15 de jun de 2016

Íntegra da delação de Sergio Machado

Leia Mais ►

Machado diz que Aécio recebeu doação ilegal de R$ 1 milhão em dinheiro


Ex-presidente da Transpetro, que era líder do PSDB no Senado na época, diz que planejou com o hoje presidente tucano

Os dois teriam arrecadado R$ 7 milhões, junto com o então senador Teotonio Vilela
"Todos do PSDB sabiam que Furnas prestava grande apoio ao deputado Aécio Neves via o diretor Dimas Toledo, que era apadrinhado por ele durante o governo Fernando Henrique Cardoso e Dimas Toledo contribuiu com parte dos recursos para a eleição da bancada da Câmara à época", disse Machado, em sua delação.
Em delação premiada, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado disse que o senador Aécio Neves (PMDB-MG) recebeu, de forma ilícita, R$ 1 milhão em dinheiro em 1998. O dinheiro veio de um fundo montado por Machado, Aécio e o então senador Teotonio Vilela, que era presidente nacional do PSDB na época, com o objetivo de financiar a bancada do partido na Câmara e no Senado. O dinheiro seria usado em campanhas para a reeleição. O plano era “eleger a maior bancada federal possível na Câmara para que pudessem viabilizar a candidatura de Aécio Neves à presidência da Câmara dos no ano 2000”. Na delação, Machado disse também que recebeu pedido do presidente interino Michel Temer para financiar a campanha de Gabriel Chalita à prefeitura de Sâo Paulo em 2012. O valor acertado entre ambos foi de R$ 1,5 milhão.
Machado, Aécio e Teotonio teriam arrecadado R$ 7 milhões, sendo que R$ 4 milhões do total teriam sido obtidos da campanha nacional de Fernando Henrique Cardoso. O restante teria saído de empresas. Segundo o delator, parte do dinheiro teria vindo do exterior. A divisão do bolo daria “entre 100 mil e 300 mil a cada candidato”, segundo Machado. Cerca de 50 deputados receberam a ajuda de custo para as campanhas. O maior beneficiado teria sido Aécio.

“A maior parcela dos cerca de R$ 7 milhões de reais arrecadados à época foi destinada ao então deputado Aécio Neves, que recebeu R$ 1 milhão de reais em dinheiro”, disse Machado. O depoente também disse que Aécio “recebia esses valores através de um amigo de Brasília que o ajudava nessa logística”.

Entre as empresas que contribuíram para o fundo do PSDB está a Camargo Correa, uma das investigadas na Lava-Jato. Segundo Machado, em 1998, recebeu “um pacote de dinheiro de R$ 350 mil reais para o PSDB” das mãos do presidente da empreiteira, Luiz Nascimento. “A Camargo ajudava fortemente e sempre foi um grande doador nas campanhas tucanas”.

Machado também disse que ouviu do ex-ministro Sérgio Motta, do governo Fernando Henrique, que Dimas Toledo era nomeado e apadrinhado por Aécio, e que “todos do PSDB sabiam que Furnas prestava grande apoio ao deputado Aécio via o diretor Dimas Toledo”. O delator também disse que Dimas “contribuiu com parte dos recursos para eleição da bancada da Câmara”. E que “parte do dinheiro para a eleição de Aécio para a Presidência da Câmara veio de Furnas”.

Sérgio Machado também afirmou na delação que o fundo paralelo do PSDB deu resultados, porque elegeu 99 deputados, dando ao partido a segunda maior bancada da Câmara na legislatura seguinte. O maior partido era o PFL, com 105 deputados.

Em outro depoimento, Machado explicou conversa gravada com o ex-senador José Sarney (PMDB-A) em março deste ano, na qual chamou Aécio de “vulnerabilíssimo”. Segundo o delator, ele quis dizer que “Aécio Neves também incorria na prática de receber propinas tanto na forma de doações oficiais, quanto por dinheiro em espécie”.

No Amigos do Presidente Lula
Leia Mais ►

Distribuição de cargos para tucanos é plano contra Lava Jato, diz Janot

Janot
O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou ao STF (Supremo Tribunal Federal) que as nomeações de ministros para atender aliados do PMDB e a distribuição de cargos ao PSDB pelo presidente interino, Michel Temer, integravam um plano para encerrar a Lava Jato.

A avaliação de Janot consta do pedido de prisão do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), do senador Romero Jucá (PMDB-RR) e do ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) e que foi negado pelo Supremo, a partir das gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Para Janot, as indicações faziam parte da "solução Michel", que tinha objetivo de "construir uma ampla base de apoio político para conseguir, pelo menos, aprovar três medidas de alteração do ordenamento jurídico em favor da organização criminosa": a proibição de acordos de colaboração premiada com investigados ou réus presos; a proibição de execução provisória da sentença penal e a alteração do regramento dos acordos de leniência.

A Procuradoria cita a nomeação de três ministros: Jucá para o Planejamento, José Sarney Filho para Meio Ambiente e Fabiano Silveira para a Transparência.

"Pode-se inferir destes áudios que certamente fez parte dessa negociação [plano contra Lava Jato] a nomeação de Jucá para pasta do Ministério do Planejamento, além da nomeação do filho de Sarney, para o Ministério do Meio Ambiente, e de Fabiano Silveira, ligado a Calheiros, para o Ministério que substituiu a Controladoria-Geral da União, além dos cargos já mencionados para o PSDB", afirmou o procurador-geral.

Jucá e Silveira deixaram os cargos após a divulgação dos áudios. O pedido de prisão dos peemedebistas foi entregue ao Supremo no dia 23 de maio, quando a Folha revelou que ele discutia um pacto para frear a sangria.

"O que está por trás da trama criminosa - com a fantasia mambembe de processo legislativo - voltada para engessar o regime jurídico da colaboração premiada é apenas o interesse de parcela da classe política, que se encontra enredada na Operação Lava Jato, em especial os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá e o ex-presidente José Sarney, em evitar acordos dessa estirpe que revelem a corrupção endêmica em que incorrem continuadamente por anos e anos a fio (que admitem e comentam sem reservas nas conversas gravadas)", afirmou Janot.

Para Teori, no entanto, o pedido de prisão foi embasado "em presunção de que os requeridos, pelo teor das conversas gravadas, poderão utilizar da força política que possuem para causar interferências nas investigações, sem, contudo, apresentar atos ou elementos concretos nesse sentido".

Márcio Falcão
No fAlha
Leia Mais ►

Conselho de Ética pode instaurar hoje processo contra Bolsonaro por apologia à tortura

A representação contra o parlamentar, apresentada pelo PV e pela OAB-RJ em abril, afirma que o deputado fez apologia à tortura ao homenagear o coronel Brilhante Ustra durante a sessão sobre a abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff


O Conselho de Ética da Câmara dos Deputados pode instaurar um processo contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). A representação contra o parlamentar, apresentada pelo PV e pela Ordem dos Advogados do Brasil seção Rio de Janeiro (OAB-RJ) em abril, afirma que o deputado fez apologia à tortura ao homenagear o coronel Brilhante Ustra durante a sessão sobre a abertura do processo de impeachment da presidenta afastada Dilma Rousseff. A pauta está na agenda da Câmara dos Deputados.

Ao votar a favor da abertura do processo de impeachment, Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-comandante do DOI-Codi de São Paulo de 1970 a 1974.



“Perderam em 64, perderam agora em 2016. Pela família e pela inocência das crianças em sala de aula, contra o comunismo, pela nossa liberdade e contra o foro de São Paulo. Pela memória do Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas nossas Forças Armadas, por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos, o meu voto é sim”, disse o deputado ao microfone.

Ustra foi o primeiro militar a ser reconhecido pela Justiça como torturador no período da ditadura militar no Brasil. Bolsonaro, no entanto, afirma que não existe sentença transitada em julgado contra o coronel e lembra que deputados têm imunidade parlamentar por seus votos e palavras.

No Fórum
Leia Mais ►

Ele está de volta

http://www.maurosantayana.com/2016/06/ele-esta-de-volta.html


O lançamento, na Europa, do filme "Ele está de volta", uma "comédia" "leve" sobre o que aconteceria se Adolf Hitler voltasse à Alemanha de nossos dias, com cenas de pessoas parando, na rua, para tirar selfies com o maior assassino da História; e o relançamento de sua obra-síntese, o "Mein Kampf" — "Minha Luta", em vários países — uma edição portuguesa esgotou-se em poucas horas, esta semana, na Feira do Livro de Lisboa — mostram que, mais do que perder o medo de Hitler, o mundo está, para com ele, cada vez mais simpático, no rastro da entrega — quase sem concorrência — dos grandes meios de comunicação globais a meia dúzia de famílias e de milionários conservadores que, se não simpatizam abertamente com o nazismo, com ele comungam de um profundo, hipócrita, e tosco anticomunismo, fantasma a que sempre recorrem quando seus interesses estão em jogo, ou se sentem de alguma forma ameaçados.

