25 de mai de 2016

Frota dará consultoria em educação?

A sacanagem tomou conta de vez do bordel golpista do Judas Michel Temer. Nesta quarta-feira (25), o ministro da Educação, o demo Mendonça Filho, recebeu em seu gabinete o ator-pornô Alexandre Frota. Ele estava acompanhado de outra sumidade intelectual, o fascistoide Marcelo Reis, mercenário da seita Revoltados Online. A audiência em Brasília logo virou motivo de chacota nas redes sociais. Até a coluna de Lauro Jardim, no insuspeito O Globo, ironizou a visita: "Mendonça Filho acaba de receber no ministério um dos mais importantes nomes da educação e da cultura brasileiras: Alexandre Frota. Frota, ele mesmo, o ator-ogro, levou ao ministro propostas para o ensino nacional".

Em sua página no Facebook, o artista decadente, que ganhou os holofotes da mídia em função do seu engajamento nas marchas golpistas pelo impeachment de Dilma, explicou que a audiência visou levar "uma pauta para a educação" ao novo ministro. Já em entrevista ao site Huffpost-Brasil, o ator-pornô disse que foi "pedir o fim da ideologia política e de gênero nas escolas... Frota contou que foi ao ministério mostrar que o grupo apoia o projeto da escola sem partido, que prevê o fim da 'doutrinação de esquerda'... Saí com a certeza de que ele [o demo Mendonça Filho] vai fazer um bom trabalho.”

Diante da repercussão negativa da sacanagem, o sinistro de Michel Temer até tentou se justificar. Em nota divulgada no final da tarde, ele alegou que "não discrimino ninguém, porque respeito a liberdade de cada pessoa fazer as suas escolhas de vida. Conheci Frota no movimento pró-impeachment, assim como o pessoal do Revoltados Online. Não vejo problema em recebê-los para uma visita". A nota não conteve a gozação nas redes sociais, como a produção de vários memes — inclusive do sinistro seminu ao lado do ator pornô. O site Sensacionalista não perdeu a oportunidade da cena hilária:

* * *



Processos cujo réu é Alexandre Frota...



Frota propõe educação sexual nas escolas com filmes das Brasileirinhas



Começam a aparecer as primeiras propostas do ator Alexandre Frota para o ensino no Brasil. Ele foi recebido hoje pela manhã pelo ministro da Educação, Mendonça Filho mas o ministério não revelou seus projetos. Fontes em Brasília dizem que ele quer que o governo use DVDs das Brasileirinhas para ensinar Educação Sexual.

De acordo com um técnico, Frota também propôs que a tabuada seja simplificada e tenha apenas operações de somar e subtrair, já que multiplicação e divisão são muito difíceis. Outro projeto é a edição dos “Clássicos para colorir”, onde grandes obras da literatura teriam versões apenas com desenhos para as crianças.

O ator estrelava filmes pornôs antes de aderir à sacanagem de verdade e aderir ao impeachment.

Altamiro Borges
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Gilmar Mendes precisa de exame anti-doping

Gilmar afirma não haver elementos novos que justifiquem a investigação de Aécio. É preocupante que um juiz do STF seja acometido por tão grave delírio.


O juiz tucano do STF Gilmar Mendes parece acometido de alguma síndrome de delírio. Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, delírio é um substantivo masculino que significa “1 psicop - convicção errônea baseada em falsas conclusões tiradas dos dados da realidade exterior, mantida por uma pessoa, ainda que a maioria dos membros do seu grupo pense o contrário e possa provar que está certa” e “2 psiq – problema mental orgânico reversível, cujos sintomas são: ...., confusão, ilusão, interpretação delirante da realidade, alucinações visuais, auditivas, táteis etc”.

Apesar do “esquema do Aécio” ser conhecido por todo mundo, Gilmar Mendes é a única pessoa do mundo que não conhece “o esquema do Aécio”.

Aécio Neves é campeão de menções em listas de corrupção e em conversas entre corruptos. Na conversa dos delinqüentes Sérgio Machado e Romero Jucá, Machado chega a dizer que “o primeiro a ser comido [pela Lava Jato] vai ser o Aécio”, tal é a proeminência do senador tucano no “esquema”.

Mas, apesar disso, Gilmar olimpicamente entendeu “não haver elementos novos que justifiquem a investigação” [sic] do Aécio pelo STF, e proibiu depoimentos do próprio investigado e de testemunhas, e devolveu o processo do seu parceiro à Procuradoria da República.

Sobre a conversa delinquencial de Sérgio Machado e o ainda senador Romero Jucá, Gilmar disse: “Não vi isso [tentativa de obstrução de justiça]. A não ser, uma certa impropriedade [sic] em relação à referência ao Supremo”.

Não se pode esquecer que Gilmar foi o juiz do Supremo que no dia 18 de março de 2016 concedeu a liminar ao PSDB e PPS que suspendeu a posse do ex-presidente Lula na Casa Civil alegando suposta tentativa [de Lula] de obstrução de justiça!

É extremamente preocupante que um juiz da Suprema Corte seja acometido por tão grave transtorno de delírio. A preocupação é ainda maior uma vez que Gilmar vai assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral [TSE].

Pode-se prever o esdrúxulo que será ele julgando as contas da campanha da eleição da Dilma: por um lado, vai conseguir a magia de sustentar uma tese muito singular de que as prestações de contas de Dilma e do conspirador Temer devem ser separadas, para livrar o presidente do governo usurpador.

Por outro lado, Gilmar será capaz de ter a cara-de-pau de dizer que os repasses para a campanha da Dilma, feitos pelos mesmos caixas das mesmas empresas que contribuíram para a campanha do Aécio — em alguns casos com valores maiores — são ilícitos, enquanto os repasses para seu correligionário tucano são legais, limpos e abençoados por deus.

Gilmar Mendes precisa ser submetido urgentemente a um exame anti-doping. É fundamental identificar se o juiz do STF padece de simples mau-caratismo ou se está atuando dopado.

Em qualquer diagnóstico, o tratamento é o mesmo: ele já demonstrou que deve ser impedido de atuar na Suprema Corte.

Jeferson Miola
No Carta Maior
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“Menos, Gilmar”: Aécio ainda vai pedir a seu juiz que pare de blindá-lo tão acintosamente

Eles
Ainda vai chegar um determinado momento em que o próprio Aécio Neves pedirá a Gilmar Mendes para parar de protegê-lo de maneira tão acintosa.

GM é como aqueles pais torcedores descontrolados em jogo de futebol do filho. No começo, o menino gosta. Depois, dado o constrangimento geral, ele implora para que o sujeito fique quieto e vá para casa para evitar que ele apanhe dos demais.

Nos últimos meses, apesar da conhecido e ancestral blindagem, Aécio foi citado em todos os principais escândalos de corrupção.

Heptacampeão na Lava Jato, apareceu nos grampos de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e ex-líder do PSDB no Senado.

Em ambas as ocasiões, de maneira humilhante. Na peça estrelada pelo ex-ministro Romero Jucá, Machado declara que “o Aécio não ganha porra nenhuma”. Mais adiante, fala que “ele não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB…”

Ele ainda seria “o primeiro a ser comido”.

Na mais recente, com Renan Calheiros, Aécio aparece em versão suplicante. Machado diz que “o PSDB é o próximo”. Renan: “Não, o Aécio disse isso lá. Que eu sou a esperança única que eles têm”. Depois: “Aécio está com medo: ‘Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.’”

Em nota oficial, o senador refutou o que seria mais uma tentativa indevida de atacar a sua honra etc — e sumiu.

A ubiqüidade de seu nome nesses rolos já ultrapassou a barreira da banalidade. Assim como a sensação de que ele é inimputável. O resultado: Aécio leva a melhor no tapetão, mas, quando arrisca ir para a rua, é enxovalhado até por seus coxinhas. Ninguém respeita um babaca rico que nunca se ferra. Nem outros babacas ricos.

Essa situação se deve, principalmente, a seu guarda-costas, Gilmar Mendes. Na manhã de quarta, 26, Gilmar solicitou que a Procuradoria Geral da República reavaliasse um segundo pedido de abertura de inquérito contra Aécio.

Gilmar pede que Janot informe se considera mesmo necessário levar adiante as apurações. A investigação envolve também o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o deputado Carlos Sampaio, uma espécie de Janaína Paschoal de saias.

Há duas semanas, Gilmar já havia feito isso num pedido de abertura de inquérito contra o amigo, a respeito de Furnas. Mandou paralisar tudo e pediu um parecer de Rodrigo Janot sobre a necessidade das apurações.

Outras histórias escabrosas virão. Aécio estará nelas. Como existiu o Aécio Suplicante, surgirá o Aécio Sincero, cansado de viver numa bolha feita pelo tio GM.

