27 de mai de 2016

Franklin Martins: Esse golpe foi organizado pela mídia


O jornalista Franklin Martins começou o seu engajamento na política aos 20 anos como estudante de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (à época Universidade do Brasil), ao ser eleito presidente do DCE da Universidade e, logo depois, vice-presidente da União Metropolitana dos Estudantes. Com a ditadura, aderiu à luta armada como militante do grupo comunista MR-8 e da Dissidência Universitária da Guanabara. Ganhou notoriedade ao ser um dos articuladores do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrik, em 1969. A ação possibilitou a libertação de 15 guerrilheiros presos. Exilado em Cuba, Chile e França, voltou com a anistia 10 anos depois. Atuou como repórter em vários veículos até chegar à TV Globo como comentarista em 1996. Em 2002, foi indicado ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom) do governo federal durante o mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva onde ficou até dezembro de 2010. 

Em palestra no Sindicato dos Engenheiros do Rio, SENGE-RJ, Franklin Martins avaliou o momento político nacional, em especial o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Para ele, a ascensão de Temer é fruto de um golpe de estado. “Esse golpe foi organizado pela mídia, é um bombardeio de informação enviesada e partidarizada”, garante. Apesar de reconhecer que o ato foi uma grande derrota para o projeto político do PT e de Lula, Franklin acredita que o povo saberá encontrar os mecanismos para fazer prevalecer os seus interesses. “Temer vai tentar impor um programa de retrocesso que o povo brasileiro não aceitará”. E completa: “O futuro é nosso”.

Como está vendo a deposição de Dilma?

Esse processo de golpe de Estado nos impactou fortemente. Estou vivendo o meu segundo golpe. No primeiro, eu tinha 15 anos. Esse agora eu tenho quase 70. A primeira reação, repetindo o Chico Buarque, é golpe de novo não. Estou convencido que não é mais o mesmo tipo de golpe de Estado. O Brasil é um país muito mais maduro, consciente, organizado e disposto a lutar pelos seus direitos. Este golpe não vai ter a longevidade da ditadura. O primeiro ponto é a democracia. Queremos resolver através do voto. É assim que formaremos maiorias e minorias políticas e organizaremos as nossas instituições. Isso é uma conquista da luta contra a ditadura, da Constituinte e do processo político posterior. É isso que os golpistas estão atacando. Vamos ser claros: eles não estão só atacando os 54 milhões de eleitores de Dilma, estão atacando os 110 milhões de eleitores. Nós estamos vivendo um retrocesso, atingindo aquilo que está na base da agenda política que é o voto. Esse golpe foi organizado pela mídia. É um bombardeio de informação enviesada e partidarizada.

O que acha da reforma política e da regulação da mídia?

O Brasil é grande na sua diversidade e precisa reduzir as desigualdades regionais. Os avanços nos últimos anos foram excepcionais, mas algumas coisas ficaram pendentes, entre elas a reforma política e a regulação da comunicação. A votação proporcional não dá certo, porque estimula o dono do mandato ao invés do partido que o elegeu. Por isso, o Congresso é cada vez mais dominado pelo dinheiro. Virou um grande balcão. Não existe chance de melhorar nas próximas eleições desta forma. A reforma política não acontece porque quem vota ela é este Congresso elitista. A regulação da mídia é urgente. As rádios e televisões são concessões. Todas os setores da economia onde vigora o sistema de concessões têm obrigações. Isso vale para a energia, transporte público urbano, aviação. Todos têm regulação que precisa ser cumprida, caso contrário perdem a concessão. Na radiodifusão não. O nosso código geral de telecomunicações é de 1962. Ele não responde pelos problemas atuais. Naquela época tinham dois milhões de aparelhos de TV, hoje todas as casas têm. Sem regulação é a lei da selva. Sempre ganha o forte. É indispensável democratizar. Não é censura. Os governos Lula e Dilma ficaram devendo nessa área. É muito difícil aprovar isso no Congresso porque os deputados têm medo de ser bombardeados pela imprensa. Os blogs e portais estão gerando informação a partir da internet. Os grupos midiáticos não têm o monopólio total, só na radiodifusão. Mas, é pouco.

A inclusão social está ameaçada?

Só é possível ter democracia, moeda estável, crescimento, com inclusão social. Senão, nada disso é possível. Fragiliza. Temos que defender a agenda que estamos construindo, defender a democracia.

E a Soberania Nacional

Nós não precisamos que os nossos ministros tirem os sapatos nos aeroportos dos Estados Unidos. Não precisamos consultar a Casa Branca para instituir um novo modelo de exploração do Pré Sal. Não precisamos ter o ok dos EUA para construir uma política de relacionamento, de integração regional, de solidariedade com a África. Ou seja: o Brasil não é o quintal dos EUA. Tem ainda uma questão geopolítica: o Brasil descobriu as maiores jazidas de óleo e gás dos últimos 30 anos. Eles estão nos atacando da forma que podem, não enviaram marines para cá, mas estão de olho na exploração.

O que acha de nossas elites? 

As elites são dinheiristas predadores, não têm projeto de país. O povo para eles é um acidente geográfico. Elas sempre governaram para um terço das pessoas. Ao contrário do governo Lula que provou que é possível governar para todos. O povo não é um estorvo, uma carga, é energia, possibilidade de crescimento. Ele precisa ter condições de se desenvolver. As elites perderam quatro eleições seguidas e querem aplicar seu projeto com Temer e se impuseram ao país. Nós sofremos uma derrota muito forte. Estamos com desafios imensos pela frente. Esse ministério do Temer é cheio de filhos de políticos, é a cara da sessão da Câmara que derrubou Dilma. O seu governo é uma improvisação absoluta, não sabe o que fazer com o país.

O que fazer agora?

Vamos fazer política, construir maiorias, tentar reduzir o isolamento. É preciso oxigenar, gerar pensamentos com o que vem de novo. Nos últimos meses, a sociedade despertou. Hoje ela quer mais, a garotada tem pautas diferentes. Existe um Brasil novo pulsando, acho que vai reforçar a luta. Eu olho para o governo Temer e para a TV Globo e digo: nós perdemos, não vamos subestimar, a democracia foi seriamente atingida. Mas, sinceramente, o futuro é nosso.

Esse golpe era irreversível? 

O futuro ao Deus pertence. Esse governo é fruto de um golpe. Ele rasgou o instituto do voto sem que Dilma tenha cometido nenhum crime de responsabilidade. Ela foi tirada do poder, posto um vice que vai aplicar um programa que foi derrotado nas eleições. É gravíssimo, mas acredito que o povo brasileiro vai resistir, vai defender a democracia. Esse golpe não prevalecerá por muito tempo.

Caminhamos para uma crise maior?

Esse governo vai sofrer uma instabilidade muito grande porque não é fruto do voto. É fruto de um golpe articulado pelas grandes corporações de mídia, pelos partidos de oposição, pelo Congresso, pelo Ministério Público, parte do judiciário que omitiu-se. O que vai sair do governo Temer? Não vai ter nenhum céu de brigadeiro não. Acho que vai tentar impor um programa de retrocesso que o povo brasileiro não aceitará.

Qual é recado para a sociedade?

O povo saberá encontrar os mecanismos para fazer prevalecer os seus interesses.

E o Supremo continuará omisso?

Nós temos Supremo?

E o papel da imprensa independente?

A imprensa independente sempre teve, nos momentos de grandes dificuldades, um papel muito importante, muito relevante. Ela tem que ser cada vez mais competente, profissional e mais leve que a mídia tradicional.

