inocente. É preciso entender que, se ela está na base do golpe, ela não é pouca coisa. Nenhuma misoginia é pouca coisa. A misoginia é uma arma de espertos, assim como a ignorância (sobre a qual temos que falar mais a sério). Simbólica e prática, estamos diante de uma misoginia de resultados, gananciosa e competente como seus defensores.

Sabemos que o capitalismo depende da culpabilização das pessoas, de trabalhadores, de negros cujos corpos são usurpados.

Ora, não é diferente com as mulheres, o machismo é o sistema da culpabilização das mulheres e Dilma Rousseff foi até agora tratada como a grande culpada, culpada da “crise”, culpada do golpe. Na televisão e no discurso do telespectador, vemos a construção da mulher culpada por tudo.

Desde Eva, desde Pandora, qualquer mulher, seja mãe ou não seja, é educada para sentir-se culpada. A culpa é estrutural, está arraigada e toda a sociedade ajuda a sustentá-la.

Ora, o machismo sempre foi a melhor e mais inteligente estratégia política, uma grande estratégia de banimento das mulheres da política e de sua culpabilização. A grande estratégia da exclusão de metade da população mundial.

Agora, essa estratégia é usada contra Dilma Roussseff, uma mulher que só pode ser excluída porque, primeiro, foi culpabilizada. E, culpabilizada, já foi punida, mesmo antes de seu julgamento e mesmo sem provas, enquanto que seus algozes seguem inocentados por eles mesmos. Para que possa ser a culpada, ela precisa ser transformada em vilã, mesmo que seja apenas uma vítima.

Dilma, politicamente estuprada e invejada

Aqui, sou obrigada a dizer que Dilma Rousseff viveu um estupro político.

Ora, todo estupro é político, porque o crime contra uma mulher sempre é político, já que, desde Simone de Beauvoir, podemos dizer que a sexualidade é política.

Uma mulher está para um homem na sociedade da cultura do estupro como é a nossa, como Dilma está para os políticos que mancomunados a tiraram de seu cargo. Como um estuprador que considera o corpo de uma mulher um objeto para seu uso perverso, os golpistas olham para o corpo de quem ocupa o cargo, mas só quando esse corpo a presidir um cargo, é mulher.

Por isso, como dizia Adorno, olham para esse corpo com o olhar do fabricante do caixão. Medem seu tamanho, seu corte de cabelo, impõem-lhe as medidas que o Homem Branco Europeu e capitalista, que se entende como o dono do poder, inventou.

Mas não se trata apenas disso, eles olham para essa mulher de muitos modos, o que nos obriga a pensar na condição desse olhar. De um lado, podemos falar do olhar estuprador típico do desejo patriarcal que não se deve confundir com o todo do desejo masculino. Refiro-me ao olhar daquele que objetifica o outro e que se serve dele para seus fins.

Sobre isso, no jogo imaginário misógino, podemos lembrar da imagem de Dilma Rousseff na forma de um adesivo que circulou em carros durante algum tempo, no exato instante em que, de pernas abertas, era invadida por uma peniana bomba de gasolina.

Mas podemos também lembrar do personagem símbolo do estupro político que é o deputado Jair Bolsonaro, que posicionou-se como o grande estuprador em potencial contra Maria do Rosário e que, no dia 17 de abril no momento da votação do impeachment, elogiou o conhecido torturador coronel Ustra como o “terror de Dilma Rousseff”.

Nesse caso, não podemos falar de um olhar de desejo sexual, mas de um olhar de culpabilização – típico do estuprador que precisa culpar a mulher de saias para tornar-se apto a violentá-la. Esse olhar responde por um desejo obtuso que se expressa como violência sexual.

Nesse caso, temos que falar de um outro olhar que, a meu ver, entra na constelação misógina. Esse olhar implica o afeto da inveja. É o olhar conhecido como “olho grande”, ou “olho gordo”. A inveja é a impotência para o desejo. A inveja é responsável por todo tipo de violência covarde. Para além da mística em torno da potência cancelada da inveja, é preciso ter em vista que subestimamos há muito a potência dos afetos em termos de racionalidade política.

Vimos, contudo, o papel do ódio entre nós. É o caso de vermos também o papel da inveja. A inveja quase não se expressa, ela se oculta, porque é covarde. O desejo é o seu oposto. O desejo está para a potência como a inveja está para a impotência.

Sabemos que o estuprador não tem desejo. Ele odeia e, no fundo, talvez inveje. Não é o desejo que olha para Dilma, mas a impotência de um homem que olha para ela. E esse olhar é destrutivo.

