25 de jun de 2016

Bichas, o documentário


Esse filme fala, antes de tudo, de amor. Para ser mais exato: de amor próprio. A palavra BICHA vem sendo usado de forma errada, como xingamento. Quando na verdade, deveríamos tomar como elogio.

Ser bicha é correr o risco de ser agredido pela ignorância. Resistimos para nos proteger, resistimos para vencer.

Ser bicha é ser livre.

Não vamos deixar que nos vençam. Não mesmo!

Criado, dirigido e editado por Marlon Parente.

Com Bruno Delgado, Igor Ferreira, Italo Amorim, João Pedro Simões, Orlando Dantas e Peu Carneiro.

Todos os depoimentos contidos nesse filme são experiências vividas pelos próprios participantes.

Recife - PE


No Claudicando
Leia Mais ►

PF investiga senador Ronaldo Caiado após denúncia cifrada

Tramita, sob alto sigilo, na Polícia Federal (PF) a denúncia de que o senador por Goiás Ronaldo Caiado seria dono oculto de empresa que internaliza recursos remetidos por brasileiros na Austrália

O senador alega que o prédio em questão não é o local fixo
de trabalho da servidora Meiry
Alvo de uma série de denúncias, nos últimos dias, o senador goiano Ronaldo Caiado (DEMo) — líder da extrema direita no Congresso — está na alça de mira do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Nota divulgada pelo ex-senador Demóstenes Torres, disseminada pela mídia nesta sexta-feira, soma-se às suspeitas de que Caiado teria recebido recursos ilícitos de um esquema de lavagem de dinheiro que passa por empresas em Londres e Sydney, na Austrália.

Tramita, sob alto sigilo, na Polícia Federal a denúncia de que o senador por Goiás seria dono oculto de empresa que internaliza recursos remetidos por brasileiros na Austrália às famílias, a maioria delas residente em Goiás. O possível vazamento dessa informação para Torres seria a base da ameaça cifrada, aberta nesta manhã:

“Essa madrugada fez Ronaldo perder a voz, mas o decorrer dos dias próximos o fará perder o mandato”, disse Torres. “A partir de agora a Justiça vai resolver a minha situação e a dele. Reafirmo tudo o que disse. A minha agonia está no fim e a de Ronaldo Caiado apenas se iniciando. Tenho dito”, acrescentou o ex-senador.

Leia a nota de Demóstenes Torres:

“Ronaldo Caiado, à míngua de qualquer argumento, partiu para a adjetivação. Deu uma sapituca, reconheceu quase todos os fatos que apresentei, tentando lhes dar um ar de normalidade. Traz apenas três pontos novos e inverídicos: que eu tenha chorado perante ele e dispensado sua lealdade; que tenha Eurípedes Barsanulfo contido o então diretor-Geral da Polícia Civil, Marcos Martins, em uma suposta invasão do meu gabinete na Secretaria de Segurança Pública; e que o meu suplente de senador José Eduardo Fleury tenha tentado me chantagear.

“Quanto ao primeiro, ninguém jamais me verá nessas condições. Além do quê, Caiado acredita que o sentimento de lealdade é apenas uma doença de cachorro. No segundo, ainda que fosse verdade, o que nego, nunca pedi para que comprassem minhas brigas. Sempre fui homem o suficiente para enfrentar os meus próprios desafios. O terceiro é apenas mais uma da safra caiadista de invencionices. José Eduardo Fleury foi um suplente honesto e dedicado, a quem sempre respeitei.

“O senador comete um ato falho. Eu jamais disse que Agripino Maia teve qualquer esquema com o Detran. Ou teve, Caiado? Sua mitomania atravessa todas as frases e se consubstancia na afirmação de que os integrantes da CPI ouviram 250 mil horas de gravações e o inocentaram. Isso seria o equivalente a passar mais de 28 anos ouvindo, 24 horas por dia, todos os grampos da Operação Monte Carlo. É apenas mais uma fantasia construída para dar ar de veracidade à personagem que o senador canastrão representa.

“Essa madrugada fez Ronaldo perder a voz, mas o decorrer dos dias próximos o fará perder o mandato. Não adianta grunhir porque se gritaria resultasse em algo, os porcos não morreriam daquela forma. E repito: comigo é nos termos que já propus, exceto em uma disputa intelectual, porque cérebro Caiado não possui. Aguarde. Quem viver, verá.

“A partir de agora a Justiça vai resolver a minha situação e a dele. Reafirmo tudo o que disse. A minha agonia está no fim e a de Ronaldo Caiado apenas se iniciando. Tenho dito”.

Caiado x Demóstenes: briga antiga


Demóstenes Torres, logo após a perda do mandato em 2011, no Senado, acusou o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado por associação ao contraventor Carlos Cachoeira nas campanhas que disputou à Câmara Federal nos anos de 2002, 2006 e 2010. Segundo Demóstenes, as digitais da contravenção seriam facilmente identificadas com uma investigação nas contas de material gráfico, de transporte aéreo e de gastos com pessoal.

Caiado refutou as acusações, mas não impediu que Torres seguisse com as denúncias. O ex-senador contou que Caiado era amigo de Cachoeira e médico do filho do contraventor, que recorre de uma condenação de primeira instância a mais de 39 anos de prisão pela Operação Monte Carlo da PF, deflagrada em 2012, e que resultou na cassação de Demóstenes e na CPI do Cachoeira, que não obteve resultados concretos.

— Ronaldo, fazia sim, parte da rede de amigos de Carlos Cachoeira, era, inclusive, médico de seu filho. Mas não era só de amizade que se nutria Ronaldo Caiado, peguem as contas de seus gastos gráficos, aéreos e de pessoal, notadamente nas campanhas de 2002, 2006 e 2010, que qualquer um verá as impressões digitais do anjo caído. Siga o dinheiro — recomenda Torres.

Investigadores da PF seguiram o conselho de Demóstenes e teriam chegado à capital australiana, segundo informou uma fonte à reportagem do Correio do Brasil, residente em Sydney, acerca do possível envolvimento do senador em um esquema gigantesco de lavagem de dinheiro. Demóstenes também citou, em um pronunciamento no ano passado, um suposto “esquema goiano” que teria financiado a campanha do presidente nacional do DEM, senador José Agripino Maia (RN), e outros integrantes da chapa, que elegeu ao governo potiguar a então senadora Rosalba Ciarlini.

— Caiado não ousou me defender, me traiu, mas, em relação a Agripino Maia, figura pouquíssimo republicana, disse que ele merece o benefício da dúvida. Poucos sabem, mas o político potiguar e seus companheiros de chapa em 2010 foram beneficiados pelo ‘esquema goiano’, com intermediação de Ronaldo Caiado — disse Demóstenes.

E fez outras ameaças:

— Me deixe em paz, senador. Continue despontando para o anonimato. É o seu destino. Não me move mais interesses políticos. Considero vermes iguais a você Marconi Perillo e Iris Rezende. Toque sua vida, se fizer troça comigo novamente não o pouparei. Continue fingindo que é inocente e lembre-se que não está na sarjeta porque eu não tenho vocação para delator — concluiu.

No Correio do Brasil

Veja também:

Demóstenes Torres entrega os podres de Ronaldo Caiado (+vídeo)

Demos vs Demos

Demóstenes diz que prova no STF acusações a Caiado
Leia Mais ►

Empresário confirma propina a amigo de Temer, mas MP rejeita delação


Em uma proposta de delação premiada com a força-tarefa da Operação Lava Jato em Curitiba, o empresário José Antunes Sobrinho, um dos donos da construtora Engevix, é categórico ao afirmar que o presidente interino Michel Temer recebeu uma propina de R$ 1 milhão, paga pela Engevix, pela obtenção de um contrato no valor de R$ 162 milhões para as obras da usina de Angra 3. 