Como também mostram o filme e o livro, e manifestações em vários lugares do planeta, defendendo a tortura, a ditadura, o racismo, o sexismo, a homofobia, o criacionismo, o fundamentalismo religioso, não é Hitler que está de volta.

É o Fascismo.

Um perigo sempre iminente, permanente, persistente, sagaz, que se esconde no esgoto da História, pronto a emergir, como a peste, com sua pregação e suas agressões contra os direitos individuais, a Liberdade e a Democracia, regime que não apenas odeia, como despreza, como um arranjo de fracos e de tolos, desprovidos de mão forte na defesa dos seus interesses.

Os interesses de uma elite "meritocrática" e egoísta, ou da elite sagrada, ungida por direito de sangue e de berço, na hora do nascimento.
Leia Mais ►

Filme que mostra como seria a volta de Hitler é um alerta sobre populismo de direita

Foto: Reprodução/Er ist wieder da

Em tempos onde um deputado federal de extrema-direita homenageia um ex-torturador do regime militar, nada melhor do que refletir sobre o populismo fascista assistindo o filme alemão “Er Ist Wieder Da” (Ele Está De Volta), que mostra como seria a volta de Adolf Hitler na Alemanha dos dias atuais.

Alguns especialistas afirmam que, historicamente, o populismo político é um fenômeno latino-americano, se referindo aos casos de Getúlio Vargas no Brasil e de outros ditadores como Peron na Argentina. Estão errados.

A experiência populista na Europa vingou na outra face da ideologia política: a extrema-direita. Com a crise econômica e as medidas de austeridade, essa classe política parece se reerguer com mais facilidade em países como Alemanha, França e Itália, além do preocupante leste-europeu. Para piorar, a onda de refugiados do Oriente Médio para o continente também tem dado mais fôlego para o crescimento desse setor.

Marine Le Pen, uma das favoritas para a presidência da França nos próximos anos, é um reflexo desses acontecimentos. Filha do fundador do até então inexpressivo partido de extrema-direita Frente Nacional, hoje ela é um dos nomes mais promissores da política europeia, defendendo o rompimento do país com a UE, atacando as medidas de austeridade provocadas pelos grandes bancos. Seu partido, com base na classe média e até mesmo nas mais pobres da França, adicionam um ponto diferencial nos “motivos da crise” no país: a imigração e a falta dos bons costumes.

Isso não é muito diferente do que temos visto recentemente no Brasil.

O caso do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) é um belo exemplo. Com a crise política em seu momento mais crítico desde o impeachment do ex-presidente Fernando Collor em 1992, a população brasileira parece estar procurando um “novo herói”, alguém capaz de promover uma limpeza política através de valores morais e cristãos.

Não por acaso, assistimos ao verdadeiro show de horror na Câmara dos Deputados no último domingo (17), enquanto votavam pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

“Deus” e “família” estiveram presentes em praticamente todos os discursos dos congressistas, exibido em tempo real na TV aberta para milhões de pessoas. Eles sabem que o momento é esse: mostrar para a família brasileira quem os realmente representa. Seguiram o roteiro. Bolsonaro foi além. O ex-militar resolveu dedicar seu voto ao torturador General Ustra, conhecido por ser um dos responsáveis pelo desaparecimento (ou morte) de dezenas de pessoas durante os 21 anos de ditadura militar no Brasil.

O populismo de extrema-direita voltou com tudo no século XXI. E um filme alemão soube representar bem esse cenário.

O filme “Ele Está de Volta” foi baseado no livro com o mesmo nome, scrito pelo alemão Timur Vermes e publicado pela editora Eichborn Verlag em 2012.

De forma bem irônica e agressiva, o enredo mostra como seria se o ditador Adolf Hitler voltasse para a Alemanha dos dias de hoje. O filme mostra cenas reais de diálogos entre o ator e a população alemã. Entre várias selfies, o ator que interpreta o ditador nazista é abordado diversas vezes por apoiadores que, sem o menor pudor, declaram que o país precisa novamente de uma experiência nacionalista para trazer de volta “os bons costumes perdidos”.

A ideia do filme é bem simples, porém de grande impacto. O personagem de Hitler consegue um programa de televisão, e através dele, critica a classe política por sua “corrupção” e descaso com os trabalhadores e famílias alemãs. Claro, ninguém sabe que se trata realmente de Hitler voltando do mundo dos mortos  —  o que torna o enredo ainda mais impactante.

Resumindo, o filme serviu de alerta para a sociedade alemã em tempos de crise como o país vive hoje. O crescimento de partidos de extrema-direita e de grupos de “ativistas” fascistas é realidade em todo o continente. Vendem soluções faceis, buscam um alvo para responsabilizar por toda a crise, e pregam por valores cristãos para conseguir atingir seu público com maior facilidade. Mas na realidade, o que vendem é pura violência e fascismo.




Foto: Tânia Rego/Agência Brasil
Para nós brasileiros, o filme também serve de alerta.

A crise de representatividade política não pode permitir que a sociedade busque em “heróis” a solução para todos os problemas do país.

O caso de Jair Bolsonaro é bem específico e claro. Utiliza de valores cristãos para defender seu discurso de ódio contra minorias, como é o caso da comunidade LGBT. Vangloria tempos sombrios do país, como a ditadura militar, defendendo a tortura e o assassinato de centenas de pessoas que morreram durante esse período.

Bolsonaro, assim como praticamente todos os líderes populistas da extrema-direita, conseguiu atingir seu objetivo na política institucional após fracassar no terreno que desejava. No caso, a sua carreira militar.

Relativizar ou ignorar o nível de gravidade de seu discurso, levando em consideração seu objetivo político de um dia governar o país, é a mesma coisa que tolerar a institucionalização do fascismo no Brasil. Apesar de ainda não ser visto como um dos favoritos para as eleições de 2018, vivemos tempos tão graves na política e na economia que já não se sabe qual caminho a sociedade irá escolher tomar nos próximos 2 anos.

O filme alemão serve para assistir, refletir e pensar muito bem.

Recentemente o NETFLIX incluiu o filme em seu catálogo, devidamente legendado.

Francisco Toledo, co-fundador e fotojornalista da Agência Democratize
Leia Mais ►

Se Cunha foi derrotado na Câmara, Temer também pode ser no Senado: esta a maior lição desta terça

Tia Eron não salvou Cunha por causa da pressão popular
As ruas falaram. A pressão popular funcionou. As redes sociais se impuseram: Eduardo Cunha está, enfim, morto.

A decisão da Comissão de Ética da Câmara dos Deputados para que ele seja cassado é um raro momento de luz nas trevas em que o Brasil foi submergido pela plutocracia golpista.

A decisão vai ser chancelada pelo plenário da Câmara, mas as chances de Cunha, com o voto aberto, são equivalentes a zero.

Como isso se reflete no processo de impeachment?

Não há uma ligação imediata, mas o que fica demonstrado é que a pressão popular funciona. Tia Eron ia fatalmente votar a favor de Cunha, bem como o deputado Wladimir Costa, do infame Solidariedade.

No final, ajudaram a levar Cunha para o cadafalso pelo clamor nacional.

Haverá, no Senado, uma votação definitiva em torno do afastamento de Dilma.

Dois votos que mudem são bastantes para corrigir uma terrível injustiça. O Senado aprovou o impeachment num cenário ilusório: o de que Temer iria abafar e Dilma sumiria.

O que aconteceu foi o oposto. Temer é um interino rejeitado desde o primeiro dia. Uma pesquisa Vox Populi publicada hoje mostrou as dimensões do repúdio nacional a ele.

É hora de pressionar fortemente os senadores, sobretudo os que já demonstraram algum remorso pelo passo falso, como Cristovam Buarque.

Se Cunha, com todo o seu poder, pôde ser derrotado na Câmara, está claro que Temer, muito mais fraco, também pode ser batido no Senado.

Para os que lutam pela democracia, a queda de Cunha é um estímulo fortíssimo. Si, si puede, como se diz em espanhol.

Sim, é possível abreviar ao máximo a passagem espúria de Temer pelo Planalto.

Ruas, ruas e ainda ruas, aliadas a uma ação contínua nas redes sociais: esta é a receita.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

Sérgio Machado diz que Temer acertou propina para Chalita

O ex-presidente da Transpetro disse que acertou com o presidente interino um repasse de R$ 1,5 milhão para a campanha do então candidato à prefeitura de São Paulo em 2012, Gabriel Chalita


O ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, disse em sua delação premiada que o presidente provisório Michel Temer o procurou para pedir propina para a campanha do então candidato à Prefeitura de São Paulo em 2012, Gabriel Chalita.

Machado disse que os valores acertados com Temer são de R$ 1,5 milhão em propina que serviria para ajudar Chalita no pleito eleitoral.