Esse Aécio quer assumir seus erros e pagar por eles. Um novo homem que quer até ir para a cadeia e viver sua grande redenção. Porque ele sabe que ganhar eleição, mesmo, ele não ganha porra nenhuma.

Kiko Nogueira
No DCM
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CPI do HSBC acaba cinco meses antes do prazo, sem acusar ninguém

“O lobby venceu”, acusa Randolfe

Da esquerda para a direita:  senadores Ricardo Ferraço  (relator), Paulo Rocha (presidente) e Randolfe
Rodrigues (1º vice-presidente)
A CPI do HSBC no Senado Federal foi encerrada na manhã desta quarta-feira, 25, cinco meses antes do seu prazo de encerramento. Com a presença de apenas cinco dos 11 senadores da comissão, foi aprovado o relatório do senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), contra o voto em separado do senador Randolfe Rodrigues (REDE-AP).

O líder da REDE discordou do final antecipado da CPI, pediu a continuidade da investigação até o final de outubro e foi o único a discordar da conclusão, sem nenhum indiciamento, de Ferraço: “Foi um relatório pífio. A CPI capitulou ao lobby e não cumpriu sua missão”, acusou Randolfe, que reclamou da falta de cruzamento de dados bancários e financeiros que poderiam comprovar a evasão fiscal e a corrupção.

O SwissLeaks tem origem nas denúncias de Hervé Falciani, ex-funcionário da agência em Genebra do HSBC Private Bank, que repassou ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ) os dados de um disco rígido com os dados de contas secretas de milhares de correntistas pelo mundo. Do Brasil, eram cerca de 8.600 brasileiros, titulares de contas, irregulares ou secretas, totalizando mais de US$ 7 bilhões.

A CPI foi instalada no Senado Federal, por iniciativa do senador Randolfe Rodrigues, em março de 2015. Ganhou duas prorrogações e deveria se encerrar apenas em 27 de outubro próximo. “As reuniões nunca tinham quórum, havia muito desinteresse. A única vez em que todos os senadores apareceram foi em 16 de julho de 2015, para tornar sem efeito os requerimentos de quebra de sigilo bancário aprovados na reunião anterior”, lembra Randolfe.

INFLUÊNCIA EXTERNA

O Supremo Tribunal Federal, em decisão inédita, garantiu a quebra dos sigilos, negando recurso dos investigados. “Apesar disso, contra o meu voto solitário, a CPI aprovou por 7 votos a 1 a suspensão da quebra, que tinha sido assegurada pelo STF. Nunca vi isso na história das CPIs. Uma decisão que causou enorme estranheza e a desconfiança de que influências externas atuaram para desmobilizar o ímpeto investigativo da CPI”, acusou Randolfe, sem ser contestado por ninguém.

A análise inicial dos nomes divulgados pelo ICIJ resultou em uma lista amplamente divulgada, na qual figuravam em uma contagem preliminar 342 brasileiros com contas irregulares na Suíça, muitos de alguma maneira ligados a escândalos de corrupção já noticiados, como Lava Jato e o caso Metrô-Alstom, de São Paulo. “A abertura dos dados presentes no HD seria a oportunidade legal e esperada para que o cruzamento de dados pudesse chegar ao desvelamento de crimes eventualmente identificados”, lamentou Randolfe.

O senador lembrou ainda: “A denúncia do SwissLeaks trazia uma seleção de brasileiros com contas secretas no HSBC da Suíça e que tradicionalmente habitam as colunas sociais, e principalmente policiais, de nossos principais veículos de comunicação. São artistas, doleiros, bicheiros, traficantes, servidores públicos e empreiteiros ligados a escândalos de desvio de dinheiro público”.

O REI DOS ÔNIBUS

Randolfe destacou que o estranho recuo da CPI, mantendo o sigilo dos nomes citados na denúncia, caracterizava uma ‘estranha manobra’, que travou a comissão: “Rosane Ferreira Barata, David Ferreira Barata e Jacob Barata Filho são integrantes da tradicional família Barata, liderada pelo patriarca Jacob Barata, megaempresário do ramo de transportes e responsável por empresas detentoras de concessão de transporte público no Rio de Janeiro. Jacob Barata é mencionado em lista de potenciais envolvidos em crimes tributários, sendo conhecido como o ‘Rei dos Ônibus’, por ser um notório membro dos oligopólios de transportes urbanos no Estado do Rio de Janeiro e do Brasil. Ele é proprietário do Grupo Guanabara, um dos maiores conglomerados de transportes urbanos do país, que conta com uma frota de 4 mil veículos e cerca de 20 empresas de ônibus, uma diversificada malha de investimentos que vai de bancos a concessionários, passando por turismo, saúde e setor imobiliário. Seu processo de evolução patrimonial sempre suscitou desconfiança e chamou a atenção das autoridades, sobretudo em razão da sua atuação econômica fundamental orbitar em torno da Administração Pública”.

Jacob Barata, segundo o relatório em separado de Randolfe, era um alvo central da investigação, por ser titular de R$ 270 milhões em um único paraíso fiscal: “Era grande a possibilidade de haver envolvimento de Barata em rede criminosa, que poderia ser revelada e desbaratada pela investigação. Mas, a CPI recusou-se a investigar”, lamentou Randolfe.

LOBISTAS COMEMORAM

O senador destacou que outro nome com sigilo preservado, Jacks Rabinovich, consta da lista de brasileiros que possuem conta no HSBC Private Bank de Genebra, Suíça. Ligado a grandes grupos empresariais do Brasil, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) do Ministério da Fazenda informou, em atendimento ao Requerimento nº 72 da CPI, que havia relatório de inteligência financeira associado a seu nome, o que apontava para a realização de operações financeiras suspeitas.

Outro ator de destaque na lista do SwissLeaks, segundo o relatório de Randolfe, e ignorado no relatório final de Ferraço, é o ex-secretário de obras de Niterói, José Roberto Vinagre Mocarzel. Ele seria detentor da conta secreta de código 17617JR, no período de 28 de janeiro de 1991 a 29 de abril de 2003. Coincidentemente, em matéria publicada em 19 de fevereiro de 2003, dois meses antes do fechamento da conta, a revista IstoÉ acusou Roberto Mocarzel de ser peça-chave do braço niteroiense da quadrilha de fiscais estaduais e auditores da Receita Estadual do Estado do Rio de Janeiro, que teria desviado para a Suíça U$ 34,4 milhões.

O relator Ferraço diz que, se surgirem fatos novos, será o primeiro a pedir uma nova CPI. Randolfe contestou: “ A questão não envolve fatos novos. O problema é se recusar a investigar os fatos velhos”. O senador da REDE voltou a acusar: “Forças poderosas atuaram aqui.


Conceição Lemes
No Viomundo
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“Michel é Cunha”, disse Jucá. E agora?


A informação decisiva do diálogo Romero Jucá x Sérgio Machado encontra-se num trecho que você irá ler a seguir: 

— Só o Renan que está contra a essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha.' Gente, esquece o Eduardo Cunha, está morto, morto, porra.'"

Sergio Machado acrescenta, em tom de concordância: "É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional."

Jucá explica: "Com o supremo, com tudo."

Sabemos que o diálogo ocorreu em março, quando Sérgio Machado procurava provas para uma delação premiada capaz de livrá-lo de acusações na Lava Jato. Não custa recordar a data essencial da conversa.

Nas semanas seguintes, em 17 de abril, o presidente da Câmara Eduardo Cunha conduziu a votação que autorizou a abertura do processo de impeachment contra a presidente ("Com Dilma a situação não dá", segundo Jucá).

Apenas dezoito dias depois, o Supremo votou o afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara e de seu mandato. Foi uma decisão péssima para Cunha. 

Quando se recorda que a denúncia contra Cunha havia chegado ao STF em dezembro de 2015 e ali ficou adormecida até o fim de abril, atravessando incólume o 17, ninguém poderia acusar o Supremo de ter agido para prejudicar Michel Temer. Se a decisão tivesse sido tomada em qualquer data entre 15 de dezembro de 2015 e 16 de abril de 2016, o resultado da votação teria sido outro. A bancada contra Dilma estaria desfalcada de grande parte dos 200 votos que devem obediência a Cunha. Se apenas 15% desses personagens não tivesse comparecido para votar, o pedido de impeachment teria sido arquivado.

Falando de um grande acordo nacional, que em suas palavras incluía o Supremo, Jucá fez questão de ressalvar: não tinha acesso a Teori Zavaski, relator da Lava Jato. Falando sobre os "caras" do STF, expressão sua, sublinhou que era um pacto "com o Supremo, com tudo."

