11 de jun de 2016

O Brasil é único


O Brasil é o único país do mundo que tem dois presidentes da República, mas nenhum dos dois governa.

O Brasil é o único país do mundo em que o presidente provisório convoca a imprensa para declarar solenemente que um avião da FAB ficará à disposição para transportar órgãos.

O Brasil é o único país do mundo que derrubou um governo para se livrar da corrupção e colocou no lugar um governo de notórios corruptos.

O Brasil é o único país do mundo cujo governo provisório desmonta o estado antes de ser declarado permanente.

O Brasil é o único país do mundo cujo presidente provisório não pode sair na rua, não fala com a imprensa e não consegue transmitir uma só mensagem de otimismo.

O Brasil é o único país do mundo em que a presidente afastada legitimamente eleita é vigiada e cerceada pelo governo provisório ilegítimo.

O Brasil é o único país do mundo onde senadores denunciados por corrupção e obstrução da Justiça em vez de se explicarem pedem explicações.

O Brasil é o único país do mundo onde senadores só podem ser presos se os senadores deixarem.

O Brasil é o único país do mundo onde um juiz de primeira instância ao mesmo tempo comanda as investigações e julga os investigados.

O Brasil é o único país do mundo que está em recessão, mas os ministros do STF pedem e recebem aumento.

O Brasil é o único país do mundo cujo presidente da Câmara foi afastado por ser delinquente, mas continua mandando na Câmara, no governo de notórios corruptos e ainda desfruta de mordomia de 500 mil reais por mês.

O Brasil é o único país do mundo no qual o presidente do Senado já renunciou uma vez para escapar à cassação, todo dia é contemplado com novas denúncias, mas comanda o processo de impeachment da presidente da República.

O Brasil é o único país do mundo no qual os senadores declaram seus veredictos antes do final do julgamento.

O Brasil é o único país do mundo que é presidencialista, mas onde o Congresso manda mais que o presidente da República.

O Brasil é o único país do mundo que acorda todo dia à espera de novas delações parciais.

O Brasil é o único país do mundo em que todo dia os jornais publicam denúncias, mas nenhuma delas é definitiva.

O Brasil é o único país do mundo em guerra civil nas redes sociais.

O Brasil é o único país do mundo que não sabe qual é a sua prioridade.

O Brasil é o único país do mundo que está sempre precisando de reformas.

O Brasil é o único país do mundo que esquece o passado e não se lembra de planejar o futuro.

O Brasil é único.

Alex Solnik é jornalista. Já atuou em publicações como Jornal da Tarde, Istoé, Senhor, Careta, Interview e Manchete. É autor de treze livros, dentre os quais "Porque não deu certo", "O Cofre do Adhemar", "A guerra do apagão", "O domador de sonhos" e "Dragonfly" (lançamento setembro 2016).
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MP pede que Cláudia Cruz e outras três pessoas devolvam R$ 34 milhões aos cofres públicos

Esposa do presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, é acusada de integrar um esquema de pagamento de propina, remessa de recursos ao exterior e lavagem de dinheiro envolvendo a Petrobras. Segundo as investigações, ela teria usado os valores na compra de serviços e artigos de luxo, como ternos, bolsas, sapatos e roupas


O Ministério Público Federal pediu ao juiz Sérgio Moro que fixe em US$ 10 milhões (equivalente a R$ 33,9 milhões) o valor mínimo a ser devolvido aos cofres públicos pela jornalista Cláudia Cruz, esposa do presidente afastado da Câmara Eduardo Cunha, o lobista João Augusto Henriques, o ex-diretor da Petrobras Jorge Zelada e o empresário português Idalécio Oliveira.

Eles são acusados de integrar um esquema de pagamento de propina, remessa de recursos ao exterior e lavagem de dinheiro envolvendo a Petrobras. Segundo o Ministério Público, a conta de Cláudia lavou US$ 1,079 milhão na compra de serviços e artigos de luxo, entre 2008 e 2015, nas cidades de Nova Iorque, Miami, Orlando, Barcelona, Zurique, Paris, Roma, Lisboa e Dubai. A quantia foi gasta em artigos de grife como ternos, bolsas, sapatos e roupas.

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Meritocracia


Meritocracia: eis uma palavra que temos ouvido bastante nos últimos tempos. Como conceito, a meritocracia tem sido usada, por um lado, para avalizar, no campo sociológico e ético, o neoliberalismo enquanto solução econômica e estrutural para o país; por outro lado, de forma complementar, a meritocracia surge ainda, reiteradamente, como argumento contra políticas públicas que almejem reduzir qualquer forma de desigualdade social.

Convidado para participar deste ciclo sobre Língua, Literatura e Autoridade, considerei que seria interessante usar o termo como objeto orientador de nossas considerações, pois me parece que poucas palavras têm mais força hoje, no ideário conservador e neoliberal, do que a noção de meritocracia.

Mas que noção é essa exatamente?

Procurando por uma definição de meritocracia pelo senso comum, encontrei, no site do Instituto Mises Brasil, uma matéria escrita, em 2015, por Joel Pinheiro da Fonseca, mestre em Filosofia pela USP (2014). O artigo de Fonseca, “Não é a meritocracia; é o valor que se cria”, serve muito bem à nossa discussão, visto que não só expõe sua visão (neo)liberal sobre o assunto, mas, em adição, parte exatamente do senso comum para tentar explicar (no caso dele, elogiosamente) o que é a meritocracia.

Fonseca inicia seu texto a partir de uma imagem, compartilhada nas redes sociais, em que se vê um homem velho sentado no chão, ao lado de uma bengala improvisada, pedindo dinheiro com a mão estendida. Nessa imagem, leem-se ainda os seguintes dizeres: “SEGUNDO A MERITOCRACIA QUE OS REAÇAS TANTO DEFENDEM ESSE HOMEM É POBRE PORQUE NÃO SE ESFORÇOU O SUFICIENTE”.

Essa crítica, posta na imagem, Fonseca nos afirma que ocorre porque alguns liberais defendem a ideia de que o mercado é gerido por uma lógica meritocrática. A desconstrução desse argumento, como o próprio Fonseca mostra, é muito fácil de ser feita. Ele diz: “[…] será verdade que o mercado premia justamente o mérito? Se for, caro liberal, então você está obrigado a defender que Gugu Liberato e Faustão têm mais mérito do que um professor realmente excelente e que realmente ensine coisas úteis.”

Para livrar-se desse problema, Fonseca defende duas ideias principais: (i) meritocracia não é algo inerente à lógica de mercado, mas, sim, um modelo de gestão (e não sem seus problemas e vícios internos, como o próprio autor admite); (ii) o mercado não premia o mérito, mas sim a geração de valor. Assim, um excelente professor é menos premiado do que Gugu ou Faustão pelo fato de que ele tem um alcance muito pequeno (algumas centenas de alunos por ano), ao passo que essas celebridades teriam um alcance muito maior e gerariam muitíssimo valor para seus empregadores.

Apesar dessas distinções que Fonseca opera em seu texto, permanece uma confusão conceitual. Por um lado, ele diz que a lógica do mercado não é a de premiar o mérito, mas sim a de premiar a geração de valor. Por outro lado, usando uma comparação com a qual estamos dispostos a concordar (Gugu/Faustão vs algum ótimo professor), Fonseca faz um malabarismo com a noção do que é “mérito”, sem jamais definir o que seja. Ele inicia seu próprio texto exatamente nessa incerteza, dizendo: “Meritocracia é uma palavra bonita. Não. É uma palavra que remete a uma coisa bonita: que cada um receba de acordo com seu mérito, que em geral é igual a esforço, dedicação; às vezes se inclui a inteligência.”