“[Machado] Posteriormente conversou com Michel Temer na Base Aérea de Brasília, provavelmente no mês de setembro de 2012, sobre o assunto, havendo Michel Temer pedido recursos para a campanha de Gabriel Chalita. …] O contexto da conversa deixava claro que o Michel Temer estava ajustando com o depoente era que este solitasse recursos ilicitos das empresas que tinham contratos com a Transpetro na forma de doação oficial para a campanha de Chalita; ambos acertaram o valor, que ficou em R$ 1,5 milhão”, diz o documento.

No Fórum
Leia Mais ►

Igreja Universal detona Cunha, o representante da Assembleia de Deus


Um grande estudioso do fenômeno do neopentecostalismo no Brasil já disse: "Não há inimigo mais virulento de um neopentecostal do que outro neopentecostal".

Depois de roubar os fiéis mais "frouxos" da Igreja Católica e das religiões de matriz africana, agora, as denominações neopentecostais crescem canibalizando-se umas às outras.

Tia Eron, ou Eronildes Vasconcelos Carvalho, de 44 anos, ex-professora da Escola Bíblica da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), que ela começou a frequentar ainda criança com a mãe, prova isso. Há dias, o noticiário da TV Record, controlada pela IURD, só se referia a Eduardo Cunha (PMDB-RJ) como "deputado afastado por suspeitas de corrupção".

Estava na cara que a Universal viraria as costas a Cunha, evangélico que já foi da Igreja Sara Nossa Terra e que, atualmente, é membro da Assembleia de Deus, Ministério de Madureira.

Com isso, a Universal ("dona" do pastor Marcos Pereira, atualmente ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços), mostra que não admite concorrência. Eduardo Cunha era poderoso demais para a IURD e precisava ser colocado no seu "devido lugar".

Laura Capriglione
Leia Mais ►

UPE apura denúncia de preconceito contra cubanos em questão de prova



Aluno precisaria indicar como certa ou errada estava a palavra “pseudo”

Prova-UPE 
A Universidade de Pernambuco (UPE) investiga denúncia sobre o conteúdo pejorativo contra médicos cubanos em uma prova. O teste aplicado na última segunda-feira (13) para alunos do 2º período do curso de Medicina usou um termo jocoso para falar sobre os profissionais estrangeiros: “um pseudo médico cubano afirma que o comprometimento é da artéria espinhal anterior”.

A questão pedia a avaliação de um paciente que após cateterismo de artéria vertebral desenvolveu uma tetraplegia. Entre as alternativas que o aluno precisaria indicar como certa ou errada estava a palavra “pseudo”, o que chamou a atenção.

Em nota, a UPE garantiu que está fazendo contato com a coordenação do curso e com o Instituto de Ciências Biológicas (ICB) para averiguar a situação. A universidade informou que, caso se comprove a denúncia, medidas institucionais serão tomadas.

No Viomundo
Leia Mais ►

O momento em que Cunha foi cassado no Conselho de Ética — assista


Leia Mais ►

O site mais canalha do Brasil

Dumb & Dumber
Quando um canalha se junta a outro canalha, o resultado é o site Antagonista. Um dos canalhas é Diogo Mainardi e o outro Mario Sabino.

Em relativamente pouco tempo no ar, o Antagonista se firmou como um dos focos de maior sujeira na internet brasileira.

A escola do Antagonista é a pior possível: a Veja depois da eleição de Lula.

Mario Sabino foi redator chefe da Veja em sua fase de miséria moral.

Ele não entrou na história da revista apenas por sua completa submissão às ideias do patrão, Roberto Civita, pela sua mais encardida famulagem. Entrou também por ter mandado um subordinado fazer uma longa e laudatória resenha sobre um romance dele, Sabino. Machado de Assis foi citado no texto. Sabino era um novo Machado, segundo o seu subordinado.

Algo mais a dizer sobre a cultura jornalística de Sabino?

Diogo Mainardi não é melhor. Ele é uma invenção de Lula. Mainardi não existiria se Lula não existisse. Ele foi o primeiro articulista a aceitar a missão dos patrões de bater incondicionalmente em Lula.

Era um zé mané no jornalismo, e a Veja lhe deu espaço e holofotes para massacrar Lula no começo dos anos 2000. Foi o pioneiro de uma série de articulistas que infestaram a mídia brasileira graças a um só atributo: bater, bater e ainda bater em Lula.

Escrevi isso quando era diretor editorial da Época, em 2007. A resposta de Mainardi veio numa coluna toda na Veja contra mim, com suas habituais mentiras e desinformações. Lembro de seu principal argumento: sou colunista da Veja. Parecia um personagem de Chico Anísio que se ufanava de trabalhar na Globo.

O Antagonista é um site de preguiçosos para preguiçosos. Seus textos em geral têm duas ou três linhas, comentários extraídos da política cotidiana, invariavelmente reacionários e maldosos. Mainardi e Sabino são o retrato perfeito da indigência intelectual da direita brasileira. Parecem não haver lido coisa nenhuma para sustentar suas opiniões conservadoras. Uma dose intensa de Burke e Buckley talvez mostrasse a ele que você pode ser direitista sem ser mentecapto.

Aos dois canalhas se juntaria um terceiro: a consultoria de investimentos Empiricus, que vive de vender pseudo-soluções financeiras para o terrorismo que ela mesma alardeia.

É um ménage à trois em que todos se merecem em sua pequenez.

Brizola disse que se você quer saber que lado tomar, basta ver a Globo e decidir pelo oposto. Você não vai errar.

O mesmo vale para o Antagonista.

Paulo Nogueira
No DCM
Leia Mais ►

História: herança principal de Eduardo Cunha é Michel Temer no Planalto

Xifópagos, por Aroeira, hoje no Facebook
Engolfadas pela sofreguidão da história e contaminadas pela memória traiçoeira, muitas análises do revés de Eduardo Cunha no Conselho de Ética da Câmara têm omitido a herança mais relevante dos seus dias como deputado todo-poderoso: a influência decisiva para a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer no Planalto.

Seria tosco ignorar que certas forças sociais, políticas e econômicas foram determinantes para a deposição da presidente constitucional. Sem aquela coalização o impeachment não teria prosperado.

Sem a ação de Cunha, contudo, é provável que ainda nem tivesse sido votado na Câmara.

Não é preciso ter memória de elefante para lembrar as observações do deputado Paulinho da Força: “Tá indo por causa do Eduardo Cunha. […] O impeachment só tá acontecendo por causa do Eduardo Cunha''.

Enquanto o marido de Cláudia Cruz abreviou a tramitação do impeachment, o Conselho de Ética atrasou a deliberação sobre o pedido de cassação dele por mentir sobre contas na Suíça. Mudaram a composição do conselho, acumularam chicanas, assistiu-se a adesões descaradas ou dissimuladas. O acordão pró-impeachment da presidente estabeleceu pactos para a salvação de Cunha.

O plano sacramentado por parlamentares acabou implodido pela Justiça. A mesma Justiça que demorou a se pronunciar sobre a saída de Cunha da chefia da Câmara, permitindo que ele presidisse a sessão farsesca de 17 de abril, alvejou-o com tantas bombas nos últimos dias que provocou constrangimento excessivo até para aliados do outrora mandachuva. Formar ao lado de Eduardo Cunha equivaleria, para alguns, a suicídio político. Não estavam a fim de se suicidar.

Mesmo afastado da presidência da Câmara, Eduardo Cunha influenciou decisões de Michel Temer, como a escolha do líder do novo governo, vinculado ao — ainda — deputado do Rio.

Muita gente esquece o que não é irrelevante: Temer e Cunha são correligionários. O primeiro não seria hoje chamado de presidente se o outro peemedebista não se dispusesse a patrociná-lo.

No balanço sincero da história, registre-se que um deputado denunciado por crimes cabeludos foi indispensável para derrubar uma presidente contra quem inexiste acusação de gatunagem.

Mário Magalhães
Leia Mais ►

Fábula do boi de piranha

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=8720

Era uma vez um boi.

Ele não sabia que seria boi de piranha.

Andava sempre na frente da tropa.

Tinha influência sobre cada elemento do rebanho.

Era líder.

Acostumou-se a mandar e a comer pasto de luxo.

Fez do seu lugar um curral.

Era rei.

Cobrava pedágio para quem quisesse pastar no seu campo.

Brigou com a chefe do latifúndio Brasil.

Na quebra de braço, conseguiu afastá-la do poder.

Embora seus malfeitos fossem conhecidos, foi mantido à frente do curral até o afastamento da inimiga.

Vencida essa etapa, tornou-se inútil ou um peso morto a carregar.

Era tão forte que manteve a lealdade de grande parte dos seus.

Mas não de todos.

Outros touros sentados entraram na mira da justiça.