Não podemos crer que sendo o poder patriarcal, capitalista, branco o que impera no Brasil, um poder colonial (de um colonialismo que vem de fora, mas que também foi introjetado pelos que hoje estão dentro), que aqueles que sempre o representaram ficariam de bem – isentos de inveja – com uma figura como Dilma Rousseff no seu posto máximo. Além de morrerem politicamente nas urnas, morreram de inveja. Por isso, desrespeitam o voto. A inveja do mau perdedor, do menos votado, do inelegível, do impopular, do pouco popular.

Morreram politicamente nas urnas e depois morreram de inveja – passaram todos os recibos – de não poderem usar aquilo que, em sua mente autoritária, seria simplesmente seu. Se prestarmos atenção no inconsciente ótico revelado na iconografia das redes sociais, ele nos providenciou a imagem de Temer no corpo de Dilma Rousseff com o vestido da posse.

Talvez o poder fosse seu e do mesmo modo o vestido, em sua condição de veste do poder, no flagrante do olhar caído de Michel Temer.

Dilma Rousseff, além de tudo, não é a mulher dos moldes da branquitude burguesa europeia e obediente, ela está longe de ser a “bela, recatada e do lar” que, conforme vimos na mídia golpista, se pode ter à cama nos tempos do machismo narcísico e impotente. Contra isso, revistas tentaram fazê-la passar por louca, má, agressiva, doente. Manipulações da imagem fazem parte da era do espetáculo político.

Desde o abnóxio segundo colocado, neto de vovô, até o vice-presidente, troféu dos menos votados de seu partido (partido, aliás, acostumado a presidentes não eleitos pelo voto), ilegítimo em seu cargo interino, passando pelo ladrão histórico que renunciou há poucos dias – todos representantes máximos entre nós do que podemos chamar de ridículo político – todos desejam ser a presidenta. Desejam e não podem porque não têm votos, nem poder, só a violência da politicagem.

Cuidado com a inveja masculina que historicamente inventou a inveja feminina num golpe de mestre da misoginia histórica.

“Aquela mulher”: Ideologias machistas contra o gênero feminino

Dilma Rousseff é uma mulher e como toda mulher terá que pagar pelas regras compulsórias que regem suas vidas no contexto do machismo como ideologia.

É a ideologia patriarcal que constrói a ideologia da maternidade, a ideologia da sensualidade e a ideologia da beleza que homens, sobretudo os brancos, tanto quanto as igrejas, os partidos, a publicidade, a mídia e a sociedade civil de um modo geral jogam sobre as mulheres sempre renovando, pela violência simbólica e estrutural, a alienação de suas vidas e corpos como se faz há milênios.

Mulheres, como outros trabalhadores, são oprimidas e seduzidas para que não pensem e não ajam de modo a desconstruir o que está muito bem guardado por conservadores.

Dilma Rousseff foi confrontada a todo momento com aqueles quesitos do jogo de linguagem misógino que sustenta a ideologia machista às vezes de um modo mais velado, às vezes de um modo mais escancarado, como acontece com todas as mulheres que chegam ao poder. A qualquer tipo de poder. Imaginem o que deve ser chegar ao poder quando tantos inelegíveis têm você na mira de suas armas e quando a maledicência é uma arma poderosa nos tempos midiáticos, em que televisão e redes sociais elevam o verbal e o discursivo ao mais importante de todos os capitais.

Dilma Rousseff tornou-se no contexto da misoginia diária, sempre estimulada pela mídia, “aquela mulher”. Seu nome próprio desaparecia diariamente, num sinal de evidente falta de respeito.

Dilma Rousseff foi sempre objeto da vileza política seja ao nível institucional, seja ao nível aberto do político onde todos exercem suas ideais e repetem os clichês da tendência dominante bem trabalhados pela publicidade midiática, que serve como prótese de pensamento dos ex-cidadãos transformados em telespectadores e vidiotas, esvaziados de sensibilidade e inteligência moral em nossa época.

Misoginia como razão de estado

Com a saída da presidenta, a misoginia torna-se razão de estado. É o todo da política de governo. Em termos práticos, isso quer dizer o fim do Ministério das mulheres, da igualdade racial, da cultura, da comunicação, do que mais tiver relação com uma política capaz de reconhecer pautas relacionadas a direitos fundamentais. Uma política capaz de reconhecer a importância da participação popular. Uma política capaz de representar os cidadãos. É o fim da democracia representativa.

Autorização coletiva para o machismo em todos os níveis, o racismo, os preconceitos de gênero, em uma palavra é o fascismo como negação do outro o que entra em cena com o fim da representação.

O governo se expõe, mas de modo cínico. O rito governamental de Michel Temer, que entrará para a história como o magno representante do ridículo político entre nós, como o boçal invejoso, implicou o ato simbólico de esvaziar a política de seu sentido.

Como ele conquistou essa façanha? Tirando a representação da cena.