Entre os personagens mencionados no diálogo, o único que apresentou mudança de comportamento no enredo descrito pelos dois interlocutores foi Renan Calheiros. Depois do afastamento de Cunha, ninguém poderia deixar de perguntar se, sem possuir legitimidade para presidir o Congresso, Cunha possuía condições de derrubar a presidente da República. Não havia argumentos para defender sua isenção nem imparcialidade, como a própria votação do STF — 11 a 0 — confirmava. Mas, quando o pedido de anulação da votação chegou ao Senado, Renan deixou a discussão correr mas anunciou com clareza: "É brincadeira", chegou a dizer. À luz da conversa de março, alimentada por seu amigo e aliado Sergio Machado, difícil deixar de imaginar que naquele momento ele estava dentro do "grande acordo nacional".

"Michel é Eduardo Cunha", disse Jucá. Tão relevante, a frase que aproxima o suíço Cunha do presidente da República numa relação de absoluta identidade não recebeu a devida atenção de nossos sábios da política. Talvez porque estejam mais preocupados em preservar um presidente com fragilidade exposta no lugar de assumir suas próprias responsabilidades numa crise só agravada por um impeachment sem prova de crime de responsabilidade.

De volta ao Senado, de onde se afastou para ocupar o ministério do Planejamento de Michel, Jucá é um reconhecido talento dos bastidores da política brasileira. Acabou derrotado pelo instrumento que já derrotou homens públicos muito mais sérios e relevantes do ponto de vista dos interesses da maioria dos brasileiros.

A verdade é que nem todo mundo acerta sempre. Na conversa, ele disse que Cunha estava "morto, morto, porra."

Eduardo Cunha morto? Nem Romero Jucá acertou essa.

Paulo Moreira Leite
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Temer e procuradores da Lava Jato acertaram “cessar fogo” para derrubar Dilma


O conchavo entre Temer e a república de Curitiba do Ministério Público está sendo revelado na edição da Folha desta quarta-feira, em reportagem que já está no ar na versão eletrônica do jornal.

É um escândalo sem precedentes, porque nem foi feito com a chefia da instituição, mas com um grupo que se adonou do poder investigatório e se constitui num poder paralelo dentro da Procuradoria.

Leia o texto estarrecedor da Folha:

Um emissário do presidente interino Michel Temer (PMDB) e representantes da força-tarefa da Operação Lava Jato encontraram-se na véspera da sessão do Senado que selou o afastamento da petista Dilma Rousseff.

O encontro tratou de uma espécie de “acordo de procedimento” que não colocasse em risco as investigações.

A conversa foi entre o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), um dos assessores mais próximos de Temer, e os procuradores Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Lava Jato, e Roberson Pozzobon.

O diálogo, de quase duas horas de duração, ocorreu após um evento organizado pela ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) em Brasília.

Anteriormente, os procuradores haviam recusado um encontro com o próprio Temer, articulado pelo ex-presidente da ANPR Alexandre Camanho, que é homem de confiança do peemedebista.

Temer, que mostrava preocupação com a disseminação da ideia de que seu governo enterraria a Lava Jato devido ao grande número de peemedebistas investigados, aprovou a sugestão.

A preocupação cresceu com a sondagem feita ao advogado Antonio Claudio Mariz de Oliveira, um crítico da Lava Jato, para ocupar o Ministério da Justiça. A nomeação de Mariz fracassou após ele dar uma entrevista à Folha atacando a operação.

O encontro com Temer, porém, foi rejeitado pelos procuradores, que rechaçaram uma possível conotação política na proposta. Eles também mostraram receio de que o ato fosse interpretado como apoio ao impeachment.

Apesar disso, na conversa entre Loures e os procuradores, foi acertada a manutenção no cargo do superintendente da Polícia Federal no Paraná, Rosalvo Franco, responsável pela Lava Jato.

Loures ouviu dos investigadores que a permanência de Franco seria sinal importante e prometeu consultar Temer.

“Eu disse para os procuradores que se o conforto era dar essa garantia, iria levar o pedido ao presidente”, relatou o ex-deputado à Folha.

Na mesma noite, o assessor levou o pleito a Temer, que aceitou o pedido.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Entrevista da presidenta Dilma ao Intercept

Foro: Roberto Stuckert Filho
Do Palácio da Alvorada, em Brasília, a presidente suspensa do Brasil falou ao The Intercept sobre suas declarações de que é vítima de um 'golpe', as acusações contra ela, a guinada à direita planejada pelo governo interino, e como ela acha que os brasileiros devem protestar e lutar contra esta subversão da democracia.


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Em gravação, Sarney promete ajudar ex-presidente da Transpetro

Ele
O ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) prometeu ao ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, investigado pela Operação Lava Jato, que poderia ajudá-lo a evitar que seu caso fosse transferido para a vara do juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba (PR), mas "sem meter advogado no meio".

As conversas foram gravadas pelo próprio Machado, que nesta terça-feira (24) fechou um acordo de delação premiada no STF. Em um dos diálogos, gravados em março, o ex-senador e ex-presidente manifestou preocupação sobre uma eventual delação de Machado. "Nós temos é que fazer o nosso negócio e ver como é que está o teu advogado, até onde eles falando com ele em delação premiada", disse o ex-presidente.

Machado respondeu que havia insinuações, provavelmente da PGR (Procuradoria-Geral da República), por uma delação. Sarney explicou a estratégia: "Mas nós temos é que conseguir isso [o pleito de Machado]. Sem meter advogado no meio".

Machado concordou de imediato que "advogado não pode participar disso", "de jeito nenhum" e que "advogado é perigoso". Sarney repetiu três vezes: "Sem meter advogado".

A estratégia estabelecida por Sarney não fica inteiramente clara ao longo dos diálogos obtidos até aqui pela Folha, mas envolvia conversas com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e com o senador Romero Jucá (PMDB-RR). Sérgio Machado disse que não poderia passar por uma iniciativa apenas jurídica, teria que ser política.

Ao final de uma das conversas, Machado pediu que Sarney entrasse em contato com ele assim que estabelecesse um horário e local para reunião entre eles e Renan.

"E o Romero também está aguardando, se o senhor achar conveniente", acrescentou Machado. Sarney respondeu que não achava conveniente.

"Não? O senhor dá o tom", respondeu Machado.

O ex-presidente disse que não achava "conveniente, a gente não põe muita gente". Em seguida ele contou que o ex-senador e ex-ministro Amaral Peixoto (1905-1989) costumava dizer que "duas pessoas pessoas já é reunião. Três é comício". Medida semelhante havia sido indicada pelo próprio Jucá. Em outro áudio gravado por Machado, ele disse que não era bom todos se reunirem ao mesmo tempo, e sim que Machado falasse com cada líder político, que depois se encarregariam de conversar entre eles.

Nas conversas, Sarney deixou claro que concordava com a iniciativa de impedir que o caso de Sérgio Machado fosse enviado para a vara de Moro em Curitiba.

"O tempo é a seu favor. Aquele negócio que você disse ontem é muito procedente. Não deixar você voltar para lá [Curitiba]", disse o ex-presidente.

Outro lado

Em nota divulgada na tarde desta quarta-feira (25), o ex-presidente José Sarney afirmou que, não tendo tempo nem conhecimento do teor das gravações", não tem "como responder às perguntas pontuais" feitas pela Folha.

Sarney disse que conhece o ex-senador "Sérgio Machado há muitos anos. Fomos colegas no Senado Federal e tivemos uma relação de amizade, que continuou depois que deixei o Parlamento".

"As conversas que tive com ele nos últimos tempos foram sempre marcadas, de minha parte, pelo sentimento de solidariedade, característica de minha personalidade. Nesse sentido, expressei sempre minha solidariedade na esperança de superar as acusações que enfrentava. Lamento que conversas privadas tornem-se públicas, pois podem ferir outras pessoas que nunca desejaríamos alcançar", diz a nota assinada pelo ex-presidente.

Rubens Valente
No fAlha
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O estadista Renan e as pegadinhas de Sérgio Machado


O grampo de Sérgio Machado em Renan Calheiros comprova algo que se pressentia nas suas (de Renan) declarações públicas: dentre todas as autoridades públicas, Renan é o que mais tem demonstrado respeito pela chamada liturgia do cargo e mais preocupações com o julgamento da história.

Apesar da óbvia intenção de Machado de provocar declarações comprometedoras, a conversa gravada passa em qualquer teste de republicanismo. O carnaval dos jornais se deu em relação à sua proposta de mudar a lei da delação premiada, para impedir que pessoas presas sejam pressionadas a delatar — uma opinião legítima.

No restante, mostra um líder político preocupado com a crise, buscando saídas constitucionais, conversando com todas as pontas, procurando amarrar a governabilidade. E sumamente indignado com a submissão de Michel Temer a Eduardo Cunha.

