26 de jul de 2016

Editorial do Globo contra universidade pública: Uma farsa, do título ao último pagrágafo


No último domingo, 24 de julho, menos de uma semana após a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, ter instituído a gratuidade do ensino universitário em instituições públicas (antiga luta da juventude lá), o jornal O Globo, sempre na vanguarda do atraso brasileiro, publicou  editorial  no sentido oposto.

Sofismas e mentiras. Uma farsa do início ao fim, que vamos desmontar aqui, parágrafo por parágrafo. Começando pelo título:  

Globo-001A crise força é o fim do injusto sistema tributário brasileiro e do saque da dívida pública que roubou ano passado 43% do orçamento, baseado nos juros mais altos do mundo. Sistema esse do qual a família Marinho é uma das principais beneficiárias.

Globo: “Os alunos de renda mais alta conseguem ocupar a maior parte das vagas nos estabelecimentos públicos, enquanto aos pobres restam as faculdades pagas.”

A maior parte das vagas é ocupada por alunos de classe média, que também não teriam, em grande parte, condições de pagar por essas vagas.

Mas agora, com a política de cotas, praticamente metade das vagas federais está sendo ocupada por alunos de classe média baixa e baixa. Além disso, é o Estado que, infelizmente, subsidia grande parte das vagas nas universidades privadas.

Globo: “Numa abordagem mais ampla dos efeitos da maior crise fiscal de que se tem notícia na história republicana do país, em qualquer discussão sobre alternativas a lógica aconselha a que se busquem opções para financiar serviços prestados pelo Estado. Considerando-se que a principal fórmula usada desde o início da redemocratização, em 1985, para irrigar o Tesouro — a criação e aumento de impostos — é uma via esgotada.”

Afirmações peremptórias sem qualquer fundamento:

a) Não é a maior crise fiscal da história (e temos notícias de todas).

b) Ridícula afirmação peremptória de que aumentar imposto é via esgotada para financiar o Estado. É inadequada se for aumentar impostos para a classe média e empresas. É fundamental aumentar, e massivamente, a taxação de ricos no Brasil, que basicamente vivem no paraíso mundial dos oligarcas sem pagar impostos e muitas vezes só vivendo do saque da dívida pública, montados nas heranças que receberam sem mérito algum.

Globo: “Mesmo quando a economia vier a se recuperar, será necessário reformar o próprio Estado, diante da impossibilidade de se manter uma carga tributária nos píncaros de mais de 35% do PIB, o índice mais elevado entre economias emergentes, comparável ao de países desenvolvidos, em que os serviços públicos são de boa qualidade. Ao contrário dos do Brasil.”

Sim, o Estado precisa ser reformado. Ele precisa duplicar de tamanho se queremos serviços equivalentes aos dos países europeus. Mesmo assim, eles ainda teriam que ser oferecidos consumindo quatro vezes menos recursos.

Explico. O funcionalismo brasileiro é mínimo, só 11% da população empregada, enquanto a média dos países desenvolvidos é de 22% (OCDE) e nos escandinavos, como a Dinamarca, chega a 39%. Ao mesmo tempo, nossa carga tributária é baixa se comparada com a Europa (Dinamarca, 49%; Suécia, 43%; Finlândia, 44%; dados de 2013, OCDE), e não equivalente.

Além disso, nossa riqueza, nossa renda per capita, é menor, brutalmente menor. Um brasileiro médio produz U$ 8.672 por ano. Já um norueguês produz U$ 74.822. Um dinamarquês, para manter o termo de comparação, produz U$ 52.114 (dados FMI, 2015).

Resumindo, somos seis vezes menos ricos que a Dinamarca, cobramos muito menos impostos dessa riqueza, temos menos gente no funcionalismo público e 43% de nosso orçamento vão para financiar a fortuna de parasitas rentistas, Marinhos inclusos. Na Dinamarca, zero.

Enquanto o Estado brasileiro tem em torno de U$ 1.730 por pessoa-ano para prover investimento, educação, saúde, previdência, justiça e segurança, o Estado dinamarquês tem U$ 25.535 por pessoa. E esses saqueadores do erário ainda cobram o mesmo padrão de serviços de países europeus.

Globo: “Para combater uma crise nunca vista, necessita-se de ideias nunca aplicadas. Neste sentido, por que não aproveitar para acabar com o ensino superior gratuito, também um mecanismo de injustiça social? Pagará quem puder, receberá bolsa quem não tiver condições para tal. Funciona assim, e bem, no ensino privado. E em países avançados, com muito mais centros de excelência universitária que o Brasil.”

Quando qualquer pessoa com mais de quarenta anos lê alguém com mais de quarenta anos falando de “crise nunca vista” sabe instantaneamente se tratar de um canalha.

Mas é verdade, a crise que o Levy, com essas ideias, e os bandidos do PMDB provocaram com as molecagens políticas e orçamentárias é grave. Podemos aplicar a ideia nunca aplicada no Brasil de fazer rico pagar imposto.

Nada que uma nova alíquota de 40% no imposto de renda, imposto sobre lucro e sobre fortunas não resolva. Ou melhor que isso. Nada que uma taxa de juros real de somente dois por cento não resolva.

Na Inglaterra e EUA funciona como o Globo quer, no resto da Europa, não. Não é isso que faz a excelência dos cursos anglófonos. No entanto, apesar de excelentes, são de acesso extremamente excludente e criam uma sociedade totalmente controlada pelo capital. O aluno pobre de alto rendimento acadêmico, em vez de receber sua educação como um direito, acaba tendo que mendigar o financiamento de seu futuro a fundações controladas por oligarcas bilionários, que a partir desses instrumentos controlam suas vidas, sua voz e o sistema universitário.

Globo: “Tome-se a maior universidade nacional e mais bem colocada em rankings internacionais, a de São Paulo, a USP — também um monumento à incúria administrativa, nos últimos anos às voltas com crônica falta de dinheiro, mesmo recebendo cerca de 5% do ICMS paulista, a maior arrecadação estadual do país.”

Como é que a única universidade latino-americana entre as 100 melhores do mundo pode ser um monumento à incúria administrativa? E no que privatizá-la resolveria isso?

Não é difícil imaginar o resultado da incompetência privada no Brasil, como transformou a energia mais barata e renovável do mundo em uma das mais caras ao consumidor final, como criou a telefonia e a internet mais caras do mundo, mesmo com subsídios públicos (e faliu, como a Oi). O que teríamos na universidade pública é o que temos na universidade privada hoje: nem é preciso imaginar. Incompetência administrativa, subsídios públicos (Prouni, bolsas de pós), mensalidades escorchantes e péssimo, péssimo simulacro de educação.

