29 de mai de 2016

PGR e PF vão soltar as operações ‘Senatus’ e ‘do Barba’

O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, e a força-tarefa da Operação Lava Jato em Brasília (no MP) e em Curitiba (Justiça Federal) preparam duas grandes operações que vão sacudir o mundo político em Brasília e São Paulo: a Senatus e a do Barba — não necessariamente nesta ordem e com estes nomes, mas com estes alvos.

A próxima fase da Lava Jato, a 30ª, deve pegar em cheio o Senado Federal. Não só pela homologação da delação premiada de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro (a coluna antecipou que havia um áudio bomba  por vir ), mas por tudo o que já se apurou até aqui sobre o que disse o ex-senador Delcídio do Amaral, e sobre os documentos apreendidos nas residências e escritórios do senador Fernando Collor (PTC-AL).

Por baixo, pelo menos quatro senadores estão na mira diante do descoberto até agora: o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), Romero Jucá (PMDB-RR), Edison Lobão (PMDB-MA) — citado por delatores — e Collor.

A dúvida da PGR e da Justiça Federal é se pedem ao Supremo Tribunal Federal autorização para prisão ou apenas condução coercitiva, seguida de mandados de busca e apreensão em gabinetes e residências.

Já a futura fase 33ª é tida como a mais polêmica. É a que, segundo circula nos bastidores da Justiça Federal e do STF, vai cercar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o seu Instituto. Na madrugada do dia 4 de março a Coluna citou a operação de grande repercussão que estava prestes a sair.

Tropa de elite

Turma jovem e muito reservada, a força-tarefa de Janot e da PF não pega leve. Os procuradores trabalham em meio andar da sede do Ministério Público com acesso restrito.

A força-tarefa leva tão a sério as operações que uma procuradora, de família de Brasília, mudou-se de sua casa para um apartamento funcional, a fim de se concentrar. São de suas mãos que saem os pedidos de prisão e condução de políticos.

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STF está envolvido no processo do golpe, afirma professor da UnB

Para Marcelo Neves, STF está muito parcial e ministros estão se manifestando sobre algo que eles podem ter
que vir a julgar, o que fere todas as normas de imparcialidade.
Foto: Agência Brasil
Em dezembro de 2015, Marcelo da Costa Pinto Neves, Professor Titular de Direito Público da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília e Visiting Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de Yale (EUA), divulgou um parecer classificando o pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, acolhido pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB), como “inconsistente e frágil, baseando-se em impressões subjetivas e alegações vagas”. “Os denunciantes e o receptor da denúncia”, disse ainda o constitucionalista, “estão orientados não em argumentos jurídicos seguros e sustentáveis, mas sim em avaliações parciais, de caráter partidário ou espírito de facção”. “Denunciantes e receptor afastam-se não apenas da ética da responsabilidade, mas também de qualquer ética do juízo, atuando por impulsos da parcialidade, do partidarismo e da ideologia, em prejuízo do povo brasileiro”, acrescentou.

Passados cerca de seis meses, a abertura do processo de impeachment foi aprovada na Câmara e o mesmo encontra-se atualmente tramitando no Senado, com o afastamento da presidenta Dilma por um período de até seis meses. Enquanto isso, o vice Michel Temer assumiu o governo, trocando não só todo o ministério e escalões intermediários do governo, mas também o programa do governo eleito pelas urnas em 2014. Impeachment ou golpe? Em entrevista ao Sul21, Marcelo Neves não tem dúvidas em apontar a segunda opção. “É um golpe fundado numa ideologia, numa criação ilusória de que se está atuando de acordo com a Constituição, quando, na verdade, está se atuando para corroer a Constituição, prejudicando o funcionamento normal da ordem constitucional”, afirma o professor da UnB. Para ele, o processo golpista envolve parlamentares, o TCU, a grande mídia e o Judiciário, incluindo o próprio Supremo Tribunal Federal que, em tese, deveria zelar pelo cumprimento da Constituição:

“Acho que o STF está envolvido neste processo, pois está muito parcial. Ele tem tomado medidas que, às vezes, são muito duras para setores do governo e muito parcimoniosas, lenientes e favoráveis a grupos pertencentes à política tradicional brasileira. Além disso, o STF tem se manifestado e prejulgado casos que ainda vai avaliar”.

O senhor é autor de um parecer, divulgado em dezembro de 2015, que classificou o pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff como frágil e inconsistente. Passados quase seis meses da divulgação desse parecer e com o processo de impeachment já tramitando no Senado, como definiria a situação política que estamos vivendo hoje no país?

A situação do impeachment foi uma criação para destituir a presidente que não tem nenhum fundamento. Toda a estrutura desse processo configura o que tem se chamado de golpe, um golpe parlamentar com a ajuda do Judiciário e da grande mídia, que não tem nada a ver com a prática de crime de responsabilidade pela presidente da República. Há vários elementos que apontam no sentido oposto. O afastamento da presidente tem a ver, principalmente, com a tentativa de abafar as investigações para que elas não atingissem certos políticos hegemônicos da tradição brasileira. Recentes gravações mostram que a presidente vinha permitindo as investigações sem interferência, deixando o Ministério Público e a Polícia Federal com autonomia para atuar. A questão é que isso incomodava muitos grupos. Um ponto fundamental foi esse.

Outro, evidentemente, é que as políticas sociais incomodavam grupos tradicionais das elites brasileiras. Esses foram os elementos fundamentais. Crise econômica, nós já passamos mais graves no governo Sarney e no governo Fernando Henrique. Isso não justificou o impeachment desses presidentes porque, no presidencialismo, uma política econômica frágil e mal conduzida em certo momento não é suficiente para a destituição do chefe de governo. Isso ocorre no sistema parlamentarista.

As chamadas pedaladas fiscais não configuram caso de crime de responsabilidade. Já existem muitos estudos sobre isso. Além disso, essas pedaladas foram praticadas abundantemente antes pelo próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, que abusou de decretos para a abertura de créditos suplementares. Na época, o Tribunal de Contas da União só encaminhava recomendações para que as contas fossem saneadas. Nunca houve sequer reprovação das contas, quanto mais um impeachment que implica crime de responsabilidade. Então, o TCU também está envolvido nesta trama, na construção deste casuísmo para enfraquecer a presidente e permitir esse impeachment que, na verdade, fere a Constituição porque a tipificação do crime de responsabilidade inexiste.

No presidencialismo, a destituição de um presidente exige que se caracterize o crime de responsabilidade ou o crime comum, que iria para o Supremo. Mas não há caracterização de crime comum nem de crime de responsabilidade. Então, o que vem se dizendo sobre o golpe justifica-se amplamente.

O senhor concorda, então, que estamos vivendo um golpe em curso ou mesmo já efetivado?

Sim, é um golpe que está em curso e que pode se consumar. Não é um golpe clássico, no sentido estrito do termo, com o emprego de violência. É um golpe fundado numa ideologia, numa criação ilusória de que se está atuando de acordo com a Constituição, quando, na verdade, está se atuando para corroer a Constituição, prejudicando o funcionamento normal da ordem constitucional.

Quais são as possíveis consequências dessa quebra da ordem constitucional para a vida do país no médio e longo prazo?

O que pode ocorrer, caso se consume um abuso desse tipo, é termos sempre um perigo pairando sobre qualquer governo contrário aos interesses das elites dominantes. Esse governo não vai conseguir se manter no poder, pois sempre se poderá recorrer a esse precedente. O grande perigo é que essa prática se torne uma rotina na nossa vida política, tendo como alvo presidentes que tenham uma postura transformadora, vinculada a movimentos populares. Isso cria mais instabilidade inconstitucional no país.

O senhor mencionou a participação do Judiciário neste processo de construção do golpe, juntamente com parlamentares e a grande mídia. O STF, que é a nossa última trincheira constitucional, também foi arrastado para essa crise ou está envolvido ativamente nela. Qual sua avaliação sobre a conduta do STF neste processo do golpe?
Acho que o STF está envolvido neste processo, pois está muito parcial. Ele tem tomado medidas que, às vezes, são muito duras para setores do governo e muito parcimoniosas, lenientes e favoráveis a grupos pertencentes à política tradicional brasileira. Além disso, o STF tem se manifestado e prejulgado casos que ainda vai avaliar. Isso tem acontecido com vários ministros, como Gilmar Mendes, Celso de Mello e Carmen Lucia, que se manifestaram dizendo que o que está acontecendo não é golpe. Estão se manifestando sobre algo que eles podem ter que vir a julgar. Isso fere todas as normas de imparcialidade. Eles não poderiam se manifestar sobre o assunto exatamente porque eles poderão ter que julgar se há vícios no processo do impeachment. Eles estão prejulgando ao falar antecipadamente. Isso poderia, em certos casos mais graves, levar até mesmo ao impeachment de um ministro do Supremo se a gente estivesse atuando, realmente, de acordo com as regras do Estado de Direito.

Considerando que o STF é o guardião da Constituição, a quem a sociedade pode recorrer quando ocorre uma quebra da ordem constitucional e aquele que deveria ser o principal defensor do Estado de Direito se comporta dessa maneira?

Acho que aí vamos precisar dos movimentos populares. Isso tem que vir mais de baixo. A mobilização popular pode pressionar e provocar uma modificação da situação atual e reorientar algumas posições. Como a coisa está ficando tão descarada com as recentes gravações, isso também vai aumentando o constrangimento dos poderes públicos. É possível que até mesmo o Supremo se veja constrangido a mudar suas posições e ser mais rigoroso com esses grupos de elites tradicionais, em relação aos quais eles não tomam nenhuma providência em processos que duram de cinco a dez anos. Políticos como Sarney e Renan tem um poder muito grande no Judiciário porque eles definem normalmente quem entra lá. Você não pode ir para o Supremo sem beijar a mão de Sarney. Isso torna muito difícil esses ministros fazerem alguma coisa contra esses políticos que controlam as nomeações para os altos postos do Judiciário.

Toda a estrutura está corrompida. O Judiciário também está corrompido, neste sentido. Agora, a natureza das gravações que estão surgindo pode aumentar o constrangimento desses poderes e, em certo momento, inverter o jogo, pois pode ficar mais difícil justificar certas decisões.
Há alguns dias, o senhor advertiu para o risco do surgimento de um Estado policial no Brasil em função do perfil de Alexandre de Moraes, novo ministro da Justiça de Michel Temer. Qual a dimensão desta ameaça, na sua opinião?

O perfil do atual ministro da Justiça é um perfil muito mais de repressão. A ligação dele com os cargos públicos sempre foi ligada à dimensão repressiva e nunca à dimensão dos direitos. Então, evidentemente, vai haver uma fragilização dessa dimensão dos direitos e uma ênfase na repressão. Isso já foi dito explicitamente e está registrado em gravações. Em uma delas, o ex-ministro do Planejamento, Romero Jucá, disse que já tinha falado com os militares para reprimir o MST. Ou seja, há toda uma ordenação de um aparelho repressivo mais eficiente contra os movimentos sociais. Não há pessoa com perfil mais adequado à essa orientação do que o atual ministro.

Na sua avaliação, a Constituição de 1988 deixou alguma fragilidade institucional que está ajudando a desestabilizar a relação entre os poderes e a própria democracia brasileira?
Acho que o problema básico não é a Constituição como texto elaborado. A Constituição sempre deixa um campo aberto para as práticas constitucionais. O problema é a forma como ela foi construída. É claro que é possível pensar novos mecanismos de participação como, por exemplo, para a escolha de ministros do Supremo. Mas isso, me parece, não é o mais importante. O que é mais importante está ligado à prática de funcionamento das instituições. Em um país onde existem algumas pessoas muito privilegiadas, que eu chamo de sobrecidadãos, que estão acima da lei, e uma massa de pessoas, que eu chamo de subintegrados ou subcidadãos, que não têm acesso aos direitos básicos, é muito fácil para os primeiros manipular a Constituição. Então, eu penso que é mais o momento da realização, da prática, que acaba deformando a Constituição.

O modelo americano de escolha é muito parecido com o nosso, mas o Senado tem um papel muito sério. Quando um ministro é indicado pelo presidente para assumir a Suprema Corte americana, professores e especialistas são convidados para avaliar esse nome. Há um amplo debate público e funciona relativamente bem. No Brasil, essa indicação virou apenas um jogo particulatista de esquemas políticos para colocar uma pessoa que vai corresponder não a uma determinada visão de mundo, mas sim a determinados particularismos de grupos. Aí, realmente, a deformação e a deturpação da Constituição se tornam o problema mais grave no nosso caso.

O “ativismo jurídico” tornou-se uma expressão muito repetida hoje no debate político e jurídico brasileiro. Qual sua avaliação sobre o sentido dessa expressão?

Esse ativismo judicial que seria uma tendência à judicialização da política tem sido entendido como se o Direito se ampliasse no campo político. Essa é uma interpretação um pouco infeliz porque, na verdade, em grande parte o que há é uma politização do judiciário. Não é que o Judiciário, com critérios jurídicos, se amplia e se torna forte para controlar o poder político. No caso brasileiro, há uma dimensão mais grave neste fenômeno: o Judiciário é politizado e acaba se vinculando aos interesses de grupos políticos. Isso é muito mais grave e representa uma ameaça para o próprio funcionamento da democracia. São pessoas com poder vitalício, adquirido sem eleição e sem periodicidade, podando e prejudicando o funcionamento do processo democrático.

O senhor defende a possibilidade de eleição no Poder Judiciário?

Não. Acho que isso seria problemático. O que defendo é que o Judiciário reconheça as suas funções e seus limites, ficando ligado à Constituição e aos critérios constitucionais. Em alguns países como a Suíça, em nível municipal, e os Estados Unidos, os juízes são eleitos pela comunidade. Acho que no Brasil isso seria um tanto catastrófico em função da forma pela qual o nosso sistema eleitoral é conduzido.

