28 de mai de 2016

Cunha manda e governo Temer terá que se ajoelhar, diz Dilma

A presidente afastada, Dilma Rousseff, da entrevista exclusiva à Folha no Palácio da Alvorada
Os garçons do Palácio da Alvorada ainda servem café quente para a presidente afastada Dilma Rousseff. Na quinta-feira passada (26), ela recebeu a Folha para uma entrevista e pediu que servissem também "alguma comidinha". Foi prontamente atendida, mas reclamou: "Não tem pão de queijo?".

Dilma, segundo assessores, segue mais Dilma do que nunca. Acorda cedo, despacha, dá bronca, exige pontualidade e se apega a detalhes.

Aparenta estar forte e até algo aliviada longe da rotina do Palácio do Planalto, de onde foi afastada depois que o Senado votou pela abertura do impeachment, há 18 dias.

Diz que não sente falta de nada. "Eu trabalho o mesmo tanto. Só que agora faço outras coisas", afirma.

Recebe senadores, deputados, ex-ministros. Com eles, participa de discussões em redes sociais. "Temos que defender o nosso legado. E com pouco recurso. Atualmente nós temos um blog. Ele nos consome", afirma.

Na semana passada, acompanhou cada detalhe da divulgação, pela Folha, de gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros e com José Sarney.

"As razões do impeachment estão ficando cada vez mais claras", afirma, sorrindo. As conversas revelam tentativas de interferir na Operação Lava Jato e a opinião de que, se Dilma saísse do governo, as investigações poderiam arrefecer.

Dilma não poupa críticas ao governo interino de Michel Temer e diz que ele terá que "se ajoelhar" para Eduardo Cunha, com quem "não há negociação possível".

Leia a seguir os principais trechos da conversa:

Vamos começar falando sobre o impeachment.

Pois não.

A senhora precisa ter 27 votos contrários a ele no Senado.

É melhor falar que precisamos de 30.

E só teve 22 na votação da admissibilidade. Acredita mesmo que pode voltar?

Nós podemos reverter isso. Vários senadores, quando votaram pela admissibilidade [do processo de impeachment], disseram que não estavam declarando [posição] pelo mérito [das acusações, que ainda seriam analisadas]. Então eu acredito.

Sobretudo porque as razões do impeachment estão ficando cada vez mais claras. E elas não têm nada a ver com seis decretos ou com Plano Safra [medidas consideradas crimes de responsabilidade].

Fernando Henrique Cardoso assinou 30 decretos similares aos meus. O Lula, quatro. Quando o TCU disse que não se podia fazer mais [decretos], nós não fizemos mais. O Plano Safra não tem uma ação minha. Pela lei, quem executa [o plano] são órgãos técnicos da Fazenda.

Ou seja, não conseguem dizer qual é o crime que eu cometi. Em vista disso, e considerando a profusão de detalhes que têm surgido a respeito das causas reais para o meu impeachment, eu acredito que é possível [barrar o impedimento no Senado].

A senhora se refere às conversas telefônicas gravadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com os senadores Romero Jucá e Renan Calheiros e com o ex-presidente José Sarney?

Eu li os três [diálogos]. Eles mostram que a causa real para o meu impeachment era a tentativa de obstrução da Operação Lava Jato por parte de quem achava que, sem mudar o governo, a "sangria" continuaria. A "sangria" é uma citação literal do senador Romero Jucá.

Outro dos grampeados diz que eu deixava as coisas [investigações] correrem. As conversas provam o que sistematicamente falamos: jamais interferimos na Lava Jato. E aqueles que quiseram o impeachment tinham esse objetivo. Não sou eu que digo. Eles próprios dizem.

E a crise na economia, a falta de apoio do governo no Congresso, não contaram?

O [economista e prêmio Nobel Joseph] Stiglitz fez um diagnóstico perfeito [sobre o Brasil]: a crise econômica é inevitável. O que não é inevitável é a combinação danosa de crise econômica com crise política. O que aconteceu comigo? Houve a combinação da crise econômica com uma ação política deletéria. Todas as tentativas que fizemos de enviar reformas para o Congresso foram obstaculizadas, tanto pela oposição quanto por uma parte do centro politico, este liderado pelo senhor Eduardo Cunha.

Pior: propuseram as "pautas-bomba", com gastos de R$ 160 bilhões. O que estava por trás disso? A criação de um ambiente de impasse, propício ao impeachment. Cada vez que a Lava Jato chegava perto do senhor Eduardo Cunha, ele tomava uma atitude contra o governo. A tese dele era a de que tínhamos que obstruir a Justiça.

A senhora então sustenta que o impeachment foi apenas uma tentativa de se barrar a Operação Lava Jato.

Foi para isso e também para colocarem em andamento uma política ultraliberal em economia e conservadora em todo o resto. Com cortes drásticos de programas sociais. Um programa que não tem legitimidade pois não teve o respaldo das urnas.

Não foi um equívoco político confrontar um adversário com tanto poder e influência no parlamento como Cunha?

Desde 1988, o PMDB foi o centro do espectro político. E participou da estruturação tanto dos governos do PSDB quanto dos governos do PT, sendo fator de estabilidade.

Mas, a partir do meu primeiro mandato, esta parte [PMDB] que era para ser centro passa a ter um corte de direita conservadora, com uma pessoa extremamente aguerrida na sua direção.

Você passa a ter, de um lado, 25% [dos parlamentares] ligados à ala progressista, outros 20% à ala que já foi social-democrata. E, no meio, 55% sob o controle do senhor presidente da Câmara afastado, Eduardo Cunha. A situação do Brasil, se isso não for desmontado, é gravíssima.

Mas era melhor cair a fazer um acordo político com ele?

Fazer acordo com Eduardo Cunha é se submeter à pauta dele. Não se trata de uma negociação tradicional de composição. E sim de negociação em que ele dá as cartas.

Jamais eu deixaria que ele indicasse o meu ministro da Justiça [referindo-se ao fato de o titular da pasta de Temer, Alexandre de Moraes, ter sido advogado de Cunha]. Jamais eu deixaria que ele indicasse todos os cargos jurídicos e assessores da subchefia da Casa Civil, por onde passam todos os decretos e leis.

A senhora se refere a nomeações do governo interino?

Podem falar o que quiserem: o Eduardo Cunha é a pessoa central do governo Temer. Isso ficou claríssimo agora, com a indicação do André Moura [deputado ligado a Cunha e líder do governo Temer na Câmara]. Cunha não só manda: ele é o governo Temer. E não há governo possível nos termos do Eduardo Cunha.

Não haverá, na sua opinião, governo Temer possível?

Vão ter de se ajoelhar.

Voltando à Lava Jato, houve pressão sobre a senhora para interferir na operação?

Era muito difícil fazer pressão sobre mim, querida.

Há relatos de pressão de Lula e do PT para que a senhora demitisse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Tanto não é verdade que José Eduardo saiu no final. E para o lugar dele foi um procurador [Eugênio Aragão].

Delcídio do Amaral afirmou em delação que a senhora indicou o ministro Marcelo Navarro para o STJ (Superior Tribunal de Justiça) para ajudar a soltar empreiteiros presos.

É absurda a questão do Navarro. Eu não tenho nenhum ato de corrupção na minha vida. Não conseguirão [acusá-la]. Por isso escolhem seis decretos e um Plano Safra [para embasar o impeachment].

Há rumores de que o empreiteiro Marcelo Odebrecht acusará a senhora, em delação premiada, de ter pedido dinheiro a ele na campanha em 2014, o que teria resultado em pagamentos ao marqueteiro João Santana por meio de caixa dois.

Eu jamais tive conversa com o Marcelo Odebrecht sobre isso.

Nem com o João Santana?

Eu paguei R$ 70 milhões para o João Santana [na campanha de 2014], tudo declarado para o TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Onde é que está o caixa dois?

A senhora já teve quantos encontros com Odebrecht?

Muito poucos. Eu não recebi nunca o Marcelo no [Palácio da] Alvorada. No Planalto, eu não me lembro. Recordo que encontrei o Marcelo Odebrecht no México, o maior investimento privado do país é da Odebrecht com um sócio de lá. Conversamos a respeito do negócio, ele queria que déssemos um apoio maior. Uma conversa absolutamente padrão do Marcelo.

Mônica Bergamo
No fAlha
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“Não vou deixar pedra sobre pedra"

Foto: Roberto Stuckert Filho
No dia 27 de outubro de 2014, um dia após ter vencido as eleições, em entrevistas a telejornais (veja aqui), a presidente legítima e constitucional Dilma Rousseff fez a seguinte declaração: "Faremos um combate sem tréguas à corrupção. Nosso país não pode manter a impunidade daqueles que cometem atos de corrupção. Não vou deixar pedra sobre pedra. Eu vou fazer questão que a sociedade brasileira saiba de tudo".

Muitos brasileiros e, certamente, os grupos políticos (que historicamente assaltam o erário) e o partido da imprensa golpista não deram muita atenção a essa afirmação da presidenta. Seguramente, não conhecem a mulher de fibra, destemida e coerente que é Dilma. Todos fiavam nos velhos esquemas dos políticos tradicionais que adoram ameaçar, achincalhar, tripudiar dos adversários, mas, quando têm a faca no pescoço ou são pegos “com a mão da botija” afinam seus discursos, ficam mansinhos, mudam de opinião e cedem a todo o tipo de pressão para salvarem suas cabeças. Exemplo claro disso é o áudio de Renan Calheiros sobre a postura de Aécio Neves: “Aécio está com medo. [Me procurou dizendo]: 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.'”