Se na modesta e capenga democracia brasileira denunciamos há muito pouco a sub-representação de mulheres, e de mulheres negras, de negros, indígenas, quilombolas, lésbicas, de todos os grupos jogados no campo infindável, imenso, das minorias, o governo golpista vem deixar claro que democracia não é o seu forte.

Pensando que está no tempo dos colonizadores e dos coronéis do século 19, sua escola antiquada, pensando que governará ilegitimamente deitado em seu esquife de vampiro sugando o pescoço de nossa democracia jovem, guerrilheira e adolescente, o governo do golpe continua mirando o povo com seus olhos capitalistas de fabricante de caixão.

Com a típica covardia masculina, Michel Temer, o invotável, usurpou o lugar da presidenta eleita legitimamente, e instaurou um estado de exceção em que leis não têm mais vigência. Um estado de exceção invisível, analfabeto político, autoritário e cínico.

Misoginia e luta por hegemonia

Política é luta por hegemonia. O jogo do poder é um jogo de manutenção do próprio poder, mesmo que o poder tenha que se tornar violento para isso. Um reconhecimento do inimigo sempre foi necessário.

Todo governo tem seu inimigo e se deve levá-lo a sério. A direita combate a esquerda, e vice-versa. Os capitalistas sempre combateram os comunistas e vice-versa. Um governo autoritário combate a democracia de todos os modos, nas formas mais veladas.

Ora, o inimigo existe ou é criado. As mulheres foram criadas pela misoginia histórica como inimigas dos homens e delas mesmas. Assim com Dilma Rousseff, reduzida a ser “aquela mulher”, cujo nome as pessoas pararam de pronunciar como não se pronuncia o nome do diabo, ou um palavrão.

Ora, todo poder, todo governo combate aquele que o fragiliza. O combate que o governo ilegítimo Temer tem em relação às minorias é do mesmo teor do combate às mulheres e à presidenta Dilma que se tornou uma heroína fundamental, uma verdadeira metáfora da democracia em seu estágio atual, o da representação feminina.

Não é momento para debater isso, mas no dia em que as mulheres descobrirem que o patriarcado é um inimigo sério, no dia em que o povo perceber que o neoliberalismo e toda a religião capitalista são seus inimigos, aí sim, teremos uma revolução.

O governo Temer expõe-se como governo do golpe, uma abjeção política organizada por anos, na estratégia que culminou com o afastamento da presidenta.

O golpe começou com um combate diário, desde que a presidenta era candidata. Esse combate é velho e é misógino.

A permanência da misoginia é a vitória do autoritarismo antidemocrático instaurado hoje no Brasil. Se há machismo estrutural é porque há um sistema de privilégios masculinos que depende das práticas e dos discursos misóginos.

Me parece que a responsabilidade de todos nós que respeitamos a democracia é, como bem colocou Carla Rodrigues, combater a misoginia. Hoje, lutar por democracia,  confirma-se como luta contra a misoginia, ou seja, como desmontagem da máquina misógina, aquela mesma para a qual Dilma Rousseff apontou ao dizer-se presidenta.

A questão do golpe contra Dilma Rousseff nos coloca hoje essa grande questão. Não haverá democracia se houver misoginia, pois a misoginia carrega o princípio da negação do outro. Ela nos coloca agora no atual esvaziamento do Estado de Direito e no fim da democracia, que sempre será a única esperança que podemos ter na política.

Marcia Tiburi é filósofa e escritora
No Viomundo
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A bofetada americana em Jucá doeu mesmo foi em Temer


O governo Temer não estava esperando alguma manifestação dos Estados Unidos?

Ela veio, enfim.

Mas não é exatamente para comemorar. O visto de entrada negado pelos americanos a Romero Jucá foi uma bofetada na administração golpista.

As autoridades americanas sabem muito bem os laços que unem Temer a Jucá. Não fossem contundentes as acusações contra Jucá, os Estados Unidos teriam contemporizado no visto em respeito a Temer.

É um caso exemplar.

No Brasil, as denúncias contra Jucá sumiram do radar, convenientemente. A imprensa não trata dela, dentro de seu jornalismo de guerra contra o PT. Os investigadores da Lava Jato estão ocupados demais com a cozinha de um sítio para dar atenção a Jucá.

Mas os americanos não são influenciados pelos donos das empresas jornalísticas brasileiras e nem pelos tiras da PF.

O medo deles é que Jucá use os Estados Unidos como trampolim para escapar da justiça brasileira.

O governo Temer envergonha o Brasil na cena mundial. Isso já ficou suficientemente claro em pouco mais de dois meses.

Os próprios integrantes do governo parecem ter noção disso. Serra, por exemplo. Em circunstâncias normais, um chanceler brasileiro protestaria contra a atitude americana.

