16 de jun de 2016

As delações de Sérgio Machado — Episódio 1: Aécio Neves — assista

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Carta aberta a Aécio Neves

Cavou sua sepultura
Caro Aécio:

Que diferença um ano e meio faz, hem? Lembro você fazendo uma campanha à base da palavra corrupção contra Dilma.

Você chegou a empregar a expressão mar de lama, a mesma com que o corvo Lacerda martelou criminosamente Getúlio até levá-lo a dar um tiro no peito.

Você se comportava como um cidadão acima do bem e do mal, um homem tão incorruptível como Robespierre, um exemplo de retidão como o romano Catão.

Uns poucos sabíamos que era uma mentira mantida pelos barões de imprensa. Eles simplesmente mandavam não publicar nada que afetasse sua imagem de homem de elevados princípios morais.

Mas agora seu “esquema” é de domínio amplo, geral e irrestrito. A já histórica delação de Sérgio Machado citou-o não uma, não duas, não três — mas quarenta vezes.

Machado disse que lhe deu os meios para financiar a campanha de 50 deputados, quantidade suficiente para lhe dar a presidência da Câmara no final dos anos 1990.

Isto faz de você um elo entre seu mentor, FHC, o homem que comprou os votos para poder ser reeleito, e Eduardo Cunha, que também financiou a campanha de deputados e com isso virou, como você, presidente da Câmara.

Outros delatores também mencionaram você. Delcídio, por exemplo, falou de Furnas. Sua irmã, Andrea, foi outro nome frequente. Uma das coisas que ela fez foi, quando você governava Minas, transferir dinheiro público para os veículos de mídia da família.

Caro Aécio: isto é indecente. Mas ninguém lhe cobrou. E é fácil de entender: você destinava uma bolada publicitária à Globo, e os Marinhos pensam nisso e só nisso.

Você está em todas.

Isso quer dizer que você, políticamente, é um morto que anda. Todas as denúncias serão lembradas em qualquer debate do qual você participe. E você não terá resposta. Sua campanha girou em torno da corrupção dos outros. O problema agora é sua própria corrupção.

Você se transformou numa farsa, em suma. Como aqueles pastores americanos que condenavam a homossexualidade durante o dia e à noite se esgueiravam em pontos gays.

Você foi desmascarado.

E no entanto foi você mesmo quem deflagrou o processo que o triturou ao se comportar como um homem mimado, estragado, que não sabe aceitar a derrota.

Tivesse a elegância mínima de aceitar a vitória da adversária, estaria em boa situação hoje para as eleições presidenciais. Seus 50 milhões de votos eram um grande cacife para uma segunda tentativa.

Mas não. Inventou pretextos sobre pretextos para subverter as urnas. Deu as mãos a Eduardo Cunha no trabalho sujo contra a democracia e contra Dilma. Contratou uma desvairada como Janaína Paschoal para elaborar um projeto imundo de impeachment.

Tudo foi muito bem para você — até ir muito mal. Seu nome começou a aparecer nas denúncias de roubalheira, e não saiu mais. Já não era apenas o aeroporto particular construído com recursos públicos perto de sua casa de campo. Eram coisa muito mais graves.

Você, numa palavra, se ferrou.

É hoje motivo de desprezo, ódio, rejeição ampla, geral e irrestrita.

Você confiava que mesmo que os delatores citassem você a imprensa daria um jeito de suprimir as menções. Mas você prevaricou tanto que nem a Globo conseguiu manter você fora do noticiário.

E olhe que a Globo foi aparelhada por você. O chefe de política do jornal Globo em Brasília, Paulo César Pereira, é seu parente. O laço foi reforçado: você é padrinho de casamento de Paulo. A mulher de Paulo é Andrea Sadi, repórter de política da GloboNews. Sua afilhada, portanto.

Joseph Pulitzer, o maior editor da história para muitos, dizia que jornalista não podia ter amigos, ou isso deformaria o seu trabalho.

Que você acha disso, Aécio?

Montaigne disse que a maldade traz seu próprio castigo. Você foi mau ao conspirar contra Dilma. E o castigo está aí.

Falta apenas uma coisa: uma tornozeleira. Vejo em você uma perna à espera de uma tornoleira.

Sinceramente.

Paulo

Paulo Nogueira
No DCM
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Eugênio Aragão analisa criticamente a Lava Jato, suas ilegalidades e o prejuízo à democracia

Eugênio Aragão foi crítico à Lava Jato e cobrou um maior controle
das ilegalidades ocorridas pelos órgão jurisdicionados.
Foto Marcelo Auler
Uma seleta plateia de pouco menos de cem pessoas, composta basicamente por alunos e professores da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) presenciou Eugênio Aragão, subprocurador da República e ex-ministro da Justiça da presidente afastada Dilma Roussseff, analisar criticamente a crise no país provocada pela Operação Lava Jato. No debate promovido pela professora Margarida Lacombe Camargo, ele abordou o tema “O Ministério Público na crise de 2016“.

Foi na segunda-feira, (13/06) quando, por aproximadamente três horas, expôs suas ideias, muitas delas que provocarão polêmica, sem cansar os ouvintes — poucos saíram antes do final — e acabou recebendo aplausos e elogios pela maneira franca, dura e às vezes sarcástica, com que analisou o momento político do país e, obviamente, a Operação Lava Jato:
Todo mundo fica caladinho. Do Moro você não pode falar mal, se você falar mal da Lava Jato, vira sacrilégio. E aí, pronto, você já está sujeito a levar uma chapuletada…. Infelizmente“.
Ataque aos métodos — Antes que alguns mais afoitos corram a apontá-lo como candidato a coveiro da Lava Jato e do combate à corrupção, deixa-se claro que ele não se posicionou contra o combate à corrupção, mas foi bastante crítico à maneira como isto está acontecendo. Classificou, por exemplo, de ilegais, as gravações que estão sendo feitas por envolvidos como forma de se beneficiar, através das delações premiadas; criticou os vazamentos de gravações, como das conversas privadas da ex-primeira dama Mariza Letícia da Silva;
Uma seleta plateia, composta de alunos e professores da Faculdade de Direito , além de dois procuradores da República, assistiu Eugênio Aragão falar por cerca de três horas. Foto Marcelo Auler
Uma seleta plateia, composta de alunos e professores da Faculdade de Direito,
além de dois procuradores da República, assistiu Eugênio Aragão falar por cerca
de três horas.
Foto Marcelo Auler
Cobrou dos órgãos jurisdicionais,uma posição mais firme diante destas ilegalidades; criticou — e muito — seus próprios colegas do Ministério Público Federal, e até mesmo a forma de escolha pelos governos do PT do Procurador Geral da República — através de eleição “corporativa”; também não passou em brancas nuvens a atuação da Polícia Federal tendo, em certo momento, deixado claro que seu antecessor no ministério da Justiça, José Eduardo Cardoso, poderia ter agido mais firmemente com relação à instituição.

Defendeu a necessidade de se despolitizar o Supremo Tribunal Federal e de que a sociedade mantenha um controle sobre seus ministros; alertou para o risco à economia não apenas do Brasil, como de toda a América Latina, com a possível quebra das empresas de construção civil brasileiras.

Em um dos pontos que certamente gerará polêmica, Aragão citou o estudo de um economista do Banco Mundial no qual seu autor defende que:
“às vezes, até, para certo tipo de corrupção, você tem que ser leniente (…) em alguns estados extremamente burocratizados, com alto custo da economia, uma tese de que um certo nível de corrupção funciona como graxa  nas engrenagens e bota a economia para funcionar“.
Ao lembrar este estudo — frisando sempre que esta defesa é do ponto de vista econômico, jamais ético ou juridicamente falando — ele criticou seus colegas que vangloriam-se de terem internalizado valor altos, como R$ 2 bilhões, mas  sem notarem que geraram prejuízos muito maiores ao paralisarem economicamente o país. Para ele, toda a crise gerada teve um único objetivo:
“Tirá-la (a Dilma) do poder. Tirar o PT do poder. Não tenho dúvida nenhuma disso“.
Esclarecimento e agradecimento — O editor do blog foi o único jornalista presente à palestra que era aberta ao público e foi devidamente anunciada. Gravamos em áudio quase toda a fala do ex-ministro e fizemos algumas filmagens, muitas delas com problemas técnicos que devem ser atribuídos ao amadorismo de quem as filmou. Desde já nos desculpamos com todos por defeitos que surgirão, mas que mantivemos para evitar maiores cortes. Assim como lamentamos não ter filmado outros trechos do encontro. A edição destes vídeos coube ao experiente repórter fotográfico Américo Vermelho, a quem renovamos nossos agradecimentos. O áudio da palestra está sendo compilado pela jornalista Lara Vieira Faria, a quem também agradecemos a colaboração. Os assuntos abordados serão publicados em diversas reportagens, a partir desta quinta-feira (16/06).