Os áudios divulgados nessa semana envolvendo Jucá, Sarney e Renan confirmam com toda a clareza que os machões da política nacional estão literalmente se borrando à medida que as investigações da lava-jato sobre corrupção (apesar de altamente seletivas) vão avançando. Sarney, a raposa que andava sumida (porque, como tal, articula nos bastidores) estava extasiado com a postura coerente da presidenta: “Ela [Dilma] não sai. Resiste... Diz que até a última bala”. Noutro áudio Renan diz: “ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável. ”

Como escrevi anteriormente (veja aqui), a começar pelas declarações bombásticas do senador Romero Jucá, o segundo homem-forte de Temer, porque o primeiro é Eduardo Cunha, as gravações divulgadas essa semana são uma cristalina confissão da farsa golpista. Não comprometem apenas o ex-ministro do planejamento do governo interino, seu grupo político (seria mesmo um grupo?) e os conspiradores do golpe. Atingem o sistema de justiça, notadamente o STF; confirmam a participação descarada da imprensa golpista no processo fajuto; apontam para um "eles", o PSDB (o partido que perdeu as eleições e não aceita a derrota) e, finalmente, comprometem o interino. Afinal, segundo Jucá, Temer foi citado como se tivesse sido consultado a respeito da criação de um "pacto" cuja finalidade seria acalmar a sociedade (qual sociedade?) que estava angustiada com os efeitos da operação lava-jato. Noutra gravação, o interino aparece, novamente: Sérgio Machado, em conversa com Sarney, alega que ajudou Temer  na campanha de 2012: "O Michel, eu contribuí pra ele. Ajudei na campanha do menino [Gabriel Chalita]. Até falei com ele num lugar inapropriado", diz Sérgio Machado. (Veja aqui).

Jucá já tinha afirmado que “Temer deveria fazer um governo de salvação nacional”. Para salvar os homens e as mulheres de bens, um pacto, “construído por uma nova casta pura” —  expressão de fazer inveja a Hitler —, acabaria com as investigações de corrupção que atingem vários políticos, inclusive os tucanos, na figura de Aécio, “o primeiro a ser comido". 

À medida que o folhetim de corruptos e corruptores foi sendo confirmado nas conversas já divulgadas ficou claro que as coalizões golpistas também estão na corda bamba, porque não têm governança sobre o mar de lama que poderá emergir nas confissões de gravações que ainda podem aparecer, dependendo das fontes e seus inconfessáveis interesses. Afinal, o tal áudio de Jucá teria sido gravado em março. Por que só agora apareceu a gravação? Seria isso obra do acaso?

O que está límpido até agora é que a promessa de Dilma Rousseff naquele 27 de outubro do ano passado não era tergiversação de político tradicional. A presidenta honrou sua palavra. Por incrível e kafkiano que pareça, Dilma é a única honrada nesse lamaçal putrefato.

Talvez, o maior legado até agora do governo Dilma, superando e muito nesse quesito o governo Lula, é o combate sistemático e profundo à corrupção generalizada que corrói nossas instituições políticas e o setor empresarial nacional.

Independentemente da reversão do processo fajuto, ilegítimo, ilegal e imoral doimpeachment, o país e o mundo conheceu, pela primeira vez na história, que as instituições políticas (partidos, executivo, legislativo e judiciário), as grandes empresas e os oligopólios midiáticos, ressalvadas poucas exceções, são um antro de corrupção, mediocridade e patifaria, entre outros inúmeros adjetivos.

E, por falar em mediocridade, para fechar a semana com mais um escárnio produzido pelos membros do governo interino, ainda tivemos que assistir a boçal e patética audiência do ministro da (des)educação, que recebeu em seu gabinete um ator acusado de fazer apologia ao estupro. Uma afronta aos educadores e educadoras deste país (veja aqui). No dia seguinte a conversa, ficamos sabendo do estupro de uma jovem de 17 anos, por uma quadrilha de 33 trogloditas conscientes da barbárie. Num país onde a cada 10 minutos uma mulher é violentada e, segundo o Ipea, 70% das vítimas são crianças e adolescentes, tudo parece normal, natural e abençoado (porque alguns líderes religiosos rasgam elogios a políticos sexistas, misóginos e corruptos e outros assistem impávidos ao espetáculo grotesco). Esses episódios são sinais inequívocos do retrocesso civilizatório que vivenciamos nesses tenebrosos dias. Diante de tanta violência real e simbólica, o comodismo e a sombra da neutralidade não são aceitáveis do ponto de vista ético e moral. Em face a ameaças de violações de direitos sociais e econômicos da população, quem não se posiciona será vomitado pela história como um verme. E poderá, também, prestar contas a Deus. Afinal, lemos no livro do Apocalipse: “mas, como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te” (cf. Ap 3,16).

Ainda ficamos sabendo do encontro do ministro da saúde interino com uma turma que defende, sem temor e pudor, a velha política da casa grande: direito constitucional para os ricos; direito penal para os pobres. E, mais, noticiou-se acerca do financiamento do PMDB, PSDB, Solidariedade e DEM ao MBL, um agrupamento que dispensa comentários. Tudo divulgado em doses homeopáticas pelo partido da mídia golpista, para não assustar o povo. De agora em diante, operações policiais e judiciais poderão cumprir um papel de abafar os inúmeros escândalos do governo interino. Como é notório, o fim da corrupção nunca foi e nunca será o objetivo do PMDB, do DEM e do PSDB.

Há poucos dias, enviei o currículo dos homens brancos, ricos e velhos que formam o gabinete interino para uma amiga, professora em renomada universidade no exterior. Sua resposta: “Oh! My God!” Realmente, é de assustar. E assim, o governo interino vai se notabilizando como o mais medíocre da história nacional.

Para todos os efeitos, a hipocrisia dos homens e mulheres de bens deste país está escancarada. Por mais paradoxal, o golpe, graças a firmeza de Dilma em manter sua palavra, está desnudando a entranhas de uma elite (política, midiática, empresarial, religiosa) violenta, corrupta, medíocre e perversa.

Robson Sávio Reis Souza, Doutor em Ciências Sociais e professor da PUC Minas
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A consagração internacional de FHC como golpista e fâmulo da plutocracia

O decano do golpe
FHC viveu o bastante — 85 anos até aqui — para ver sua consagração internacional como golpista. E em Nova York, a capital do mundo.

Clap, clap, clap. De pé. Para os responsáveis pelo reconhecimento.

FHC fora convidado para participar de um encontro de cientistas políticos para debater a tão ameaçada democracia na América Latina.

É um mistério o que passou pela cabeça dos organizadores ao chamar o decano do presente golpe no Brasil. É como chamar Alexandre Frota para debater educação. Mas foi brilhante a reação dos cientistas políticos que sabem perfeitamente o papel imundo que FHC representou na trama plutocrata que colocou Temer no Planalto.

Eles prontamente se insurgiram. Diante da insistência da organização em manter FHC, avisaram que respeitavam a decisão. Mas, diante dela, alertaram que iriam comparecer de preto ao seminário em protesto contra um convite tão acintosamente equivocado.

FHC fez o que sempre fez em situações complicadas. Primeiro, se acoelhou. Fugiu da reunião. Depois, produziu uma nota que é sua alma: cínica, hipócrita, mentirosa. Nela, evocou o passado. Disse que foi perseguido pelo golpe de 1964 e coisas do gênero. Acontece que ninguém está falando de 1964, e sim de 2016. Rechaçou que houve golpe com o argumento de que o STF monitorou o impeachment.

Ora, ora, ora. Depois de gravações de conversas que expuseram brutalmente a participação do STF na derrubada de Dilma, ele tem a ousadia de citar os eminentes magistrados? Entre estes se destaca, com seu golpismo explícito, Gilmar Mendes, que foi colocado no STF exatamente por FHC.

Apenas para registro, em 1964 o STF também abençoou o golpe.

Se passado valesse, Lacerda — o maior golpista da história da República — poderia, ao estilo de FHC, dizer que foi integrante do Partido Comunista na juventude para tentar ser absolvido pelo papel vergonhoso que desempenhou repetidamente contra a democracia e a favor dos ricos.

Seja o que for que FHC tenha feito num passado remoto, tudo já foi incinerado pelo que ele é, e não de hoje.

É, numa palavra, um fâmulo da plutocracia.

Lacerda desandou quando passou a falar, demagogicamente, em corrupção para atacar governos progressistas como o de Getúlio e o de Jango. Há quantos anos FHC faz exatamente o mesmo?

Em sua descomunal vaidade, FHC tem a pretensão de ser conhecido — e respeitado — como um homem de esquerda. Ele sabe que cientistas políticos de direita são universalmente desprezados.

Mas ele não é mais que isso: um reacionário, um direitista, um golpista da pior espécie.

Seu julgamento perante a história já foi feito em vida, e ele foi condenado com desonra.

O símbolo disso foram as camisas pretas em Nova York em repúdio a ele.

Paulo Nogueira
No DCM
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Pode um juiz federal fazer isso impunemente?

Pode um ministro (sic) do Supremo?


Trecho de artigo de Juarez Rocha Guimarães, professor no Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG:

1) Pode um juiz federal decretar prisões em série por tempo indeterminado de acusados antes de serem julgados, passando por cima da presunção da inocência, do direito de defesa, do devido ônus da prova, por cima de razões excepcionais e legítimas que justifiquem a prisão cautelar?

2) Pode um juiz federal ou a procuradores federais dirigirem um processo de acusação que viola diariamente o segredo de justiça previsto em lei, que vaza de forma seletiva e politicamente orientada delações premiadas para empresas de mídia partidarizadas?

3) Pode um juiz federal e um procurador-geral da República repassar para uma empresa de mídia gravações telefônicas criminosas, obtidas sem autorização, da presidente da República?

4) Pode um juiz federal mandar grampear escritórios de advocacia que atuam em defesa dos acusados em processo que dirige?

5) Pode um juiz federal, de forma reiterada, e de forma acintosamente midiática contra um ex-presidente da República, impor depoimentos coercitivos a pessoas que nem estão indiciadas e que se dispõem civilmente a prestar depoimentos?

6) Podem agentes da Polícia Federal responsáveis por dirigir investigações, de profundo impacto político, promover publicamente campanhas de difamação da presidente da República?

7) Pode um membro do STF emitir juízos partidários, reunir-se secretamente e promover seminários com lideranças partidárias que o indicaram para ministro, defender e violar escandalosamente o princípio da imparcialidade em julgamentos a favor de seu partido?

8) Pode um ministro do STF de públicos e notórios vínculos, protagonismos e juízos partidários presidir um Tribunal Superior Eleitoral?

9) Pode um STF impedir a posse, por decisão monocrática, de um cidadão ex-presidente não indiciado ou sequer acusado de tomar posse como ministro e, logo depois, permitir que nove ministros investigados por corrupção assumam seus cargos em um novo governo ilegítimo?