Para que fossem salvos, um boi precisaria ser abatido.

O boi, que era líder e tinha sido útil, foi entregue.

De repente, ficou para trás.

Virou boi de piranha.

Moral da história: nem todo boi de piranha é inocente.

Destino de boi de piranha: largar na frente e ficar para trás.

Era uma vez um boi de piranha.

Chamava-se Eduardo Cunha.

Morreu dando coices.
Leia Mais ►

Renan diz que vai analisar pedido de impeachment contra Janot

Presidente do Senado foi flagrado em um diálogo em que chamava o procurador-geral da República de "mau caráter"

Ele
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), deu a entender que não rejeitará de pronto um pedido de impeachment contra o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, que foi protocolado nesta segunda-feira (13) no Senado. "Nos últimos meses, já arquivei cinco pedidos de impedimentos do procurador-geral da República, eu entendi que as petições eram ineptas. Essa, eu vou avaliar", disse.

O pedido foi feito por duas advogadas ligadas ao movimento pró-afastamento de Dilma Rousseff. Elas argumentam que Janot deu tratamento diferenciado a políticos do PT e do PMDB que estariam envolvidos em "situações análogas" na Lava Jato.

Em geral, Renan rejeita de imediato pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e contra o procurador-geral, que devem ser protocolados obrigatoriamente no Senado e cuja aceitação é avaliada monocraticamente pelo presidente da Casa. Recentemente, o presidente do Senado foi flagrado em um diálogo em que chamava Janot de "mau caráter".

Em abril, Renan fez forte discurso no plenário do Senado após recusar um pedido de impeachment do ministro do Supremo Marco Aurélio Mello, feito por integrantes Movimento Brasil Livre (MBL), que também defende o afastamento de Dilma Rousseff.

"Não podemos ser levianos com a democracia, nem subestimar a importância da separação dos poderes da República. É hora de o Legislativo ser Legislativo, de o Judiciário atuar como Judiciário e de o Executivo se portar como Executivo", disse à época.

Inquérito

Ao ser questionado sobre o pedido de impeachment de Janot, Renan se confundiu e entendeu que a pergunta era sobre o novo inquérito que o Supremo abriu nessa terça contra ele e outros membros da cúpula do PMDB. O presidente do Senado acabou dando uma declaração inesperada. "Lamento essa obsessão comigo", disse desconsertado.

Mais cedo, Renan evitou comentar sobre a abertura de novo inquérito. As declarações foram feitas antes de o ministro do STF, Teori Zawascki rejeitar seu pedido de prisão feito pela PGR.

No IG
Leia Mais ►

José Serra, o PSDB e o clientelismo dos outros

Geovânia de Sá (PSDB-SC) encaminhou ao ministro das Relações Exteriores de Temer um ofício com indicação para contratação de diplomata; candidato, porém, sequer prestou concurso público exigido para o cargo

dep1

Os partidos políticos possuem muitos papeis fundamentais para o funcionamento de uma democracia. Mas talvez possamos dizer que a mais importante de suas funções seja a de selecionar quadros da sociedade civil para a ocupação de cargos no Executivo e no Legislativo.

Não há de se criminalizar, portanto, a política e os partidos quando indicam seus quadros para ocuparem importantes postos no Estado brasileiro, caso dos ministros, por exemplo.

Antes políticos que sabemos bem quais interesses defendem do que técnicos que, por debaixo de uma casca supostamente neutra, implementem programas sem que saibamos a quais negócios representam.

Isso não significa, por óbvio, que todo o Estado deva ser preenchido por indicações políticas. Grande parte da estrutura burocrática precisa evidentemente estar lá por ter passado em um concurso público.

Assim, é claro para a legislação quais cargos devem ser indicações políticas e quais devem ser nomeados por concurso público.

Digo isso, pois um amigo do Itamaraty acabou de me mostrar um ofício que chegou na mesa do chanceler interventor José Serra no dia 9 de junho.
Ela
No ofício, a deputada Geovania de Sá (PSDB), que é do mesmo partido de Serra, pede que um aliado de seu estado seja nomeado para um cargo inicial da diplomacia em Brasília ou em Florianópolis.

“Informo tratar-se de pessoa idônea, responsável e com desejo imenso em trabalhar no Ministério das Relações Exteriores”, diz a deputada no ofício.

É evidente que um cargo inicial de diplomacia depende de um certo insulamento burocrático, ou seja, só pode ser preenchido através de um concurso público.

José Serra tem o costume de escrever artigos acusando os governos Lula e Dilma de serem “clientelistas”.

Pergunto para Serra: Quando uma deputada federal solicita que um aliado de seu estado seja indicado para um cargo cujo acesso só é possível via concurso público, podemos dizer que o partido dela é um partido clientelista?

Ou só é clientelismo quando são os outros?

Theo Rodrigues é sociólogo, cientista político e Coordenador do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.
No Cafezinho
Leia Mais ►

Programa Informativo Paralelo # 5


Leia Mais ►

O posicionamento ideológico de Dilma Rousseff e de Michel Temer visto por meio dos discursos de posse


Embora os posicionamentos ideológicos da Presidenta Dilma Rousseff e do presidente interino Michel Temer já não sejam novidade para a maioria, nem sempre se faz uma análise acurada, do ponto de vista linguístico, dos elementos que comprovam esses posicionamentos. Neste artigo, buscamos contrastar o discurso de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff, em 2015, e o de Michel Temer, em 2016, salientando alguns aspectos que situam esses atores políticos, a partir da identificação dos seus interlocutores.

O texto de Dilma Rousseff foi pronunciado no Congresso Nacional em 1º de janeiro de 2015 e apresenta as propostas de governo para o novo mandato. O discurso de Temer foi pronunciado ao assumir como presidente interino e dirigido a um conjunto de convidados no dia 12 de maio de 2016.

Neste artigo, escolhemos apenas um dos aspectos possíveis de serem analisados nos dois discursos: a quem eles se dirigem e de que forma o fazem. Aparentemente, são formas simples, como brasileiros, brasileiras e amigos. Mas uma análise mais aprofundada revela o real significado dessas palavras neste contexto.

Após dirigir-se ao público presente — presidentes do Senado e da Câmara, vice-presidente, ministros, governadores e representantes de delegações estrangeiras, entre outros —, Dilma Rousseff inicia seu discurso utilizando a forma meus queridos brasileiros e brasileiras; as variações desse vocativo (queridas brasileiras e queridos brasileiros, queridas e queridos brasileiras e brasileiros) repetem-se quatro vezes ao longo do texto. A Presidenta também utiliza duas vezes a forma amigos e amigas.

Michel Temer, por sua vez, ao cumprimentar os ministros empossados, governadores, parlamentares, familiares e amigos, utiliza a expressão meus amigos, repetida oito vezes ao longo de seu discurso. Temer não faz menção aos brasileiros e brasileiras.

Mas a quem, de fato, fazem referência as formas brasileiros e brasileiras e amigos? Como podemos ler esse endereçamento?

No discurso de Dilma Rousseff, é possível verificar, pela sequência da informação apresentada após o uso do vocativo, que brasileiros e brasileiras referem-se ao país, ao conjunto da população ou à parcela pertencente às classes sociais mais desfavorecidas, como se pode ver nos exemplos abaixo, indicados em itálico:

Queridas e queridos brasileiros e brasileiras,

O Brasil vai continuar como o país líder, no mundo, em políticas sociais transformadoras. Aos beneficiários do Bolsa Família continuaremos assegurando o acesso às políticas sociais e a novas oportunidades de renda.

Queridos brasileiros e queridas brasileiras,

O Brasil não será sempre um país em desenvolvimento. Seu destino é ser um país desenvolvido e justo, e é este destino que estamos construindo e buscando cada vez mais, com o esforço de todos, construir.

No primeiro exemplo, segue-se a referência ao Brasil, às políticas sociais e aos beneficiários do Bolsa Família em particular. No segundo, ela menciona novamente o país, qualificando-o como desenvolvido e justo, construído com o esforço de todos. Essa referência fica mais evidente ainda quando correlacionada a outras partes do discurso, como no trecho a seguir, em que se faz menção a toda a população sem exclusão de nenhum tipo:

Só a educação liberta um povo e lhe abre as portas de um futuro próspero. Democratizar o conhecimento significa universalizar o acesso a um ensino de qualidade em todos os níveis, da creche à pós-graduação. Significa também levar a todos os segmentos da população dos mais marginalizados, aos negros, às mulheres e a todos os brasileiros a educação de qualidade.

Mesmo quando a Presidenta emprega a forma “amigos e amigas”, trata-se de um “chamamento” a seus interlocutores, mas o conteúdo do texto refere-se ao coletivo (sociedade, movimentos sociais e povo), como vemos na passagem seguinte:

Amigos e amigas,

Tudo que estamos dizendo, tudo que estamos propondo converge para um grande objetivo: ampliar e fortalecer a democracia, democratizando verdadeiramente o poder. Democratizar o poder significa lutar pela reforma política, ouvir com atenção a sociedade e os movimentos sociais e buscar a opinião do povo para reforçar a legitimidade das ações do Executivo.