No início da semana em que veio à público a integra da delação premiada feita pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, o ex-ministro foi bastante crítico com as gravações que o político fez junto a outros colegas parlamentares e ao ex-presidente José Sarney. Ele parte da constatação que estas gravações não foram tiveram o objetivo de serem usadas na defesa de Machado —  única hipótese em que o Supremo Tribunal Federal considera válidas. Na verdade, atenderam à necessidade do Ministério Público Federal, sendo feitas para beneficiar quem as gravou com a diminuição da pena. Por isso, segundo Eugênio, precisariam de autorização judicial prévia, sem o que correm o risco de serem provas nulas.

Questionando as delações — Suas críticas, porém, começam com as delações premiadas. Lembra que elas são feitas debaixo de torturas psicológicas e, por serem obtidas sob tortura pela lei não têm validade judicial. Reclama que a Lava Jato não se preocupa com isto.
É curioso, porque a medida que você coloca as pessoas suspeitas em custódia e deixa elas mofarem lá dentro para abrir a boca, elas acabam entregando até a mãe. Principalmente se essa pressão é acompanhada também pela destruição da reputação da pessoa pela imprensa e pressões em cima da família, então não tem ninguém que resista. As pessoas começaram a “cantar”, como se dizia na linguagem da ditadura militar, começaram a “cantar” como se estivesse em um pau de arara“.
Na sua análise, ele vai além e questiona:
Até que ponto você pode usar o confinamento de uma pessoa em uma cadeia, para ele falar? Uma coisa é a pessoa falar por, naturalmente, ter receio da consequência dos seus atos, porque a Justiça já sabe de quase tudo e ele não vai escapar de uma sanção e ele gostaria de diminuir a sua sanção. Outra coisa é quando o sujeito não disse nada, ele sabe que a Justiça não sabe de nada e a Justiça o confina, sine die, dentro de uma cela, para ele “cantar”. Se faz isso com os poderosos, imagina o que faz com o pequeninho. O poderoso fica na cadeia dois a três meses, o pequeninho vai direto para o pau de arara“. (ouça no vídeo)



Não há ganho para a democracia — Ele também questionou a legalidade de gravações como as que Sérgio Machado fez com políticos como Renan Calheiros, José Sarney e Romero Jucá, embora sem citar o nome de nenhum deles. Atentou para um detalhe do prejuízo para o Estado Democrático de Direito.

“Existe muito, atrás disso, a aparência de um baixo nível de ética pública, condenável. Porque, o estado se valer do maucaratismo de uns, que vão ali, sorrateiramente, gravando seus amigos, para entregá-los à polícia, isso de alguma forma estimula o estado policial. Estimula o estado policial de uma forma que hoje, por exemplo, em Brasília, as pessoas têm medo de falar, até no celular, até com seus amigos (…) do ponto de vista da democracia, isto não foi nenhum ganho“. (ouça no vídeo)



Logo depois, ao avançar neste assunto, expôs seu entendimento de que estas gravações devem ser desconsideradas como provas, pois não foram feitas com o objetivo de defesa de quem as gravou, mas em um trabalho encomendado pelo Ministério Público. Por isso, são provas ilícitas. Ele diz Machado serviu como uma “longa-manus” do Ministério Público, e nesse caso, seria necessário autorização judicial:

“Se você é uma longa-manus do Ministério Público, só pode fazer o que a lei autoriza a fazer e a autorização está condicionada a uma autorização judicial.para escuta. Se não tiver autorização judicial para escuta, babau, não vale isso. Mas hoje ninguém mais está preocupado com isso. basta a escuta em si, e não o processo em que a escuta foi obtida“. (ouça no vídeo)



Estratégia de desconstrução de reputação — Ao abordar os vazamentos das gravações feitas com ou sem autorização legal, ele apontou a estratégia de desconstrução de reputação das pessoas. Citou a divulgação do grampos feitos nos telefone da ex-primeira dama, Mariza Letícia, em que captaram ela falando com o filho, momento em que além de utilizar palavrões, fez críticas aos coxinhas. O ex-ministro lembrou que, pela lei, gravações como estas não podem ser usadas e deveriam ser destruídas, não divulgadas. Em seguida ele cobra:

“Isso é criminoso. Isso é para destruir reputações. Cadê o procurador-geral da República? Cadê o Supremo Tribunal Federal? Cadê os órgãos jurisdicionais se opondo a este abuso? Não, todo mundo fica paradinho. Do Moro não se pode falar mal. Se você falar mal da Lava Jato será um sacrilégio. E aí, pornto, você está sujeito a levar uma chapuletada“. (ouça no vídeo)



Os vídeos aqui apresentados foram filmados pelo editor do blog que assume a responsabilidade pelos erros cometidos. Gentilmente foram editados pelo nosso companheiro, repórter fotográfico/editor de vídeos, Américo Vermelho – da Luz e Sombra, fotografia e vídeos —, a quem publicamente agradecemos a ajuda prestada inclusive melhorando o que era possível melhorar.

Marcelo Auler
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Enquanto a corrupção assombra o Temer, caem as máscaras dos movimentos pró-impeachment


O impeachment da presidente do Brasil democraticamente eleita, Dilma Rousseff, foi inicialmente conduzido por grandes protestos de cidadãos que demandavam seu afastamento. Embora a mídia dominante do país glorificasse incessantemente (e incitasse) estes protestos de figurino verde-e-amarelo como um movimento orgânico de cidadania, surgiram, recentemente, evidências de que os líderes dos protestos foram secretamente pagos e financiados por partidos da oposição. Ainda assim, não há dúvidas de que milhões de brasileiros participaram nas marchas que reivindicavam a saída de Dilma, afirmando que eram motivados pela indignação com a presidente e com a corrupção de seu partido.

Mas desde o início, havia inúmeras razões para duvidar desta história e perceber que estes manifestantes, na verdade, não eram (em sua maioria) opositores da corrupção, mas simplesmente dedicados a retirar do poder o partido de centro-esquerda que ganhou quatro eleições consecutivas. Como reportado pelos meios de mídia internacionais, pesquisas mostraram que os manifestantes não eram representativos da sociedade brasileira mas, ao invés disso, eram desproporcionalmente brancos e ricos: em outras palavras, as mesmas pessoas que sempre odiaram e votaram contra o PT. Como dito pelo The Guardian, sobre o maior protesto no Rio: “a multidão era predominantemente branca, de classe média e predisposta a apoiar a oposição”. Certamente, muitos dos antigos apoiadores do PT se viraram contra Dilma — com boas razões — e o próprio PT tem estado, de fato, cheio de corrupção. Mas os protestos eram majoritariamente compostos pelos mesmos grupos que sempre se opuseram ao PT.

É esse o motivo pelo qual uma foto — de uma família rica e branca num protesto anti-Dilma seguida por sua babá de fim de semana negra, vestida com o uniforme branco que muitos ricos  no Brasil fazem seus empregados usarem — se tornou viral: porque ela captura o que foram estes protestos. E enquanto esses manifestantes corretamente denunciavam os escândalos de corrupção no interior do PT — e há muitos deles — ignoravam amplamente os políticos de direita que se afogavam em escândalos muitos piores que as acusações contra Dilma.


Claramente, essas marchas não eram contra a corrupção, mas contra a democracia: conduzidas por pessoas cujas visões políticas são minoritárias e cujos políticos preferidos perdem quando as eleições determinam quem comanda o Brasil. E, como pretendido, o novo governo tenta agora impor uma agenda de austeridade e privatização que jamais seria ratificado se a população tivesse sua voz ouvida (a própria Dilma impôs medidas de austeridade depois de sua reeleição em 2014, após ter concorrido contra eles).