Como Fonseca jamais define o que entende por mérito ou meritocracia, devemos tentar abstrair uma definição a partir do exemplo por ele usado. Na comparação entre Gugo/Faustão e algum excelente professor imaginário “que realmente ensine coisas úteis”, ficamos dispostos a concordar, pela ideia de excelência e utilidade, que o professor é mais meritório, ainda que tenha um menor salário. Fonseca cria, desse modo, uma equação que pode ser resumida da seguinte forma: a geração de valor é igual à qualidade do serviço/produto multiplicado por seu alcance. Assim, ainda que concordemos que o professor seja mais meritório do que os apresentadores de TV, visto que o serviço que ele presta tem melhor qualidade do que o daqueles, precisamos concordar também que a geração de valor dos apresentadores, no sentido financeiro, seja superior à do professor, pois dão muitíssimo mais lucro em virtude de seu alcance.

Com isso, Fonseca nos leva a crer que mérito, então, tenha a ver apenas com uma parte da equação, a qualidade do serviço ou do produto que oferecemos, sua excelência e utilidade. Se esse serviço ou produto não alcança ninguém (seja por indisponibilidade de oferta ou por falta de interesse em consumi-lo), nossa geração de valor será nula, mesmo que sejamos meritórios.

Assim, somos levados fazer a seguinte substituição:

de

geração de valor = qualidade do serviço/produto x alcance,

para

geração de valor = mérito x alcance.

Entretanto, com esse salto, ocultamos um problema conceitual, que também Fonseca oculta em seu texto. Explico.

Pensemos no exemplo de um artista cujas obras ontem eram ignoradas, mas hoje são descobertas como verdadeiros tesouros. Ontem, ninguém tinha interesse em comprar um de seus quadros; hoje, todos querem. Cada um desses quadros, enquanto objeto passível de ser possuído individualmente, permanece com o mesmo alcance, 1. Entretanto, para quem vende esses quadros, sua geração de valor é imensamente maior. Se o alcance não mudou, teria mudado então a qualidade?

Certamente não. O quadro permanece o mesmo. Suas qualidades são as mesmas. O que mudou foi o valor que atribuímos a essas qualidades. Logo, somos forçados a admitir que mérito não é idêntico à qualidade de um serviço ou de um produto, mas, sim, ao valor que se atribui à qualidade daquele serviço ou produto.

Numa sociedade moldada pelo fetichismo, como a nossa, da noite para o dia, um produto ou serviço pode ter um enorme salto de valor, pois, mediante propaganda e manipulação da opinião pública, a percepção do que seja sua qualidade pode ser facilmente alterada. Ao mudar-se a percepção do que seja a qualidade desse produto ou desse serviço, muda-se também seu valor. A melhor acepção, portanto, que podemos dar à palavra mérito, dentro desse contexto, é a de valor.

É interessante, aliás, notar que mérito vem do Latim meritum, um derivado do verbo mereo, que indica a ideia de ser digno de algo. A partir dessa ideia inicial, mereo passa a ter outras derivações de sentido, para expressar também o ato de receber algo ou mesmo de comprar algo. De mereo, herdamos a palavra meritum, que indica aquilo de que alguém é digno, por uma equivalência de valor. Você é digno de uma recompensa, de ter seu terreno, sua casa, ou o que for, por haver uma equivalência de valor entre sua pessoa e a coisa em questão.

Na equação que encontramos dentro do discurso de Fonseca, dissemos que a geração de valor (ou seja, o quanto de dinheiro as pessoas lhe pagam pelo que você faz) equivale ao mérito de seu serviço ou de seu trabalho (ou seja, o valor que se atribui a esse serviço ou trabalho) multiplicado pelo alcance que ele tem (ou seja, quantas pessoas pagarão por ele).

Ao dizer que a meritocracia é, na verdade, um modelo de gestão em que se premia o mérito de cada um, Fonseca parece dar a entender que ela é algo alheio à lógica do mercado. Devemos supor, então, que o mérito idealmente premiado na meritocracia seja diferente daquele encontrado na fórmula de geração de valor? Se é a geração de valor que orienta o mercado, como não seria também a geração de valor aquilo que a meritocracia premiaria? Mesmo quando se premia o mérito potencial de alguém, independentemente de seu alcance, não se faz esse prêmio justamente pensando no alcance que o trabalho desse indivíduo pode ter? Ou se um empregador premia um funcionário pelo alcance de seu trabalho, esperando qualificá-lo para melhorar a qualidade de seu serviço/produto, seu mérito, isso também não está inserido na mesma lógica descrita por Fonseca, que visa otimizar a geração de valor?

Para além do senso comum, o que Fonseca não nos diz é que o termo meritocracia foi cunhado em 1958 por Michael Young, em seu livro The Rise of the Meritocracy, a partir do termo latino meritum, que em Português nos legou “mérito”, e o termo grego κράτος (krátos), “força”. Apesar da adoção positiva que a palavra teve tanto em Inglês como em Português, é importante notar que ela surge, no livro de Young, dentro de um ambiente satírico, ambientado em uma sociedade distópica obcecada em identificar e premiar, desde cedo, por meio de uma educação especial, as pessoas mais inteligentes e esforçadas.

Pouco antes de morrer, em 2002, Young escreveu um artigo para o jornal The Guardian falando de sua frustração em ver como a ideia de meritocracia foi usurpada por pessoas como o então primeiro-ministro Tony Blair, que a usavam como um ideal a ser perseguido. A argumentação de Young nesse momento, já no fim da vida, era a de que, tomada da forma como foi, a ideia de meritocracia apenas serviu para fazer com que as pessoas que já detinham riqueza e poder se sentissem ainda mais legitimadas em recompensar-se tanto quanto possível.

A ideia do sociólogo inglês, que já era distópica em sua forma original, foi aproveitada de forma parcial e ainda mais distopicizante: adotou-se a recompensa do mérito e passou-se a alienar cada vez mais as massas de um acesso à educação e aos processos que selecionariam os mais inteligentes e esforçados. Reitero: mesmo se tivesse sido adotada do modo que Young a descrevia, a meritocracia era algo reservado para um futuro distópico. Adotadas a palavra e a ideia como foram, a realidade se tornou pior do que o pesadelo ficcional.

Sendo valor uma unidade subjetiva, dependente da opinião das pessoas, devemos entender a meritocracia simplesmente como o processo de reforço e manutenção de uma determinada ordem de valores. Os liberais, como Fonseca, acreditam que essa ordem de valores é imposta ao mercado por demandas racionais das pessoas, ignorando o poder que o mercado tem, por meio da publicidade, da propaganda, das formas de arte que ele próprio fomenta, de definir esses valores, bem como de levar as pessoas a tomar escolhas irracionais.

A meritocracia como a temos nada mais é do que o foco extremo em premiar cada um pelo seu mérito, entendido como valor dentro de uma equação de geração de valor, ignorando os processos pelos quais definimos esses valores. Mais do que isso, ousaria dizer que a meritocracia é exatamente o domínio da determinação de valores. No mundo meritocrático, aqueles que conseguem dobrar a opinião dos outros, que conseguem alterar a ordem de valores a seu favor, são exatamente os mais poderosos.

A meritocracia é o poder do valor.