Segundo Antunes Sobrinho, o principal contrato de Angra 3 com a Eletronuclear, no valor de R$ 162 milhões, foi vencido pela empresa de arquitetura Argeplan, cujo sócio é o ex-coronel da Polícia Militar João Baptista Lima Filho, descrito por várias pessoas como "homem de total confiança de Michel Temer". Pelo acordo que teria sido firmado, a Argeplan se comprometeu a subcontratar a Engevix para realizar a obra. Em troca, a empreiteira pagaria R$ 1 milhão para "suprir interesses de Michel Temer", de acordo com Antunes. Informação foi revela na edição deste fim semana da revista Época. 

Segundo Antunes Sobrinho, o pagamento da propina a Temer foi feito por meio de uma prestadora de serviços da Engevix, a Alúmi Publicidades, que prestava serviços de mídia para o aeroporto de Brasília, controlado pela Engevix. Segundo a Época, A Alúmi fez o pagamento à empresa PDA Projeto, de propriedade do coronel João Lima. As duas empresas confirmam a transação, mas negam se tratar de propina. 

De acordo com a proposta de delação de Antunes, Lima ganhou a licitação para a obra em Angra 3, em maio de 2012, por ter forte influência sobre Othon Pinheiro, presidente da Eletronuclear nos governos Lula e Dilma. Temer e Lima eram responsáveis pela manutenção de Othon no cargo, diz Antunes em sua proposta de delação. 

O ex-dirigente da Engevix diz ainda que chegou a se encontrar com Coronel Lima e com o próprio Michel Temer no escritório do presidente interino no Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo. Houve pelo menos dois encontros, de acordo com a proposta de delação. 

Advogados de Antunes tentam, desde novembro do ano passado, fechar um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. Mas a proposta foi recusada formalmente pelo colegiado de três procuradores que representava o procurador-geral, Rodrigo Janot. O Ministério Público não informa oficialmente o motivo da recusa às revelações de Antunes, que só podem ser usadas como ponto de partida em investigações criminais caso seja assinado um acordo.

No 247
Leia Mais ►

Os contratos milionários sem licitação da Consist com gestões tucanas


A Operação Custo Brasil, desdobramento da Lava Jato que prendeu o ex-ministro Paulo Bernardo, nesta quinta-feira (23), revelou um esquema de corrupção na contratação da empresa Consist Software Ltda, entre os anos de 2009 e 2010, pelo governo federal para gerenciar empréstimos consignados de servidores públicos. O esquema que movimentou cerca de R$ 100 milhões consistia no pagamento de R$ 1 à Consist para cada parcela paga pelos servidores. A empresa teria ficado com 30% do desvio e outros 70% seriam repassados a envolvidos indicados por João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT.

O GGN apurou que os contratos públicos com a Consist Software não começaram em 2009 e tampouco a nível federal. Foi o então prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), em 2005, que trouxe a companhia para o rol de licitações e contratos, levando a empresa, ainda, para a gestão tucana a nível estadual, nos anos de 2007 a 2010.

São os registros nos Diários Oficiais que contam as histórias. 

No último ano da gestão de José Serra na Prefeitura de São Paulo e às vésperas de seu mandato no governo estadual, a Consist Software Ltda. aparece no Diário Oficial do Estado como a empresa contratada para o direito de uso de um software, por R$ 1.682.971,68, descrita na modalidade "inexigibilidade de licitação". 

O tipo de modalidade é a que desobriga a Poder Executivo a realizar concorrência ou processo de licitação com outras empresas. A única justificativa para essa modalidade é quando não há competidores. A contratação foi publicada no dia 19 de abril de 2006.


No dia 4 de janeiro de 2007, o Diário Oficial Empresarial de São Paulo traz outras novidades positivas para a Consist. A empresa conseguiu fechar outros dois contratos, em outubro de 2006, com a Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo.

O primeiro deles, para a prestação de "Upgrade e Suporte Técnico com manutenção de produto para ambiente IBM 2064-2C3", um serviço que teria vigência de dois anos e, novamente, na modalidade de contratação que elimina a possibilidade de concorrência de outras empresas interessadas. O valor fechado foi de R$ 1.320.779,52.

No segundo, publicado na mesma página do Diário, era para prestar serviço similar, mas para outros produtos. O valor foi quase seis vezes maior: um contrato de dois anos por R$ 6.807.401,76.


No dia 27 de março de 2007, a Companhia de Processamento de Dados do Estado modificou o tipo de concorrência, desta vez, para um pregão. O Serviço era outro: "Aquisição de cessão de licença de uso permanente de Software para Solução de Disseminação de Informação para 2 mil usuários, serviços de instalação, treinamento e suporte telefônico". A ganhadora, curiosamente, foi a Consist Software Ltda, por oferecer o menor preço: R$ 45 mil.


Naquele mesmo mês, os diários oficiais, agora na seção Legislativa, divulgaram uma investigação contra um dos contratos fechados com a Consist em outubro de 2006: aquele que a empresa angariou mais de R$ 6 milhões. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo questionava justamente a modalidade "inexigibilidade de Licitação" para o contrato milionário. 

O resultado do julgamento, no dia 20 de março de 2007, foram os votos favoráveis do relator Robson Marinho, do presidente Fulvio Julião Biazzi e do conselheiro Renato Martins Costa, que consideraram "regulares a declaração de inexigibilidade de licitação e o contrato, bem como legais os atos determinativos das correspondentes despesas". 


Mas os registros nos Diários Oficiais são apenas um recorte da história. A Consist Software atuou entre 1994 e 2012 em contratos diretos com órgãos ligados ao governo do estadual sem nenhuma licitação, obtendo um montante de mais de R$ 100 milhões. Além da PRODESP, foram fechados contratos com a Companhia Energética do Estado de São Paulo e com o extinto banco Nossa Caixa.

Meras coincidências?

Paulo Bernardo foi preso preventivamente por comandar o Ministério do Planejamento, quando teria ocorrido os desvios da contratação da empresa para gerir o crédito consignado de funcionários públicos federais com bancos privados. Paulo Bernardo teria recebido 80% dos R$ 7 milhões de recursos desviados pela Consist ao escritório de advocacia de Guilherme Gonçalves, jurídico da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), que também teve pedido de prisão decretada.

Os investigadores deflagraram a Operação Custo Brasil, após a delação premiada do ex-vereador do PT, Alexandre Romano, preso em agosto de 2015, na fase Pixuleco II da Lava Jato, por suspeita de operar o pagamento de propinas no caso. A delação foi realizada no âmbito da 6ª Vara da Justiça Federal de São Paulo. 

Também sustentaram as investigações os depoimentos do empresário Milton Pascowitch ao Ministério Público Federal (MPF). Além dele, foi a delação do ex-petista Delcídio do Amaral, em abril deste ano, que em posição de revanche aos filiados reforçou a tese de responsabilidade à Paulo Bernardo. 

Se, por um lado, as investigações desta fase indicam como a Consist atuava junto ao Poder Público na esfera federal, não sobram dúvidas sobre as semelhanças aos esquemas de contratações com o nível estadual e municipal tucanos, durante a gestão de José Serra.