Globo: “Ao conjunto dos estabelecimentos de ensino superior público do estado de São Paulo — além da USP, a Unicamp e a Unifesp — são destinados 9,5% do ICMS paulista. Se antes da crise econômica, a USP, por exemplo, já tinha dificuldades para pagar as contas, com a retração das receitas tributárias o quadro se degradou. A mesma dificuldade se abate sobre a Uerj, no Rio de Janeiro, com o aperto no caixa fluminense.”

O ICMS é só uma das fontes de receita do Estado e a Unifesp é federal. São informações sem nexo para confundir o leitor e fazê-lo acreditar que 10% de seus impostos vão para bancar universidades.

No Brasil, o orçamento da educação inteira, incluindo a básica e a média, não atinge 4% do orçamento. É muito, muito pouco.

Se a UERJ está em crise é porque a universidade é, historicamente, a primeira a sofrer cortes quando os orçamentos estão em crise. E o orçamento do Rio está em crise porque o preço do barril do petróleo caiu brutalmente, deprimindo o valor dos royalties, tem um grupo político apoiado pelos irmãos Marinho no poder há dez anos dando isenções fiscais para concessionárias públicas, e porque a ação do juiz Moro, bancado pela Globo, quebrou a indústria de petróleo e a de construção naval brasileira, sediadas basicamente no Rio.

Globo: “Circula muito dinheiro no setor. Na USP, em que a folha de salários ultrapassa todo o orçamento da universidade, há uma reserva, calculada no final do ano passado em R$ 1,3 bilhão. Mas já foi de R$ 3,61 bilhões. Está em queda, para tapar rombos na instituição. Tende a zero.”

Vejam a manipulação. Universidade é basicamente recursos humanos. Em qualquer universidade, o orçamento é em sua maior parte salário. O problema é que a proporção recebida do ICMS é fixa e a arrecadação do Estado de São Paulo caiu.

Aliás, o PIB paulista arrasta o nacional para trás desde que o PSDB assumiu o poder em São Paulo. Se o orçamento da instituição não está suportando, deve haver o natural, uma reforma administrativa que racionalize cursos, salários ou aumente os recursos dedicados no orçamento estadual. O que não se deve pressupor, é que uma instituição que, no alto dessa crise, ainda tem uma reserva de 1,3 bilhão, seja uma instituição mal administrada. É um escárnio!

E o que se deve lembrar também, é que o período em que o fundo de reserva da USP despencou foi o período em que foi gerido por um reitor biônico, nomeado pelo ex-governador José Serra.

Globo: “O momento é oportuno para se debater a sério o ensino superior público pago. Até porque é entre os mecanismos do Estado concentradores de renda que está a universidade pública gratuita. Pois ela favorece apenas os ricos, de melhor formação educacional, donos das primeiras colocações nos vestibulares.”

Monstros. Esse é o ponto máximo do cinismo, apontar a universidade pública, um dos poucos instrumentos que permite à classe média brasileira manter seu nível de vida e à classe baixa ascender socialmente através dos programas de cotas, como “mecanismo concentrador de renda do Estado”. Enquanto isso, protegem em seus editoriais e telejornais a política mais insana de juros da história e vetam, neste mesmo editorial, o uso do instrumento mais eficiente de desconcentração de renda do Estado: o tributário.

Globo: “Já o pobre, com formação educacional mais frágil, precisa pagar a faculdade privada, onde o ensino, salvo exceções, é de mais baixa qualidade. Assim, completa-se uma gritante injustiça social, nunca denunciada por sindicatos de servidores e centros acadêmicos.”

Falso! Sempre foi denunciado, até que os governos do PT criaram o Prouni para as privadas e o sistema de cotas nas públicas, o mesmo sistema contra o qual o Globo se bate em outros editoriais. E na hora que interessa ao argumento, também admite que o ensino privado no país é de baixa qualidade. Mas é exatamente nisso que a Globo quer transformar todo ensino no Brasil!

Globo: “Levantamento feito pela “Folha de S.Paulo”, há dois anos, constatou que 60% dos alunos da USP poderiam pagar mensalidades na faixa das cobradas por estabelecimentos privados. Quanto aos estudantes de famílias de renda baixa, receberiam bolsas.”

Você, leitor bobalhão de classe média direitista, está nesses 60%. “Poder pagar” pra eles é quando você ainda pode comer e morar depois que deixa todo o resto de seu salário na universidade. É você, e depois seus filhos, que vão pagar por isso. Porque os filhos da elite não estudam aqui, a maioria estuda ou nas PUCs ou no exterior.

Globo: “Além de corrigir uma distorção social, a medida ajudaria a equilibrar os orçamentos deficitários das universidades, e contribuiria para o reequilíbrio das contas públicas.”

O que corrigirá essa distorção social é triplicar o orçamento da educação básica no Brasil e permitir educação pública de qualidade universal. O que corrigirá essa e outras distorções sociais no Brasil é fazer os ricos pagarem impostos. O que reequilibrará as contas públicas é parar de pagar aos irmãos Marinho e outros oligarcas parasitas metade de nossos impostos na forma de juros.

Eu estou muito cansado de ter condescendência democrática com uma instituição que nunca respeitou a democracia, que não tem qualquer pudor em usar todo seu poder, usurpado na ditadura, para aumentar a riqueza de seus donos e destruir nossa democracia, nosso patrimônio, nosso Estado, nosso futuro.

Eu tenho profunda amargura que familiares e amigos queridos dediquem sua vida de trabalho, o melhor de sua inteligência e esforços, a uma organização que só trabalha para destruir não só tudo o que é bom e decente no Brasil, mas também qualquer esperança de termos algo bom e decente em nosso futuro.

Não podemos, no entanto, ser mais condescendentes com essa emissora e aqueles que a constroem. Está na hora de cobrar a fatura de tanta destruição.

Nossa geração tem que acabar com essa corporação monstruosa. É nosso dever com o país e as gerações futuras.

Gustavo Castañon é professor de Filosofia e Psicologia na Universidade Federal de Juiz de Fora.
No Viomundo
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Barão de Itararé - RJ entra com denúncia no MPF contra nomeação de presidente da TELEBRAS


O novo presidente da TELEBRAS mal tomou posse e já está causando polêmica. Antonio Loss, executivo que passou pela Net Sul, Net Serviços, Oi e que se encontrava no comando da Via Sat do Brasil será o novo presidente da empresa pública de telecomunicações.

Loss foi nomeado pelo ministro das Comunicações Gilberto Kassab por ter essa experiência em seu currículo. Contudo, é justamente essa ligação com as principais empresas do setor que vem gerando polêmica.

O Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé protocolou no último dia 25 de julho representação no Ministério Público Federal contra a nomeação de Loss.

Para a entidade, a indicação de Loss configura uma grave infração de conflito de interesses (Lei nº 12.813/2013) pela identificação que possui com as principais empresas do setor.

“É como se estivessem nomeando a raposa para cuidar do galinheiro”, diz Theo Rodrigues, coordenador do Barão de Itararé.

A Lei de Conflito de Interesses (Lei nº 12.813/2013) não permite a participação em cargos no Poder Executivo Federal para pessoas que mantenham vínculos com empresas que possuem interesse no setor.

“A TELEBRAS é justamente a empresa pública que oferece infraestrutura para a atuação das empresas privadas onde Loss trabalhou. Mesmo que venha a ser uma pessoa íntegra, sempre pesará contra seu nome a desconfiança de estar atuando no serviço público em defesa de interesses privados”, explica Theo Rodrigues.

Não foi a primeira vez que o Barão de Itararé teve que recorrer ao Ministério Público contra nomeações que configuram conflito de interesses na área. Em 30 de maio a organização já havia entrado no MPF para impedir que fossem nomeados advogados da OI e da NET nas secretarias de Radiodifusão e Telecomunicações do Ministério das Comunicações. Na ocasião o MPF exigiu que tanto Kassab quanto a comissão de ética pública do governo federal dessem explicações.

“Kassab está entregando para representantes das principais empresas privadas do setor a gestão dos serviços públicos. É um absurdo o que está acontecendo” critica o coordenador do Barão de Itararé.

No Barão de Itararé-RJ
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Carta a Gregório Duvivier: por que você escreve para a Folha?

Folha e ele: nada a ver
Querido Gregório,

Não entendi sua última coluna na Folha, “Lambança do Datafolha revela Folha mais conservadora que capitalista”. Se puder explicar melhor numa próxima, agradeço muito.

Por que você escreve para a Folha?

Entendi o exemplo da Fox, rede de tevê conservadora que transmite o desenho animado nada conservador “Family Guy”. A Fox é mais capitalista do que conservadora, e o desenho dá audiência. Concordo.

Entendi também sua explicação do porquê da Folha publicar a sua coluna. Acrescentaria apenas que não é só porque você rende muitos cliques, mas também para simular uma pluralidade fictícia.

Ao contrário da Fox, a Folha não se assume como direita. E tendo você e poucos outros, pode argumentar que não é um veículo a serviço do conservadorismo, do atraso, dos privilégios adquiridos pela elite da qual seus donos fazem parte.

Mesmo que cometa atentados em série contra a democracia, sempre em benefício dos mesmos aliados, como na recente pesquisa fraudulenta sobre a aprovação do governo interino.

Acredito que você sirva principalmente para isso. Para que os Frias possam citá-lo como exemplo do pluralismo e da isenção da Folha.

O que eu não entendo é por que você aceita.

Mas veja que entendo que outros colunistas que também admiro muito aceitem, como Jânio de Freitas, Juca Kfouri, Vladimir Safatle, Marcelo Freixo.

Os dois primeiros por serem veteranos, com décadas de história no jornalão, desde uma época em que não tinham escolha. Os outros dois por questões políticas.

Já você eu realmente não entendo.

Não acredito que seja por dinheiro, e que você seja mais capitalista do que de esquerda. Nem que precise da Folha para ganhar mais do que o suficiente.

Também não acredito que seja uma questão de ego, de querer se afirmar como colunista do maior jornal do país, mesmo que esse jornal siga uma linha editorial podre, como você parece reconhecer. A maioria de seus leitores, Gregório, são seus, e não da Folha. E sua coluna continuaria sendo bastante lida, independente de onde fosse publicada. Você não é um Rodrigo Constantino.

Minha hipótese então é de que você acredita que sua coluna no jornalão realmente pode ajudar nas causas que defende, ao atingir um público que consome a Folha e acredita no slogan “um jornal a serviço do Brasil”. O problema é que muitas pessoas continuam a acreditar nisso, justamente porque alguns como você continuam por lá. E você sabe que esse slogan é uma mentira, não sabe?

Se sabe, então por quê?

Você escreveria para a Veja, caso fosse convidado? Imagino que não. Mas a Folha só é melhor do que a Veja no disfarce. Por esconder suas reais intenções atrás de nomes como o seu.

Acredito que você contribuiria muito mais com a esquerda e com as ideias progressistas se abandonasse a Folha. Se lutasse ao lado da mídia independente, e não trabalhasse para uma das famílias representantes do monopólio sobre a informação, tão prejudicial a qualquer democracia.

Sinceramente, com todo o respeito e admiração,

Leo Mendes

No DCM
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Brasil: Lula y Rousseff llaman a boicotear la Ceremonia de Apertura de los JJ.OO. de Río

Lula da Silva y su coidearia Dilma Roussef han señalado que no asistirán a la inauguración de los Juegos Olímpicos de Río de Janeiro 2016.


Varios medios informativos de todo el mundo se han hecho eco de la noticia que señala que la actual presidenta brasileña Dilma Rousseff y su antecesor, Luiz Inácio Lula da Silva, no estarán presentes en la inauguración de los Juegos Olímpicos de Rió de Janeiro 2016, a celebrarse el próximo 5 de agosto.





No RT
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Golpe perde apoio: 52% querem novas eleições, 20% preferem Dilma e 16% apoiam Temer


Pesquisa realizada pelo instituto Ipsos nos primeiros 12 dias de julho, em todo o país, mostra um resultado bastante diferente do cenário criado pela Folha de S. Paulo na semana passada, quando o Instituto Datafolha perguntou se era melhor Michel Temer ficar até 2018 ou Dilma Rousseff voltar e concluir o mandato.

Naquele caso, 50% responderam que queriam Temer, e 3% se atreveram a rejeitar as duas opções e escolheram novas eleições. Outros 32% assinalaram Dilma e 4%, nenhuma das opções. Na pesquisa Ipsos, a pergunta foi: você prefere que Temer continue, Dilma volte ou novas eleições? Aqui, 52% dos entrevistados responderam que apoiam uma nova eleição.

Para chegar a esse número, o Ipsos fez a seguinte pergunta: o que é melhor para o Brasil, que “o presidente interino Michel Temer fique no cargo até o final do mandato”, “que a presidente afastada Dilma Rousseff volte e cumpra o mandato”, “que Temer convoque novas eleições” ou que “Dilma volte e convoque novas eleições para outubro deste ano”. Os 52% são a soma dos que optaram pelas duas últimas alternativas.