Epílogo

A Grécia antiga foi um dos primeiros lugares no mundo em que alguém fincou uma pedra ou uma estaca no chão e disse: “este terreno é meu”. Esse acontecimento, aparentemente banal, dá origem a algo revolucionário: a partir disso, sugiram as primeiras cercas e a própria ideia de propriedade privada, ainda no neolítico, por volta de 9.000 anos atrás.

Esse passo está intimamente ligado com o desenvolvimento da agricultura e com a necessidade de assentar-se em um lugar e protegê-lo, para cultivar a terra, em oposição à vida nômade de caça e coleta. Essa mudança de modo de vida, como aponta Joseph Campbell, ilustre estudioso de mitologia comparada, conduz também a uma mudança de modo de pensar, de concepção de mundo, de mitos e crenças que expliquem o funcionamento da realidade e o sentido da existência. Tais mudanças, como podemos esperar, efetuam-se no plano da linguagem, onde deixam marcas sensíveis.

Curiosamente, a mesma raiz de mereo, o verbo latino que nos legou mérito, também existe em Grego, onde dá origem, por exemplo, à palavra μέρος (méros), que designa a porção devida a cada um. Esse termo vem do verbo μείρομαι (meíromai), dividir. A mesma raiz dessas palavras origina também a palavra μοῖρα (moîra), que por vezes traduzimos por “destino”, “sorte”, “fado”, “quinhão” ou “lote”. A palavra μοῖρα refere-se à distribuição do destino individual dado a cada indivíduo. A tradução de μοῖρα por lote é especialmente interessante, por ligar a ideia de um destino dado também à ideia de posse territorial, pois chamamos um terreno cercado também de lote. Assim, lote pode se referir tanto à terra como ao destino que se tem. Essa tradução ajuda a evidenciar como o destino de uma pessoa está intimamente ligado à porção de propriedade que lhe é cabida, à sua μεριτεία (meriteía) – termo que designa a “distribuição de terra”. Quem não tem terra, por essa lógica, não tem destino.

Se compreendêssemos meritocracia pela acepção grega, teríamos a ideia de poder da propriedade privada. Seria apenas uma terrível casualidade se essas duas ideias, mérito e propriedade, não tivessem sempre andado de mãos dados na história da civilização ocidental. Afinal de contas, quem detém a terra detém também o poder e a capacidade de atribuir valor a cada coisa.

Referências

FONSECA, Joel Pinheiro da. “Não é a meritocracia; é o valor que se cria”. Artigo de 20 de outubro de 2015 para o Instituto Ludwig von Mises Brasil. Disponível em http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2054. Acesso em 20/05/2016.

YOUNG, Michael. “Down with meritocracy: The man who coined the word four decades ago wishes Tony Blair would stop using it”. Artigo de 29 de junho de 2001 para The Guardian. Disponível em http://www.theguardian.com/politics/2001/jun/29/comment. Acesso em 20/05/2016.

__________. The rise of the meritocracy, 1870-2033: An essay on education and inequality. London: Thames & Hudson, 1958.

C. Leonardo B. Antunes, Professor do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas do Instituto de Letras da UFRGS. Palestra proferida no Ciclo: Língua, Literatura e Autoridade: um revide ao golpe, em 08/06/2016, no Instituto de Letras.
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Novo vazamento da PGR contraria discurso de Janot

http://www.institutolula.org/novo-vazamento-da-pgr-contraria-discurso-de-janot

No mesmo dia (10/06) em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, condenou e negou publicamente o uso de vazamentos ilegais por parte do Ministério Público, o ex-presidente Lula foi novamente vítima dessa prática criminosa.

Quase simultaneamente à fala do procurador-geral, mais um documento sigiloso assinado por Janot chegava à TV Globo.

Foi mais um movimento  claramente direcionado a indispor o ex-presidente Lula com a opinião pública e a constranger o Supremo Tribunal Federal.

Exatamente o que o chefe maior do Ministério Público condenou em seu discurso aos procuradores eleitorais.

O objeto do crime, desta vez, foi a manifestação do PGR no inquérito 4.170, solicitando sua remessa à vara do juiz Sergio Moro em Curitiba. Trata-se do inquérito que investiga a suposta “compra de silêncio” do réu Nestor Cerveró – no qual não há um fiapo de prova contra o ex-presidente Lula.

A petição do PGR ao Supremo, com base em delação caluniosa, é datada de 23 de maio e foi rebatida pela defesa do ex-presidente Lula em 27 de maio.

Passadas duas semanas, a manifestação do procurador Janot foi vazada (ilegalmente, repita-se) para a Globo, mas não a manifestação da defesa.

O vazamento de documentos da PGR contra Lula já se tornou sistemático: em 3 maio, foi a denúncia (infundada) contra o ex-presidente no caso Delcídio do Amaral; em 18 de maio foram os anexos a essa denúncia, e em 26 de maio a manifestação do procurador-geral sobre as gravações ilegais de conversas entre Lula e a presidenta Dilma Rousseff.

O combate à corrupção e à impunidade — fortemente impulsionados no Brasil pelos governos Lula e Dilma — não justifica as práticas arbitrárias que estão se tornando corriqueiras nos tempos recentes.

De todas essas práticas, uma das mais daninhas ao estado de direito é a cumplicidade entre setores da imprensa e do Ministério Público, promovendo o chamado trial by media (julgamento pela imprensa).

O vazamento de ontem soa como um desafio ao discurso de Rodrigo Janot. O procurador-geral deveria voltar a público e esclarecer mais um episódio direcionado contra o ex-presidente Lula.
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Caixa dois que beneficiou a campanha de Marina Silva em 2010

De acordo com o jornalista Lauro Jardim, o ex-presidente da empreiteira se comprometeu com os procuradores a falar do caixa dois que beneficiou a campanha de Marina Silva em 2010; pedido do dinheiro teria sido feito por Guilherme Leal, um dos donos da Natura


A delação do ex-presidente da empreiteira OAS, Léo Pinheiro, pode comprometer Marina Silva. É o que afirma o jornalista Lauro Jardim, de O Globo, na coluna que deve ser publicada neste domingo (12), mas que já circula por jornais regionais.

Segundo ele, Pinheiro se comprometeu com os procuradores a falar do caixa dois que teria beneficiado a campanha da então candidata à presidência, em 2010.

Ainda de acordo com as informações do jornalista, o pedido do dinheiro foi feito por Guilherme Leal, um dos donos da Natura, candidato a vice-presidente de Marina naquela eleição. Alfredo Sirkis, ex-presidente do PV, teria acompanhado a negociação.

Caso se confirme, a revelação deverá ter ampla repercussão, já que a ex-presidenciável sempre tentou vincular sua imagem à ética e à alternativa de mudança do atual sistema político. Na prestação de contas da campanha, não há qualquer registro de doação da OAS.

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Fora Temer faz com que o dinheiro deixe de ser apenas um pedaço de papel

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2016/06/11/fora-temer-agora-em-cedulas-de-10-reais/

fora temer em notas 
 quem matou herzog

Notas de 10 reais já estão circulando por aí carimbadas com um Fora Temer. Quem botou o assunto pra circular nas redes foi a amiga Ivana Bentes, no seu perfil do Faceboook.

Ela lembra que na época da ditadura o artista plástico Cildo Meireles “colocava a arte conceitual na resistência e nos circuitos cotidianos”.

E que uma das mais famosas ações daquele período foi o de carimbar notas de 1 cruzeiro com a frase “Quem matou Herzog?”.