A Consist foi investigada, neste atual desdobramento da Lava Jato, por receber montantes referentes a gestão de softwares a servidores públicos. A nível federal, os contratantes eram a Associação Brasileira dos Bancos (ABBC) e o  Sindicato Nacional das Empresas Abertas de Previdência Complementar (Sinapp). Nas gestões tucanas em São Paulo, foram a PRODESP (Companhia de Processamento de Dados do Estado de São Paulo).

No acordo fechado pela Consist junto ao Ministério do Planejamento, a empresa poderia gerir o sistema com acesso a dados relativos a mais de 2 milhões de servidores públicos, repassando comissões aos envolvidos e, em contrapartida, a empresa poderia "contratar indiretamente com o poder público sem qualquer procedimento licitatório prévio", apontou o próprio juiz da Lava Jato, Sergio Moro, na fase Pixuleco II, no último ano.

Com um detalhe: a diferença entre o mecanismo de atuação da Consist Software Ltda. nas contratações do governo federal para o estadual e municipal é que estes últimos ocorreram três anos antes do esquema envolvendo membros do PT, mas o possivelmente praticado na gestão PSDB ainda não virou foco de investigação.

Arquivo


Patricia Faermann
No GGN
Leia Mais ►

Líder do PMDB no Congresso admite que pedaladas foram desculpa para tirar Dilma


Depois do deslize do presidente em exercício Michel Temer, ao afirmar à imprensa internacional que tirou o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) da presidente afastada Dilma Rousseff para impedir que ela denunciasse ‘o golpe’ pelo país, agora, a líder do governo no Congresso Nacional, senadora Rose de Freitas (PMDB), admite que não houve pedaladas fiscais e que o motivo do impeachment é outro.

“Porque o governo saiu? Na minha tese, não teve esse negócio de pedalada. Eu estudo isso, faço parte da Comissão de Orçamento. O que teve foi um país paralisado, sem direção e sem base nenhuma para administrar. A população não queria mais e o Congresso não dava a ela os votos necessários para tocar nenhuma matéria. E o país não podia ficar parado”, afirmou em entrevista à Itatiaia.

A senadora acredita que o processo de impeachment no Senado não será revertido e que Dilma será afastada definitivamente na votação prevista para acontecer em agosto. “Eu fiz uma pergunta para aqueles que advogam pela reversão citando uma música do Caetano (Veloso) que diz ‘se foi para desfazer, porque fez?’”, argumentou.

“Se voltar esse quadro, o que você vai fazer? Vai ter um país parado outra vez? Não é possível”, completou.

Na opinião de Rose de Freitas, a equipe econômica de Michel Temer ouve mais o Brasil do que o grupo formado por Dilma. Sobre os escândalos que já afastaram três ministros escolhidos pelo presidente em exercício, a senadora se posicionou.

“Eu como presidente não levaria ninguém que tivesse qualquer processo, ainda que a pessoa fosse inocente, eu esperaria o tempo para ela provar sua inocência para depois voltar ou ser nomeada. Mas ele tinha mais proximidade e conhecia melhor essas pessoas do que eu. Portanto, acho que não comprometerá o presidente se ele estiver trabalhando com a folha corrida limpa e estiver disposto a ajudar o Brasil”, finalizou.

Ouça a entrevista exclusiva feita pelo repórter Walmor Parente



No Itatiaia
Leia Mais ►

Felicidade ou Morte - Clóvis de Barros Filho e Leandro Karnal

Imperdível


Leia Mais ►

A ultrajante sova da Folha em Londres!

A 'Fel-lha' levou 15 dias para dizer que os ministros são lavajateiros!​


Sue Branford began her career as a journalist by working in Brazil in the 1970s as correspondent for the Financial Times, the Economist and the Observer. On returning to the UK, she worked for the BBC World Service. She has published five books, including The Last Frontier — Fighting over Land in the Amazon and Cutting the Wire — the Story of the Landless Movement in Brazil, which was awarded the Vladimir Herzog human rights prize.
She is currently involved in a research project in the Amazon and is a volunteer editor at LAB.

Sue Branford começou a carreira de jornalista trabalhando no Brasil nos anos 1970 como correspondente do Financial Times, Economist e Observer. Ao voltar para a Inglaterra, trabalhou na BBC. Publicou cinco livros e um deles, sobre os Sem-Terra, recebeu o Premio Vladimir Herzog de Direitos Humanos.

Atualmente, ela trabalha numa pesquisa na Amazonia e é editora voluntária do LAB.

Para o Otavím, o Otavio Frias Filho, herdeiro da Fel-lha, ela tem “uma visão que corresponde à militância do PT”!

O que, em resposta, ela chamou de “outrageous”!

“Ultrajante”, “insultuoso”, sob aplausos!

Tratava-se de um debate sobre o PiG do Brasil realizado em Londres, provavelmente o ultimo a que o Otavím comparecerá — no estrangeiro, é claro, porque, aqui, é levado a sério.

O currículo de Sue Anderson dá de 10 a 0 no currículo do Otavim e de qualquer um de sua equipe de jornalistas (mal pagos).

Sue disse:

— como diz o Mino Carta, a mídia nativa é reacionária e conservadora, com relações umbelicais com o poder;

— cobertura distorcida do PiG (ela não usa essa expressão, mas é como se usasse) ajudou a derrubar a Dilma;

— na véspera do segundo turno, a Globo distorceu o debate Collor vs Lula - tudo de bom do Collor e tudo de ruim do Lula – e ajudou a eleger o Collor;

— o PiG quer o PT fora do poder;

— o problema não são os editoriais, mas as reportagens que distorcem as noticias;

— o Manchetômetro mediu a parcialidade da imprensa brasileira;

— o PiG manipula a opinião publica;

— na Amazônia, a TV Globo é a única fonte de informação;

— como se o PT fosse o único partido em que há corrupção;

— a Fel-lha omitiu que a Janaína Paschoal recebeu R$ 45 mil do PSDB;

— a Fel-lha levou quinze dias para informar que os ministros do Temer estavam na Lava Jato.

O Conversa Afiada achou indispensável traduzir a exposição de Sue Branford, a partir de um furo do Cafezinho, e de judiciosos comentários do Paulo Nogueira no DCM.

Em tempo: a tradução é de Cacá Melo.


Leia Mais ►

Temer: fragmentos do discurso autoritário


Em duas recentes entrevistas, o presidente interino Michel Temer soltou fragmentos de discurso reveladores da personalidade política que dele emergiu após assumir o governo. O conciliador de antes deu lugar a uma figura autoritária e soberba. Um semiólogo faria uma decupagem notável. Eu pinço apenas três pontos carregados de significados.

1 — “Eu não falo para baixo” — Na entrevista a Roberto Dávila (Globonews), perguntado se não iria processar Sergio Machado, que o acusou de ter pedido propina, ou doação eleitoral com recursos ilícitos, para o candidato Gabriel Chalita, Temer disse que não o faria pois isso seria "o que ele [Machado] mais deseja”. “Eu não vou dar esse valor a ele. Eu não falo para baixo", afirmou Temer.

Se fala apenas “para cima” deve ser com Deus. O que é falar para baixo? É falar para quem é hierarquicamente inferior? Ou para quem é moralmente inferior? Seja como for, a frase revela arrogância e pode ter sido um erro político. “Eu não falo para baixo” é uma frase semelhante a outras do “discurso autoritário” brasileiro, tal como a emblemática “veja com quem você está falando”.