Nesse cenário, outro dado revelado por Ipsos é que o “Volta Dilma” tem mais apelo popular do que o “Fica Temer”. No primeiro caso, 20% disseram que preferem o retorno da presidente reeleita em 2014, afastada do cargo no início de maio, após o Senado acolher o processo de impeachment. O “Fica Temer” teve apoio de 16%.

No Datafolha, quando confrontados sobre a possibilidade de Dilma e Temer renunciarem e convocarem novas eleições ainda neste ano, 62% disseram que concordavam com a ideia, e outros 30% não. Nessa parcela estão inseridos aqueles que preferem que Dilma volte e conclua o mandato. A economista e colunista da Folha Laura Carvalho fez as contas e estimou que o "Fora Temer" teve apoio de quase 74% dos entrevistados (veja aqui).

Cai o apoio ao impeachment

Desde março de 2015, quando houve um grande protesto pelo impeachment de Dilma Rousseff, o instituto Ipsos afere o apoio da população ao afastamento da presidente. Naquele mês, 48% concordaram com a medida. Nas oito pesquisas seguinte, a taxa sempre foi superior a 50%. Em março de 2016, quando o impeachment estava em vias de ser votado pela Câmara, o apoio bateu 61%. Agora, 48% apoiam. Aqueles que não concordam com o impeachment passaram de 24% para 34%.

O GGN mostrou, na semana passada, que o Datafolha também sondou o apoio popular ao impeachment de Dilma. Mas nunca citou o verdadeiro motivo do processo chegar ao Congresso — as pedaladas e decretos enquadrados como crime de responsabilidade fiscal. O que o Datafolha usou contra Dilma foi os casos de corrupção revelados pela Laja Jato (leia aqui).

Taxas de aprovação

Ainda de acordo com a pesquisa Ipsos, a gestão Temer é desaprovada (ruim ou péssima) por 48%, ante 7% de ótimo e bom e 29% que acham que é regular. O próprio Temer tem 68% de rejeição e 19% de aprovação. Dilma hoje é desaprovada por 71% e aprovada por 25%. Outros 89% acham que o Brasil está no rumo errado ante 11% que pensa o contrário.

A pesquisa Ipsos é feita mensalmente pela empresa francesa, como parte da série Pulso Brasil, e foi publicada pelo jornal Valor Econômico nesta terça (26). Foram ouvidas 1,2 mil pessoas. A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos.

No Esquerda Caviar
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O jornalismo de guerra da Folha matou o próprio jornal

Jornalistas como Eleonora não apitam nada na Folha
Viralizou nas redes sociais um excelente artigo da jornalista Eleonora de Lucena na Folha.

Eleonora foi editora executiva do jornal durante dez anos. Hoje, é repórter especial.

Ela não falou nada de novo, a rigor. Contou, com ênfase, os horrores que a plutocracia está promovendo no Brasil. Não só agora, mas ao longo da história. Em 1954, no golpe contra Getúlio, e em 1964, na derrubada de Jango, para ficar em dois casos.

Nada, a rigor, que você não tenha lido várias vezes no DCM, por exemplo.

O que realmente chama a atenção é a impotência de jornalistas como Eleonora dentro das redações das grandes empresas de mídia.

Nada, rigorosamente nada do que ela escreveu se reflete no jornalismo plutocrático da Folha de S. Paulo.

A Folha simboliza o mundo pútrido que ela tão bem descreveu. O escândalo do DataFolha foi apenas um entre tantos casos de canalhice editorial do jornal a serviço das mamatas e privilégios de um pequeníssimo grupo ao qual os Frias pertencem.

O verdadeiro motto da Folha deveria ser este: um jornal a serviço da plutocracia. E não, como aparece na sua primeira página, um jornal a serviço do Brasil.

No seu artigo, Eleonora disse que a elite dá um “tiro no pé” com seu comportamento que mistura ganância e miopia em doses extraordinárias.

Mas observe: onde ela escreveu elite poderia ter dito, tranquilamente, Folha.

Pois o que a Folha vem fazendo, sistematicamente, senão dar tiros no pé em seu alinhamento com a plutocracia primitiva brasileira?

Poucas semanas atrás, num seminário em Londres, o dono e editor da Folha Otávio Frias ouviu de uma jornalista britânica um diagnóstico devastador sobre a mídia brasileira.

Em sua perplexidade boçal, ele acusou a jornalista de petismo, e ainda conseguiu dizer que sentia falta de um tucano na mesa ali em Londres. (Um leitor do DCM notou que ele próprio, Otávio, já representava o PSDB.)

A imagem de jornal plural e moderno que a Folha construiu desde o início dos anos 1980 foi destruída quando a Folha se engajou no jornalismo de guerra contra o Lula, Dilma e o PT.

Publicar artigos como o de Eleonora é um truque para fingir pluralismo.

Na verdade, o que o texto mostra é que jornalistas como Eleonora têm influência zero na linha editorial.

Cada empresa jornalística suprimiu a seu modo as vozes dissonantes e progressistas. A Globo e a Abril (Veja) se desfizeram de jornalistas que não ajam como fâmulos dos patrões. O caso emblemático da Globo é o do diretor de novas mídias Erick Bretas, que chegou ao cúmulo de usar a foto de Sérgio Moro como avatar no Facebook, no qual postava inflamadas convocações para protestos pelo impeachment.

A Folha agiu diferente. Manteve-os, mas encostados e sem voz. Alguns mais inconformados deram o fora, como Xico Sá.

Este o maior valor do texto de Eleonora: mostrar o deserto frustrante que a Folha é para jornalistas de esquerda.

Está claro que o jornalismo de guerra da Folha matou o próprio jornal.

Paulo Nogueira
No DCM
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Globo perde 20% das TVs ligadas

Uma informação postada pelo jornalista Ricardo Feltrin nesta segunda-feira (25) talvez ajude a explicar o protagonismo da TV Globo no “golpe dos corruptos” que levou o Judas Michel Temer ao Palácio do Planalto. Em apenas cinco anos, a poderosa emissora perdeu 20% dos seus telespectadores no país. O número impressionante tem como base o Painel Nacional de Televisão, do Ibope, que acompanha a evolução do chamado “share” — o número de aparelhos ligados. “A Globo perdeu pouco mais de 20% de participação; passou de 46,6% das TVs ligadas em 2010 para 36,9% no ano passado”, revela o colunista do UOL.