Quais são os pontos fundamentais para uma agenda nacional no país?

Depois da redemocratização, a partir da nova Constituição e da luta democrática, o país construiu uma agenda nacional de seis pontos. Primeiro ponto, a democracia, o voto. Segundo, a necessidade de uma moeda estável, terceiro é crescimento econômico, não basta ter moeda. O país tem que crescer para abrir oportunidades. Quarto é inclusão social, o Brasil é um país profundamente injusto do ponto de vista social. O quinto ponto é a redução das desigualdades regionais. Não pode concentrar todo o crescimento em São Paulo ou no Rio. Ele tem que ser distribuído para todo o país. Isso é até bom para paulistas e fluminenses, pois impede o inchaço das grandes cidades. Em sexto, a construção de uma política de soberania nacional. O Brasil não é o quintal dos EUA. Queremos boas relações com eles, mas não com o caráter de subordinação. Devemos construir relações fortes com a América Latina, a África, ter relações com outras grandes nações no mundo que não sejam os Estados Unidos. O Brasil tem de defender os seus interesses e seus valores. Esta agenda de seis pontos está ameaçada pelo golpe que levou Temer ao poder.

As utopias morreram?

Por que elas morreram? Continuam existindo.

No agenda bafafá
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EUA retiram embaixadora. Missão cumprida?

Num gesto inusitado, o presidente Barack Obama anunciou nesta quarta (24) mudanças na embaixada ianque no Brasil. A sinistra Liliane Ayalde, que ocupava o cargo nevrálgico desde 2014, será substituída pelo diplomata Peter McKinley. Seu nome ainda será submetido ao Senado dos EUA, mas já recebeu, no mesmo dia, o agrément (anuência formal) do governo brasileiro — agora sob comando do subserviente chanceler José Serra. O novo embaixador tem 62 anos e conhece bem a realidade da América Latina. Filho de estadunidenses, ele nasceu na Venezuela, fala português e espanhol com fluência e já atuou em vários países da região, sempre defendendo os interesses políticos e econômicos do império.

Segundo notinha publicada na Folha, jornal colonizado que padece do grave complexo de vira-lata, “McKinley é considerado no Departamento de Estado um diplomata experiente e talentoso — e, segundo várias fontes, uma escolha de peso. O fato de ter sido embaixador no Afeganistão, um país em guerra, é citado como prova de competência... Seu primeiro posto no exterior foi na Bolívia, onde trabalhou no setor consular. De volta a Washington, continuou trabalhando com temas latino-americanos, como pesquisador e analista de inteligência com foco em El Salvador e Cuba. Em seguida foi chefe do departamento que cuida de Angola e Namíbia e depois assistente especial para a África”.

Ainda são desconhecidos os motivos que levaram à inesperada troca na embaixada dos EUA no Brasil. Chama atenção, porém, que nos últimos meses cresceram as críticas à atuação da “diplomata” Liliane Ayalde. Ela foi acusada por vários especialistas em relações exteriores de participar, nos bastidores, do complô que resultou no impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Jornalistas e estudiosos de tema lembraram que Liliane Ayalde sempre foi destacada para desempenhar as suas funções em países “hostis” à politica imperialista dos EUA. Agora, concluída a sua missão desestabilizadora, ela deixa o Brasil sem maior alarde ou questionamentos.

Em artigo publicado neste blog em setembro de 2013, os temores sobre a atuação da “diplomata” já tinham sido apontados: "Além de chegar ao país em meio ao escândalo da arapongagem da Agência de Segurança Nacional (NSA), Liliana Ayalde também traz inúmeras suspeitas em sua própria biografia. Há quem garanta que a nova embaixadora é, na verdade, uma “espiã” do império. Durante 24 anos, ela trabalhou na Usaid — a agência ianque de “ajuda internacional”, acusada de ser um dos principais braços da famigerada CIA e de servir de fachada para operações de espionagem e corrupção. Este organismo teve ativa presença no Brasil no sombrio período da ditadura militar, financiando vários projetos de “cooperação”. Em abril passado, o governo de Evo Morales expulsou os agentes da Usaid da Bolívia, acusando-os de ingerência política".

"Liliana Ayalde substitui o embaixador Thomas Shannon, que ficou no posto três anos e meio e deixou Brasília no início de setembro. A substituição já estava prevista há três meses. Diplomata de carreira, Ayalde serviu aos EUA na Nicarágua (1997-1999), Bolívia (1999-2005), Colômbia (2005-2008) e Paraguai (2008-2011) — nações com fortes tensões políticas e que despertam enorme cobiça do império. Antes de desembarcar no Brasil, ela exercia o cargo de secretária assistente adjunta para a América Latina do Departamento de Estado dos EUA, chefiado pela sionista Roberta Jacobson... Diante desta sinistra biografia, o governo brasileiro deve ficar de olho bem aberto para acompanhar os passos da “nova embaixadora”. Os EUA já demonstraram do que são capazes para defender os seus interesses imperiais", concluía o artigo.

Ainda sobre a ação desestabilizadora da embaixadora agora substituída vale conferir o artigo de Caco Schmitt, postado no final de abril no blog RS-Urgente:

* * *

O golpe e a embaixadora dos EUA

“O controle político da Suprema Corte é crucial para garantir impunidade dos crimes cometidos por políticos hábeis. Ter amigos na Suprema Corte é ouro puro”.

A afirmação não é de agora e nem de quem critica o STF por não prender o Cunha, por enrolar a posse do Lula etc. Foi feita há cinco anos pela pessoa que hoje é a embaixadora dos Estados Unidos no Brasil, Liliana Ayalde. A diplomata exercia o cargo de embaixadora no Paraguai (de 2008 a 2011) quando se reportou ao governo norte-americano, relatando a situação do país. Ela deixou o cargo poucos meses antes do golpe que destituiu o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, mas deixou o caminho azeitado. Aqui no Brasil, no cargo desde outubro de 2013, esta personagem é cercada de mistérios e sua vinda pra cá, logo após o golpe parlamentar paraguaio, não foi gratuita.

Liliana Ayalde assumiu seu posto no Brasil cinco meses antes da Operação Lava Jato começar a fase quente. Chegou discretamente, sem entrevistas coletivas, em meio à crise provocada pela denúncia do Wikleaks de que os norte-americanos espionavam a presidenta Dilma, o governo brasileiro e a Petrobras. Segundo Edward Snowden, “a comunidade de espionagem dos USA e a embaixada norte-americana têm espionado o Brasil nos últimos anos como nenhum outro país na América Latina. Em 2013 o Brasil foi o país mais espionado do mundo”, afirmou o ex-funcionário da CIA e ex-contratista da NSA.

A mídia brasileira, por óbvio, já preparando o golpe, de modo totalmente impatriótico, não divulgou para o povo brasileiro. E escondeu a grave denúncia de Snowden, que afirmou: “NSA e CIA mantiveram em Brasília equipe para coleta de dados filtrados de satélite. Brasília fez parte da rede de 16 bases dedicadas a programa de coleta de informações desde a presidente Dilma, seus funcionários, a Petrobras até os mais comuns cidadãos, foram controlados de perto pelos Estados Unidos”.

Liliana Ayalde veio ao Brasil comandar a embaixada de um país que fortalecia o bloco chamado BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), contrário aos interesses do grande capital norte-americano; e de um país que exerce forte influência sobre os países sul-americanos com governos populares, todos contrários aos interesses militares dos Estados Unidos na América do Sul. A vinda da embaixadora pode ser mera coincidência?