Quem a profere está fazendo uma “fala do alto”, e assim ele deve sentir-se não apenas em relação a Machado mas a todos que estão “embaixo”. Ademais, o delator da Transpetro não é um criminoso desconhecido de Temer. Foi por muitos anos uma figura importante do PMDB, ocupando o cargo em nome do partido, não importa quem indicou. Chutar cachorro morto não é uma boa política. No caso, o cachorro está politicamente morto mas não fisicamente. Ainda pode latir e morder.

2 — “Não acho que vale a pena” — disse Temer na entrevista à Rádio Jovem Pan, quando perguntado sobre o eventual acolhimento do pedido de impeachment do procurador-geral Rodrigo Janot pelo presidente do Senado, Renan Calheiros. No entorno de Renan, a avaliação é de que Temer o deixou numa saia justa. No mínimo, fez uma espécie de censura prévia ao eventual acolhimento e ainda acrescentou, ao lembrar que Renan já arquivou outros pedidos contra Janot: “Tenho a sensação de que (Renan) não irá adiante”. 

Embora tenha dado sinais de que poderia acolher o novo pedido de impeachment do PGR, é sabido que a intenção de Renan era declarar-se impedido, por estar sendo investigado, passando o abacaxi para o vice-presidente do Senado, Jorge Viana. Mas agora, se fizer isso, seu gesto de grandeza poderá ser visto apenas como uma subserviência a Temer. Como as advogadas autoras fizeram adendos ao pedido, Renan adiou a decisão, pedindo o reexame dos advogados do Senado. Mas a saia justa ficou.

3 — “Tive informações de que a senhora presidente utilizaria os aviões para fazer campanha contra o golpe”, disse Temer a D’Ávila, ao falar da restrição por ele imposta às prerrogativas de Dilma, inclusive a de usar o avião presidencial. Mas esta já foi muito comentada. Foi ato falho mesmo. Saiu com naturalidade, não tendo ele sequer agregado um “suposto” antes do golpe.

Tereza Cruvinel
Leia Mais ►

Polícia Federal diz que Jucá mudou medida provisória a pedido de Gerdau

Romero Jucá, que foi ministro do governo Temer por breve período
Um relatório da Polícia Federal produzido durante a Operação Zelotes indica que o senador e ex-ministro (Planejamento) Romero Jucá (PMDB-RR) alterou o conteúdo de uma medida provisória a mando do presidente do Conselho de Administração do grupo Gerdau, Jorge Gerdau Johhanpeter.

Trata-se da MP 627 de 2013, que impactava nas regras de tributação do lucro das multinacionais no exterior e da qual Jucá era relator-revisor. O texto foi aprovado pelo Congresso e sancionado pela presidência da República com ao menos uma alteração idêntica a que foi sugerida pela Gerdau.

É a primeira vez que vem a público a participação direta de um senador nos fatos investigados pela Zelotes.

Para a PF, o material "indica possíveis práticas de negociação ilegal de medidas provisórias[...], tendo como contraprestação doações eleitorais, com elementos que apontam para a participação de condutas (em tese, criminosas)" de Jucá e dos deputados Alfredo Kaefer (PSL-PR) e Jorge Côrte Real (PTB-PE).

A troca de emails que chamou a atenção dos investigadores começa no dia 27 de fevereiro de 2014, cerca de dois meses antes de a MP ser aprovada pelo Congresso.

Naquela data, o gabinete do senador envia a Jorge Johannpeter uma mensagem com um trecho da MP. O executivo encaminha o email ao seu consultor jurídico e recebe o que, segundo a PF, era a minuta da resposta que ele endereçou a Jucá.

Nela, o assessor acrescenta um outro parágrafo e diz que o texto do parlamentar, como foi enviado, "não atende plenamente", já que apenas uma das emendas de interesse do grupo havia sido incluída.

A Folha confirmou que o parágrafo acrescido pelo consultor jurídico da Gerdau consta na versão final do texto da lei. O trecho em questão diz o seguinte: "Aplica-se o disposto no caput aos débitos ainda não constituídos que vierem a ser incluídos no parcelamento de que trata o art. 40 da Lei no 12.865, de 9 de outubro de 2013." Os investigadores não fazem uma avaliação técnica sobre a importância da inclusão no texto.

No caso dos deputados Kaefer e Côrte Real, eles assinam três emendas cujas aprovações foram defendidas por Johhanpeter junto a Jucá e ao Ministério da Fazenda. Os investigadores não detalharam se alguma delas foi acatada. A Folha não encontrou no texto da lei as propostas contidas nessas emendas.

O relatório policial salienta que só um dos braços do grupo Gerdau doou R$ 27,3 milhões a partidos políticos em 2014, "destacando-se como maiores recebedores, nessa ordem, PSDB, PT, PSB e PMDB", esta última a sigla à qual Jucá é filiado.

Informa ainda que Côrte Real foi beneficiado com uma contribuição de R$ 50 mil do grupo. Nas prestações de contas de Jucá e Kaefer referentes àquela corrida eleitoral, não há registros de doações feitas pela Gerdau.

Os emails foram apreendidos na sede da Gerdau, no Rio Grande do Sul, onde os policiais cumpriram mandado de busca e apreensão durante a fases da Zelotes deflagrada no dia 25 de fevereiro deste ano.

Na ocasião, o presidente da companhia, André Gerdau, foi conduzido para prestar depoimento. No mês passado, ele e outras 18 pessoas acabaram indiciadas pela PF.

Executivos do grupo são suspeitos de terem pago propina a integrantes do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais), órgão vinculado ao Ministério da Fazenda e responsável por julgar autuações aplicadas pela Receita Federal aos contribuintes.

Os principais alvos da Zelotes são o esquema descoberto no Carf e indícios de venda de três medidas provisórias — entre elas a 627.

Como os emails apreendidos envolvem dois deputados e um senador, todos com prerrogativa de foro, a PF enviou um ofício com todo o material coletado à Justiça Federal em Brasília. No despacho, pede ao juiz de primeiro grau que o caso ao STF (Supremo Tribunal Federal), a quem compete analisar a possibilidade de abertura de inquérito para investigar a conduta dos parlamentares.

Outro lado

Em nota, a Gerdau informou que participou de forma legítima "de discussões sobre a bitributação de lucros provenientes do exterior", tema contido na MP 627. Acrescentou que o debate se deu "em conformidade com a lei [...] e foram lideradas por entidades de classe e em conjunto com outras empresas de atuação internacional".

O deputado Alfredo Kaefer afirmou que suas emendas citadas pelos investigadores nem sequer foram aprovadas. "Fiz dezenas de emendas em matérias da área econômica, mas nunca a pedido de ninguém. Não negociei absolutamente nada com Romero Jucá nem com a Gerdau, que deve ter visto minha proposta e achado interessante para o setor deles", especulou.

O deputado Jorge Côrte Real afirmou que não apresentou propostas por orientação de Jucá nem da Gerdau, mas que prefere não se pronunciar até ter acesso às suspeitas contra ele.

A Folha tentou diversas vezes entrar em contato com o senador Romero Jucá e sua assessoria, que sugeriu que o advogado do parlamentar fosse acionado. O defensor disse não ter conseguido falar com seu cliente.

Gabriel Mascarenhas
No fAlha
Leia Mais ►

Ciro Gomes ao DCM: “Serei candidato em 2018 se o Lula não for”


Ciro Gomes, pré-candidato à presidência pelo PDT, deu uma entrevista exclusiva ao programa do DCM na TVT.

Morando no bairro do Itaim, em São Paulo, reclamando da agenda pesada (tem viajado e palestrado por todo o Brasil; na semana seguinte iria a Washington), Ciro conversou comigo, com o diretor Max Alvim e com o apresentador Marcelo Godoy, o “Gogó de Ouro”.