Além do estabelecimento dessas correlações, que indicam um endereçamento ao coletivo, a Presidenta sempre utiliza conjuntamente a forma feminina (brasileiras, amigas) e a forma masculina (brasileiros, amigos), nunca exclusivamente a forma masculina. Isso revela sua preocupação por incluir as mulheres em seu discurso. Essa perspectiva inclusiva é clara no trecho reproduzido abaixo:

Sinto alegria por ter vencido os desafios e honrado o nome da mulher brasileira. O nome de milhões de mulheres guerreiras, mulheres anônimas que voltam a ocupar, encarnadas na minha figura, o mais alto posto dessa nossa grande nação.

É exatamente essa perspectiva que o presidente interino busca suprimir ao vetar recentemente a forma de tratamento “presidenta” na televisão e na agência de notícias Brasil.

Posse de Michael Temer

No discurso de Michel Temer, não há uma única referência a brasileiros e brasileiras. Quando emprega a forma amigos, sempre no masculino, dirige-se aos seus correligionários de partido e apoiadores (colegas parlamentares, senhores governadores) e decorre da longa convivência ao longo do tempo. Isso pode ser visto no trecho a seguir:

Amigos,

Senhoras e senhores,

Eu pretendia que esta cerimônia fosse extremamente sóbria e discreta, como convém ao momento que vivemos. Entretanto, eu vejo o entusiasmo dos colegas parlamentares, dos senhores governadores, e tenho absoluta convicção de que este entusiasmo deriva, precisamente, da longa convivência que nós todos tivemos ao longo do tempo.

Ele fala também aos investidores, aos empresários e ao setor privado, como se vê abaixo:

Eu quero, também, para tranquilizar o mercado, dizer que serão mantidas todas as garantias que a direção do Banco Central hoje desfruta para fortalecer sua atuação como condutora da política monetária e fiscal. É preciso, meus amigos, — e aqui eu percebo que eu fico dizendo umas obviedades, umas trivialidades, mas que são necessárias porque, ao longo do tempo, eu percebo como as pessoas vão se esquecendo de certos conceitos fundamentais da vida pública e da vida no Estado.

Ao Estado compete — vou dizer, aqui, o óbvio —, compete cuidar da segurança, da saúde, da educação, ou seja, dos espaços e setores fundamentais, que não podem sair da órbita pública. O restante terá que ser compartilhado com a iniciativa privada, aqui entendida como a conjugação de ação entre trabalhadores e empregadores.

Mesmo quando faz menção ao povo brasileiro ou à sociedade, esses não são seu foco, pois sempre aparecem referidos em último lugar numa enumeração de vários atores, como vemos a seguir:

Reitero, como tenho dito ao longo do tempo, que é urgente pacificar a Nação e unificar o Brasil. É urgente fazermos um governo de salvação nacional. Partidos políticos, lideranças e entidades organizadas e o povo brasileiro hão de emprestar sua colaboração para tirar o país dessa grave crise em que nos encontramos.

Ninguém, absolutamente ninguém, individualmente, tem as melhores receitas para as reformas que precisamos realizar. Mas nós, governo, Parlamento e sociedade, juntos, vamos encontrá-las.

E é por isso que hoje nós estamos na fase da democracia da eficiência, com o que eu quero contar com o trabalho dos senhores ministros, do Parlamento e de todo o povo brasileiro.

Por meio desta breve análise aqui apresentada, as expressões brasileiros e brasileiras e amigos e seus contextos já são suficientes para evidenciar a presença de duas posições antagônicas. Por um lado, a da Presidenta Dilma Rousseff, que se dirige ao povo brasileiro, à nação brasileira sem distinção de gênero, raça ou posição social. Seu pronunciamento se endereça ao povo e indica que ela pretende governar com ele. Por outro, o discurso de Michel Temer é endereçado diretamente aos amigos, todos do sexo masculino, o que também se comprova pela escolha de apenas homens para os ministérios. E mesmo que essa forma linguística possa incluir as mulheres, pragmaticamente a referência é a um grupo seleto, os amigos presentes em sua posse, do mesmo que quando emprega senhoras e senhores. Constata-se ainda que, embora faça referência ao povo brasileiro e à sociedade, em primeiro lugar são sempre mencionados outros setores, como os investidores, o setor privado, os empresários.

Por fim, salientamos a individualidade expressa no pronunciamento do presidente interino — que se contrapõe à expressão de coletividade manifesta no da Presidenta — por meio de seu lapso do pronome meus em um dos trechos finais do discurso:

Farei muitos outros pronunciamentos. E meus ministros também. Meus ministros é exagerado, são ministros do governo. O presidente não tem vice-presidente, não tem ministro, quem tem ministro é o governo.

Em que pese a retomada imediata — “meus ministros é exagerado” —, palavra pronunciada é como flecha lançada… Esse fato é indício concreto de que, assim como a linguagem pode nos libertar, ela também pode nos trair. Esse lapso evidencia que, ao invés de se posicionar como mandatário, a quem cabe governar em nome do povo e para o povo, ele se coloca na posição de dono do poder, ou seja, a res publica é algo que lhe pertence — a ele e a seus amigos.

Fontes:



Cleci Regina Bevilacqua: professora do Departamento de Línguas Modernas e do Programa de Pós-Graduação em Letras do Instituto de Letras.
Patrícia Reuillard: professora do Departamento de Línguas Modernas e do Programa de Pós-Graduação em Letras do Instituto de Letras.

No
Leia Mais ►

Aécio Neves, o senador evanescente

Desde a votação do impeachment pela Câmara, o tucano esquiva-se dos holofotes, resta saber por quê

senador Aécio Neves anda sumido dos microfones, dos vídeos, das páginas impressas. Já foi herói da propaganda midiática, sempre pronto a ganhar a ribalta. Desde a votação do impeachment pela Câmara dos Deputados, prefere caminhar nas sombras.

Como explicar comportamento tão comedido? Cálculo político, para preservar a possibilidade de sua candidatura em 2018? Ou “medo” das consequências de investigações a seu respeito, como suspeito de falcatruas pregressas?

Entre aspas a palavra medo, porque pronunciada por Renan Calheiros em uma das conversas gravadas por Sérgio Machado, talvez sob orientação do próprio procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Desde que assumiu a presidência do PSDB, em maio de 2013, o senador Aécio Neves ganhou simpatia e espaço permanente na imprensa. Foi nomeado a personalidade capaz de interromper o ciclo petista no governo federal.

Agraciado como articulista do jornal Folha de S.Paulo, espaço antigamente reservado a filósofos, escritores, economistas e expoentes do pensamento nacional, passou a ser citado em reportagens claramente editorializadas, pelo suposto sucesso do “choque de gestão”. 

Ex-governadores
A prisão do 'amigo fraterno' complica a vida dos ex-governadores
Foto: Alessandro Carvalho/PSDB/MG
Alcunha ao plano de déficit público zero nas administrações em Minas Gerais, quando foi governador, sucedido por Antonio Anastasia.

Choque mesmo foi o de realidade para os mineiros. De acordo com um balanço divulgado pela Controladoria-Geral do Estado, no início de 2015, estimava-se um rombo de 7,2 bilhões de reais naquele ano, caso não efetuados cortes drásticos no Orçamento.

Ao que parece, as contas do senador não batiam com o vivenciado pela população de seu estado. Na eleição de 2014, ao enfrentar a presidenta afastada, Dilma Rousseff, Aécio foi rechaçado nas urnas pelo eleitorado local ao obter 47,6% dos votos válidos contra 52,4% de sua adversária.

Tornou-se o Torquemada do governo. Crítico ferrenho da corrupção, fortalecido pela mídia, navegou feliz por longo tempo. No momento em que as acusações ressurgiram, saiu de dedo em riste. Ele se disse alvo de perseguição e de conspiração.

A tática parecia ter dado certo. Obteve o benefício da dúvida, direito solenemente negado aos investigados que não comungam dos interesses da mídia nativa.

As investigações avançaram, e a contragosto do senador, no entanto, novos delatores citaram seu nome. Advogar a tese vitimista, desta vez, não funcionou. Resultado: pesquisas de opinião que até junho do ano passado o apontavam como detentor de 35% das intenções de voto na próxima eleição presidencial agora registram escassos 17%. Aécio sentiu o golpe. Sumiu. O antes verborrágico senador, sempre de olhos postos nas câmeras, aparenta ter perdido o entusiasmo.