O resultado desastroso decorre da explosão da internet — que afasta principalmente os jovens da péssima programação televisiva —, mas também deriva da queda de credibilidade do império midiático da famiglia Marinho. No mesmo período em que a TV Globo afundou, a única emissora que ganhou público foi o SBT, de Silvio Santos. Ela teve um crescimento de 8,6% entre 2010 e 2015 — passou de 12,7% para 13,8%. A queda do “share” impacta diretamente o mercado publicitário, afastando os anunciantes. Diante da crise do seu modelo de negócios, a TV Globo talvez negocie com os golpistas algum socorro emergencial.

Netflix abala a TV por assinatura

Se na TV aberta o cenário já é dramático, no segmento da tevê por assinatura o quadro também não é animador. Entre 2014 e 2015, o setor perdeu quase 1 milhão de assinantes. O principal vilão parece ter sido o temido Netflix. Recente pesquisa da CVA Solutions apontou que ao menos uma em cada 10 pessoas que assina o Netflix abandona o seu pacote de TV por assinatura. O fenômeno da tevê por streaming, que cresceu de forma acelerada no ano passado — fala-se em 4 milhões de pagantes —, desespera os barões da mídia. Estima-se que a Netflix tenha faturado mais de R$ 1 bilhão em 2015.

É evidente que a crise não atinge apenas as televisões — abertas ou a cabo — do Brasil. O fenômeno é mundial. Artigo postado por Keila Jimenez, do site R7, confirma o drama da mídia tradicional. “Não é só no Brasil que a TV por assinatura assiste a uma estagnação do mercado. Segundo dados do setor, a base de assinantes da TV paga no mundo cresceu apenas 1,68% nos primeiros quatro meses de 2016. O maior crescimento foi na Ásia, onde o serviço ganhou 5,3 milhões de novos assinantes no período. América do Sul, do Norte e Central, que representam mais de um terço dos assinantes globais, ganharam apenas 540 mil assinantes em comparação com a base de 1,41 milhão adquirida no primeiro quadrimestre de 2015. Este declínio foi impulsionado pela crise no Brasil, o que levou a uma queda de quase 3% entre 2014 e 2015, de acordo com a Anatel”.

Altamiro Borges
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Pesquisa desenterra o cadáver que o Grupo Folha escondeu

As pesquisas dos institutos Ipsos e Datafolha sobre a situação do país são tão disparatadas que parece que analisaram realidades totalmente diferentes.


Os resultados das pesquisas dos institutos Ipsos e Datafolha sobre a situação do país são tão disparatados que se fica com a sensação de terem pesquisado realidades totalmente diferentes.

Quando, contudo, se analisa os dados, fica evidente que a discrepância entre as pesquisas não decorre da observação de realidades ou períodos diferentes, mas sim do viés de análise empregado pelos proprietários do instituto Datafolha.

Pela lente da sua pesquisa, a Folha de São Paulo consegue enxergar que “cresce otimismo com a economia” e que “para 50%, Temer deve ficar” — capa e matéria da edição de domingo 17/07/2016.

Já a pesquisa Ipsos mostra, ao contrário, que a vida dos golpistas está mais próxima do inferno do que do paraíso: apenas 16% querem que Temer fique até 2018; 89% afirmam que o Brasil está no rumo errado; e a aprovação do impeachment fraudulento da Presidente Dilma apresenta importante tendência de queda.

O Datafolha pertence ao Grupo Folha, conglomerado de mídia notoriamente pró-Serra, pró-PSDB, pró-Temer, pró-Cunha, pró-coxinhas, pró-golpe, pró-Alstom, pró-corrupção tucana e pró tudo o que é contra o PT, contra Lula e contra Dilma.

Epíteto dizia, ainda no século 5 antes de Cristo, que o que perturba os homens não são os fatos, mas a interpretação que os homens fazem dos fatos. Esta noção milenar de Epíteto é executada à moda Joseph Goebbels não só pela Folha de São Paulo – mas por toda a mídia golpista e engajada.

Eles fazem de tudo — se fraudam um processo de impeachment, porque não falsificariam também a verdade? — para legitimar o golpe de Estado perpetrado pela turba golpista que assalta o Poder para pôr em prática o programa anti-povo e anti-nação que jamais seria aprovado nas eleições.

Jeferson Miola
No Carta Maior
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Aconteceu Bem Aqui — DOI-CODI e violência de Estado hoje


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Escracho

A elite brasileira está dando um tiro no pé. Embarca na canoa do retrocesso social, dá as mãos a grupos fossilizados de oligarquias regionais, submete-se a interesses externos, abandona qualquer esboço de projeto para o país.

Não é a primeira vez. No século 19, ficou atolada na escravidão, adiando avanços. No século 20, tentou uma contrarrevolução, em 1932, para deter Getúlio Vargas. Derrotada, percebeu mais tarde que havia ganho com as políticas nacionais que impulsionaram a industrialização.

Mesmo assim, articulou golpes. Embalada pela Guerra Fria, aliou-se a estrangeiros, parcelas de militares e a uma classe média mergulhada no obscurantismo. Curtiu o desenvolvimentismo dos militares. Depois, quando o modelo ruiu, entendeu que democracia e inclusão social geram lucros.

Em vários momentos, conseguiu vislumbrar as vantagens de atuar num país com dinamismo e mercado interno vigoroso. Roberto Simonsen foi o expoente de uma era em que a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) não se apequenava.

Os últimos anos de crescimento e ascensão social mostraram ser possível ganhar quando os pobres entram em cena e o país flerta com o desenvolvimento. Foram tempos de grande rentabilidade. A política de juros altos, excrescência mundial, manteve as benesses do rentismo.

Quando, em 2012, foi feito um ensaio tímido para mexer nisso, houve gritaria. O grupo dos beneficiários da bolsa juros partiu para o ataque. O Planalto recuou e se rendeu à lógica do mercado financeiro.

Foi a senha para os defensores do neoliberalismo, aqui e lá fora, reorganizarem forças para preparar a reocupação do território. Encontraram a esquerda dividida, acomodada e na defensiva por causa dos escândalos. Apesar disso, a direita perdeu de novo no voto.

Conseguiu, todavia, atrair o centro, catalisando o medo que a recessão espalhou pela sociedade. Quando a maré virou, pelos erros do governo e pela persistência de oito anos da crise capitalista, os empresários pularam do barco governista, que os acolhera com subsídios, incentivos, desonerações. Os que poderiam ficar foram alvos da sanha curitibana. Acuada, nenhuma voz burguesa defendeu o governo.

O impeachment trouxe a galope e sem filtro a velha pauta ultraconservadora e entreguista, perseguida nos anos FHC e derrotada nas últimas quatro eleições. Privatizações, cortes profundos em educação e saúde, desmanche de conquistas trabalhistas, ataque a direitos.