Ciro, que nunca foi de facilitar com adversários e mesmo aliados, tem batido pesado no golpe. Temer e Cunha são seus alvos prediletos. “Chamei Cunha de ladrão na cara dele”, diz, gesticulando para mostrar a distância entre ele e o bandido na Câmara.

Ele, que já se definiu como “o homem da crise: quando dá merda me chamam” avisa que só não entraria na disputa em 2018 se Lula entrar. “Lula é maior do que eu”, diz ele, que não vê sentido em dividir os votos da esquerda. Ser vice de Lula está fora de questão, por ora.

Não há condescendência com Lula. Ele “deixou roubar”, governou com esse PMDB e é também responsável pela indicação de Michel Temer para o lugar de vice na chapa de Dilma.

O empate de Lula com Marina Silva nas últimas pesquisas de opinião é motivo de lamento e não de comemoração. “Ele quis brincar de Deus”, afirma.

Ciro havia sido convidado, juntamente com o ex-ministro Bresser Pereira, para defender Dilma na comissão do impeachment no Senado. O depoimento deles foi cancelado.

“Eu não ia lá para brigar”, garante ele. Esse estilo, o mundo sabe, atrapalha sua ambições. Mas é mais forte do que ele.

Ele continua mantendo uma relação de conselheiro de Dilma. Se ela acata seus conselhos, são outros quinhentos. Aparentemente, não. Quando Michel Temer vazou sua carta idiota para um jornalista amigo e a conspiração saiu definitivamente do armário, Ciro conta que sugeriu a ela: “Liga pra ele aí e diz que vamos partir pra cima”.

Nada foi feito. Segundo Ciro, ele tem cópias de processos de Temer, a quem atribui um histórico de corrupção desde tempos imemoriais.

“O cara colaborou com os americanos. Tá no Wikileaks”, afirma. “Puta que o pariu, o Barão do Rio Branco deve estar se contorcendo no túmulo”.

O plebiscito por novas eleições é uma “marinice”. Além da necessidade de uma PEC, “qualquer deputado, senador ou mesmo um cidadão, que se sentir prejudicado pela interrupção dos mandatos, pode ingressar com uma ação direta de inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal, que seria obrigado a intervir”.

Considera que a batalha no Senado não está perdida, apesar da ofensiva do interino com trocas de cargos e outras propostas.

Nutre uma admiração genuína por Dilma, uma pessoa “limpa” e “correta”. Sua briga é pela democracia. Sempre deixou claro, contudo, que se inclui entre os traídos com o segundo mandato. Sobre a dificuldade de  Dilma de fazer política, é direto: “Ela não é do ramo”.

“Quando um golpe acontece, tudo fica à margem da lei. Como é que um ministro do Supremo faz discurso politico proibindo presidente de nomear ministro? O cara nem é réu”, diz, referindo-se a Gilmar Mendes e Lula.

“Acho improvável prender o Lula. Não tem culpa”, diz Ciro. “A solidariedade é o seguinte: eu quero formar um grupo de juristas e se eu entender que o Lula está sendo vítima de uma arbitrariedade, a gente vai lá, sequestra ele e entrega pra uma embaixada”.

Aécio está “morto”. Serra, nem tanto, em sua visão. E Ciro?

Outros trechos da entrevista serão postados ao longo da semana. O DCM na TVT passa aos domingos às 20h.




Kiko Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Operação Custo Brasil foi antecipada por Moro, sem saída


Três semanas exatas foi o tempo gasto pelo juiz federal substituto, Paulo Bueno de Azevedo, da 6ª Vara de São Paulo, para decidir por 11 prisões preventivas, 14 pedidos de depoimentos e 40 buscas e apreensões. A agilidade no processo 0005854-75.2016.4.03.6181, que prendeu o ex-ministo Paulo Bernardo, encontra explicação no também ágil, mas rigoroso trabalho empregado pelo juiz Sergio Moro, na raiz da Lava Jato, antecipando condenações futuras e não deixando espaços para outros tribunais atuarem, senão, como uma própria extensão de sua mira.

Os mandados da Operação Custo Brasil não foram resultados de um único despacho expedido por Bueno de Azevedo. Iniciaram-se pelo menos dez meses antes, ainda nas mãos da Vara Federal de Curitiba, passando pelo Supremo Tribunal Federal (STF), até chegar à primeira instância de São Paulo. 

Nesse percurso, a atuação antecipada de procuradores da República, de delegados da Polícia Federal e do juiz Sérgio Moro foi determinante para o desfecho desta quinta-feira (23).

Tudo começou com a Operação Pixuleco II, deflagrada no dia 13 de agosto de 2015. Foi a 18ª fase da Lava Jato, em continuidade às investigações contra o ex-ministro José Dirceu. Naquele dia, o juiz da Vara Federal de Curitiba, Sergio Moro, determinou a prisão de Alexandre Romano, ex-vereador de Americana (SP), apontado como o novo operador de propinas do PT.

Na decisão que determinava a prisão do ex-vereador, Moro trazia o leque de informações que a sua equipe de delegados e procuradores tinha sobre o caso e, automaticamente, o recorte feito pela Justiça do Paraná:

"Os mandados terão por objeto a coleta de provas relativa à prática pelos investigados dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, além dos crimes antecedentes à lavagem de dinheiro, especialmente o pagamento de propinas pelas empresas do Grupo Consist (Consist Software, Consist Business e SWR Informática) a agentes públicos ou a partidos políticos", decretou Moro, naquele mês.

Mas, o que se vê na decisão de Sérgio Moro é que o recorte para os contratos do grupo Consist com governos do PT ocorreu a partir de uma delação premiada e por restrição das apurações anteriores dos delegados e procuradores da força-tarefa, nas fases que antecederam, mirando em José Dirceu e outros quadros petistas.

No despacho, Moro confirma que a Consist Software tinha "contratos com a Administração Pública" que foram "utilizados para repasses de propinas a agentes públicos e a partidos políticos". Nesta quinta-feira (23), o GGN mostrou que a mesma empresa movimentou milhões em contratos sem licitações com governos tucanos na cidade e no Estado de São Paulo.

Mas os materiais de prova só foram aprofundados no caso restrito junto ao Ministério do Planejamento em governos do PT. O que motivou, além do próprio caminho traçado pelos investigadores da Lava Jato, foi a delação premiada do lobista Milton Pascowitch, que assumiu que uma de suas empresas, a Jamp, simulou contratos de consultoria de R$ 15 milhões com a Consist e responsabilizou o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, como o destinatário do montante.

Parte dessa propina teria sido paga ao ex-vereador Alexandre Romano e outra parte a Pascowitch. O empresário está em prisão domiciliar desde que assinou o acordo com as autoridades e entregou o recorte das irregularidades nos contratos em gestões petistas. 

Naquele instante, Sergio Moro já adiantava a tese que dez meses depois produzia a Operação Custo Brasil. O magistrado do Paraná disse, em sua decisão:


E junto a Milton Pascowitch, a equipe de Moro conseguiu as provas que beneficiariam em redução da pena do lobista: além da delação, o empresário forneceu comprovantes de notas fiscais emitidas por empresas, algumas com relação direta com o segundo lobista Alexandre Romano, junto ao Grupo Consist.


Desde aquele momento, independentemente dos rumos à frente que o desmembramento das ações causariam, Sergio Moro já produzia provas contra as gestões do PT, que não poderiam ser desfeitas ou ignoradas por qualquer tribunal que assumisse o caso.

