6 de jul de 2016

Avançam delações contra Aécio e Serra. E manchetes duelam sobre Olimpíadas


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Padrões de Manipulação da Grande Imprensa de Perseu Abramo, em PDF


A publicação deste livro não poderia ter momento mais oportuno do que este em que a mídia opera como maestro de uma grande orquestração, a orquestração de um golpe de Estado e de uma tentativa de impor um novo regime à jovem democracia brasileira, subordinando o voto a uma espécie de superego oligárquico composto pelo triunvirato judiciário-midiático-financeiro. Os capítulos deste volume giram em torno de um pequeno e precioso ensaio analítico de Perseu Abramo. Um exercício de pensamento crítico voltado ao desvendamento das artimanhas, dos métodos e recursos do discurso manipulador.

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A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 3ª parte‏

O GOL DE GOLBERY:

GOLPE DA DITADURA OU DITADURA DO GOLPE?


Nos capítulos anteriores vimos que a democracia brasileira nasceu 56 anos após a implantação da República por golpe de estado contra a Monarquia. 41 anos de ditadura feudal ou coronelista mantida pelo voto de cabresto + 15 anos de ditadura Vargas. Viveu apenas 19 aninhos e foi assinada por um golpe civil-militar em 1964, para renascer em... Terá mesmo sido em 1985 como registrou Latuff?

General e geopolítico da instalação da ditadura militar, Golbery do Couto e Silva afastou-se do governo com o golpe à Castelo Branco para promoção de Costa e Silva à presidência, mas não por acaso foi contratado como presidente da norte-americana Dow Chemical no Brasil.

Golbery era o principal teórico da doutrina de segurança nacional elaborada pela ESG – Escola Superior de Guerra. E para o que entendia como segurança da pátria, criou o SNI – Serviço Nacional de Informações.

Que pátria?

Ou qual segurança? Como um estrategista em “segurança da pátria” pode presidir uma grande empresa estrangeira interessada no mais estratégico e valorizado patrimônio econômico de uma pátria? A que pátria defendiam Golbery e demais golpistas em 1964?

Companheiro de farda, patente e golpismo udenista, o General Juracy Magalhães explicava que “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”, mas para quem foi boa a dívida brasileira de 100 bilhões de dólares ao final da ditadura instaurada pelo golpe de 64?

Talvez se compreenda melhor a qual pátria Golbery assegurava, sabendo que a partir de 1944 sua formação militar se deu no Fort Leavenworth War School, instituição dos EUA que em função da Segunda Guerra Mundial se tornou educadora das principais lideranças dos golpes que a partir dos anos 50 ocorreram pelo mundo, sobretudo na América Latina.

E todas com o mesmo mote pelo qual se apoiou a ascensão e evolução do exército de Hitler: conter a expansão da União Soviética quando ainda se restringia apenas às fronteiras da era apenas as fronteiras da Rússia. O próprio presidente Franklin Delano Roosevelt teve muita dificuldade para convencer seus compatriotas políticos e capitalistas a combater o nazismo e o jornalista estadunidense Michel Moore conta que a família Bush continuou financiando o inimigo, mesmo depois de seu país haver guerra à Alemanha.

Se nem os capitalistas dos Estados Unidos têm pátria, permanece a questão: qual pátria asseguraram os golpistas de 64?

Stálin expandiu as fronteiras do comunismo soviético por todo o leste europeu durante a guerra para desalojar as forças nazistas, mas na mesma guerra e pelos mesmos motivos bem mais se expandiram as fronteiras do capitalismo ianque. A única diferença é que no pós-guerra, os soviéticos se limitaram a manter o leste europeu e o domínio dos EUA se ampliou por todo o resto do mundo, através de mais guerras e golpes de estado.

Não foi a União Soviética que levou o comunismo para a China em 1949. Os chineses transformaram o segundo maior território nacional do mundo na primeira nação comunista não integrada ao bloco soviético por resolução revolucionária.. Apesar de vizinha a Rússia, a China se fez e se mantem comunista e independente até hoje.

Para os EUA a China foi à primeira confirmação de que se o capitalismo não exterminar o comunismo, será engolido por comunistas brotados dentro do próprio capitalismo. No entanto, depois da China a expansão internacional do comunismo tem se dado mais por interferência dos EUA do que pela União Soviética.

O primeiro exemplo de nação que os EUA incentivaram a se assumir como comunista, foi a Coreia do Norte.

Em 1945, na Conferência de Potsdam, EUA e URSS acordaram um ataque simultâneo à ocupação japonesa na Coreia. Soviéticos pelo norte, ianques pelo sul, estabeleceram o paralelo 38º como fronteira de ocupação de ambos os exércitos. E ali mesmo resolveram que somente se manteriam na Coreia até 1948, tempo previsto para que a normalidade coreana se restabelecesse e desenvolvesse um governo próprio, autônomo e independente.

Os soviéticos cumpriram o acordado e nunca mais voltaram nem mesmo para auxiliar os norte-coreanos contra os ataques do general Douglas MacArthur quando, em 1950, os EUA resolveram unificar o país sob seu exclusivo domínio.

Ainda se refazendo da invasão japonesa num dos mais cruéis episódios às vésperas e durante a II Guerra, seguido da revolução civil que implantou o comunismo no ano anterior, a China também se limitou a enviar suprimentos aos coreanos. Sem qualquer resistência à altura do poder de seu exército, MacArhur tomou Pyongyang, a capital norte-coreana. O entusiasmo da vitória levou o general a acreditar haver chegado o momento de tirar Mao Tse Tung do poder e invadiu a fronteira chinesa.

Só então o exército comunista chinês reagiu e com apoio de suprimentos soviéticos reagiu e participação dos norte coreanos, nos dois anos seguintes empurraram os norte-americanos para o paralelo 38º que eles mesmos acordaram como limite de ocupação.

Nunca mais as Coreias se uniram, mas enquanto a do norte avança a passos largos pela era atômica, a Coreia do Sul, como também Twain e Japão, cada vez mais estreitam laços comerciais com a China que continua comunista.

Desde o século XVIII até os índios dos Estados Unidos sabem bem qual é a grande ameaça expansionista do mundo que não respeita sequer o que ela própria propõe. Mas a partir dos anos 50 se construiu no imaginário popular o pavor de um comunista a espreita em cada esquina, pronto para atacar na calada da noite. Usam a intolerância e tirania de Stálin como característica inerente a todo comunista, como se os ditadores que os EUA impõem ao mundo para representar seus interesses fossem exemplos de candura.

Embora o ditador cubano Fulgêncio Batista não fosse menos tirânico, sem dúvida Stálin não foi tão corrupto nem promoveu tanta miséria em seu próprio país. O próprio Congresso dos EUA acusava Batista de corrupção e associação à Máfia para promoção do tráfico de drogas e manutenção de empresas de prostituição.

“Enquanto a América dormia...” era o título de antiga matéria da vetusta “Seleções do Reader’s Digest”, um dos veículos de propaganda ideológica do doentio “american way of life”. Mas claro que a revista não contava que a primeira providência de Fidel Castro após consolidar a deposição de Batista, foi viajar aos EUA para solicitar o apoio do presidente e general Dwigth Eisenhower para a reconstrução político/econômica de Cuba.

Ao contrário das pretensões de Fidel, Eisenhower financia e apoia ataques terroristas de partidários de Batista e do ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo, também apontado como dos mais sanguinários e corruptos tiranos da história do continente latino-americano.

Derrotados, os terroristas são julgados, condenados e executados como traidores da pátria e do povo cubano. Alguns praticavam escravagismo, muitos exploravam o lenocínio e sistematicamente cometiam estupros. Quase todos, autores de múltiplos homicídios. Delinquentes e criminosos políticos e sociais transformados em mártires pela imprensa ocidental. E por condená-los à morte como sempre se fez no próprio EUA, aos libertadores de Cuba acusaram de assassinos.

A expansão dos EUA sobre as Antilhas se deu muito antes da Grande Guerra mundial, já no processo de independência daqueles países. Em 1901 impõem à primeira Constituição de Cuba a Emenda Platt que previa aos Estados Unidos o direito de intervenção no país sempre que o desejasse. Ou seja, como as demais ilhas do Caribe, Cuba deixou de ser colônia espanhola para se tornar colônia norte-americana.

Para manter essa situação Eisenhower iniciou os preparativos para a Invasão da Baía dos Porcos, executada 3 meses após a pose de seu sucessor John Fitzgerald Kennedy, em 1961.

Assessores daquele governo relatam que JFK foi pressionado a autorizar a execução do projeto de Eisenhower, mas conseguiu proibir a participação das forças aéreas dos EUA que teve de treinar cubanos para atacarem o próprio povo e país. A derrota da frota naval e aérea para a ex-colônia caribenha encheu os norte-americanos de ódio e desprestígio enquanto a Fidel e ao mundo ficou claro que o Tio Sam não dormiria até retomar o domínio sobre a Ilha, validando a decisão de procurar o apoio soviético através de negociação da produção açucareira em troca de mísseis nucleares que intimidaram novas pretensões de ataque militar.