Até o momento em que escrevo, na tarde de sábado, Serra guardou silêncio. Isso ajudou a fortalecer a imagem de Serra como aquele típico brasileiro que fala grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos.

Mas de novo: Temer queria uma manifestação americana, e ela veio. Só que o som da bofetada será ouvido ainda por muitos dias.

Paulo Nogueira
No DCM
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Tirolês estilizado

– Preciso confessar uma coisa, Rejane,

– O que, Moreira? Algum pecado terrível? Uma ofensa a Deus que só Deus sabe?

– Não, não. Bom...dei um pum durante minha primeira comunhão. Mas não é isso.

– O que é então?

– Eu ia a baile de carnaval vestido de tirolês estilizado.

– Sim. E?

– É isso, Rejane. Meu segredo é esse.

– Você ia a bailes de carnaval fantasiado de tirolês estilizado. Certo. Antes de nos conhecermos.

– Muito antes. Eu era criança.

– Sim, e daí?

– Não. Entende? Sei lá.

– Pronto, você já desabafou, já botou o tirolês pra fora, agora pode levar uma vida normal.

– Eu sabia que você não ia entender. Talvez eu tenha superestimado a importância da coisa. Ou subestimado você.

– Desculpe, Moreira, mas eu... É o significado simbólico, é isso? A infância pedida, a inocência, o que o tempo faz com a gente, coisa e tal?

– É. Não. É isso, mas é mais do que isso. Você consegue me imaginar de tirolês estilizado?

– Com essa barriga, não.

– Pois toda vez que penso no meu tirolês estilizado, me pergunto o que é a vida. Que coisa horrível é isso que nos acontece, que acontece com todos, e que a gente só se dá conta quando tem essa perspectiva. Lá no fundo, todo o mundo tem um tirolês estilizado. Você não pode saber que eu já fui um tirolês estilizado e continuar achando tudo normal.

– Moreira...

– Nós somos a primeira geração a enxergar, filosoficamente, o contraste, entre o tirolês estilizado e o que somos, no que nos transformamos. Meu pai talvez tenha se fantasiado de tirolês estilizado na infância, mas no seu leito de morte, se pensasse no seu tirolês estilizado, não estranharia. Se reconheceria nele. Eu não me reconheço. Somos a geração que carrega a lembrança do seu tirolês estilizado como um segredo, quase como um inimigo. A geração que fez coisas que nenhum tirolês estilizado seria capaz. Uma geração de crápulas. Todo homem da minha idade que se vestiu de tirolês estilizado quando criança é um resumo vivo das distorções do século.

– Moreira, você não é um crápula.

– Sou. Mas já fui um tirolês estilizado. Entende?

Luís Fernando Veríssimo
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Clóvis de Barros Filho — Quem é Deus


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Lula e Dilma atacados por extraterrestres? O que aconteceu em Brasília, a capital mundial do esoterismo?


A hipótese pode parecer um tanto deslocada em uma discussão séria e numa coluna de política que se pretende séria. Mas vamos lembrar de Orson Welles. Ele tinha um programa de rádio sério, numa emissora séria, e um dia anunciou a invasão da Terra por marcianos. Até hoje, esse é considerado um dos experimentos mais sérios havidos na mídia americana. Então, de saída, não há motivos para descartar a hipótese.

Vamos imaginar que existem seres que corretamente são designados como humanos. Eles provêm do húmus. Esses indivíduos tem uma corpo só, uma só cabeça, e são obrigados a pensar com ela. Acreditam que existe a realidade, e que algumas coisas são verdadeiras e outras são falsas. Eles supõe que em certas condições, se alguém é acusado por um crime que cometeu, por exemplo, há justiça. Em outras, quando alguém é acusado por crimes que não cometeu, há injustiça.

Então, vamos aqui simplificando ao máximo, dizer que assim são os humanos: tem uma cabeça só, acreditam na realidade, distinguem entre o verdadeiro e o falso, e entre o justo e o injusto.

Os extraterrestres, tendo que descrevê-los, aparecem de forma bastante diferente e é difícil acreditar que existam. Em seu universo, o das classes dominantes, cada um existe através de outros corpos (de interpostas pessoas,  laranjas,  testas de ferro, doleiros entre outros) e de outras carteiras de identidade. Quando a cabeça principal está em perigo, uma ou algumas dessas cabeças acessórias costumam rolar. O cabeça do grupo, ou seja, a cabeça do cabeça, nada sofre.

Essa é uma razão pela qual não gostam da democracia, em que todos tem uma cabeça só e, em caso de encabeçar uma quadrilha, ninguém tem como sair impune.