Em outros momentos, viu-se esse mesmo comportamento de Renan, quando, em meio às pressões para facilitar o impeachment, apregoou sua preocupação sobre como seria visto pela história.

Admito não conhecer os meandros da vida política brasiliense, nem a de Alagoas. Mas o episódio me remete a lembranças de outros ditos coronéis nordestinos, como José Sarney.

Em 1987, através de seu Ministro da Justiça Saulo Ramos, Sarney conseguiu negociar meu pescoço com a Folha. Portanto, não tenho nenhuma razão objetiva para poupá-lo.

Em 2009 os jornais moveram uma campanha implacável contra ele, assim que assumiu a presidência do Senado. A intenção óbvia era fragilizar a governabilidade. Fiz uma defesa enfática do presidente do Senado, não da pessoa física ou política de Sarney. Em todos os artigos em que defendia o presidente do Senado, dava dicas para quem quisesse criticar a pessoa física, dos amigos Edemar Cid Ferreira a Mathias Machline.

Um assessor de imprensa de Sarney, meu conhecido, sugeriu uma entrevista com ele, garantindo que era o melhor analista do momento político e do advento dos novos atores políticos, as ONGs, os blogs e as redes sociais.

Fui. Fiquei aguardando-o em uma sala. Sarney chegou, andando lentamente, com a voz fraca e me agradeceu a defesa dele, que eu tinha feito. E me disse:

- Senhor jornalista, o senhor é testemunha da seriedade com que trato os temas políticos de interesse do país.

Passou ao largo das críticas que lhe fazia nos mesmos posts em que defendia o presidente do Senado. Mas, de fato, desde sempre cumpriu um papel de fiador da estabilidade política, dentro dessa excrescência que é nosso presidencialismo de coalizão.

Falta um perfil melhor de Sarney, assim como de Renan. Algo à parte da apologia dos áulicos e do profundo preconceito com que são retratados pela imprensa do Sudeste.

Aliás, essa preocupação em entender a história é característica de alguns políticos do Nordeste — como Gustavo Krause, Aldo Rabello, entre outros — dificilmente encontrável em políticos do centro-sul.

Renan demonstra uma preocupação com o julgamento da história muito maior do que o pensamento arrogante de lideranças paulistas, como FHC, que julga que a história é ele.

O jabuti de Sérgio Machado

Foi hilária a pequena vingança de Sérgio Machado contra a Procuradoria Geral da República, com quem tratou do grampo. Na conversa gravada desanca sem dó o Procurador Rodrigo Janot — podendo alegar posteriormente que os ataques foram para disfarçar suas intenções, de estar gravando a mando dele. E nos dois grampos colocou um jabuti na árvore de Janot: Aécio Neves, apenas para dar trabalho mais tarde para tirar o jabuti da árvore.

Não se pode negar um senso de humor apurado a Sérgio Machado.

Luís Nassif
No GGN
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Blogueiros e ativistas digitais fortalecem a luta na rede


O Quinto Encontro Nacional e Blogueiros e Ativistas Digitais em Belo Horizonte aconteceu em meio a muitas turbulências. A primeira delas, positiva, foi a provocada por uma multidão que, aproveitando a presença da presidenta Dilma no encontro, decidiu realizar um grande ato em frente ao hotel Othon Palace, onde acontecia o encontro, para se solidarizar com ela e denunciar o golpe. A manifestação gigantesca não pode passar despercebida. Assim, a abertura do evento acabou sendo também um grande ato de denúncia do golpe que está em curso no Brasil.

A segunda rugosidade veio pela imprensa, que divulgou a informação sobre a negativa da Caixa Federal em manter o apoio que já havia sido acordado com a organização. Ora, a CEF é uma entidade pública que tem uma política de apoio à eventos a qual qualquer entidade pode pleitear. E foi o que foi feito. Um contrato foi firmado, e a organização cumpriu todas as cláusulas, logo, não aceitará quebra no contrato. A informação foi considerada uma retaliação por parte do grupo que está interinamente no governo contra os ativistas que tem sido críticos ao golpe.

Mas, apesar da indignação, o Instituo Barão do Itararé e o Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais, organizadores do encontro, não se intimidaram. Foram à luta e garantiram com os sindicatos, centrais e movimentos sociais as condições para receber os quase 500 inscritos que participaram ativamente das atividades.

E o que se viu nos três dias de debate foi a vitória do trabalho coletivo, com uma mescla de gente de 23 estados do país interessada em conhecer cada um e cada um que anda por aí, escrevendo e disseminando informação, para além da gosma da mídia comercial. Blogueiros que são jornalistas, blogueiros que não são jornalistas, ativistas de todas as idades e profissões que, indignados com a lógica de propaganda, manipulação e desinformação, decidiram usar as ferramentas da internet para fazer uma guerrilha informacional.

Pessoas como Ronaldo Alves, que enfrentou 40 horas, de ônibus, desde Teresina, no Piauí, sem dinheiro e sem nem saber como voltaria, ou Gabriel Loppo Silva Ramos, um jovem de Montes Claros que passou o chapéu na cidade para viabilizar a viagem, foram os extremos num grupo apaixonado pela escrita e absolutamente necessitado de dizer essa palavra que não encontra morada na grande mídia. Talvez por isso que as sessões de debates e conversas tenham estado sempre cheias e sem a habitual disputa para ver quem tem a melhor proposta.

O encontro de blogueiros teve essa coisa única. Não foi uma disputa de aparelho, nem guerra de partidos, nem um jogo sobre quem é mais inteligente. Tampouco houve cobranças sobre aqueles que estavam ali defendendo Dilma ou os que insistiam na crítica. Foi um espaço de conversa real, na qual as divergências foram apontadas sem dedo em riste ou caras enfastiadas. Cada fala, na mesa ou na plateia, aparecia como um ponto a mais na grande teia de solidariedade, partilha e comunhão comunicacional que estavam todos dispostos a construir. As pessoas estavam interessadas em saber como sobreviver a onda fascistizante que varre o país, como garantir recursos para sobreviver com blogs críticos, como escrever sem dar espaço para judicialização, como narrar a vida com competência e como construir uma rede de apoio e socialização da informação.

Gente de Roraima, do Amapá, de Ceará, do Maranhão, dos rincões mais afastados do Brasil profundo que, nos seus espaços geográfico resiste, muitas vezes solitária, e que veio buscar essa coisa boa que é se sentir parte de algo grande, transformador e generoso.

Nas falas, a certeza de que a blogosfera, o espaço do ativismo digital, teve papel fundamental na denúncia do golpe ocorrido no país. “Nós estamos criando um novo tipo de jornalismo horizontal, viral”, afirmou Laura Capriglione, do Coletivo Jornalistas Livres. “Estamos contando o país desde os nossos celulares e temos de centrar fogo na credibilidade. Esse é o nosso desafio. Checar, checar e divulgar só a verdade, mas sem se fechar num gueto. Temos de chegar longe, ter estratégia de rede, não falar apenas para nós mesmos”.

Nas rodas de conversa, momento estratégico de pequenos grupos no qual todos têm a possibilidade de expor suas ideias, ficou claro que o trabalho do ativismo digital não pode ficar apenas na denúncia do golpe, mas também avançar para a construção de uma soberania na comunicação, coisa que obviamente precisa passar também pela construção de uma outra forma de estado, de organização da vida. Sem a luta concreta na vida, não adianta a luta digital. Há que transformar o Estado para que se tenha também uma outra comunicação, tudo está ligado. E nós, jornalistas – ou comunicadores populares - temos a obrigação de ser o elemento crítico, que narra e desvela a realidade.

O Quinto Encontro dos Blogueiros e Ativistas Digitais terminou com a certeza de que é preciso reunir as pessoas e provocar o conhecimento entre elas. Uma vez feito o contato pessoal e afetivo a possibilidade da formação da rede é bem maior. Também produziu a Carta de Belo Horizonte que repudia o governo ilegítimo hoje no Brasil, faz uma breve análise de conjuntura e aponta eixos de luta na política e na comunicação.

Foi formada também a comissão nacional que tratará de organizar o sexto encontro para daqui a dois anos. Enquanto isso, a luta seguirá, fortalecida e permanente.

Menção especial aos incansáveis Altamiro Borges e Aparecido Araújo que, com especial carinho e afeto garantiram a expressão de todas as vozes. É assim que se avança!





Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes
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Perdidos

Na Inglaterra de Joseph Conrad, no relato diário de partidas e chegadas de navios publicado pela imprensa, a palavra mais temida era overdue (atrasado) junto ao nome de um barco. Estar overdue era estar à beira de um grande alívio ou de uma grande tragédia, pois só uma de duas palavras substituiria o temido adjetivo no noticiário: arrived (chegado), finalmente, ou missing (desaparecido).