Marco Weissheimer
No Sul21
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Lula vai processar jornazista da Globo


CARTA DO ADVOGADO DE LULA ENVIADA ONTEM PARA MERVAL PEREIRA

Ao Jornalista Merval Pereira

Senhor Jornalista,

Em coluna publicada nesta data (28.05.2016) no jornal "O Globo", intitulada "Mistificação eficiente" Vossa Senhoria afirma, de forma incisiva, que a Petrobras teria sido "assaltada e dilapidada por uma quadrilha de políticos comanda pelo próprio ex-Presidente Lula (...)". Esse é um exemplo claro de prejulgamento incompatível com a realidade dos fatos e com a regra de tratamento que emerge da garantia constitucional da presunção de inocência (CF/88, art. 5º, LVII). Não há qualquer elemento idôneo que aponte a atuação do ex-Presidente Lula em ilícitos praticados no âmbito da Petrobras — justamente porque ele não teve qualquer participação no suposto esquema criminoso.

Há mais de 2 anos, Lula e seus familiares estão sendo submetidos a inequívocas devassas e outras arbitrariedades, incluindo até mesmo a privação da liberdade do ex-Presidente por cerca de seis horas e sem previsão legal (a detenção foi chamada de condução coercitiva, embora não tenha qualquer relação com a providência prevista no art. 266, do CPP). A despeito disso, como não poderia deixar de ser, nada foi encontrado. Não existe qualquer valor atribuído a Lula, no Brasil ou no exterior, como mencionado, proveniente desses atos ilícitos, simplesmente porque, como já dito, ele não teve qualquer participação e muito menos foi beneficiado por tais práticas.

Observe-se que o cenário acima apresentado não sofre qualquer alteração em virtude de notícias divulgadas pela imprensa neste final de semana a respeito do suposto conteúdo da delação premiada de Pedro Corrêa. O ex-deputado foi condenado pelo juiz Sérgio Moro a mais de 20 anos de prisão por ter praticado inúmeros crimes, devidamente identificados por operações envolvendo suas próprias contas bancárias ou de pessoas próximas. É para fugir ao cumprimento dessa pena que o réu negocia uma delação mentirosa, claramente direcionada a comprometer o ex-presidente, contra quem não se apresenta prova alguma.

Como o Jornalista deve saber, a Lei nº 12.850/13 não confere valor probatório a depoimentos realizados no âmbito de delação premiada. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal também confirma essa orientação, afirmando que a delação premiada é "meio de obtenção de prova" (IP 4.130 QO/PR) e não meio de prova.

Também não abala a situação exposta as indevidas ilações apresentadas no anonimato ou, ainda, por algumas autoridades que agem indevidamente com base apenas em pensamentos desejosos ("wishful thinking") — como já exposto pelos advogados do ex-Presidente perante os órgãos de controle, como o Conselho Nacional do Ministério Público.

Registre-se, em abono ao quanto exposto, que Lula não é réu e muito menos condenado pela prática de qualquer crime, como Vossa Senhoria reconheceu em coluna publicada em 16.04.2016 — após anterior pedido de retificação encaminhado pelos advogados do ex-Presidente (http://abemdaverdade.com.br/2/Noticias/MervalCorrigeInformacaoDivulgadaSobreLula_246/?iframe=false).

O quadro apresentado deixa evidente que o Jornalista incorre em flagrante abuso e ilegalidade ao emitir a afirmação destacada no pórtico desta missiva, podendo até mesmo tangenciar a prática de crimes contra a honra do ex-Presidente Lula.

Tal situação torna-se ainda mais grave na medida em que o posicionamento de Vossa Senhoria se confunde com a posição do próprio jornal e das Organizações Globo, que há muito se utilizam da concentração e do controle do mercado da comunicação social — incompatível com o art. 220, §5º, da Constituição Federal — para atingir a reputação e a imagem do ex-Presidente.

É notório — e amplamente registrado na imprensa mundial — o facciosismo dos veículos das Organizações Globo em relação ao ex-presidente Lula. Exemplo disso foi a coluna publicada em 04.05.2016 pelo Jornalista afirmando que "A justiça brasileira levou quase 10 anos para ter condições políticas de denunciar o ex-presidente Lula (...)". Desde quando alguém pode ser denunciado no âmbito criminal a partir de "condições políticas" — e não por haver comprovação de que praticou um fato definido em lei como crime?

Em qualquer lugar em que sejam observados os padrões éticos e jurídicos adequados — e com uma imprensa cumprindo efetivamente o seu papel de informar (a verdade) —, a afirmação feita por Vossa Senhoria deveria ser uma denúncia jornalística e não uma verdadeira comemoração pela arbitrariedade.

Posto isso, pede-se a Vossa Senhoria a retificação da publicação acima destacada, na forma da Lei nº 13.188/2015, sem prejuízo das providências jurídicas cabíveis, mediante a publicação do seguinte texto — no mesmo espaço e com os mesmos caracteres da publicação ofensiva:

"Lula não participou de qualquer ato ilícito antes, durante ou após ocupar o cargo de Presidente da República. Não há, por isso mesmo, qualquer prova contra o ex-Presidente, mesmo após ele e seus familiares terem sido submetidos a ilegalidades e arbitrariedades. Delações premiadas feitas por condenados e pessoas que estão na cadeia não são provas, apenas meio de prova, segundo estabelece a lei e segundo já afirmou o Supremo Tribunal Federal. Tampouco ilações indevidas ou pensamentos desejosos de algumas autoridades autorizam fazer qualquer juízo de valor negativo contra Lula, que não é réu e muito menos foi condenado pela prática de um crime"

Limitado ao exposto.

Cristiano Zanin Martins

No Esquerda Caviar
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O terror de Temer com a gravação de sua conversa com Sérgio Machado

E agora?
Michel Temer é um homem com medo. Fraco e com medo.

Além do desastre de sua temporada no poder, com ministros dando declarações estúpidas e voltando atrás, recebendo nulidades anabolizadas como Alexandre Frota, envolvidos na Lava Jato — há agora a expectativa da revelação das conversas do chefe com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro.

Os áudios já custaram o emprego de Romero Jucá, o constrangimento de Renan e Sarney e o resto de dignidade de Aécio Neves.

Expuseram também, claro, os intestinos do golpe. A imagem do STF, que já era ruim, fica queimada por período indeterminado depois do pedido de aumento de Lewandowski a Dilma, relatado por Renan Calheiros.

A cabeça de Temer já apareceu nas gravações. Falta o resto do corpo.

Machado contou que “contribuiu” para a campanha de Gabriel Chalita a prefeito de São Paulo em 2012 a pedido de Temer. “O Michel, eu contribuí pra ele. Ajudei na campanha do menino. Até falei com ele [Michel] num lugar inapropriado”, relatou.

Não fica claro qual foi a “contribuição”, mas é difícil que não se trate de dinheiro. Chalita era o candidato preferencial de Temer, que o acompanhou no dia da votação. “Um nome correto e adequado para o PMDB”, definiu o ex-vice decorativo.

A campanha recebeu 11,7 milhões de reais, segundo a Justiça Eleitoral — dos quais 97% repassados pelo partido, um truque legal que impossibilita conhecer quem doou o dinheiro. Essa grana toda não impediu um desempenho pífio.

Embora Machado assevere que colaborou com Gabriel Chalita por causa de Temer, quem coordenou a campanha, no final, foi Eduardo Cunha. Ligue os pontinhos.

O que virá nas conversas com Temer? Aliados admitem que ele “pode ter” se encontrado Sérgio Machado nos últimos meses. A assessoria confirma, embora não haja registro na agenda oficial (alô, Marco Antonio Villa).

Por menos comprometedor que seja o teor do papo, o impacto num momento tão flagrante da incompetência será devastador. No bunker de Dilma, acredita-se que isso pode virar o jogo no Senado.

Temer já tinha dado provas de sua fraqueza de espírito. Bateu a mão na mesa numa coletiva após ser chamado de “golpista” no Congresso. Um gesto teatral antiquado e inútil, que mostra apenas descontrole emocional.

“Sabem os senhores que temos sido vítimas de agressões. Sei como funciona isso. Agressão psicológica para ver se amedronta o governo”, falou.

“Nós precisamos mais do que nunca pacificar, harmonizar o país. Não podemos permitir a guerra entre brasileiros, a disputa quase física”, prosseguiu o sujeito que conspirou, traiu e derrubou a titular de sua chapa.

É um sujeito assombrado, que vive sob a espada de Dâmocles do vazamento de um ex-aliado. Michel Temer e seus capangas ganharam, mas não levaram. O interino administra uma farsa que será ainda mais desnudada depois que seu encontro com Sérgio Machado vier a público.

Kiko Nogueira
No DCM
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Nakba Catástrofe Mundial


Há eventos ao longo da história que, pela natureza da sua crueldade justificamos dizendo que ocorreu no passado, tempos aqueles em que a dita consciência do homem não tinha evoluído o suficiente.

Para citar como exemplo, a escravidão. Os primeiros escravos africanos chegaram à América em 1502; a partir de então, cerca de sessenta milhões de africanos foram sequestrados de suas terras e trazidos por comerciantes europeus, sendo que apenas doze milhões chegaram com vida. Inegavelmente foi uma catástrofe a barbárie do holocausto cometido ao povo africano.

Poderiamos pensar que um ato tão violento e horrível como este não seria esquecido nunca. No entanto, a lição não foi aprendida pois por mais de sessenta e oito anos, o povo palestino sofre uma verdadeira catástrofe executado por forças sionistas. A palavra catástrofe em árabe é "Nakba", e podemos traduzir como calamidade, catástrofe e desastre.

Esta catástrofe palestina e a expulção de suas terras, não foi, como se tem divulgado durante anos a propaganda israelense e como alegam a maioria dos meios de comunicação social: “uma consequencia desafortunada ocasionada pela guerra”. Ao contrario, corresponde a uma estratégia planificada pela política sionista desde principios do século XIX. A expulsão de 80% de população palestina através da violência israelense no ano de 1948, só foi possível devido ao plano político militar baseado em matanças e destruição massiva dos povos, aldeias e bairros palestinos. O Plano era denominado Plano Dalet, que visava a expulsão de toda a população palestina para a criação do Estado de Israel sobre o solo pátrio palestino.

A limpeza étnica da Palestina tem seu início ainda antes da criação do Estado de Israel, no movimento sionista impulsionado por Theodor Herzl; e é estimulada pela célebre Declaração Balfour de 1917, que previa a criação de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina. A derrota do Império Otomano (de que a Palestina fazia parte), no fim da Primeira Guerra Mundial e a passagem do território para mandato britânico em 1922, vieram facilitar as ambições do sionismo internacional. A progressiva imigração judaica para a Palestina ocupou estrategicamente o espaço para implantar o seu Estado.

A colonização foi acelerada pela ação de grupos armados o Haganah, o Irgun e o Lehi (ou Stern Gang), que não só atacaram os palestinos como os próprios ingleses. O Lehi assassinou em 1944 o ministro de Estado para o Médio Oriente Lord Moyne e o Irgun fez explodir em 1946 o Hotel King David, em Jerusalém, onde estava instalado o quartel-general britânico, provocando cerca de 100 mortos. Já em 1948, a 17 de Setembro, o Lehi assassinou em Jerusalém o Conde Bernadotte, presidente da Cruz Vermelha Sueca, que actuava como mediador das Nações Unidas para resolver problemas originados pela partilha do território.

Os ataques contra os palestinos eram o resultado de uma operação de limpeza étnica agendada, conforme atestam os próprios documentos dos arquivos israelenses. Um dos ataques mais cruéis foi o que destruiu a aldeia de Deir Yassin, em 9 de Abril de 1948, levado a cabo pelo Irgun. Para além dos mortos, as casas e aldéias foram arrasadas, mais de 100 palestinos foram friamente abatidos no local, e cerca de 200 o número de feridos. Este massacre foi o sinal para o começo do extermínio e expulsão dos palestinos. Outros ataques aconteceram antes e depois da criação do Estado de Israel, levados a cabo primeiro pelos grupos paramilitares judaicos e mais tarde pelo exército israelense.

A Nakba constitui um marco na invasão da Palestina, um passo indispensável para os terríveis assassinatos e roubos das fontes econômicas palestinas. Sem ela não teriam ocorrido outros acontecimentos posteriores como o Setembro Negro (Jordânia, 1970), o Dia da Terra (Palestina, 1976), o massacre de Sabra e Chatila (Líbano, 1982), ou a primeira e a segunda Intifada (1987 e 2000). Esta realidade foi possível devido a complacência da comunidade internacional e ao apoio incondicional dos Estados Unidos da América, determinado pela pressão do lobby pró-israelense sobre a política externa norte-americana. Desta forma, o Estado de Israel continua agindo impunemente.

Deve ser entendido que o Estado de Israel é a consolidação de múltiplos aspectos de ideologias racistas e pode-se fazer uma relação com o Estado do Apartheid na África do Sul. O ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter (1977-1981), que no seu governo era pró-sionista, em 2006, publicou o livro "Palestine Peace Not Apartheid", que estabelece este debate, comparando a segregação entre os dois países, tornando-se alvo de críticas lobby israelense. A opinião de Carter contém em si uma grande importância, pois ela nasce de dentro política americana, um inquestionável conhecimento experimental dos objetivos sionistas vivenciado por ele.

Outro escritor, Sasha Plakow-Suranksy, em seu livro "A aliança tácita: o relacionamento secreto de Israel com o apartheid na África do Sul", também denuncia a ligação entre o Estado de Israel e o regime de Apartheid, bem como a aquisição de armas nucleares entre os dois governos. Destaca ainda as semelhanças entre a construção de assentamentos, novas políticas relativas à cidadania e à criação de condições propícias à superlotação. Mas o mais importante é o seu comentário sobre as futuras consequências do aumento desproporcional na população palestina em Israel. Se a população palestina continua a crescer no ritmo atual serão maioria em Israel e os judeus uma minoria. Como na África do Sul, a minoria governa e/ou controla a maioria.