Portanto a Crise dos Mísseis, tão valorizada pela imprensa ocidental como ameaça a eclosão de uma guerra nuclear mundial, não foi provocada por uma ousadia do bloco soviético para expandir-se à América Latina, e sim pela expansão do imperialismo ianque que no XIX promoveu o mais longo genocídio da história da humanidade ao toque da corneta da Cavalaria do Exército dos Estados Unidos em ataque às indefesas tribos nativas.

Mas a aliança de Fidel com a União Soviética não indispôs apenas os Estados Unidos que acuado pelos mísseis nucleares acabou aceitando acordo de não interferência. Comunista e um dos principais comandantes da revolução, com Che Guevara não houve acordo e após calorosa discussão com os irmãos Castro, sobretudo com Raul Castro segundo testemunhas oitivas, deixou a Ilha para não mais voltar.

Segundos companheiros e contemporâneos, se Che Guevara não fosse assassinado na Bolívia o seria pela CIA ou sua correspondente soviética NKVD, pois desde conferências comunistas internacionais realizadas na África, Guevara acusava a domínio imperialista da União Soviética e sabia que cobraria alto preço pela proteção contra a ganância dos Estados Unidos que mais uma vez não respeitou o acordo de não interferência em Cuba e manteve atentados terroristas como o que em 1976 matou 73 passageiros da companhia Cubana de Aviación, em maioria integrantes de uma equipe esportiva juvenil. Segundo o Guinnes Book, Fidel Castro é o recordista mundial como sobrevivente de atentados à vida. 638, todos promovidos pela CIA.

O fim da União Soviética comprovou que Guevara tinha razão, pois tudo o que ele próprio desenvolvera como Ministro da Indústria e presidente do Banco Nacional de Cuba, estimulando a produção agropecuária, foi transferido para a Rússia. Por outro lado, se Fidel não aceitasse a aliança da Rússia assumindo o regime comunista, sua Ilha tornaria a ser o prostíbulo e covil de corruptos e mafiosos que Eisenhower tanto desejou manter a qualquer custo. Mas com o fim do comunismo na Rússia de fato a fome rondou a Ilha para gáudio da imprensa ocidental que mais uma vez omitiu a responsabilidade do criminoso bloqueio econômico imposto pelo imperialismo dos EUA.

Resistindo à fome imposta pela permanente ameaça da vizinha potência capitalista, mesmo sem qualquer apoio externo, por si a consciência do povo cubano impediu a expansão do imperialismo sobre a Ilha e hoje é exemplo mundial em medicina e sistema de ensino, contribuindo com programas internacionais de alfabetização e atendimento público de saúde inclusive de nações capitalistas, como as do Reino Unido. E por fim, após 60 anos, o próprio Estados Unidos negocia o reatamento de reações diplomáticas com o mais pró soviético dos lideres da Revolução de 59: Raul Castro.

Apesar de desmoralizar-se na Coreia e em Cuba, mais tarde também no Vietnã, entre as décadas de 60 até o final do século a prepotência opressiva do capitalismo internacional liderado pelo governo dos Estados Unidos obteve a aliança de militares, políticos e corruptos em geral da América Latina. Foi então que o general Golbery do Couto e Silva atuou nas sombras como arquiteto do governo imposto em 1964.

Entre as hostes militares do golpismo, Couto e Silva era um intelectual e Costa e Silva um boçal. Para a percepção civil não havia muita distância entre um e outro, mas os gaúchos não se bicavam e Golbery se afastou acumulando ao cargo de general do exército brasileiro o de executivo da Dow Chemical, até ser chamado pelo general Ernesto Geisel quando o primeiro Democrata depois de Kennedy é eleito à presidência dos EUA. Antes mesmo da posse, Jimmy Carter avisara que não toleraria as sanguinárias ditaduras latino-americanas.

A primeira-dama Rosalyn Carter visitou Recife em 1977 e em seu relatório de viagem ao Departamento de Estado do governo do marido reproduziu as denúncias de torturas a presos políticos. Em razão desses crimes contra os direitos humanos Carter suspendeu cinco acordos militares com o Brasil e no ano seguinte ele próprio veio dar um recado a Geisel através de discurso público: “Hoje estamos todos unidos num esforço global em prol da causa da liberdade humana e do Estado de Direito”.

Puxão de orelha mais evidente só se Carter arrancasse as duas de Geisel, mas a imprensa brasileira recorreu ao velho jogo do “faz de conta que não entendi”. O jornal O Estado de São Paulo, por exemplo, ainda hoje chega a relembrar o episódio afirmando que “Sob os olhos atentos da mídia, o presidente norte-americano Jimmy Carter chegava ao Brasil, em 29 de março de 1978... a expectativa de que Carter demonstrasse uma posição firme frente às violações aos direitos humanos, cometidas pelo regime militar, foi frustrada.”

Apesar dos olhos atentos, o raciocínio da imprensa brasileira sempre foi míope, pois mesmo que a família Mesquita, uma das oligarquias do monopólio da mídia implantado pela ditadura, tenha de fato se arrependido de haver apoiado o golpe de 64, não haveria como Carter mandar invadir o continente para depor as ditaduras implantadas pelos Republicanos desde Lyndon Johnson que, apesar de Democrata, perdera as prévias de seu partido à própria sucessão para Robert Kennedy.

Bob Kennedy que rompera com Johnson em razão do envio de tropas ao Vietnam, contrariando as intenções do irmão assassinado (pela CIA, segundo informações extraoficiais baseadas em conclusões lógicas). Com a morte de Kennedy e a ascensão de seu vice, além do golpe militar no Brasil também se precipitou a guerra que JFK pretendeu evitar.

Indubitavelmente Bob Kennedy seria o sucessor de Johnson, mas é igualmente assassinado em 1968, alguns dias depois de ele mesmo anunciar o assassinato de Marthin Luther King. Portanto, os métodos de expansão da ideologia capitalista não podem ser acusados de promoção de golpes e assassinatos apenas em relações externas.

O Republicano Richard Nixon venceu as eleições e naquele mesmo ano de 1968 o AI-5 lança a pá de cal sobre o cadáver da democracia brasileira.

Difícil comprovar a influência das sucessões presidenciais nos Estados Unidos sobre os países da América Latina e, talvez por isso mesmo, Golbery foi bastante previdente ao projetar o retorno do pluripartidarismo brasileiro para evitar futura concretização de efetiva liberdade democrática.

Entre diversas outras providência negou a Leonel Brizola a legenda da qual foi um dos fundadores e inequivocamente maior liderança. O general repassou a mais tradicional representação partidária trabalhista, o PTB, à Ivete Vargas.

Ivete era filha de uma sobrinha de Getúlio Vargas, pelo que conseguiu projeção no diretório de São Paulo nos anos 50, mesmo sem manter maiores relações com o tio-avô. Agraciada por Golbery fez do partido uma legenda de aluguel, comportamento mantido ainda hoje, sem qualquer relação com as origens trabalhistas e nenhuma significativa liderança popular.

Obrigado a criar novo partido, o PDT – Partido Democrático Trabalhista, Brizola manteve-se fiel ao nacionalismo getulista e a nova legenda prosseguiu representando os interesses dos trabalhadores até sua morte em 2004. Apesar de dissenções internas e participação até de integrantes da União Ruralista (latifundiários de extrema direita), alguns do partido ainda relutam em preservar os ideais de Getúlio e Jango que, mesmo também sendo fazendeiro, pretendia a Reforma Agrária.

Se Golbery desmantelou a sigla PTB, por outro lado não pode evitar a criação do PT – Partido dos Trabalhadores. No entanto o PT não era motivo de preocupação para o general porque então ninguém considerava que um operário alcançaria alguma significação e respeito político. Luís Ignácio Lula da Silva era compreendido apenas como um popular com pretensões políticas que, no máximo, viria a ser útil como cabo eleitoral.

Afora Brizola que ironizou os que esperavam de FHC um príncipe, avisando que teriam de engolir um sapo barbudo; todos os experientes políticos brasileiros não reconheciam futuro a Lula, mas 3 décadas depois a mais conceituada universidade de ciências políticas da Europa Ocidental, a Sciences Po de Paris criada em 1872, concede o 16º título de doutor honoris causa de sua secular história ao primeiro latino-americano reconhecido pela instituição: Luís Ignácio Lula da Silva.

Outra aparente bola fora do experiente general foi a de tentar agregar a antiga UDN, que durante a ditadura se transformou em ARENA, na sigla PDS – Partido Democrático Social.

Não deu certo. Logo depois uma dissenção entre as lideranças de Paulo Salim Maluf e Antonio Carlos Magalhães se desdobra em duas siglas, surgindo o PFL – Partido da Frente Liberal, que em 2007, após a fracassada tentativa de golpe ao governo Lula no episódio do Mensalão, quando Jorge Bornhausen afirmou que acabariam com o PT pelos próximos 30 anos, tornou-se DEM – Democratas.

Depois de nova dissenção com ACM, Bornhausen participa da criação do PSD – Partido Social Democrático, sem qualquer relação com o antigo PSD criado em 1945 por getulistas contra os quais fizeram oposição e reiteradamente tentaram golpes como UDN. Mas os desse novo PSD se reivindicam como homenagem à Juscelino Kubistchek, embora muitos, como Jorge Bornhausen, tenham tentado impedir a posse de Juscelino quando eleito no primeiro período de vida da democracia brasileira.