Depois das enormes notícias de ontem sobre o Brasil, as evidências de que estes protestos foram uma farsa são agora irrefutáveis. Um executivo do petróleo e ex-senador do partido conservador de oposição, o PSDB, Sérgio Machado, declarou em seu acordo de delação premiada que Michel Temer — presidente interino do Brasil que conspirou para remover Dilma — exigiu R$1,5 milhões em propinas para a campanha do candidato de seu partido à prefeitura de São Paulo (Temer nega a informação). Isso vem se somar a vários outros escândalos de corrupção nos quais Temer está envolvido, bem como sua inelegibilidade se candidatar a qualquer cargo (incluindo o que por ora ocupa) por 8 anos, imposta pelo TRE por conta de violações da lei sobre os gastos de campanha.

E tudo isso independentemente de como dois dos novos ministros de Temer foram forçados a renunciar depois que gravações revelaram que eles estavam conspirando para barrar a investigação na qual eram alvos, incluindo o que era seu ministro anticorrupção e outro — Romero Jucá, um de seus aliados mais próximos em Brasília — que agora foi acusado por Machado de receber milhões em subornos. Em suma, a pessoa cujas elites brasileiras — em nome da “anticorrupção” — instalaram para substituir a presidente democraticamente eleita está sufocando entre diversos e esmagadores escândalos de corrupção.

Mas os efeitos da notícia bombástica de ontem foram muito além de Temer, envolvendo inúmeros outros políticos que estiveram liderando a luta pelo impeachment contra Dilma. Talvez o mais significante seja Aécio Neves, o candidato de centro-direita do PSDB derrotado por Dilma em 2014 e quem, como Senador, é um dos líderes entre os defensores do impeachment. Machado alegou que Aécio — que também já havia estado envolvido em escândalos de corrupçãorecebeu e controlou R$ 1 milhão em doações ilegais de campanha. Descrever Aécio como figura central para a visão política dos manifestantes é subestimar sua importância. Por cerca de um ano, eles popularizaram a frase “Não é minha culpa: eu votei no Aécio”; chegaram a fazer camisetas e adesivos que orgulhosamente proclamavam isso:


Evidências de corrupção generalizada entre a classe política brasileira — não só no PT mas muito além dele — continuam a surgir, agora envolvendo aqueles que antidemocraticamente tomaram o poder em nome do combate a ela. Mas desde o impeachment de Dilma, o movimento de protestos desapareceu. Por alguma razão, o pessoal do “Vem Pra Rua” não está mais nas ruas exigindo o impeachment de Temer, ou a remoção de Aécio, ou a prisão de Jucá. Porque será? Para onde eles foram?

Podemos procurar, em vão, em seu website e sua página no Facebook por qualquer denúncia, ou ainda organização de protestos, voltados para a profunda e generalizada corrupção do governo “interino” ou qualquer dos inúmeros políticos que não sejam da esquerda. Eles ainda estão promovendo o que esperam que seja uma marcha massiva no dia 31 de julho, mas que é focada no impeachment de Dilma, e não no de Temer ou de qualquer líder da oposição cuja profunda corrupção já tenha sido provada. Sua suposta indignação com a corrupção parece começar — e terminar — com a Dilma e o PT.

Neste sentido, esse movimento é de fato representativo do próprio impeachment: usou a corrupção como pretexto para os fins antidemocráticos que logrou atingir. Para além de outras questões, qualquer processo que resulte no empoderamento de alguém como Michel Temer, Romero Jucá e Aécio Neves tem muitos objetivos: a luta contra a corrupção nunca foi um deles.

* * *

No mês passado, o primeiro brasileiro ganhador do Prêmio Pulitzer, o fotojornalista Mauricio Lima, denunciou o impeachment como um “golpe” com a TV Globo em seu centro. Ontem à noite, como convidado no show de Chelsea Handler no Netflix, o ator popular Wagner Moura denunciou isso em termos similares, dizendo que a cobertura da mídia nacional foi “extremamente limitada” porque “pertence a cinco famílias”.

Glenn Greenwald
No Intercept
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A hipocrisia do golpista corrupto Michel Temer







O Temer também não vem ao caso, Dr. Moro?

Ele e a Globo diziam que só quem roubava era o...


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“Coisas morais nunca foram o forte dele”: como ACM foi o primeiro a expor os esquemas de Temer

BFFs
Além de dar a Michel Temer um apelido preciso, incômodo e, portanto, eterno — “mordomo de filme de terror” —, Antônio Carlos Magalhães foi o primeiro a denunciar publicamente, e com o barulho que o caracterizava, o esquema do então deputado e presidente da Câmara no Porto de Santos.

Uma matéria da Istoé de junho de 1999 falou sobre sua tentativa de “dar as cartas na reforma ministerial de FHC”.

ACM, à época presidente do Senado, se esforçava para tirar o PMDB do governo. Fernando Henrique considerava isso um risco para a chamada “governabilidade” (ah, esses eufemismos idiotas).

Segundo a matéria, assinada por Andrei Meireles e Guilherme Evelin, ele almoçou com Covas, que governava São Paulo, e voltou com informações. Covas, é bom lembrar, era santista.

Transcrevo (os grifos são meus):
Entre uma garfada e outra, Covas contou a Antônio Carlos que alguns pesos pesados do empresariado estavam revoltados com a ação dos peemedebistas na área portuária, um feudo do partido no loteamento de cargos do governo FHC.

O coordenador-geral da Ação Empresarial, Jorge Gerdau Johannpeter, chegou a enviar uma carta ao ministro-chefe da Casa Civil, Clóvis Carvalho, em protesto contra a decisão do ministro dos Transportes, Eliseu Padilha (PMDB-RS), de substituir oficiais da Marinha no comando dos conselhos de autoridade portuária de Santos, Rio Grande e Paranaguá.

No porto de Santos, por determinação do Planalto, o ministro teve de voltar atrás e manter no cargo o capitão-de-mar-e-guerra Francisco Luiz Gallo. “As críticas não são procedentes. As mudanças são decorrentes da privatização dos portos”, justificou Padilha em conversas com assessores.

Na avaliação de Covas e ACM, Padilha promoveu as mexidas nos portos com o propósito de ampliar o raio de atuação do PMDB no setor portuário. Denúncias de irregularidades na Companhia Docas Porto de Santos, dirigida por apadrinhados de Michel Temer, estão sob investigação do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União (TCU).

Em maio, a construção do terminal II do porto de Santos foi suspensa pelo TCU por causa de aditivos contratuais com a empreiteira Andrade Gutierrez que encareceram em 141,21% o preço original da obra. “As coisas morais nunca foram o forte do senhor Temer. Se abrir um inquérito no porto de Santos, ele ficará péssimo”, disparou ACM.
O DCM está fazendo um crowdfunding sobre essa história. Conheça e colabore.

Kiko Nogueira
No DCM
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E eis que a Lava Jato resvala em Reinaldo Azevedo

Qual a origem do dinheiro da revista dele?
E eis que a Lava Jato resvala em Reinaldo Azevedo, através de Luiz  Carlos Mendonça de Barros, um dos homens fortes de FHC na economia.

Sergio Machado citou Mendonça de Barros em sua delação. Mendonça de Barros, coordenador da campanha de reeleição de FHC, teria providenciado 4 milhões de reais — em dinheiro da época — para que Aécio financiasse 50 candidatos a deputados federais que lhe permitissem virar depois presidente da Câmara.

Mais ou menos na mesma época, Mendonça de Barros estava montando uma revista chamada Primeira Leitura, em que Reinaldo Azevedo foi uma figura capital.

De onde veio o dinheiro para o lançamento da revista? De sobras de campanha?

É uma pergunta interessante e pertinente.

Em 2004, Mendonça de Barros deixou a revista, que nunca chegou a decolar nem em público e nem em prestígio. Ele provavelmente cansou de colocar dinheiro — fosse dele mesmo ou de sobras de campanha.

A Primeira Leitura continuou mesmo assim, com Reinaldo Azevedo no timão.

A vida pós-Mendonça não foi nada fácil no quesito financeiro. Virou notícia uma mãozinha dada pelo governo Alckmin por meio de publicidade da Nossa Caixa.