Não. Segundo informações oficiais da própria Embaixada norte-americana, Ayalde chegou ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático. Trabalhou na Guatemala, Nicarágua, Bolívia, Colômbia e, recentemente, como subsecretária de Estado adjunta para Assuntos do Hemisfério Ocidental, com responsabilidade pela supervisão das relações bilaterais dos Estados Unidos com Cuba, América Central e Caribe. Anteriormente serviu como vice-administradora sênior adjunta da USAID no Bureau para América Latina e Caribe. Entre 2008 e 2011 ela serviu como embaixadora dos Estados Unidos no Paraguai”. Ou seja: sabe tudo de América Latina…

As “pegadas” reveladas

Na internet encontramos vários textos e análises feitas depois do golpe no Paraguai de 2012 que hoje ficam mais claros e elucidam os fatos. Vejam o que escreveu o jornalista Alery Corrêa , no Brasil em 5 Minutos: “O golpe de Estado contra Fernando Lugo, presidente paraguaio, começou a ser orquestrado em 2008, mesmo ano de sua eleição, a qual colocou fim ao reinado de 60 anos do partido Colorado, mesmo partido do antigo ditador Alfredo Stroessner… A mesma Ayalde assumiu em agosto de 2013, sem muito alarde, a embaixada brasileira. Segundo a Missão Diplomática dos Estados Unidos no Brasil, ‘a embaixadora Liliana Ayalde vem ao Brasil com 30 anos de experiência no serviço diplomático’. Em um momento de intenso acirramento político e disputa de poder. O impeachment entra em pauta. A imprensa mais agressiva do que nunca. Não se tratasse de política, diríamos que foi mero acaso. Mas sabemos que não existe falta de pretensão quando se trata dos interesses norte-americanos. Na verdade, eles veem crescer a oportunidade de colocar as mãos no pré-sal brasileiro e estão conscientes da chances reais que possuem com e sem o PT em cena. E certamente, todas as possibilidades já foram avaliadas pelo imperialismo norte-americano”.

Outro texto é da jornalista Mariana Serafini, no Portal Vermelho. “Em um despacho ao departamento de Estado do dia 25 de agosto de 2009 – um ano depois da posse de Lugo – Ayalde afirmou que ‘a interferência política é a norma; a administração da Justiça se tornou tão distorcida, que os cidadãos perderam a confiança na instituição’. Ou seja, apesar da agilidade do processo de impeachment, a embaixadora já monitorava a movimentação golpista três anos antes do julgamento político. No mesmo despacho afirmou que o ‘controle político da Suprema Corte é crucial para garantir impunidade dos crimes cometidos por políticos hábeis. Ter amigos na Suprema Corte é ouro puro’. ‘A presidência e vice-presidência da Corte são fundamentais para garantir o controle político, e os Colorados (partido de oposição ao Lugo que atualmente ocupa a presidência) controlam esses cargos desde 2004. Nos últimos cinco anos, também passaram a controlar a Câmara Constitucional da Corte’, relatou a embaixadora dos USA no Paraguai”.

No Paraguai, a embaixadora não ficou indiferente ao processo de impeachment, como ela mesma disse no relatório confidencial: “Atores políticos de todos os espectros nos procuram para ouvir conselhos. E a nossa influência aqui é muito maior do que as nossas pegadas”.

E deixaram muitas pegadas, segundo artigo de Edu Montesanti: “No Paraguai, os golpistas agiam em torno da embaixadora. Em 21 de março de 2011, a embaixadora recebeu em sua residência blogueiros paraguaios a fim de ‘conversar’ sobre paradigmas e diretrizes para aqueles setores societários que já estavam desempenhando importante papel na sociedade local. Em tese, para conhecer melhor o trabalho deles, discutir a importância dos blogs na sociedade e a importância da aproximação deles com os governos”.

Laboratório de golpes

Blogs, movimentos de internet, Senado, Suprema Corte… qualquer semelhança entre o golpe em curso no Brasil e o golpe paraguaio não é mera coincidência. O golpe no Paraguai é considerado um dos mais rápidos da história, consumado em 48 horas. O presidente Fernando Lugo foi derrotado no Senado por 39 votos favoráveis ao impeachment e quatro contra. Caiu em 22 de junho de 2012. Uma queda rápida, mas que teve uma longa preparação… Assim como no Brasil, cujo golpe começou a ser gestado não no dia das eleições presidenciais de outubro de 2014, quando a oposição questionou a seriedade das urnas e queria recontagem de votos, mas bem antes. Quando? Depois que o modelo paraguaio de golpe deu certo, conseguindo afastar pela via parlamentar um presidente democraticamente eleito pelo voto.

No seu artigo de junho de 2015, o jornalista Frederico Larsen afirma: “a destituição de Lugo, em 2012, foi o melhor ensaio realizado a respeito do que se conhece como golpe brando, o golpe de luva branca. Trata-se de um método para desbaratar um governo sem a intervenção direta das Forças Armadas ou o emprego clássico da violência. Para alcançar isto, basta gerar um clima político instável, apresentar o governo em exercício como o culpado pela crise e encontrar as formas de dobrar a lei para derrubá-lo. Foi isto o que, três anos atrás, aconteceu no Paraguai”.

E José de Souza Castro, em artigo no blog O Tempo, em 5 de fevereiro de 2015, profetizou: “Dilma pode sentir na pele o golpe paraguaio”. E destacou o papel da embaixadora Liliana: “No Paraguai, ela preparou, com grande competência, o golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo”.

É o que acontece agora no Brasil: um golpe parlamentar, com apoio da mídia golpista. Um golpe paraguaio.

O Paraguai foi um dos países que mais sofreram com a ditadura militar patrocinada pelos Estados Unidos, nos 35 anos do general Alfredo Stroessner (1954 – 1989). Foi a primeira democracia latino-americana a cair. Depois caíram Brasil, Argentina Chile e Uruguai. No Paraguai foi testado o modelo do combate à guerrilha a ser usado, os métodos cruéis de tortura trazidos dos USA pelo sádico Dan Mitrioni e ali nasceu a famosa Operação Condor, um nefasto acordo operacional entre as ditaduras. A CIA transformou o Paraguai no laboratório que testou o modelo de golpe militar a ser seguido e que derrubou governos populares e assassinou milhares de pessoas. Agora, o Paraguai serviu novamente de laboratório de um novo tipo de golpe está em curso no Brasil.

O que nos aguarda

Se o golpe se concretizar, o Brasil “paraguaizado” terá um destino trágico. São raros os estudos sobre o que mudou no país vizinho pós-golpe parlamentar e jurídico, mas o artigo de um ano atrás de Frederico Larsen joga uma luz sobre as verdadeiras intenções do golpe: “Suas primeiras medidas se basearam em outorgar poderes especiais ao Executivo, especialmente em matéria de segurança. Deu vida à Lei de Segurança Interna, que permite ao governo, sem aprovação do Parlamento, a militarização e declaração de Estado de Sítio em regiões inteiras do país com a desculpa da luta contra a insurgência do Exército do Povo Paraguaio (EPP). Os movimentos camponeses denunciam que com esta lei, os militares efetuam despejos e violações aos direitos humanos, favorecendo ainda mais a concentração da terra. Conseguiu aprovar a lei de Aliança Público-Privada (APP), que permite a intervenção de empresas nos serviços que são providos pelo Estado, como infraestrutura, saúde e educação. Em especial, deu um estrondoso impulso à produção transgênica no setor agrícola”.