Lembro-me com nitidez do dia em que ao ler essa frase numa nota, ter perguntado ao velho Renato quem era o Herzog. E ter recebido uma das suas boas aulas de história. De um professor intelectual que tinha cursado apenas até o segundo ano primário.

O mundo de hoje é muito diferente do da década de 70, onde as notas eram quase o único lugar onde se podia fazer uma informação circular sem correr o risco de censura. Afinal, como descobrir a origem do carimbador?

Hoje, a despeito de a mídia tradicional buscar construir o país a partir de sua narrativa, há a Internet. Onde blogues e perfis espalhados em várias plataformas de redes sociais fazem o contraponto.

Há muito mais oxigênio no ecossistema informativo de hoje do que naquela época, mas mesmo assim não deixa de ser revigorante ver que a indignação ainda busca ocupar todos os espaços vazios para mandar seu recado.

E também de ver que com um Fora Temer carimbado, o dinheiro deixa de ser apenas um pedaço de papel, como poetizou Arnaldo Antunes.
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O estranho presente de Mariana Godoy a Dilma

Mariana pecou
O que deu na cabeça de Mariana Godoy ao presentear Dilma com um livro de FHC no final da entrevista desta sexta?

Foi uma pergunta que correu as redes sociais imediatamente.

Muita gente ficou irritada. Um internauta disse: “Ela saiu da Globo, mas a Globo não saiu dela.”

Foi, sem dúvida, um despropósito, dado o papel de destaque de FHC no golpe de que foi vítima Dilma.

FHC foi o decano do golpe, e com as revelações que vão brotando dos delatores ele já faz jus a uma tornozeleira, já que a idade provecta o livra da cadeia.

É um demagogo, um corrupto, um cínico, um mentiroso, um golpista. Por que Mariana deu a Dilma seu livro?

Ela própria não respondeu a esta questão. No Twitter, onde foi intensamente criticada, disse apenas que esperara seis meses para entregar o presente.

Afirmou, também, que as pessoas não entenderam o espírito da coisa. Mas ela não explicou qual era esse espírito da coisa.

Mais que tudo, foi um gesto de extrema, desenfreada deselegância. Imagine que você seja convidado a ir à casa de alguém depois de um episódio dramático em sua vida. E lá, na despedida, você recebe uma lembrança que evoca diretamente uma das pessoas centrais em seu infortúnio.

Só faltava Mariana dar uma foto autografada de Eduardo Cunha para Dilma. Dele com Claudia Cruz. Ou um exemplar de Não Somos Racistas, de Ali Kamel, diretor da Globo.

Ou ainda pior: um livro de poemas de Michel Temer. Com dedicatória em forma de poesia. De Mi para Di.

A jornalista Mariana Godoy falhou miseravelmente. Mas o pecado maior foi o da anfitriã Mariana Godoy. Nota zero em boas maneiras.

Paulo Nogueira
No DCM
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A entrevista de Dilma à Mariana Godoy — na íntegra


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Que democracia?


Na mesa de abertura do II Salão do Livro Político, intitulada "Que democracia?", a filósofa Marilena Chaui, o jurista Fabio Konder Comparato e o filósofo Vladimir Safatle debateram leituras e perspectivas sobre o golpe de 2016 no Brasil. A mediação foi do historiador e cientista político Gilberto Maringoni.

Iniciativa independente de editoras vinculadas a questões sociais e políticas, este ano o Salão teve como foco a atual crise política brasileira.

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A carraspana moral de Janot em Gilmar veio em boa hora


Rodrigo Janot, como qualquer brasileiro decente, parece ter se cansado definitivamente de Gilmar Mendes.

Seu discurso na sexta, 10, um desabafo feito com o fígado, tem endereço certo, e é o ministro do STF. Chama-lo de “indireta” é uma ofensa.

“Nunca terei transgressores preferidos, como bem demonstra o leque sortido de autoridades investigadas e processadas por minha iniciativa perante a Suprema Corte. Da esquerda à direita, do anônimo às mais poderosas autoridades, ninguém, ninguém mesmo, estará acima da lei, no que depender do Ministério Público”, disse ele no final de um encontro de procuradores eleitorais.

“Figuras de expressão nacional, que deveriam guardar imparcialidade e manter decoro, tentam disseminar a ideia estapafúrdia de que o Procurador-Geral da República teria vazado informações sigilosas para, vejam o absurdo, pressionar o Supremo Tribunal Federal e obrigá-lo a decidir em tal ou qual sentido, como se isso fosse verdadeiramente possível. Ainda há juízes em Berlim, é preciso avisar a essas pessoas”.

Essa expressão tem origem numa história, que não se sabe se verdadeira, muito usada quando o estado de direito é ameaçado pelo mais forte. Um camponês prussiano, no século XVIII, é coagido a derrubar seu moinho na vizinhança do palácio real. O próprio rei vai pressioná-lo. Ele resiste dizendo ao monarca aquela frase, ou seja, que confiava na isenção da Justiça.

Gilmar Mendes, em mais uma conversa absolutamente indefensável com jornalistas, havia criticado o vazamento dos pedidos de prisão de Cunha, Jucá, Sarney e Renan.

É o mesmo GM que aplaudiu quando o Jornal Nacional e a torcida do Flamengo tiveram acesso aos grampos de Lula.

“Isso tem ocorrido e precisa ter cuidado. Porque isso é abuso de autoridade claro”, falou.

Desde que assumiu uma cadeira no Supremo, indicado por Fernando Henrique Cardoso, Gilmar Mendes se transformou, nas palavras do jurista Dalmo Dallari, numa “figura lamentável”, alguém que “degrada” a imagem da corte. O papel dele protegendo Aécio já extrapolou o limite de ética, da moral e mesmo da inteligência.

Essa treta promete.

Kiko Nogueira
No DCM
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Querem tirar o B dos BRICs

E dar o B de graça aos Estados Unidos


O Conversa Afiada reproduz do respeitado site russo SputnikNews, ligado ao Presidente Putin — que deveria ter dado uma aula ao Lula e à Dilma sobre "mídia técnica" —, artigo de Pepe Escobar sobre o tema "o Golpe-2016 nasceu em Washington".

Observe, amigo navegante, como ele trata o maior dos entreguistas, o Padim Pade Cerra:

Lista de matar: esmagar o "B" de BRICS

Comecemos pelo kafkiano tumulto interno. O golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff continua a ser tragicomédia político-midiática que parece recomeçar todos os dias. Também é caso de guerra de informação convertida em ferramenta estratégica para maior controle político.

Uma sucessão impressionante de vazamentos de áudios revelou que setores chaves dos militares brasileiros e seletos juízes da Suprema Corte legitimaram o golpe contra uma presidenta que sempre cuidou de proteger a investigação de corrupção chamada "Car Wash", que já dura dois anos. Até a mídia-empresa ocidental dominante teve de admitir que Dilma, que nada roubou, está sendo impedida e derrubada por uma gangue de ladrões. A agenda deles: fazer parar a investigação "Car Wash", que eventualmente pode vir a jogar muitos deles na cadeia.

Os vazamentos também revelaram a carnificina que ruge entre as elites brasileiras comprador — periférica e central. Essencialmente, as elites periféricas foram usadas como moleques de recados no Congresso, para fazer o trabalho sujo. Mas agora podem estar a ponto de se tornarem assaltantes de estrada — junto com o 'governo' ilegítimo, impopular, interino de Michel Temer, liderado por uma gangue de políticos corruptos até o cerne do PMDB, o partido que é herdeiro da única fachada de 'oposição' tolerada durante a ditadura militar brasileira (dos anos 1960s aos 1980s).