Estas preocupações também estão presentes na opinião do ex-Presidente Sul Africano De Klerk, que em uma entrevista na televisão israelense, falou que "dizer que há apartheid em Israel é injusta"; mas ele acrescentou que, “se um Estado Palestino não é estabelecido, Israel pode ter que lidar com as consequências de ser um estado para ambos os povos, e expressar praticamente o caminho que o levaria a Israel Apartheid”. Assim, não é difícil ver que o sionismo está em uma encruzilhada e vai enfrentar as consequências da política racista e colonial.

Assim, enquanto que Israel estava desenvolvendo uma operação de limpeza étnica na Palestina, o Apartheid estava sendo praticada na África do Sul por muitos anos, e em 1948 tomou forma jurídica com leis promulgadas para o efeito, o que curiosamente coincide com o reconhecimento ilegítimo do Estado de Israel na ONU. Não podemos esquecer que Israel era um dos principais aliados do regime do apartheid.

Nas eleições de 1948 na África do Sul, foi vencedor o partido nacionalista radical com uma coalizão com o Partido Afrikaans, liderada pelo pastor Daniel François Malan protestante. Já, em 1950, aprovou uma lei que reservava certos distritos nas cidades onde os proprietários só poderia ser branco, forçando os não-brancos migrar para outros lugares. As leis estabeleciam áreas segregadas, tais como praias, ônibus, hospitais, escolas e até mesmo bancos em parques públicos. Negros e outras pessoas de cor eram submetidas a a verificação dos documentos de identidade e eram proibidos de transitar em algumas cidades ou até mesmo permanecer sem permissão.

Uma vez que eles tinham apresentado problemas legais com o Supremo Tribunal para a implementação do apartheid, o governo aumentou o número de juízes no tribunal com tendências e leis nacionalistas finalmente promulgada. As regras estabelecidas nessas leis foram:

1 Os negros não podiam ocupar cargos no governo e não podiam votar exceto em algumas eleições isoladas para instituições segregadas.

2 Os negros não poderiam estabelecer ou exercer práticas comerciais profissionais em áreas especificamente designados para os brancos.

3 O transporte público foi completamente segregado. Os negros não foram autorizados a entrar zonas designadas para a população branca, a menos que eles tinham um passe. Os brancos também teve de realizar um passe para entrar nas áreas destinadas aos negros.

Para retirar os negros de suas terras, a discriminação foi baseada legalmente em que estes não eram cidadãos sul-africanos mas oriundos de outros lugares. A população negra foi removido de seus lares, as suas casas foram demolidas e pertences abandonados; foram considerados como população transeuntes ou temporária. Durante as décadas de 1960-1980, o governo forçou a população negra reassentar naqueles estados que tinham sido designados para eles. Um total de 3 milhões de habitantes e foram forçados a se mudar para esta área. O caso mais divulgado foi o de Joanesburgo, onde 60.000 habitantes negros foram realocados em uma área chamada Soweto.

Semelhança com o que aconteceu e acontece na Palestina hoje. Os sionistas usam os mesmo argumentos utilizados pelos defensores do apartheid. Na Nakba Palestina foram expulsos cerca de 800 mil palestinos e ocorreu a destruição de mais de 400 aldeias e cidades! Como todas as operações de limpeza étnica, a Nakba foi um crime contra a humanidade, de acordo com a definição do Tribunal Penal Internacional da Haia. E a repressão sobre o povo palestino continua até hoje. As imagens que vemos diariamente nos enchem de indignação, dor e tristeza, infelizmente temos vivido decadas de casas arrasadas, colheitas destruídas, famílias desmembradas, populações a viver em tendas, hospitais bombardeados, escolas em ruínas, cortes de água e de eletricidade, longas horas de espera nos checkpoints, mais o desemprego, a fome e a doença aumentando.

Esta disposição do governo israelense a cooperar com regimes opressivos e discriminatórios, revela que o racismo é a natureza e a essência do sionismo. Os governos israelenses falam que amam a democracia e que promovem a paz mundial, mas sua política bélica contém armas de destruição em massa, cujo objetivo não é a defesa, mas a intimidação.

O que pensar de um governo que age assim? Não só a Palestina é alvo, mas o mundo está ameaçado pelo sionismo. As guerras do sionismo acontecem em diversos territórios, são pesadas batalhas ideológicas desenvolvidas: Mísseis de ideias carregados com ogivas de rascismo são lançados todos os dias contra os nossos irmãos, pais e filhos por meio da televisão, livros e púlpitos das igrejas, convidando-nos a amar e apoiar a Israel imperialista em sua guerra de colonização, com a justificativa de que este é o desejo de Deus.

A Nakba é uma catástrofe que nos mostra quanto indolentes somos frente ao sofrimento dos nossos irmãos. Devemos refletir sobre as dificuldades de nos amarmos como irmãos e das possibilidades da convivência pacífica na humanidade.

A reflexão sobre a Nakba deve nos despertar para medidas que impessam um futuro com outras catástrofes similares e, em especial, que não mais permita um presente recheado pelo silêncio cúmplice.

A resistência palestina nos ensina a enfrentar os inimigos invasores e a lutar pela justiça e pelos direitos inalienáveis de um povo. Assim, em 2015 iniciou a terceira intifada e, apesar da brutal repressão israelense, das inúmeras prisões e mártires, o sonho da Palestina Livre continua presente!

A Palestina Livre é construida diariamente pelo povo palestino e pela solidariedade internacional!

Florianópolis, maio2016

Hasan Felix
comitepalestinasc@gmail.com
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França sem jornal por um dia

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=8666

Os conservadores acham que os movimentos sociais exageram no Brasil.

Os mais reacionários querem manifestantes apenas em cima da calçada e fora de horário de trabalho.

Nada deve parar a ordem e o progresso.

Na França, que se revolta contra modificações na legislação trabalhista jamais apresentadas em programa eleitoral, a CGT impediu todos os jornais de Paris de circular na última quinta-feira.

Apenas o velho jornal comunista L’Humanité saiu.

Por quê?

A CGT queria publicar um artigo em todos os jornais contra as mudanças nas leis trabalhistas.

Os jornais não aceitaram a imposição.

As gráficas foram bloqueadas. Nenhum jornal circulou.

Uau!
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Pai e mãe

Ele tinha 65 anos e um dia surpreendeu a todos com a informação de que estava, finalmente, conseguindo falar com seu pai. Ninguém imaginava que ele ainda tivesse pai. Alguns chegaram a pensar que o contato se dera numa sessão espírita. Mas não, o pai estava vivo. Casara cedo, tinha vinte e poucos anos quando o filho nascera. Por isso mesmo, nunca haviam se entendido muito bem. Não tinham interesses em comum. Não tinham assunto.

Na política, eram opostos. O pai reacionário, o filho progressista.

As poucas vezes em que falavam de política sempre acabavam da mesma maneira.

– Vá viver em Cuba – dizia o velho para o filho.

E este:

– Vá viver no século dezenove. 

Depois passavam semanas sem nem se olharem.

Mas agora tinham assunto.

– Estou podendo, finalmente, falar com meu o meu pai.

– Sobre o que vocês conversam?

– Remédios.

Comparavam tratamentos. 

– Qual é o seu betabloqueador? 

– Está tomando o que para o colesterol? 

– Experimenta este.

Trocavam hemogramas.

– Sua glicose está melhor do que a minha!

o filho contou que era comum ir à farmácia com o pai, de braços dados.

Mãe.

Ela contou que o conselho que recebeu da sua mãe, quando se casou, foi “Não seja inteligente demais, minha filha. Disfarce”.

E contou que a mãe lhe dissera que devia o sucesso do seu casamento a uma frase.

– Que frase, mamãe?

– “Não tenho cabeça para essas coisas complicadas, mas...”

A mãe usava a frase como preâmbulo sempre que precisava dizer ao marido o que ele deveria fazer.

Segundo a mãe, para um casamento feliz, preâmbulo é tudo.

Luís Fernando Veríssimo
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Temer e Gilmar trucidaram o conceito de decência ao se encontrarem furtivamente no Jaburu

A prova do crime: Gilmar a caminho de Temer
O pior pecado depois do pecado é a publicação do pecado.

Você sabe quanto gosto desta grande frase de Machado. O Machado certo, o de Assis, e não o Machado errado, o delator.

É exatamente isso que aconteceu quando Gilmar Mendes se esgueirou até Temer no Jaburu, na noite de sábado, para tratar sabemos bem o quê.

Citei Machado, o certo, e acrescento George Orwell, o gigantesco jornalista inglês de meados do século passado.

Orwell escreveu que os jornais são propriedade de homens ricos interessados em tratar de forma desonesta assuntos delicados.

Alguma relação com Marinhos, Frias, Civitas? Nenhuma, naturalmente.

Orwell defendia um conceito que ele definia como “common decency”. Numa tradução livre, decência básica.

A reunião furtiva de Temer e Gilmar infringe, melhor, trucida a “common decency” orwelliana.

Num momento em que pairam sob os eminentes magistrados do STF suspeitas pesadas de participação no golpe, é um acinte, uma bofetada, uma cusparada na sociedade que tal encontro tenha ocorrido.

É a demonstração de que Marcelo Rubens Paiva estava inteiramente certo quando disse em resposta a uma bravata de Toffoli, o pupilo de Gilmar, que nossas instituições são “uma merda”.

Sei que minha mãe reprovaria que eu use uma palavra tão vulgar, ela que era um exemplo de elegância ao falar, mas infelizmente não existe outra que defina tão bem as instituições brasileiras, algo comprovado pela ida de Gilmar ao Jaburu.

Espero sentado por um único editorial dos grandes meios que reprove a conduta de Gilmar e Temer. E serei obrigado a me deitar à espera de que os comentaristas da Globo, Folha etc. notem o crime de lesa democracia representado pelo encontro.

Nem que Gilmar tivesse ido ao Jaburu para jogar tranca ou tomar chá isso teria sido decente.

Isto se chama golpe.

Sem surpresa, li num site da Globo a notícia. Estava escondida no pé de uma nota. O título destacava outra coisa.

Este é o estado de entorpecimento moral de outra peça das instituições putrefatas brasileiras, a imprensa plutocrata.

Gilmar — indicado por FHC, aquele que acoelhado fugiu de uma palestra em Nova York porque seria desmascarado pela plateia como golpista — simboliza o STF pavoroso do qual somos todos vítimas.

Faz muito tempo que ele, certo da proteção da mídia e da omissão de seus pares, age como um militante político raivoso e ensandecido e não como um juiz.

Ele escarnece todos os dias e todas as horas da sociedade, com suas palavras desonestas e seu horroroso sorriso debochado.

Gilmar já foi pilhado publicamente conversando com Bonner numa reunião de pauta do Jornal Nacional. Num mundo menos imperfeito, ele teria sofrido impeachment por aquela barbaridade.

Não é apenas a política que exige uma reforma radical, que se inicie pelo fim do financiamento privado das campanhas, a forma pela qual a plutocracia toma de assalto a democracia.

Tão importante quanto limpar a política do poder do dinheiro sujo e corrupto é fazer uma faxina na Justiça, especificamente no STF de Gilmar.

As futuras gerações nos chamarão de frouxos, covardes, pusilânimes se assistirmos de bunda no sofá — desculpe, mãe — às manobras imundas do STF que está aí.

Paulo Nogueira
No DCM
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Os intocáveis


Como um grupo de procuradores combateu a corrupção na Itália – e acabou derrotado

A intérprete, que traduzia do italiano para o português e vice-versa, vinha fazendo o seu trabalho havia quase uma hora, sempre de maneira objetiva e impessoal – o tom de voz era neutro, monocórdio, sem ênfases ou inflexões que sugerissem qualquer interpretação sobre o que estava sendo relatado. Mantinha os olhos baixos, sobre um caderninho onde anotava os pontos mais importantes do discurso do ex-magistrado italiano Antonio Di Pietro. De repente, aparentemente motivada por algo que acabara de ouvir, achou por bem fazer uma pausa – muito breve – no fluxo do que estava dizendo e, do outro lado da mesa, levantou os olhos na minha direção. “Acho importante verificar isso”, alertou-me em português, como se questionasse sutilmente aquilo que Di Pietro havia acabado de falar. “Sete milhões de liras são cerca de 3 mil euros”, ela disse.

A quantia lhe parecia irrisória. Era difícil crer – como mais tarde, depois de terminada a entrevista, ela insistiria – que a Operação Mãos Limpas tivesse começado por tão pouco; um suborno quase desprezível na antiga moeda italiana. O que aconteceu depois que aquele punhado de dólares trocou de mãos foi talvez a maior crise política da Itália desde o fim da Segunda Guerra Mundial. A série de investigações deflagrada no início de 1992 por Di Pietro na Procuradoria de Milão, no norte do país, foi responsável por colocar um ponto final, em pouco mais de dois anos, no regime político clientelista e corrupto comandado ao longo de quase cinco décadas pela Democracia Cristã, a mais importante legenda italiana do pós-guerra. Como resultado da ação dos magistrados, em 1994 os principais partidos políticos do país simplesmente haviam deixado de existir.

Mais de 5 mil pessoas foram investigadas, por causa da Operação Mãos Limpas, pela Justiça italiana – centenas de empresários, centenas de parlamentares, uma dúzia de ministros de Estado e quatro ex-primeiros-ministros. Revelou-se um sistema de cobrança de propinas na administração de hospitais, nas licitações para o sistema de transporte público, na construção do metrô de Milão, de rodovias e ferrovias, que favorecia empresários amigos do poder, abarrotava o caixa dois dos partidos e financiava campanhas eleitorais.

Cerca de mil pessoas chegaram a passar algum tempo atrás das grades, presas preventivamente – entre elas, numa escala inédita na história italiana, políticos importantes e homens de negócios. Também investigado, o líder socialista Bettino Craxi, que em coalizão com a Democracia Cristã governara a Itália em meados dos anos 80, acabaria fugindo, indo passar seus anos finais de vida e de exílio na Tunísia, no norte da África.