A publicação Diálogo — revista militar digital — Forum das Américas, de 14/05/2010, manchetou a exigência da embaixadora Ayalde: ““Devem ser repudiados todos os fatos que atentem contra a vida das pessoas e contra a propriedade privada”. Portanto, os deputados golpistas representantes da oligarquia rural, senhores da terra, e da UDR que pressionam o golpista Temer para que o Exército cuide dos conflitos de terra já estão adotando o modelo paraguaio contra os movimentos sociais.

Se o golpe paraguaio vingar no Brasil, retrocederemos em todas as áreas e, mais uma vez, gerações terão seus sonhos abortados, projetos adiados e a parcela fascista, preconceituosa e enfurecida da direita virtual sairá dos computadores e ganhará, de fato, poder nas ruas…

Altamiro Borges
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No DCM
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Frota é a cara escarrada do Brasil do Temer — e, como ele, voltará em breve ao esgoto

Eles
Você pode achar tudo, menos estranha a reunião de Alexandre Frota e do dono dos Revoltados Online, Marcello Reis, com o ministro da Educação, Mendonça Filho.

Levaram “ideias para ajudar o país”, uma baboseira para combater a “doutrinação” política, religiosa e sexual. Querem agora uma reunião no ministério da Cultura e outra  com o interino Michel Temer. Vão falar de suas propostas de ensino sem “imposição ideológica, seja marxista ou de gênero”.

Devem conseguir e é justo que o façam.

Depois da avalanche de críticas, Mendonça explicou que não discrimina ninguém. “Respeito a liberdade de cada pessoa fazer suas escolhas de vida. Conheci Frota no movimento pró-impeachment”, disse.

Você está rindo. Você acha que Frota é uma aberração, um desqualificado sem chance de ser levado a sério. Bem, olhe para o governo Temer.

Frota é a gestão Temer personificada. Ele é o imbecil que repete clichês de direita, um ex-ator pornô convertido em evangélico, ele é o Jucá fazendo negócios escusos, um coxinha com anabolizantes estuprando ideias enquanto vomita Olavo de Carvalho.

Frota é o Temer por outros meios. A versão GG, semianalfabeta, entupida de drogas e lesada de um anão golpista decorativo.

Os idiotas que foram para a rua pedir o fim da roubalheira e o impeachment o criaram. Eles o admiram. Ele é um cara sincero. Ele veio do nada e hoje é recebido nos gabinetes do poder. Ele é um herói.

Quanto mais ódio, burrice e intolerância saem de sua boca, mais gostam dele. Frota é o golpe escarrado, um corrupto que gritava contra a corrupção, um pulha que responde a processos por estupro, dano material, porte de tóxicos, receptação etc e dá lição de moral.

Frota é a Veja, é o Bolsonaro, é a Fiesp de saias.

Não tem surpresa. Ou você esperava ver Chico Buarque, Marieta Severo e Fernanda Montenegro dando conselhos a um picareta como Mendoncinha?

Trata-se de um escárnio a mais em duas semanas de desastres de Michel Temer e seus capangas. Frota é brasileiro como você. Só não vive no mesmo país, como apontou o professor Vladimir Safatle. Apenas ocupa o mesmo território.

Descemos para o nível mais baixo da república. Alexandre Frota é a fotografia do golpe. A coxinhada foi a primeira a ser comida por ele. Agora é o jantar. E, com o mesmo barulho com que saiu do esgoto, vai voltar ao buraco de onde o tiraram juntamente com o Mendoncinha e o Temer.

Kiko Nogueira
No DCM
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A "não delação" de Pedro Corrêa

http://institutolula.org/nota-para-rede-globo-sobre-novas-calunias-da-revista-veja

Nota para Rede Globo sobre novas calúnias da revista Veja

Há mais de dois anos o ex-presidente Lula tem suas contas, impostos, viagens e conversas devassadas e não se encontrou nenhum fato que o associe aos desvios da Petrobrás, porque Lula sempre agiu dentro da lei.

O ex-presidente não participou, não foi conivente e muito menos organizou qualquer tipo de ação ilegal, e a os investigadores da LavaJato sabem disso.

Não se pode tomar como verdade a palavra de réus confessos, que negociam acusações sem provas em troca de sair da cadeia.

Nem se pode levar a sério mais uma reportagem caluniosa da revista Veja, que há décadas mente e faz campanha contra o ex-presidente.

Diante da evidência de mais um vazamento ilegal, os advogados do ex-presidente Lula vão requerer acesso ao suposto depoimento do réu Pedro Correia, para tomar as medidas cabíveis diante de mais uma arbitrariedade contra Lula.

Assessoria de imprensa do Instituto Lula



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Ao tentar censurar Nassif, delegado confessa viés político da Lava Jato

DPF Igor Romário: “Lava Jato se tornou algoz do governo
e do Partido dos Trabalhadores”
Não foi ato falho, daqueles que se comete no meio de um debate, entrevista ou discussão. Afinal, está no papel apresentado em juízo. Ao impetrar uma ação de indenização contra o jornalista Luis Nassif, do JornalGGN, o delegado Igor Romário de Paulo, Delegado Regional de Combate ao Crime Organizado (DCOR) da Superintendência da Polícia Federal do Paraná (SR/DPF/PR) acaba admitindo aquilo que todos falam mas que os membros da Força Tarefa da Operação Lava Jato negam: o viés político da mesma.

Segundo ele, as críticas que sofreu de Nassif no artigo que o JornalGGN publicou em 2 de fevereiro — Com excesso de poder, a Lava Jato pode ter virado o fio – tem como justificativa o fato de a Lava Jato ter sido algoz ao governo e ao Partido dos Trabalhadores. O texto contido na inicial da ação impetrada no 6º Juizado Especial Cível do Paraná diz;
A atitude do Réu é indecorosa e imoral por querer imputar condutas criminosas ao Autor apenas pelo fato desse ser um Delegado da Operação Lava Jato, Operação que se mostrou algoz ao governo e ao Partido dos Trabalhadores, exatamente o partido que o Réu defende“.
A matéria da qual o delegado Igor decidiu reclamar é justamente uma análise política de Nassif sobre a chamada Operação Triple X. Nela, ele defende:

Na ação contra Luis Nassif, o delegado Igor de Paulo não conseguiu retirar a reportagem do JornalGGN.
Na ação contra Luis Nassif, o delegado Igor de Paulo não conseguiu
retirar a reportagem do JornalGGN.
“Se havia alguma dúvida sobre o caráter politico da Lava Jato, a Operação Triple X desfaz qualquer dúvida, especialmente após as explicações dadas pelo Instituto Lula. É possível que, com os últimos exageros, a Lava Jato esteja virando o fio.

Lá, se mostra que as tais informações novas, que justificaram a autorização do juiz Sérgio Moro para deflagrar a operação, constam pelo menos desde agosto do ano passado na ação do Ministério Público Estadual (MPE) paulista sobre a Bancoop. Não havia novidade. Foram reavivadas pelos procuradores e pelo juiz Sérgio Moro apenas para criar um fato político na véspera da abertura dos trabalhos legislativos”.

Como o pedido de censura feito pelo delegado não foi atendido, ainda é possível ler o artigo de Nassif.

Se já não existiam dúvidas antes, agora é que a tese do viés político das operações se confirmou na voz de um dos seus coordenadores. Afinal, ele reconhece, a Lava Jato, “se mostrou algoz ao governo e ao Partido dos Trabalhadores”. Tudo o que se diz que este é o objetivo maior dela.

Marcelo Auler
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"Se as forças do golpe se separarem, o que fará a casa grande?"