Alckmin é sempre generoso, com o dinheiro público, quando se trata de mídia amiga, por mais irrelevante que seja. Soube-se também, há não muito tempo, que um site chamado Implicante, dedicado a atacar o PT, era bancado por Alckmin.

Mas nem assim a revista sobreviveu.

Numa entrevista de 2006 ao Observatório da Imprensa, Reinaldo Azevedo tentou explicar os anúncios da Nossa Caixa. Eles eram no mínimo estranhos. Que a Nossa Caixa estava fazendo numa revista supostamente sofisticada, lida por pessoas que hoje seriam classificadas como coxinhas?

Azevedo tergiversou. Disse que os números justificavam. Falou em 2 milhões de acessos do site da Primeira Leitura. Ora, apenas como referência, o DCM tem dez vezes mais que isso.

Na entrevista, ele teceu elogios entusiasmados à Veja. “Eu gosto muito da Veja. Se fizesse uma revista semanal, gostaria que ela fosse como a Veja”, afirmou. Disse que não se tratava de pedido de emprego, mas o fato é que os elogios funcionaram exatamente como isso.

Ele acabaria inaugurando na Veja, ao lado de Diogo Mainardi, o colunismo de famulagem: a defesa estrepitosa e estridente dos interesses dos patrões.

Acabaram-se, na Veja, seus problemas de dinheiro. Até porque a Abril tinha notável domínio na arte de mamar em dinheiro público — de anúncios a financiamentos do BNDES, da venda de livros e assinaturas a isenções fiscais como o papel imune.

Fica agora por esclarecer o dinheiro que sustentou a Primeira Leitura de Mendonça de Barros e Reinaldo Azevedo.

Paulo Nogueira
No DCM
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FHC, o hipócrita monumental

As vaias de Nova York levam Fernando Henrique Cardoso a uma patética marcha a ré

FHC esbravejou, mas desistiu da participação na LASA
Tânia Rêgo/ Agência Brasil
Domingo passado, Fernando Henrique Cardoso publicou um artigo intitulado “Luz no fim do túnel?”. Parece ser o primeiro de uma série dedicada à reforma política que gostaria que o governo Temer patrocinasse.

No texto há uma mudança de tom em relação à sua produção corrente. Ao contrário do que andou escrevendo nos dias em que estava ocupado com a deposição de Dilma Rousseff, agora tenta ser “neutro” e “apartidário”. Procura falar de maneira menos incendiária. Dá sinal de que deseja voltar a ser reconhecido como “pensador”.

Não é difícil diagnosticar a causa mais provável da reviravolta: o trauma nova-iorquino que sofreu.

Quem conhece o ex-presidente é capaz de calcular o quanto lhe deve ter doído ser obrigado a desconvidar-se do congresso da Associação de Estudos Latino-Americanos (Lasa), que aconteceu entre os dias 26 e 31 de maio, em Nova York.

Para quem se vangloria da fama de intelectual notável, há de ter sido duro o repúdio dos integrantes de uma das mais prestigiosas entidades científicas de sua área. Mais ainda se lembrarmos que, até pouco tempo atrás, era respeitado quase consensualmente no meio acadêmico norte-americano.

Grande parte dos membros da Lasa não aprovou que integrasse uma mesa-redonda no evento, e dirigiu aos organizadores um abaixo-assinado manifestando seu inconformismo com a presença de alguém tão vinculado ao golpe no Brasil.

Estavam prontos a vaiá-lo, com faixas, cartazes e camisetas de protesto. Temendo a reação, FHC esbravejou, mas desistiu da participação. Ficou o fato: seu envolvimento ativo no esforço de derrubar o governo Dilma atingiu em cheio sua imagem internacional.

O que mais chama a atenção no artigo não são as propostas de reforma política que sugere, pois nenhuma é nova. Relevante é a pergunta de por que, se acredita de fato nelas, não lutou para que o PSDB as endossasse há mais tempo, assim ajudando o Executivo e o Congresso a remover os óbvios entraves existentes à governabilidade.

Custa crer, por exemplo, que o ex-presidente só tenha se dado conta hoje de que é necessário fazer ampla modificação na legislação partidária, pois, segundo suas palavras, alguns partidos são “quase gazuas para o acesso a recursos públicos”.

Ou que é preciso evitar a proliferação de legendas sem identidade e conteúdo programático, “isolando as que se congregam no chamado ‘centrão’, expressão que caracteriza os agrupamentos de pessoas e interesses clientelísticos, ‘fisiológicos’ e corporativistas, que (...) mantêm a sociedade amarrada ao reacionarismo político e cultural”.

Seria cômico, se não fosse trágico, ouvir a principal liderança intelectual tucana e do atual governismo acusar seus parceiros de “ladrões” e “reacionários”. O ex-presidente foi aliado de quem nos últimos meses? De onde saíram os votos para aprovar o impeachment de Dilma?

Supondo que não foi ontem que FHC descobriu os males apontados no artigo, o que o impediu de vir antes a público com o remédio? Por que deixar o País pagar o preço de instituições disfuncionais? Por que não procurou se aliar àqueles que compartilhavam o mesmo diagnóstico e preferiu a companhia de “ladrões” e “reacionários”?

O artigo revela-se simbólico do modo como o PSDB, o empresariado e o oligopólio midiático se comportaram na crise do governo Dilma. Para derrubá-lo, não hesitaram em se associar àqueles que dizem desprezar. Parece que se esqueceram, no entanto, que foi com os “ladrões” e os “reacionários” que venceram. E é com eles que vão governar.

Não é diferente do que fizeram na economia. Buscando o fim maior da remoção de Dilma, pouco se importaram com o custo do meio escolhido para desestabilizá-la, o aprofundamento da crise econômica.

Como disse o recém-falecido coronel Jarbas Passarinho ao assinar o AI-5, quando mandou “às favas todos os escrúpulos de consciência”, FHC e os seus mandaram às favas a renda, o emprego, o consumo e o investimento brasileiros.

O que nada tem de engraçado é Fernando Henrique Cardoso querer agora tirar o corpo fora, saindo de fininho de suas responsabilidades, para posar de “sábio”. Certos estavam os membros da Lasa.

Marcos Coimbra
No CartaCapital
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O vazio

A NRA, Associação Nacional do Rifle da América, repete sempre o mesmo refrão a cada novo massacre com armas que qualquer americano pode comprar até pelo correio, graças à força do seu lobby. Segundo a Associação, armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas. A óbvia resposta a este raciocínio cínico é que pessoas matam pessoas com armas que compram na loja da esquina, mas é inútil apelar para a razão contra uma organização que cresce a cada novo atentado, tem o apoio da maioria dos congressistas americanos e dinheiro sem limites para influenciar eleições. Até hoje, com milhares de mortes diretamente atribuídas à facilidade de se comprar armas nos Estados Unidos, a NRA venceu todas as suas batalhas contra o bom senso.

Advogados da Associação, na busca de um argumento menos cínico em defesa da insensatez, lembram que o direito de possuir e carregar armas está na Segunda Emenda da Constituição americana. Mas, na época em que a Emenda foi redigida, não existia nem rifle de repetição. Os tais Pais Fundadores estavam inaugurando uma nação ainda semisselvagem, sua permissão era menos para o direito individual de cada um defender sua vida e sua propriedade, e mais para o direito da população de organizar-se em milícias, como forças auxiliares do Estado. Os Fundadores foram maus profetas. Assim como não previram malucos matando 50 de uma vez com armas compradas na esquina, tiveram pouco a dizer sobre o status e os direitos dos escravos na nova nação, salvo considerações genéricas sobre liberdade para todo o mundo. Todos eles eram escravocratas.

Se o acesso fácil a armas não vem de uma devoção reverencial às liberdades asseguradas pela Segunda Emenda, ou de alguma coisa na água, resta especular sobre a origem desse gosto americano por entrar atirando. Não é coisa só de americanos, mas é, principalmente, de americanos. Por quê? Há teorias pouco convincentes sobre resquícios da violenta conquista do “Wild West”, o oeste doido, no sangue americano. Combinado esta ânsia atávica com a facilidade de comprar um AK de último tipo e está feito outro massacre. Ou talvez seria uma coisa apenas sensorial, o prazer de aninhar um rifle novo no peito, a satisfação estética com o próprio desenho do rifle ou da pistola, finalmente o vazio, antes de começar a atirar.