Os 7 milhões de liras a que se referia Di Pietro representavam a primeira prestação, a metade do suborno exigido por um funcionário público chamado Mario Chiesa, administrador de uma unidade da rede de Saúde de Milão, a ser paga por uma empresa fornecedora de serviços de limpeza. Chiesa, que comandava um conhecido centro de cuidados médicos para idosos, o Pio Albergo Trivulzio, era filiado ao Partido Socialista e assumira o cargo por indicação política. Pedia aquela quantia para um pequeno empresário, Luca Magni, que entre outros negócios trabalhava para os hospitais da cidade mais rica da Itália. Se Magni desejasse manter o seu contrato com o Pio Albergo Trivulzio, disse-lhe Chiesa, deveria entregar a ele os 14 milhões de liras requisitados – 10% do valor a ser pago pelos cofres públicos ao empresário, por seus serviços.

“Luca Magni representou para a investigação Mãos Limpas a chave que abriu a porta de um sistema de corrupção que nós já conhecíamos. Nós já sabíamos o que acontecia lá dentro, mas não conseguíamos abrir a porta”, contou Di Pietro diante de um pedaço de papel rabiscado, caneta em punho e óculos na ponta do nariz, em sua casa em Roma, no início de abril.

O ex-procurador é um homem relativamente alto, imponente e, se não chega a ser obeso, é forte, corpulento. Tem os cabelos pretos já escassos no topo da cabeça, penteados para trás. Foi seminarista na adolescência, e não teria dificuldade para fazer o papel, no cinema, de um benevolente padre católico numa cidadezinha da Sicília – tem vagamente o mesmo tipo físico do ministro da Suprema Corte americana Antonin Scalia, ou do ator James Gandolfini, que interpretou o neomafioso Tony Soprano na tevê.

Vindo de família pobre, sua primeira formação foi como técnico em informática. Trabalhou no início da vida adulta como operário numa fábrica de panelas, na Alemanha. Voltou para a Itália e aos 27 anos, na segunda metade dos anos 70, concluiu a faculdade de direito, cursada a duras penas, enquanto tentava conciliar trabalho e estudos. Antes de ser magistrado, fez concurso e atuou por alguns anos como comissário de polícia. É um mestre do interrogatório, duro e inteligente, fato que é ressaltado tanto por admiradores quanto por desafetos.

Na equipe da Procuradoria de Milão, fazia o papel do bad cop. “Eu era o poliziotto. O que tinha experiência investigativa. Minha função era arrombar a porta e correr para ver quem estava dentro do quarto”, explicou, sentado à mesa numa pequena sala de sua casa, um cômodo em que mal cabia o móvel retangular de madeira escura – uma espécie de sala de jantar, com paredes de cor salmão e alguns poucos adornos. Entre eles, sobre uma mesinha de canto, havia uma estatueta de argila pintada, colorida, representando o próprio Di Pietro, o terno aberto, a barriga saliente empurrando a gravata para o lado.

Além do ex-poliziotto, outros dois magistrados formavam a equipe principal da Operação Mãos Limpas. Piercamillo Davigo, da mesma idade de Di Pietro – ambos nasceram em 1950 –, vinha de uma família de classe média do norte. O mais baixinho dos três, esperto, com um sorriso constante nos lábios, Davigo era o que melhor conhecia os detalhes e mean-dros da lei, responsável por fazer a argumentação jurídica dos casos (tanto assim que hoje ele é integrante da Corte de Cassação, o mais alto tribunal do país; na Itália, juízes e procuradores fazem parte da mesma carreira pública, do mesmo corpo burocrático). E Gherardo Colombo, quatro anos mais velho que os outros dois, tão alto quanto Di Pietro, porém magro, com cabelo encaracolado e óculos coloridos: o intelectual do grupo. Se fizessem parte da equipe de Eliot Ness, Davigo teria percebido que a melhor maneira para agarrar Al Capone, do ponto de vista legal, era um crime menor, de evasão fiscal. Colombo teria examinado a papelada financeira do mafioso até conseguir encontrar a prova que o incriminasse.

Antonio Di Pietro tinha 41 anos quando, no dia 13 de fevereiro de 1992, o empresário Luca Magni ligou para a polícia de Milão e disse estar sendo extorquido pelo administrador do Pio Albergo Trivulzio. Segundo relataria mais tarde, foi a dificuldade financeira de manter o acordo – Magni já pagava propina a Chiesa havia dois anos – que o levou a procurar as autoridades e denunciar a extorsão.

Por algum tempo, nos anos 80, em particular no governo do socialista Bettino Craxi, a Itália havia voltado a crescer – a crise do petróleo, nos anos 70, era coisa do passado – e chegou a viver momentos de aparente pujança econômica. Com as rédeas soltas dos gastos públicos e os negócios indo bem, parecia não faltar dinheiro no país – inclusive para as propinas e o financiamento dos partidos. No início dos anos 90, contudo, a maré baixou. Quase toda a Europa, e a Itália em particular, passou a enfrentar um momento de desaquecimento da economia que afinal, em 1992 e 1993, se transformaria em recessão.

“Para mim era um problema econômico”, explicaria Magni, em relato registrado no livro Mani Pulite: La Vera Storia, dos jornalistas Gianni Barbacetto, Peter Gomez e Marco Travaglio. Com dificuldades em seus negócios, manter o pagamento dos 10% exigidos por Mario Chiesa se afigurava cada vez mais difícil.

O policial que recebeu a denúncia de Luca Magni trabalhava com Di Pietro – e logo comunicou ao magistrado o que tinha ouvido. O procurador, então, determinou que o empresário marcasse um encontro com Mario Chiesa para dali a alguns dias, quando ele, Di Pietro, estaria de plantão. Na data combinada, antes de se dirigir à casa de idosos, Magni foi ter com o magistrado e os policiais. Trazia, numa maleta, o dinheiro que deveria ser entregue a Chiesa. Para que não houvesse dúvida na hora do flagrante, o procurador retirou as cédulas da valise e marcou-as com sua rubrica. Um microfone foi escondido numa caneta que Magni levava no bolso, e o dinheiro recolocado na pasta. Em seguida partiram todos – empresário, procurador e policiais – para o Pio Albergo Trivulzio.

“Eu e um tenente acompanhamos Magni até a sala de espera do gabinete de Chiesa”, contou Di Pietro. “Fingi que trabalhava com ele.” Os três ficaram ali, aguardando para serem recebidos. Anos depois o empresário contaria que, naquele momento, estava morrendo de medo, “agitadíssimo”. Após algum tempo de espera, Magni foi finalmente chamado ao escritório do administrador do hospital. O empresário e o magistrado haviam combinado um sinal, segundo a narrativa de Di Pietro: quando Chiesa botasse a mão no dinheiro, Magni deveria arranhar a garganta, fazer um barulho forte de pigarro. E assim fez. O procurador, na sala de espera, ouviu o sinal e, com a mão na maçaneta, abriu a porta do gabinete. “Entrei”, contou.

A prisão de Mario Chiesa, por si só, não era um fato inédito, explicou Antonio Di Pietro em sua casa, diante do papel rabiscado. “Muitas outras vezes já se haviam prendido funcionários públicos que recebiam dinheiro.”

O que era difícil, continuou o ex-procurador, era fazer alguém falar, fosse político ou empresário. Ir além do flagrante, do caso específico, e chegar ao sistema de financiamento dos partidos e de conluio das empresas. “A Operação Mãos Limpas não foi improvisada”, garantiu o ex-magistrado. “Ela nasceu muito antes da prisão de Chiesa. Foi a construção de um programa investigativo, de um plano. Outros procuradores haviam tentado antes. Mas faltava uma espécie de motor de ignição, algo que criasse a possibilidade de romper o pacto de omertà que controlava todo o sistema de comando do país por parte das empresas e dos políticos.”

Deu um exemplo. Em meados dos anos 80, Antonio Natali, então presidente da Metropolitana di Milano e um dos principais líderes do Partido Socialista Italiano na região da Lombardia, foi preso, acusado de receber propina em troca da concessão fraudulenta, aos pagadores do suborno, de um trecho da obra de ampliação do metrô na cidade. Natali estava atrás das grades quando o então primeiro-ministro do país, Bettino Craxi, seu correligionário no PSI milanês, fez saber que gostaria de visitá-lo e prestar solidariedade.

É um caso que marcou os magistrados italianos. Piercamillo Davigo, companheiro de Di Pietro na Mãos Limpas, também fez referência ao episódio quando o encontrei em seu gabinete, na Corte de Cassação. Davigo, que gosta de contar piadas e é espirituoso, explicou, sério, que o gesto de Craxi servia para dificultar o trabalho da magistratura: “O primeiro-ministro da época fez saber aos jornais que queria falar com o réu, motivado por uma antiga amizade e pela militância no mesmo partido. Que efeito tem uma notícia como essa para uma pessoa que gostaria de testemunhar e colaborar com a procuradoria? Pensaria que o Estado era representado pelo magistrado que interrogava? Ou pela pessoa que estava detida?”

Em menos de um mês, Natali sairia da prisão. Pouco depois, em 1987, seria eleito, com apoio de Craxi, para o Senado italiano, ganhando assim imunidade parlamentar – só poderia ser julgado se os seus pares aprovassem a iniciativa.

O que dava confiança e uma quase certeza de impunidade a Craxi, Natali e outros era a impressionante estabilidade do sistema político do país, resultado em parte da Constituição de 1948, em parte dos efeitos da disputa entre Estados Unidos e União Soviética, no plano internacional.

O princípio geral da Constituição italiana, elaborada logo após a Segunda Guerra Mundial, me disse o historiador inglês radicado na Itália Paul Ginsborg, é o da partilha de poder entre as diferentes instituições da República, sem que nenhuma delas ganhe proeminência e protagonismo, num sistema complexo de freios e contrapesos – um sistema imaginado para inviabilizar qualquer arroubo autoritário e o ressurgimento do fascismo, mas que passou a ser objeto de queixas constantes por parte dos italianos nos anos 80, por perceberem nele uma tendência à paralisia e ao imobilismo.

O mesmo princípio de freios e contrapesos valia para o sistema eleitoral e partidário. O voto proporcional – com cada legenda recebendo um número de cadeiras mais ou menos equivalente à sua fração total dos escrutínios em todo o país – permitia que vários partidos conseguissem ter representação legislativa e dividissem o poder. Impedia-se, assim, o surgimento de polarizações entre duas siglas ou o controle do governo por apenas uma delas. No fim das contas, isso significava que o país precisava ser governado por coalizões, com negociações cuidadosas quanto à ocupação de cargos e ministérios.

No ambiente da Guerra Fria, contudo, apesar do sistema pluripartidário, duas siglas se destacavam como as mais fortes: a Democracia Cristã, uma ampla agremiação de centro, com correntes de centro-esquerda e centro-direita – que acabaria se perpetuando no poder, liderando ou integrando todas as coalizões de governo até o início da Operação Mãos Limpas –, e o Partido Comunista Italiano, o PCI. Com base social na Igreja Católica e apoio do clero, os democratas-cristãos haviam criado a sua legenda enquanto ainda se lutava a Segunda Guerra. O partido se apresentou, desde os anos 40, como um voto de segurança contra o perigo de o PCI chegar ao poder e o país passar a fazer parte do bloco socialista, liderado pela União Soviética – um temor real para muitos italianos no pós-guerra.

“Logo depois da guerra, em 1945 ou 1946, o governo do país incluía os comunistas”, me disse o professor da Universidade de Chicago e economista Luigi Zingales, em Roma, num bar no Campo de Fiori. “Era uma ampla coalizão. Em 1948, houve uma eleição. Os socialistas concorreram ao lado dos comunistas – e, claramente, o que eles queriam era fazer da Itália um país socialista. Uma coisa que ficou na memória dos meus pais foi que, poucos dias antes da votação na Itália, os não comunistas foram expulsos do governo na Tchecoslováquia – lá também eles haviam feito uma ampla coalizão, no imediato pós-guerra. E esse foi o momento em que a Tchecoslováquia se juntou ao bloco comandado pela União Soviética.”

Zingales, um italiano de Pádua, nascido em 1963, parecia falar de uma rea-lidade muito distante – em particular quando se olhava para o ambiente prosaico em volta, uma tarde agradável de primavera numa praça em que os turistas tiravam fotos. “A Itália teve medo de que o mesmo acontecesse aqui. O pai de um amigo meu uma vez me contou: ele morava numa região que votava com a direita, tinha armas em casa, e nessa altura estava pronto para lutar contra uma revolução socialista.”

Em sua casa em Florença, Paul Ginsborg, um homem de 70 anos com valores de esquerda e modos aristocráticos, disse algo semelhante, na sua voz serena e sempre muito baixa, como se uma criança dormisse no mesmo recinto e ele tivesse medo de acordá-la. “O símbolo dos democratas-cristãos é um escudo com uma cruz, o escudo de um cruzado, atrás do qual todos os cristãos deveriam se proteger. Os anticomunistas estavam se escondendo atrás do escudo, votando na Democracia Cristã.”

O resultado prático do embate ideológico foi que a Democracia Cristã e o Partido Comunista Italiano passaram a fazer, por quarenta anos, as duas maiores bancadas do Parlamento – mas na hora de formar governos, os demais partidos se coligavam sempre com os democratas-cristãos, temerosos de que a Itália, que crescia, cada vez mais rica, deixasse o bloco ocidental liderado pelos Estados Unidos. Os comunistas até conseguiam comandar administrações locais, mas aliar-se a eles no plano nacional pareceu para muitos italianos, por muito tempo, uma aposta arriscada demais.

A perpetuação de um mesmo grupo no poder fez com que os cargos públicos fossem sendo ocupados, sem questionamento, pelos seus quadros. Floresceram disputas internas entre os democratas-cristãos, e cada uma das facções do partido lutava para ampliar o número dos seus indicados na máquina do Estado, que ia sendo repartida. O controle desses cargos, em contrapartida, lhes garantia os recursos para disputar poder dentro e fora do governo. Líderes de cada uma das facções ofereciam favores e empregos aos eleitores em troca de votos.