Havia um tempo predeterminado para um barco overdue passar a ser descrito como missing, e o progresso de uma condição a outra dava à leitura de um simples registro comercial a mesma sensação de um emocionante folhetim diário. Na falta de notícias de uma chegada ou de uma tragédia comprovada, não havia um tempo predeterminado para o epíteto missing ser abandonado. Ele perdurava ao lado do nome do barco como uma sombra, dia após dia, e o barco permanecia desaparecido, nas palavras de Conrad, “num mistério grande como o mundo”. Ou pelo menos como o mar.

Hoje, os perigos do mar continuam os mesmos, mas qualquer caíque sabe sempre exatamente onde está, e pode transmitir sua localização e sua condição em segundos. Então, por que esta sensação de estarmos overdue em algum indefinível porto seguro do qual partimos e cujo caminho de volta nunca mais reencontramos, perdidos num mistério cada vez maior?

Ao contrário dos nossos barcos, continuamos sendo matéria de especulação literária. Há uma crise não só de velhas certezas ideológicas e morais, mas de velhas certezas científicas também, e não passa dia em que não se descubra que o universo não é nada do que se pensava, ontem. Não admira que as pessoas cada vez mais renunciem ao racional — que, afinal, nos deu o GPS, mas nos deixou mais desorientados do que antes — e busquem o místico, o tribal e o maluco. Na falta de instrumentos precisos para mapear a angústia, apela-se de novo para entranhas de pássaros, deuses selvagens e a anulação dos sentidos.

No tempo de Joseph Conrad, os barcos guiavam-se pelos astros e pelos polos magnéticos. Mesmo longe de qualquer porto ou socorro, nenhum herói embarcado de Conrad tinha razão para duvidar das estrelas sobre a sua cabeça ou da bússola à sua frente, ou dificuldade em identificar seu lugar no mundo.

Luís Fernando Veríssimo
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Matutando

No dia 22 de abril de 1500, Pedro Álvares Cabral não estava descobrindo o Brasil, estava a descobrir o Brasil. Um dos grandes mistérios da nossa história e da história da nossa língua quase em comum é: por que o gerúndio (forma nominal do verbo caracterizada pelo sufixo “ndo”), que quase não é usado em Portugal, é tão usado no Brasil? Já se disse que a diferença entre o português brasileiro e o português português é uma questão de tempo e de espaço. Os portugueses falariam como falam, correndo (ou a correr), comendo (ou a comer) sílabas, a trocar o gordo “o” pelo menos expansivo “u”, porque lhes falta o espaço e o tempo, que encontraram nas colônias, para palavras inteiras e dicção pausada. Seria uma língua apertada. Mas isto não esclarece o mistério do gerúndio.

Atribui-se a proliferação do gerúndio no português brasileiro à influência do inglês, que teria provocado o gerundismo, ou o hábito de empregar o gerúndio mesmo quando não cabe ou não se deve. Existe até um nome para o uso excessivo do gerúndio: endorreia. Uma palavra suficientemente horrível para fazer os portugueses se sentirem vingados por tudo que fizemos com a língua deles. Digam o que disserem, de endorréia eles nunca sofreram.

Certa vez em Portugal, assistíamos a cenas de morte e destruição em algum lugar do Oriente Médio pela TV do hotel sem entender por que o repórter português não parava de falar em turismo. Só depois nos demos conta que ele estava dizendo “terrorismo”.

Poderia existir um dicionário alternativo da língua portuguesa, não com o significado que as palavras têm mas o significado que deveriam ter. Por exemplo:

Áulico — Condição de palidez, causada pela falta de ferro no organismo. (Como em “Ele me parece um pouco áulico”) 

Azáfama — Nome de uma planta amazônica que come périplos (um tipo de mini-vagalume) e outros insetos.

Bizzaro — Duas vezes zarro. Termo de admiração, de origem obscura. (Segundo alguns, “zarro” seria o nome, de origem cigana, dado a quem casa com uma húngara e sobrevive). 

Pedante — Posição de um pé, ligeiramente recuado e em ângulo, assumida para citar poetas italianos do século XIII no original.

Pitéu — O mesmo que “croque” mas dado com o lado da mão, numa chicotada.

Plúmbeo — O ruído que faz um objeto ao cair na água.

Pundonor — Do italiano “pundonore”, ou a exigência feita pelo papa Gregorio VI, chamado “Il Matto”, de ser saudado com puns pelos seus cardeais. 

Querela — Dança folclórica portuguesa em que os pares se xingam, trocam pitéus na orelha e cada um vai para a sua casa, emburrado.

Luís Fernando Veríssimo
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Andorinha

A Dilma descobriu que, como uma andorinha só não faz verão, um Joaquim Levy no Ministério da Fazenda não significou muito. Levy na Fazenda era para ser um sinal de que o governo sucumbira à realidade e adotaria a temível austeridade, mesmo sacrificando princípios do PT. Depois das benesses do Mantega, o rigor do Levy, com liberdade para fazer o que fosse preciso para mostrar que a festa acabara, a banda já fora dormir e reinava a responsabilidade fiscal no salão vazio. Não deu certo. O MERCADO não acreditou na mudança, Levy foi inútil como uma andorinha solitária e o único resultado alcançado pela Dilma foi brigar com o PT.

Mas agora tudo vai mudar. Alguém duvida da responsabilidade fiscal daqueles brancos engravatados, todos com impecáveis credenciais liberais, na fotografia do ministério? Mesmo com a nova austeridade, os programas sociais do PT continuarão, disse o Temer, que também garantiu que a Copa América será nossa e que vai chover menos. De onde virá o dinheiro para os programas sociais do PT continuarem, apesar da nova austeridade? A questão foi debatida na primeira reunião do ministério e ouvi dizer que alguém sugeriu, timidamente, “Quem sabe a gente dá algumas pedaladas, como a Dilma?” e foi atirado pela janela.

É injusto dizer que o País está mal representado no ministério do Temer. Há de tudo no ministério: racistas, machistas, tudo. Richard Nixon, certa vez, defendeu uma nomeação sua que estava sendo muito criticada com a sábia frase: “A mediocridade também precisa ser representada”. Temer não esqueceu os medíocres. Foi mais longe, na sua preocupação de montar um retrato fiel da população. Lembrando o número de brasileiros sendo investigados pela Operação Lava Jato, Temer fez questão de incluir quatro investigados no seu ministério, para manter o princípio da proporcionalidade.

Voltando à andorinha, não deixa de ser irônico ninguém ter culpado o Levy pelo descontrole da economia brasileira. Ele teve todo o poder na mão, inclusive contrariando o amor liberal pelo estado mínimo, e fracassou. Claro, era uma andorinha só, um estranho no ninho do PT, mas fracassou. A Dilma também errou, pensando que o convite ao Levy bastaria como uma mensagem de paz para quem não queria paz, queria sua cabeça de qualquer jeito.

No fim, é uma história de solidões. Do Levy, da Dilma e, claro, da andorinha, que não significava nada.

Luís Fernando Veríssimo
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O que a nova conversa revela sobre Lewandowski e o STF, Otávio Frias e a Lava Jato, Aécio e o golpe — e Dilma

E o golpe vai sendo brutalmente exposto: Renan
O grande mérito da publicação das conversas gravadas é tornar brutalmente claro aquilo que as pessoas mais informadas já sabiam e que era negado pela mídia liderada pela Globo.

Foi golpe. E foi um golpe imundo, em que homens e instituições moralmente putrefatos se uniram para derrubar uma mulher honesta que levou a investigação da corrupção a patamares jamais vistos.

A gravação de Renan, publicada hoje pela Folha, ajuda a compreender ainda melhor o que ocorreu.

Mais uma vez, o STF aparece com destaque na trama golpista. E isto é desesperador: você pode cassar políticos. Mas como lidar com um poder que julga a si mesmo?

Num mundo menos imperfeito, o STF seria imediatamente dissolvido, tais as acusações e as suspeitas que recaem sobre seus integrantes.

Mas como fazer isso?

Escrevi ontem e repito agora: o STF era o grande argumento pelo qual a Globo, em nome da plutocracia, atacava como “alucinação” e “conto da carochinha” a tese do golpe.

Na conversa agora divulgada, Renan diz que todos os eminentes juízes do Supremo estavam “putos” com Dilma.

O motivo não poderia ser mais canalha: dinheiro.

Renan relata uma visita que fez a Dilma. Ela conta que recebeu Lewandowski para o que imaginou que fosse ser um encontro de alto nível sobre a dramática situação política do país.

Mas.

Mas Lewandowski “só veio falar em dinheiro”, disse Dilma. “Isso é uma coisa inacreditável.”