Outras constatações comprovam que o magistrado do Paraná sabia que poderia perder o comando deste caso, trabalhando para o avanço dessas provas antecipadamente.

Entre elas, a referência a um Ministério de governo e ao escritório de advocacia Guilherme Gonçalves & Sacha Reck, que atuou na área eleitoral da senadora Gleisi Hoffmann. Os delegados destrincharam todos os pagamentos feitos pela Consist Software naquele recorte delimitado. E encontraram que o escritório que poderia ter envolvimento com políticos do PT recebeu R$ 4.649.166,75 entre 2010 e 2013, R$ 1.201.394,11 entre 2013 e 2014 e R$ 423.291,46 no ano de 2012. 

Buscando o zelo de sua investigação, Moro afirmou que o escritório de advocacia não tinha "qualquer imunidade ou proteção legal quando há indícios de que o próprio advogado envolveu-se na prática de crimes". "Não está claro que os dirigentes desses escritórios participaram conscientemente da fraude ou de crimes supostamente perpetrados pela Consist e por

Alexandre Romano, mas a busca é necessária para esclarecer a causa desses pagamentos e o destino desses valores", disse, protegendo o andamento da coleta de provas.

Curiosamente, menos de sete dias depois da produção de indícios suficientes, somente então a PF revela que "acredita ter identificado o caminho de dinheiro supostamente ilícito até a senadora Gleisi Hoffmann". Os investigadores sabiam que, a partir daquele momento, o caso saía das mãos de Sergio Moro. Mas o trabalho já estava concluído:


Concluindo toda a exposição de provas, ao grupo do Paraná, não restou outra saída, se não a remessa dos autos ao Supremo Tribunal Federal (STF), por envolver a senadora com foro privilegiado. 

Ainda assim, em última tentativa de segurar o caso, Moro afirmou que "a referida Senadora é, aparentemente, apenas uma das beneficiárias" da propina "a dezenas de outras pessoas" e que, "se assim for este o entendimento do Egrégio Supremo Tribunal Federal, o processo seja desmembrado, possibilitando a continuidade da investigação e da persecução, perante este Juízo, dos investigados destituídos de foro privilegiado.

A partir daí, o percurso do processo já estava desenhado. Chegando ao Supremo, a Procuradoria-Geral da República chegou a apresentar denúncia contra o ex-vereador Alexandre Romano, apontado como lobista do caso.

Na resposta do plenário do STF, contudo, uma novidade: a Corte aceitou desmembrar o inquérito, mantendo os trechos que investigavam a senadora petista no STF. Mas o restante não permaneceria com Sergio Moro. Foi remetido à Justiça Federal de São Paulo. 

Se, por um lado, a decisão foi festejada pelo meio jurídico que criticava a concentração de poder de Moro sobre as investigações e as restrições a interesses específicos, por outro, nesta quinta-feira (23), constatou-se que o poder não foi de todo retirado do magistrado do Paraná. 

Isso porque, lado a lado, as decisões de Paulo Bueno de Azevedo, da 6ª Vara Federal de São Paulo, e de Sergio Moro, da 13ª Vara de Curitiba, foram meras reproduções. A Operação Custo Brasil não trouxe surpresas em relação à 18ª fase da Lava Jato. Dentro das limitações que detinha, o juiz de São Paulo tentou garantir direito de defesa, modificando, por exemplo, a condução coercitiva em depoimento voluntário. Mas quando a força-tarefa de Moro não deixou espaços para o grupo paulista, com os materiais de provas já concluídos, o resultado foi dar sequência ao que estrategicamente construiu o magistrado do Paraná quase um ano atrás. 

A opção que ainda detém Paulo Bueno de Azevedo, longe dos direcionamentos de Curitiba, é outra: expandir as investigações sobre as irregularidades da Consist Software, para além do nível federal e para além do eixo 2003-2014.  


Patricia Faermann
No GGN
Leia Mais ►

O legado dos 13 anos do PT no poder em seis indicadores internacionais


O aval do Senado à abertura do processo de impeachment contra a presidente, Dilma Rousseff, marca o fim de um período de 13 anos consecutivos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no poder no Brasil.

Com o afastamento de Dilma, Michel Temer, do PMDB, assumiu a Presidência interinamente. A petista pode ficar afastada por até 180 dias para que o Senado realize o julgamento definitivo sobre seu mandato.

Nesse momento marcado pelo fim de um importante ciclo político para o país, a BBC Brasil procurou especialistas e levantou indicadores internacionais para entender o legado dos 13 anos de governo de PT. Afinal, no que avançamos — e no que retrocedemos ou ficamos estagnados?

Abaixo, listamos seis índices-chave que ajudam a explicar como o Brasil de hoje pode ser comparado a outros países e ao Brasil de 13 anos atrás:

1. Ranking das maiores economias:

Em 2002, o Brasil ocupava a 13ª posição no ranking global de economias medido pelo PIB em dólar, segundo dados do Banco Mundial e FMI. Chegou a ser o 6º em 2011, desbancando a Grã-Bretanha, mas voltou a cair.

Hoje, é a 9ª maior economia do mundo de acordo com esse indicador, que sofre grande influência do câmbio — e, portanto, foi bastante afetado pela desvalorização do real.

Se considerarmos o PIB medido por Paridade de Poder de Compra (PPP), que procura, justamente, neutralizar esse efeito do câmbio, temos que o Brasil ocupou a 7ª e 8ª posição no ranking ao longo dos últimos anos.

Em 2003, subimos para a 7ª posição, ultrapassando a França. Em 2008, fomos ultrapassados pela Rússia. E em 2011 voltamos para a 7ª posição com a queda da Grã-Bretanha.

"No caso do PIB, o que comprometeu o resultado dos anos do PT no poder foi de fato a gestão Dilma — e em especial seu segundo mandato", diz Alessandra Ribeiro, economista da Consultoria Tendências.


Ela diz que, em função do crescimento do governo Lula (o país chegou a crescer 7,5% em 2010), nos últimos 13 anos a média de expansão do PIB foi de 2,9%, contra 2,5% da média do governo Fernando Henrique Cardoso.

Colocando "na conta" do governo Dilma a recessão deste ano (consultorias esperam uma retração do PIB de 4% em 2016), a média cairia para 2,4%, ainda próxima do crescimento de FHC.

Ribeiro atribui essa desaceleração brusca em parte à má gestão, ao suposto fracasso da política econômica de Dilma e ao que vê como um excesso de intervencionismo estatal na administração petista, além da falta de reformas estruturais que poderiam melhorar o ambiente para negócios no Brasil.

Ela ressalta, porém, que, o contexto internacional também ficou menos favorável e que a crise política e a Lava Jato também tiveram um impacto negativo grande na economia.

João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina da consultoria Eurasia Group, concorda. "Na economia, a Dilma pegou um avião em piloto automático e em um céu de brigadeiro. Quando veio a tempestade, ficou claro que não sabia pilotar", diz.

Para Neves, os erros que derrubaram o PIB nos últimos anos — culminando em uma das mais graves recessões da história do país - começaram no segundo mandato de Lula.

"O Estado começou a gastar mais para fazer uma política anticíclica (tentar manter os investimentos e o consumo em níveis altos), mas isso saiu do controle. Agora precisaremos provavelmente de uma década para recuperar o que foi perdido com a recessão do governo Dilma."

2. IDH e combate a pobreza

A nota do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, que era de 0,649 no início dos anos 2000, chegou a 0,755 hoje, o que indica uma melhora.