Luís Fernando Veríssimo
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Crise de governo no Brasil

Plano de Golpe de Estado para escutar

Uma gravação de áudio evidencia que a deposição de Rousseff foi planejada para por fim às investigações por corrupção. Ajudaram na derrubada os militares e o judiciário?

Governo-Temer-Gravacoes-vazadas-de-ministro-do-Planejamento-sugerem-pacto-para-deter-Lava-Jato
“Já não planeja mais”
Para deter as investigações por corrupção é necessário um “pacto nacional”. “Com o Supremo, com tudo, (…) botar o Michel (no governo), (…) aí parava tudo”. Romero Jucá fala sem inibições e com todas as letras, ele não suspeitara que seus oponentes interceptavam tudo. Então, uma vez mais ele vai ao ponto: “Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”, diz Jucá em defesa dos muitos políticos suspeitos de corrupção no Brasil.

A conversa do Ex-diretor da Petrobras, Sérgio Machado, ocorreu em março, dois meses antes da Presidente Dilma Rousseff ter sido provisoriamente suspensa do cargo em um controverso processo de impeachment. Agora Michel Temer é presidente interino, e nomeou seu correligionário (ou colega de partido) e homem de confiança próximo, Jucá, para Ministro do Planejamento. Após a publicação da gravação de áudio pelo jornal Folha de São Paulo, Jucá, em um primeiro momento, declara que com “sangria” ele se referia a grave crise económica. Horas mais tarde colocou seu cargo a disposição.

Muito do que os opositores do impeachment sempre afirmaram, fica agora preto no branco: Ela não foi deposta por má conduta ou por corrupção, mas pelo contrário — para terminar com as investigações por corrupção, que ameaçam toda a classe política, e sobretudo agora o novo Governo. Jucá e Machado estão ambos implicados até o pescoço no escândalo de corrupção na petroleira paraestatal Petrobras.

Jucá predizia naquele momento, que o impeachment de Rousseff levara ao “fim da pressão da imprensa e de outros setores pela continuidade das investigações da Lava Jato. ” O ex-senador informa com todas as letras até mesmo sobre encontros com Ministros individualmente, e explica: “tem poucos caras [no STF]” a quem ele não tem acesso. Ele tinha conversado inclusive com Generais. “Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. ” Então Jucá afirma que os militares estariam monitorando o MST, mas que não sabia o porquê.

Nesse ponto até teóricos da conspiração ficam desconfiados. Seria realmente verdade que Militares e parte do Supremo Tribunal Federal ajudaram a enxotar uma presidente impopular do cargo? Vários membros do Supremo reagiram prontamente e declararam categoricamente que a afirmação de Jucá era inteiramente inventada.

Finalmente Provas

O Partido dos Trabalhadores, até a pouco, partido governista, viu-se obrigado a falar de um “golpe de estado”. Afonso Florence, Líder do PT na Câmara, avaliou a gravação como não sendo surpreendente, mas que finalmente tem-se uma confissão: “[…] Ali tem crimes como obstrução da Justiça, ataque à democracia (…) ”. Finalmente ficou provado que eles (os opositores do PT) lideraram o ataque a Petrobras. A máscara do governo golpista de Temer caiu, explica Florence.

A oposição exige a cassação imediata de Jucá e investigações criminais. Tanto ele quanto Temer pertencem ao PMDB, que em março abandonou o governo de Rousseff. Em apenas duas semanas no cargo a pressão sobre o interinato de Temer incrementa. Já no domingo ele faz o primeiro grande recuo e desfaz a veementemente criticada extinção do Ministério de Cultura. Seu gabinete foi desde o início criticado e ridicularizado; nenhuma única mulher e nenhum único negro entre os 23 ministros. Mas em contrapartida sete senhores, contra os quais a Suprema Corte (STF) investiga no escândalo da Petrobras.

A saída de Jucá enfraquece a equipe econômica de Temer, agora no processo de impor ao Brasil um estrito programa de austeridade. De acordo com pesquisas, Temer é tão impopular quanto Rousseff, responsabilizada pela grave crise econômica. Diariamente irrompem-se protestos em diversas cidades contra o discutível governo interino, no domingo a polícia reprimiu através do uso da forca uma manifestação em frente à residência de Temer em São Paulo. Na segunda feira, à noite, após a publicação dos áudios de Jucá ocorreram novas manifestações espontâneas.

Desde já é possível prever que o caso Jucá não será o último problema do governo de Temer. O ex líder da oposição e atual parceiro de coligação, Aécio Neves, do conservador PSDB — que perdeu por uma margem estreita o segundo turno das eleições para Rousseff em 2014 — vem sendo associado sempre com o escândalo [Lava-jato]. Jucá o chama a luz da investigação simplesmente como um “caso perdido”. E segundo publicações na imprensa, Machado gravou o interlocutor Jucá não apenas nesta conversa, mas também em diálogo com o Presidente do Senado Renan Calheiros, outro cacique do PMDB, que também já se encontra sob investigação.

Andreas Behn – TAZ (Alemanha) / Tradução: Sara Vivacqua, ativista do Conexões em Luta
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Tudo o que é sólido se desmancha no ar


A delação premiada de Sérgio Machado expôs a nu o governo interino de Michel Temer. Toda a cúpula do PMDB foi diretamente comprometida, sem excluir o próprio presidente.

"Pro Michel eu dei", disse o delator, explicando que se tratava de R$ 1,5 milhão acertados pessoalmente com Temer na Base Aérea de Brasília, em repasses de propina da empreiteira Queiroz Galvão. O dinheiro ilícito teria sido destinado à campanha de Gabriel Chalita à prefeitura paulistana.

É verdade que delação não é prova. Não era quando se tratava do PT e não será agora porque o alvo é Michel Temer. Deixemos a incoerência para quem vive dela.

Mas não custa lembrar que por muito menos que isso, Lula foi conduzido coercitivamente pela Polícia Federal. E Dilma — sob o fraco pretexto das pedaladas — destituída da Presidência da República mediante um golpe parlamentar.

Nenhum depoimento até então apontou a presidenta como recebedora de propinas. Já Temer, em apenas um mês de governo, tem o nome diretamente ligado ao esquema. O ambiente é de corrosão.

Quem prometia a "salvação nacional" precisa preocupar-se agora em salvar seu pescoço. Do presidente interino a seus ministros, passando por metade do Congresso, todos estão na corda bamba. E se Sérgio Machado está fazendo esse estrago, imaginem então o que não faria uma delação de Eduardo Cunha, caso seja mesmo cassado e preso.

Tudo o que é sólido se desmancha no ar. Isso vale para o governo Temer e também, é claro, para o sistema político brasileiro, em franca dissolução.

Mas o que se desmancha no ar pode ser recomposto em mais do mesmo, se as forças vivas da sociedade não forem capazes de apresentar saídas.

Não basta estar podre para cair. A crise entre os "de cima" precisa vir acompanhada da mobilização decidida dos "de baixo".

Guilherme Boulos
No Esquerda Caviar
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O esquema da Transpetro com 18 políticos, e PMDB é o maior beneficiário



Na delação, Machado relembra repasses de mais de R$ 100 milhões ao PMDB, R$ 800 mil ao PT, R$ 550 mil ao DEM, R$ 250 mil ao PP e R$ 100 mil ao PCdoB


Com a retirada do sigilo da delação premiada do ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, novas denúncias e personagens das investigações vieram à luz. Nos depoimentos, Machado fez questão de não apenas arrolar o grupo do PMDB e de seu padrinho político, Renan Calheiros (AL), como também nomes da direita, centro até a esquerda: DEM, PSDB, PSB, PP, PT e PCdoB.

Ainda sem investigações sobre até que ponto os depoimentos de Sérgio Machado trazem provas materiais, o ex-presidente da Transpetro relatou um cenário na política brasileira quase que intrínseco às eleições: contou que o sistema de nomeação de apadrinhados em estatais com o objetivo de arrecadar propinas de grandes contratos e empreiteiras em forma de doações existe desde a Quarta República brasileira, durante o governo militar de Eurico Gaspar Dutra, em 1946.