No entanto, nas últimas eleições presidenciais Bornhausen também já deixou o PSD para apoiar Marina Silva pela sigla PSB – Partido Socialista Brasileiro, refundada em 1985 e que teve como principal liderança o mesmo Miguel Arraes torturado e cassado pelo governo da ARENA de Bornhausen.

Depois do PDS a facção malufista da antiga ARENA fundiu-se ao PDC - Partido Democrático Cristão, também recriado em 1985. Mas foi mero abrigo passageiro, pois em 1993 já criaram o PP – Partido Progressista.

Em verdade a sigla PP já fora usada pelo previdente Golbery em 1985, num verdadeiro drible às previsíveis divergências entre os sequiosos jogadores do próprio time. Conhecia-os bastante bem e sabia que sem o controle dos treinadores militares, a ex ARENA e então PDS se diluiria.

Recuperando as bolas foras, Golbery driblou as composições partidárias criando o primeiro PP, com o qual reuniu rescaldos significativos do jogo político: tanto antigos getulistas como Tancredo Neves quanto velhos udenistas como Chagas Freitas que em 64 não ingressou na ARENA por indisposição à Carlos Lacerda. Mas Chagas Freitas foi o único do MDB indicado duas vezes como interventor estadual pela ditatura militar: GB de 1971 a 1975 e RJ de 1979 a 1983.

No entanto o PP de Golbery foi apenas uma finta. Sem qualquer representatividade, em 1981 já era incorporado pelo PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro.

Os 21 anos de ditadura evidenciaram a Golbery a insustentabilidade da convergência dos altos interesses entre os da ARENA e amplitude da abertura do MDB às divergências de mesquinhos interesses oportunistas, hoje bem mais vultosos como os de Cunha e Temer.

Depois foi só transferir José Sarney, presidente da ARENA, para o PMDB como vice de Tancredo Neves. Estava feito o gol de Golbery, que de estrategista do golpe da ditadura passou a estratégia da ditadura do golpe para permanente derrota da democracia.

Golaço do general Golbery, o artilheiro da Dow Chemical. Nem era preciso a morte do Tancredo, pois com Tancredo ou sem Tancredo a derrota da democracia estava garantida e outros craques do time virão para dar olé no eleitorado brasileiro.

Aguardem!

Raul Longo



Leia também:

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 1ª parte (de Getúlio à Jango)

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 2ª parte

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 4ª parte‏
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Cachoeira pediu para Temer encaminhar regularização de jogos de azar


Março de 2012. O ex-senador Demóstenes Torres, que chegara a estampar reportagens de Veja como um "mosqueteiro da ética", vira o centro das atenções após cair em grampos da Polícia Federal na Operação Monte Carlo, que investigava o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Na edição do dia 31 daquele mês e ano, Folha de S. Paulo publicou um diálogo entre Demóstenes e Cachoeira, no qual o bicheiro pediu que Michel Temer (PMDB) encaminhasse um projeto de lei que regulariza os jogos de azar.

O diálogo foi usado na reportagem "Gravações revelam favores de senador para empresário". A conversa se deu no dia 24 de abril de 2009, quando Temer era deputado e presidente da Câmara.

Cachoeira diz: "Aquele negócio que eu pedi pra você olhar lá. Já chegaram lá? Aquela lei do Maguito?"

Demóstenes responde: "Já chegaram lá. Ela está na Câmara..."

Cachoeira: Pois é, você tinha que trabalhar isso aí com o Michel [Temer], né? Para por em votação...

Demóstenes: Lá isso passa por votação simbólica. Como passou no Senado.

O trecho foi usado para acusar Demóstenes de usar o mandato em nome dos interesses de Cachoeira, que foi preso recentemente na Lava Jato.

A regularização dos jogos de azar é um assunto que volta e meia entra em pauta, sempre que o governo está em crise e busca fontes de receita.

Na época do Cachoeiragate, Demóstenes apareceu alertando que trechos do projeto de regularização de jogos discutido no passado prejudicavam as atividades do bicheiro.

Hoje na presidência em virtude o impeachment de Dilma Rousseff (PT), Temer permite que o núcleo duro do governo trabalhe para aprovar o projeto de lei do Senado (PLS) 186/2014, que consta na Agenda Brasil - conjunto de propostas que o PMDB diz ter apresentado para tirar o País da crise. Geddel Vieira Lima e Henrique Alves, por exemplo, foram citados em reportagem apontando que o PLS seria uma fonte de receita conveniente em meio à situação econômica atual.

O PLS está inserido na ordem do dia, com previsão de ser votado no Senado nesta quarta (6).

Nas contas do governo, a liberação de cassinos e regularização de bingos e caça-níqueis, entre outros pontos, renderia à União uma receita anual de R$ 15 bilhões.

No passado, Temer, enquanto vice-presidente, fez lobby pela regularização. Um jornalista ligado a Cachoeira chegou a publicar que Temer usava um assessor pessoal pra fazer interface com o então presidente da Abrabin (Associação Brasileira do s Bingos).

No governo Lula e início do governo Dilma, o projeto foi ofuscado por escândalos de corrupção envolvendo Cachoeira.

Na CPI de 2012, instaurada na Câmara e Senado após as revelações da Monte Carlo contra Demóstenes e o bicheiro, Temer apareceu novamente. Dessa vez, como um dos membros da cúpula do PMDB — incluindo Eduardo Cunha — que trabalharam duro para evitar a convocação de Fernando Cavendish — também preso na Lava Jato — para depor na CPI. Cavendish era sócio oculto de Cachoeira e dirigente da Delta. A empreiteira, àquela época, era a que mais atuava junto ao governo federal em obras do PAC.

Artigo do jornalista Leandro Fortes, em CartaCapital de maio de 2012, mostrou envolvimento de Temer para impedir, inclusive, que a CPI do Cachoeira avançasse contra jornalistas.

Fortes escreveu: "Desde o início de maio, Temer tornou-se uma espécie de mensageiro da família Marinho. O vice de Dilma tem ouvido e repassado os recados do grupo que comanda a Globo ao governo e aos integrantes da CPI do Cachoeira. E que pode ser resumido em um ponto: a mídia não pode virar alvo na CPI. Isso inclui deixar de fora a mais explícita das relações do bando de Cachoeira com os meios de comunicação: aquela estabelecida com a revista Veja."

O jornalista referia-se a outra descoberta da Operação Monte Carlo: a de que Cachoeira teria fortes relações com repórter de Veja, Policarpo Junior, a ponto de decidir quando emplacar matérias contra seus adversários na revista semanal.

No final, o time de Temer teve sucesso: a CPI do Cachoeira - que também recebeu ajuda do PT para ser freada - entregou um relatório de uma página e meia, sem indiciar ninguém, muito menos jornalistas. O caso foi sumindo do noticiário tão logo o julgamento do mensalão foi tomando conta daquele segundo semestre de 2012.

Artigo da jornalista Helena Chagas, publicado no portal Os Divergentes, nesta quarta, mostra que o governo Temer tem sofrido pressão para aprovar o projeto de regularização dos jogos.

"O Planalto tem se mantido à distância da discussão porque o assunto é uma bola dividida, mas o governo, nos bastidores, apóia a aprovação do projeto que legaliza os jogos de azar, que será votado hoje pelo Senado. (...) Aliados vêm tratando do assunto na surdina já foram procurados por grandes grupos hoteleiros internacionais interessados em implantar no Brasil resorts com cassinos – modalidade prevista pelo projeto em discussão", escreveu.

A ideia, contudo, sofre forte resistência de setores que consideram os jogos de azar uma forma de lavagem de dinheiro para criminosos de colarinho branco e traficantes.

"E é por isso que o governo não saiu ainda na defesa aberta do projeto. Michel Temer não quer, por enquanto, comprar briga com setores como o Ministério Público. (...) Há também problemas com a bancada evangélica."

Cíntia Alves
No GGN
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Parabéns entusiasmados a Marilena Chauí por desconstruir Moro e a Lava Jato


Marilena Chauí fez muito bem em dizer certas coisas sobre Moro.

Nem importa exatamente o conteúdo das acusações. Não acredito que Moro tenha sido treinado pelos americanos para nos surrupiarem o pré-sal, embora seja uma possibilidade.

A relevância da fala de Chauí reside na descontrução de um personagem que é uma desgraça nacional.

Quanto Chauí incomodou a direita obtusa que idolatra Moro pode se ver pelo Twitter, onde ela ficou mais de um dia entre os trending topics levando pancadas de toda natureza.

Moro simboliza, ao lado de Gilmar Mendes, a justiça partidária e tendenciosa que castiga o Brasil.

O objetivo da Lava Jato, o tempo deixou claro para os inocentes, jamais foi erradicar a corrupção. Foi, isso sim, erradicar o PT.

Enquanto espetáculos cinematográficos mostravam em rede nacional petistas sendo presos, Eduardo Cunha e Aécio, para ficar em dois casos icônicos, roubavam sem preocupação nenhuma.

As coisas só ficaram mais complicadas para eles, e outros da mesma gangue, quando delatores contaram suas histórias. Não tenho dúvida: se os responsáveis pela Lava Jato pudessem obliterar os depoimentos que mostraram a alta roubalheira no PSDB e no PT, teriam feito.