10) Podem ministros do STF sistematicamente omitirem juízos públicos prévios a processos que irão julgar sem o exame qualificado das razões que virão a justificá-los?

11) Pode o Procurador-Geral da República vazar criminosamente trechos de delação premiada, sob segredo de justiça, de um senador que acusa a presidenta Dilma e o ex-presidente Lula para justificar midiaticamente um pedido de seus indiciamentos?

12) Pode o STF, casuisticamente e sem amparo legal, decidir em horas a prisão de um senador flagrado em fala gravada sem autorização judicial de manifestar intenção de influenciar ministros do STF e, logo depois, nada decidir sobre outro senador, presidente de um partido, ministro e reconhecido com um dos principais articuladores do golpe parlamentar, que declara haver conspirado com ministros do STF para abafar a investigação sobre corrupção?

13) Pode o STF permitir que um presidente da Câmara Federal, gravemente denunciado e com provas robustas de corrupção sistemática, dirija e organize o processo de impeachment de uma presidente sob a qual não pesa nenhuma acusação?

No CAf
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Michel Temer diz repudiar o estupro, mas não repreende seu ministro

A manifestação do presidente interino Michel Temer que, sem votos, chegou ao poder através de um golpe, sobre a menor estuprada em um subúrbio do Rio, não me comove. Menos ainda convence. O discurso não bate com a prática, do contrário ele teria, publicamente, desautorizado seu ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM-PE).

Afinal, o grande momento do político pernambucano, na semana que se encerra, foi receber em audiência o ex-ator pornô e estuprador confesso, Alexandre Frota. Isto é no mínimo contraditório, vindo de um ministro que alardeou no seu discurso de posse ter se formado em uma das melhores escolas do seu estado, a Escola Parque, que preza “a diversidade e mantinha um clima de efervescência crítica, na contramão do regime (militar) que naquele apagar dos anos 70 começava a se desmilinguir”, como narrou a Folha de S. Paulo em 22/05,

O ator, como se sabe, em março de 2015, confessou em um programa de TV, em tom de deboche, um crime hediondo: declarou ter feito relações sem consentimento com uma mãe de santo após desmaiá-la segurando seu pescoço. A confissão está na postagem do site do Pragmatismo Político. Hoje, ele levando sugestões ao ministro da Educação, para serem implantadas nas escolas do país. Que moral e que preparo ele tem para fazer tais sugestões?

Como fica o ministro ao receber um estuprador confesso na semana em que vem a público uma barbaridade como a cometida contra a menor, no subúrbio do Rio?

De pouco adianta o presidente interino vir a público manifestar-se contra este tipo de crime hediondo e ao mesmo tempo seu governo receber “propostas para a educação” de alguém com a folha corrida confessa — ainda que não seja a oficial pois, ao que parece, ele nunca respondeu judicialmente pelo que disse ter feito — como a de Frota.

n-ALEXANDRE-FROTA- e mendonça filhoNestes momentos, mais do que o discurso, valeria o gesto. Um posicionamento público condenando a audiência repercutiria mais do que a manifestação pelo Twitter ou mesmo a promessa de criar um setor especializado na Polícia Federal para cuidar de casos como estes. Afinal, todos sabem, trata-se de crime da alçada estadual.

Mas, para isso, o presidente interino teria que poder brigar com um político, coisa que não pretende fazer, pelo menos até tentar consolidar a sua permanência no Planalto, consolidando o golpe. O que,  ao que parece, cada dia está mais difícil.

Justiça sem justiçamento

É óbvio que os responsáveis pelo que aconteceu com a menor devem ser punidos rigidamente pela Justiça. Sem justiçamento, como pedem alguns, que falam até em castração de estupradores.

Mas, isto apenas não adianta. É necessário muito mais, inclusive na própria seara do ministro da educação que perdeu tempo — ou alguém levará a sério a proposta de escolas sem partidos como o ator sugeriu? — em uma audiência inútil. Serviu apenas para mostrar a face real deste governo que assumiu diante de um golpe.

Ao justificar o encontro, o ministro acabou por confirmar a inutilidade do mesmo ao dizer que defende “o campo da educação e da sala de aula como um campo amplo, plural. que não comporta nenhum tipo de sectarismo, nem estreitamento do ponto de vista de ideias. Eu acho que a palavra que sintetiza o nosso ponto de vista é bom senso”.

Ou seja, ele, teoricamente, se diz contrário ao que pediu o ator, mas não teve o bom senso de pontuar isto na frente do mesmo e ainda se pousou para selfies.

O necessário é uma ampla campanha contra o machismo e os maus tratos não apenas às mulheres, mas a qualquer cidadão. Isso deve ser tarefa de cada um, mas em especial dos governos, federal, estaduais e municipais. Envolvendo todos os parceiros necessários, mas sabendo-se escolher aqueles que a imagem pública condiz com o discurso. E na área da Educação deveria ser algo levado às escolas desde o início do aprendizado. Mais ou menos como propôs, no Facebook a jovem Pâmela Côto, em um apelo a todos os homens:
Homem: mais do que ninguém, é você que pode mudar esse mundo de barbárie em que a gente vive! Não sendo conivente com o amigo que expõe uma mulher a uma situação degradante, não rindo da piada machista do conhecido que “comeu uma putinha qualquer”, não achando graça do beijo forçado que o teu broder deu na gata que parecia estar dando mole, não ensinando ao seu filho que se fragilizar é coisa de menina, não ensinando ao seu filho que ele precisa provar a sua masculinidade aos quatro cantos. Se torne RESPONSÁVEL pela perpetuação da cultura do estupro porque você É. Não dá pra ter medo do incômodo de ir na contramão. De ser olhado torto pelos amigos daquele grupo de whatsapp porque você repreendeu aquela foto machista escrota, quando eles esperavam que você aplaudisse. Vai doer, cara. Mas quer saber? Dói na gente todo dia. “Ah, mas as mulheres também são machistas.” A gente sabe disso! Essa merda de sociedade patriarcal criou muitas vitimas, escravizou homens e mulheres, e o feminismo nasceu pra combater a naturalização dessa cultura. Mas olha bem, olha direitinho. 8 (ops…130!) mulheres são estupradas diariamente no Brasil! Saca? LUTEM COM A GENTE! Esse é um APELO. Pelo amor às mulheres”.
Pelo visto, Mendonça Filho ganharia mais dialogando na rede com pessoas como Pâmela do que pousando para selfie com gente como Frota. Já Temer, seria mais convincente repreendendo o encontro do que mandando mensagens pelo Twitter. Mas, esperar o que de um governo que assume através do golpe?

Marcelo Auler
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Marcela Temer: Serenatas e Le Monde

Na segunda-feira (23), cerca de 50 moradores do bairro do Alto de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, fizeram um protesto em frente à mansão do Judas Michel Temer. O evento, convocado pelo Facebook, foi batizado de “Serenata dos vizinhos contra o golpe”. A ideia, segundo os organizadores, foi “mostrar que no bairro também tem gente contra Temer e contra o golpe”. Segundo o noticiário, a irreverente e bucólica manifestação deixou indignado o “presidente interino”, que estava em Brasília. O protesto também irritou a mãe da primeira-dama Marcela Temer, dona Norma Tedeschi. Da sacada da residência, a sogra do Judas criticou os manifestantes e exigiu silêncio. De acordo com a Folha, "ela disse que o neto, Michelzinho, 7 anos, está doente, com febre, e que, por causa do protesto, ela não poderia sair de casa para comprar remédio”.

Ainda segundo a reportagem, “o grupo, em silêncio, ouviu o que ela tinha a dizer... [Na sequência] um dos manifestantes respondeu dizendo que na periferia tinha um monte de criança doente. Norma fechou a janela e o protesto continuou. O grupo carregava cartazes com os dizeres ‘O golpe mora ao lado’, ‘Michel é Cunha’ e ‘Todo apoio ao Povo Sem Medo’. Ele gritava ‘O povo não é pato, o Michel Temer também está na Lava Jato’. Com violão, sax e pandeiro, o grupo fez uma versão de ‘Carinhoso’ para protestar contra Temer: ‘Meu coração/ Não sei por que/ Tem um infarto quando te vê’... O ato também foi chamado para mostrar ‘total apoio aos movimentos sociais que foram expulsos de forma violenta’ pela PM. Na madrugada desta segunda, após pouco mais de quatro horas, cerca de 150 pessoas que se mantinham acampadas em uma praça próxima à residência do presidente interino foram tiradas do local pela Polícia Militar”.



Talvez pouca acostumada aos protestos de rua, a sogra do Judas vai precisar de paciência nestas horas difíceis — decorrentes do “golpe dos corruptos” liderado por seu genro velhaco. Os protestos tendem a crescer nos próximos dias e o ouvido da dona Norma Tedeschi, acostumada às festanças da elite, vai virar penico. Imagine a sua revolta quando ela ler a matéria postada nesta sexta-feira (27) pelo jornal francês Le Monde, um dos mais renomados do planeta, sobre sua filha “recatada e do lar”. Vale conferir:

* * *

Brasil: Marcela, a mulher do presidente Michel Temer, causa barulho

Por Claire Gatinois, correspondente em São Paulo

O Daily Mail, tabloide britânico de grande circulação, vê nela a "Maria Antonieta do Brasil", uma esposa frívola e gastadora que se diverte com uma taça de champanhe na mão enquanto o povo passa fome. Os brasileiros a consideram tanto como a encarnação da mulher ideal, tanto como a representação dos ideais rançosos de uma burguesia conservadora.

Marcela Temer, a jovem esposa do novo presidente interino, Michel Temer, fala pouco e jamais à imprensa. Essa discrição não impediu que a primeira dama, com sua plástica irrepreensível, fosse tema de um barulho quase ininterrupto nas redes sociais desde que seu marido tomou o poder, em 12 de maio.