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As futuras gerações de brasileiros sentirão vergonha do seu país se a injustiça contra Dilma não for reparada

Ainda há tempo para evitar uma barbaridade histórica
Alguns acontecimentos provocam vergonha eterna nas pessoas de um país. Futuras gerações pagam o preço dos crimes de gerações passadas.

Na Inglaterra, por exemplo, as infames Guerras do Ópio até hoje são motivo de embaraço. Merecidamente. Em meados do século 19, os ingleses destruíram a China para que pudessem vender ali o ópio que produziam na Índia.

O pretexto foi o “livre mercado”. A Inglaterra consumia seda, chá e porcelana da China. Os chineses não se interessavam por nada feito pelos britânicos. Até que os ingleses começaram a vender ópio na China.

As autoridades chineses proibiram, por razões óbvias. O imperador chinês chegou a mandar uma carta para a Rainha Vitória. Dizia que seu país vendia apenas coisas decentes para os ingleses, e não podia aceitar a contrapartida do ópio.

Proibiu este comércio criminoso. Os ingleses reagiram com uma guerra da qual a China só se reergueria mais de um século depois.

Nos livros de história, é um capítulo do qual os britânicos falam de cabeça baixa, um dos momentos mais baixos de sua existência milenar.

Tudo isso para dizer o seguinte.

O crime que está sendo cometido contra Dilma, se não for erradicado, vai pesar contra os brasileiros vindouros. Eles terão vergonha do seu país, ao mesmo tempo em que vão aprender nas escolas quem foi quem na trama suja de corruptos para derrubar uma mulher honesta.

Não é justo que a posteridade pague pelos pecados do presente.

Mesmo agora, quando ainda há muita coisa para aparecer, os fatos já são suficientemente claros para que se saiba que o que cerca o impeachment é lama em quantidade copiosa.

Ainda há tempo para reparar esta página abjeta da vida política nacional. Dilma não está morta e nem definitivamente afastada. Basta, primeiro, devolvê-la ao cargo do qual foi retirada por uma quadrilha. E, depois, punir os criminosos.

Não é fácil. Mas é muito mais difícil um país inteiro conviver, para sempre, com uma dor de consciência avassaladora. E é isso que ocorrerá se a brutal injustiça não for corrigida.

Dilma, se afastada mesmo, se tornará um mártir, e seus carrascos eternos canalhas. Mas o Brasil não precisa de mártires, e sim de justiça. Ou, pelo menos, de “decência básica”, para usar a grande frase de Orwell.

Nossos filhos e nossos netos carregarão, se nada se fizer, o peso da monstruosidade cometida contra uma mulher que ousou combater como nunca a corrupção.

Os ingleses de hoje sofrem os impactos de uma barbaridade que seus antepassados impingiram contra um país pacífico e ordeiro. Isso jamais vai passar. Nada pode alterar o caráter imundo das Guerras do Ópio, e isso ficará para sempre registrado nos livros de história da Inglaterra. Pequenos ingleses, na idade escolar, sempre se perguntarão: “Como pudemos descer tão baixo?”

É o que teremos no Brasil caso Dilma seja definitivamente afastada.

Em nome das futuras gerações, em nome da “decência básica”, isso não pode acontecer.

Paulo Nogueira
No DCM
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DCM na TVT: o fundador do MBL explica o esquema do grupo com o PSDB


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Dilma melhora seu ibope

Uma pesquisa inédita indica que, após o afastamento, a presidenta recupera parte do apoio perdido, embora mantenha um elevado índice de rejeição

Dilma passou de 18% para 33% de confiança
Foto Roberto Stuckert Filho
A expectativa política no Brasil de hoje está ancorada na resposta para a seguinte pergunta: a presidenta Dilma voltará ao poder, ou não voltará, após sofrer um “golpe de Estado suave”, para usar a sublime avaliação sobre o tema feita recentemente pelo papa Francisco?

Não há milagre capaz de sustentar com segurança uma das duas respostas possíveis a essa indagação: não e sim. Nesta ordem. Em princípio, tudo parecia perdido para Dilma, assim como parecia certo para Temer, ganhar a oportunidade de completar o restante do mandato iniciado em 2015.

Antes mesmo de tropeços na ineficiência administrativa do governo provisório e das revelações escandalosas saídas das entranhas do PMDB, surgiu uma mudança importante no comportamento do eleitor favorável à presidenta afastada.

Não é indício. É fato revelado por pesquisa inédita do Ibope, realizada após a consumação do golpe.

“Dilma passou de 18% para 33% de confiança”, diz Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, em econômica revelação dos resultados da pesquisa feita em meados de maio. Não foi feita avaliação do governo interino.

Dilma teve crescimento de 15% comparado com números de duas outras pesquisas anteriores. A primeira, já divulgada, realizada em março, entre os dias 17 e 20, e a segunda, em meados de abril, de 14 a 18 (tabela). Esta última inédita.

AvaliaçãoAs duas mostraram certa estabilidade no porcentual de confiança, mas ainda mantinham extremo o grau de desconfiança dos eleitores. Foram realizadas antes dos resultados da votação de admissibilidade do afastamento de Dilma na Câmara e no Senado.

Números da terceira pesquisa, de maio, indicam um impacto forte nos índices “confia”, para cima, e “não confia”, para baixo. A queda da desconfiança é expressiva. Caiu de 76% para 65%. Porcentuais ainda preocupantes. Projeta, porém, tendência de queda.

O resultado surpreende. Dilma, tudo indica, está em processo de recuperação política. A velocidade do caminho será ditada pelo possível fracasso do governo provisório de Temer.

Montenegro tem algumas explicações. Ele sabe, no entanto, que o Brasil não está diante de um fenômeno e alerta para um “erro” cometido pela mídia. Ela punha o foco na baixa avaliação do governo. Destacavam o “bom e ótimo” que desceu a 8%. Quase no fundo do poço. Deixava de lado, no entanto, o porcentual da resposta “Regular”.

“Existe o regular positivo. Não se deu atenção a isso. Muita gente veio do regular”, diz Montenegro. Um erro politicamente premeditado. Inserido perfeitamente no contexto do golpe.

Montenegro medita sobre a relação do grupo de eleitores “criados” pela solidariedade à Dilma. “Ainda não sei em que proporção”, admite.

Resta agora aguardar as próximas pesquisas. Elas podem inquietar alguns senadores.

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Áudios mostram que partidos financiaram MBL em atos pró-impeachment — ouça

Integrantes do MBL (Movimento Brasil Livre) em protesto de 27 maio de 2015 na Esplanada dos Ministérios, em Brasília
O MBL (Movimento Brasil Livre), entidade civil criada em 2014 para combater a corrupção e lutar pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), recebeu apoio financeiro, como impressão de panfletos e uso de carros de som, de partidos políticos como o PMDB e o Solidariedade.

O movimento negociou também com a Juventude do PSDB ajuda financeira a suas caravanas, como pagamento de lanches e aluguel de ônibus, e teria tido apoio da "máquina partidária" do DEM.

Quando fundado, o movimento se definia como apartidário e sem ligações financeiras com siglas políticas. Em suas páginas em redes sociais, fazia campanhas permanentes para receber ajuda financeira das pessoas, sem ligação com partidos.

Os coordenadores do movimento, porém, negociaram e pediram ajuda a partidos pelo menos a partir deste ano. Atualmente, o MBL continua com as campanhas de arrecadação nos seus canais de comunicação, mas se define como "suprapartidário". Aliás, a contribuição financeira concedida é vinculada ao grau de participação do doador com o movimento. A partir de R$ 30, o novo integrante pode ter direito a votos.