O objetivo é elevar a extração de mais valia, esmagar os pobres, derrubar empresas nacionais, extinguir ideias de independência. Em suma, transferir riqueza da sociedade para poucos, numa regressão fulminante. Previdência, Petrobras, SUS, tudo é implodido com a conversa de que não há dinheiro. Para os juros, contudo, sempre há.

Com instituições esfarrapadas, o Brasil está à beira do abismo. O empresariado parece não perceber que a destruição do país é prejudicial a ele mesmo. Sem líderes, deixa-se levar pela miragem da lógica mundial financista e imediatista, que detesta a democracia.

Amargando uma derrota histórica, a esquerda precisa se reinventar, superar divisões, construir um projeto nacional e encontrar liderança à altura do momento.

A novidade vem da energia das ruas, das ocupações, dos gritos de "Fora, Temer!". Não vai ser um passeio a retirada de direitos e de perspectiva de futuro. Milhões saborearam um naco de vida melhor. Nem a "teologia da prosperidade" talvez segure o rojão. A velha luta de classes está escrachada nas esquinas.

Eleonora de Lucena, jornalista, é repórter especial da Folha. Editora-executiva do jornal de 2000 a 2010, escreve livro sobre Carlos Lamarca
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Racismo e Capitalismo


Conferência do professor Sílvio Luiz de Almeida, presidente do Instituto Luiz Gama, promovida pelo Instituto de Estudos Latino-Americanos, em 30 de junho de 2016.



No Palavras Insurgentes
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Ditadura golpista e criacionismo

O regime ditatorial ao qual o Brasil atualmente está submetido tenta trazer de volta a antiga e obsoleta doutrina do criacionismo. Aliás, o que facilmente se vê por aí é o retorno de questões há muito tempo superadas e radicalmente antagônicas ao contexto histórico atual. O que há de tradicionalismo, conservadorismo, patriarcalismo e posturas reacionárias retorna com muito mais força em relação às suas manifestações históricas em tempo real. Em instâncias oficiais dos poderes da república é proposto o ensino do criacionismo nas escolas, seguramente com o propósito de dar sustentabilidade religiosa aos interesses econômicos e políticos em jogo.

Partimos da estruturação da sociedade, onde a infraestrutura é ocupada pela economia e o seu sistema de organização, e a superestrutura é ocupada pelo sistema político, pelas leis, pelo sistema judiciário, pelo sistema de ideias e pela religião. No momento atual, a proposta do criacionismo tem relação direta com a significativa bancada religiosa do congresso nacional, de natureza neopentecostal e ultraconservador que precisa impor uma doutrina religiosa conservadora para legitimar os seus interesses. O criacionismo é uma espécie de névoa espiritual para assegurar a benção divina a um determinado projeto econômico que serve às elites conservadoras do país.

Dentre os múltiplos retrocessos existentes neste governo golpista, a proposta do criacionismo é expressão doutrinal do conservadorismo político. Trata-se de uma antiga doutrina religiosa segundo a qual a natureza e o mundo foram criados por Deus. Antes do mundo, este Deus é absoluto, imaterial, eterno e intemporal, decidiu criar o mundo como uma esfera rebaixada, contingente e finita. Este mundo saiu de acordo com a mente divina, imprimiu nele uma lei que é imutável e não cabe ao homem a mudança desta trajetória. O homem e a sociedade obedecem a um curso inexorável ao qual simplesmente devem reverência. Para o criacionismo, a estrutura social está estabelecida de acordo com a vontade de Deus, razão pela qual as relações sociais estão divinamente regradas e teologicamente estabelecidas. De acordo com o criacionismo tradicional, as coisas simplesmente são e não podem ser transformadas.

O criacionismo está ultrapassado do ponto de vista sistemático, histórico e conceitual. Do ponto de vista sistemático, a realidade e os conhecimentos da atualidade são muito mais amplos e complexos que o criacionismo não dá mais conta. Do ponto de vista histórico, está ultrapassado porque temos outras concepções muito mais avançadas e mais adequadas para um mundo em constante transformação, tais como as Teorias da Evolução, as Teorias da Complexidade e dos Sistemas, as Teorias Dialéticas da História, as Cosmologias contemporâneas, apenas para citar algumas. Do ponto de vista conceitual, o criacionismo não dá conta dos conceitos e argumentos requeridos pelos conhecimentos atuais, pois não é capaz de incorporar argumentos que expressam a dinamicidade e complexidade do mundo. De tudo isto, contra um Deus que age externamente em relação ao mundo, as ciências contemporâneas pensam um mundo articulado a partir da imanência de sua própria interioridade cuja força o articula em círculos sistemáticos como a Natureza, a Sociedade, a História e o Universo.

O criacionismo somente sobrevive nas religiões neopentecostais, nos setores mais conservadores da Igreja Católica e nas mentes dos fiéis mais ortodoxos. Este dogma religioso tem um viés claramente ideológico porque é destinado a encobrir e mistificar a realidade para que ela permaneça intocada, segundo a vontade eterna de Deus. Isto é fundamental para o encobrimento ideológico de interesses econômicos, pois as elites dominantes usam da religião para evitar o despertar da consciência do povo. Uma religião conservadora é tudo o que o sistema econômico precisa para adequar as consciências à realidade estabelecida. No Brasil, muitas religiões catequizam massivamente o povo com um objetivo claramente político, integram a bancada religiosa do congresso nacional e representam os interesses econômicos de uma minoria.

No contexto de uma onda ultraconservadora, com retrocessos na economia, na religião, na política, na sociedade e no pensamento, chama a atenção o retorno dos fundamentalismos. Trata-se de concepções dogmáticas e autoritárias, verticalmente impostas, com a proibição categórica de manifestações de pensamentos críticos, libertadores e emancipadores. Para que isto seja socializado, pensadores progressistas são objeto de ódio e de preconceitos, tais como Hegel, Marx, Paulo Freire, Einstein etc. Os fundamentalismos se manifestam em vários campos, especialmente no universo intelectual, econômico e religioso. Na dimensão intelectual, a sociedade e as pessoas são cada vez mais impregnadas por visões tradicionais. No campo econômico, retorna uma economia de mercado com as suas regras absolutas e restrição do poder regulador do Estado, que apenas serve aos interesses dominantes. Com uma profunda sensibilidade religiosa, e facilmente manipulado por uma onda religiosa conservadora, o povo facilmente acolhe velhas ortodoxias religiosas nas quais e através das quais sustentam a classe dominante.