A cólera da blogosfera começou após um perfil atordoante publicado pela revista Veja, catalogada politicamente à direita. Intitulado "Bela, recatada e do lar", o texto revela a vida movimentada da jovem mãe de 33 anos, formada em direito, mas que tem no seu currículo apenas um breve emprego de recepcionista e duas participações em concursos de Miss São Paulo: levar seu filho Michelzinho à escola, cuidar da casa ‘e também dela mesma’, precisa a revista, que ainda menciona duas visitas ao dermatologista. De vez em quando, também janta em grandes restaurantes com seu marido de 75 anos, que ela ama perdidamente (o nome dele está tatuado em sua nuca).

Opor o poder e a beleza.

A gente vai aprendendo…

Altamiro Borges
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Continuação do combate ao projeto do Serra: a CIA e a NSA estão vencendo


O recém-nomeado ministro José Serra, ainda quando era senador, apresentou o projeto de lei em que coloca a possibilidade de as petrolíferas estrangeiras serem as operadoras do Pré-Sal e retira a participação mínima de 30% da Petrobrás em cada consórcio desta área. Assim, existem duas propostas de formato dos contratos de partilha a serem julgadas pelos deputados: o formato atual, aprovado em 2010, e a proposta do Serra. Se existirem os objetivos que devem ser atendidos com a exploração do Pré-Sal, pode-se verificar como cada formato de contrato os impacta.

No entanto, tais objetivos não existem em nenhum documento oficial público. A situação de pouca clareza é a que mais satisfaz os lobistas porque eles valorizam os pontos em que sua proposta é positiva e escondem os pontos fracos. Assim, os tomadores de decisão são manipulados e ficam sem uma análise completa do problema.

Em vista disso, sugiro que os objetivos a serem atendidos pelo setor do petróleo com a finalidade de satisfação dos interesses da sociedade brasileira sejam os seguintes:

a) abastecer a demanda nacional de derivados e petroquímicos;

b) garantir um fluxo constante de recursos financeiros de vulto para o Estado, retirado do lucro líquido;

c) se possível, gerar excedente de petróleo, que permita sua exportação in natura, de seus derivados e produtos petroquímicos, de preferência com o maior valor agregado possível, desde que o abastecimento nacional dos próximos 40 anos não fique comprometido;

d) ativar a economia, através da maximização das compras locais;

e) aumentar a geração de emprego no país;

f) maximizar a encomenda de desenvolvimentos tecnológicos no país;

g) possibilitar ao Brasil a adoção de ações geopolíticas e estratégicas, o que só ocorre se o Estado brasileiro detiver a posse de parte do petróleo produzido;

h) minimizar a saída de divisas do país, por exemplo, através da remessa de lucros;

i) nunca produzir petróleo de forma predatória;

j) garantir ao máximo a segurança operacional;

k) tomar todas as precauções para evitar danos ambientais;

l) permitir ao Estado brasileiro ter controle sobre a produção de petróleo do país, adequando-a a seus interesses;

m) possibilitar ao Estado ter efetivo levantamento sobre o volume e os custos da produção, sem precisar montar apurado sistema de controle.

A partir deste ponto, é verificado como os dois modelos de contrato satisfazem esses objetivos. Com relação ao objetivo (a), as petrolíferas estrangeiras não querem abastecer o mercado nacional, tanto que, em todos os contratos assinados por elas, não existem cláusulas de obrigatoriedade do abastecimento do país, a menos que ocorra uma situação de extrema emergência. Quem abastece o país é a Petrobrás.

Sobre o objetivo (b), as petrolíferas estrangeiras sempre lutam pelo pagamento mínimo de tributos ao Estado brasileiro, ainda na fase de definição da legislação ou dos editais. Elas tiveram grande sucesso na definição do edital de Libra porque a contribuição para o Fundo Social acabou sendo mínima.

O objetivo (c) é mal atendido pelas empresas estrangeiras, pois só exportam o petróleo in natura, não têm interesse de construir refinarias no país e não querem participar da constituição de uma reserva estratégica para o abastecimento nacional. Todas as refinarias existentes no país pertencem à Petrobrás.

Acerca do objetivo (d), pode-se dizer que as petrolíferas estrangeiras não têm nenhum interesse de realizar compras locais. Não se empenham para satisfazer a promessa de compras locais assinada na época das licitações dos blocos, preferindo pagar multas contratuais por não satisfazerem a promessa. O monopólio foi extinto na prática em 1997, com a edição da lei 9.478, e nenhuma empresa estrangeira comprou no país, desde então, uma plataforma, que é o item mais caro do investimento. A verdade é que quem compra no país é a Petrobrás.

Sobre o objetivo (e), como a maior geração de empregos no setor de petróleo ocorre na fase de desenvolvimento do campo, especificamente na construção da plataforma, e como nenhuma empresa estrangeira comprou plataforma no país, elas geraram muito poucos empregos no país. Assim, quem gera emprego no setor de petróleo no Brasil é a Petrobrás.

Sobre contratação de desenvolvimentos tecnológicos no país, que corresponde ao objetivo (f), as petrolíferas estrangeiras encomendam quase nada no país, quando comparado com as encomendas da Petrobrás.

Sobre a possibilidade de serem assinados acordos geopolíticos e estratégicos, que compõe o objetivo (g), será impossível para o Estado brasileiro fechar tais acordos se a Petrobrás não detiver no mínimo 30% de cada consórcio, pois as petrolíferas estrangeiras irão ter a posse da maior parte do petróleo produzido e elas não aceitam remeter o petróleo para onde o governo brasileiro indicar.

O objetivo (h), relativo ao país perder o mínimo de divisas, obviamente não é bem atendido pelas empresas estrangeiras, graças às suas remessas de lucros. A Petrobrás não faz essas remessas.

Se o órgão regulador não estiver bastante atento, as petrolíferas estrangeiras tenderão a realizar produção predatória, porque, em muitas situações retirar rapidamente o petróleo do campo, mesmo sem se conseguir a retirada de todo o petróleo recuperável, maximiza a rentabilidade do empreendimento. Conter a realização deste tipo de produção, maléfica para o país, é o objetivo (i). A Petrobrás não realiza produção predatória, até porque não tem, como objetivo principal, a maximização do lucro.

Pelo fato de as petrolíferas estrangeiras terem como objetivo principal o máximo de lucro, investimentos em acréscimos da segurança do empreendimento podem ser considerados desnecessários, como aconteceu em Frade com a Chevron. Assim, para evitar abusos na redução dos investimentos em segurança visando a maximização do lucro por empresas estrangeiras, haveria a necessidade de fiscalização profunda e constante de órgão do Estado para evitar a criação de situações de risco, o que é custoso. Esta é a razão porque a Petrobrás se sai melhor que as concorrentes nos objetivos (j) e (k), pois ela prioriza a segurança, mesmo causando dano à lucratividade.

Sobre o objetivo (l), temos mais uma vez a Petrobrás o atendendo melhor que as multinacionais, porque, se ela não for a operadora, será impossível ter qualquer controle sobre o ritmo de produção de petróleo do país. Até o agente regulador do Estado no setor, a Agência Nacional do Petróleo, depois de assinada uma concessão ou um contrato de partilha, é obrigado a cumprir prazos que estão nas leis. É impossível, por exemplo, se o mercado mundial estiver inundado de petróleo, este órgão requerer a postergação do desenvolvimento de um campo, se o concessionário ou contratado for uma petrolífera estrangeira.

Sobre o objetivo (m), mais uma vez, porque as petrolíferas estrangeiras priorizam a maximização do lucro, se elas forem as operadoras, será necessário criar um sistema de auditoria sofisticado e, portanto, custoso para validar as medições e os cálculos do valor da produção e do seu custo. Só um agente do Estado irresponsável delegaria esta atividade que, se fraudada, pode representar perda considerável no pagamento de royalty e da contribuição para o Fundo Social, para petrolíferas privadas, sem um sistema de auditoria confiável.

Em resumo, a Petrobrás se sai melhor em todos os objetivos mencionados para o setor do petróleo. No entanto, seria simplista e inocente considerar a análise da atratividade da Petrobrás como operadora única do Pré-Sal concluída. O mercado do petróleo não pode ser considerado como análogo ao mercado de uma commodity.

É preciso estar consciente sobre os aspectos geopolíticos e estratégicos que a posse do petróleo representa. É preciso conhecer a atuação das petrolíferas estrangeiras em outros países, sem ser o seu de origem. É claro que, em um país com uma população consciente e com sistemas de fiscalização eficientes, elas podem trabalhar.

Sugiro que assistam ao documentário, disponível no YouTube, chamado “O Segredo das Sete Irmãs: A Vergonhosa História do Petróleo”, ou leiam o livro “O Petróleo: Uma história mundial de conquistas, poder e dinheiro” de Daniel Yergin. Uma versão bem resumida da questão é tratada no artigo de minha autoria, intitulado “Caráter das petrolíferas estrangeiras”, disponível no Correio da Cidadania. Depois de se estar consciente de como agem as petrolíferas estrangeiras, se saberá como é importante entregar nosso petróleo à nossa estatal.

Resumidamente, por causa do poder que a posse do petróleo acarreta e também pelo lucro que ele proporciona, governos foram depostos, ditadores impostos, lideranças assassinadas ou exiladas, guerras sangrentas ocorreram, etnias foram perseguidas, o ambientalista Ken Saro-Wiwa foi enforcado, além de outras atrocidades.

Dois exemplos: recentemente, o Iraque foi invadido sob acusação de possuir armas de destruição em massa e de financiar o terrorismo, as quais não foram comprovadas. Contudo a sua reserva de 115 bilhões de barris foi entregue às petrolíferas ocidentais de países financiadores da invasão.

Nos anos 80, Ronald Reagan, através de estratégia que incluía aprovar o programa militar “Guerra nas Estrelas” e também a inundação de petróleo árabe no mercado mundial, graças ao auxílio do amigo rei Fahd Al-Saud da Arábia Saudita, conseguiu desmontar a União Soviética, potência que se contrapunha militarmente aos Estados Unidos e tinha na exportação de petróleo e gás a fonte de recursos para a obtenção de várias das suas necessidades, inclusive tecnologia bélica.

Chamo a atenção para o engodo, criado para ludibriar os brasileiros, que consiste da introdução no projeto de lei da determinação que a “Petrobrás terá sempre o direito de escolher se quer ficar com o bloco a ser leiloado”. Como todo engodo, este também é completamente falso por não proteger a sociedade brasileira.