É que não dava para fazer isso: censurar, deletar e coisas assim.

As delações recentes — sobretudo a de Sérgio Machado — revelaram o que a Lava Jato nunca pretendeu: o PT é mirim em corrupção diante dos profissionais do PMDB e do PSDB.

Pior do que não fazer nada contra a corrupção é fazer alguma coisa apenas contra um alvo. Isso é demagogia, manipulação, enganação. Você finge que está limpando o país quando na verdade está deixando as portas abertas para os gatunos de sempre.

Aconteceu em 1954, com Getúlio. Aconteceu em 1964, com Jango. E aconteceu agora, com Dilma. Sempre a mesma ladainha da plutocracia: a corrupção, o alegado mar de lama.

Dado o golpe, o capítulo seguinte é sempre o mesmo: rouba-se muito mais. Ninguém estava na verdade interessado em combater a corrupção.

Ou você acredita que uma empresa sonegadora e sem escrúpulo nenhum como a Globo pode falar em ética e moral sem ficar vermelha?

Não era Eduardo Cunha o centro da admiração de todos os analfabetos políticos que marchavam contra a corrupção até os suíços — não a Lava Jato — desmascará-lo? Enquanto os idiotas davam vivas a Cunha à luz do sol dos domingos ele tramava na sombra novas formas de achacar empresas e recolher propinas.

Moro foi um personagem central no enredo sinistro que destruiu 54 milhões de votos. Sua parceria com a Globo, da qual a apoteose foi o vazamento de conversas entre Lula e Dilma, ficará marcada como um dos episódios mais indecentes da história política nacional.

A posteridade não perdoará Moro, como não perdoou Lacerda, Roberto Marinho e os militares golpistas.

E é bom ver que uma intelectual brilhante como Marilena Chauí também não o perdoa desde já.

Paulo Nogueira
No DCM
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A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 2ª parte

A PRIMEIRA MORTE

DA DEMOCRACIA BRASILEIRA


A ilustração do Latuff se refere à segunda vida da democracia brasileira. Discordando das efemérides apontadas na lápide, anteriormente resumiu-se a história dos 19 anos da primeira vida da democracia entre nós. Aqui se resume os primeiros 21 anos do tempo em que a democracia esteve sepultada, esperando haver talento para posterior discorrer sobre os oito anos restantes e, se ainda sobrar fôlego, rememorar a segunda vida da democracia brasileira. Período que não corresponde às datas indicadas na charge, mas de forma alguma a torna menos excelente e apropriada.

Não é de hoje que golpista não gosta de ser chamado de golpista. Mesmo quando os golpes promovidos no Brasil não angariavam tanto interesse da imprensa internacional, nunca ninguém quis vestir a carapuça de golpista. Mas é pelo evidente que são lembrados ao longo da história.

Militar, financeiro ou jurídico, todo golpe é indisfarçável seja qual for a fantasia tecida para enfeitar a nudez explícita, realçando o ridículo dos que fingem admirar o debruado do inexistente manto do rei.

Ao desnudo, golpe serve a interesses específicos e a história confirma que desse banquete não restará panelas a raspar, sequer aos que nelas batucaram sob o comando do apito da mídia.

Em verdadeiras democracias, se descoberto que o candidato eleito trapaceou para alcançar o cargo de forma fraudulenta, justificasse o tal impeachment. E, invariavelmente, foge da passarela como Richard Nixon, único presidente dos Estados Unidos a renunciar ao mandato.

Também pode ocorrer de depois de eleito, mesmo que não democraticamente, o golpista ser deposto por seus próprios criadores insatisfeitos em suas ansiedades. De nariz empinado o golpista abandona a passarela fingindo-se traído na dignidade que não tem. Se tivesse não seria golpista.

Todo apoio a golpe têm seu preço e se não imediata e satisfatoriamente recompensado, é o próprio alfaiate quem denuncia a inexistência da fantasia, conforme confessou Roberto Marinho para estupefatos britânicos ao cassar o “Caçador de Marajás”: “- Nós o pusemos, nós o tiramos”.

Daí ser bem provável que antes do que espera o aparvalhado que ainda festeja o golpe que apoiou e ajudou a tecer, se sinta mal retribuído. Desses há os de riscos de delação, como o Eduardo Cunha, e os ingênuos que realmente acreditam combater corrupção através de golpe à democracia. Dos últimos, muitos já se dizem decepcionados com a efetiva ascensão da corrupção ao poder.

Apesar disso, até uma Ministra do STF acredita nos debruados da fantasia, pois nunca faltam aqueles que reincidem na compra de bilhete premiado.

Jânio Quadros, como revelado na confidência tornada pública pelo próprio sobrinho, recorreu à renúncia com intenção golpista; mas os demais exemplos citados preferiram salvar a pele do rascar do sarjão do impeachment. E de narizes empinados por dignidades há muito escoadas pelos bueiros, postularam por novas oportunidades concedidas por eleitores que tornam cada eleição em sumidouro da democracia e do futuro da nação.

Em nosso histórico, a única renúncia por imposição e não para escapar de impeachment foi a do coitado do marechal Deodoro que insuflado por intrigas protagonizou o primeiro golpe da história, instituindo a república. Acabou sendo renunciado pela Primeira Revolta da Armada sob o comando de seu vice, conterrâneo e colega de farda e patente, o marechal Floriano Peixoto.

Como Marinho fez com o Collor, os mesmos intriguistas que o usaram para golpear Pedro II por causa da abolição da escravatura, dois anos depois, em 1891, com receio de que o arrependido Deodoro restaurasse a monarquia e chamasse Dom Pedro de volta da Europa; impuseram o Floriano.

De farda, toga ou em trajes civis, há sempre um golpe dentro do golpe. Os golpistas sabem disso e daí ansiarem pela renúncia do deposto, para na confirmação do poder realizar o que os motivou ao golpe e não seria aceito pelo voto em um pleito democrático.

Mas eis que quebram a cara com inesperada dignidade que não necessita de fantasias para apontar indignidades evidentes no próprio processo golpista. Indignidades acusadas internacionalmente e assumidas por seus mesmos executores, enquanto à insistência da dignidade intacta da primeira mulher a presidir o país e o primeiro presidente da república a não fugir da passarela para se esconder da farsa do impeachment, conferem-se plenos direitos de denunciar a nudez por baixo da fantasia dos que fiaram e costuraram o golpe.

Mais há a temer pelos do golpe, por saberem que todo golpe traz em si outro golpe como confirma a história dos 21 anos da ditadura militar em que as sucessões entre os próprios generais resultavam de golpes internos.

Castelo Branco só passou o cargo à Costa e Silva por pressão e o ter cedido não o livrou de colisão aérea em espaço remoto e sem tráfego de aeronaves. Um “acidente” até hoje inexplicável.

Apesar de ter promulgado o AI-5 em 1968, no ano seguinte Costa e Silva convocou uma comissão de juristas para elaboração de emenda constitucional onde se incluía a extinção do AI-5. Segundo o jornalista Carlos Chagas, o próprio Costa e Silva presidiu todas as reuniões da comissão anunciando a assinatura da emenda para o seguinte dia da Independência de 1969. Uma semana antes morreu de derrame cerebral, mas os que reportaram o velório não entenderam porque em momento algum se abriu o caixão nem se revelou o rosto para as derradeiras exéquias ao defunto.

A emenda de Costa e Silva não previa a redemocratização do país, mas ao menos tornaria a constitucionalizá-lo. Pois foi sumariamente suspensa no assumir de Junta Militar que promulgou outra, chamada “Constituição de 69”. Naquela, a primeira medida foi impedir a pose do vice, o jurista Pedro Aleixo, para empossar o general Emílio Garrastazu Médici.

Do velório de Médici, em 1985, João Batista Figueiredo foi expulso por familiares do defunto aos gritos e xingamentos de “Canalha!”.

A cada golpe dentro do golpe de 1964 aumentava a falta de liberdade, a censura, as prisões, as torturas, exílios e mortes. A covardia da barbárie que espantava ao mundo tentava se justificar como “Revolução” para evitar que no Brasil se repetisse a falta de liberdade, censura, prisões, torturas, exílios e mortes que ocorreriam na ditadura comunista de Fidel Castro.

Só não diziam que em Cuba se estuprava cidadãs cubanas, mas aqui isso era recorrente com jovens aprisionadas ou não. Inclusive filhas de colegas de farda como a do General Zerbini que apesar de nunca ter sido prisioneira da ditadura ou de qualquer outro regime, foi violentada em 1970 ao tentar visitar a mãe, Terezinha Zerbini, encarcerada por acolher ao Frei Tito quando aprisionaram mais de 700 estudantes no Congresso de Ibiúna. Contra a falta de liberdade do comunismo cubano, extinguiam a liberdade dos estudantes brasileiros. Também a dos artistas e intelectuais. Dos jornalistas inclusive. E, por que não, dos trabalhadores também.

Como toda fantasia golpista, a da “Revolução” não convenceu desde o princípio. Nem poderia! Em qual verdadeira revolução da história não se viu nem ouviu um só tiro?