Conheça o chanceler vassalo

Personagem insidioso em toda a trama do golpeachment é o ministro interino de Relações Exteriores, senador José Serra do PSDB, social-democratas convertidos em operadores de forças neoliberais. Na eleição presidencial de 2002 — quando foi derrotado por Lula —, Serra tentava livrar-se das oligarquias brasileiras periféricas.

Agora contudo está cumprindo outro papel — perfeitamente posicionado não só para fazer regredir a política externa do Brasil, de volta para algum ponto do golpe militar de 1964, mas, sobretudo, no papel de homem de ponta do governo dos EUA dentro da gangue golpista.

A oligarquia em São Paulo é aliada chave do Excepcionalistão no Brasil. São Paulo é o estado mais rico do Brasil e capital financeira da América Latina. É a lista A do Brasil. É das fileiras dessa oligarquia que talvez 'surja' um eventual "salvador nacional".

Tão logo as elites periféricas tenham sido aniquiladas, não haverá nada que impeça a criminalização — e provável prisão — de vários líderes da esquerda brasileira, Lula inclusive. Em seguida se urdirá algum tipo de eleição fake, 'legalizada' por Gilmar Mendes, juiz da Suprema Corte e operador do PSDB.

Tudo depende do que aconteça nos próximos dois meses. O procurador-geral afinal ordenou a prisão de três altos quadros da elite periférica; os três são acusados de conspirar para impedir que avancem as investigações da operação "Car Wash" — rede extremamente complexa de agentes jurídico-políticos-policiais, de miríades de círculos concêntricos/sobrepostos.

Entrementes, o julgamento final do impeachment de Dilma no Senado deve acontecer dia 16 de agosto — 11 dias depois do início dos Jogos Olímpicos. Os golpistas sofreram um duro golpe, quando tentaram acelerar os procedimentos. No pé em que estão as coisas, o resultado é incerto; depois dos vazamentos, quatro de cinco senadores já estão oscilantes quanto ao voto, uma vez que os vazamentos implicam Temer, o presidente interino, pessoalmente. 'Líder' de uma gangue pesadamente envolvido em corrupção e com zero de credibilidade, Temer é alvo de várias investigações por corrupção, e acaba de ser declarado inelegível e impedido de concorrer a cargo político eletivo nos próximos oito anos.

O monopólio (cinco famílias) que controla a mídia-empresa dominante no Brasil, conhecido como PIG (sigla de "Partido da Imprensa Golpista") mudou de tom, deixando de lado o antiesquerdismo obcecado e agora se dedica a fazer campanha contra elementos selecionados da gangue de Temer.

Segundo a Constituição, se a presidência e a vice-presidência ficam vagas nos últimos dois anos de mandato, cabe ao Congresso eleger o novo presidente.

Essa disposição legal implica dois cenários possíveis. Se Dilma não for impedida e reassumir, vai-se configurando como muito provável que ela determine que se realizem novas eleições presidenciais ainda antes do final de 2016.

Se a presidenta for impedida, o PIG tolerará a gangue interina dos 'quadros' temeristas até, no máximo, janeiro de 2017. O passo seguinte seria o que Serra e o quase presidiário e 'líder' do Senado, Renan Calheiros, trabalham para conseguir: o fim de eleições diretas para presidente e o início de um parlamentarismo à brasileira.

O nome mais bem posicionado para ser o 'salvador' nacional nesse caso é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso — também ex-"Príncipe da Sociologia" e superstar (nos anos 1960s e início dos 1970s) da Teoria da Dependência, logo depois metamorfoseado em neoliberal ávido. Cardoso é parceiro próximo de Bill Clinton e de Tony Blair. O eixo Washington/Wall Street é louco por ele. Cardoso seria 'eleito' pela mesma matilha de hienas que tramam o impeachment de Dilma desde 17 de abril.

Mas o núcleo duro do golpeachment brasileiro ultrapassa em muito as elites periféricas brasileiras. É constituído de um partido político (PSDB); do império Rede Globo de mídia; da Polícia Federal (muito próxima do FBI); do Ministério Público; da maioria dos juízes da Corte Suprema e de setores das Forças Armadas. Só o eixo Washington/Wall Street tem os meios e a necessária 'pegada' para arregimentar todos esses players — com dinheiro vivo, por chantagem ou com promessas de glória.

E isso se encaixa perfeitamente com perguntas chaves não respondidas relacionadas aos áudios vazados recentemente. Quem gravou as conversas. Quem vazou as conversas. Por que agora. Quem se beneficia com meter o país no mais total caos político, econômico, jurídico, com virtualmente todas as instituições completamente desacreditadas.

Neoliberalismo ou caos

Longe vão os dias quando Washington podia comandar impunemente aqueles antiquados golpes militares bem ali no quintal deles — como foi feito no Brasil em 1964. Ou no Chile, no 11/9 original, em 1973, como se vê no emocionante documentário sobre Salvador Allende, assinado pelo cineasta chileno craque Patricio Guzman.

A história, como se poderia prever, repete-se como farsa no golpe de 2016 que converteu o Brasil — a 7ª maior economia do mundo, e player chave no Sul Global — numa espécie de Honduras ou Paraguai (onde golpes apoiados pelos EUA foram bem-sucedidos).

Já demonstrei como o golpe no Brasil é operação extremamente sofisticada de Guerra Híbrida que ultrapassa em muito a guerra que se conhecia como guerra não convencional (ing. UW); guerra de 4ª geração (ing. 4GW); as revoluções coloridas; e os movimentos de R2P ("responsabilidade de proteger") e o ápice do smart power; até se converter em golpe político-financeiro-jurídico-midiático soft a que os brasileiros estão assistindo em câmera lenta. Eis a beleza dos golpes, quando promovidos por instituições democráticas!

É possível que o neoliberalismo tenha falhado, como até o setor de pesquisas do FMI já percebeu. Mas o cadáver putrefato ainda faz feder o planeta inteiro. O neoliberalismo não é só um modelo econômico; sub-repticiamente ele cobre também todo o campo jurídico. Eis mais uma faceta perversa da doutrina do choque: o neoliberalismo não sobrevive sem uma implantação firme no quadro jurídico-legal.

É quando as atribuições constitucionais são redirecionadas para o Congresso que mantém sob controle o Executivo, ao mesmo tempo em que gera uma cultura de corrupção política. O político foi subordinado ao econômico. Empresas privadas engajam-se em campanhas eleitorais — e é quando compram políticos, para poderem influenciar qualquer poder político, por mais 'eleito' que seja.

Washington trabalha precisamente assim. E aí está também a chave para compreender o papel do ex-líder da Câmara de Deputados no Brasil, Eduardo Cunha. Cunha montou uma rede de financiamento de campanhas eleitorais dentro do próprio Congresso, onde controla dúzias de políticos, ao mesmo tempo em que lucra de incontáveis proverbialmente gordos contratos de empresas fornecedoras do Estado.

Os Três Patetas no que chamei de República das Bananas dos Escroques Provisórios são Cunha, Calheiros e Temer. Temer é mero fantoche; Cunha permanece uma espécie de primeiro-ministro 'nas sombras', comandando o show. Mas não por muito tempo. Já foi suspenso do cargo de presidente da Câmara de Deputados; embolsou milhões de dólares daqueles contratos gordos e meteu-os em contas secretas na Suíça; agora é só questão de tempo, até que a Suprema Corte levante todas as provas e — mas nada é garantido! — o meta no xilindró.