Só para efeito de raciocínio, suponha que Temer venha a ser ratificado presidente, o que não é meu desejo. Nesta situação hipotética, muitos leilões do Pré-Sal irão ocorrer e uma ordem será dada à Petrobrás para que ela declare não querer participar de nenhum leilão, o que significará a entrega do Pré-Sal às petrolíferas estrangeiras em condições não atraentes para nossa sociedade.

Outro argumento sempre lançado é que a riqueza do Pré-Sal não pode ficar adormecida debaixo da terra e, como a Petrobrás não tem recursos para explorá-la, há a necessidade de se receber ajuda das petrolíferas estrangeiras. Acontece que um país pode ter o setor do petróleo ativo, com muitas empresas estrangeiras atuando nele, e a sociedade do país não estar sendo beneficiada em nada. Além disso, existe a possibilidade de se resolver o problema de caixa de curto prazo da Petrobrás.

Para finalizar, creio que a presidente Dilma foi, momentaneamente, retirada do cargo por três razões: uma corja precisava de um presidente que boicotasse a operação Lava Jato, os políticos conservadores querem eliminar o PT e o ex-presidente Lula do mapa político do país e os Estados Unidos querem usufruir do petróleo do nosso Pré-Sal e, por isso, têm ocorrido intensas ações da CIA e da NSA no pretenso “outono brasileiro”. E, pelo visto, na Câmara e no Senado, os trabalhos da CIA e da NSA surtiram efeito.

Paulo Metri – conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania
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Por que a Folha parece estar desconstruindo o golpe que ajudou a dar?


Muitas pessoas estão perguntando: por que a Folha está desconstruindo o golpe que ajudou tanto a dar?

A resposta cabe numa palavra: marketing.

Para a Folha, interessou, até o afastamento de Dilma, derrubá-la. Nunca o jornal publicou um só editorial, por exemplo, para criticar o descarado partidarismo de Gilmar Mendes.

Nunca, também, o jornal moderou sua escandalosa cobertura da Lava Jato. Quantas vezes você viu o pedalinho na manchete?

Numa conversa gravada, Renan disse ter ouvido de Otávio Frias Filho a admissão de que seu jornal estava exagerando na Lava Jato. Mas um momento: se o dono achasse isso mesmo bastaria uma conversa com os editores para que o problema fosse desfeito.

Sobre que assuntos ele despachava com seus jornalistas para não tocar nesse tema de importância tão dramática para o país e, também, para a imagem de seu jornal? Meteorologia? Astrologia? Futebol? Novela?

Claramente ele aprovava o espaço desmedido dado à Lava Jato porque queria, como seus pares, desestabilizar Dilma.

Mas, uma vez feito o serviço, a vida tem que continuar para a Folha. O que fazer para retirar dela a fama de golpista, direitista, desonesta?

O primeiro passo, e fundamental, era mostrar ao público que ela, como dizia sua propaganda, não tem rabo preso com ninguém.

É a hora de publicar coisas que ela jamais quis publicar durante o tormento imposto a Dilma.

Se a Folha sabe fazer jornalismo, é uma questão para a qual cada um tem sua resposta. Pessoalmente, acho que não.

Mas que é excelente em marketing, isso é indiscutível.

Os Frias sabiam que o Globo imediatamente se converteria numa máquina de conteúdo chapa branca assim que Dilma fosse retirada.

A Globo voltaria imediatamente a ser o que foi na ditadura e depois em sucessivos governos até a chegada de Lula ao poder. A corrupção sumiria do noticiário. Os problemas econômicos também. Temer seria apoiado tão radicalmente quanto Dilma foi massacrada.

Crises econômicas, na Globo, agora derivam de fatores externos. A Bolsa cai e o dólar sobe já não são mais consequências do governo. São coisas que vêm de fora.

Os Frias sabiam também o que esperar da Veja: nada. A capa desta semana, por exemplo, quando gravações de conversas quase enxotaram o governo interino, foi a pílula do câncer.

O terreno estava livre para, mais uma vez, a Folha se afirmar como o ”jornal combativo, pluralista, isento, o único que dá qualquer coisa doa a quem doer”.

Tudo isso de mentirinha, mas o que é marketing senão a mentirinha em forma de frases de efeito?

Para usar o jargão publicitário, a Folha se reposicionou prontamente. As demais empresas jornalísticas, ao aderir a Temer sem escalas e sem ressalvas, a ajudaram um bocado.

De certa forma, é um retorno a uma situação antiga. No fim da ditadura, enquanto a Globo defendia os generais que a patrocinavam e o então grande Estadão publicava receitas como forma oca de protesto, a Folha começou a pregar as diretas já.

Virou, com isso, o maior jornal do Brasil.

A opinião pública mais esclarecida carregava sob os braços exemplares da Folha. Universitários eram vistos todos os dias com sua Folha nas mãos.

Tudo isso se tornou pó quando a Folha se juntou às demais companhias de jornalismo para derrubar um governo progressista.

O jornal hoje é desprezado pelo mesmo público que o louvou no passado. O mesmo processo que pegou antes a Veja — a rejeição terminante pelos leitores mais esclarecidos — acabou depois por alcançar a Folha.

Agora é hora de tentar refazer a imagem do jornal.

É possível? Pessoalmente, creio que a melhor resposta foi dada, num artigo recente, pelo ex-ombudsman da Folha Mário Vítor Santos.

Ele notou que, assim como a Nova República se encerra com o golpe, o jornalismo tal como o conhecemos por muitos anos se degradou irremediavelmente quando as empresas passaram a fazer propaganda anti-PT.

Os leitores terão que ser muito ingênuos para acreditar nos bons propósitos desta nova velha Folha.

Credibilidade, como a virgindade, uma vez perdida, para sempre perdida.

Evoco uma frase de Wellington para fechar o artigo: quem acredita nos Frias acredita em tudo.

Paulo Nogueira
No DCM
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Os grampos de Machado detonaram a versão de Moro para a corrupção no Brasil

Ele
Tudo indica que o vazador das conversas de Sérgio Machado é o próprio Sérgio Machado.

Machado acabou, com isso, causando um curto circuito na Lava Jato. O primeiro a se manifestar foi o delegado Igor Romário de Paula. “O que nos preocupa somente é que isso (os áudios) venha a público dessa forma, sem que uma apuração efetiva tenha sido feita antes”, afirmou ele, segundo o Globo.

Igor está dizendo que há vazamentos bons e ruins. Os primeiros são os que são feitos pela própria PF. Dias depois, foi Sérgio Moro quem deu detalhe.

Apresentou-se num simpósio de direito constitucional em Curitiba e criticou os projetos de lei sobre a delação premiada em tramitação no Congresso — os dois, sintomaticamente, de autoria do deputado petista Wadih Damous.

“Eu fico me indagando se não estamos vendo alguns sinais de uma tentativa de retorno ao status quo da impunidade dos poderosos”, falou Moro.

Moro, de acordo com o Estadão, achou “coincidência” que o autor seja do PT. “A corrupção existe em qualquer lugar do mundo. Mas é a corrupção sistêmica não é algo assim tão comum.”

Nem uma palavra sobre as tentativas explícitas de gente como Jucá e Sarney barrarem as investigações através de um impeachment. Nem um mísero muxoxo sobre o que foi revelado nos papos de Machado.

O fato é que os áudios de Sérgio Machado quebraram as pernas da história oficial do time de Moro. Até ele surgir na Folha, toda a narrativa da LJ estava nas mãos dos delegados, que vazavam para a imprensa o que a mídia desejava — ou seja, a criminalização do governo Dilma e do projeto petista de corrupção sistêmica.

Não custa lembrar o que Moro escreveu em seu ensaio sobre a Mãos Limpas. “Os responsáveis pela operação mani palite ainda fizeram largo uso da imprensa”, ele registra. “Tão logo alguém era preso, detalhes de sua confissão eram veiculados no ‘L’Expresso’, no ‘La Republica’ e outros jornais e revistas simpatizantes.”

Sérgio Machado quer atrelar o caso dele aos de Renan Calheiros e de Romero Jucá e ficar no STF. No caminho, tirou de Moro o manto de dono da verdade. A rapinagem, os acordos, os corruptos são suprapartidários. A questão é mais complexa.

Ele não é qualquer um. Machado foi um cardeal do PSDB, líder do partido no Senado, braço direito de Tasso Jereissati e próximo de FHC.

Foi companheiro do Tasso no CIC (Centro Industrial do Ceará), que pariu o pensamento do jovem empresariado cearense e em 1986 derrotou os coronéis e promoveu uma mudança no estado.

Orgulhava-se de ter sido o mais longevo presidente da Transpetro, o braço logístico da Petrobras. Foi tucano por dez anos, até migrar para o PMDB. “Renan, eu fui do PSDB dez anos, Renan. Não sobra ninguém, Renan”, afirmou.

Por isso, Aécio, por exemplo, sabe que está frito. Não só ele, evidentemente.

Machado implodiu o conto de terror que Moro e seus agentes estavam tocando com sucesso. O controle foi perdido para sempre. Os mocinhos continuam em falta, mas o número de bandidos ficou do tamanho do Brasil.

De tabela, ajudou a destruir o governo do interino pelos intestinos — a pá de cal, já que Michel e seus capangas são garantia de tiro no pé todos os dias.

Kiko Nogueira
No DCM
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Em novos áudios Machado e Sarney comentam a Ditadura do Judiciário e a parcialidade do PIG


Em trechos de gravações com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, o ex-presidente da República José Sarney se queixa das decisões tomadas pelo juiz Sérgio Moro em investigações contra corrupção — que chamou de "ditadura da Justiça" — e comenta sobre o afastamento de Dilma Rousseff, que, segundo Sarney, vai resistir "até a última bala" no processo de impeachment. Os trechos foram divulgados ontem (26) pelo Jornal Nacional, da TV Globo. Segundo o telejornal, as conversas foram gravadas em março. Machado fez acordo de delação premiada e se tornou colaborador da Justiça.