Conforme identificou o jornalista Carlos Heitor Cony em crônica da época, na manhã do dia 1º de abril de 1964 interditaram a passagem de automóveis em determinado logradouro da cidade do Rio de Janeiro sobrepondo dois paralelepípedos, um sobre o outro. Entendeu Cony ter sido este o ato “revolucionário” do golpe de 64.

Dois paralelepípedos instituíram uma ditadura já de início tão enferrujada quanto a primeira ditadura da República, a do “Marechal de Ferro”. Após o golpe contra Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto decretou estado de sítio e também destituiu, prendeu e exilou opositores políticos, além de ameaçar os ministros do STF quando Rui Barbosa pleiteou habeas corpus em favor dos detidos: "- Se os juízes concederem habeas corpus aos políticos, eu não sei quem amanhã lhes dará o habeas corpus de que, por sua vez, necessitarão".

De farda, toga ou terno, a arrogância dos golpistas é sempre a mesma. E a falta de dignidade dos que os temem, também. Acovardado, o STF de então negou os habeas corpus solicitados pelo republicano Rui Barbosa por dez votos a um. Dessa forma, ao contrário de Deodoro, Peixoto venceu a Segunda Revolta da Armada voltando-se violentamente contra os próprios companheiros de farda que liderara contra seu antecessor. E para isso também recorreu à Marinha de Guerra dos Estados Unidos em 1894, como exatos 70 anos depois fez o embaixador Lincoln Gordon para proteger os oficiais de baixo relevo no Exército Brasileiro que havia comprado em notas de dólar.

Com a participação da Marinha de Guerra dos Estados Unidos se teceu a fantasia da “Revolução de 64” amontoando dois paralelepípedos. Um sobre o outro. Mas longe dos olhos civis do Cony, dentro dos quartéis se executaram as primeiras vítimas fatais do golpe. Só no quartel de Carapicuíba, interior do estado de São Paulo, executou-se todo um batalhão de legalistas.

O heroico legalista marechal Teixeira Lott, liderança de todas as armas brasileiras, num gesto exemplar recolheu-se da vida militar. No entanto, a despeito da admiração que lhe devotavam, nem todos os legalistas puderam se conter perante o uso da farda contra a constitucionalidade da pátria. Ao contrário de JK quando em 1956 anistiou os militares golpistas da Aeronáutica no levante de Jacareacanga, não foram perdoados pelos colegas golpistas.

Houve quem acusasse Lott e Jango de covardes por sequer esboçarem resistência à quartelada, mas só depois da abertura dos arquivos do Pentágono, neste século, é que se soube quais foram os verdadeiros covardes, pois além dos dois paralelepípedos documentados pelo Cony a fantasia da “Revolução de 64” só teve coragem de desfilar na passarela da história quando acobertada pela “Operação Brother Sam”, culminada com o descolamento da frota da Marinha dos Estados Unidos sediada no Caribe para as costas do Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Segundo palavras do Congresso dos Estados Unidos, mais que um golpe a “Revolução de 64” foi um assalto armado à nação:

“O embaixador Lincoln Gordon admitiu mais tarde que a embaixada tinha dado dinheiro a candidatos anti-Goulart nas eleições municipais de 1962 e encorajado os conspiradores; que muitos agentes das Forças Armadas dos Estados Unidos e pessoal extra da agência de inteligência estavam operando no Brasil; e que havia quatro navios tanques e o porta-aviões USS Forrestal da Marinha dos Estados Unidos, numa operação de codinome Brother Sam. As forças estavam ao largo da costa e, em caso de necessidade durante o golpe de 1964, agiriam rapidamente.”

A “Operação Brother Sam” de fato foi deflagrada em 31 de março, quando a frota bélica estadunidense partiu do Caribe, mas os covardes paralelepípedos foram o maior “1º de Abril” no povo brasileiro. E por mais que se insista na fantasia não há como mentir nem omitir a nudez da covardia dos golpistas que, como tal, impudicamente entraram para a história envergonhando internacionalmente as Forças Armadas Brasileiras.

Com ou sem farda, de toga ou cotidiano traje civil, todo golpe está nu e tem medo da democracia que compromete a consecução de interesses escusos ou ameaça revelar atos ainda mais escusos. Mas qual seria o real interesse dos investimentos dos Estados Unidos?

Sem dúvida não haveria de ser a ditadura comunista de Fidel Castro, ali mesmo no Caribe de onde deslocaram seus vasos de guerra. Mas tampouco foi a Petrobras como em 1954, na tentativa do golpe frustrado pelo trágico suicídio de Vargas.

Ao contrário de quando se pretendeu privatizar a Petrobras como Petrobrax no ano 2.000, em razão das projeções indicarem a existência do Pré Sal, a segunda maior reserva do mundo; em 1954 não se tinha ideia do potencial petrolífero do subsolo brasileiro que entre 54 e 64 se comprovou insuficiente para a demanda do consumo interno, crescente com a implantação da indústria automobilística a partir de 1956.

De toda forma é possível imaginar que se ao invés do monopólio estatal se houvesse permitido que estrangeiros levassem nosso petróleo como então pretendia a UDN e hoje deseja o PSDB, não teríamos as enormes distâncias do país percorridas por automóveis e caminhões. Tampouco tantas estradas. Alimentos e produtos em geral seriam muito mais caros para compensar a importação de combustível.

Lembrando ainda que petróleo não é só combustível, mas matéria prima para confecção de quase tudo, inclusive como substitutivo de madeira. Ao contrário do que imaginam ecólogos desavisados ou estrategicamente utilizados, a degradação do meio ambiente seria ainda maior do que os recorrentes desastres na extração e vazamentos nos oleodutos, tão comuns nos anos do governo PSDB. Não há forma mais segura de evitar o desflorestamento amazônico do que o emprego do potencial petrolífero nacional como substituto de matérias-primas obtidas através de reais e profundos danos ambientais.

No entanto, segue a dúvida: Por qual motivo o investimento e custo do deslocamento da frota de guerra dos Estados Unidos? Apenas para não mudar o assunto, fiquemos na sequência do parágrafo anterior, lembrando de que na falta de qualquer controle do contrabando e exportação de madeira, o desmatamento amazônico alcançou recordes ao longo de toda a ditadura militar, provocando reiteradas advertências internacionais, sobretudo da imprensa do Canadá que mais denunciava o que então era considerado o maior crime ambiental praticado no mundo: o Projeto Jari.

Em área do tamanho do estado de Sergipe adquirida pelo megaempresário estadunidense e homem mais rico do mundo na época, Daniel Keith Ludwig, desde o Japão até a divisa do Amapá com o Pará se rebocou duas enormes plataformas flutuantes: uma fábrica de celulose e uma usina termoelétrica. Montadinhas e prontas para funcionar.

A imprensa mundial acusava o enorme crime ambiental permitido pela ditadura militar brasileira, enquanto a do Brasil, através de jornalistas como Elio Gaspari da Folha de São Paulo, protestava veementemente contra ingerências e exigências do governo ditatorial, considerando-as empecilhos à evolução de uma região pela qual nunca antes a Folha ou o Gaspari externaram a menor preocupação. Se é que sabiam em exatamente qual dos estados amazônicos se situava o Jari!

Por que a ditadura se incomodaria com Ludwig, se tão placidamente assimilava outros tantos empreendimentos como a instalação da Usina de Angra 1 pela Westinghouse que já apresentou problemas desde o início e por pouco não foi desativada? Talvez a realidade que a fantasia impedia Gaspari de enxergar tenha se desnudado quando de tanto a imprensa brasileira defender seus “bons propósitos”, repentinamente Ludwig desinteressou-se do negócio e o repassou para o governo da ditadura militar. Segundo o próprio trilionário, desde 1967 investira US$ 863 milhões. O general Golbery do Couto e Silva arrematou o empreendimento por US$ 1,15 bilhão em 1981. Um rendimento de mais de US$ 200 milhões em menos de 15 anos, como convém a quem em seu tempo construiu a maior fortuna do mundo.

Na onda das privatizações do governo PSDB, no ano 2000 a Jari Celulose passou a ser administrada pelo Grupo Orsa e desde então é considerada economicamente viável. Perdeu-se lá, acolá e aqui. Tirante comissões de praxe, quem ganhou? Ou, quem mais ganhou?

Foi em 1980 que, por mero acaso, um candango nordestino recém-chegado à São Paulo vindo do Jari me deu alguma pista para a resposta dessa pergunta quando quis saber o que fazia por lá. Laconicamente respondeu ter sido um “desmiola toco”. Dada a minha incompreensão, contou que ao longo de 6 meses (prazo máximo de contratação de serviços de brasileiros pelo empreendimento) retirou o centro de toras de árvores deixando somente o suficiente para sustentação da casca. Não pude compreender a utilidade e pacientemente discorreu sobre o preenchimento do oco das toras amazônicas desmioladas, com pedras. Dali transportada por barcaças que seguiam o rio até o porto de Belém de onde eram embarcadas em navio.

Não precisou dizer para onde e nem quais as propriedades ou valores minerais daquelas pedras, pois imediatamente recorri a um gravador acreditando haver encontrado um furo de reportagem que abalaria a imprensa canadense. Mas quando repassei a informação a outros colegas jornalistas, inclusive da Folha de São Paulo, sugerindo a publicação da entrevista-denúncia; perguntaram se estava pretendendo ser morto e que matassem o entrevistado?