Ao contrário dos humanos, esses alienígenas têm uma noção muito diferente, se é que têm alguma, do que seja “realidade”.  Eles abrem por exemplo empresas em um certo endereço. Normalmente uma empresa tem um endereço. Mas eles criam várias empresas, todas no mesmo endereço. Todas recebem muito dinheiro, geram grandes lucros, sempre trabalhando para o poder público, mas sem prestar nenhum serviço.

Daí se pode perceber que a noção de espaço, na dimensão em que eles habitam, é muito diferente da nossa. Mais ainda quando se constata que, dessas empresas, nenhuma existe. Nem existe o endereço. No entanto, sem existirem, produzem o resultado: lucros enormes. São empresas fantasmas com resultados mágicos.

Para os humanos tudo isso é um mistério incompreensível. Eles tem que trabalhar, suar e no fim de tudo, produzem muito mas ganham pouco. É tudo o inverso na dimensão dos humanos, talvez por terem sido expulsos do paraíso. Já os aliens vivem ainda em paraísos exclusivos conhecidos como ‘paraísos fiscais’.

Mas, além dos humanos, existem, digamos, os androides (um nome melhorzinho para zumbis). Esses, sem conseguirem decifrar o mistério extraterrestre, são contudo adoradores dos seus truques. Eles acreditam que se amarem, se adorarem, e se se prosternarem de joelhos na frente da FIESP, em plena Avenida Paulista, podem, por osmose, adquirir também poderes extraterrestres.

Acreditam que se ficarem bem juntinhos de seus amos endinheirados, com o tempo, um pouco dessa riqueza será deles também.

Eles estão siderados e hipnotizados pelo mito da conversão e, por isso, qualquer argumento que dirijamos a eles, tentando faze-los acordar desse transe, desse sono dogmático, é tempo perdido.  Eles adoram, por exemplo, um extraterrestre que senta-se no topo de uma pirâmide e que deve 7 bilhões aos cofres públicos, sendo considerado o maior devedor do país.

E isso nos faz lembrar que, os seres da linhagem intergaláctica, possuem também alguns poderes além dos já mencionados: a ocultação  de patrimônio é um deles.

Fazem grandes remessas de recursos, através de offshores, para contas em bancos suíços. Raramente são desocultados por um humano. Na maioria das vezes, são intrigas e desavenças entre os próprios extras que acabam revelando algo dessa quarta dimensão.

Agora vamos imaginar que os aliens resolveram que não querem mais ver nem uma presidente da república nem um ex-presidente, saídos os dois do clã dos humanos, circulando livremente por aí. E até tendo poder e gozando de reputação e respeito. O que eles fazem?

Eles fazem exatamente como costumam fazer para conseguir seus lucros e sua impunidade: inventam algo que não existe. Não se valem de motivos reais, apontando crimes reais, mas constroem um simulacro. Isso que eles constroem, os humanos, e principalmente os humanos mais crédulos, não conseguem assimilar.

Os humanos acreditam que o simulacro é algo do tipo que eles conhecem, ou seja, algo de real, que pode ser verdadeiro ou falso. Por isso, se juntam para contestar o simulacro, usam argumentos e querem ‘desmontar’ sua verdade. Eles querem discutir o simulacro. Vejam como são ingênuos.

Ora, a verdade é que o simulacro é um tipo de logro, que obedece às leis do mundo extraterrestre: não tem realidade (como as empresas fantasmas) mas são muito produtivos (como lucros mágicos).

Assim, vamos dar dois exemplos. No caso da presidente, eles a acusam de cometer pedaladas. Ninguém sabe bem porque falam em “pedaladas” e de onde saiu esse nome. O logro já começa aqui. Mas os humanos, porque acreditam na realidade, supõe que a todo nome corresponde um objeto, e acabam acreditando que ’pedalada’ é um nome real para uma coisa real. Com isso, cometem um erro fatídico.

Em seguida, dentro desse nome fantasma, os aliens inserem diversas acusações que nada tem que ver com um crime. Não são crimes, não ferem a Constituição, não são nada na verdade. Justamente porque não são nada, elas convencem toda a gangue extraterrestre de que estão no caminho certo. Assanhados por terem criado mais essa, se reúnem em um imenso sabá e, através da mídia, insistem dia e noite na mesma ficção.

Eles sabem que é fictício. Eles sabem que todos os outros sabem disso. Mas estão convencidos, e nisso estão certos, de que os humildes seres saídos do húmus vão tentar, com todas as forças de suas parcas luzes, argumentar, contradizer, apresentar defesas, etc. Com isso, contudo, só vão se afundar mais, porque o simulacro é como areia movediça, quando mais alguém faz força para sair dele mais é engolido.

As acusações contra Lula são também, desde o começo, invenções sem pé nem cabeça. E é interessante que pela lógica que o MPF insere nela — “Lula não podia não saber” da corrupção na Petrobras — o filho do senador Perella já estaria preso há muito tempo, porque “ele não poderia não saber” de 450 kg de pasta de coca no seu helicóptero. É ou não é?