Na conversa gravada, Sarney e Machado criticam os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a mídia e a comunidade jurídica por não se manifestarem contra as ações de Sérgio Moro, que é responsável por autorizar as ações da Operação Lava Jato.

De acordo com o telejornal, Sarney diz que "Moro está perseguindo por besteira". Machado responde que "esse homem tomou conta do Brasil. Inclusive, o Supremo fez porque é pedido dele. Como é que o Toffoli e o Gilmar fazem uma p*** dessa? Se os dois tivessem votado contra não dava. Nomeou uns ministros de m*** com aquele modelo". "Não teve um jurista que se manifestasse. E a mídia tá parcial assim. Eu nunca vi uma coisa tão parcial. Gente, eu vivi a revolução. Não tinha esse terror que tem hoje, não. A ditatura da toga tá f***", acrescentou o ex-presidente da Transpetro.

José Sarney disse que "a ditadura da Justiça tá implantada, é a pior de todas". Em seguida, Machado respondeu: "E eles vão querer tomar o poder. Pra poder acabar o trabalho" 

Eduardo Cunha e eleições

Na conversa, Sarney afirma que quem deveria assumir a presidência é Eduardo Cunha, antes da realização de eleições. O deputado, que era o terceiro na linha sucessória, acabou afastado da presidência da Câmara pelo Supremo Tribunal Federal (STF) algumas semanas depois da gravação da conversa. No caso de um novo pleito presidencial, ambos avaliam que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) não sairia "de jeito nenhum" vitorioso, e dizem acreditar na força de um juiz como candidato. Dois meses antes de Dilma ser afastada pelo Senado, quando a conversa foi gravada, Machado e Sarney dizem que a presidenta deve "sair de qualquer jeito", e especulam que o vice-presidente Michel Temer, hoje presidente interino, deve cair em seguida.

No áudio, Machado pergunta a Sarney se Michel Temer não assumisse a presidência do país quem seria o nome. Sarney responde que deverá ser eleição e assumirá um "Joaquim Barbosa desses da vida". Machado responde que será "um Moro. O Aécio pensa que vai ser ele, não vai ser não". Sobre a possibilidade de Aécio Neves assumir, Sarney diz "que não vai ser ele, de jeito nenhum".

Então, Machado questiona quem assumiria a presidência. Sarney diz que será Eduardo Cunha. Machado reforça: "Ele não vai abrir mão de assumir, não".

"No Supremo não tem. Não tem ninguém que tenha competência pra tirá-lo. Só se cassarem o mandato dele. Fora daí, não tem. Como é que o Supremo vai tirar o presidente da Casa?", acrescenta Sarney, conforme a reportagem.

Dilma Rousseff

Na conversa gravada, tanto Machado quanto Sarney reclamam da insistência de Dilma em permanecer no cargo. Segundo o ex-presidente, ela irá resistir "até a última bala". Para ele, Lula estaria em depressão.

"Ela não sai. Resiste. Diz que até a última bala", diz Sarney.

Em outro trecho, Machado pergunta se "acabou o Lula".  Sarney responde que sim e diz que "Lula, coitado, ele está numa depressão tão grande." Machado afirma que "não houve nenhuma solidariedade da parte dela"

O ex-presidente Sarney diz ainda que  os empresárioe e políticos não devem arcar sozinhos com os problemas envolvendo a Petrobras. "Tudo isso foi...é o governo, meu Deus! Esse negócio da Petrobras são os empresários que vão pagar, os políticos! E o governo que fez isso tudo?" 

Respostas

A Agência Brasil não conseguiu contato com a assessoria de Sarney.

Ao Jornal da Globo, Sarney deu resposta semelhante a da nota divulgada na quarta-feira (25), quando se queixou do vazamento de conversas particulares suas com Machado, afirmando que sua relação com o ex-presidente da Transpetro é de amizade. "As conversas que tive com ele nos últimos tempos foram sempre marcadas, de minha parte, pelo sentimento de solidariedade, característica de minha personalidade. Nesse sentido, muitas vezes procurei dizer palavras que, em seu momento de aflição e nervosismo, levantassem sua confiança e a esperança de superar as acusações que enfrentava", disse Sarney.

As conversas entre Machado e membros da cúpula do PMDB começaram a vir à tona na última segunda-feira (23), quando o jornal Folha de S. Paulo publicou trechos de áudios em poder da Procuradoria-Geral da República (PGR) em que, segundo a reportagem, o ministro do Planejamento Romero Jucá teria sugerido a formação de um "pacto" para conter a Lava Jato. Jucá anunciou que iria se licenciar do cargo e foi exonerado no dia seguinte.

Na sequência, a divulgação pela imprensa de trechos inéditos de conversas gravadas por Machado com o presidente do Senado, Renan Calheiros, e o ex-presidente José Sarney indicam a preocupação com os desdobramentos da Lava Jato por parte dos políticos, que estariam articulando para restringir as consequências da operação.

Ontem (26), em nota divulgada pela presidência do Senado, Renan disse que "não tomou nenhuma iniciativa" ou fez gestões para "dificultar ou obstruir" as investigações da Operação Lava Jato. Segundo o texto, as investigações da Lava Jato são "intocáveis".

Felipe Pontes
Na Agência Brasil





Em um novo trecho das conversas gravadas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com políticos do PMDB, o ex-presidente José Sarney diz que Lula teria se arrependido da escolha de Dilma para sucedê-lo na presidência da República./

A conversa foi gravada por Sérgio Machado na casa do ex-presidente José Sarney. Nesse diálogo inédito, eles falavam sobre a presidente afastada Dilma Rousseff e sobre o ex-presidente Lula. O nome de Lula não é citado diretamente, mas para os investigadores fica claro que a conversa é sobre ele.

Machado: Agora, tudo por omissão da Dona Dilma.

Sarney: Ele chorando. O que eu ia contar era isso. Ele me disse que o único arrependimento que ele tem é ter eleito a Dilma. Único erro que ele cometeu. Foi o mais grave de todos.

Em gravação citada pela Folha de S.Paulo entre machado e o presidente do senado Renan Calheiros, o assunto também é Lula, mas a conversa é sobre envolvimento do ex-presidente no esquema do mensalão do PT.

Segundo a Folha, Renan Calheiros afirma que Lula havia saído, Ou seja, não processado no mensalão porque os pagamentos ao marqueteiro Duda Mendonça no exterior não foram investigados a fundo quando vieram a público.

Renan: O problema do Lu...por que que o Lula saiu [não foi acusado no processo do mensalão]? Porque o Duda [Mendonça, marqueteiro] fez a delação, na época nem tinha [a lei], o Duda fez a delação, e disse que recebeu o dinheiro fora e ninguém nunca investigou quem pagou, né? Este é que foi o segredo.

Duda Mendonça foi o marqueteiro da campanha vitoriosa de Lula em 2002. Ele acabou absolvido no julgamento do mensalão.

Em outro trecho, também publicado pela Folha, Renan e Machado se referem ao tríplex e ao sitio que os investigadores afirmam que são de propriedade do ex-presidente. Lula nega ser o dono. Os dois citam uma quantia em dinheiro que Lula teria sem mencionar a origem. Reportagem da revista Veja mostrou que a empresa de palestras de Lula teria faturamento semelhante à quantia citada por Machado.

Machado:Botou na real. Aí [inaudível] umas besteiras, como a Marisa diz, besteira. Ele tem R$ 30 milhões em caixa. Como é que não comprou um apartamento, uma p*** [inaudível]. P***, umas m***, um sítio m***, um apartamento m***.

Nas gravações que fez de conversas com integrantes da cúipula do PMDB, Sérgio Machado, mostrou que ajudou aliados. Os diálogos não permitem dizer que tipo de ajuda foi essa. Um deles, segundo os investigadores, foi Gabriel Chalita. Na gravação, machado afirma que contribuiu para o Michel Temer, e faz referência a campanha de alguém que ele chama apenas de menino. Os investigadores identificam esse menino como Challita, que concorreu pelo PMDB à prefeitura de São Paulo, em 2012. Os diálogos não revelam de que forma foi a contribuição.

Machado: O Michel, presidente...lhe dizer...eu contribuí pro Michel.

Sarney: Hum.

Machado:Eu contribuí pro Michel...não quero nem que o senhor comente com o Renan... eu contribuí pro michel pra candidatura do menino...falei com ele até num lugar inapropriado que foi na base aérea...

Sarney, em seguida, aparenta preocupação com a revelação e quer saber se uma ajuda que ele próprio recebeu de Machado é do conhecimento de mais alguém.

Sarney:Mas alguém sabe que você me ajudou?

Machado: Não, sabe não. Ninguém sabe, presidente.

Além das gravações, Sérgio Machado já deu vários depoimentos aos investigadores, que estão agora analisando todas essas informações trazidas pelo ex-presidente da Transpetro. A delação premiada dele foi homologada pelo Supremo Tribunal Federal e, a partir de agora, começa uma nova etapa da apuração. Os senadores Renan Calheiros, Romero Jucá e o ex-presidente José Sarney podem ser chamados a dar explicações.

O presidente da República em exercício, Michel Temer, negou que tenha pedido doação a Sérgio Machado para a campanha de Gabriel Chalita. Na nota enviada por sua assessoria, Temer diz também que não foi candidato nas eleições municipais de 2012, e não recebeu nenhuma contribuição. O presidente em exercício afirma ainda que nunca se encontrou em lugar inapropriado com Sérgio Machado.

O ex-secretário de Educação da prefeitura de São Paulo, Gabriel Chalita, afirmou, também por nota, que não conhece Sérgio Machado, e que todos os recursos recebidos na campanha dele foram legais, fiscalizados e aprovados pelo Tribunal Regional Eleitoral.

A assessoria de imprensa do Instituto Lula enviou uma nota em que diz que o ex-presidente Lula já teve seu sigilos bancários e fiscais quebrados, analisados e divulgados, e que cabe aos autores das frases e das gravações comentarem suas declarações privadas divulgadas ilegalmente.

A presidente afastada Dilma Rousseff disse que que não vai comentar as declarações de José Sarney e de Sérgio Machado.

O presidente do Senado, Renan Calheiros, também não vai comentar.