“O clientelismo é o modo básico como as pessoas operam na esfera pública na Itália”, disse Ginsborg, que desde 1992 é professor na Universidade de Florença. “O democrata-cristão Giulio An-dreotti foi primeiro-ministro em três ocasiões. Ele era um mestre do clientelismo. Quando morreu, descobriram no seu escritório um arquivo com milhares e milhares de nomes de pessoas, onde ele também registrava os favores que tinha feito a cada uma delas.”

Em troca dos favores e, sobretudo, dos cargos, as facções e os partidos esperavam não apenas votos, mas também recursos que os ajudassem a se financiar e a disputar eleições. Era dentro dessa lógica que o socialista Mario Chiesa, aliado de Bettino Craxi, operava – ele que, indicado pelo Partido Socialista para postos no sistema hospitalar em Milão, havia ajudado com votos e recursos a eleição do filho de Craxi para o Legislativo local.

Nos anos 80, o funcionamento desse sistema político que articulava clientelismo, corrupção e uma crescente percepção, por parte do eleitorado, de imobilismo começou a entrar em crise. A Democracia Cristã, embora ainda fosse individualmente o partido com a maior proporção de votos, viu o seu eleitorado encolher. A fim de se manter no poder, teve que construir uma grande coalizão que incluía outros quatro partidos, logo no início da década. O preço cobrado pelos demais, pelas chamadas “forças laicas” – e em particular pelos socialistas, a terceira força na política italiana –, foi o de colocar na mesa de negociações não apenas cargos de primeiro e de segundo escalões, mas a própria liderança do governo. Foi assim que Craxi, o socialista de Milão, acabou se tornando primeiro-ministro italiano, em 1983.

O inchaço da coalizão fez com que a máquina pública também tivesse que abrigar mais e mais gente. “O amor-próprio de cada um dos partidos tinha que ser satisfeito em termos de responsabilidades ministeriais e posições de poder dentro do aparato estatal”, escreve Ginsborg sobre as coalizões nos governos dos anos 80 em Italy and Its Discontents, título que faz referência ao nome em inglês de uma das obras mais famosas de Freud, e que poderia ser traduzido, de forma livre, como “O Mal-Estar na Itália”. “O tamanho dos conselhos e o número de vice-presidentes nos bancos e agências governamentais atingiram o ápice naquela década.”

Zingales é um pouco menos elegante na sua formulação do problema: “Os políticos estavam se tornando cada vez mais gananciosos. Quando você pega dinheiro só para o partido é uma coisa. Quando você começa a fazer exigências com o objetivo de ficar com uma parte dos recursos, os pedidos começam a aumentar.” Era essa, de toda forma, a percepção geral dos italianos nos anos 80, segundo ele: a de que a corrupção estava aumentando.

O economista de Chicago também não poupa críticas aos socialistas, que tinham passado por um processo de aggiornamento ideológico no final dos anos 70, abandonado o marxismo e, afinal, alcançado o poder. “Havia essa expressão da época, la Milano da bere [a Milão para beber]. Era o slogan de um anúncio de Campari ou de Martini, não me lembro, mas era também um jeito de se referir à Milão yuppie: ‘Somos ricos, poderosos, gastamos.’ Os socialistas fizeram isso com gusto. Os democratas-cristãos tinham montado um sistema. Os socialistas ficaram por muito tempo olhando para esse sistema do lado de fora, sem poder participar. Quando entraram, fizeram a mesma coisa. Mas com gosto, com vontade.”

Mario Chiesa não sabia, mas ter sido pego com a mão no dinheiro em sua sala, no Pio Albergo Trivulzio, era apenas o começo dos seus problemas. Mesmo antes de montar o flagrante para prendê-lo, Di Pietro vinha investigando o político socialista. “Ele tinha contas no exterior. E sabíamos que tinha recursos que não correspondiam ao seu salário. Chiesa tinha se separado e pagava à ex-mulher uma pensão maior do que aquilo que recebia.”

Nas primeiras semanas na cadeia, o político socialista não disse nada, não abriu a boca. Recusava-se a colaborar ou a fazer qualquer acordo com a Procuradoria de Milão. Os primeiros a falar, contou Di Pietro, foram os empresários. Movidos pela certeza de que a propina paga pela companhia de limpeza de Luca Magni não era um caso isolado, os procuradores mandaram chamar executivos e proprietários das demais empresas que, no passado, haviam feito obras ou fornecido serviços para o Pio Albergo.

“Quando eu os chamei para depor, eles se esforçavam para falar um antes do outro”, gabou-se Di Pietro. Como isso era possível? Resultado de “uma técnica investigativa simples”, disse o magistrado, enquanto desenhava um quadradinho numa folha de papel.

“Explico qual era a técnica para convencer os empresários a falar. Toda a Operação Mãos Limpas se desenrolava dentro de uma sala – a minha sala”, disse, apontando para o quadradinho. “O que acontecia? Nos casos de corrupção, quem dá o dinheiro é uma empresa – mas a propina não envolve só uma pessoa lá dentro. Há vários funcionários envolvidos. O que havíamos descoberto? Que, quando chamávamos uma dessas pessoas para depor, ela mesma – ou o seu advogado – informava mais tarde aos demais o que havia dito. Numa mesma empresa, todos acabavam tendo a mesma versão.”

“Como romper esse circuito? Eu chamava no mesmo dia, na mesma hora, todos eles, todos nessa sala, que era grande e onde eu tinha nove mesas. Em cada uma delas ficava um agente de polícia. Essas pessoas vinham com os seus advogados, muitas vezes o mesmo advogado. Eu ficava no meio. Ia fazer perguntas a um, depois a outro, depois a outro.” Quis saber se era possível aos demais depoentes escutar o que cada um dos outros dizia. Di Pietro disse que não. Mas eles podiam se ver, uns aos outros? Sim, “se viam, mas não se ouviam”, explicou o procurador.

“Eles sabiam que não podiam dar justificativas divergentes. Assim, em determinado momento, percebiam que era melhor dizer a verdade. Era a única maneira de terem a mesma versão. E diziam para quem tinham dado o dinheiro.” De resto, o procurador lhes apresentava uma possibilidade de escolha relativamente simples. “Perguntávamos: ‘O senhor deu esse dinheiro porque foi cúmplice ou porque o forçaram a pagar?’ Adivinha o que eles respondiam? Quando se viam ameaçados com acusações que podiam pôr em risco a existência de suas empresas, eles preferiam fazer um acordo e revelar o que sabiam.”

Finalmente, depois de cinco semanas de prisão, Chiesa também falou. A investigação sobre o Pio Albergo Trivulzio havia, pouco a pouco, ganhado destaque na imprensa. Incomodado, Craxi tinha vindo a público e, diferentemente do que costumava fazer, dessa vez não prestara nenhuma solidariedade ao correligionário. Ao contrário. Havia dito que Chiesa era um mariuolo, um pequeno bandido que agia sem vínculos com os socialistas e que jogava “uma sombra sobre a imagem de um partido que em cinquenta anos de atividade em Milão nunca teve um administrador condenado por crimes relacionados à administração pública”.

“Essa declaração do Craxi foi uma das razões para o Chiesa falar”, me disse Davigo, em abril, na Corte de Cassação. Outros empresários e políticos passaram a ser investigados e foram chamados a depor. Os homens de negócios, disse Davigo, preferiam colaborar com presteza, para minimizar os danos às suas empresas e voltar logo aos negócios. “Os políticos, no entanto, perdiam tudo se confessassem. O que os levava a falar era outra coisa. Eles falavam quando eram abandonados.”

Davigo contou então que certa vez, em meio às investigações, foi interrogar o integrante de um grande partido, que estava preso. “Eu levava um jornal comigo. Ele me perguntou se havia reportagens sobre a sua prisão. Eu disse que sim e dei o jornal a ele, que então leu o que o secretário-geral do seu partido havia dito: que ele não passava de uma ‘maçã podre isolada’. O sujeito me devolveu o jornal e disse: ‘Agora eu vou descrever para o senhor o resto do cesto de maçãs.’”

Os procuradores descortinaram um sistema que envolvia boa parte das empresas de Milão e todos os principais partidos do país. Além da rede de saúde, logo Di Pietro, Davigo e Colombo chegaram a um importante esquema de propinas no sistema de transporte da cidade. Os empresários deram os nomes de representantes da Democracia Cristã, do Partido Socialista e mesmo do Partido Democrático da Esquerda (antigo PCI) a quem deviam pagar para garantir contratos nas obras do metrô. Como as cadeiras no Parlamento, também o dinheiro era repartido, mesmo entre legendas que, nas eleições, poderiam se opor. Do total de propinas recebidas na Metropolitana di Milano, naquele início dos anos 90, dois quintos deveriam ir para o PSI (historicamente forte na cidade), um quinto para os ex-comunistas, um quinto para a Democracia Cristã, e o restante para partidos menores.

Poucos meses depois, os procuradores milaneses já investigavam contratos nacionais, obras de ferrovias e rodovias e desvios de estatais – os mais vultosos na empresa de petróleo italiana. Cada empresário ou político que vinha falar sobre um caso específico acabava indicando a existência de desvios em outros setores, explicou Davigo. “Quanto mais avançávamos, mais gente era envolvida”, contou Gherardo Colombo, hoje presidente de uma das mais tradicionais editoras do país, na sua sala de trabalho, em Milão.

Por que algo parecido com a Operação Mãos Limpas não aconteceu antes?”, perguntei a Luigi Zingales, no Campo de Fiori, em Roma. “O sistema judiciário italiano foi concebido para ser bastante independente do sistema político, por causa da experiência do fascismo”, ele disse. “Não haveria, a princípio, razões para os magistrados não serem duros com a corrupção. Mas não foram tanto antes dos anos 90. Uma das razões é que havia um pacto de omertà entre os políticos – que funcionava. Mas também a situação política não era propícia para investigar a Democracia Cristã.”

Para Zingales, era razoável supor que parte da magistratura evitasse, deliberadamente, criar problemas para os partidos no poder na Itália. “Imagine – exagero um pouco, mas não muito – que eles acreditassem que poderiam, com suas investigações, desestabilizar a política a ponto de favorecer uma tomada do poder pelos comunistas. Em 1978, um ex-primeiro-ministro, Aldo Moro, foi sequestrado e morto pelos terroristas das Brigadas Vermelhas. Se você está em guerra, você não pode se dar ao luxo de dividir as tropas.”

Gherardo Colombo, quando me recebeu em seu escritório na editora Garzanti, também ressaltou o conservadorismo da magistratura italiana. Mas o controle sobre o trabalho de juízes e procuradores, ele disse, vinha sobretudo de fora. “A Itália era um país de fronteira entre a Europa Ocidental e o bloco comunista. Isso de certa forma justificava o pagamento de propinas. O fenômeno era muito ligado ao financiamento dos partidos políticos. Então diziam: se não tivermos dinheiro suficiente, os comunistas vão assumir o poder. Ser um país de fronteira fez com que se criasse um bloco de poder que conseguiu deter, que conseguiu parar as investigações sobre corrupção.”

Davigo, na Corte de Cassação, deu um exemplo concreto dos entraves impostos ao trabalho da magistratura: a influência que os governos e os políticos podiam exercer sobre a polícia – com muito mais facilidade do que sobre os procuradores ou os juízes –, da qual os ma-gistrados dependiam para mover seus processos. O mesmo me disse Colombo: “Os policiais podiam investigar por meses a fio, sem dar satisfações à procuradoria. E podiam esconder provas, por exemplo.”

No final da década de 80, no entanto, as coisas mudaram. Depois de uma reforma do Código de Processo Penal, o Ministério Público passou a ter o poder de coordenar diretamente o trabalho dos policiais designados para assessorá-los. O ex-poliziotto Di Pietro não cansou de chamar atenção para a importância dessa reforma. “A polícia passou a entregar ao Ministério Público o resultado das suas investigações, e a Procuradoria podia pedir diretamente à polícia as investigações que desejasse, sem precisar passar por toda a cadeia hierárquica”, disse. “Além disso, eu sabia como funcionava. Conhecia as técnicas que eles usavam. E conhecia o próprio pessoal da polícia: eram os meus colegas.”

O curioso é que a reforma do Código de Processo Penal italiano havia sido proposta e realizada nos anos 80, justamente durante os governos de coalizão entre socialistas e democratas-cristãos – políticos que, pelo que se soube depois, não deveriam ser os mais interessados em aumentar o poder dos magistrados. “Eles estavam bastante confiantes em que o sistema deles continuaria a funcionar”, garantiu Colombo. “Eles se sentiam seguros.”

De toda forma, a mudança fundamental que permitiria a realização da Mãos Limpas não tinha a ver com a reforma de um código de leis, mas com um abalo geopolítico, que aconteceria em 1989: a queda do Muro de Berlim. Com o fim, para todos os efeitos práticos, da divisão do mundo em dois blocos, um capitalista e outro socialista, deixaram de existir os fundamentos da política italiana das quatro décadas anteriores. Uma das primeiras reações ao que se passava na Alemanha veio do líder do Partido Comunista Italiano.

O PCI já há muito tempo se orgulhava de sua independência em relação a Moscou e de sua posição crítica a iniciativas soviéticas. Prevendo os efeitos das mudanças no Leste Europeu sobre os partidos comunistas de todo o mundo, o secretário-geral do PC italiano entendeu que era hora de tomar uma providência radical. Apenas três dias depois da queda do Muro, num discurso em Bolonha a ex-combatentes da resistência ao fascismo, Achille Occhetto anunciou que o PCI deveria mudar de nome. O problema é que nenhum outro nome viria a ser escolhido até o 20o Congresso do partido, realizado mais de um ano depois, em janeiro de 1991. Como Occhetto insistisse que a designação da nova agremiação era uma questão secundária – “primeiro vem a coisa, depois o nome” –, houve quem passasse a chamar o ex-PCI de la cosa (“a coisa”), título de um documentário de Nanni Moretti sobre a crise do partido.