Youssef
O doleiro Alberto Youssef foi o primeiro a citar Aécio na Lava Jato
Foto: Fabio Pozzebom/ABr
Antes presença permanente onde a oportunidade se oferecesse, o senador agora opta por opinar por meio de notas oficiais, ou fazendo uso da assessoria de imprensa de seu partido. Um deputado próximo a ele afirma: “Escolheu a coxia, porque tem telhado de vidro".

Nem assim, consegue o desejado resguardo. Foi preso esta semana o ex-presidente do PSDB mineiro Nárcio Rodrigues, aliado de longa data de Aécio e de Anastasia. A investigação do Ministério Público aponta para o desvio de recursos no projeto chamado “Cidade das Águas”, na região do Triângulo Mineiro, faraônico empreendimento da administração tucana para gestão de recursos hídricos, iniciado em 2010, último ano de mandato de Aécio como governador. 

Nárcio e Aécio são íntimos. Na eleição para presidente do partido em Minas Gerais, em 2009, a candidatura do amigo foi apoiada pelo governador. Em um vídeo de 2010, de contribuição à campanha de Nárcio para deputado federal, Aécio fala do correligionário com entusiasmo e proximidade. Diz que são “amigos fraternos” e vê em Nárcio “virtudes que o colocam como um dos mais completos homens públicos de seu tempo”.

Quais virtudes o senador não deixa claro, mas os vícios, segundo a investigação, são muitos. O projeto orçado em cerca de 300 milhões de reais teria tido desvios de ao menos 14 milhões. Isso até onde se sabe. Foi auditado apenas 35% do plano, o restante deve ser concluído nos próximos meses.

Uma das empresas investigadas é a construtora CWP, de propriedade, até 2009, de Waldemar Anastasia Polizzi, primo do ex-governador Anastasia. Os investigadores suspeitam que a empresa ainda tenha relação com o clã, mas de maneira oculta. Segundo as apurações, a construtora foi beneficiária de pelo menos 8,6 milhões de reais nos desvios e deixou de recolher 400 mil reais em tributos.

DocumentoNárcio costuma dizer que Anastasia foi o “mentor operacional e administrativo” do governo Aécio Neves em Minas. Ele sabe de muita coisa, mas não demonstra se preocupar com o escândalo. O ex-presidente do PSDB mineiro, fotografado rindo após a detenção, acredita que terá os mesmos favores do Judiciário garantidos a seus colegas de partido? 

Os próximos eventos do inquérito, não propiciam motivos de riso para o PSDB. Os investigadores já sabem que parte da quantia de dinheiro desviada por Nárcio tinha um destino: os cofres tucanos. A apuração revela que a quantia teve como finalidade abastecer as campanhas eleitorais de 2012 e 2014.

Por conta do chamado “mensalão” do PT, e na Operação Lava Jato, dirigentes foram presos, sentenciados e encarcerados. Com o PSDB, a situação é diferente. Não havendo nenhum tucano de alta plumagem encarcerado, talvez não seja à toa que a operação em Minas Gerais tenha ganhado o nome de aequalis, em latim igualdade.

Igualdade também no modus operandi da corrupção. A força-tarefa desconfia do uso das offshore para a remessa de dinheiro e o uso de empresas de fachada para o branqueamento de ativos. Aécio não se manifestou sobre a prisão do “amigo fraterno”. Tudo indica que os últimos acontecimentos não permitem a ele andar com a mesma desenvoltura que outrora demonstrava.

Realmente. Reapareceu de óculos escuros, mas não foi bem recebido. Na última semana, virou alvo de escracho público quando saía da Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Chamado de golpista por uma manifestante, o senador não reagiu. Mostrou o dedo polegar, como sinal de “tudo bem”.

Foi defendido pela esposa enquanto segurava o filho no colo. “Você não sabe o que está falando”, afirmou sua mulher, Letícia Weber. A manifestante respondeu: “Eu falo o que sei. O que tenho certeza. Golpista! Parabéns pelo que vocês estão fazendo pelo Brasil”.

De todo modo, o que pesa, de fato, contra o senador? A história começou a ser desfiada no início de 2014, quando o doleiro Alberto Youssef decidiu pronunciar o nome que os investigadores da Lava Jato não queriam ouvir.  Eleitores do senador no último pleito presidencial, a maioria dos delegados e procuradores de Curitiba sempre deixou claro em redes sociais sua preferência pelo tucano contra Dilma Rousseff.

Ironia do destino, a força-tarefa acabou pega de surpresa quando o doleiro contou uma história escabrosa envolvendo o senador, sua irmã e o falecido deputado José Janene, mentor do dito petrolão dentro do PP.

Em seu depoimento, Youssef disse ter ouvido do deputado que o senador dividiria propinas de uma diretoria de Furnas com o PP, e que a irmã dele faria a arrecadação junto a uma das empresas envolvidas. “Ele conversando com outro colega de partido, então naturalmente saía essa questão que na verdade o PP não tinha a diretoria só, e sim dividia com o PSDB, no caso a cargo do então deputado Aécio Neves.” 

Gilmar Mendes
Gilmar Mendes contra-ataca, mas cede à pressão e dá prosseguimento ao inquérito contra Aécio
Foto: Antonio Cruz/ABr
irmã de Aécio, Andrea Neves, responsável pela comunicação do senador, sumiu após a eleição de 2014. Voltou a aparecer no início deste ano, quando se viu envolvida em documentos em poder da Justiça Federal desde 2012. A papelada revela a existência de contas no paraíso fiscal de Liechtenstein, que associam a ela, a mãe, Inês Maria, e uma fundação da qual Aécio é beneficiário.

A família defendeu-se. Alega que foi aberta uma fundação para destinar recursos para a educação dos netos de Inês. Não se tem mais notícias da investigação, se é que ainda prossegue. Um vídeo chegou a circular em Minas Gerais informando que Andrea se candidataria a prefeita de Belo Horizonte este ano.

Informação negada pelo PSDB. Um balão de ensaio testando a reação da opinião pública? Não se sabe exatamente. Sabe-se é que a irmã de Aécio estaria se dedicando mais à literatura. De que gênero? A saber...

Com relação ao escândalo de Furnas, a história não é nova. Em 2006, CartaCapital divulgou ampla reportagem mostrando a existência da chamada “Lista de Furnas”, documento que revelava os nomes de políticos beneficiados com dinheiro sujo vindo da central hidrelétrica em Minas. Na época, o PSDB esperneou. Alegou que a lista era uma montagem. A imprensa deu de ombros.

A Polícia Federal e o Ministério Público não se preocuparam com o assunto. Nenhum político de foro privilegiado jamais foi investigado. Assim como de costume, quando haveria de mirar em descendentes diretos da pretensa aristocracia polílita nativa, o procedimento ganhou os escaninhos do arquivo.

Coincidência ou não, Nárcio, o “amigo fraterno”, também teve o nome listado como beneficiário de 100 mil reais em Furnas. O procurador-geral, Rodrigo Janot, também optou por não desenterrar o caso. Mesmo após o depoimento de Youssef, o chefe do MP, na ocasião, decidiu pelo não prosseguimento do caso. Aécio não foi indelicado e agradeceu: “Recebo como uma homenagem o arquivamento”.

Furnas é um daqueles esqueletos escondidos no armário tucano. Outro delator decidiu jogar luz sobre essa trama, o lobista Fernando Moura. Íntimo do ex-ministro e este sim condenado e preso, José Dirceu, do PT, Moura disse ter acompanhado de perto as indicações para as diretorias de estatais no início do primeiro mandato de Lula.

Machado, Delcidio e Andrea
Machado ouviu de Calheiros que Aécio tem medo. Delcídio incrimina o então governador no escândalo do Banco Rural. Andrea no momento dedica-se à literatura
Foto: Gualter Naves/Estadão Conteúdo, Pedro França/Ag. Senado e Renata Mello/Transpetro
Em depoimento ao juiz Sergio Moro, o lobista foi claro. Contou ter acompanhado uma reunião na qual foi decidido que Dimas Toledo, diretor de Furnas, deveria continuar no cargo na qualidade de indicação pessoal de Aécio ao próprio Lula.

“O Dimas na oportunidade me colocou que da mesma forma que eu coloquei o caso da Petrobras, em Furnas era igual. Ele falou: ‘Vocês não precisam nem aparecer aqui, vocês vão ficar um terço São Paulo, um terço nacional e um terço Aécio’”.

acusador de Aécio parece não ter tido a mesma sorte e benefícios de outros depoentes da Lava Jato. Moro decidiu prendê-lo novamente no último dia 18 de maio, após entender que o denunciado teria violado o acordo de colaboração ao mentir durante os depoimentos.

Dessa vez, Janot pediu abertura de inquérito no STF. Não contava com o contra-ataque do onipresente ministro Gilmar Mendes. Ele determinou que a Procuradoria-Geral da República suspendesse as diligências e o depoimento do eminente parlamentar.