Machado explicou que o sistema funcionava em três frentes:


Sergio Machado explicou que o esquema de propina nas empresas estatais funcionava, sobretudo, por meio dos aditivos: eles eram "a maior fonte de desvios de recursos públicos", disse. Afirmou que como presidente da Transpetro, desde julho de 2003 até novembro de 2014, arrecadou os recursos ilícitos, "mas nunca envolveu outros dirigentes da estatal, negociando diretamente com as empresas que venciam as licitações".

Também explicou o jogo de coerção usado, dentro das estatais, com as empreiteiras. Apesar de fazerem parte do esquema, por meio do pagamento de propina, em forma de doações, aos políticos, se as empresas não aderissem ou parassem de pagar a propina combinada, "não sofriam represálias durante a vigência do contrato, mas depois não conseguiam novos contratos".

Ainda que sem provas materiais, os principais políticos que recebiam propina de empresas ligadas à Transpetro eram a cúpula do PMDB: Renan Calheiros (AL), Jader Barbalho, Romero Jucá, José Sarney e Edison Lobão. 

Mas, "além destes políticos, o depoente [afirmou que] também repassou propina, via doação oficial, para os seguintes": Cândido Vaccarezza (PT-SP), Jandira Feghali (PCdoB-RJ), Luis Sérgio (PT-RJ), Edson Santos (PT-RJ), Francisco Dornelles (PP-RJ), Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), Ideli Salvatti (PT-SC); Jorge Bittar (PT-RJ), Garibaldi Alves (PMDB-RN), Valter Alves (PMDB-RN), Valdir Raupp (PMDB-RO), José Agripino Maia (DEM-RN), Felipe Maia (DEM-RN), Sergio Guerra (PSDB-PE), Heráclito Fortes (PSB-PI).

Vaccarezza teria solicitado apoio para a eleição de 2010 e teria recebido R$ 500 mil por meio de doação oficial ao diretório do PT em São Pailo. A quantia seria oriunda de vantagens ilícitas da Camargo Corrêa com a Transpetro. 

Sobre a deputada Jandira Feghali (PCdoB) e o deputado Luis Sérgio (PT), Machado afirma que ambos eram defensores da indústria naval e que ambos o procuraram, o ex-presidente da Transpetro comunicava "de onde viria essa doação" cuja origem "eram vantagens indevidas".

No caso de Jandira, a deputada teria recebido a propina por meio de doação oficial da Queiroz Galvão, em 2010, no valor de R$ 100 mil. E Luiz Sergio, também da mesma empreiteira, teria recebido R$ 200 mil em 2010 e mais R$ 200 mil em 2014. Edson Santos, do PT, teria recebido R$ 142 mil da Queiroz Galvão, para a campanha a deputado federal em 2014. 

Como presidente do PP, Francisco Dorneles também teria solicitado o "apoio" para a eleição de 2010, recebendo R$ 250 mil da Queiroz Galvão, enviado para a direação estadual do PP no Rio de Janeiro.

Henrique Alves (PMDB) chegou a levar algumas empresas de tecnologia e serviços para a Transpetro firmar contratos, mas não obteve avanços, contou Machado. Mas que "o depoente sempre ajudava em época de campanha quando ele ligava pedindo um encontro". 

Ao PMDB, relatou Sérgio Machado, a Transpetro repassou mais de R$ 100 milhões. Desse total, R$ 1,55 milhão foi direcionado a Henrique Alves pela Queiroz Galvão, nos anos de 2008, 2012 e 2014, e pela Galvão Engenharia, em 2010.

Como líder do governo e candidata a governadora de Santa Catarina, Ideli Salvati (PT) teria recebido R$ 500 mil pela Camargo Correa, em 2010. Jorge Bittar, também do PT, também teria conseguido uma quantia em forma de doação oficial de R$ 200 mil, pela Queiroz Galvão, repassado ao diretório estadual do Rio de Janeiro.

Então presidente do PMDB, Valdir Raupp teria recebido R$ 500 mil, pela empresa Lumina Resíduos Industriais, do grupo Odebrecht, em 2012, no diretório nacional do partido. 

O senador Garibaldi Alves (PMDB), também teria recebido R$ 200 mil da construtora Queiroz Galvão, em 2010, e R$ 250 da Camargo Correa, em 2012. Em 2014, enquanto Ministro da Previdência, também teria se encontrado com Machado para pedir a "doação".

Um desses pedidos foi para a candidatura de seu filho, Valter Alves, a deputado federal (PMDB), conseguindo R$ 250 mil da Queiroz Galvão.

Ao citar os encontros com os peemedebistas, Sérgio Machado mencionou, mais de uma vez, que foi repassado ao PMDB mais de R$ 100 milhões em sua gestão na Transpetro. Desse total, R$ 700 mil foram para Garibaldi Alves. 

O ex-executivo contou que, durante o período eleitoral, José Agripino Maia (DEM) também pediu doações da Queiroz Galvão, uma em 2010, para o senador José Agripino, de R$ 300 mil, e outra em 2014, para o filho do senador, o deputado Felipe Maia (DEM), no valor de R$ 250 mil.

Pedido de Temer: R$ 1,5 milhão

Sérgio Machado não poupou o presidente interino Michel Temer. O nome do peemedebista é citado 22 vezes na delação premiada. 

Em dos momentos, Machado afirma o apoio de Michel Temer ao candidato a prefeito de São Paulo, Gabriel Chalita, em 2012. Que como "não estava bem na campanha", Temer foi chamado por Valdir Raupp, para solicitar "propina na forma de doação oficial para Gabriel Chalita".

O ex-presidente da Transpetro detalhou uma conversa que teve com Temer, na Base Aérea de Brasília, em setembro de 2012, sobre os recursos para o candidato a prefeito de São Paulo. Detalhou episódios do encontro, em que acertaram R$ 1,5 milhão de doação, pela Queiroz Galvão, a Chalita, a pedido de Michel Temer.

Esse valor integrava a cota do PMDB nas propinas articuladas pela Transpetro. 


Patrícia Faermann
No GGN
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Cai o circo da hipocrisia. Todo mundo lá. Menos Dilma e e Lula, não é?


Não há muito o que dizer depois da divulgação do depoimento de Sérgio Machado, ex-diretor da Transpetro.

A fábrica de salsichas de política real foi aberta e viu-se a massa que mistura o são e o nojento na formação da pasta que a compõe.

Há de tudo ali: dinheiro que serviu para o enriquecimento pessoal, recursos que serviram para comprar apoio do outros políticos, verbas para campanhas eleitorais milionárias e trocados para campanhas modestas, num cenário de mercantilização das eleições fez centenas de milhares de reais serem quantias modestas.

Há a corrupção histórica, própria dos canalhas e é a corrupção inevitável feita por um sistema eleitoral em que é — ou era — “legal” que um candidato pudesse receber milhares ou milhões de reais de uma empresa.

Ainda não é o pior, porque o pior está por vir.

Abriu-se a caixa de Pandora e a vintena da lista de Machado não é nada perto do que, se o fizerem, do rol que sairá das delação das empreiteiras.

Mas já coloca Michel Temer na situação de explicar, aos gaguejos, que não pediu e, adiante, ser desmentido com a prova do encontro com Machado. Tanto que que saiu pela tangente, dizendo que não pediu doações ilegais. Ilegais.

Renan, Sarney, Jucá, os sócios “beneméritos” da lista, ganhavam mesada. Os “esquerdistas” ganhavam uma “merreca”, na forma de doação. “Os políticos sabiam que o dinheiro vinha de empresas que prestavam serviços à Transpetro”, diz Machado para justificar colocar todos no mesmo saco.

Aécio sai com trechos da delação colados em sua testa, pela farta distribuição de dinheiro a seus aliados e a “bolada” destinada a ele, pessoalmente, vinda daqui e do exterior.

Mas há dois nomes importantes.

Não por estarem na lista, mas por não estarem citados em momento algum.

Nomes que eram, diretamente, os responsáveis por manter Sérgio Machado no cargo, ainda que indicado pelo PMDB.

São exatamente Lula e Dilma.

Apontados como vilões, são dos poucos a quem, mesmo os delatores mais dispostos a tudo para salvar a pele, não apontam o recebimento de vantagem em dinheiros.