OTAN vs. BRICS, a pleno vapor, por todo o planeta

E isso nos traz outra vez para O Grande Quadro, no qual acompanhamos uma análise de Rafael Bautista, presidente de um grupo de estudos da descolonização em La Paz, Bolívia. É dos melhores e mais brilhantes analistas sul-americanos, sempre muito alerta ao fato de que qualquer coisa que aconteça no Brasil nos próximos meses determinará o futuro, não só da América do Sul, mas de todo o Sul Global.

O projeto do Excepcionalistão para o Brasil é nada menos que impor aqui uma doutrina Monroe remixed. O principal alvo de uma planejada restauração neoliberal é separar a América do Sul, dos BRICS — quer dizer, essencialmente, da parceria estratégica de Rússia e China.

É uma breve janela de oportunidade em todos esses anos do continuum Bush-Obama, quando Washington viveu obcecada com o MENA (Middle East/Northern Africa [Oriente Médio/Norte da África]), também conhecido como Oriente Médio Expandido. Agora, a América do Sul volta a ocupar o centro estelar no teatro da guerra (soft) geopolítica. Livrar-se de Dilma, Lula, Partido dos Trabalhadores, custe o que custar, é só o começo.

Volta tudo ao de sempre: a guerra que definirá o século 21: OTAN contra os BRICS, Organização de Cooperação de Xangai e, afinal, contra a parceria estratégica Rússia-China. Esmagar o "B" de BRICS traz, de brinde, o esmagamento do Mercosul (o mercado comum sul-americano); a Unasul (União Política das Nações Sul-americanas); a ALBA (Aliança Bolivariana); e toda a integração sul-americana, além de acabar também com a integração com atores emergentes chaves no Sul Global, como o Irã.

A desestabilização do "Siriaque" combina perfeitamente com esse Império do Caos: não havendo integração regional, a única alternativa é a balcanização. Mas a Rússia já demonstrou graficamente aos estrategistas de Washington que não poderão vencer guerra alguma na Síria; e o Irã já demonstrou depois do acordo nuclear que não será vassalo de Washington. Assim sendo, o Império do Caos pode tratar de garantir-se pelo menos no próprio quintal.

Um novo quadro geopolítico teve de ser parte do pacote. É onde entra o conceito de "América do Norte", apoiado pelo Council on Foreign Relations e concebido, principalmente, pelo ex-superastro do surge no Iraque David Petraeus e ex-honcho do Banco Mundial Bob Zoellick, hoje a serviço de Goldman Sachs. Pode-se dizer que é um mini quem-é-quem do Excepcionalistão.

Ninguém lera notícia alguma, nem será anunciado em público, mas o conceito que Petraeus/Zoellick imaginaram como "América do Norte" pressupõe mudança de regime e desmonte da Venezuela. O Caribe está definido como um Mare Nostrum, um lago norte-americano. "América do Norte" é, de fato, uma ofensiva estratégica.

Implica controlar toda a massiva riqueza de petróleo e água do Orinoco e do Amazonas, o que deve garantir ao Excepcionalistão predominância sobre a fronteira sul, para sempre.

O Caribe já é assunto resolvido; afinal, Washington controla o CAFTA. América do Sul é osso mais duro de roer, polarizada entre o que resta da ALBA e a Aliança do Pacífico comandada pelos EUA. Derrubado o Brasil para uma restauração neoliberal, acaba-se com o país como promotor de integração regional. O Mercosul acabará eventualmente absorvido na Aliança do Pacífico — especialmente com alguém como Serra, como principal diplomata brasileiro. Quer dizer: é imperioso anular a América Latina, em termos políticos, custe o que custar.

Restará para a América do Sul agregar-se — como atores marginais, parte da Aliança do Pacífico puxada pelos EUA — àquela OTAN de parcerias comerciais, TPP e TTIP. O "pivô para a Ásia" — do que a parceria Trans-Pacífico é o braço comercial — é o movimento da doutrina Obama para conter a China, não só na Ásia mas também em todo o Pacífico Asiático. Assim, é natural que a China (principal parceira comercial do Brasil) deva ser contida no quintal do hegemon, a América do Sul.

Do Atlântico ao Pacífico, e além

Nunca será demais destacar a importância geoeconômica da América do Sul. O único meio pelo qual a América do Sul pode ser plenamente integrada ao mundo multipolar é mediante uma abertura para o Pacífico, fortalecendo sua conexão estratégica com a Ásia, especialmente com a China. É onde se encaixa o movimento chinês para investir num massivo projeto de ferrovias para trens de alta velocidade unindo a costa Atlântica do Brasil e o Peru no Pacífico. É, em resumo, a interconectividade sul-americana. Com o Brasil politicamente anulado, nada disso jamais acontecerá.

Por tudo isso, todo e qualquer golpe é agora literalmente permitido na América do Sul: ataques indiretos à moeda brasileira, o real; propinas para as elites comprador com o apoio do sistema financeiro global; atentado concertado a favor de implodir simultaneamente as três principais economias: Brasil, Argentina e Venezuela. O Comando Sul dos EUA, SOUTHCOM chegou a ponto de produzir um relatório sobre "Venezuela Freedom" [Liberdade para a Venezuela], assinado pelo comandante Kurt Tidd, que propõe uma "estratégia de tensão" completada com técnicas de "cerco" e "sufocamento" e admitindo ação de rua com uso "calculado" de força armada. Aplicam-se aqui ecos do Chile, 1973.

Pode-se dizer que a América do Sul é hoje o mais importante espaço geopolítico onde o Excepcionalistão está lançando as bases para restaurar sua hegemonia sem rivais — como parte de uma guerra geofinanceira multidimensional contra os BRICS e que visa a perpetuar o mundo unipolar.

Todos os movimentos anteriores levaram a essa geoestratégia de implodir os BRICS e reduzir a América do Sul à situação de apêndice da América do Norte.

Wikileaks revelou como a Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a Petrobrás. Em 2008, o Brasil propôs sua própria Estratégia de Defesa Nacional, focada em duas áreas chaves: o Atlântico Sul e a Amazônia. Não era coisa que se desse bem com o SOUTHCOM. A Unasul deveria ter desenvolvido aquela estratégia para o nível continental, mas não o fez.

Lula decidiu garantir à Petrobras o primado da exploração dos depósitos do pré-sal — a maior descoberta de petróleo do século 21. O governo Dilma garantiu impulso firme ao Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (baseado no BNDES do Brasil); e também decidiu receber pagamentos dos iranianos deixando de lado o dólar norte-americano. Qualquer um envolvido no comércio sul-sul que negocie deixando de lado o dólar norte-americano entra, imediatamente, numa lista de matar.

Hillary Clinton é a candidata de Wall Street, do Pentágono, do complexo industrial militar e dos neoconservadores à presidência. É a Deusa da Guerra — e, num continuum Bush-Obama-Clinton, ela irá à guerra contra qualquer ator no Sul Global que ouse desafiar o Excepcionalistão.