Já os partidos políticos que teriam contribuído com o MBL têm versões distintas para explicar o caráter e a forma desses apoios, chegando em alguns casos a negá-los. Conheça cada caso.

PMDB e os panfletos

Em imagem de dezembro de 2015, coordenadores do
MBL (entre eles, Fernando Holiday, coordenador 
nacional, abaixo, à direita) posam para foto ao
lado de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), então 
presidente da Câmara dos Deputados
O PMDB teria custeado a impressão de panfletos para o MBL divulgar as manifestações pró-impeachment ocorridas pelo país no último dia 13 de março. O presidente da Juventude do PMDB, Bruno Júlio, informou que solicitou ao presidente da Fundação Ulysses Guimarães, Moreira Franco, que custeasse 20 mil panfletos de divulgação dos atos, com a inscrição "Esse impeachment é meu". A assessoria de Moreira Franco nega.

O dirigente da JPMDB afirma que o material foi pago pelo partido e entregue ao MBL, que distribuiu para suas sedes regionais e espalhou por todo o país. "O MBL auxiliou na logística, distribuindo os panfletos e colando cartazes, mas a Fundação Ulysses Guimarães pagou porque se tratava de uma campanha nossa, da Juventude do PMDB, que nós encampamos", explica.

O lema "Esse impeachment é meu", no entanto, pertence ao MBL, que estampou a frase em camisetas, faixas e cartazes, além de tê-lo utilizado em discursos e vídeos gravados por suas lideranças.

Procurada, a assessoria do atual secretário-executivo do PPI (Programa de Parcerias e Investimentos) do governo interino, Moreira Franco, disse, no primeiro momento, que o ex-ministro da Aviação Civil do governo Dilma não se recordava se teria pago ou não pela impressão. Posteriormente, negou que o pagamento tenha ocorrido e afirmou que nem Moreira Franco nem o PMDB jamais trabalharam em parceria com o MBL. 

Questionado sobre o apoio, o MBL não confirmou o custeio dos panfletos, disse apenas que o PMDB fazia parte da comissão pró-impeachment.

Solidariedade e DEM

Em uma gravação de fevereiro de 2016, Renan Antônio Ferreira dos Santos,  um dos três coordenadores nacionais do MBL, diz em mensagem a um colega do MBL que tinha fechado com partidos políticos para divulgar os protestos do dia 13 de março usando as "máquinas deles também".

Renan diz ainda que o MBL seria o único grupo que realmente estava "fazendo a diferença" na luta em favor do impeachment de Dilma Rousseff. 

Ouça a gravação abaixo.



Renan Santos fala sobre a ligação do MBL com partidos políticos

Em nota, Renan Santos confirmou a autenticidade do áudio e informou que o comitê do impeachment contava com lideranças de vários partidos, entre eles, DEM, PSDB,  SD e PMDB.

"As manifestações não são do MBL. 13 de Março pertence a todos os brasileiros, e nada mais natural que os partidos de oposição fossem convidados a usar suas redes de divulgação e militância para divulgar a data. Não houve nenhuma ajuda direcionada ao MBL. Pedimos apenas que divulgassem com toda energia possível. Creio que todos o fizeram," informa nota do MBL.

Braulio Moraes, presidente da Juventude do DEM no DF, 
entrega camiseta do MBL ao senador Ronaldo Caiado (DEM-GO)
A assessoria de imprensa do Solidariedade confirmou a parceria: "O apoio do Solidariedade ao MBL foi com a convocação da militância para as manifestações do impeachment, carro de som nos eventos e divulgação dos atos em nossas redes."

Já o DEM informou que atuou em conjunto com o MBL, mas negou qualquer tipo de ajuda financeira ou apoio material ao movimento. "O Democratas se uniu aos movimentos de rua em favor do impeachment. Não houve nenhum tipo de apoio financeiro, apenas uma união de forças com os movimentos de rua, dentre eles o MBL", disse o partido.

PSDB

MBL e os partidos: da esquerda para a direita, Bráulio Moraes, da Juventude do DEM, Fernando Holiday, do
MBL, Victor Vilela Pupupim, da Juventude do PSDB, e Alexandre Neves, da Juventude do Democratas
Em gravação feita no dia 5 deste mês o secretário de Mobilização da Juventude do PSDB do Rio de Janeiro, Ygor Oliveira, dá detalhes a seus colegas de partido sobre uma "parceria com o MBL" para financiar uma manifestação que veio a ocorrer no dia 11 de maio, em Brasília, durante a votação no Senado que resultou no afastamento de Dilma Rousseff da Presidência da República.

Ouça a gravação.



Ygor Oliveira, da Juventude do PSDB-RJ, fala de parceria com MBL

Oliveira confirmou a autenticidade da mensagem, mas disse que a "parceria" acabou por não se concretizar. "Isso foi um rascunho de uma parceria, que acabou não dando certo", afirmou.

Ele disse também que essa fora a primeira iniciativa conjunta entre a Juventude do PSDB e o MBL, e que não pretende realizar outras: "Foi o primeiro projeto conjunto (de financiar a viagem de manifestantes a Brasília), e por ora não existe nenhuma outra iniciativa em vista."

Procurado pela reportagem, o MBL confirmou a "aproximação ao PSDB", mas não informou se a parceria com o partido para pagar o lanche e o transporte de manifestantes no dia 11 de maio efetivamente se concretizou.

Em nota, Renan Santos, coordenador nacional do movimento e filiado ao PSDB entre os anos 2010 e 2015, afirmou que "o MBL não criminaliza a política nem os políticos. A aproximação com as lideranças (políticas) foi fundamental para pavimentar o caminho do impeachment."

Pedro Lopes e Vinícius Segalla
No Uol
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Pilar del Río: “Vamos trazer de volta a sensatez ao Brasil”

Presidenta da Fundação José Saramago fez dura declaração sobre o processo político no Brasil e pediu a restituição da democracia no país


A jornalista Pilar del Río acredita que o processo de destituição da presidenta Dilma Rousseff e a posse do governo provisório de Michel Temer no Brasil é um golpe contra a democracia. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, a presidenta da Fundação José Saramago afirma que é preciso “restituir a democracia”.

“Considero que é de direito que todos nós opinemos sobre o que está acontecendo no Brasil”, justifica Pilar na mensagem gravada para um evento promovido pelo ator Gregório Duvivier na última semana em Lisboa. Ela não pode comparecer e optou por enviar o vídeo que, mais tarde, foi divulgado na internet. Conhecida também por suas posições políticas, Pilar ainda não havia feito manifestação pública sobre a situação do Brasil.



“Se está contrariando a democracia de uma maneira tão grosseira e descarada”, diz Pilar. A jornalista critica o processo que levou ao afastamento da presidenta Dilma Rousseff e afirma que fala “pelas cidadãs e cidadãos, pelos jovens, pelos mais velhos, pelos que querem praticar a sua religião e pelos que não querem ter religião”.

“É nossa obrigação como cidadãos opinar sobre o que está acontecendo no Brasil, dizer que há que restituir a democracia, que é preciso restituir um governo de cultura, de progresso, um governo que contemple todos os cidadãos e cidadãs”, afirma. Ao concluir a mensagem, Pilar faz um chamado: “Vamos trazer de volta a sensatez ao Brasil”.