A pesquisa considera indicadores como a esperança de vida ao nascer, a expectativa de anos de estudo e a renda per capita. Como resultado, cada país recebe uma nota que vai de 0 a 1.


No relatório da ONU de 2015 sobre o índice, o Bolsa Família é retratado como uma espécie de modelo de programa social bem-sucedido. "Desde que o programa foi lançado, 5 milhões de brasileiros deixaram a extrema pobreza. E por volta de 2009 o programa havia reduzido a taxa de pobreza em 8 pontos percentuais."

Também é destacado o aumento da escolaridade no país e avanços no combate a miséria, o que vai ao encontro da avaliação de especialistas consultados pela BBC Brasil, que veem nas políticas sociais o maior legado positivo dos 13 anos do PT no poder no Brasil.

Angel Melguizo, chefe da unidade de América Latina e Caribe do Centro de Desenvolvimento da OCDE, por exemplo, destaca que nos últimos anos os índices de pobreza brasileiros caíram pela metade com a emergência de uma nova classe média.

Ele admite que parte desse contingente pode ter seus ganhos ameaçados pelo aumento do desemprego e recessão econômica, mas faz uma ressalva relativamente otimista:

"Dados do Banco Mundial que mencionaremos em nosso próximo relatório indicam que 43% dessa nova classe média brasileira seria o que chamamos de classe média consolidada, que tem trabalho formal, proteção social e mais condições de se proteger da crise. E que apenas 38% seria parte da classe média vulnerável, que pode voltar para a pobreza. O índice do Brasil é melhor que em outros países da região", afirma.

Para Otaviano Canuto, diretor-executivo para o Brasil no FMI, "políticas sociais para potencializar mudanças estruturais" são de fato "um grande legado" dos governos do PT.

Canuto defende, porém, que "há hoje necessidade de passar a limpo, ver relação entre custo e resultado do leque de políticas sociais que estão embutidas no orçamento". "Aquelas como Bolsa Família, que são demonstradas como eficazes e a baixo custo, devem ser intocáveis", opina.

3. Gini - Desigualdade

Outro indicador que também teve uma melhora foi o da desigualdade. O coeficiente Gini do Brasil, nos cálculos do Banco Mundial, passou de 58,6, em 2002, para 52,9, em 2013 (último dado disponível).

O Gini é um indicador que mede desigualdade de renda e vai de 0 a 100 (0 representa total igualdade).

Em 2014, um relatório da ONU sobre o tema também registrou uma queda significativa da desigualdade no Brasil na última década, com o Gini passando, nos cálculos das Nações Unidas, de 54,2 para 45,9.


Na época, a ONU destacou o efeito sobre a desigualdade do aumento real do salário mínimo — de 80% entre 2003 e 2010 — e dos esforços para a formalização do mercado de trabalho brasileiro, além dos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família.

O economista Diego Sánchez-Ancochea, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos (LAC) da Universidade de Oxford, especialista em desigualdade, cita, como exemplo desses esforços de formalização do mercado, iniciativas como a Proposta de Emenda Constitucional sobre os trabalhadores domésticos.

"Já houve momentos em que a economia brasileira cresceu com um aumento da desigualdade, como nos anos 60 e início dos 70. Na época, o crescimento favoreceu os mais ricos e a alta classe média", diz Sánchez-Ancochea.

"Isso mostra que mesmo com o boom das commodities impulsionando a economia brasileira, a trajetória dos índices de desigualdade no país poderia ter sido diferente não fossem essas políticas adotadas (durante o governo do PT). O legado (do partido) nessa área é grande."

O economista de Oxford diz ser difícil prever o que vai acontecer daqui para frente, mas não descarta retrocessos nesse indicador. "Isso vai depender das políticas adotadas pelo novo governo, que chega prometendo fazer ajustes e cortes de gastos."

4. Percepção de corrupção

Em 2002, o Brasil ocupava a 45ª posição do ranking de percepção da corrupção da Transparência Internacional (TI), que incluía análises de 102 países. Em 2015, passamos para o 76º lugar entre 168 países - o que parece indicar estagnação.

O coordenador do Programa Brasil da TI Bruno Brandão diz, porém, que os índices dos dois anos não são comparáveis por que, além do número de países analisados, a metodologia da pesquisa também mudou em 2012.

"E desde 2012, nossos indicadores para o Brasil permaneceram relativamente estáveis, com a exceção de 2015, quando tivemos um aumento muito grande da percepção de corrupção que levou o país a cair do 69º ao 76º lugar no ranking, principalmente como efeito da Lava Jato", diz Brandão.

Segundo o coordenador da TI, a percepção da organização é de que o país avançou no combate à corrupção desde 2002 — embora a maior parte desse "avanço" não tenha ocorrido por mérito do governo.


"É complicado dizer se a corrupção ficou menor ou maior porque a corrupção é um fenômeno oculto — a única que aparece é a que foi pega. Mas para nós o que interessa é se há mais combate ao problema — e nesse ponto parece que o Brasil está de fato avançando", opina.

"Tivemos uma evolução institucional grande e um aumento da sociedade. Hoje temos a lei contra a lavagem de dinheiro, a lei anticorrupção, a da ficha limpa, de acesso a informação e etc. Instituições como o Ministério Público, a Polícia Federal e o próprio sistema judiciário também têm demonstrado grande autonomia."

O governo Dilma, na avaliação de Brandão, teria sido marcado por um certo "pudor republicano" que favoreceu o combate a corrupção em alguma medida, embora em algumas ocasiões esse pudor possa ter sido abandonado (por exemplo, se forem comprovadas as tentativas do governo de interferir na Lava Jato, como denunciou o ex-líder do governo no Senado Delcídio do Amaral).

Ele lembra o caso da Malásia, onde o procurador-geral foi destituído após um escândalo de corrupção envolvendo o primeiro-ministro.

"No Brasil, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, foi reconduzido ao cargo em meio à Lava Jato. O Supremo Tribunal Federal também tem agido com autonomia, apesar de muitos de seus membros terem sido indicados pelo PT — enquanto na Venezuela, por exemplo, essa corte mais parece um escritório de advogados do presidente (Nicolás Maduro)."

Já para Neves, do Eurasia Group, dizer que o governo do PT "deixou que se investigasse" a corrupção na Petrobras é "papo furado".

"Concordo que é difícil dizer se a corrupção caiu ou cresceu no governo PT. Mas é relevante o fato de o escândalo da Lava Jato ser o maior escândalo de corrupção da história brasileira", opina. "Também chama a atenção a maneira coordenada e sistematizada com que o esquema foi montado na estatal."

5. PISA - Educação

Em 2000, primeiro ano em que o Brasil fez parte do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), da OCDE (a organização dos países ricos), o país ficou em último lugar entre 32 nações.

O programa tem como objetivo avaliar e comparar o resultado de sistemas educacionais no mundo por meio de uma série de testes aplicados a estudantes.


No último relatório, publicado no final de 2013, agora com dados de 65 países (alguns ricos, como Japão, Suíça e Alemanha, o Brasil ocupou a posição 55 no ranking de leitura, 58 no de matemática e 59 no de ciências. Ou seja, comparativamente avançou em relação ao 2000, ainda que pouco.

Para Melguizo, da OECD, porém, é natural que a melhora tenha sido lenta porque a grande conquista do país nos últimos anos foi na questão da "cobertura do sistema", ou seja, no acesso à escola e universidades.

"Esse era um processo necessário. Falta agora avançar na questão da qualidade do ensino e também na educação para o trabalho. Mas não acho que devemos ver essa melhora lenta com pessimismo", diz ele."Na questão da cobertura o avanço foi significativo."