É isso. Os dados foram lançados. Saberemos com certeza quando houver novo presidente nos EUA — e provavelmente também um novo presidente não eleito no Brasil — no início de 2017. Mas o jogo estratégico permanece o mesmo: o Brasil tem de ser esmagado, para que a integração puxada pelos BRICS seja esmagada e, assim, o Excepcionalistão possa concentrar todo o seu poder de destruição no confronto de vida ou morte contra Rússia-China.
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Romário é suspeito de receber caixa dois de empreiteira do petrolão, diz PGR

A partir de mensagens no celular de Marcelo Odebrecht, a PGR pediu ao STF a abertura de inquérito


A Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal para investigar o senador Romário (PSB-RJ) pela suspeita de receber caixa dois de campanha na eleição de 2014. De acordo com a investigação, a suspeita é que a empreiteira Odebrecht supostamente deu R$ 100 mil ao senador.

Registrada no STF como a petição 6.052, a investigação sigilosa ainda é inicial e caberá aos aos procuradores levantar provas se de fato houve pagamentos ao senador. Ele nega. O indício surgiu a partir de mensagens de celular trocadas entre Marcelo Odebrecht e seu subordinado Benedicto Barbosa da Silva Júnior, logo após a eleição de 2014. Benedicto é um dos principais executivos da Odebrecht e ganhou notoriedade por manter um controle de valores ligados a mais de 200 políticos. Assim como o chefe Marcelo Odebrecht, ele chegou a ser preso pela Lava Jato. As conversas foram apreendidas pela Polícia Federal na fase da Operação Lava Jato que prendeu Marcelo Odebrecht.

A suspeita é que a Odebrecht pagou R$ 100 mil de caixa dois para Romário, após a eleição vitoriosa para o Senado, em 2014. Na petição levada ao Supremo, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirma que a conversa entre os dois empresários é um indício da “prática habitual e sistemática de pagamento de propina”. Apesar de o diálogo citar R$ 100 mil para Romário, oficialmente não houve doações para o candidato, o que levantou à suspeita de caixa dois. A investigação, contudo, ainda está nos primeiros passos para tentar descobrir se efetivamente foi pago o montante tratado nas conversas.

Esse é o primeiro caso até aqui revelado sobre as provas obtidas a partir das mensagens de celular de Marcelo Odebrecht. O potencial é explosivo. Em seu telefone celular, o empreiteiro mantinha uma vasta coleção de anotações sobre a Lava Jato. Foi dali que surgiram as investigações sobre os dissidentes da Polícia Federal e os primeiros sinais de que a empresa sabia do risco das contas na Suíça. As revelações caíram como uma bomba e foram o primeiro passo da derrocada da maior empreiteira do país. A Procuradoria-Geral da República começa agora a investigar os diversos rastros deixados pelas mensagens que ele trocou com colegas da Odebrecht sobre diversos políticos na campanha de 2014.

O caso de Romário foi tipificado como dois crimes a ser investigados: corrupção e lavagem de dinheiro. O pedido de Janot foi encaminhado ao ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal. Teori poderá tomar dois caminhos. Se entender que o caso tem relação com o petrolão, ele deverá abrir um inquérito. Ele pode ainda submeter a decisão ao presidente do STF, Ricardo Lewandowski, caso conclua que não há relação direta com os desvios da Petrobras.

Por meio de sua assessoria, Romário negou as suspeitas e disse que nem sequer houve tratativas com a empreiteiras. “O senador Romário não recebeu qualquer doação da Odebrecht nem intermediou qualquer doação a outras campanhas. Todas as doações recebidas foram legais e registradas na prestação de contas da campanha de 2014. Romário nunca conversou com Marcelo Odebrecht ou com qualquer pessoa que tenha se identificado como seu emissário. Enquanto candidato, ele também não autorizou qualquer pessoa a falar em seu nome”, disse. Na nota, Romário afirmou que “refuta veementemente qualquer acusação de doações ilegais em suas campanhas”. A Odebrecht disse que não iria comentar.

Filipe Coutinho
No Época
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O Pato Gigante das Manifestações


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Em discurso emocionado, Lula defende respeito ao voto e ao país — assista


O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva falou na noite desta sexta-feira (10) na avenida Paulista, durante a manifestação contra o golpe. Lula disse que o presidente interino Michel Temer sabe que o que ele fez não foi correto. “Temer, você é um advogado constitucionalista. Você sabe que não agiu corretamente assumindo a presidência. Por favor, permita que o povo retome o governo com a Dilma e dispute eleições em 2018 para ver se você vai ser presidente”. Durante seu discurso,

Lula chegou a se emocionar ao lembrar da mãe e da infância na pobreza e desafiou “Eu quero ver o dia em que alguém vai encontrar um real de desvio nas minhas contas (…) parece que hoje as pessoas não querem condenar com provas ou com julgamento, mas com manchetes de jornal.

Lula lembrou que naquela mesma avenida Paulista, muitas pessoas foram protestar contra a corrupção usando a camisa da CBF, mas hoje essas mesmas pessoas estão com vergonha e não conseguem defender o governo que colocaram no lugar. Disse ainda que o que esse governo quer é fazer um desmonte no país. “Quando eu fui eleito, eu tinha uma obsessão: era provar que um peão de fábrica sem diploma poderia governar esse país melhor”. O desafio nunca foi fácil, mas hoje, quando o governo tem um problema, a solução é sair vendendo. “Eles querem promover um desmonte do país.

Eles têm medo das coisas públicas, porque não sabem governar, só sabem privatizar”.

A população mais pobre voltou a ser tema central no discurso. “O pobre deixou de ser problema e passou a ser a solução. Se eu empresto 500 milhões a um empresário, ele pega e coloca no banco para ganhar juros. Se eu empresto 100 reais a um pobre, isso vira comida, consumo, emprego… movimenta a economia”.

A política externa do novo governo também foi muito criticada. Lula citou uma entrevista na qual o atual chanceler dizia que o Brasil não deveria se meter nas coisas de país de primeiro mundo e se contentar com seu papel de país pobre, atrasado. “Não podemos ter esse complexo de vira-lata. Aprendi com minha mãe analfabeta a andar de cabeça erguida. O que faz você ser respeitado não é ser grande ou ser rico”.

Nesse momento, Lula se emocionou ao lembrar de sua mãe e da infância e dos repetidos ataques de que tem sido vítima.

O ex-presidente lembrou que fortaleceu o Ministério Público, a Polícia Federal, deu recursos, autonomia e respeito às instituições, mas que não podemos aceitar que essas instituições sejam partidarizadas. Disse ainda que tem paciência e, em tom de desafio, disse que quer ver uma prova qualquer de desvio em suas contas. Lula criticou ainda a condenação midiática, sem respaldo em provas. Disse que hoje as pessoas preferem condenar não na Justiça, mas numa manchete de jornal. E desabafou: “Quem não morreu de fome até os cinco anos onde eu vivi e venceu a fome não tem medo de nada. Quanto mais eles me provocarem, mais eu corro o risco de ser candidato à Presidência em 2018″

Instituto Lula

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Temer vai habitar a escuridão, são as luzes da democracia que dizem…

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2016/06/10/e-hora-do-pau-democratico/


Não se pode imaginar que se constrói a democracia apenas nas negociações de gabinetes.

Democracia se faz na luta, no pau democrático.

Conquistando em cada centímetro, cada fresta, cada espaço vazio o melhor lugar.

Temer tremeu.

Temer sabe que é um sujeito (vice) decorativo sem voto.

Um cara que não consegue uma quadra pequena dos Jardins (Paulista, América etc) em sua defesa.

Temer não representa nem uma escadaria da Fiesp, nem uma sala blindada da Febraban.