Assim era ditadura por baixo da fantasia de “Revolução”. Mas quem de fato a rasgou não foi ninguém menos do que o General Ernesto Geisel: “...o que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções se fazem por uma ideia...”.

Acuse-se Geisel do que quiser, mas dele não se esperasse afetados ademanes para tentar convencer que por não esconder nada nas mangas, teria condições de ser o mágico do picadeiro do circo de golpistas. Não é nas mangas que se esconde ou se evidenciam os truques de corrupção e Geisel assumia sua função de ditador. Mas numa democracia só tem condições de ser presidente quem o povo elege. Se o eleito comprovar não ter condições para o cargo, caberá ao povo depor a quem elegeu. Nunca a esse ou aquele Roberto Marinho.

Paletós de fino corte e ademane de ilusionista ou mágico de circo de horrores não dá condições de ser nada além de elemento decorativo de internacionalmente reconhecido golpe, posto que presidente democrático só se reconheça em condição de eleito. Ainda que o eleitor por vezes se iluda com fancarias de megalômanos como no caso de Adolf Hitler, Jânio Quadros ou FHC, condições para governar só necessitam os elegidos.

Numa ditadura militar não se trata disso. Nem mesmo se faz necessário Procurador da República para engavetar processos ou juízes para vazar seletivos segredos de justiça e premiar denúncias de roteiro pré-estabelecido. Ditaduras militares dispõem de censura prévia e nenhum general precisa ficar jogando mãozinha pra cá e pra lá, fingindo-se indignado por denúncias do que a todos é evidente.

Militares não se preocupam em enganar a ninguém. Apenas se escondem atrás de óculos escuros e encaram o povo na cara dura e de queixo erguido. Tinham a franqueza de admitir preferência pelos cheiros dos cavalos ao do povo, sem fingir preocupações ou interesse com a realidade social do eleitorado. “Um tiro na cabeça!” – foi o que Figueiredo recomendou aos assalariados quando o repórter perguntou o que faria se mensalmente percebesse o salário que seu próprio governo definia. Bem mais honesto do que tentar convencer o eleitorado de que a escravidão abolida em 1888 será melhor por garantir pleno emprego.

Eleitores são de eleitos, não de golpistas. Se tivessem eleitores não precisariam armar golpe. Que prometam a extinção das leis trabalhistas em campanha eleitoral!

Entre toga ou traje civil, as fardas mentem menos, pois além da força das armas se mantêm com eventuais fantasias como a que maravilhou espectadores de farsas ocasionais com o nome de “Milagre Brasileiro”.

Entre 1968 e 1973 a farsa do “Milagre Brasileiro” fez o PIB saltar de 9,8% para 14%, mas a inflação subiu de 19,46% para 34,55%. Ainda assim, menos aviltante e degradante do que a farsa da terceirização, mero neologismo para moderna escravidão.

Em 1970 o Brasil se sagra tricampeão de futebol e aos ruídos da realização da fantasia esportiva do povo se misturaram os dos festejos pelo “Milagre Brasileiro”, encobrindo os gritos dos torturados nas masmorras ao longo dos chamados “Anos de Chumbo” quando a censura mais profundamente tolheu a liberdade de expressão, aumentaram os exílios, as prisões, os desaparecimentos e as mortes.

Por fim, quando se apresentou a conta o país descobriu-se com um déficit de US$ 8 bilhões. Os 5% mais ricos da população aumentaram a participação na renda nacional em 9%, detendo 36,3% do montante do rendimento do que era produzido no Brasil. Enquanto a participação dos 80% mais pobres diminuíra 8,7%, dividindo 36,8% do rendimento.

Aos 15% da classe média restou a divisão entre si de 26,9% da renda nacional. Mas como então cantava Gonzaguinha: “A classe média ainda aplaude, ainda pede bis. A classe média só deseja ser feliz.”

O que cantará a classe média terceirizada? Quanto restará à classe média que bateu panelas em prol do golpe em curso? Psicólogos, médicos, dentistas, professores, administradores de cursos particulares e profissionais liberais das mais diversas áreas já sentem a redução de clientes, alunos, contratos e agendamentos pela incerteza de seus clientes sobre quando será oferecida oportunidade de trabalho e remuneração. Pleno emprego de quantos em quantos meses por trabalhador?

Aí o analista econômico da imprensa neoliberal convence seu incauto leitor de que se a qualidade e a demanda declinar, o próprio sistema pressionará pela reversão do modelo. Por que o sistema haverá de se preocupar com qualidade? Por que se preocupar com a demanda interna, se o baixo custo da mão de obra aqui garantirá o consumo do mercado externo onde existe democracia para o povo requerer direitos adquiridos ao longo de sua história?

Como pleitear seguro desemprego, atendimento de saúde, férias, e demais regulações que garantam alguma participação na mais-valia do que foi produzido ou do serviço prestado? A participação no lucro? Quem lucra, além dos financistas do golpe? Por que ou para que se financia um golpe?

Financiamento de campanhas políticas revelam interesses corruptos, mas não necessariamente antagônicos aos da população. Se não antagônicos à população, porque os interesses dos golpes não são democraticamente postulados para eleição de projeto de governo?

Se o financiamento de campanha política promove corrupção, financiamento de golpe político promove o quê?

Sobreviver será o milagre. Enfim, a concretização da profecia de Ernesto Geisel: “- Vocês ainda sentirão saudade da ditadura.”

Durante a farsa do “Milagre Brasileiro se realizaram as chamadas “obras faraônicas”: Ponte Rio-Niterói, Usina de Itaipu, Angra 1 e a Transamazônica que 4 décadas depois continua não levando nada a coisa alguma. Até 1985 tudo isso provocou um aumento da dívida externa que era de US$ 4 bilhões em 1964 para o valor de US$ 100 bilhões que causticou o viver do povo brasileiro até 2005.

O que construirá o governo deste golpe em curso? Em 21 anos, apesar de uma dívida de U$ 100 bilhões ao menos deixaram uma estrada ainda que sem serventia, uma ponte que continua sendo a mais extensa do país, uma usina hidroelétrica que embora já não seja a maior é a mais produtiva do mundo e uma usina nuclear que agora funciona. Em oito anos o governo do PSDB elevou essa dívida para US$ 231 bilhões e construiu o quê?

O que construirão os do golpe em curso? Ou também irão apenas privatizar? Dos tais tantos ministros e do próprio golpista que os preside, todos acusados de desvios na Petrobras, quantos deram quantos interessados em ser redimir das corrupções cometidas?

Se por mágica se tornam insuspeitos, por que não tentar ilusionismos para nas urnas conquistar eleitores? Afinal, não foi o ilusionismo da mídia que elegeu o Caçador de Marajás?

Concluindo: apesar do bloqueio internacional que faz de Cuba um dos países mais pobres do mundo, anualmente a Ilha caribenha é indicada pela Organização Mundial de Saúde como exemplo internacional em atendimento de saúde pública e seus médicos participam de programas de cooperação internacional firmados com mais de 40 nações, inclusive capitalistas como o Reino Unido.

Há cerca de uma década Cuba também é anualmente indicada pela UNICEF como exemplo internacional de alfabetização e educação pública. E seus programas de cooperação internacional em alfabetização, firmados com países da África e da América Latina, também são notabilizados pelas entidades internacionais de educação.

Do golpe de 64, fantasiado como “Revolução” contra o comunismo cubano, herdamos uma ponte, uma usina hidroelétrica, uma estrada abandonada e uma usina nuclear que após onerosos reparos só pode operar em meados da década de 90. Com a dívida de 100 bilhões de dólares herdamos tudo isso ao derrubar a ditadura, afora a lembrança de centenas de pessoas mortas e desaparecidas e outras centenas de traumatizados e mutilados.

Cuba continua sendo comunista e agora com reatamento diplomático proposto pelos mesmos Estados Unidos da “Operação Brother Sam”. Mas o que interessa mesmo saber é o que herdaremos do golpe em curso?

Revoluções verdadeiras e até mesmo algumas ditaduras já promoveram reais e significativos avanços e conquistas sócio/econômicas, mas historicamente os golpes políticos, em quaisquer dos países onde se realizam, só deixam prejuízos que muitas vezes oneram várias gerações, inclusive as muito posteriores aos golpistas; comprovando que de farda, toga ou terno só o que há a esperar é o outro golpe que vem dentro de cada golpe.

E depois, mais uma vez, pagar a conta.

Raul Longo



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A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 3ª parte

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Na Europa, diretor da Fiesp compara Dilma a Al Capone e dá vexame ao defender o golpe

Zanotto, diretor da Fiesp
A vida lá fora, definitivamente, não anda fácil para os advogados do impeachment.

Fernando Henrique Cardoso foi atropelado na Al Jazeera. Agora é a vez de um diretor da Fiesp ser desmoralizado pateticamente.

Thomaz Zanotto, chefe do Departamento de Relações Internacionais e Comércio, Derex, esteve em Viena no dia 27 de junho, palestrando na sede da Câmera de Comércio da Áustria.

Foi “vender o Brasil”, como gostam os marqueteiros. Uma terra de oportunidades. Vamos todos nos dar bem. Vem ni mim que eu tô facim. O novo governo Temer é nossa porta para a modernidade.