Há muitas coisas inacreditáveis em relação ao STF, a rigor. A demora de quatro meses de Teori para acolher o pedido de afastamento de Eduardo Cunha é uma delas. As atitudes sistematicamente indecentes e partidárias de Gilmar Mendes e seu mascote Toffoli são outra delas.

O interlocutor de Renan na conversa, o mesmo Sérgio Machado de Jucá, produziu a melhor definição do STF destes tempos. “Nunca vi um Supremo tão merda.”

Outros personagens destacados do golpe aparecem neste diálogo vazado. A Folha, por exemplo, se bateu intensamente pela queda de Dilma. Mais especificamente, seu dono e editor, Otávio Frias Filho.

Ele é citado por Renan como tendo reconhecido exageros na cobertura da Lava Jato.

Ora, ora, ora.

Se reconheceu o caráter maligno do circo da Lava Jato, por que ele não fez nada? Ele era apenas o ombudsman do jornal, ou o porteiro do prédio?

Bastaria uma palavra sua para retirar o exagero da cobertura. Se não a pronunciou, é porque era conivente ou inepto como diretor.

Faça sua escolha.

Aécio surge acoelhado. Tinha medo da Lava Jato, diz Renan. Sabemos agora que Aécio não é apenas demagogo, hipócrita e corrupto.

É também covarde.

E é neste campo que, sem saber que era gravado, Renan presta um extraordinário tributo a Dilma. “Ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável.”

Os colunistas da imprensa, nestes dias, diziam freneticamente que Dilma estava abatida. Era gripe, informa Renan. “Ela está gripada, muito gripada.”

Se existe algum tipo de decência no Brasil — de justiça não dá para falar, dado o STF — Dilma tem que receber um formidável pedido de desculpas dos brasileiros e ser reconduzida ao posto do qual canalhas golpistas a retiraram.

Paulo Nogueira
No DCM
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Teori homologa delação de Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro

Para obter o benefício, ele grampeou três caciques do PMDB: Renan, Sarney e Jucá

Renan, Sarney e Jucá
O ministro Teori Zavaski, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou a delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, segundo uma fonte que acompanha o caso de perto. Para obter o benefício, Machado grampeou três caciques do PMDB, o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL), o ex-presidente da República José Sarney (AP), e o senador Romero Jucá (RR). Em razão do grampo, Jucá teve que deixar o Ministério do Planejamento somente onze dias depois de ter assumido o cargo na gestão Michel Temer.

Machado decidiu tentar um acordo de delação quando soube, no início deste ano, que ele também fora delatado por um executivo de empreiteira.

O executivo revelou ao Ministério Público Federal a existência de uma conta usada para repassar propina a Machado. Diante do que poderia ser uma prova suficiente para levá-lo à prisão, Machado se apressou em buscar provas e a gravar conversas com aliados para negociar uma delação com o grupo do procurador-geral, Rodrigo Janot.

O ex-presidente da Transpetro já foi ouvido por um dos auxiliares de Teori e, em resposta às perguntas do juiz, confirmou que fez a delação por livre e espontânea vontade.

A advogada Fernanda Tórtima, responsável pela defesa do ex-presidente da Transpetro, disse que não falaria sobre o assunto.

Borracha na Lava-jato

Ele
Em conversa gravada por Machado, Renan apoia e discute uma mudança na lei que trata da delação premiada a fim de impedir que um preso se torne delator. Renan sugere ainda que, após enfrentar esse assunto, também poderia "negociar" com membros do STF "a transição" da presidente afastada Dilma Rousseff.

A data das conversas não foram reveladas. Em um dos diálogos com Renan, divulgados pelo jornal "Folha de S. Paulo", Machado sugeriu "um pacto", que seria "passar uma borracha no Brasil". Renan responde: "antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo [inaudível] fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação".

Jailton de Carvalho
No O Globo
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Em conversa gravada, Renan defende mudar lei da delação premiada; ouça


O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), disse em conversa gravada pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado que apoia uma mudança na lei que trata da delação premiada de forma a impedir que um preso se torne delator — procedimento central utilizado pela Operação Lava Jato.

Renan sugeriu que, após enfrentar esse assunto, também poderia "negociar" com membros do STF (Supremo Tribunal Federal) "a transição" de Dilma Rousseff, presidente hoje afastada.

Machado e Renan são alvos da Lava Jato. Desde março, temendo ser preso, Machado gravou pelo menos duas conversas entre ambos. A reportagem obteve os áudios. Machado negocia um acordo de delação premiada.

Ele também gravou o senador Romero Jucá (PMDB-RR), empossado ministro do Planejamento no governo Michel Temer. A revelação das conversas pela Folha na segunda (23) levou à exoneração de Jucá.

Em um dos diálogos com Renan, Machado sugeriu "um pacto", que seria "passar uma borracha no Brasil". Renan responde: "antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo [inaudível] fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação".

A mudança defendida pelo peemedebista, se efetivada, poderia beneficiar Machado. Ele procurou Jucá, Renan e o ex-presidente José Sarney (PMDB) porque temia ser preso e virar réu colaborador.

"Ele está querendo me seduzir, porra. [...] Mandando recado", disse Machado a Renan em referência ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot.

Renan, na conversa, também ataca decisão do STF tomada ano passado, de manter uma pessoa presa após a sua segunda condenação.

O presidente do Senado também fala em negociar a transição com membros do STF, embora o áudio não permita estabelecer com precisão o que ele pretende.

Machado, para quem os ministros "têm que estar juntos", quis saber por que Dilma não "negocia" com os membros do Supremo. Renan respondeu: "Porque todos estão putos com ela".

Para Renan, os políticos todos "estão com medo" da Lava Jato. "Aécio [Neves, presidente do PSDB] está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa'", contou Renan, em referência à delação de Delcídio do Amaral (ex-PT-MS), que fazia citação ao tucano.

Renan disse que uma delação da empreiteira Odebrecht "vai mostrar as contas", em provável referência à campanha eleitoral de Dilma. Machado respondeu que "não escapa ninguém de nenhum partido". "Do Congresso, se sobrar cinco ou seis, é muito. Governador, nenhum."

O peemedebista manifestou contrariedade ao saber, pelo senador Jader Barbalho (PMDB-PA), que o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), esteve com Michel Temer em março.

Em dois pontos das conversas, Renan e Machado falam sobre contatos do senador e de Dilma com a mídia, citando o diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, e o vice-presidente Institucional e Editorial do Grupo Globo, João Roberto Marinho. Renan diz que Frias reconheceu "exageros" na cobertura da Lava Jato e diz que Marinho afirmou a Dilma que havia um "efeito manada" contra seu governo.

Outro lado

Por meio de sua assessoria, o presidente do Senado informou que os "diálogos não revelam, não indicam, nem sugerem qualquer menção ou tentativa de interferir na Lava Jato ou soluções anômalas. E não seria o caso porque nada vai interferir nas investigações."

Segundo a assessoria, "todas as opiniões do senador foram publicamente noticiadas pelos veículos de comunicação, como as críticas ao ex-presidente da Câmara, a possibilidade de alterar a lei de delações para, por exemplo, agravar as penas de delações não confirmadas e as notícias sobre delações de empreiteiras foram fartamente veiculadas".

"Em relação ao senador Aécio Neves, o senador Renan Calheiros se desculpa porque se expressou inadequadamente. Ele se referia a um contato do senador mineiro que expressava indignação — e não medo — com a citação do ex-senador Delcídio do Amaral."

A nota diz ainda que "o senador Renan Calheiros tem por hábito receber todos aqueles que o procuram. Nas conversas que mantém habitualmente defende com frequência pontos de vista e impressões sobre o quadro. Todas os pontos de vista, evidentemente, dentro da Lei e da Constituição".

A assessoria do STF informou que o presidente do tribunal, Ricardo Lewandowski, "jamais manteve conversas sobre supostas 'transição' ou 'mudanças na legislação penal' com as pessoas citadas", isto é, Renan Calheiros e Sérgio Machado.

Segundo a nota, o STF "mantém relacionamento institucional com os demais Poderes" e o ministro Lewandowski "participou de diversos encontros, constantes de agenda pública, com integrantes do Poder Executivo para tratar do Orçamento do Judiciário e do reajuste dos salários de servidores e magistrados".

Também por meio de nota, a Executiva Nacional do PSDB informou que vai "acionar na Justiça" o ex-presidente da Transpetro. A sigla diz ser "inaceitável essa reiterada tentativa de acusar sem provas em busca de conseguir benefícios de uma delação premiada".

"Fica cada vez mais clara a tentativa deliberada e criminosa do senhor Sérgio Machado de envolver em suspeições o PSDB e o nome do senador Aécio Neves, em especial, sem apontar um único fato que as justifique. As gravações se limitam a reproduzir comentários feitos pelo próprio autor, com o objetivo específico de serem gravados e divulgados."