No entanto, no caso dele, há uma verdadeira cortina de sigilo, a grande mídia fala à meia voz, pisa na ponta dos pés, e tudo parece ter de ser feito com o máximo escrúpulo e cuidado. Já no caso de Lula, que em outras partes seria exaltado como figura histórica, tal como Mandela na África do Sul, reina o maior escracho e os abusos mais desabridos.

O que está em questão então para que, com tanta fúria, os extras fizessem um ataque tão intenso contra a democracia? Talvez seja o fato de que, crescendo e se ampliando, a democracia afirmaria o reino das pessoas comuns, essas que são idênticas umas em relação às outras, em que nenhuma está acima da lei ou tem duas cabeças. Criaria também um princípio de realidade comum, em que empresas fantasmas e lucros mágicos acabariam.

Mas acabar com isso, seria acabar com a seiva pela qual os extraterrestres, parasitando o estado, se nutrem com o sangue de milhões de trabalhadores. Este deve ser o motivo para a reação, tão compacta quanto brutal, desse clã contra a democracia.

Bajonas Teixeira de Brito Junior
No Cafezinho
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Novas Molduras, Velhas Imagens


Nos últimos dias uma polêmica explodiu nas redes sociais e nas páginas do jornal Folha de São Paulo. Em sua edição do dia 17 de julho de 2016 o periódico paulista estampou em sua manchete os resultados de uma pesquisa realizada pelo instituto Datafolha que apresentava o crescimento do otimismo na sociedade quanto ao futuro do quadro econômico. Entretanto, o trabalho de investigação de jornalistas da blogosfera revelou que o jornal havia manipulado dos dados, escondendo o crescimento da insatisfação da sociedade quanto à possível manutenção do governo Temer. Posteriormente o jornal admitiria parcialmente o erro. Mas será que isso basta? Ou melhor, será que essa proteção ao governo Temer foi um episódio pontual ou haveria uma tendência da cobertura do jornal paulista de agir de tal forma?

Desde a abertura do processo de impeachment em maio, a Folha de São Paulo fez clara sua posição editorial acerca da conjuntura brasileira: o impeachment não era a escolha ideal, porém era processo constitucional que, caso consumado, deveria ser respeitado. O tom e o discurso adotados pelo periódico com o advento da nova administração foi então se revestindo de otimismo, particularmente com relação ao futuro da economia brasileira.

Se voltarmos para 6 de março de 2016[1], quando Dilma ainda ocupava a Presidência da República, o editorial sobre economia adotava tom de grande pessimismo com o futuro do país. O panorama apresentado era de terra arrasada: falta de liderança política, falta de confiança do mercado, PIB em potencial queda de 3,8% no ano. O jornal afirmava não haver nenhuma solução para a crise econômica que se fazia presente caso a crise política se mantivesse. O Brasil apresentado pela Folha caminhava para o fundo do poço.

Entretanto, a partir de maio tudo ficou diferente. A transformação ocorreu principalmente a partir da nomeação de Henrique Meirelles, apresentado como a esperança de um novo futuro. O primeiro editorial do dia 2 de junho é um exemplo do novo tratamento[2]. No texto, o jornal comentava o resultado trimestral do PIB, que era queda de 0,3% no primeiro trimestre. Apesar de negativo, o editorial considerou este resultado bom pois mostrava recuperação da economia em relação aos índices de 2015, criando esperança de melhoras futuras, desde que a crise política fosse contornada. Segundo essa interpretação, agora poderíamos sonhar com o retorno do crescimento do PIB em 2017, algo que alguns meses antes era impensável.

Estes são exemplos do tratamento distinto dado pelos editores da Folha a Temer e Dilma no tema da economia. Mas será que esse comportamento se repetiu na posição geral da editoria do jornal em relação a esses governos? O que os dados do Manchetômetro nos dizem sobre os editoriais da Folha de São Paulo?

Gráfico 1 – Percentual das valências em textos em que o governo federal é citado nos Editoriais da Folha em 2016

Gráfico
(Fonte: Manchetômetro/LEMEP)
Como podemos ver claramente, a discrepância no tratamento dispensado aos dois governos pelos editoriais da Folha de S. Paulo não se restringe ao tema da economia. Durante o ano de 2016, o padrão do tratamento de Dilma nos editoriais foi de 8 textos negativos para cada dez publicados. Já Temer é visto de modo bem mais equilibrado, com 1/3 de textos negativos, 1/5 de favoráveis e a maior parte neutros. Ou seja, a proporção de negativos que ela recebia era mais que o dobro da que ele recebe. Ademais, é notável a presença de vários editoriais favoráveis ao governo do presidente interino, privilégio que foi negado à Dilma.