Porque a vida do mundo real é muito mais dura do que um enredo de minissérie do Netflix.

O Brasil precisa de uma chuva de democracia. E que não passa pelo golpismo de gabinete.

As ruas frias deste 10 de junho de hoje mostraram isso.

É isso é só o começo.

Elas são apenas o ensaio da resistência.

O que está acontecendo é de dar medo, mas não aos que têm coragem.

Temer treme.

E do lado dos que querem qualquer coisa, menos o golpe, não se pode ter medo.

O momento é de ir para os desafios.

O tal pau democrático, onde é necessário se colocar em linha e encarar as demandas, as contradições, as diferenças todas.

E nesta hora, linda (anotem, ela é linda) brotam as surpresas, as esperanças.

Aparecem as mulheres, os LGBTS, os negros, os jovens, os pobres e todos aqueles que são tratados com pequenez pela democracia imperfeita que vivemos.

Essa democracia precisa ser superada. E pode ir muito além.

E é na coragem dessa gente muito mais bonita do que a nossa tal democracia que vamos avançar.

Dilma, com seus defeitos (mas também qualidades muitas), tem tido a coragem de enfrentar o sistema.

E isso ainda pode nos fazer não descer as profundezas de uma insensatez.

É possível ver uma luz no fim deste túnel escuro construído por Temer onde ele vai habitar.

Temer vai termina na escuridão.

Anotem.
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Idosos buscam alternativas para continuarem morando sozinhos

Ieda Conceição, 67, Roseli Rodrigues,74, e Idalin dos Santos, 86, em uma república de idosos em Santos, SP
É mais provável que você passe sua velhice morando sozinho, com amigos ou numa instituição do que na casa dos filhos, como era comum em outras gerações.

Especialistas em envelhecimento dizem que os arranjos do passado –quando os idosos costumavam se mudar para casa dos filhos quando começavam a precisar de auxílio–, tendem a ficar menos comuns, cedendo espaço para instituições de longa permanência e para novos arranjos, como as repúblicas da terceira idade.

"Hoje, a maior parte dos idosos brasileiros vive em suas próprias casas. Os que precisam de ajuda ainda têm os filhos como primeira opção, mas essa é uma solução complicada já que tanto as casas quanto as famílias diminuíram", diz Marília Viana Berzins, assistente social do Observatório da Longevidade Humana e do Envelhecimento.

Em seu livro "70Candles! Women Thriving in Their 8th Decade" (Setenta velas: mulheres florescendo em sua oitava década, em tradução literal) as pesquisadoras Jane Giddan e Ellen Cole aconselham que depois de "certa idade" –embora nem elas arrisquem um palpite para esse número mágico–, devemos traçar planos de permanência ou de fuga do ninho, a depender das condições e vontades de cada um.

"Nos EUA, quase 90% das pessoas com mais de 65 anos planeja envelhecer em sua própria casa, mas poucas tomam medidas para isso, como rever a acessibilidade dos cômodos e pensar no que pode ser feito para tornar o lugar seguro", diz Giddan, que é professora de psiquiatria da Universidade de Toledo.

Para ela, um pouco de planejamento pode prolongar a independência e permitir que as pessoas tomem as rédeas do próprio envelhecimento. Ela lista desde reformas e mudanças de bairro até um arsenal tecnológico de aplicativos de celular que compartilham a localização com familiares em tempo real e câmeras de monitoramento doméstico.

"Conheço grupos de pessoas mais velhas que moram próximas e dividem um cuidador, conheço amigos que compraram um terreno para construir casas e serem todos vizinhos. As pessoas estão buscando alternativas, até porque residenciais para idosos costumam ser ruins ou caríssimos e quase ninguém gosta da ideia de morar com parentes", diz Giddan.

No Brasil, já existem serviços como o Telehelp, que monitora clientes que vivem ou passam boa parte do dia sozinhos. "A pessoa usa uma pulseira ou colar com um botão de emergência que pode ser acionado em casos de quedas, por exemplo", explica Juliana Barieirom, diretora da empresa que atende 10 mil clientes no país. O plano básico custa R$ 135 por mês, outros mais caros incluem telefonemas diários e a instalação de sensores de fumaça.

Idosos que não moram sozinhos ou com seus companheiros costumam viver com parentes, sobretudo com filhas mulheres, afirma Berzins. Segundo levantamento feito em 2009, apenas 1% dos idosos brasileiros vive em instituições de longa permanência (ILPIs, termo corrente para asilos e casas de repouso). A maioria (65,2%) dessas casas é filantrópica. As públicas somam apenas 6,6%, com predominância de instituições municipais.

Mas esse mesmo estudo, feito pelas pesquisadoras do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Ana Amélia Camarano e Solange Kanso, aponta tendência de crescimento das instituições privadas com fins lucrativos: elas somam 57,8% das instituições criadas a partir de 2000.
SAO PAULO, SP, BRASIL, 25-04-2016: O Sr. Jose Carlos, 79, em um dos espacos de convivio do Residencial. Opcoes de moradia para idosos. O Cora Residencial Senior conta com toda a infraestrutura voltada para a terceira e idade. (Foto: Fabio Braga/Folhapress, EQUILIBRIO).
José Carlos Ferreira, 79, vive em um residencial para idosos, no Ipiranga, em SP
Desde 2015, o empresário José Carlos Fonseca Ferreira, 79 anos, vive em uma ILPI privada chamada Cora Residencial. Com filiais no Ipiranga e no Alto de Pinheiros, essa é a primeira rede de ILPIs do Brasil. Além das duas unidades abertas em 2015, eles pretendem abrir mais 30 nos próximos quatro anos.

José Carlos é casado e não precisa de um cuidador. "Minha mulher é dez anos mais nova, ainda trabalha. Vim por sugestão do meu geriatra. Ele achou que passar uma temporada aqui seria uma forma de socializar e criar disciplina com algumas coisas, como a alimentação", conta. Inicialmente, ele vai passar quatro meses no "senior living", como são chamadas as ILPIs de alto padrão. Uma vez por semana, visita a mulher no apartamento do casal, em Higienópolis.

O convívio social e as atividades são alguns dos atrativos dos residenciais para idosos. José Carlos, que é jornalista e trabalhava produzindo jornais de comunicação interna para empresas, está fazendo um jornal interno da ILPI. "O primeiro número é agora em maio, então terá fotos das senhoras daqui quando estavam noivas", conta ele.

O custo de um senior living como esse, porém, é alto: as mensalidades começam em R$ 4 mil para idosos que não precisam de auxílio para se locomover e dividem o quarto com outras duas pessoas. Há serviços desse tipo que chegam a R$ 20 mil por mês.

No serviço público também há iniciativas interessantes, embora estejam longe de suprir a demanda. O programa "Acompanhante de Idosos", da Prefeitura de São Paulo, oferece visitas semanais de um cuidador para idosos que moram sozinhos, mas que precisam de algum auxílio. Há ainda a Vila dos Idosos do Pari, um conjunto habitacional feito para maiores de 65 anos.

Em Santos, idosos independentes e de baixa renda vivem em repúblicas com auxílio da prefeitura. Nesse caso, a prefeitura custeia o aluguel e os moradores dividem os gastos. "Quando se fala em idoso muitas vezes só pensamos em quem perdeu a autonomia, mas a maior parte dos idosos só precisa de um pouco de apoio para continuar gerindo a própria vida", diz Humberto Souza, assistente social da Prefeitura de Santos.

Juliana Cunha
No fAlha
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