Zanotto contava que a plateia fosse formada por aborígines dispostos a comprar seus espelhinhos. Não era.

Sua apresentação em power point está no site da entidade. De acordo com a boa descrição do vídeo postado no YouTube, que você assiste abaixo, ele já começou mal.

“Vocês têm que pensar em Al Capone. Ele não foi preso por causa dos assassinatos e crimes que cometeu, mas por causa de evasão fiscal. É a mesma coisa com Dilma Roussef. O impeachment é por causa de pedaladas fiscais”.

(Quem deu a ele mandato para se referir deste modo ao Brasil na Europa? Onde isso seria normal e aceitável?)

Zanotto não resistiu às perguntas da audiência e foi ficando nervoso. Repetia incessantemente o mantra: “Nós estamos seguindo a Constituição”.

O golpe de misericórdia aconteceu quando uma mulher perguntou a Zanotto “que tipo de garantias ele poderia dar a uma empresa num país que não respeita suas leis”.

Sua saída foi um piti estranhíssimo sobre as desgraças da “economia ideologizada” — como se a Fiesp fosse uma cantina italiana ou um ovo de dinossauro.

Há um outro problema para esse pessoal: assim como no caso da entrevista de FHC ao jornalista britânico Mehdi Hasan, existe uma outra barreira, além da farsa jurídica do impeachment em si, para esse pessoal emplacar sua tese no exterior: a língua.

Eles falam mal inglês. Bem pior do que eles mesmos pensam, o que é o erro fatal do monoglota. Quando confrontados, o resultado é um desastre.

Einstein definiu a loucura como o ato de fazer sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes. Caído por terra o conto das pedaladas, a estratégia virou a seguinte: gritar “Não é golpe!” o máximo possível de vezes, eventualmente tapando os ouvidos com as mãos. Por enquanto tem dado espetacularmente errado, mas vai que hora dessas um maluco acredita nisso.



Kiko Nogueira
No DCM
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O sumiço de Aécio é o fato político mais importante hoje no Brasil


Repetidas denúncias insinuam que a face de bom moço de Aécio Neves, sempre sorridente, esconde por trás um outro Aécio que, embora pressentido por muita gente,  só agora está vazando ao público. Se para seus eleitores, em todos esses anos, ele tem sido um exemplo de político honesto e novo estilo de fazer política, no universo paralelo, que o submundo da política vem revelando, a imagem que se reflete é muito diferente.

Mas por que tudo isso ficou oculto até agora? E por que continua semi-oculto ainda agora, já que por mais que se multipliquem, as denúncias não conseguem criar contra Aécio aquele clima social de escândalo e indignação que, como vimos repetidas vezes, foi fabricado contra Dilma e Luta. Toda vezes que o acusado é Aécio, as denúncias esbarram em um filtro que as amortece e desvitaliza. Qual é a explicação?

Pode ser que o ex-governador mineiro tenha as costas quentes. Aliás, a julgar pelo número e pela gravidade das denúncias, se forem verdadeiras, Aécio tem costas muito quentes, tão quentes que podem gerar energia suficiente para abastecer uma cidade brasileira de médio porte o ano inteiro. Ou iluminar durante a noite um aeroporto que consumiu milhões em recursos públicos para servir à meia dúzia de grandes fazendeiros. E tem mais: Aécio também tem pé quente, porque largando lá atrás nas pesquisas em 2014, por um golpe de sorte estranho, quase terminou eleito presidente. De onde vem esse calor?

O calor de Aécio vem da mídia.

A mídia trata Aécio com um carinho especial. Considerando o período de 2014 para cá, o tratamento amoroso envolveu muitas estratégias para anular o impacto de denúncias dirigidas ao presidente do PSDB. É verdade, sejamos justos, que a imprensa estampou as más notícias, ninguém escondeu nada. O problema é que hoje, na época do hipertexto, há formas de noticiar muito originais. É possível, por exemplo, postar uma manchete em letras garrafais que, contudo, mal o leitor pisque, já terá sumido do Portal.

Outras vezes, se adota o método contrário, colocando a chamada fixa mas em fonte tão pequena que, por mais que pisque, o leitor não consegue ler e desiste. Acontece também de uma denuncia em que dois personagens são arrolados, por exemplo, Aécio e Eduardo Cunha, venha apenas com o nome do segundo, com essa:

Cunha sem Aécio em Furnas

Outra forma de desfazer o feito e desinflar a realidade, quando o assunto é denúncia, é pôr no dia seguinte o indigitado Aécio exercendo o papel de político-chefe, comandante da oposição, impávido colosso da política brasileira. No dia 15 de junho, por exemplo, o UOL destacou um “flerte” entre Temer e Aécio. Isso não seria nada demais se, três dias antes, no dia 12, ele não tivesse sido objeto de denúncias muito graves. Ao invés de se enfatizar as denúncias, fez-se a opção de mostra-lo como agente político de primeiro plano discutindo uma “agenda de emergência para o Brasil”.

22 de março_Aécio e Temer_Depois de denúncias Delcídio Furnas Aécio

Quem faça o inventário das denúncias contra Aécio nos últimos anos, verá que são inseparáveis das estratégias da mídia para desviar o foco, amenizar os impactos, desconversar como se nada tivesse acontecido, ou fazer a cobertura com a ‘isenção’ e o ‘distanciamento’ com que cobriria um plesbiscito na Malásia. Por esse ‘distanciamento’, ela chega até a mais completa dissimulação, que é o que corre hoje diante do sumiço de Aécio.

A mídia resguarda esse sumiço à sete chaves, não o menciona, não dá qualquer indício dele, deixa Aécio ficar em paz na sua reclusão, como se tivesse tirado férias com a família. Não importa a responsabilidade social e política dele como principal ator da oposição, não existe a sua deserção diante de um eleitorado que espera por explicações, sequer existem motivos para explicações. Tudo se passa como se nada tivesse acontecido. Até como se Aécio nunca tivesse existido.

E isso aumenta a urgência da pergunta: Aonde está Aécio?

A resposta mais sensata parece ser que, se Aécio anda sumido, se ninguém recebe notícias dele, é porque a mídia o pôs em seu limbo e o mantém resguardado lá, evitando assim que, pela força das denúncias, ele passe direto às labaredas do inferno, isto é, à execração pública. Este lugar mais tórrido, como todo mundo sabe, está hoje reservado ao PT e aos políticos petistas.

É porque serve a reforçar as estratégias do golpe que, podemos dizer, o sumiço de Aécio é o fato político mais importante hoje no Brasil.

Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia, UFRJ, autor dos livros Lógica do disparate, Método e delírio e Lógica dos fantasmas, e professor do departamento de comunicação social da UFES.
No Cafezinho
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Odebrecht e OAS delatam Aécio Neves com prazer


A jornalista Mônica Bergamo informa que o senador Aécio Neves (PSDB-MG), presidente nacional do PSDB, está sendo delatado "com prazer" pelas empreiteiras Odebrecht e OAS, as duas maiores do País.

"De acordo com integrante da equipe que acompanha as delações, tanto executivos da Odebrecht quanto Léo Pinheiro, da OAS, acham que Aécio colocou fogo na Operação Lava Jato porque imaginava que ela só atingiria o PT. Pouco teria se importado com as empreiteiras", diz ela. "Recados enviados inclusive por Marcelo Odebrecht, que dizia ser amigo do tucano, teriam sido desprezados pelo mineiro."

Tanto Marcelo Odebrecht como Léo Pinheiro, ex-presidentes da Odebrecht e da OAS, avaliam que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) tocou fogo no circo imaginando que a Lava Jato atingiria apenas o PT — e não todo o sistema político brasileiro, levando junto as empreiteiras.

Pinheiro já mencionou a cobrança de propina de 3% nas obras da Cidade Administrativa de Belo Horizonte, nova sede do governo mineiro, e Marcelo também citará Aécio em seu acordo.

O tucano José Serra também estaria sendo delatado, mas com maior parcimônia, segundo a colunista, porque não teria incentivado a destruição das construtoras, como teria sido o caso de Aécio.

No 247
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O paradoxo do machado que só dá em Chico

Quando o pensamento único do antipetismo se transforma em uma piada de mau gosto.

Os procuradores do Ministério Público que atuam na Operação Lava Jato não são o Dr. Simão Bacamarte, mas, assim como o personagem inventado por Machado de Assis, a certa altura da vida passaram a enxergar no mundo somente dois tipos de pessoa.

Para o médico de “O Alienista”, havia os loucos e os sãos; para os procuradores, há os defensores intransigentes da Lava Jato e os inimigos do Brasil. Entre as categorias, nenhuma nuance.

Quando Bacamarte decidiu levar suas ideias ao extremo, ampliando desmesuradamente o território da loucura, quatro quintos da população de sua Itaguaí terminaram enclausurados no manicômio local.

Quando esse procuradores  fazem o mesmo com suas teorias, qualquer integrante de qualquer governo petista se transforma em um ladravaz, talvez treinado em Cuba, para desestabilizar o país e, além de se locupletar pessoalmente, se perpetuar no poder.