No final de 1991, o democrata-cristão Antonio Gava, ao comentar o cenário político e o aparente fim do “perigo comunista”, fez uma análise de conjuntura que entraria para a história: “Daqui por diante nós vamos ser votados por aquilo que nós somos, e não simplesmente por nosso anticomunismo.” O que aconteceu, na verdade, foi bastante diferente. Sem a ameaça do PCI, eleitores que tradicionalmente haviam votado na Democracia Cristã ou no Partido Socialista se viram à vontade para abandonar as antigas agremiações.

No norte do país, cresciam desde o final dos anos 80 as “ligas” regionais, que viriam a se unir na Liga Norte. Seu discurso populista de direita, muitas vezes xenófobo e favorável à autonomia das regiões setentrionais, continha um apelo que provinha sobretudo da crítica aos gastos “excessivos” do Estado, aos impostos cobrados pelo governo central – cujos políticos e instituições eram tratados por eles como “Roma ladrona” – e aos entraves burocráticos ao empreendedorismo, às pequenas empresas e ao livre mercado.

Os resultados eleitorais das ligas, nos anos 80, haviam sido marginais. O melhor desempenho, significativamente, havia acontecido na Lombardia – região cuja capital é Milão – em 1989, quando conseguiram 8% dos votos.

No início dos anos 90, contudo, a Itália sofria os efeitos de uma desaceleração econômica provocada, em parte, também pela queda do Muro de Berlim. Na verdade, pelos esforços da reunificação alemã – ocidentais e orientais se juntariam novamente num único país no final de 1990 –, esforços que levaram os políticos do país vizinho a aumentar os gastos governamentais. As autoridades monetárias alemãs, então, ciosas do efeito inflacionário do excesso de gastos e dispostas a contrabalançar a expansão fiscal, aumentaram os juros. Para o restante da Europa, o aumento dos juros na Alemanha, a principal economia do continente, significou um freio econômico.

Como se isso não bastasse, disse Luigi Zingales, no final dos anos 80 a Itália “começou a sentir a pressão” da competição econômica vinda de países vizinhos. “Espanha, Grécia e Portugal já faziam parte da União Europeia, e tinham trabalho barato.” Os empresários na Itália, que por décadas haviam tido a vantagem comparativa de trabalhadores mais baratos dentro do Mercado Comum Europeu, começaram a perceber que estavam ficando para trás.

É nesse contexto que a Liga se tornou uma ameaça que não podia mais ser ignorada, roubando votos dos democratas-cristãos e dos socialistas em todo o norte do país. “Houve uma espécie de rebelião da classe média, com a queda do voto nos partidos tradicionais e o aumento do voto na Liga Norte”, disse Donatella Della Porta, professora de ciência política na Escola Normal Superior, em Florença. “A corrupção, que até então era tolerada, se tornou um problema, e passou a ser estigmatizada como algo que impedia o sucesso e o avanço dessas classes médias no norte do país. Algo que dificultava sua capacidade de competir no resto da Europa.”

Em 1990, a Liga Norte conseguiu 19% dos votos na Lombardia. Em abril de 1992, apenas dois meses depois da prisão de Mario Chiesa, chegaria a quase 24%. Entre uma coisa e outra, Bettino Craxi mudou de comportamento em relação aos seus correligionários, de um modo, para muitos, surpreendente. Em vez de proteger o aliado político e tentar bloquear o trabalho dos magistrados, como fizera com Antonio Natali na década de 80, tentou isolar Chiesa e jogá-lo às feras.

Para Alberto Vannucci, professor da Universidade de Pisa e, ao lado de Donatella Della Porta, um dos maiores especialistas em corrupção na Itália, a mudança é compreensível. “Naquele momento, havia novas forças políticas que estavam ameaçando Craxi”, disse Vannucci. “As novas condições políticas tinham tornado mais fácil para os eleitores mudarem de um partido para outro. Ele deve ter imaginado que, se desse apoio a um sujeito que havia sido pego com o dinheiro nas mãos, perderia votos. Por exemplo, para a Liga Norte, que era muito forte em Milão, e tomava eleitores dos socialistas.”

Também os empresários tinham a impressão, no início de 1992, de que os partidos tradicionais, enfraquecidos, já não eram mais capazes de protegê-los, nem “de dar o que sempre tinham dado, no passado”, explicou Della Porta. Não parecia mais tão absurdo, àquela altura dos acontecimentos, colaborar com o Judiciário.

Di Pietro acabou virando, naquela época, uma espécie de Nossa Senhora”, me disse um jornalista na redação do Corriere della Sera, o principal diário de Milão, em abril. Ainda no início de 1992, segundo o repórter, começaram a aparecer as primeiras pichações nos muros da cidade: “Grazie, Di Pietro.” Depois outra, no caminho para o aeroporto internacional: “Di Pietro, prenda todos eles.” E uma próxima ao estádio San Siro, que comparava o magistrado italiano ao craque argentino Diego Armando Maradona. “Di Pietro é melhor que Pelé”, dizia.

As pessoas admiravam o fato, registrado nos jornais, de que ele fosse um self-made man. De origem pobre, inseria na fala palavras e expressões do seu dialeto do sul, mesmo em situações formais, audiências públicas e julgamentos, que passaram a ser transmitidos pela tevê. Quando ele e seus colegas tinham que se locomover pela cidade, muita gente gritava o seu nome, outros batiam palmas.

Uma “análise” sobre o “herói” Di Pietro, no caderno de cultura do Corriere, em julho de 1992, exaltava o modo sóbrio como ele se vestia, a escolha de gravatas, “o sorriso aberto, cordial” e a “maneira humana de tratar os outros”, até mesmo os interrogados. “Um novo consenso popular”, anunciava o texto. Ao lado, a foto de três jovens numa discoteca da cidade, todas com a mesma camiseta, onde em letras gigantes se lia: Milano ladrona, Di Pietro non perdona.

Num ambiente de crise econômica e política, a luta contra o desvio de dinheiro público parecia a chave para a recuperação do país. “A corrupção se tornou, de repente, a explicação para tudo”, me disse Vannucci, o professor da Universidade de Pisa e referência no tema (inclusive para o juiz brasileiro Sergio Moro, que o citou no texto que escreveu sobre a Operação Mãos Limpas).

Perguntei a Gherardo Colombo por que seu ex-colega Di Pietro havia se tornado o símbolo das investigações, em detrimento dos outros dois membros da equipe. “Em primeiro lugar, porque ele começou essa investigação”, ele me disse. “Mas também porque eu evitei entrar numa competição com o senhor Di Pietro. Logo no início da Operação, o Corriere della Sera fez uma enorme reportagem sobre ele, com fotos grandes, a família, o filho. No dia seguinte, La Repubblica, o outro jornal importante da Itália, me pediu que eu fizesse o mesmo, e concedesse uma entrevista. Eu recusei. Pensei que uma competição entre mim e Di Pietro poderia prejudicar as investigações.”

Até mesmo quem tinha muito a perder com o trabalho da magistratura parecia participar de alguma forma do “dipietrismo”, expressão que apareceria na imprensa ainda naquele ano. No início de junho, Renato Amorese, integrante do Partido Socialista na pequena cidade de Lodi, não muito distante de Milão, passou a ser investigado pela procuradoria. Suspeitava-se que pudesse fazer parte do esquema de cobrança de propinas que alimentava o financiamento ilegal dos partidos. Como outros políticos e empresários naquele momento, Amorese decidiu apresentar-se espontaneamente a Di Pietro, que o interrogou.

Dias depois o político foi encontrado ao volante de sua Land Rover, estacionada à beira de uma estrada vicinal, com um tiro na têmpora. Havia telefonado pela última vez à mulher na véspera. Depois ela diria à imprensa que tinha ficado preocupada quando se deu conta da falta de uma Beretta na coleção de pistolas do marido.

Antes de se matar, Amorese escreveu cinco cartas. Quatro estavam no banco do carona: para os pais, para a mulher, e uma para cada um dos dois filhos. A quinta ele havia enviado a Di Pietro. Em todas, escreveu: “Peço perdão pelo que fiz.” Na mensagem ao procurador milanês, agradecia “pela compreensão que ele havia demonstrado durante o interrogatório”.

No início do mês seguinte, julho, num discurso ao Parlamento, Bettino Craxi tentou diluir a gravidade das acusações, que pareciam atingir com mais força os socialistas. Afirmou que não havia partido ali presente que não fizesse uso de recursos ilícitos para se financiar. “O que precisa ser dito, e que de resto todos sabem, é que boa parte do financiamento aos partidos e ao sistema político é irregular ou ilegal”, declarou.

Mais e mais políticos vinham recebendo, naqueles meses, os “avisos de investigação” – um anúncio formal de que estavam sendo investigados, algo que em princípio deveria servir para garantir os direitos do réu, inclusive o de recorrer a um advogado, mas que, noticiados pela imprensa, eram tomados como indicação de culpa.

Em meados do ano, três desses “avisos” foram sucessivamente encaminhados ao deputado socialista Sergio Moroni, próximo e fiel a Craxi. No dia 2 de setembro, Moroni combinou de jantar fora com a mulher e a filha. Como demorasse a chegar ao restaurante, a esposa pediu por telefone à faxineira que passasse em sua casa, para ver se o marido ainda estava por lá. Moroni foi encontrado numa poça de sangue, com um tiro na garganta. Tinha 45 anos quando se suicidou. Desde a adolescência participava da política partidária no PSI.

Antes de se matar, enviara uma carta ao então presidente da Câmara dos Deputados, Giorgio Napolitano. “Um grande véu de hipocrisia (compartilhado por todos) cobriu por muitos anos os modos de vida dos partidos e os seus sistemas de financiamento”, declarava na mensagem. Ao mesmo tempo, não aceitava ser tratado como “ladrão”: “Nunca me beneficiei pes-soalmente de uma só lira.” Dizia esperar que o seu gesto pudesse impedir que outros viessem a ter que passar pelo mesmo tipo de “sofrimento moral” que o afligia, e que ajudasse a pôr fim “aos processos sumários – na praça ou na televisão – que transformam um aviso de investigação numa sentença prévia de condenação”.

No início de 1993, os parlamentares, assustados com a escalada dos processos e com o inédito descontrole em relação à atuação da magistratura e da polícia, tentaram o que chamariam de uma “saída política” para a crise. O governo então preparou uma lei que, na prática, descriminalizava o financiamento ilegal dos partidos. A reação da opinião pública foi avassaladora, com cartas e faxes sem fim às redações dos jornais e emissoras de tevê, além de manifestações em muitas cidades. O presidente da República, alegando problemas constitucionais na peça legislativa, fez então saber que simplesmente não assinaria a lei.

No dia 29 de abril, a Câmara recusou quatro pedidos da Procuradoria de Milão para processar Craxi (como era parlamentar, o líder socialista tinha imunidade, que só poderia ser suspensa pela decisão dos seus pares). No dia seguinte, uma pequena multidão se reuniu na frente do hotel onde o político se hospedava em Roma. Quando o ex-primeiro-ministro finalmente apareceu, foi saudado com uma chuva de moedas, enquanto muitos perguntavam, cantando, se ele “também queria” aquele dinheiro.

Enquanto isso, em Milão, a Operação Mãos Limpas chegava ao seu caso mais significativo, do ponto de vista financeiro. Investigações na ENI, Ente Nazionale Idrocarburi, a estatal de petróleo, revelaram que o equivalente a cerca de 20 mil euros saíam mensalmente dos cofres da empresa para serem distribuídos entre a Democracia Cristã e os socialistas, nos anos 80. O presidente da companhia, Gabriele Cagliari, havia sido preso preventivamente no início de março. Após passar 133 dias detido, o todo-poderoso executivo cometeu suicídio dentro de sua cela (na época levantou-se a hipótese de que ele pudesse ter sido assassinado, sem que isso nunca fosse provado). Dias antes de morrer, Cagliari enviara uma carta à família, em que acusava os procuradores de estarem percorrendo “a estrada que leva ao Estado autoritário”.

A ENI também havia se envolvido num negócio suspeito ao se associar a um grupo privado italiano, nos anos 80, a fim de criar uma empresa de indústria química, a Enimont. O principal executivo do lado privado dessa empreitada, Raul Gardini, era acusado de ter pagado propinas a políticos de diversos partidos para que o negócio acontecesse – e de ter lucrado na hora da vender de volta ao Estado a sua parte na Enimont, no início dos anos 90, mais uma vez com a distribuição de subornos para que o preço das ações fosse superfaturado.

Gardini, conhecido como um bon-vivant que gostava de praticar esportes, suicidou-se com um tiro de pistola no final de julho de 1993, três dias depois da morte de Gabriele Cagliari na prisão.

Os suicídios abalaram a opinião pública italiana. Não era uma atitude de modo algum esperada ou comum entre políticos e empresários antes que aquela onda de mortes ocorresse, entre 1992 e 1993, durante a Operação Mãos Limpas. “Aconteceu uma espécie de colapso do sistema de valores deles”, me disse a professora Donatella Della Porta em seu escritório, em Florença. “Os políticos e empresários não acreditavam que tinham feito algo fora do normal, algo verdadeiramente criminoso. Então a prisão era um choque psicológico.”

O economista Luigi Zingales tem opinião semelhante. As prisões preventivas, ele disse, não eram, em si, novidade: já haviam sido utilizadas no passado, em particular no combate ao terrorismo de esquerda. “Meu pai era professor de engenharia, em Pádua. Um dos seus assistentes foi preso, em 1979, sob a acusação de fazer parte das Brigadas Vermelhas. Meu pai era como eu, um liberal, em muitos sentidos conservador. Esse sujeito que foi preso era comunista. Se você quiser, ele estava à esquerda do Partido Comunista. Mas não fazia parte das Brigadas Vermelhas. Ele passou um ano e meio na prisão – e depois foi declarado completamente inocente. Então essa possibilidade de manter as pessoas presas preventivamente já existia. A diferença é que a Mãos Limpas usou isso pela primeira vez com gente que nunca tinha ido para a cadeia, gente como o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, no Brasil. Isso era inédito. Para muita gente, foi absolutamente chocante.”