Castro Neves, do Eurasia Group concorda: "Considero a expansão do acesso a educação como parte do legado social positivo (dos anos de governo do PT), embora certamente falte melhorar a questão da qualidade."

6. Ambiente para negócios

A questão do ambiente para os negócios é outra área em que os especialistas veem certa estagnação como saldo dos 13 anos do governo petista - com deterioração na gestão Dilma.


Alguns índices internacionais parecem corroborar essa percepção. Em 2002, o país ficou no 46º lugar entre 80 países no ranking de competitividade global calculado pelo World Economic Forum (WEF), que considera dados sobre as condições de se fazer negócio pelo mundo.

Em 2015, ocupou a 75ª posição entre 140 países, após cair 18 posições em um ano em função de problemas como o aumento da pressão inflacionária, a alta da percepção de corrupção e a deterioração da confiança em instituições. Foi a pior classificação do país desde que o índice de competitividade global foi criado, nos anos 90.

O relatório de 2015 do WEF destaca, porém, o avanço do Brasil na questão do transporte aéreo e infraestrutura, apesar de esse ainda ser considerado um dos gargalos da economia brasileira. E cita o grande mercado consumidor do país como um dos fatores que ainda o torna atrativo para investidores.

"Nesses 13 anos — e principalmente nos anos de bonança econômica — o governo poderia ter aproveitado para fazer reformas estruturais, melhorar a questão tributária, reduzir a burocracia (para se fazer negócios no Brasil) e etc. Mas perdeu-se essa oportunidade", diz Neves.

"Hoje também parece claro que as políticas de campeões nacionais (conduzida pelo BNDES, que selecionou companhias para ajudar a torná-las mais competitivas globalmente, com créditos subsidiados e compra de participações acionárias) não foram uma boa ideia - criaram um ambiente de negócios em que era o governo quem escolhia perdedores e vencedores e, para se beneficiar, era preciso gritar mais alto."

Para Ribeiro, da Tendências, o ambiente para negócios piorou principalmente a partir de 2011. "Tivemos muitas mudanças nas regras do jogo, mais impostos para uns, subsídios para outros e tentativas do governo de intervir em determinados setores que não deram certo, como no setor elétrico", diz.

Ruth Costas
João Fellet, de Washington
Da BBC Brasil
Leia Mais ►

‘Com FHC, era arroz com feijão. Agora, temos ar-condicionado e universidade’, diz filho de gari e doméstica

Ronaldo Marinho se diz contra o impeachment e ressalta programas sociais como o ProUni
Morador da favela do Cantagalo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, o universitário Ronaldo Marinho, de 21 anos, estuda administração de empresas, fala três línguas, e sonha alto. Quer morar no Canadá, país onde já estudou com uma bolsa em 2013, ajudar sua família, e depois voltar para "fazer uma revolução" no morro.

O jovem carioca, que se diz contrário ao impeachment da presidente Dilma Rousseff e a favor do governo do PT, avalia que os programas sociais recentes tiveram forte impacto em sua vida.

"Eu fiz curso técnico pelo Pronatec e estou cursando a universidade pelo ProUni. As duas experiências foram ótimas e eu sei que não poderia ter feito nada disso se não fossem essas iniciativas do governo. Votei na Dilma por conta dessas realizações", conta.

Ronaldo vê avanços também na vida dos pais e dos vizinhos na comunidade onde nasceu.

"Meu pai sempre trabalhou como gari, e minha mãe, como doméstica. Os dois têm mais de 50 anos, e sou filho único. Vejo que a vida deles melhorou também. Não precisamos de Bolsa Família, mas muitos vizinhos têm o benefício, e vejo que ajudou a aumentar a escolaridade das crianças, porque as mães cobram mais frequência", diz.

O garoto nasceu em 1995, ano em que Fernando Henrique Cardoso assumia a Presidência, pouco após o país experimentar o início da estabilidade econômica, com o Plano Real, lançado em fevereiro de 1994.

Pelo que seus pais contam, foram "tempos difíceis" nos quais "nunca faltou comida, mas era só arroz com feijão".

"Hoje em dia muita coisa mudou. Meu pai diz que a vida era bem complicada. O que eu vejo é que nos últimos anos o poder aquisitivo da população mais pobre melhorou imensamente no Brasil. Se naquela época era só arroz com feijão, hoje a gente tem ar-condicionado. Não é um bem de consumo tão durável, mas dá um certo conforto", explica.

"Houve uma série de projetos educacionais, de infraestrutura para comunidades, luz elétrica e saneamento básico que foram finalmente colocadas em prática no governo Dilma".

Apesar da nítida defesa do governo atual e da contrariedade ao que classifica como "golpe", o carioca diz acompanhar os desdobramentos do noticiário político e das acusações de corrupção.

"Eu acho que o impeachment não é certo, porque ela (Dilma) ganhou nas urnas. Quanto à corrupção, talvez eles possam ter feito, claro. Até o Instituto Lula parece que foi beneficiado. Agora, em nenhum momento nós vimos alguém bater o martelo e dizer que a presidente da República esteve envolvida. É óbvio que provavelmente ela estava junto, mas a confirmação de que ela coordenou ou participou dessas coisas não houve", indica.

Sobre um eventual governo chefiado pelo atual vice-presidente Michel Temer, Ronaldo também tem opinião formada. Embora avalie que uma administração do PMDB não seria um retrocesso tão grande, o universitário acredita que os programas sociais seriam colocados em "segundo plano".

"Com mais privatizações talvez aumentasse a arrecadação e aí o país não quebraria. Mas os preços subiriam também. Não seria de todo ruim, e de início os programas sociais seriam mantidos, mas depois não seriam prioridade. Eles colocariam a crise econômica, a parte industrial, tudo isso em primeiro plano, sem dúvida", diz.
Planos e desafios

Ambicioso, Ronaldo já traçou metas muito claras para sua vida. Assim que terminar o curso de administração, quer trabalhar em navios de cruzeiro por cerca de dois anos.

"Agora estava trabalhando como coordenador de eventos num hotel de Ipanema, mas apesar de eu falar três línguas e gostar desse ramo do turismo, só tenho 21 anos e ainda não tenho diploma. Preciso juntar dinheiro mais rápido para o meu plano de morar em Vancouver, no Canadá", explica.

Para ele o fato de ter estudado no projeto Solar Meninos de Luz, uma ONG estabelecida no Cantagalo, teve grande impacto na montagem da sua "estratégia".

"Entrava de manhã e saía no fim do dia, a gente estava sempre fazendo alguma coisa", conta.

A ideia é ajudar seus pais, tirá-los da favela, "até por conta das escadas, já que eles estão ficando mais velhos, mas também por causa da violência", e depois "fazer uma revolução no Cantagalo".

Ele ajudou a criar, em 2013, o festival "Favela em Dança", que se autodenomina como "o único festival de danças urbanas do mundo que acontece em favela".

Além de movimentar a cena carioca, a iniciativa já levou Ronaldo até a Inglaterra, onde está negociando apoio da Universidade de Londres e de fundações que cogitam até realizar uma edição londrina do "Favela em Dança".

"Já tenho duas propostas de empresas de cruzeiro. Acho que dá para tirar US$ 2.700 por mês. Aí vou para Vancouver e arrumo emprego em algum hotel. Depois minha intenção é voltar, comprar um negócio, deixar meu pai gerenciando, e aí correr atrás do meu", diz.

Jefferson Puff
No BBC Brasil
Leia Mais ►