Resta-nos saber se essa posição editorial do jornal se reflete também na valência da cobertura como um todo, que inclui reportagens e demais texto de opinião. O advento do Governo Temer serve para testar novamente a tese de que a mídia comporta-se como defensora do interesse público e, portanto, é sempre crítica ao poder instituído — conhecida também como tese do “cão de guarda”.

O Manchetômetro já fez isso comparando a cobertura de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso concorreu à reeleição, com a eleição de 2014, que tinha Dilma em situação similar. O resultado foi a evidente falsificação da tese. Apesar de ser governo, FHC foi tratado de maneira extremamente favorável pelos jornais Folha, Estado e O Globo, ao passo que seus adversários receberam cobertura predominantemente negativa. Some-se a isso o fato de que os índices da economia ao final de seu primeiro governo eram péssimos, fato que revela a motivação política clara dos jornais ao dispensar este tratamento favorável. Será que a grande mídia vai assumir uma postura de cão de guarda ou continuará a funcionar como suporte da direita política em nosso país?

Julgando pelos resultados desse breve estudo e pela atuação pregressa dessas empresas, podemos esperar o pior.

[1] “Está no preço”. Folha de São Paulo, 06 de março de 2016.

[2] “Questão de Perspectiva”. Folha de São Paulo, 02 de junho de 2016.
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Traíra é chegado a uma mordomia

Duas Mercedes, seis BMW e uma visitinha "emotiva"

Conrad.jpg
Aqui nasceu o ajuste fiscal!
Reprodução: Hilton.com
Rubens Valente (ler em tempo) revela que o Traíra, ou Trambolho, como prefere o Ciro Gomes, gosta de mordomia — paga pelo contribuinte.

"Telegramas mostram que diplomatas recorreram a Brasília para fechar as contas em viagens do então vice-presidente".

"Em uma das viagens, à Turquia, em 2012, comitiva teve 13 pessoas; gasto de hotéis ficou em US$ 56 mil."

E o que ele foi fazer na Turquia, amigo navegante?

Foi à "2a. Conferência de Istambul sobre a Somália". Somália!!!

O Itamaraty desembolsou mais US$21 mil para alugar duas Mercedes, seis BMW, quatro vans Sprinter, dois Modeo, e um caminhão-baú para bagagens.

O Traíra ficou numa suíte dupla de um dos hotéis mais caros e luxuosos do mundo, o Conrad, de Istambul.

Numa das viagens (pagas pelo otário contribuinte), o Traíra foi a Btaaboura, no Líbano, "cidade natal dos Temer".

Foi uma viagem de caráter "emotivo", diz Valente.

E a Dilma teve que parar em Lisboa numa escala técnica do avião, foi a um restaurante famoso, e quase o PiG a derruba !

(Em tempo: Rubens Valente é o autor de "Operação Banqueiro", livro antologico, que demonstra irrefutavelmente: "Sem Gilmar Mendes não existiria Daniel Dantas")

PHA
No CAF
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O tomate

Cristovão Colombo examinou o tomate que o indígena acabava de lhe dar e exclamou:

— Um pomo d’oro!

O tomate reluzindo ao sol da América recém-descoberta pareceu ao almirante uma maçã selvagem. Colombo perguntou ao indígena para que servia aquilo.

— Saladas — respondeu o nativo. — Refogados. Molhos.

Colombo pensou na sua avó italiana, que cozinhava o espaguete que Marco Polo trouxera do Oriente, mas sempre reclamava que faltava alguma coisa. Colombo descobrira, além da América, o que faltava na macarronada da nonna. O índio quis saber o que Colombo lhe daria em troca do tomate, e Colombo lhe deu uma miçanga.

Que outras novidades o índio tinha para oferecer? A batata. Colombo teve uma premonição de fritas, noisettes e rotis, botou a batata na algibeira e deu em troca um espelhinho.

O que mais? O fruto do cacaueiro, de onde sairia o chocolate, com importante repercussão na história do mundo, principalmente da Suíça e da Bahia. E Colombo trocou o cacau por outro espelhinho.

O que mais? Fumo. Em breve todos estariam experimentando as delícias do tabaco, e o novo hábito se espalharia. Como um brinde, o índio incluiu no pacote a planta da coca, que daria um barato ainda maior.

O que mais? Milho. Aipim. Papagaios. E essa argola que você tem no nariz. É de ouro? Manda.