No contexto atual, os fundamentalismos são amplamente apoiados e incentivados pelos Estados Unidos. O fundamentalismo religioso, com apoio forte no criacionismo, forma uma “consciência social” conservadora segundo a qual a base social incorpora uma visão de mundo adequada ao modelo econômico estabelecido. Nunca se viu, como atualmente, a manifestação em conversas espontâneas e em espaços oficiais a expressão de concepções econômicas e políticas ultraconservadoras. A ideologia do golpe estabelecido e os interesses econômicos que se escondem na imanência do mesmo, estão fortemente respaldados pela visão conservadora de mundo e de sociedade, principalmente induzidos pelos meios de comunicação social e pelo fundamentalismo religioso baseado no criacionismo. Com forte repressão ao pensamento crítico e inovador, estabelece-se uma mística social que reproduz os interesses dominantes.

O fundamentalismo religioso do criacionismo tem incidência na religião. Esta corrente sustenta uma religião que proporciona uma visão estática de mundo, onde tudo está definitivamente dado, diante do qual as pessoas interiorizam o mundo como pronto e acabado. O criacionismo tem incidência forte na política, com representantes que justificam as suas ações a partir de um dogmatismo religioso. Em outras palavras, a corrupção política é escondida embaixo do manto sagrado da religião devocionista e fundamentalista. Disto resulta um Estado teocrático guiado pelos princípios de uma determinada religião, o que facilmente resulta na transformação da economia em religião econômica. A determinante incidência da economia na vida das pessoas e da sociedade, na condição do fenômeno do fetichismo da mercadoria, se transforma numa religião dominadora e mistificadora. E o criacionismo tem incidência forte na dimensão do conhecimento e da cosmovisão. Dela resulta uma visão vertical, estática, autoritária e essencialista do mundo, tudo o que é necessário para dominar as massas.

O criacionismo proporciona o espetáculo de uma visão vertical de mundo. É o Deus sábio, absoluto e imóvel lá em cima no céu, e nós e o mundo finito e imperfeito cá embaixo. Trata-se de uma estrutura vertical e incomunicável, na qual o mundo é estruturado em estruturas justapostas e irredutíveis entre si. Esta teologia ultraconservadora, traduzida para o universo político e social, resulta num pequeno grupo que manda e dita as regras, e os outros simplesmente precisam acatar e obedecer. Os golpistas têm uma mentalidade autoritária e eles impõem os seus interesses ao povo, odiando a democracia. Do ponto de vista econômico, seguindo os caminhos do criacionismo, o grande capital impõe os seus interesses, independente das regras democráticas e dos anseios do povo.

O criacionismo que as classes políticas ultraconservadoras querem nos impor é obsoleto, autoritário e ultrapassado, assim como o projeto dos golpistas. Em nome daquele deus representado de barba branca, no melhor estilo de um senhor feudal medieval, querem impor uma moralidade dos bons com a condenação de uma grande população formada por negros, mulheres, jovens, agricultores familiares e índios. Trata-se de uma espécie de maniqueísmo social onde Deus abençoa os “bons” e castiga os “maus”, e encobre os caprichos dos golpistas.

João Alberto Wohlfart – Doutor em Filosofia pela PUCRS e professor de Filosofia no IFIBE
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Cunha ameaça “derrubar” Temer. Fedeu!


Os tiques nervosos do Judas Michel Temer devem ter piorado nos últimos dias. Uma nota publicada neste final de semana na coluna Radar, da revista Veja, é perturbadora. "Um interlocutor de Eduardo Cunha saiu apavorado de uma conversa recente com o político. Bem ao seu estilo, em que recobre a megalomania com tonitruâncias, o ex-presidente da Câmara soltou uma ameaça retumbante: 'Ficarei conhecido por derrubar dois presidentes do Brasil'", relata o jornalista Maurício Lima. Após chefiar a "assembleia dos bandidos" que detonou a queda de Dilma, o correntista suíço agora ameaça derrubar o aliado que ajudou a tomar de assalto o Palácio do Planalto. O covil golpista está em pânico!

O motivo da "ameaça retumbante" já é conhecido. Eduardo Cunha se acha traído pelo Judas Michael Temer. Após ter liderado o "golpe dos corruptos", ele considera que simplesmente foi descartado como bagaço pelo usurpador. Na alcova, em pleno sábado à noite, ele até tentou um acordo com o interino. Prometeu renunciar ao cargo de presidente da Câmara Federal para manter seu mandato de deputado federal e evitar a prisão. Especula-se que na ocasião o achacador até fez ameaças ao seu ex-aliado. A negociata, porém, parece que desandou. O resultado da eleição para a presidência da Câmara, com a vitória do demo Rodrigo Maia, fez soar o sinal de alerta. O capacho de Eduardo Cunha na disputa, o tal de Rogério Rosso (PSD-DF), foi tratorado sem dó nem piedade pelo Palácio do Planalto.

Derrota humilhante na Câmara Federal

Segundo reportagem da Folha, publicada em 17 de junho, o resultado da votação irritou o jagunço. "A falta de respaldo do presidente interino, Michel Temer, à candidatura de Rogério Rosso na reta final da disputa pelo comando da Câmara causou fúria no ex-presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e no 'centrão', bloco que agrega partidos pequenos e médios e do qual Rosso faz parte... Cunha disse a aliados, em conversas nos últimos três dias, que se sentiu 'traído' e 'abandonado' por Temer, enquanto deputados do 'centrão' afirmaram à reportagem que pode haver retaliação ao governo em votações". 

Já como presidente eleito, o demo Rodrigo Maia ainda humilhou o seu ex-aliado. Em entrevista ao programa "Roda Viva", da TV Cultura, ele afirmou que sua cassação no plenário era inevitável e até fixou a data do abate: "A votação deverá ocorrer na segunda semana de agosto". A mesa da Câmara também determinou o fim de todas as mordomias do ex-presidente — como carros e seguranças — e a entrega da sua luxuosa residência oficial, que oneravam os cofres públicos em quase R$ 500 mil ao mês. A medida foi vista como uma facada desfechada por deputados que foram financiados em suas campanhas pelo próprio Eduardo Cunha - fala-se em 120 eleitos com o apoio do lobista.

Nos dias seguintes à votação, as coisas só se agravaram. A Justiça Federal de São Paulo suspendeu o passaporte diplomático do seu filho, Felipe Dytz da Cunha. A regalia era um absurdo, já que o rapaz é dono de quatro empresas — o Itamaraty fixa que só filhos e enteados que não exerçam atividades remuneradas sejam considerados dependentes. A decisão foi encarada como represália pelo vingativo lobista. Para piorar o clima, a Procuradoria Geral da República anunciou que até aceitaria o acordo de delação premiada de Eduardo Cunha, mas com uma condição: a de que ele cumpra alguns anos de prisão em regime fechado. A sensação do lobista é de que o cerco está se fechando!