"Sobre a referência ao diálogo entre os senadores Aécio Neves e Renan Calheiros, o senador Aécio manifestou a ele o que já havia manifestado publicamente inúmeras vezes: a sua indignação com as falsas citações feitas ao seu nome."

Sérgio Machado não é localizado desde a semana passada.



Primeira conversa:

SÉRGIO MACHADO - Agora, Renan, a situação tá grave.

RENAN CALHEIROS - Grave e vai complicar. Porque Andrade fazer [delação], Odebrecht, OAS. [falando a outra pessoa, pede para ser feito um telefonema a um jornalista]

MACHADO - Todos vão fazer.

RENAN - Todos vão fazer.

MACHADO - E essa é a preocupação. Porque é o seguinte, ela [Dilma] não se sustenta mais. Ela tem três saídas. A mais simples seria ela pedir licença...

RENAN - Eu tive essa conversa com ela.

MACHADO - Ela continuar presidente, o Michel assumiria e garantiria ela e o Lula, fazia um grande acordo. Ela tem três saídas: licença, renúncia ou impeachment. E vai ser rápido. A mais segura para ela é pedir licença e continuar presidente. Se ela continuar presidente, o Michel não é um sacana...

RENAN - A melhor solução para ela é um acordo que a turma topa. Não com ela. A negociação é botar, é fazer o parlamentarismo e fazer o plebiscito, se o Supremo permitir, daqui a três anos. Aí prepara a eleição, mantém a eleição, presidente com nova...

[atende um telefonema com um jornalista]

RENAN - A perspectiva é daquele nosso amigo.

MACHADO - Meu amigo, então é isso, você tem trinta dias para resolver essa crise, não tem mais do que isso. A economia não se sustenta mais, está explodindo...

RENAN - Queres que eu faça uma avaliação verdadeira? Não acredito em 30 dias, não. Porque se a Odebrecht fala e essa mulher do João Santana fala, que é o que está posto...

[apresenta um secretário de governo de Alagoas]

MACHADO - O Janot é um filho da puta da maior, da maior...

RENAN - O Janot... [inaudível]

MACHADO - O Janot tem certeza que eu sou o caixa de vocês. Então o que que ele quer fazer? Ele não encontrou nada nem vai encontrar nada. Então ele quer me desvincular de vocês, mediante Ricardo e mediante e mediante do Paulo Roberto, dos 500 [mil reais], e me jogar para o Moro. E aí ele acha que o Moro, o Moro vai me mandar prender, aí quebra a resistência e aí fudeu. Então a gente de precisa [inaudível] presidente Sarney ter de encontro... Porque se me jogar lá embaixo, eu estou fodido. E aí fica uma coisa... E isso não é análise, ele está insinuando para pessoas que eu devo fazer [delação], aquela coisa toda... E isso não dá, isso quebra tudo isso que está sendo feito.

RENAN - [inaudível]

MACHADO - Renan, esse cara é mau, é mau, é mau. Agora, tem que administrar isso direito. Inclusive eu estou aqui desde ontem... Tem que ter uma ideia de como vai ser. Porque se esse vagabundo jogar lá embaixo, aí é uma merda. Queria ver se fazia uma conversa, vocês, que alternativa teria, porque aí eu me fodo.

RENAN - Sarney.

MACHADO - Sarney, fazer uma conversa particular. Com Romero, sei lá. E ver o que sai disso. Eu estou aqui para esperar vocês para poder ver, agora, é um vagabundo. Ele não tem nada contra você nem contra mim.

RENAN - Me disse [inaudível] 'ó, se o Renan tiver feito alguma coisa, que não sei, mas esse cara, porra, é um gênio. Porque nós não achamos nada.'

MACHADO - E já procuraram tudo.

RENAN - Tudo.

MACHADO - E não tem. Se tivesse alguma coisa contra você, já tinha jogado... E se tivesse coisa contra mim [inaudível]. A pressão que ele quer usar, que está insinuando, é que...

RENAN - Usou todo mundo.

MACHADO -...está dando prazos etc é que vai me apartar de vocês. Mesma coisa, já deu sinal com a filha do Eduardo e a mulher... Aquele negócio da filha do Eduardo, a porra da menina não tem nada, Renan, inclusive falsificaram o documento dela. Ela só é usuária de um cartão de crédito. E esse é o caminho [inaudível] das delações. Então precisa ser feito algo no Brasil para poder mudar jogo porque ninguém vai aguentar. Delcídio vai dizer alguma coisa de você?

RENAN - Deus me livre, Delcídio é o mais perigoso do mundo. O acordo [inaudível] era para ele gravar a gente, eu acho, fazer aquele negócio que o J Hawilla fez.

MACHADO - Que filho da puta, rapaz.

RENAN - É um rebotalho de gente.

MACHADO - E vocês trabalhando para poder salvar ele.

RENAN - [Mudando de assunto] Bom, isso aí então tem que conversar com o Sarney, com o teu advogado, que é muito bom. [inaudível] na delação.

MACHADO - Advogado não resolve isso.

RENAN - Traçar estratégia. [inaudível]

MACHADO - [inaudível] quanto a isso aí só tem estratégia política, o que se pode fazer.

RENAN - [inaudível] advogado, conversar, né, para agir judicialmente.

MACHADO - Como é que você sugeriria, daqui eu vou passar na casa do presidente Sarney.

RENAN - [inaudível]

MACHADO - Onde?

RENAN - Lá, ou na casa do Romero.

MACHADO - Na casa do Romero. Tá certo. Que horas mais ou menos?

RENAN - Não, a hora que você quiser eu vou estar por aqui, eu não vou sair não, eu vou só mais tarde vou encontrar o Michel.

MACHADO - Michel, como é que está, como é que está tua relação com o Michel?

RENAN - Michel, eu disse pra ele, tem que sumir, rapaz. Nós estamos apoiando ele, porque não é interessante brigar. Mas ele errou muito, negócio de Eduardo Cunha... O Jader me reclamou aqui, ele foi lá na casa dele e ele estava lá o Eduardo Cunha. Aí o Jader disse, 'porra, também é demais, né'.

MACHADO - Renan, não sei se tu viu, um material que saiu na quinta ou sexta-feira, no UOL, um jornalista aqui, dizendo que quinta-feira tinha viajado às pressas...

RENAN - É, sacanagem.

MACHADO - Tu viu?

RENAN - Vi.

MACHADO - E que estava sendo montada operação no Nordeste com Polícia Federal, o caralho, na quinta-feira.

RENAN - Eu vi.

MACHADO - Então, meu amigo, a gente tem que pensar como é que encontra uma saída para isso aí, porque isso aí...

RENAN - Porque não...

MACHADO - Renan, só se fosse imbecil. Como é que tu vai sentar numa mesa para negociar e diz que está ameaçado de preso, pô? Só quem não te conhece. É um imbecil.

RENAN - Tem que ter um fato contra mim.

MACHADO - Mas mesmo que tivesse, você não ia dizer, porra, não ia se fragilizar, não é imbecil. Agora, a Globo passou de qualquer limite, Renan.

RENAN - Eu marquei para segunda-feira uma conversa inicial com [inaudível] para marcar... Ela me disse que a conversa dela com João Roberto [Marinho] foi desastrosa. Ele disse para ela... Ela reclamou. Ele disse para ela que não tinha como influir. Ela disse que tinha como influir, porque ele influiu em situações semelhantes, o que é verdade. E ele disse que está acontecendo um efeito manada no Brasil contra o governo.

MACHADO - Tá mesmo. Ela acabou. E o Lula, como foi a conversa com o Lula?

RENAN - O Lula está consciente, o Lula disse, acha que a qualquer momento pode ser preso. Acho até que ele sabia desse pedido de prisão lá...

MACHADO - E ele estava, está disposto a assumir o governo?

RENAN - Aí eu defendi, me perguntou, me chamou num canto. Eu acho que essa hipótese, eu disse a ele, tem que ser guardada, não pode falar nisso. Porque se houver um quadro, que é pior que há, de radicalização institucional, e ela resolva ficar, para guerra...

MACHADO - Ela não tem força, Renan.

RENAN - Mas aí, nesse caso, ela tem que se ancorar nele. Que é para ir para lá e montar um governo. Esse aí é o parlamentarismo sem o Lula, é o branco, entendeu?

MACHADO - Mas, Renan, com as informações que você tem, que a Odebrecht vai tacar tiro no peito dela, não tem mais jeito.

RENAN - Tem não, porque vai mostrar as contas. E a mulher é [inaudível].

MACHADO - Acabou, não tem mais jeito. Então a melhor solução para ela, não sei quem podia dizer, é renunciar ou pedir licença.