Video: Edu Garcia
Lucas Rohan desde Lisboa para Mídia NINJA
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Galeria dos Hipócritas - # 7

Alceu Moreira: Combatente da corrupção que recebeu R$ 50 mil de Temer foi gravado pela PF dizendo “tem que chover na minha horta, neguinho”


Do Morrinhos lá, do Tico-Butico, é dois e meio, né? É isso que não tá incluído aqui no planejamento. Conversa entre funcionários da Mac Engenharia sobre o então presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, Alceu Moreira, com referência à obra da rodovia Morrinhos do Sul-Mampituba, pleiteada pelo deputado, cujo apelido é Tico Butico

Pelo fim do populismo irresponsável e corrupto, pelo fim da vagabundização remunerada, pela valorização do trabalho, da produção, da pesquisa, tecnologia e inovação, eu voto sim. Alceu Moreira, deputado federal, ao votar pela abertura de processo de impeachment contra Dilma Rousseff

O deputado gaúcho Alceu Moreira, do PMDB, é fã de Michel Temer. O deputado gaúcho Alceu Moreira acredita que Michel Temer é a solução.

Na véspera de Temer assumir interinamente o Planalto, ele discursou: “Amanhã, quando Michel Temer assumir a Presidência da República — assume como Vice-Presidente da República, constitucionalmente protegido e previsto —, certamente incluirá o Brasil de novo no mapa da economia mundial: voltaremos a ser uma economia de mercado, seremos competitivos, valorizaremos trabalho, produção, pesquisa, tecnologia, daremos aos brasileiros o direito de olhar para o mundo com um futuro”.

Antes, na visão dele, o Brasil estava tomado pelo bolivarianismo, o que fez o PT priorizar “Venezuela, Cuba, Bolívia e Paraguai” em detrimento de “Alemanha, Canadá e Estados Unidos”.

Como se vê, o deputado Moreira repete os mesmos argumentos do ator pornô Alexandre Frota, que pretende influir nos rumos da Educação e da Cultura.

No mesmo discurso, Alceu Moreira condenou de forma veemente a corrupção alheia:
Aqueles que querem ir para a vida pública para fazer negócio devem ficar no comércio, na indústria, na vida profissional. Transformar o mandato parlamentar em ponto comercial significa sacrificar milhares de eleitores que votaram confiantes e servir de amortecedor para interesses particulares.

Que tristeza: um retirante do Nordeste chega à Presidência da República e, em vez de aproveitar para consagrar os direitos da cidadania brasileira, ele a usa como ponto comercial para fazer negócios escusos e encher os bolsos.
As frases sairam das mesmas cordas vocais que, de acordo com grampos feitos pela Polícia Federal com autorização da Justiça, emitiram uma frase significativa ao participar de esquema de corrupção: “Tem que chover na minha horta, neguinho”.



UMA DEFERÊNCIA MUITO ESPECIAL

Em 2014, o vice-presidente Michel Temer fez doações eleitorais acima do teto permitido pela lei. Foram R$ 100 mil, quando poderia ter doado R$ 83.992,45, ou 10% da renda bruta declarada no ano anterior.

Temer foi multado em R$ 80 mil e absolvido preventivamente pelo ministro Gilmar Mendes, presidente do TSE: “Em geral, ocorrem estes erros por pequenas margens. Às vezes, saber qual é a sua capacidade de doação, isso acontece, isso por si só não caracteriza qualquer abuso”.

Dos 513 deputados eleitos, só dois mereceram a deferência de receber dinheiro de Temer.

O gaúcho Alceu Moreira é um deles.

Alceu é da turma de Eliseu Padilha, ministro-chefe da Casa Civil, gaúcho de Canela e ex-prefeito de Tramandaí.

Alceu foi vereador, vice-prefeito e prefeito de Osório. Eleito deputado estadual, tornou-se presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Está no segundo mandato de deputado federal. Entre 2010 e 2014, com a ajuda dos R$ 50 mil de Temer, dobrou o dinheiro investido na campanha eleitoral.

Por outro lado, viu sua renda declarada dar um salto de 150% entre 2006 e 2014.

Definitivamente, Moreira é um homem em ascensão.

Presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga a atuação da Funai e do Incra, ele faz parte da ofensiva que pretende retirar direitos, agora denunciando a corrupção de antropólogos e funcionários públicos.

Alceu combate as demarcações de terras indígenas e de quilombolas — cem delas no Rio Grande do Sul.

E, no entanto, o deputado já foi gravado com a boca na botija pela Polícia Federal.

Mais um exemplo, dos muitos exibidos aqui na Galeria dos Hipócritas, de que o mensalão do PT foi um ponto fora da curva na ação da Justiça brasileira: punição relativamente rápida e severa.

Em geral, a prerrogativa de foro é um passe rumo à impunidade. Mesmo nos casos mais descarados, como se verá adiante.

O MENSALÃO GAÚCHO SÓ PEGOU BAGRE MIÚDO

Em 2007 a Polícia Federal deflagrou no Rio Grande do Sul a Operação Solidária.

Desmontou um esquema do secretário municipal Francisco José de Oliveira Fraga, o Chico Fraga, em Canoas.

A partir do ano 2000, o propinoduto desviou dinheiro da merenda terceirizada, do Programa de Saúde da Família e através de fraudes em licitação de obras públicas.

O tucano Fraga foi um dos coordenadores da transição do governo de Yeda Crusius no Rio Grande do Sul, em 2006.

Por causa das acusações na Operação Solidária, pegou 18 anos de cadeia em primeira instância, confirmados em fevereiro deste ano pelo TRF. Recorre em liberdade.

No esquema de Canoas, a Magna Engenharia pagava propina em imóveis, cuja propriedade Chico Fraga ocultava através de parentes e amigos.

Estranhamente, quatro executivos da Magna, inclusive os donos, foram absolvidos. O argumento é de que não foi possível estabelecer relação de causa e efeito entre licitações ganhas e imóveis entregues.

Foi a partir da Operação Solidária que a PF descobriu que o esquema ia muito além de Canoas: atingia também obras de infraestrutura no Rio Grande do Sul.

Além disso, alguns dos envolvidos conectavam os casos às fraudes no Detran gaúcho, alvo de outra operação da PF, a Rodin.

Na Rodin, 29 réus foram condenados em primeira instância em maio de 2014, dentre eles o lobista tucano Lair Ferst, “sombra” da ex-governadora Yeda Crusius.

No conjunto da obra — Canoas, infraestrutura e Detran — foram mais de R$ 300 milhões em dinheiro público desviados.

Uma CPI na Assembleia Legislativa gaúcha, que pretendia cassar a governadora, foi arquivada sem maiores consequências.

DESCARAMENTO EM GRAMPOS

Quando as gravações envolvendo o deputado estadual Alceu Moreira vieram à tona, causaram sensação. Ele era presidente da Assembleia local.

Desde então, os áudios sumiram do site da rádio Gaúcha.

Ficou o registro das transcrições.

O deputado Moreira tinha interesse específico em obras relacionadas à sua base eleitoral, como a estrada Morrinhos do Sul-Mampituba, licitada a partir de emenda proposta por ele.

Era preciso, então, conseguir que o governo gaúcho liberasse o dinheiro.

Em 19 de março de 2008, Alceu Moreira ligou para Marco Antonio Camino, sócio da Mac Engenharia, que ganhou a licitação.

“Vai matar a minha saudade, não vai?”, disparou.

Camino sugeriu que o presidente da Assembleria gaúcha procurasse o Véio, apelido de Woodson Martins da Silva, tido pela PF como o homem da mala da empreiteira.

Camino ligou em seguida para Woodson para avisá-lo que seria procurado pelo deputado para tratar “daquilo que tá faltando”.