Fernando Brito
No Tijolaço
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O xadrez dos homens santos e das eleições gerais

Fato 1 – a lambança de Sérgio Machado

A política sempre comportou uma enorme dose de hipocrisia, com discursos reiterados prometendo o bem comum e, por trás, os acordos espúrios, os financiamentos de campanha, o enriquecimento pessoal.

Vários políticos corruptos ou meramente suspeitos foram tolerados em nome da hipocrisia e do pragmatismo.

Hipocrisia é o ato de disfarçar o que se sabe, escondendo-se no álibi de uma falsa ignorância. Quando a corrupção política é escancarada, exibida publicamente em todos os veículos de mídia e das redes sociais, ignorar, que há de?

É o que ocorre com a delação de Sérgio Machado e filhos, um documento arrasador sobre o centro do poder, começando pelo interino Michel Temer.

Nenhuma pessoa minimamente informada tinha dúvidas acerca do passado e do presente de Temer. No depoimento de Machado, ele aparece na Base Aérea de Brasília negociando R$ 1,5 milhão em favor da campanha de Gabriel Chalita para a prefeitura de São Paulo.

Esse ato de desprendimento é apenas a gazua abrindo a porta principal: dificilmente a renda de Temer conseguiria justificar o patrimônio acumulado em um período em que foi exclusivamente político. As ligações com o grupo Libra, com coronéis da reserva da Polícia Militar, já são de domínio público.

Escancarada sua biografia, é possível esconder o cadáver na sala de visita e fingir que ninguém morreu?

Difícil. Temer chefia um grupo onde despontam figuras notórias, como Gedel Viera Lima, Eliseu Padilha, Moreira Franco. Abaixo deles, um Ministério com a maior capivara da história da República.

É um grupo sequioso de poder, avançando sobre todos os espaços públicos com uma gana de quem quer viver intensamente o presente, sabendo que o futuro é incerto.

Pergunto: dá para ignorar? É evidente que não.

Cada vez mais o Supremo será chamado a assumir um papel a que vem se recusando sistematicamente: o de anteparo à voracidade do governo interino que, sem a legitimidade do cargo e, agora, com as chagas expostas, pretende desmontes irreversíveis nas políticas públicas.

Afinal, no altar da política, são  homens santos, que vivem com um terço no bolso.

Fato 2 – os avanços de uma Justiça errática

A espantosa falta de visão macro política dos principais agentes da Lava Jato — do Procurador Geral Rodrigo Janot ao Ministro do Supremo Teori Zavaski — logrou o feito de entregar o país a um bando. Esse bando aboletou-se no Executivo, controla a Câmara e tem ascendência sobre o Senado.

Agora, finalmente investe-se sobre o bando de forma desconjuntada, sem respeitar sequer a coerência. Janot demonstra uma indignação extemporânea contra o vazamento do pedido de prisão de senadores, após quase dois anos de uma enxurrada de vazamentos, período no qual não houve sequer um gesto de condenação de sua parte.

Teori aplica dois pesos e duas medidas em suas decisões similares. Qual a razão para ter autorizado a prisão do ex-senador Delcídio do Amaral e ter recusado o pedido de prisão de Renan Calheiros, Romero Jucá e José Sarney?

Nem estou entrando no mérito da questão, se deviam ou não ser presos, se podiam ou não. Mas são duas situações idênticas que receberam tratamento distinto.

A lógica diria que foi devido às consequências muito mais drásticas, com a eventual prisão do presidente do Senado, de um Ministro de Estado e de um ex-presidente. Mas um Ministro do Supremo tem a liberdade de definir a conveniência ou não das medidas tomadas? E se tem, qual a razão para ter permitido o avanço do impeachment, demorando em se definir sobre Eduardo Cunha, deixando o país ficasse refém de uma horda bárbara?

Nas delações de Machado aparece pela enésima vez a Bauruense, a prestadora de serviços e grande lavanderia que abastecia as contas de Aécio com as propinas da Transpetro e de Furnas. Sabia-se desse envolvimento desde as delações pioneiras de Alberto Yousseff. E, no entanto, deixou-se Aécio livre e solto para ser um dos protagonistas do impeachment da presidente.

Daqui para a frente haverá uma torcida cada vez maior para que Janot e Teori levem a cabo a rodada final desses doze trabalhos de Hércules. Mas que não os submetam a nenhum teste de coerência, porque imediatamente acenderia uma luz vermelha.

Fato 3 – o avanço das eleições gerais

Aí se entra nos impasses políticos do momento.

Cada vez mais crescerá a proposta de antecipação de eleições gerais — para presidente, Câmara e Senado — da mesma maneira que crescerão as pressões da Lava Jato sobre o mundo político.

Não há a menor possibilidade de antecipar apenas as eleições para Presidente, com a Câmara tomada pelas hordas bárbaras. Seria manter qualquer presidente eleito refém do submundo da política.

O ideal seria uma reforma política seguida de eleições gerais.

Mas quem colocará o guizo no gato? O que convencerá deputados e senadores da urgência de aprovar uma reforma política e, em seguida, encaminhar a proposta de eleições antecipadas?

Por outro lado, tende a crescer a possibilidade de uma derrubada do impeachment. Aos poucos mercado, mídia e Judiciário caíram na real de que tentativa de dar sobrevida política ao interino é uma temeridade.

Como se viu ontem na Câmara, ele não tem autoridade para impor reformas drásticas, não tem pulso para frear as demandas corporativas, e tem ficha suja.

Alguém acha possível a Henrique Meirelles e companhia avançar em qualquer medida drástica, tendo como anteparo um esquema barra pesada, como o que sustenta Temer?

Os próximos meses serão de embates duros, com todos os atores posicionados: PGR e Teori avançando sobre os réus; o movimento crescente de apoio às eleições gerais; a mídia tendo de se curvar à realidade e às pressões de seus leitores. E, no Congresso, parlamentares tentando se agarrar com unhas e dentes às suas prerrogativas de parlamentares.

A campanha pelas eleições gerais poderá ser tão ampla quanto a das diretas nos anos 80. Principalmente se a Lava Jato de Curitiba lograr o objetivo que persegue desde que iniciou: a inabilitação política de Lula.

Luís Nassif
No GGN
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As bombas de efeito-retardado que Sérgio Machado deixou para a coalizão Temer-PSDB


José Sérgio de Oliveira Machado, ao se aproximar dos 70 anos de idade, deve ter imaginado que não valia a pena terminar a vida na cadeia.

Juntou-se aos três filhos que participaram direta ou indiretamente de seus negócios e produziu 246 páginas de denúncias sobre o submundo da política brasileira.

Ele tem história. Serviu como coordenador de campanha de Tasso Jereissati no Ceará, estado pelo qual foi eleito deputado federal (1991-94) e senador (1995-2003).

Foi líder do PSDB no Senado, mas não se reelegeu em 2002.

Indicado pelo PMDB, assumiu a direção da Transpetro no governo Lula e passou a “pagar” a conta aos que o sustentavam no cargo: Renan Calheiros, Romero Jucá, Édison Lobão e José Sarney.

Machado calcula que distribuiu a políticos mais de R$ 100 milhões. Renan teria levado R$ 32 milhões, Lobão R$ 24 mi, Jucá R$ 21 mi, Sarney R$ 18,5 mi, Jader Barbalho R$ 3 mi e Henrique Eduardo Alves R$ 1,5 mi.

Trata-se da base de sustentação do governo interino de Michel Temer.

O próprio Sérgio Machado chegou a acumular no Exterior uma fortuna estimada em R$ 74 milhões — ele alega que juntou dinheiro dentre outros motivos para disputar o governo do Ceará em 2010.

Transitando na confluência dos negócios com a política, Machado aparece no documento da Procuradoria Geral da República como uma espécie de historiador do propinoduto brasileiro, que ele alega ter surgido em 1946 com taxas fixas: 3% em contratos nacionais, 5 a 10% em estaduais, 10 a 30% em negócios municipais.

Ele relata curiosas manobras políticas de bastidores: o ex-presidente do PSDB, Sergio Guerra, e o demo Heráclito Fortes teriam cobrado propina para deixar andar numa comissão do Senado um projeto que interessava à construção naval no Brasil.