RENAN - Isso [inaudível]. Ela avaliou esse cenário todo. Não deixei ela falar sobre a renúncia. Primeiro cenário, a coisa da renúncia. Aí ela, aí quando ela foi falar, eu disse, 'não fale não, pelo que conheço, a senhora prefere morrer'. Coisa que é para deixar a pessoa... Aí vai: impeachment. 'Eu sinceramente acho que vai ser traumático. O PT vai ser desaparelhado do poder'.

MACHADO - E o PT, com esse negócio do Lula, a militância reacendeu.

RENAN - Reacendeu. Aí tudo mundo, legalista... Que aí não entra só o petista, entra o legalista. Ontem o Cassio falou.

MACHADO - É o seguinte, o PSDB, eu tenho a informação, se convenceu de que eles é o próximo da vez.

RENAN - [concordando] Não, o Aécio disse isso lá. Que eu sou a esperança única que eles têm de alguém para fazer o...

MACHADO - [Interrompendo] O Cunha, o Cunha. O Supremo. Fazer um pacto de Caxias, vamos passar uma borracha no Brasil e vamos daqui para a frente. Ninguém mexeu com isso. E esses caras do...

RENAN - Antes de passar a borracha, precisa fazer três coisas, que alguns do Supremo [inaudível] fazer. Primeiro, não pode fazer delação premiada preso. Primeira coisa. Porque aí você regulamenta a delação e estabelece isso.

MACHADO - Acaba com esse negócio da segunda instância, que está apavorando todo mundo.

RENAN - A lei diz que não pode prender depois da segunda instância, e ele aí dá uma decisão, interpreta isso e acaba isso.

MACHADO - Acaba isso.

RENAN - E, em segundo lugar, negocia a transição com eles [ministros do STF].

MACHADO - Com eles, eles têm que estar juntos. E eles não negociam com ela.

RENAN - Não negociam porque todos estão putos com ela. Ela me disse e é verdade mesmo, nessa crise toda –estavam dizendo que ela estava abatida, ela não está abatida, ela tem uma bravura pessoal que é uma coisa inacreditável, ela está gripada, muito gripada– aí ela disse: 'Renan, eu recebi aqui o Lewandowski,
querendo conversar um pouco sobre uma saída para o Brasil, sobre as dificuldades, sobre a necessidade de conter o Supremo como guardião da Constituição. O Lewandowski só veio falar de aumento, isso é uma coisa inacreditável'.

MACHADO - Eu nunca vi um Supremo tão merda, e o novo Supremo, com essa mulher, vai ser pior ainda. [...]

MACHADO - [...] Como é que uma presidente não tem um plano B nem C? Ela baixou a guarda. [inaudível]

RENAN - Estamos perdendo a condição política. Todo mundo.

MACHADO - [inaudível] com Aécio. Você está com a bola na mão. O Michel é o elemento número um dessa solução, a meu ver. Com todos os defeitos que ele tem.

RENAN - Primeiro eu disse a ele, 'Michel, você tem que ficar calado, não fala, não fala'.

MACHADO - [inaudível] Negócio do partido.

RENAN - Foi, foi [inaudível] brigar, né.

MACHADO - A bola está no seu colo. Não tem um cara na República mais importante que você hoje. Porque você tem trânsito com todo mundo. Essa tua conversa com o PSDB, tu ganhou uma força que tu não tinha. Então [inaudível] para salvar o Brasil. E esse negócio só salva se botar todo mundo. Porque deixar esse Moro do jeito que ele está, disposto como ele está, com 18% de popularidade de pesquisa, vai dar merda. Isso que você diz, se for ruptura, vai ter conflito social. Vai morrer gente.

RENAN - Vai, vai. E aí tem que botar o Lula. Porque é a intuição dele...

MACHADO - Aí o Lula tem que assumir a Casa Civil e ser o primeiro ministro, esse é o governo. Ela não tem mais condição, Renan, não tem condição de nada. Agora, quem vai botar esse guizo nela?

RENAN - Não, [com] ela eu converso, quem conversa com ela sou eu, rapaz.

MACHADO - Seguinte, vou fazer o seguinte, vou passar no presidente, peço para ele marcar um horário na casa do Romero.

RENAN - Ou na casa dele. Na casa dele chega muita gente também.

MACHADO - É, no Romero chega menos gente.

RENAN - Menos gente.

MACHADO - Então marco no Romero e encontra nós três. Pronto, acabou. [levanta-se e começam a se despedir] Amigo, não perca essa bola, está no seu colo. Só tem você hoje. [caminhando] Caiu no seu colo e você é um cara predestinado. Aqui não é dedução não, é informação. Ele está querendo me seduzir, porra.

RENAN - Eu sei, eu sei. Ele quem?

MACHADO - O bicho daqui, o Janot.

RENAN - Mandando recado?

MACHADO - Mandando recado.

RENAN - Isso é?

MACHADO - É... Porra. É coisa que tem que conversar com muita habilidade para não chegar lá.

RENAN - É. É.

MACHADO - Falando em prazo... [se despedem]

Segunda conversa:

MACHADO - [...] A meu ver, a grande chance, Renan, que a gente tem, é correr com aquele semi-parlamentarismo...

RENAN - Eu também acho.

MACHADO -...paralelo, não importa com o impeach... Com o impeachment de um lado e o semi-parlamentarismo do outro.

RENAN - Até se não dá em nada, dá no impeachment.

MACHADO - Dá no impeachment.

RENAN - É plano A e plano B.

MACHADO - Por ser semi-parlamentarismo já gera para a sociedade essa expectativa [inaudível]. E no bojo do semi-parlamentarismo fazer uma ampla negociação para [inaudível].

RENAN - Mas o que precisa fazer, só precisa tres três coisas: reforma política, naqueles dois pontos, o fim da proibição...

MACHADO - [Interrompendo] São cinco pontos:

[...]

RENAN - O voto em lista é importante. [inaudível] Só pode fazer delação... Só pode solto, não pode preso. Isso é uma maneira e toda a sociedade compreende que isso é uma tortura.

MACHADO - Outra coisa, essa cagada que os procuradores fizeram, o jogo virou um pouco em termos de responsabilidade [...]. Qual a importância do PSDB... O PSDB teve uma posição já mais racional. Agora, ela [Dilma] não tem mais solução, Renan, ela é uma doença terminal e não tem capacidade de renunciar a nada. [inaudível]

[...]

MACHADO - Me disseram que vai. Dentro da leniência botaram outras pessoas, executivos para falar. Agora, meu trato com essas empresas, Renan, é com os donos. Quer dizer, se botarem, vai dar uma merda geral, eu nunca falei com executivo.

RENAN - Não vão botar, não. [inaudível] E da leniência, detalhar mais. A leniência não está clara ainda, é uma das coisas que tem que entrar na...

MACHADO -...No pacote.

RENAN - No pacote.

MACHADO - E tem que encontrar, Renan, como foi feito na Anistia, com os militares, um processo que diz assim: 'Vamos passar o Brasil a limpo, daqui para frente é assim, pra trás...' [bate palmas] Porque senão esse pessoal vão ficar eternamente com uma espada na cabeça, não importa o governo, tudo é igual.

RENAN - [concordando] Não, todo mundo quer apertar. É para me deixar prisioneiro trabalhando. Eu estava reclamando aqui.

MACHADO - Todos os dias.

RENAN - Toda hora, eu não consigo mais cuidar de nada.

[...]

MACHADO - E tá todo mundo sentindo um aperto nos ombros. Está todo mundo sentindo um aperto nos ombros.

RENAN - E tudo com medo.

MACHADO - Renan, não sobra ninguém, Renan!

RENAN - Aécio está com medo. [me procurou] 'Renan, queria que você visse para mim esse negócio do Delcídio, se tem mais alguma coisa.'

MACHADO - Renan, eu fui do PSDB dez anos, Renan. Não sobra ninguém, Renan.

[...]

MACHADO - Não dá pra ficar como está, precisa encontrar uma solução, porque se não vai todo mundo... Moeda de troca é preservar o governo [inaudível].

RENAN - [inaudível] sexta-feira. Conversa muito ruim, a conversa com a menina da Folha... Otavinho [a conversa] foi muito melhor. Otavinho reconheceu que tem exageros, eles próprios tem cometido exageros e o João [provável referência a João Roberto Marinho] com aquela conversa de sempre, que não manda. [...] Ela [Dilma] disse a ele 'João, vocês tratam diferentemente de casos iguais. Nós temos vários indicativos'. E ele dizendo 'isso virou uma manada, uma manada, está todo mundo contra o governo.'

MACHADO - Efeito manada.

RENAN - Efeito manada. Quer dizer, uma maneira sutil de dizer "acabou", né.

[...]

Rubens Valente
No fAlha
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