Na mesma noite, Camino ligou de volta para Alceu Moreira.

Perguntou se o presidente da Assembleia tinha tomado providências pela liberação de verbas para tocar a obra da estrada.

Alceu disse que sim e mencionou o secretário estadual de Infraestrutura e Logística, Daniel Andrade, a quem teria pedido para “colocar 400″.

Camino ficou satisfeito com a notícia e Alceu respondeu: “Tem que chover na minha horta, neguinho”.

A obra andou.

Em 6 de maio, Camino ligou para seu subordinado João Carlos Timm.

Este perguntou: “Do Morrinhos lá, do Tico Butico, é dois e meio, né? É isso que não tá incluído aqui no planejamento”.

Camino respondeu: “É dois”.

Tico Butico é o apelido do deputado Alceu Moreira.

No dia 4 de julho, Tico Butico ligou para Camino e disse que precisava encontrar Woodson, o homem da mala, naquele dia.

Às 14h09, a secretária da empreiteira informou a Woodson, por telefone, que o presidente da Assembleia estava esperando por ele na sede da Mac Engenharia.

O relatório da CPI da Assembleia Legislativa que investigou os escândalos no Rio Grande do Sul ficou dividido em duas partes.

O trecho escrito por deputados da base de Yeda Crusius denunciou o abuso dos grampos telefônicos e dos vazamentos com “interesse político”.

O ministro Gilmar Mendes, que presidia o STF e à época andava às turras com um certo “estado policial”, foi citado várias vezes.

Ele criticava tanto o Ministério Público quanto a Polícia Federal por supostos abusos em investigações.

O mesmo relatório tem um trecho escrito pela oposição.

Nele,  Alceu Moreira, o presidente da Assembleia, é acusado de somar “os interesses de Camino [Marco Antonio, da Mac Engenharia] com a direção do DAER e a Secretaria de Infraestrutura e Logística para praticar atos típicos de Advocacia Administrativa mediante pagamento de valores efetuados por Woodson, incorrendo, assim em atos de improbidade administrativa”.

DAER é o Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem do Rio Grande do Sul. Woodson é o Véio, segundo a PF o homem da mala da empreiteira.

À época, o deputado Moreira reconheceu em nota que tinha relação pessoal com Marco Antonio Camino, mas disse que nas gravações estava apenas defendendo o interesse de seus eleitores.

“O teor da conversa [refere-se aos grampos da PF] é sobre o início das obras, no qual o empresário contra-argumenta apresentando dificuldades diante do desencaixe de recursos estabelecidos pelo Governo Estadual, alegando serem insuficientes para o cumprimento do cronograma estabelecido”, escreveu.

Para Alceu Moreira, era isso que significava “chover na minha horta”.

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QuantoÉ, quando ainda não era propagandista de Temer e de seu governo interino; PF confundiu a Mac com a
Magna, origem dos R$ 267 mil
O PATRONO TAMBÉM SE ENROLOU

O inquérito 3076, no qual o deputado Alceu Moreira é investigado por corrupção passiva e por violar a Lei das Licitações, corre no Supremo Tribunal Federal.

Mas o patrono dele, o hoje ministro da Casa Civil Eliseu Padilha, também se enrolou nos grampos da PF, conversando com o mesmo Marco Antonio Camino, da Mac Engenharia.

Padilha era deputado federal em Brasília quando as conversas foram gravadas.

Em maio de 2008, ele conseguiu aprovar na Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização um requerimento para debater as consequências da seca no Sul.

Foi a justificativa para a construção das barragens de Taquarembó e Jaguari, para as quais foram previstos R$ 150 milhões, sendo 70% em dinheiro da União.

Em torno delas, travou-se uma inacreditável batalha de bastidores entre lobistas de empreiteiras e funcionários públicos. Nela, interlocutores se referiam a Eliseu Padilha como “o deputado das barragens”.

Um das disputas foi em torno dos termos do edital de licitação da barragem de Taquarembó.

As gravações telefônicas mostram Padilha preocupado em obter acordo entre as empreiteiras gaúchas.

Numa das conversas, de fevereiro de 2008, o agora braço direito de Michel Temer pergunta a Marco Antonio Camino se ele tinha interesse em rachar a obra de Taquarembó com a CMT, de Francisco José de Moura Filho.

Camino topou e as duas empresas formaram um consórcio.

O edital para a licitação de Taquarembó foi publicado em 30 de maio de 2008, mas pegou Padilha e Camino de surpresa: duas exigências que limitariam o número de concorrentes — experiência na construção de escada de peixes  e estrutura de desvio de rio — foram retiradas.

O deputado Padilha, numa ligação para Camino, reclamou: “Facilitaram que aquilo ali pode entrar a torcida do Flamengo inteira, né?”

Em outra conversa, Padilha mencionou um “comandante” que teria poder para reverter a situação. Foi justamente o que aconteceu.

Em 9 de junho de 2008, foi publicada uma errata recolocando as exigências que poderiam levar o consórcio liderado pela Mac à vitória.

A CPI que investigou o caso no Rio Grande do Sul concluiu “que o deputado Eliseu Padilha, valendo-se do fato de ter liberado os recursos da União, exigiu ou combinou com representantes do governo do Estado, com poderes para produzir e alterar o Edital de Licitação, que as referidas obras fossem direcionadas para empresas determinadas por ele, quais sejam, a Mac para Execução e a Magna para fiscalização”.

Compensação?

A Polícia Federal descobriu um pagamento de R$ 100 mil feito por Camino, da Mac, a Padilha. O deputado alegou que era dinheiro relativo a uma casa que vendeu ao empreiteiro.

Outros R$ 267 mil foram depositados na conta da Fonte Consultoria e Assessoria Empresarial, empresa que o deputado controlava junto com a esposa, Maria Eliane Padilha.

O dinheiro veio da Magna Engenharia.

Padilha se defendeu dizendo que foi pagamento por “serviços de consultoria”.

O CASO NO STF

A denúncia relativa à Operação Solidária chegou ao STF em agosto de 2008.

No dia 12 o deputado Padilha teve audiência com o então presidente da Corte, Gilmar Mendes.

No dia 18 a Central de Licitações do Rio Grande do Sul desabilitou todas as empresas inscritas na concorrência de Taquarembó.

Nova disputa foi vencida pela Odebrecht, com duas empresas locais na fiscalização: a Magna e a STE, ambas controladas por empresários investigados na Operação Solidária!

Os inquéritos contra Eliseu Padilha foram arquivados.

O argumento da defesa é de que ele tinha foro privilegiado quando foi gravado em conversas com Marco Antonio Camino e, portanto, o caso deveria ter sido imediatamente encaminhado ao STF.

Vício de origem.

É o mesmo argumento utilizado pela presidente Dilma Rousseff no grampo da Operação Lava Jato que registrou conversa dela com o ex-presidente Lula.

No caso de Padilha, funcionou em defesa do investigado.

No caso de Dilma, ela arcou com todas as consequências políticas do vazamento e a PGR utilizou o conteúdo do grampo para abrir investigação contra a presidente da República.

Dois pesos, duas medidas.

Todos os principais protagonistas dos escândalos gaúchos estão soltos. Alceu Moreira preside CPI. Eliseu Padilha é braço direito de Temer no Planalto.

A barragem de Taquarembó, projetada a título de salvar o Rio Grande do Sul das secas, não ficou pronta até hoje.

Garganta Profunda é jornalista investigativo com duas décadas de experiência, contratado pelos leitores do Viomundo para revelar a hipocrisia de moralistas sem moral.
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