E Colombo ordenou a seus homens que recolhessem todas as argolas de ouro que encontrassem e, se fosse preciso, trouxessem os narizes junto. Em troca, ofereceu mais contas, que o índio recusou. Ofereceu mais miçangas. Moedinhas. Chaveiros. Vales-transporte. O índio recusou tudo. E como era impossível derrotar os invasores pelas armas, o índio amaldiçoou Colombo, e praguejou. Que a batata tornasse a sua raça obesa, o chocolate enchesse suas artérias de colesterol, o fumo lhe desse câncer, a cocaína o enlouquecesse, e o ouro destruísse a sua alma.

E que o tomate se transformasse em ketchup.

Luís Fernando Veríssimo
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Somos todos vítimas e testemunhas de abusos de autoridade

A oposição de juízes e procuradores ao projeto contra abuso de autoridade, em tramitação no Senado, pode estar certa no varejo de alguns artigos, mas não no atacado da proposta toda. O equívoco se inicia já pela ideia de que o projeto é contra os juízes e procuradores, esquecendo que polícias e outros setores que falam pelo Estado são focos permanentes de abuso de autoridade.

É inegável que o projeto foi sugerido pela insegurança que a Lava Jato difunde entre políticos. Daí a deduzir que a sua finalidade é impedir o combate à corrupção, como dizem Sérgio Moro e seu grupo de procuradores, falta muito.

O projeto e as emendas possíveis estão sujeitos a erros, e isso fica evidente já na autoria: Renan Calheiros, carregado de situações negativas na Justiça, só por assinar o projeto já o põe sob suspeições. Somos todos, no entanto, vítimas e testemunhas de abusos de autoridade. Variados na forma e na gravidade. Persistentes e apenas por exceção punidos ou extintos. Se há oportunidade de prevenir alguns deles, o que convém é discutir as maneiras de fazê-lo. Isso, os que se sentem visados não fizeram.

O abuso, seja do que for, nunca é abuso na visão de quem o pratica. Sérgio Moro considera perfeita a retenção de um suspeito na cadeia até que, moral e psicologicamente destroçado, se ajoelhe à delação premiada. Sem que com ela venha certeza alguma da veracidade e dos propósitos de delações acusatórias.

Se invocada a utilidade da delação para direcionar investigações, verdade maior é que incriminações e prisões valem-se, com frequência, apenas do dito por delatores. É o que ocorre, por exemplo, com a delação feita por Delcídio Amaral já depois que despiu a credibilidade construída no Congresso.

Procuradores entraram com recente ação contra o juiz Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, pedindo seu afastamento da Operação Zelotes. Acusaram-no de decisões abusivas que dificultavam provas da corrupção, em torno de bilhões, no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, da Receita Federal. Procuradores também sabem, portanto, o que é a combinação de autoridade e deslimite, encontrável até onde a autoridade deve significar o limite. Ou, ao menos, sabem quando o ato que extrapola não é seu.

Há muitas vozes sérias e experientes contra o que entendem como excessos judiciais. Não raro ilegais, além de violentos. Ouvi-las é conveniente a todos, e o projeto contra abuso de autoridade é capaz de fazê-lo se submetido, não a um ataque letal, mas a uma apreciação sem facciosismos, interesses subalternos e corporativismo.

O ministro Luiz Barroso assumiu no Supremo Tribunal Federal quando estava em curso uma espécie de repassagem das discussões e decisões. Com a finura habitual, disse não se sentir à vontade para apoiar as condenações, já feitas, por formação de quadrilha. E expôs a sua ponderação.

Aos poucos, baixou no tribunal um ambiente de serena racionalidade, retomando o que o emocionalismo e a ira haviam engolfado, com desprezo insultuoso pelos esforços do revisor Lewandowski por alguma objetividade. Deu-se a reversão de vários votos: as condenações por formação de quadrilha caíram.

Seriam, no entanto, se mantidas, mais do que erros de apreciação e decisão. Decorreram do uso excessivo da autoridade, com a permissão pessoal de que a exaltação tomasse o lugar do equilíbrio no julgamento. Uma forma não reconhecida, mas inegável, de uso abusivo da autoridade, que levaria vários sentenciados a perder mais vida na cadeia do que deveriam.

A autoridade é, em si mesma, um abuso nas relações humanas. O que quer que elimine uma partícula sua, será civilizador e de justiça. Caso não tenha forma abusiva –o que, no projeto contra abuso de autoridade, não é difícil evitar.

Mais razão têm os procuradores contra maiores concessões a quem traga dinheiro mandado ao exterior por meio ilegal. Michel Temer apoia mais benesses. Do gabinete de Rodrigo Janot, no entanto, vem o argumento, exposto por Mônica Bergamo, contrário às regras em vigor por "premiarem quem cometeu irregularidades escondendo dinheiro no exterior, ao permitir que, pagando impostos e multa, regularizem a situação". Não é isso a versão financeira da delação premiada que a Procuradoria-Geral da República consagra na Lava Jato? Pois é.

Janio de Freitas
No fAlha
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