O ministro disse que a decisão era “normal” e pediu mais esclarecimentos a Janot. A Associação Latino-Americana de Juízes do Trabalho divulgou nota na qual afirma que Mendes age “sem receio de revelar a condução político-partidária que imprime à sua atuação de magistrado”.

Mendes não se conforma e sai em defesa de sua decisão. “É absolutamente normal. O senador trouxe documentos informando que muitas das diligências que estavam sendo pedidas já estavam sendo atendidas naquela petição. Portanto, nós remetemos para que Procuradoria se pronuncie sobre isso. Enquanto isso, não há necessidade de fazermos as diligências.” Ao cabo, Mendes cedeu à pressão e determinou o prosseguimento da investigação na noite de quinta-feira 2.

Normal mesmo não era o comportamento de Aécio, pelo menos é o que afirma Carlos Alexandre de Souza Rocha, carregador de malas de Youssef. Rocha diz que um diretor da Construtora UTC, de sobrenome Miranda, teria lhe confidenciado que o parlamentar era “o mais chato” com relação à cobrança de propina. A confidência teria ocorrido no Rio de Janeiro, quando o delator foi entregar 300 mil reais ao executivo da construtora a pedido de Youssef. O dinheiro teria como destinatário final Aécio Neves.

O senador cassado Delcídio do Amaral também apontou a metralhadora contra o senador. Ele diz em sua delação que Aécio teria atuado em 2005 para esconder informações do Banco Rural na CPI do chamado "mensalão". Os dados ligariam os tucanos ao esquema criado por Marcos Valério com o PSDB em Minas Gerais.

O já célebre Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, e com ligações “fraternas” no PSDB e no PMDB, citou o nome de Aécio em gravação com os senadores Renan Calheiros e Romero Jucá. Pergunta: “Quem não conhece o esquema do Aécio?” Renan, em outro diálogo, reconhece: “Aécio está com medo”.

O senador já teve a ventura de ser tratado com o devido desvelo por Judiciário e Ministério Público. Uma ação por improbidade administrativa foi encaminhada por voluntariosos promotores, em 2010, por utilização de recursos da saúde na empresa mineira de abastecimento, Copasa.

Curiosamente, o então procurador-geral, chefe dos promotores, Carlos Bittencourt entendeu que caberia a ele a propositura da ação e não aos promotores. Assumiu o caso e informou não haver “dano ao Erário”. A Justiça mineira decidiu pela extinção do processo.

O comportamento do senador tem sido de cauteloso endosso ao governo Temer. Em artigo publicado recentemente, Aécio fala da necessidade de o País procurar “Novos caminhos”.  Ao mesmo tempo, o ex-assessor e coordenador de comunicação do senador, Laerte Rímoli, tornou-se presidente da Empresa Brasileira de Comunicação.  Mas nosso herói toma seus cuidados. E se o governo Temer naufragar? Não se envolver em demasia é o que convém.

Henrique Beirangê
No CartaCapital
Leia Mais ►

Moniz Bandeira denuncia apoio dos EUA a golpe no Brasil

O cientista político e historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira alertou nesta terça-feira (14) que por trás do processo golpista no Brasil, que levou à ascensão do presidente interino Michel Temer no lugar da presidenta legítima Dilma Rousseff, há poderosos interesses dos Estados Unidos, para ampliar sua presença econômica e geopolítica na América do Sul.

“Esse golpe deve ser compreendido dentro do contexto internacional, em que os EUA tratam de recompor sua hegemonia sobre a América do Sul, ao ponto de negociar e estabelecer acordos com o presidente Maurício Macri para a instalação de duas bases militares em regiões estratégicas da Argentina. O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não se tratou, portanto, de um ato isolado, por motivos domésticos, internos do Brasil”, afirmou Moniz Bandeira, em entrevista concedida por e-mail ao PT na Câmara.

Moniz, que é autor de mais de 20 obras, entre elas A Segunda Guerra Fria — Geopolítica e dimensão estratégica dos Estados Unidos (2013, Civilização Brasileira) e está lançando agora A Desordem Internacional, entende que o processo golpista no Brasil recebeu apoio dos EUA e de outros setores estrangeiros com interesse nas riquezas do País.

Ele criticou também setores da burocracia do Estado (como Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal e Judiciário) por atuarem para solapar a democracia brasileira, prejudicar empresas nacionais e abrir caminho para a consolidação de interesses estrangeiros no País, em especial dos EUA.

“Muito dinheiro correu na campanha pelo impeachment. E a influência dos EUA transparece nos vínculos do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Lava-Jato. Ele realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007”, disse.

Leia a entrevista completa:

Como o senhor avalia o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff?

O fato de que o presidente interino Michel Temer e seus acólitos, nomeados ministros, atuarem como definitivos, mudando toda a política da presidenta Dilma Roussefff, evidencia nitidamente a farsa montada para encobrir o golpe de Estado, um golpe frio contra a democracia, desfechado sob o manto de impeachment.

Esse golpe, entretanto, deve ser compreendido dentro do contexto internacional, em que os Estados Unidos tratam de recompor sua hegemonia sobre a América do Sul, ao ponto de negociar e estabelecer acordos com o presidente Maurício Macri para a instalação de duas bases militares em regiões estratégicas da Argentina.

O processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff não se tratou, portanto, de um ato isolado, por motivos domésticos, internos do Brasil.

Onde seriam implantadas tais bases?

Uma seria em Ushuaia, na província da Terra do Fogo, cujos limites se estendem até a Antártida; a outra na Tríplice Fronteira (Argentina, Brasil e Paraguai), antiga ambição de Washington, a título de combater o terrorismo e o narcotráfico. Mas o grande interesse, inter alia, é, provavelmente, o Aquífero Guarani, o maior manancial subterrâneo de água doce do mundo, com um total de 200.000 km2, um manancial transfronteiriço, que abrange o Brasil (840.000l Km²), Paraguai (58.500 Km²), Uruguai (58.500 Km²) e Argentina (255.000 Km²).

Aí os grandes bancos dos Estados Unidos e da Europa — Citigroup, UBS, Deutsche Bank, Credit Suisse, Macquarie Bank, Barclays Bank, the Blackstone Group, Allianz, e HSBC Bank e outros –compraram vastas extensões de terra.

A eleição de Maurício Macri significa que a Argentina vai voltar ao tempo em que o ex-presidente Carlos Menem, com a doutrina do “realismo periférico”, desejava manter “relações carnais” com os Estados Unidos?

Os EUA estão a buscar a recuperação de sua hegemonia na América do Sul, hegemonia que começaram a perder com o fracasso das políticas neoliberais na década de 1990. Com a eleição de Maurício Macri, na Argentina, conseguiram grande vitória.

E, na Venezuela, o Estado encontra-se na iminência do colapso, devido à conjugação de desastrosas políticas dos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro com a queda do preço do petróleo e as operações para a mudança de regime, implementadas pela CIA, USAID, NED e ONGs financiadas por essas e outras entidades.

A implantação de bases militares em Ushuaia e na Tríplice Fronteira, além de ferir a soberania da Argentina, significa séria ameaça à segurança nacional não só do Brasil como dos demais países da região.

Os EUA possuem bases na Colômbia e alguns contingentes militares no Peru, a ostentarem sua presença nos Andes e no Pacifico Ocidental. E com as bases na Argentina completariam um cerco virtual da região, ao norte e ao sul, ao lado do Pacífico e do Atlântico.

Que implicações teria o estabelecimento de tais bases na Argentina?

Quaisquer que sejam as mais diversas justificativas, inclusive científicas, a presença militar dos EUA na Argentina implicaria maior infiltração da OTAN, na América do Sul, penetrada já, sorrateiramente, pela Grã-Bretanha no arquipélago das Malvinas, e anularia de facto e definitivamente a resolução 41/11 da Assembleia Geral das Nações Unidas, que, em 1986, estabeleceu o Atlântico Sul como Zona de Paz e Cooperação (ZPCAS).

E o Brasil jamais aceitou que a OTAN estendesse ao Atlântico Sul sua área de influência e atuação.

Em 2011, durante o governo da presidente Dilma Rousseff, o então ministro da Defesa do Brasil, Nelson Jobim (do PMDB, o mesmo partido do presidente provisório Temer), atacou a estratégia de ampliar a área de ingerência da OTAN ao Atlântico Sul, afirmando que nem o Brasil nem a América do Sul podem aceitar que os Estados Unidos “se arvorem” o direito de intervir em “qualquer teatro de operação” sob “os mais variados pretextos”, com a OTAN “a servir de instrumento para o avanço dos interesses de seu membro exponencial, os Estados Unidos da América, e, subsidiariamente, dos aliados europeus”.

Mas estabelecer uma base militar na região da Antártida não é uma antiga pretensão dos EUA?