“Na Itália, como no Brasil, o status social importava muito”, continuou Zingales. “Acho que muitos desses suicídios tinham a ver com isso: você sentia que tinha perdido a sua honra ao ser mandado para a prisão. Raul Gardini, por exemplo, cometeu suicídio antes mesmo de ser preso. Ele não aguentava a simples possibilidade dessa humilhação.”

Há quem diga – entre eles o cientista político inglês Martin Bull, importante especialista na política italiana – que os suicídios representaram um momento de inflexão no apoio da opinião pública aos magistrados. O começo, talvez, de um longo declínio. O também inglês Paul Ginsborg lembrou-se de momentos em que os italianos se incomodaram com aparentes excessos da Justiça. “Um dos democratas-cristãos foi levado a julgamento com algemas nas mãos e nos pés. As pessoas se escandalizaram. ‘Ele não é um estuprador!’, diziam.”

Ginsborg falava no seu tom de voz baixo, cuidadoso, mas de repente simplesmente ficou em silêncio. Estávamos na sala de estar da sua casa, em Florença – uma das paredes da sala, com o pé-direito alto, completamente tomada por uma estante de livros. O chão de taco. Tudo simples e elegante. Ele parecia pensar.

“Isso daria um ótimo artigo, comparando os dois países, Itália e Brasil. Estou pensando na questão da vergonha. Essas pessoas se mataram porque se sentiram humilhadas, diante das suas famílias e dos seus pares. Elas se mataram porque tiveram que ir para a prisão. Se fôssemos pensar numa tradição latina, ou algo desse tipo, deveria ser parecido para os portugueses e os brasileiros. Mas não é.”

Ao final da entrevista que me concedeu em sua sala no Palácio de Justiça, sede da Corte de Cassação, em Roma – um edifício imponente, de inspiração barroca, cuja fachada dá para o rio Tibre –, o juiz Piercamillo Davigo quis contar uma história. Era uma “anedota”, ele disse, que servia para indicar a que estado tinha chegado a luta contra a corrupção na Itália.

Disse Davigo que, no período do fascismo, Mussolini mobilizou os italianos numa guerra contra as moscas e os pernilongos. Cada município, por menor que fosse, tinha que participar dos esforços de desinfestação. Eis que um dia – e aqui começava a parte ficcional da história, ele alertou – um representante do governo de uma província pegou o seu carrinho e foi visitar um vilarejo escondido no interior. Esperava por ele a máxima autoridade da cidadezinha. Quando o representante do governo desceu do carro, na praça, foi cercado pelas moscas, que infestavam o lugar. O representante quis saber o que acontecia: por acaso eles não estavam engajados, ali também, na guerra contra as moscas? “Sim, senhor, fizemos a guerra”, respondeu a autoridade local. “O problema é que as moscas venceram.”

Como resultado das primeiras eleições nacionais realizadas depois do auge da Operação Mãos Limpas, o empresário Silvio Berlusconi tornou-se primeiro-ministro da Itália, em abril de 1994. Nascido em Milão, em 1936, Berlusconi “fez seu dinheiro na construção civil, que é o setor mais corrupto da economia em qualquer país”, me disse Luigi Zingales, em Roma.

Nos anos 70, o empresário criou um canal de tevê local, em Milão, que aos poucos se expandiria até formar a primeira rede nacional privada, nos anos 80. A rigor, a transmissão televisiva para todo o país deveria ser um monopólio da rede pública, a RAI. Em 1984, magistrados conseguiram a ordem da Justiça para suspender a transmissão da tevê de Berlusconi. Paul Ginsborg escreve que a reação de boa parte dos italianos a essa decisão foi a pior possível, uma vez que se viram, da noite para o dia, privados de programas de sucesso, como Os Smurfs e a novela Dallas, que só passavam no canal de Berlusconi. Seu amigo e compadre Bettino Craxi – padrinho de uma das filhas do magnata –, então primeiro-ministro, não demorou a aprovar no Parlamento uma lei que regularizava a transmissão privada de tevê no país.

Silvio Berlusconi entrou para a política, em primeiro lugar, porque a porta estava aberta. No início de 1994, como resultado da Operação Mãos Limpas, a Democracia Cristã deixou de existir. Muitos políticos abandonaram a sigla, e os poucos que ficaram trataram de trocar o nome do partido, assim como os comunistas haviam feito em 1991. Muitos socialistas também abandonaram o PSI, e o que restou da sigla para as eleições de 1994 foi fragorosamente derrotado.

Com os partidos de centro ou centro-direita em frangalhos ou sendo fechados, os políticos de esquerda – em particular os herdeiros do PCI, reagrupados no Partito Democratico della Sinistra, o PDS – cometeram o mesmo erro de democratas-cristãos e socialistas, poucos anos antes: acreditaram que a crise dos adversários representaria vitória certa nas urnas. Ocorre, como lembrou Donatella Della Porta, que “quem votava na Democracia Cristã não estava disposto, do ponto de vista ideológico, a votar na esquerda”. Foi esse tipo de eleitor que Berlusconi e seu novo partido, a Forza Italia, conquistaram.

Mas essa não foi a única razão para ele decidir concorrer. O empresário entrou na política como estratégia de sobrevivência. “Entrou para a política com medo de perder os seus canais de tevê, caso a esquerda chegasse ao poder, ou com medo, até, de ser preso”, disse Zingales. “Ele percebeu que precisava entrar para a política porque aqueles que podiam protegê-lo não estavam mais lá”, explicou Della Porta.

E, no final das contas, acabou sendo convincente ao se vender como uma alternativa ao antigo sistema político corrupto. Segundo Della Porta, o próprio fato de ser rico era apresentado como uma garantia de que continuaria “limpo”. “Como ele controlava boa parte da mídia, em apenas alguns jornais você ficava sabendo que era próximo de Craxi.” Ao concorrer pela primeira vez, no início de 1994, Berlusconi ainda apoiava os procuradores da Operação Mãos Limpas. “Ele estava a favor do trabalho dos magistrados”, me disse o professor Alberto Vannucci. “Quando foi eleito, propôs a Di Pietro que se tornasse ministro do Interior. Isso é de conhecimento público.” Tentava cooptar os procuradores, provavelmente para tentar evitar ser investigado.

Ao longo daquele ano as coisas mudariam, de forma rápida. Com o início da nova legislatura, em meados de abril, Bettino Craxi, sem um novo mandato, perdeu a imunidade parlamentar. Quando, algumas semanas depois, a polícia recebeu a ordem de reter o seu passaporte, por perigo de fuga, era tarde: o ex-líder socialista já havia deixado o país. Seria visto em Paris, no dia 5 de maio. De lá, viajaria para o norte da África. Viveria o restante dos seus dias na Tunísia, onde morreria, no ano 2000, e onde também seria enterrado.

Ainda em abril, enquanto o novo governo tomava posse, os magistrados continuaram o seu ataque. Cerca de oitenta policiais e centenas de empresários foram acusados de participar de esquemas de corrupção para sonegar impostos. Poucos meses depois, em junho, essas investigações chegaram a uma das empresas do primeiro-ministro.

Pela primeira vez os magistrados tinham encontrado um inimigo verdadeiramente à altura. “Berlusconi foi colocado sob investigação pouco depois de tomar posse”, lembrou Vannucci. “Mas ele não era um líder como os que tinham sido envolvidos antes em investigações: ele era também um magnata da mídia que tinha poder de influenciar a opinião pública por meio de seus três canais de tevê, emissoras de rádio, jornais, agências de publicidade. Ao ser investigado, Berlusconi começou uma campanha violenta contra os juízes, que passaram a ser considerados comunistas, motivados politicamente, e não mais como magistrados imparciais. Houve uma politização do assunto. Não era mais uma questão legal, apenas: saber se alguém é corrupto ou não. Passou a ser uma questão política: quais os interesses dos magistrados? De que lado eles estão?”

Todos os analistas concordam que os procuradores começaram a perder apoio da opinião pública em 1994. Apesar do poder que Berlusconi tinha nas mãos, não citam a cobertura da imprensa como o único fator para o declínio político do grupo, mas também o fato de terem começado a investigar “gente comum”, inclusive como parte do mesmo processo que ameaçava o primeiro-ministro.

“Na Itália, todo mundo fazia algo de errado. Fosse o fato de não pagar o imposto integralmente ou o desrespeito a uma regulação qualquer”, me disse Zingales. “Quando prenderam os primeiros suspeitos, acharam ótimo. As pessoas gostam quando os ricos e poderosos vão para a cadeia. Prenderam a segunda leva, e ainda acharam ótimo. Mas aí começaram a prender mais e mais. Foi quando as pessoas se deram conta: bom, o próximo posso ser eu.”

O ex-magistrado Gherado Colombo tem impressão semelhante. “A mudança da opinião pública aconteceu depois que as provas aproximaram as nossas investigações das pessoas comuns. À medida que as investigações avançaram, elas nos levaram a achar propinas e corrupção cometida por pequenos empresários ou, por exemplo, por algum inspetor do Ministério do Trabalho que aceitava suborno de uma empresa.”

Além de atacar os magistrados de forma geral, Berlusconi também tentou minar a credibilidade do herói e símbolo da Mãos Limpas, que meses antes ele havia convidado para participar de seu governo. Casos anteriores ao início da investigação foram desenterrados. “Levantaram a suspeita de que Di Pietro teria recebido favores, o empréstimo de um carro, por exemplo, por parte de um empresário”, contou Vannucci. “Era um bom investimento para um homem de negócios manter esse tipo de boas relações, mesmo que sem a expectativa de receber um favor imediato de volta, apenas para ser um ‘bom amigo’ de pessoas muito poderosas e potencialmente perigosas para eles, como Di Pietro.”

“Teve também a acusação, contra Di Pietro, de receber empréstimos sem precisar pagar juros”, continuou Vannucci. “Ele foi envolvido nesse sistema de troca de favores. Nunca chegou a ser processado por isso. Os casos foram encerrados sem que fosse necessário julgá-lo. Ficou claro que ele tinha esse tipo de, digamos, ‘ligações perigosas’ com empresários. Mas não foi considerado um crime.”

Di Pietro também foi formalmente acusado, naqueles meses, de abusar do cargo – e teve o seu método de investigação questionado. Tudo somado, acabou abandonando a magistratura no final de 1994. Em sua casa, em Roma, quase no fim de uma longa entrevista, ele me disse que não havia outra coisa a fazer naquele momento. “Fui acusado, com o objetivo de deslegitimar a minha atividade, de crimes graves, que teria cometido como magistrado. Acusado de promover prisões ilegais, falsidade ideológica nas atas dos processos, abuso do cargo. Tornou-se meu dever me defender dessas acusações, e assim defender tudo o que eu tinha feito na Mãos Limpas. Tornando-me um simples cidadão, queria demonstrar, como demonstrei, que tinha feito bem o meu trabalho e me comportado bem. Fui absolvido de todas as acusações, e foram condenados aqueles que me acusaram.”

O contra-ataque das moscas, me disse o juiz Piercamillo Davigo, no Palácio de Justiça, não veio apenas de Berlusconi, mas de toda a classe política. Nas últimas duas décadas, coa-lizões de esquerda e de direita se alternaram no poder na Itália. Tanto num tipo de governo quanto no outro, leis que dificultavam o trabalho da Promotoria foram aprovadas. “A partir de 1994, a política, toda a política, se esforçou para impedir não a corrupção, mas as investigações e os processos contra a corrupção”, disse Davigo.

Fraudes na contabilidade das empresas – o uso de caixa dois, de onde saíam os recursos para financiar ilegalmente os partidos – passaram a encontrar dificuldades muito maiores para serem admitidas como prova e punidas. Também em outras frentes, vários tipos de provas, antes aceitáveis, passaram a ser consideradas inválidas. As condições de admissibilidade de confissões e depoimentos foram restringidas. A gravidade e as penas impostas a vários crimes, reduzidas. Além disso, processos passaram a poder ser transferidos para outros juízes caso a imparcialidade dos magistrados originais fosse considerada duvidosa.

Por fim, a regra que realmente permitiu livrar muitos políticos de qualquer tipo de punição foi aprovada em 2005. “Uma lei que reduziu o prazo de prescrição para muitos crimes de colarinho-branco, entre eles o crime de corrupção”, explicou Vannucci. “Os prazos de prescrição foram cortados, de modo geral, pela metade. É difícil dar exemplos, porque o cálculo depende da pena máxima possível para cada crime. Mas, na média, para crimes de corrupção, o prazo de prescrição ficava entre doze e catorze anos. Logo depois dessa lei, passou para algo entre cinco e sete anos.” Ou seja, passado um pequeno espaço de tempo da data em que o crime teria sido cometido, a pessoa antes acusada não poderia mais ser julgada.

Assim, disse Vannucci, a estratégia de qualquer pessoa envolvida numa acusação de corrupção passou a ser a de retardar o máximo possível o seu julgamento, usando “todos os recursos formais possíveis para isso”. Visava-se “à prescrição, e não mais à declaração de inocência”.

A redução dos prazos de prescrição, segundo Gherardo Colombo, ajuda a explicar o fato de, ao fim e ao cabo, menos de 100 pessoas, segundo ele, terem efetivamente cumprido algum tipo de pena de prisão como resultado da Operação Mãos Limpas. De modo geral, um dos resultados práticos desse contra-ataque por parte dos políticos, segundo Alberto Vannucci, foi que a corrupção não só não diminuiu na Itália, nos anos seguintes às investigações da magistratura de Milão, como há indícios de que possa ter aumentado.

Desde 1995, a organização não governamental Transparência Internacional elabora e publica um Índice de Percepção da Corrupção no mundo, calculado a partir de diversas pesquisas com jornalistas, analistas e executivos. Entre outras perguntas, os entrevistados informam quão “limpo” é o processo de fazer negócios nos países pesquisados, a partir de sua própria experiência, e o quanto as autoridades locais aumentam os custos dessas transações, com extorsões ou cobranças de propinas.