O advogado de José Sarney, Antônio Castro de Almeida Castro, disse que o ex-presidente não vai responder fragmentos do que está sendo vazado e que pediu cópia da delação de Sérgio Machado ao STF para poder responder de forma contextualizada.

Antonio Carlos de Almeida Castro também é advogado de Duda Mendonça e, sobre o cliente, disse que a afirmação de que Lula não foi processado no mensalão por causa da delação do publicitário não tem sentido. Almeida Castro disse que Duda não protegeu ninguém, foi processado criminalmente no mensalão e foi absolvido pelo pleno do Supremo.

A defesa do ex-presidente da Transpetro disse que Sérgio Machado não pode se manifestar, porque a delação ainda está sob sigilo.



Em diálogo gravado, e de posse da Procuradoria-Geral da República, o ex-presidente José Sarney (1985/1990) criticou pesadamente a Justiça. “A ditadura da Justiça tá implantada”, disse Sarney, em meio a conversa com citações ao juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, e ao Supremo Tribunal Federal.

Sarney conversa com o ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, alvo da Lava Jato. Em dezembro de 2015, a Polícia Federal deflagrou a Operação Catilinárias e fez buscas na residência de Machado. Acuado, o executivo decidiu gravar conversas com expoentes do PMDB, como o ex-ministro do governo interino Michel Temer, Romero Jucá, e o presidente do Congresso, Renan Calheiros.

O diálogo entre Sarney e Sérgio Machado ocorreu em março.

Em dado momento eles atacam o Judiciário, conforme revelou a repórter Camila Bonfim, da TV Globo, que teve acesso com exclusividade aos áudios.

Sobraram hostilidades também para a imprensa.

“Sérgio Machado: Não teve um jurista que se manifestasse. E a mídia tá parcial assim. Eu nunca vi uma coisa tão parcial. Gente, eu vivi a revolução. Não tinha esse terror que tem hoje, não. A ditadura da toga tá foda.

José Sarney: A ditadura da Justiça tá implantada, é a pior de todas!

Sérgio Machado: E eles vão querer tomar o poder. Prá poder acabar o trabalho.
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José Trajano critica a ESPN por convidar Danilo Gentili para o “Bate-Bola” — assista


O tradicional “Linha de Passe”, da ESPN Brasil, ofereceu um momento diferente aos espectadores na noite de sexta-feira (27). Abrindo o programa, José Trajano ofereceu solidariedade às mulheres vítimas de estupro no Brasil e apoio à campanha pelo fim da “cultura do estupro”.
Em seguida, dizendo representar um grupo na ESPN, Trajano fez um protesto. “Porque o canal abrigou esta semana um personagem engraçadinho, que se porta como um sujeito que faz apologia do estupro. Em nome do humor, dizendo que no humor cabe tudo. Esse grupo ficou enojado com a presença dele”.

Embora não tenha citado o nome, a referência foi a Danilo Gentili, que na última terça-feira (24) participou do “Bate-Bola Debate”. Em um comentário que ficou famoso no Twitter, o humorista escreveu: “O cara esperou uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela. Todos sabemos o nome que se dá pra um cara desses: Gênio”.

Segundo Trajano, Gentili foi convidado ao programa da ESPN “talvez por descuido da produção, uma produção alienada e não comprometida com o que acontece no país.” O jornalista foi diretor de jornalismo da emissora por 17 anos, até 2012. Desde então, atua como comentarista no canal.

Assista abaixo:



Maurício Stycer
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Nota Oficial


Diante da interpretação leviana que vem se dando aos projetos de lei de minha autoria, venho esclarecer o seguinte:

Apresentei o PL nº 4372/2016, com o objetivo de aperfeiçoar a figura da delação premiada, adequando-a aos princípios constitucionais. Dizer que o projeto cria embaraços à delação é simplesmente mentiroso.

A minha proposição  funda-se na necessidade de tornar esse instituto compatível com os direitos e garantias fundamentais previstos na Constituição da República, de 88.

Além disso, o projeto torna crime o vazamento de informações que correm sob segredo de justiça. Nos últimos anos, vazamentos seletivos e sistemáticos, quase sempre movidos por interesses políticos estranhos ao bom direito, se transformaram em grave ameaça ao Estado Democrático de Direito.

Outro ponto fundamental do PL 4372 é o que enfatiza o caráter voluntário da delação premiada, justamente para evitar que seja utilizada como instrumento de coação, o que fere a dignidade da pessoa humana.

Já o PL nº 4577/16 apenas torna efetivo o que já se encontra na Constituição: ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória. É o princípio da presunção de inocência. Basta imaginar alguém que seja encarcerado após a decisão de segunda instância e anos depois de preso ser absolvido nos tribunais superiores. Cumpriu pena injustamente. Qual o preço de tamanha injustiça? Hoje, tem-se em mente os políticos e empresários corruptos, que sempre dão um jeito de se safar. Mas, na verdade, quem sofre de fato é a população pobre, vulnerável e sem direitos.

Esses projetos foram amplamente debatidos por juristas, advogados e magistrados e protocolados bem antes da publicação dessas gravações. Nada têm de coniventes com o crime. Os que defendem tese contrária defendem, na verdade, a barbárie e o desrespeito a direitos e garantias fundamentais.

Estou na linha de frente do combate à corrupção. Mas isso não deve ser incompatível com o respeito à Constituição e às leis. Aliás, ninguém é dono exclusivo do combate ao crime.

Deputado federal Wadih Damous
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Vídeo sensacional! De quem o FHC fugiu!

"Golpistas, fascistas, não passarão!"


Na sessão de abertura da LASA, o maior Congresso de Estudos da América Latina no mundo, centenas de pessoas se vestiram de preto, em luto pelo atentado contra a democracia no Brasil. Entoando palavras de ordem, acadêmicos, ativistas e intelectuais de todo continente mostraram, no coração de Nova York, que golpistas e fascistas não passarão!‪#‎ForaTemer



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FHC: Embaixador do golpe no Brasil

No segundo dia da LASA, o maior Congresso de Estudos da América Latina no mundo, que acontece em Nova
York, brasileiros se vestem de preto em luto contra o golpe no Brasil.


Sem se preocupar com a existência de crime de responsabilidade, o ex-presidente move desde 2014 então campanha aberta pela remoção da presidente eleita.

A Latin American Studies Association (LASA) convidou para a mesa principal de seu próximo encontro, que ocorrerá de 26 a 31 maio, em Nova York, Fernando Henrique Cardoso e Ricardo Lagos, ex-presidente do Chile, para falarem sobre os caminhos da democracia na América Latina. O evento foi organizado por Maurício Font, amigo pessoal de FHC e organizador do livro “Charting a New Course”, uma coleção de textos mais ou menos acadêmicos antigos e muitos discursos políticos do senador e presidente, proferidos durante seus mandatos. O apresentador da sessão é nada menos que o próprio presidente da LASA, Gilbert Joseph. Em suma, o evento foi desenhado para ser a joia do congresso da associação.

Logo que a programação do congresso foi anunciada, começou a reação de acadêmicos filiados à LASA, brasileiros, norte-americanos e de outros países, que viam na participação de FHC em sessão tão importante do congresso para falar de democracia uma ofensa e um grave erro, pois ele e seu partido, o PSDB, lideram o movimento de ataque às instituições democráticas brasileiras com o objetivo de remover Dilma Rousseff da presidência conquistada nas urnas em 2014. Organizou-se um abaixo-assinado para pedir o cancelamento do convite, que obteve centenas de assinaturas. Os amigos de FHC, quase nenhum filiado à associação, revidaram com um outro abaixo-assinado que acusava o primeiro de promover a censura à liberdade de expressão. Perante tamanha grita, a LASA reagiu com uma solução de compromisso: trocaram o nome da sessão para “Fifty Years of Latin American Public Life: A Dialogue about the Challenges of Politics, Scholarship, and History”, e criaram uma mesa para acomodar gente crítica ao impeachment em outro slot da conferência, bem longe da Presidential Session.

Plus ça change plus c’est la même chose, diria a gente cheirosa de Higienópolis, pois, a despeito do novo nome da sessão, FHC terá garantido para si um microfone aberto para falar o que quiser sem qualquer contraditório, a não ser eventuais perguntas da audiência ao final, que ele pode responder se e como quiser. Será tratado como acadêmico e estadista, ainda que é na verdade seja ex-acadêmico e ex-estadista. Não produz texto verdadeiramente acadêmico há décadas e deixou a presidência há 14 anos.

Latin American public life! É exatamente a “vida pública” de FHC que o coloca em suspeição para desempenhar tal papel no encontro da LASA. Para provar o que estou dizendo, faço aqui uma análise rápida das colunas mensais publicadas pelo ex-presidente no jornal O Estado de S. Paulo e, eventualmente, replicadas em O Globo desde a campanha eleitoral de 2014. A seleção não tem nada de aleatória: compreende todos os textos do ex-sociólogo publicados durante este período nos jornais, listados na página do Instituto FHC.

Desde a derrota eleitoral, o PSDB e a grande mídia brasileira (principalmente Grupo Globo, Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo e Grupo Abril) tentaram por vários canais reverter o resultado eleitoral: rejeição de contas de campanha no TSE, rejeição das contas do governo no TCU, mobilização de grupos de direita e extrema direita, aliança com os setores mais corruptos e reacionários do sistema político brasileiro, etc. O espetáculo da votação do impeachment da Câmara, que assombrou o mundo e cobriu a todos nós brasileiros de vergonha, foi só o ápice de um sem número de ações não menos vexatórias.

FHC foi protagonista neste processo. Presidente de honra do PSDB, ele usou seus artigos de jornal para dar o tom do ataque ao governo Dilma, feito pela via do esgarçamento das instituições democráticas do país: Judiciário, MP e PF manipulados politicamente e Câmara sob a batuta de um facínora, cooperando para que um processo sem base substantiva lograsse o feito de cancelar o resultado do voto popular. Vergonha é o termo aqui, ou decoro, seu sinônimo. Isso faltou a muita gente durante o processo: ao juiz Sergio Moro, cabeça da operação Lava Jato e violador contumaz do Estado de Direito, a ministros do Supremo como Gilmar Mendes e Celso Mello, que atacaram publicamente Lula e o Partido dos Trabalhadores, a Teori Zavascki que sentou em cima do processo contra Cunha até o último minuto, ao Procurador Geral da República, que também atacou publicamente o PT e permitiu que seus comandados cometessem todo tipo de abuso durantes as investigações da Lava Jato, e entre outros, a FHC, ex-Presidente da República, pelo conteúdo do que escreve e fala.