Sim. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial esse é um objetivo estratégico do Pentágono a fim de dominar a entrada no Atlântico Sul. E, possivelmente, tal pretensão agora ainda mais se acentuou devido ao fato de que a China, que está a construir em Paraje de Quintuco, na província de Neuquén, coração da Patagônia, a mais moderna estação interplanetária e a primeira fora de seu próprio território, com poderosa antena de 35 metros para pesquisas do “espaço profundo”, como parte do Programa Nacional de Exploração da Lua e Marte.

A previsão é de que comece a operar em fins de 2016. Mas a fim de recuperar a hegemonia sobre toda a América do Sul, na disputa cada vez mais acirrada com a China era necessário controlar, sobretudo, o Brasil, e acabar o Mercosul, a Unasul e outros órgãos criados juntamente com a Argentina, seu principal sócio e parceiro estratégico, a envolver os demais países da América do Sul.

A derrubada da presidente Dilma Rousseff poderia permitir a Washington colocar um preposto para substituí-la.

A mudança na situação econômica e política tanto da Argentina como do Brasil afigura-se, entretanto, muito difícil para os EUA. A China tornou-se o principal parceiro comercial do Brasil, com investimentos previstos superiores a US$54 bilhões, e o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil.

O Brasil, ao desenvolver uma política exterior com maior autonomia, fora da órbita de Washington, e de não intervenção nos países vizinhos e de integração da América do Sul, conforme a Constituição de 1988, constituía um obstáculo aos desígnios hegemônicos dos EUA, que pretendem impor a todos os países da América tratados de livre comércio similares aos firmados com as repúblicas do Pacífico.

Os EUA não se conformam com o fato de o Brasil integrar o bloco conhecido como BRICs e seja um dos membros do banco em Shangai, que visa a concorrer com o FMI e o Banco Mundial.

Como o senhor vê a degradação da democracia no Brasil, com a atuação de setores da burocracia do Estado (Ministério Público, Polícia Federal e Judiciário) que agem de modo a rasgar a Constituição, achicanando o país?

A campanha contra a corrupção, nos termos em que o procurador-geral Rodrigo Janot e o juiz Sérgio Moro executam, visou, objetivamente, a desmoralizar a Petrobras e as grandes construtoras nacionais, tanto que nem sequer as empresas estrangeiras foram investigadas, e elas estão, de certo, envolvidas também na corrupção de políticos brasileiros.

Ao mesmo tempo se criou o clima para o golpe frio contra o governo da presidente Dilma Rousseff, adensado pelas demonstrações de junho de 2013 e as vaias contra ela na Copa do Mundo.

A estratégia inspirou-se no manual do professor Gene Sharp, intitulado Da Ditadura à Democracia, para treinamento de agitadores, ativistas, em universidades americanas e até mesmo nas embaixadas dos Estados Unidos, para liderar ONGs, entre as quais Estudantes pela Liberdade e o Movimento Brasil Livre, financiadas com recursos dos bilionários David e Charles Koch, sustentáculo do Tea Party, bem como pelos bilionários Warren Buffett e Jorge Paulo Lemann, proprietários dos grupos Heinz Ketchup, Budweiser e Burger King, e sócios de Verônica Allende Serra, filha do ex-governador de São Paulo José Serra, na sorveteria Diletto.

Outras ONGs são sustentadas pelo especulador George Soros, que igualmente financiou a campanha “Venha para as ruas”.

Os pedidos de prisão de próceres do PMDB e do presidente do Senado, encaminhados pelo procurador-geral da República, podem desestabilizar o Estado brasileiro?

Os motivos alegados, que vazaram para a mídia, não justificariam medida tão radical, a atingir toda linha sucessória do governo brasileiro.

O objetivo do PGR poderia ser de promoção pessoal, porém tanto ele como o juiz Sérgio Moro atuam, praticamente, para desmoralizar ainda mais todo o Estado brasileiro, como se estivessem a serviço de interesses estrangeiros.

E não só desmoralizar o Estado brasileiro. Vão muito mais longe nos seus objetivos antinacionais.

As suspeitas levantadas contra a fábrica de submarinos, onde se constrói, inclusive, o submarino nuclear, todos com transferência para o Brasil de tecnologia francesa, permitem perceber o intuito de desmontar o programa de rearmamento das Forças Armadas, reiniciado pelo presidente Lula e continuado pela presidente Dilma Rousseff.

E é muito possível que, em seguida, o alvo seja a fabricação de jatos, com transferência de tecnologia da Suécia, o que os EUA não fazem, como no caso do submarino nuclear.

É preciso lembrar que, desde o governo de Collor de Melo e, principalmente, durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, o Brasil foi virtualmente desarmado, o Exército nem recursos tinha para alimentar os recrutas e foi desmantelada a indústria bélica, que o governo do general Ernesto Geisel havia incentivado, após romper o Acordo Militar com os Estados Unidos, na segunda metade dos anos 1970.

O senhor julga que os Estados Unidos estiveram por trás da campanha para derrubar o governo da presidente Dilma Rousseff?

Há fortes indícios de que o capital financeiro internacional, isto é, de que Wall Street e Washington nutriram a crise política e institucional, aguçando feroz luta de classes no Brasil.

Ocorreu algo similar ao que o presidente Getúlio Vargas denunciou na carta-testamento, antes de suicidar-se, em 24 de agosto de 1954: “A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de liberdade e garantia do trabalho”.

Muito dinheiro correu na campanha pelo impeachment. E a influência dos EUA transparece nos vínculos do juiz Sérgio Moro, que conduz o processo da Lava-Jato.

Ele realizou cursos no Departamento de Estado, em 2007.

No ano seguinte, em 2008, passou um mês num programa especial de treinamento na Escola de Direito de Harvard, em conjunto com sua colega Gisele Lemke. E, em outubro de 2009, participou da conferência regional sobre “Illicit Financial Crimes”, promovida no Rio de Janeiro pela Embaixada dos Estados Unidos.

A Agência Nacional de Segurança (NSA), que monitorou as comunicações da Petrobras, descobriu a ocorrência de irregularidades e corrupção de alguns militantes do PT e, possivelmente, passou informação sobre o doleiro Alberto Yousseff a um delegado da Polícia Federal e ao juiz Sérgio Moro, de Curitiba, já treinado em ação multi-jurisdicional e práticas de investigação, inclusive com demonstrações reais (como preparar testemunhas para delatar terceiros).

Não sem motivo o juiz Sérgio Moro foi eleito como um dos dez homens mais influentes do mundo pela revista Time.

Ele dirigiu a Operação Lava-Jato, coadjuvado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como um reality show, sem qualquer discrição, vazando seletivamente informações para a mídia, com base em delações obtidas sob ameaças e coerção, e prisões ilegais, com o fito de macular e incriminar, sobretudo, o ex-presidente Lula. E a campanha continua.

Aonde vai?

Vai longe. Visa a atingir todo o Brasil como Nação.

E daí que se prenuncia uma campanha contra a indústria bélica, a começar contra a construção dos submarinos, com tecnologia transferida da França, o único país que concordou em fazê-lo, e vai chegar à construção dos jatos, com tecnologia da Suécia e outras indústrias.

Essas iniciativas dos presidentes Lula da Silva e Dilma Rousseff afetaram e afetam os interesses dos Estados Unidos, cuja economia se sustenta, largamente, com a exportação de armamentos.

Apesar de toda a pressão de Washington, o Brasil não comprou os jatos F/A-18 Super Hornets da Boeing, o que contribuiu, juntamente com o cancelamento das encomendas pela Coréia do Sul, para que ela tivesse de fechar sua planta em Long Beach, na Califórnia.

A decisão da presidente Dilma Rousseff de optar pelos jatos da Suécia representou duro golpe na divisão de defesa da Boeing, com a perda de um negócio no valor US$4,5 bilhões.

Esse e outros fatores concorreram para a armação do golpe no Brasil.

E qual a perspectiva?

É sombria. O governo interino de Michel Temer não tem legitimidade, é impopular e, ao que tudo indica, não há de perdurar até 2018. É fraco. Não contenta a gregos e troianos.

E, ainda que o presidente interino Michel Temer não consiga o voto de 54 senadores para efetivar o impeachment, será muito difícil a presidenta Dilma Rousseff governar com um Congresso, em grande parte corrompido, e o STF comprometido pela desavergonhada atuação, abertamente político-partidária, de certos ministros.

Novas eleições, portanto, creio que só as Forças Armadas, cujo comando do Exército, Marinha e Aeronáutica até agora está imune e isento, podem organizar e presidir o processo.

Também só elas podem impedir que o Estado brasileiro seja desmantelado, em meio a esse clima de inquisição, criado e mantido no País, em colaboração com a mídia corporativa, por elementos do Judiciário, como se estivessem acima de qualquer suspeita. E não estão. Não são deuses no Olimpo.

No PT na Câmara
Leia Mais ►