"Uma granada na mão"

Diante da iminência de ser cassado e até preso — juntamente com a sua esposa e filha —, o correntista suíço parece que está decidido a entregar todos os bandidos, a começar do chefe Michel Temer. Como argumentou a jornalista Natuza Nery, em matéria publicada na Folha no sábado (23), ele já não tem outra saída... "Se perder seu mandato em agosto, ele fica com uma granada na mão. Restará lançar o artefato longe — no colo de outros? — para não ser detonado". E os estragos serão imensos, podendo encurtar de vez o mandato ilegítimo do usurpador Michel Temer. A jornalista é enfática: 

"Eduardo Cunha sabe muito. Em seus 17 meses de domínio (e até mesmo antes de se tornar o mais poderoso presidente da Câmara da história recente), esteve no centro de todas as decisões da Casa. Negociava com banqueiros, industriais, gente graúda do PIB. Pautava tudo que era matéria tributária e distribuía favores a parlamentares. Mandava no PMDB da Câmara, intermediava financiamento de campanha para partidos e aliados. Segundo o jornal 'O Globo', ele chegou a promover encontros de Temer com o empreiteiro Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez. Poderia esclarecer o que motivou a reunião e sobre o que se discutiu ali — até para que não paire dúvida sobre a conduta de ninguém... Abrir o verbo é também uma forma de se redimir do que a Lava Jato lhe imputa. Talvez já esteja chegando a hora de começar a piscar para alguém, quebrar o silêncio. Fala, Eduardo Cunha".

Caso o achacador resolva, de fato, abrir o bico, o covil golpista de Michel Temer poderá implodir em poucos minutos. A edição da revista CartaCapital desta semana traz uma consistente reportagem do jornalista André Barrocal que indica que Eduardo Cunha teria gravado conversas com o usurpador do Palácio do Planalto. O suposto grampo reuniria os segredos sobre as parcerias entre os dois no setor portuário. Ambos teriam atuado para mudar a Lei dos Portos e favorecer o Grupo Libra, que doou R$ 1 milhão para a campanha eleitoral do Michel Temer. Haja tique nervoso!

Altamiro Borges
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O desafio progressista em Porto Alegre

“Com Raul Pont, Porto Alegre pode, sim, voltar a ser aquela cidade mais justa e democrática que um dia
encantou o mundo”.
Foto: Guilherme Santos/Sul21
A eleição municipal de 2016 será um round privilegiado para a continuidade da luta democrática e para a politização do povo brasileiro contra o golpe de Estado que está em curso no Brasil.

Por 16 anos o PT conduziu a Administração Popular [AP] de Porto Alegre, juntamente com o PCdoB e o PSB — quando este ainda integrava o campo democrático e popular. Este período que vai de 1989 a 2004 representou um ciclo extraordinário de inovações urbanas e de modernização democrática da cidade com a concretização de direitos de cidadania para a maioria da população.

Os primeiros governos da AP [Olívio, 1989/1992 e Tarso, 1993/1996] se desenvolveram no momento decisivo em que o país se preparava para a implementação dos dispositivos da Constituição recém promulgada, em especial os sistemas e redes de proteção social.

Os outros dois governos, com Raul Pont [1997/2000] e Tarso/Verle [2001/2004], aconteceram no contexto da aplicação selvagem das políticas neoliberais no Brasil por FHC. Essas duas gestões tiveram um papel importante tanto na resistência ao ideário de Estado mínimo com destruição dos direitos sociais, assim como na geração de estratégias de desenvolvimento que atenuavam o drama do desemprego devastador do período.

Este ciclo progressista, cuja característica mais marcante foi o Orçamento Participativo, projetou mundialmente Porto Alegre, que se converteu em fonte inspiradora para a criação do Fórum Social Mundial.

Com o encerramento deste ciclo e a eleição sucessiva do condomínio conservador capitaneado pelo PMDB, a qualidade da gestão pública, dos serviços e das políticas públicas se deteriorou sobremaneira. A fisiologia, o compadrio e a partilha de interesses entre 14 partidos componentes do condomínio conservador, em detrimento de quadros preparados e experimentados na gestão, ocasionaram notáveis retrocessos.

O desmonte das políticas públicas só não foi mais dramático porque o governo federal, sob a presidência de Lula e Dilma, teve papel determinante na expansão de direitos sociais, na regulação, na organização e no financiamento das políticas desenvolvidas nos municípios e nos estados.

Na eventualidade de concretização do golpe de Estado no Senado com o impeachment fraudulento da presidente Dilma, o retrocesso poderá ser então avassalador — é indiscutível a sintonia programática e ideológica entre o governo usurpador de Temer-Cunha e o condomínio conservador que governa Porto Alegre desde 2005.

A eleição de 2016, neste sentido, coloca o PT e o campo democrático e popular da cidade diante de desafios de enorme transcendência.

Governar Porto Alegre desde a perspectiva progressista e de esquerda representa, por um lado, resistir e se opor, com políticas inclusivas, democracia participativa e ética na política, ao projeto golpista que quer fazer o Brasil retroceder 50 anos, com impacto nefasto sobre a vida das pessoas nas cidades.

Por outro lado, conquistar a Prefeitura permitiria interromper-se o desmonte em curso para, ao mesmo tempo, conectar Porto Alegre com as soluções inteligentes e modernizadoras de mobilidade, funcionamento e organização democrática da cidade.

É inconcebível que numa época em que imperam tecnologias comunicacionais revolucionárias e experimentos avançados de gestão pública no Brasil e no mundo, Porto Alegre continue sendo prisioneira de visões retrógradas e elitistas das forças políticas que, por enquanto, ainda a governam.

A Porto Alegre que já encantou o mundo com as políticas de igualdade social, com o Orçamento Participativo e com uma gestão inovadora e democrática, tem diante de si a possibilidade de retomar esta vocação, voltando a eleger uma tradição de esquerda e progressista que tão bem fez à cidade.

Com sua coerência política, conhecimento dos problemas da cidade e capacidade de gestão, Raul Pont representa uma esperança de fazer Porto Alegre um território de resistência democrática no qual as políticas inovadoras e inteligentes em todos os campos — na educação, no SUS, nas obras viárias, na cultura, no transporte público de qualidade, na mobilidade, no cuidado das pessoas — ganham ainda mais significado porque são construídas num ambiente fecundo e livre de democracia participativa.

Porto Alegre pode, sim, voltar a ser aquela cidade mais justa e democrática que um dia encantou o mundo.

Jeferson Miola
No RS Urgente
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