Comecemos pelos meios escolhidos pelo ex-presidente para se expressar. Os jornais O Globo e Estadão são dois dos órgãos de imprensa mais reacionários do Brasil, em toda sua história. Apoiaram com empenho o Golpe Militar de 1964 e depois o regime autoritário que se instaurou. Mais tarde, no período de redemocratização, aderiram de maneira recalcitrante à mudança política. Já no período democrático, eleição após eleição, têm apoiado os candidatos do PSDB à presidência da República, fazendo uma cobertura eleitoral escandalosamente tendenciosa, contra os candidatos da esquerda, mormente do PT. Para quem não conhece os níveis absurdos de viés da cobertura eleitoral feita por O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo, visitem o site Manchetômetro (www.manchetometro.com). Em uma palavra, são jornais de direita. Até aí, o PSDB é um partido que nasceu na centro-esquerda e foi migrando para a direita à medida que o PT ocupou a centro esquerda. Hoje é, sem sombra de dúvida, um partido de direita. Assim, é natural que seu presidente de honra publique nessas mídias, marcadamente neoliberais e avessas aos movimentos sociais, pois ideologicamente ele está em seu elemento.

Claro que é triste para quem é da esquerda democrática ver um herói da teoria da dependência, como foi FHC, que ajudou a desmascarar a mente colonialista das teses da teoria da modernização e inspirou um sem número de cientistas sociais progressistas, particularmente nos EUA, se transformar em um publicista reacionário. Mas o ex-presidente foi muito além. Ele assumiu o papel de arauto de um golpe contra a democracia brasileira.

Vejamos. De maio de 2014 até o presente são 22 artigos escritos por ele e publicados nos jornais citados, segundo as informações fornecidas por seu próprio Instituto. Já no primeiro artigo FHC começa diz que a corrupção política chegou a níveis alarmantes no Brasil porque o PT tem “vocação de hegemonia”, expressão que viria a repetir neste mesmo texto e em outros artigos inúmeras vezes. De passagem, alfineta o ex-presidente Lula, sugerindo que ele é responsável por esse “desvio de personalidade” do partido. O raciocínio é que para obter a hegemonia, o PT corrompeu o sistema político. A solução propugnada por nosso publicista, que aparecerá em quase todos os textos, é uma reforma política que redunde na diminuição do número de partidos e em maior fidelidade partidária. A solução faz sentido dentro do argumento, mas FHC termina o artigo em tom de ameaça: se o sistema político não for reformado por via democrática, o será pela “vontade férrea de um Salvador da Pátria”.

No artigo do mês seguinte, o ex-sociólogo volta à carga contra o PT, agora utilizando um bordão que reaparecerá em quase todos seus artigos subsequentes: lulopetismo. Trata-se não de um termo analítico, mas depreciativo, um tipo de xingamento, tão comum nas arengas públicas mas que cientistas sociais de verdade e estadistas devem evitar. Foi cunhado provavelmente por Demétrio Magnoli, publicista de direita que frequenta as páginas dos mesmos jornais. É também intensamente empregado por Merval Pereira, jornalista que é feroz detrator de Lula e do PT e porta-voz informal das organizações Globo, e pela editoria do jornal O Estado de São Paulo. Significa basicamente uma organização partidária encastelada no poder e manipulada por uma figura carismática, no caso Lula, que a utiliza para fins sempre viciosos e deletérios. Perfaz, ao mesmo tempo, ataque duplo: ao partido e à figura de Lula.

Até o final da eleição os artigos se resumem a ataques ferozes a Lula e ao PT. FHC trata o petista como um gênio do mal, que é “mestre” em agir como se “a melhor defesa fosse o ataque”. Vai além, e comete a extrema deselegância de escrever que Lula pronuncia “zelite”, ao invés de “as elites”, caricaturando o falar do político nordestino de origem popular. E além de outras tiradas preconceituosas e racistas que se permite publicar, como dizer que o PT no governo promove o “capitalismo da companheirada”, conclama seus leitores a “tirar o Pai%u001s do labirinto lulopetista”.

Em outubro, às vésperas do segundo turno publica outro artigo, talvez já pressentindo a derrota, no qual retoma a retórica a ameça, dizendo que que a reeleição de Dilma representaria risco à economia e ao regime político.

Da derrota eleitoral em diante, as colunas de FHC tornam-se uma vitriólica campanha para deslegitimar o governo Dilma, o PT e Lula, e clamar para que as oposições, o Judiciário e o MP não sosseguem enquanto não a destituírem da presidência. Seus artigos adquirem aspecto ainda mais formulaico e inflamado; tornam-se verdadeiros panfletos de agitação golpista.

A fórmula é repetida à exaustão, com algumas variações de ênfase: começa com a leitura economicista da situação nacional, culpa Lula, o PT e Dilma, tratando-os de maneira extremamente violenta, sugere como remédio a reforma política, e às vezes outras reformas, como previdência, leis trabalhistas e impostos, e fecha conclamando as oposições, o Judiciário e o Ministério Público a apearem Dilma do cargo.

O ressentimento contra Lula que transpira nestas colunas é assustador. O ex-professor dedica textos inteiros para atacar o ex-metalúrgico, como o de agosto de 2015 e o de fevereiro de 2016. Chama-o de “língua solta”, entre outros impropérios e utiliza o termo ofensivo lulopetismo abundantemente.

Como bom publicista conservador, as reformas propugnadas são ou neoliberais (flexibilização das leis trabalhistas, diminuição do gasto público) ou focadas na diminuição da influência popular por meio do voto (sistema semiparlamentarista e voto distrital misto).

Em meados de 2015, o colunista introduz uma inovação: passa a cobrar de Dilma a renúncia, para que o impeachment seja evitado. As palavras escolhidas são dramáticas: ou Dilma “abre mão voluntariamente do poder pela renúncia” ou só “sobra o remédio do impedimento, uma espécie de morte assistida”. Essa chantagem será repetida em praticamente todos seus textos, até a votação do impeachment em abril de 2016. Na coluna publicada às vésperas da votação do processo de impeachment na Câmara dos Deputados, ele, depois de malhar o PT e o “lulopetismo” por vários parágrafos, declara que uma vez que Dilma não aceitou a renúncia, só lhe sobrará o impeachment.

FHC é tratado por muita gente, inclusive por instituições como a LASA, como se fosse um grande acadêmico, coisa que deixou de ser há muito tempo. Logo a LASA, que se consolidou ao final da década de 1960 sob a direção de pesquisadores progressistas. Muitos deles foram críticos acerbos do intervencionismo norte-americano na América Latina durante a Guerra Fria, que patrocinou tantos golpes militares, inclusive o nosso. Essa geração de latino-americanistas progressistas foi influenciada pela teoria da dependência, que lhes dava uma narrativa contra a lógica intervencionista. E Fernando Henrique Cardoso foi o autor que mais teve sucesso no “consumo da teoria da independência nos EUA”, título de um artigo de sua própria lavra. Mas assim como o professor da década de 60 não era o presidente entusiasta do neoliberalismo privatizante dos anos 90, que uma vez declarou ser o Estado incapaz de diminuir a desigualdade social – coisa que Lula provou ser uma falácia –, o publicista que hoje prega o golpe contra Dilma Rousseff não é o presidente de ontem. O PSDB caminhou muito para a direita e FHC o liderou por esse caminho. Nessa marcha para a direita acabou por cruzar os limites do decoro que se espera de um ex-presidente e do que é aceitável dentro do jogo democrático.

Não há um pingo de sociologia no que escreve FHC, quanto mais rigor acadêmico, mesmo para o nível intelectual médio dos leitores dos jornais nos quais publica seus textos. Há sim uma sanha de atingir seus inimigos políticos a cada parágrafo com todo tipo de imprecações. Há sim uma tentativa de propagandear mais reformas neoliberais e uma reforma política que mistura boas medidas, como o fim da coligação para eleições proporcionais, com medidas que vão em detrimento do poder do voto popular, como a volta do financiamento privado de campanha e a adoção do parlamentarismo no país. Há sim um ódio profundo de Lula: dos 22 artigos, somente três não destilam tal sentimento. Se não bastasse essa campanha de difamação que move contra Lula, ao saber da nomeação deste para o Ministério da Casa Civil de Dilma, FHC reagiu ferozmente chamando-o de “analfabeto” e conclamando a sociedade a reagir energicamente contra sua nomeação. E por fim, há sim uma devoção de cristão novo à causa da derrubada da Presidente Dilma Rousseff. FHC sequer se dedica a discutir em qualquer dos artigos se houve ou não crime de responsabilidade de Dilma.

A partir da derrota eleitoral de seu candidato, o ex-presidente começou uma campanha renhida. Dos dezessete artigos publicados desde então, somente quatro não tratam do assunto. Em setembro de 2015, ele inovou o argumento, adicionando uma retórica que mistura ameaça e chantagem: ou renúncia ou “morte assistida”, isto é, impeachment.

Aliado a empresas de mídia de tradição antidemocrática e elitista, que defende repetidamente em seus textos, Fernando Henrique Cardoso tem exercido desde a eleição passada o papel vexatório de arauto de um golpe político que fragilizou as instituições da democracia brasileira a ponto de tornar incerto o futuro do regime inaugurado pela Nova República com a Constituição de 1988. Agora, de arauto quer se converter em embaixador do golpe e usar o encontro da Latin America Studies Association para tal. Pela sua tradição de apoio incondicional à democracia e em respeito aos milhares de associados brasileiros, norte-americanos e estrangeiros que estão profundamente preocupados com o golpe nas instituições democráticas ora em curso no Brasil, a LASA não pode tomar o partido de FHC, permitindo que ele faça do Congresso mais um palanque na sua sombria campanha política.

João Feres Júnior
Instituto de Estudos Sociais e Políticos – IESP
Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ
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