Trata também do esforço que levou Aécio Neves à presidência da Câmara no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Para montar a bancada de 99 deputados, foram feitas contribuições de campanha de 100 a 300 mil com dinheiro do empresariado, inclusive trazido de fora. Das sobras da campanha de FHC teriam vindo R$ 4 milhões. Aécio teria embolsado R$ 1 mi em dinheiro.

Diz a delação que “com frequência, Aécio recebia esses valores através de um amigo de Brasília, que o ajudava nessa logística; que esse amigo era jovem, moreno e andava sempre com roupas casuais e uma mochila”.

FHC temia contrariar Antonio Carlos Magalhães, já que o PFL tinha a maior bancada na Câmara (105 deputados). Mas Aécio, bombado com dinheiro do propinoduto, deu o golpe fechando acordo com o PMDB, que elegeu Jáder Barbalho presidente do Senado.

Sobre questões mais atuais, como a tentativa da coalizão PMDB-PSDB de acabar com a Lava Jato, Machado esclareceu que Renan Calheiros tratou do assunto com os tucanos José Serra e Aécio Neves e pretendia em breve incluir nas conversas José Agripino e Fernando Bezerra.

Mas há outros danos, de efeito-retardado, que a delação da família Machado pode inflingir ao governo Temer.

Sérgio Machado, falando como íntimo do tucanato, reforça enormemente denúncias que o PSDB tanto fez para desacreditar, sobre o esquema de Furnas.

A certa altura, ele diz que num contrato de janeiro de 2008 entre a Transpetro e a Bauruense, o dono desta, Airton Daré, pagou 300 mil reais em propina e que o empresário revelou que agia da mesma forma com a Eletrobras.

Daré, como se sabe, foi recordista em contratos com Furnas, que tinha um aliado de Aécio Neves, Dimas Toledo, como diretor de Engenharia. Numa ação de busca e apreensão na casa do empresário, em Bauru, a Polícia Federal apreendeu R$ 1.027.850,00 e U$ 356.050,00 em dinheiro vivo.

O doleiro Alberto Yousseff e o ex-presidente do PP, Pedro Corrêa, já haviam mencionado Aécio. Segundo eles, Daré pagava propina ao hoje senador tucano pelos contratos obtidos em Furnas. Corrêa mencionou a irmã do tucano, Andrea Neves, como intermediária.

Na famosíssima Lista de Furnas, que teria bancado a campanha dos tucanos em 2002, o nome de Andrea aparece ao lado de R$ 650 mil: “Valor avulso repassado para Andréa Neves, irmã de Aécio Neves, para os comitês e prefeitos do interior do Estado – MG”.

Já aparece no horizonte a possibilidade de que outro delator, Nilton Monteiro, venha a ser ouvido em futuras investigações. Ele foi íntimo das campanhas tucanas em Minas Gerais. Já afirmou que aceitaria contar tudo a autoridades federais desde que os processos a que responde na justiça estadual sejam federalizados.

Outro ponto importantíssimo da delação de Sérgio Machado é a descrição que ele faz de um esquema envolvendo a empreiteira Camargo Corrêa. O executivo Pietro Bianchi teria repassado R$ 9 milhões vindos de contas no paraíso fiscal de Andorra ao esquema comandado por Sérgio Machado.

Como se sabe, muito antes da Operação Lava Jato a Camargo Corrêa foi o foco da Operação Castelo de Areia, anulada pelo STJ. A Polícia Federal, ao fazer busca e apreensão na empresa, conseguiu acesso à contabilidade paralela da empreiteira. Bianchi foi um dos principais alvos da Castelo de Areia. O nome do hoje presidente interino Michel Temer aparece várias vezes nos relatórios da operação da PF (reproduzidos abaixo).

Como se tudo isso não bastasse, a família Machado ainda entregou à PGR dois “homens da mala”, intermediários que faziam o trânsito de dinheiro vivo para o pagamento de propina a políticos: um se chama Felipe Parente e o outro, Alexandre Lui.

Certamente ambos serão chamados a depor, o que acrescenta a possibilidade de que, em breve, saberemos detalhes pitorescos sobre a circulação do cash no propinoduto de Sérgio Machado.

Destinatários? Todos os “homens fortes” do governo Temer.











No Viomundo
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Fáceis, mas problemas

O quiproquó entre a delação do empreiteiro Léo Pinheiro e Guilherme Leal (empresário da Natura), a propósito de doação para Marinha Silva na campanha presidencial de 2010, decorre da incontinência da Lava Jato para "vazar" acusações sem os complementos esclarecedores. Seja porque desnecessários para o seu objetivo, seja por nem os ter para dar. É grande a probabilidade de que numerosos casos assim se mostrem quando os processos da Lava Jato cheguem, em julgamentos ou em recursos, a outras instâncias judiciais.

O "vazamento" atribui a Leal e a Alfredo Sirkys o pedido, à OAS de Pinheiro, de uma doação sem registro, portanto ilícita, para Marina. O empresário negou com veemência a afirmação. A notória seriedade de Guilherme Leal e de sua empresa dá maior crédito à sua negação. A lógica também o apoia: como candidato a vice de Marina, Leal fez à campanha doação legal superior a 20 vezes a contribuição da OAS, de apenas R$ 450 mil, convindo a ele e à campanha apresentar mais doadores. Mesmo que empreiteiros, como outros doadores registrados.

Não se tem como afiançar um ou outro lado, por falta do esclarecimento necessário. Seria simples, porém, fazer o "vazamento", desejado na Lava Jato, sem suscitar dúvida e sem o risco de injustiças. Não haveria o sensacionalismo tão procurado, é verdade. Mas bastaria verificar na contabilidade da OAS a saída daquela importância e a possível entrada na prestação de contas de Marina à Justiça Eleitoral. Por que isso não consta das afirmações "vazadas" pela Lava Jato, ou nem foi providenciado, é parte de um método de ação tão aplaudido por facciosismo quanto inadmissível pela ética.

Um problema nas delações e "vazamentos" da Lava Jato decorre de uma obviedade para quem, algum dia, quis saber como são operadas as campanhas eleitorais. Sua movimentação financeira é intensa e, para certos cargos, é alta. Apesar dos registros contábeis imediatos, no final é que será ajustada e montada a contabilidade para a Justiça Eleitoral. Com isso, os empreiteiros sabem o que deram, mas em geral não têm certeza do que foi ou não legalizado pelo candidato ou o partido nas prestações finais de contas. O que não está na de um, pode estar na do outro. Ou, devendo estar em alguma, não aparece: caixa dois, ilegal.

Variações assim tornam necessário aguardar novos procedimentos judiciais para saber o que ficará como veracidade nas delações e nos "vazamentos" indiscriminados. E ainda no facilitário de deduções ansiosas por acusar. Nessa espera, aliás, surgiu a maior novidade da Lava Jato nos últimos tempos: a mudança de estilo do procurador-geral Rodrigo Janot.

Os dois últimos antecessores de Janot, Antonio Fernando de Souza (hoje principal advogado de Eduardo Cunha) e Roberto Gurgel deixaram no cargo uma imagem de exaltação e pouco equilíbrio que o novo procurador-geral veio mudar. A combinação de comedimento e firmeza trazida por Janot, porém, desaparece com rapidez, contaminada por modos típicos da Lava Jato.

A mais recente evidência da mudança levou-a a ficar bem caracterizada na decisão, elegante mas enérgica, do ministro Teori Zavascki sobre a prisão de José Sarney, Renan Soares e Romero Jucá, pedida por Janot. Zavascki considerou que "ao contrário do que sustenta o procurador-geral da República, nem se verifica situação de flagrantes crimes inafiançáveis, (...) nem há suficiência probatória apta" na fundamentação do pedido. Impossível imaginar que Janot não conhecesse tais carências. Chegou, no entanto, a afirmar no pedido que os três estavam "executando meios de embaraçar (...) a investigação criminal".

Entre pensar em, desejar e sugerir, como fizeram os três, e estar "executando", a distância é igual à existente entre o equilíbrio devido e propósitos tão reprováveis quanto o desejo de prender por prender, por possuir o poder de fazê-lo, por um ressentimento, algo assim. Como sabia o Rodrigo Janot de poucos meses atrás.

Janio de Freitas
No fAlha
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