Ao longo dos últimos vinte anos, dois fatos foram constatados com impressionante regularidade nos sucessivos levantamentos da Transparência Internacional. O primeiro é que países ricos, de modo geral, tendem a ser vistos como mais “limpos” ou mais “transparentes” que países pobres – e os especialistas debatem se essa correlação pode ser vista como um sinal do preconceito dos entrevistados em relação aos mais pobres ou não. De toda forma, o segundo fato regularmente observado em duas décadas de pesquisa é que a Itália é uma exceção constante à primeira regra.

Em 1995, dos 41 países pesquisados, apenas oito pareceram aos olhos dos especialistas entrevistados mais corruptos do que a Itália: Tailândia, Índia, Filipinas, Brasil, Venezuela, Paquistão, China e Indonésia. Em 33o lugar, o país ficou atrás de México, Colômbia, Grécia e Argentina. Em 2015, ocupava a 61a posição, num levantamento com 168 países. Ainda tinha um dos piores desempenhos entre os europeus, e ficava atrás de nações mais pobres, como Romênia, Grécia, Gana, Cuba e Ruanda.

Para Vannucci, a queda na quantidade de pessoas processadas e punidas por corrupção no país nos anos seguintes à Mãos Limpas, associada à percepção por parte de italianos e estrangeiros de que o problema persiste, indica que a capacidade de controlá-lo tem diminuído.

Della Porta e Vannucci também analisaram os preços das licitações públicas no país, e descobriram que, em alguns lugares, eles chegaram a cair até 40% logo depois da atuação dos procuradores de Milão. “O modo como nós lemos isso foi o seguinte: nesse sistema, muitas vezes era o empresário que ganhava mais”, afirmou Della Porta. Isso porque a propina para os políticos representava, em geral, entre 5% e 10% do valor do negócio. De toda forma, parecia uma conquista inegável da Mãos Limpas. O preço das obras tinha baixado, e portanto o gasto público havia se tornado mais eficiente. “Sim, é verdade”, respondeu a pesquisadora. “Mas isso não durou muito tempo. Cheguei a ficar otimista. Mas me lembro de pouco tempo depois entrevistar empresários, e eles me dizerem: ‘Olha, o preço está voltando a subir.’ Foi o que aconteceu.”

No final de 1993, no auge da Operação Mãos Limpas, o sistema de eleição proporcional adotado desde o final da Segunda Guerra na Itália – e que havia contribuído para a perpetuação da Democracia Cristã e de seus aliados no poder – foi reformado. Havia a esperança, assim, que a corrupção pudesse ao menos ser controlada.

Um novo sistema eleitoral foi adotado. Mantinha características do voto proporcional, mas se aproximava um pouco mais do modelo majoritário inglês ou americano, em que cada parlamentar ou congressista representa um distrito. Um dos efeitos do sistema majoritário é a manutenção de um número menor de legendas viáveis politicamente e o estímulo à polarização entre dois partidos ou dois grupos de partidos, já que quem não se mostra capaz de vencer eleições em vários distritos – ainda que consiga uma fatia expressiva do eleitorado total – acaba sendo excluído do Parlamento e, com o tempo, da própria disputa eleitoral. Foi o que aconteceu, em certa medida, também no modelo eleitoral misto da Itália. Daí a alternância entre coalizões de direita – lideradas por Berlusconi – e de esquerda nos anos seguintes.

Pelo menos do ponto de vista teórico, era de se esperar então um maior grau de fiscalização mútua – em particular quanto à corrupção – entre os dois blocos em disputa. Pelo menos uma fiscalização um pouco maior do que a que acontecia no tempo em que quase todas as legendas procuravam se coligar com a Democracia Cristã. Mas não foi o que aconteceu.

“O potencial da alternância de partidos contra a corrupção está na probabilidade maior de que as forças de oposição denunciem as práticas corruptas de quem está no poder”, disse Vannucci. A oposição esperaria, assim, receber os votos dos eleitores indignados e insatisfeitos com as práticas de quem está sendo acusado. “Na Itália, todos esses mecanismos foram enfraquecidos pelo fato de que tanto o partido no governo quanto aquele na oposição não eram críveis como forças anticorrupção. Porque todos eles já tinham se envolvido em casos de corrupção no passado. Fosse Berlusconi ou a esquerda. Ninguém podia, com credibilidade, dizer que era contra práticas de corrupção.”

Vannucci também chamou atenção para o fato de que, em vários casos de corrupção descobertos de 1995 para cá, muitas vezes havia representantes tanto da esquerda quanto da direita envolvidos – no mesmo escândalo. Em Roma, no Campo de Fiori, Zingales também mencionou esse tipo de conluio. “Mas não era de se esperar que a alternância no poder ajudasse a diminuir esse tipo de acerto?”, perguntei. “Não sou um cientista político, sou um economista”, ele respondeu. “Mas sei que num duopólio sempre pode haver um bocado de coordenação entre as duas partes.”

Fora da magistratura, Di Pietro ingressou na política. Em 1998, fundou seu próprio partido, o Italia dei Valori, ou Itália de Valores. Anos mais tarde, o ex-procurador que havia sido comparado a Pelé explicaria sua decisão com o uso de uma metáfora futebolística, dizendo que a vida pública era como uma partida, em que se devia escolher entre jogar ou ser apenas um espectador.

A partir de meados dos anos 2000, o partido de Di Pietro conseguiria eleger representantes para o Parlamento, sem no entanto abandonar a condição de força menor da política italiana. Não deixa de ser irônico que o Italia dei Valori, sob alguns aspectos, se parecesse com o Forza Italia, de Berlusconi: agremiações personalistas, centradas na figura do líder e concebidas para promover suas ambições políticas. Mas com uma importante diferença: do ponto de vista ideológico, a agremiação de Di Pietro era mais confusa, com gente dos dois lados do espectro. “Seu partido era um mix estranho”, disse Della Porta. “Tinha gente da esquerda, que também se incomodava com a corrupção. Mas ele fazia um discurso law and order, o que não costuma ter apelo com a esquerda.”

Segundo a pesquisadora, provavelmente Di Pietro esperava obter um apoio maior do eleitorado. “Minha impressão é a de que, desde o início, ele teve menos sucesso do que acreditava que iria ter. Provavelmente porque a política não é fácil para quem vem de fora. Quando teve algum sucesso, acabou sendo abandonado por seus correligionários. Ele próprio chegou a dizer que não era muito bom para escolher pessoas. Era um outsider.”

Gherardo Colombo, antigo colega que também abandonou a magistratura – mas que não considerou entrar para a política –, disse que Di Pietro nunca teve, no final das contas, “o jeito certo” para ser político. “Há uma enorme diferença entre ser um magistrado e ser um político. É preciso ser mais humilde, como político, e não subestimar a inteligência dos outros políticos. Você também não pode ser extremado nas suas posições, tem que saber negociar. E você tem que saber escolher, com muita acurácia, os seus parceiros.” Em todas essas frentes, disse Colombo, muitas vezes Di Pietro acabou falhando.

Seus problemas políticos aumentaram quando começaram a surgir acusações de que mesmo integrantes do Italia dei Valori, fundado para defender a causa da honestidade, haviam se locupletado. “Membros do seu partido foram acusados de ter recebido propinas”, disse Colombo.

Outros tiveram dificuldades para explicar o uso de dinheiro público. Na região de Molise, no sul do país, representantes do Italia dei Valori receberam, como os demais partidos locais, recursos do Estado. A verba deveria ser destinada a despesas partidárias e eleitorais, mas os membros da legenda na região não conseguiram comprovar todos os gastos que fizeram – entre eles estava o próprio filho de Di Pietro, Cristiano, tratado na imprensa italiana como “Di Pietro Junior”. Foram recentemente condenados a ressarcir os cofres públicos em cerca de 45 mil euros.

“Não creio que já se tenha uma condenação final em relação a Cristiano Di Pietro”, me disse Alberto Vannucci, por telefone, no final de abril. “Como aconteceu em muitos ou talvez todos os conselhos regionais da Itália, eles foram acusados de usar dinheiro público para propósitos pessoais.”

O próprio Di Pietro também foi objeto de acusações – e insinuações de enriquecimento ilícito. No final de 2012, depois de um programa jornalístico da RAI afirmar que o ex-magistrado, a mulher e os filhos detinham dezenas de propriedades – entre casas, terrenos e vagas de garagem –, a Itália se pôs a discutir o tamanho da riqueza patrimonial da família Di Pietro. Pelas estimativas mais conservadoras, e favoráveis ao ex-magistrado, seriam onze imóveis. O fundador do Italia dei Valori também foi acusado de usar recursos públicos, destinados ao partido, para reformar sua casa em Roma – indicada por ele como sede da agremiação. E de ter usado uma empresa sua para alugar um imóvel ao próprio partido, numa transação paga com recursos públicos.

Questionado, Di Pietro disse à piauí por e-mail que a Justiça italiana havia feito as devidas verificações e declarado que o seu comportamento era “irrepreensível” no que se referia à gestão dos fundos públicos destinados ao seu partido. O ex-magistrado também anexou a cópia de uma decisão da Justiça, de 2010, em que o juiz reconhece não haver sido encontrado nenhum problema por parte do Tribunal de Contas e do Parlamento italiano quanto ao uso de recursos públicos pelo partido Italia dei Valori até aquela data. Na mensagem, Di Pietro se dizia vítima de “falsas acusações” feitas por “difamadores profissionais”.

“As explicações de Di Pietro nunca foram satisfatórias”, me disse um jornalista do La Repubblica. Outro repórter, do Corriere della Sera, afirmou não acreditar que o ex-magistrado tenha se apropriado, em benefício próprio, de dinheiro público. Mas, para Alberto Vannucci, ainda que o ex-magistrado não tenha sido formalmente acusado ou julgado pelas suspeitas que apareceram na imprensa no final de 2012, estava claro que a gestão dos recursos de seu partido não era transparente. “Di Pietro fundou uma entidade privada, e o partido pagava aluguel por uma se-de que estava em nome dessa entidade. A entidade era a proprietária do imóvel. Era um conflito de interesses gigantesco. O líder do partido alugava um imóvel para o próprio partido. O dinheiro usado para pagar era dinheiro público, recebido pelo partido.”

Para Vannucci, as suspeitas contra a Italia dei Valori representaram uma tragédia política. “Essa é a tragédia de um país. Quando se espera que a sociedade possa superar um sistema corrupto, acaba-se descobrindo – sempre tarde demais – que até mesmo o símbolo dessa mudança estava envolvido ou passou a se envolver com esse ambiente de corrupção, tomado num sentido mais amplo.”

No final de 1992, talvez no auge de sua reputação, Antonio Di Pietro conseguiu um espaço em sua agenda para participar de um encontro com empresários em Monza, cidade a menos de uma hora de carro de Milão. Já era de noite. Antes de passar a palavra à plateia, o procurador explicou em que pé andavam as investigações da Mãos Limpas e exortou os empresários ali presentes a fazerem a sua parte no combate à corrupção.

Um deles, Ambrogio Mauri, um senhor de pouco mais de 60 anos, dono de uma fábrica de ônibus urbanos, esperou Di Pietro terminar de falar e levantou a mão (é o que narra Monica Zapelli, em seu livro Un Uomo Onesto). “O senhor deveria mudar de profissão”, disse Mauri ao magistrado. “Já explico por quê.” Em seguida deu as costas a Di Pietro e fez uma pergunta à plateia, onde estavam os seus colegas empresários: “Pode levantar a mão quem, entre nós, nunca deu um dinheiro, pelo menos uma vez na vida, a um gerente de compras de alguma empresa.”

Os empresários na sala sorriram, sem no entanto mover o braço. Apenas o próprio Mauri levantou a mão. “Doutor, ou são todos manetas, ou eu tenho razão e o senhor deveria mudar de profissão”, disse então a Di Pietro.

Ambrogio Mauri era um entusiasta da Operação Mãos Limpas e, para alguns italianos, virou uma espécie de símbolo da honestidade. Dizia que se recusava a pagar qualquer tipo de propina e evitava as licitações públicas na Itália. “Mauri fazia negócios e vendia seus ônibus sobretudo fora da Itália, exportava os veículos, porque tinha sempre se recusado a participar dos circuitos corrompidos em Milão e na Lombardia”, lembrou Vannucci, numa conversa por telefone. “Isso também foi certificado pelos investigadores da Operação Mãos Limpas. O nome de Ambrogio Mauri não aparece nas investigações.”

Passado o auge das atividades dos procuradores, Mauri achou que já era hora de voltar a fazer negócios em Milão. Em 1996, a companhia de transportes públicos da cidade lançou uma licitação para a compra de 100 novos ônibus. Era uma ótima oportunidade, e o empresário decidiu participar. “E aí, realmente, ele concluiu que as coisas tinham mudado”, contou Vannucci. “Porque, pela primeira vez, ele venceu uma concorrência na Itália. Tinha investido, ampliado e melhorado a sua linha de produção.”

“O problema”, continuou Vannucci, “é que logo depois houve um recurso dessa licitação. Ela acabou sendo anulada, declarada irregular. Foi refeita. Mas, da vez seguinte, Mauri perdeu. Quem ganhou foi uma empresa que já tinha estado envolvida, no passado, em casos de corrupção.”

A derrota abalou o empresário. Às oito da manhã do dia 21 de abril de 1997, Mauri chegou ao trabalho na sua fábrica. Cumprimentou funcionários e se fechou no escritório. Alguns minutos mais tarde, tirou da gaveta uma pistola e, como já havia planejado, deu um tiro no peito. Nas cartas que deixou, falava da sua desilusão – dizia que, passada a Operação Mãos Limpas, tudo havia voltado a ser como era antes na Itália.

“Mauri se deu conta de que o sistema de corrupção tinha voltado a dar as cartas em Milão”, me disse Vannucci. “Ele tinha investido muito dinheiro naquele contrato público, que acabou perdendo. Escreveu as cartas de despedida e decidiu cometer suicídio. Essa é a história.”

Rafael Cariello
No Piauí
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