“A Operação Lava Jato não tem nada a ver com a moralização da Petrobras”, já ensinaram alguns agentes da Lava Jato. “É para tirar o país das mãos de uma organização criminosa infiltrada no governo federal — o PT”.

No maniqueísmo da Lava Jato, todo projeto do governo está a serviço da corrupção. E o combate à corrupção não tem valor se não afetar administrações do PT — pois integrará, nesse caso, um plano para debilitar os únicos defensores da soberania nacional — o Judiciário. Foi assim durante o mensalão, é assim no petrolão.

Em vez de fomentar a autocrítica dentro meio jurídico que representa, a força-tarefa da Lava Jato premiada pela Global Investigations Review (GIR), na categoria “órgão de persecução criminal ou membro do Ministério Público do ano” propõe ações que redundam em puros disparates. Com suas simplificações risíveis, seus integrantes, considerados uma referência para a investigação criminal, pouco ajudam e muito atrapalham a causa em que acreditam.

No conto “O Alienista”, após muito refletir sobre suas teorias, o médico curvou a cabeça e recolheu-se ele próprio ao manicômio. A Lava Jato não é Simão Bacamarte, mas, se considerar bem o estrago que tem provocado à governabilidade, estrago que contribuiu em muito para criar o clima que permitiu um governo Michel Temer, talvez venha a acusar a si própria de estar a serviço dos corruptos — sabe-se lá se treinada pelo FBI.

PS1: se você considerou o texto acima como parcial, raso e injusto com  a Operação Lava Jato em toda a sua complexidade e desdobramentos, está coberto de razão. O texto é tudo isso. Mas não é meu. É de um colunista convidado da Folha de São Paulo e se refere à professora Marilena Chauí.

Apenas mais um da série ”o diabo chama Chauí”.

PS2: este fim de semana, esta Oficina estará patrocinando uma sessão do filme de Peter Sellers “Um convidado trapalhão”.

Sérgio Saraiva
No Oficina de Concertos Gearis e Poesia
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Campanha da mídia pelo impeachment coincide com corte de publicidade


Dados sobre a publicidade feita pelo governo federal nos grandes veículos de comunicação em 2014 e 2015 apontam que a campanha da grande mídia pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff coincide com um grande corte na verba destinada a essas empresas no ano passado.

Em 2015, o governo Dilma cortou nada menos que R$ 206 milhões em publicidade da Rede Globo e suas cinco TVs abertas (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Brasília e Recife), de acordo com dados divulgados pelo jornalista Fernando Rodrigues, do Uol.

O montante cortado da Globo representa 34,9% de toda a verba publicitária reduzida pelo Planalto no ano passado — um total de R$ 591,5 milhões. A empresa da família Marinho é a que mais recebe publicidade do governo federal no meio televisivo, mas vem perdendo essa fatia anualmente desde o governo Lula.

A revista Veja, um dos veículos que mais defendeu a campanha do impeachment, perdeu 78% dos recursos de propaganda do governo federal — de R$ 21,2 milhões, em 2014, para R$ 4,6 milhões no ano passado. O gasto total com o seguimento revistas caiu de R$ 116 milhões, em 2014, para R$ 66 milhões (43%).

Enquanto isso, os jornais impressos — O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Valor Econômico — receberam R$ 55,8 milhões a menos em 2015. Já o gasto do governo com as versões digitais desses jornais cresceu no ano passado. O meio internet foi o único cuja destinação publicitária cresceu no ano passado.

Confira os números aqui.

No 247
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Programa Informativo Paralelo - #8 — Cultura na Mídia Conservadora


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Golpe de Estado 2.1


O verbete “Golpe de Estado” do “Dicionário de Política”, coordenado por Norberto Bobbio, apresenta a ideia de que, ao longo da evolução histórica dessa expressão, há um único elemento que se manteve invariável: todo Golpe de Estado é realizado por órgãos do próprio Estado.

Mais adiante, no mesmo verbete, aparece a afirmação de que, nos dias atuais, seria impossível a ocorrência de um Golpe de Estado sem a participação ativa de algum grupo militar ou sem, pelo menos, a neutralidade das Forças Armadas.

Partimos destas premissas para questionar argumentações correntes no debate político brasileiro de que o afastamento da Presidente Dilma Rousseff não teria se constituído em um Golpe por terem sido seguidos os trâmites legais ou por não ter havido, aparentemente, uma ruptura institucional através do uso da força e de uma intervenção militar.

Ao se prender a modelos tradicionais do que seria um coup d’état, os que defendem tais perspectivas — por má-fé, interesse político ou conservadorismo teórico — ignoram deliberadamente as mudanças de sentido do termo nos últimos quatro séculos, assim como as características do que podemos chamar de uma “nova geração” de Golpes de Estado na América Latina que teve em Honduras e no Paraguai exemplos seminais.

A ordem internacional do pós-Guerra Fria passou a atribuir uma enorme importância, pelo menos no plano retórico, aos valores da democracia liberal, bem como à sua institucionalização política.

Neste sentido, inúmeros acordos internacionais firmados desde então, inclusive os que efetivaram a criação de blocos regionais, passaram a incluir a manutenção da institucionalidade democrática de seus signatários em algumas de suas cláusulas. Por exemplo, em 1998, através do Protocolo de Ushuaia, os Estados-membros do Mercosul estabeleceram a “Cláusula Democrática”, incorporada ao Tratado de Assunção, de 1991, que reiterou o compromisso de seus membros com o Estado Democrático de Direito, prevendo a suspensão do Estado em que a chamada “ordem democrática” seja rompida.

Assim, esse ambiente internacional criou dificuldades para a ocorrência de Golpes de Estado clássicos realizados, via de regra, através das Forças Armadas ou mesmo Forças Auxiliares. Isto abriu caminho para o surgimento de um novo tipo de golpe utilizando outros órgãos do Estado, como o poder judiciário (no caso hondurenho, em 2009) ou o parlamento (no caso paraguaio, em 2012), o que traveste o fenômeno com uma aparência de normalidade institucional e de cumprimento dos trâmites democráticos.

O golpe em curso no Brasil se encaixa nesta nova geração de coups d’état. A articulação entre setores do judiciário e forças políticas conservadoras representadas no parlamento, contando com forte apoio midiático, derrubaram — ainda que provisoriamente — um governo democraticamente eleito, utilizando uma argumentação jurídica, técnica e política, no mínimo, frágil.

Neste processo, as Forças Armadas mantiveram uma aparente neutralidade que, levando-se em conta o forte componente conservador nelas existentes, sequer pode ser compreendida como um apoio à democracia.

Para além disto, os primeiros movimentos do governo interino deixam claros os interesses econômicos, políticos e sociais por trás do Golpe, quando esse se propõe a implementar um programa de governo composto de medidas impopulares e que dificilmente teria sido sufragado pelo voto popular, caso tivesse sido submetido a um amplo debate nacional ao longo de uma campanha eleitoral.

Portanto, se o afastamento de Dilma Rousseff utilizando-se de tecnicalidades, forte atuação do judiciário e manobras parlamentares, por si só, já caracterizaria um golpe, no novo sentido do termo, o conteúdo das propostas do governo Temer (ele mesmo, inelegível) só serve para escancarar ainda mais o seu caráter golpista.

Nos inícios do Estado-Nação, na Europa do século XVIII, a expressão “Golpe de Estado” era compreendida como uma ação excepcional contra o direito comum em nome da salvação do próprio Estado.

Só que no século XXI já está mais do que consolidada a ideia de que o “Estado” não é uma entidade abstrata, mas sim uma instituição complexa, conformada por forças políticas, econômicas, sociais, raciais e de gênero que têm condições materiais, legais e morais para governar. Desse modo, falar em “salvar o Estado” significa explicitamente a defesa de um projeto de sociedade em detrimento de outros.

Trata-se de uma batalha na qual se lançam os mais diversos argumentos (“combater a corrupção”, “contornar a crise econômica”, “manter a ordem”) para legitimar a espoliação do Estado, a continuidade das desigualdades sociais, a perda de direitos, a aprovação de leis de segurança ainda mais repressivas.

Logo, nos dias de hoje, o sentido mutante do conceito de “Golpe de Estado” opera nova camuflagem sob as vestes da “legalidade constitucional” e se concretiza através de mecanismos institucionais como, por exemplo, o impeachment.

Mas, como se sabe, é próprio das Constituições liberais a previsão do “estado de exceção” em nome da salvação do próprio Estado e da “democracia”.

A “ruptura política”, dessa forma, é algo que os malabarismos jurídicos dão conta de legitimar, quando os interesses em jogo são golpistas.

Por isso, “golpes parlamentares”, “golpes brancos” ou “soft coups” são atualizações contemporâneas de propósitos conservadores — e por vezes, como agora, francamente reacionários — que visam a defender um modelo político e socioeconômico enquanto impedem ou sufocam outros.

Portanto, o que está em curso no Brasil é de fato um golpe, apesar da existência de um processo no parlamento e dos militares não estarem nas ruas (ainda que as PMs sim, e com muita violência).

Não é mais com meras quarteladas que os golpes se dão na América Latina. E não é assim como, agora, acontece esse no Brasil.

Adriano de Freixo e Thiago Rodrigues são professores do Instituto de Estudos Estratégicos/INEST da Universidade Federal Fluminense/UFF.

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