9 de mai de 2016

STF deverá decidir se cabe debate jurídico sobre impeachment, diz Lewandowski

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, afirmou nesta segunda-feira que, após o julgamento do impeachment da presidente Dilma Rousseff pelo Senado, a Suprema Corte deverá decidir se pode ou não reanalisar o caso e entrar juridicamente no debate, que tem natureza política.

O ministro se reuniu com os presidentes da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almargo Lemes, e da Corte Interamericana de Direitos, Roberto Caldas, que estiveram no STF para manifestar preocupação da comunidade internacional com o trâmite do processo contra Dilma no Congresso. Ambos indicaram dúvidas de que a denúncia contra a petista poderá de fato ensejar condenação por crime de responsabilidade e questionaram a imparcialidade dos julgadores.

"Ainda não há uma decisão política sobre o mérito do impeachment. Por enquanto, o Brasil está aguardando uma decisão do Senado. Pode ser que o Supremo venha ou não a ser instado a se pronunciar sobre essa questão, que terá de decidir inicialmente se a decisão é exclusivamente política ou se conforta algum tipo de abordagem de ponto de vista jurídico passível de ser examinada pelo Supremo Tribunal Federal", explicou Lewandowski.

Lemes e Almargo também perguntaram a Lewandowski sobre a possibilidade de afastamento dos parlamentares investigados por corrupção para dar legitimidade ao processo, como ocorreu com o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). O presidente do Supremo respondeu, no entanto, que é necessário considerar a presunção de inocência dos congressistas, e que eles não podem ser punidos até serem julgados.

"A Suprema Corte está atenta aos acontecimentos, está reagindo tempestivamente às preocupações. Temos dado prioridade absoluta para esses temas relativos ao impeachment, em prejuízo à pauta normal. Tudo que ingressa aqui é decidido, seja monocraticamente por um ministro ou, quando é algo de maior importância, é levado imediatamente ao plenário, em prejuízo da pauta ordinária", defendeu Lewandowski.

O presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas, apontou haver irregularidades no processo do impeachment que podem torná-lo ilegal. De acordo com ele, os problemas foram suscitados na decisão do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), de anular as sessões que admitiram o impeachment na Casa Legislativa.

Nesta tarde, o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, anunciou que recorrerá à Corte Interamericana caso seja necessário para anular o processo. Segundo o ministro, duas petições já foram apresentadas ao Tribunal a respeito de decisões anteriores em que os juízes haviam se manifestado sobre a imparcialidade em processos relativos de impeachment no Peru e no Equador.
Leia Mais ►

Breno Altman comenta derrubada do impeachment


Leia Mais ►

Nota de Cunha prova erro grave de Renan e decisão tempestiva de Maranhão


Uma nota divulgada nesta segunda-feira, pelo presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), comprova que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), cometeu um erro grave ao dar continuidade ao golpe parlamentar em curso no País.

Nela, Cunha afirmou que iria se manifestar no último dia 5 sobre o recurso da Advocacia-Geral da União, que contestava alguns procedimentos no processo de impeachment.

Como Cunha foi afastado naquele mesmo dia, a decisão foi tomada hoje pelo seu sucessor Waldir Maranhão (PP-MA) – em sentido contrário ao que seria dado por Cunha (leia mais aqui), mas de forma legítima.

Em sua argumentação para justificar a continuidade do golpe, Renan também afirmou que a decisão de Maranhão foi "intempestiva", quando, na verdade, ainda não havia sido tomada nem mesmo por Cunha.

Com o erro de Renan, processo de impeachment será fatalmente judicializado.

Veja a íntegra da nota de Eduardo Cunha, divulgada hoje, comprovada que a decisão de Waldir Maranhão não foi intempestiva:
A decisão do presidente em exercício da Câmara dos Deputados é absurda, irresponsável, antirregimental e foi feita à revelia do corpo técnico da Casa, que já tinha manifestado a posição de negar conhecimento ao recurso (cópia em anexo), cuja assinatura eu iria apor na quinta-feira (5), data do meu afastamento.

A participação do advogado-geral da União e do governador do Maranhão na confecção da decisão mostra a interferência indevida na tentativa desesperada de evitar a consumação, pelo Supremo Tribunal Federal, da instauração do processo de impeachment da presidente da República.

Condeno as insinuações de qualquer natureza publicadas por jornalistas inescrupulosos de qualquer participação minha no episódio.

Eduardo Cunha
No 247
Leia Mais ►

Maranhão Tá Tranquilo Tá Favorável


Leia Mais ►

A bomba explodiu no colo do Supremo

Renan vestiu a farda de Coronel da República das Bananas


O presidente do Senado, Renan Calheiros, decidiu dar continuidade ao processo de impeachment.

Ignorou a decisão do presidente da Câmara.

E chamou o ofício de Maranhão de brincadeira.

Agora, a bomba está com o STF.

E nas ruas?

Bem, nas ruas, com o Golpe em andamento...

Leia Mais ►

Debate: A mídia e a subjetividade dos brasileiros — Ao vivo

 Transmissão Encerrada 

Leia Mais ►

Cunha pode estar por trás de anulação da votação do impeachment

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2016/05/09/cunha-pode-estar-por-tras-de-anulacao-da-votacao-do-impeachment/

cunha waldir maranhão

A decisão de anular a votação do impeachment na Câmara tomada pelo presidente interino da Casa, deputado Waldir Maranhão (PP-MA), não parece ser exatamente um ato de patriotismo ou algo relacionado a uma jogada casada com o governo. Pelo que este blogue apurou quem estaria por trás dessa decisão é Eduardo Cunha.

Em nota divulgada à imprensa, Maranhão diz que a petição da AGU que pedia o cancelamento da votação ainda não havia sido analisada pela Casa e que, ao tomar conhecimento dela, resolveu acolher. Na decisão, ele argumenta “ocorreram vícios que tornaram nula de pleno direito a sessão em questão”.

Não há nada de errado nem na fala de Maranhão e nem na sua decisão. Há elementos que justificam o cancelamento da sessão. Mas o fato é que a decisão tomada tem mais elementos políticos do que técnicos.

Maranhão esteve na sexta-feira com Cunha e esse tema teria sido discutido entre eles. O presidente afastado da Casa está se sentindo abandonado pelos antigos aliados e percebeu que não conseguiria se livrar da prisão e nem influenciar em mais nada no Congresso se porventura Dilma viesse a ser afastada nesta quarta-feira.

E Maranhão também percebeu que se não tiver tempo para buscar uma base para garantir sua permanência na presidência da Casa também será varrido da cadeira que está em pouco tempo.

Ou seja, para ambos o melhor é que o processo de Dilma se arraste por mais um tempo. E para garantir este tempo, Cunha não se opõe nem sequer a uma aproximação de Maranhão com o governo Dilma.

As peças se reposicionaram de novo. O Supremo deve ser chamado para tratar deste assunto. E pode vir a se manifestar contra a decisão de Maranhão e voltar as peças para onde estavam.

Mas não será uma decisão simples.

Por outro lado, a equipe de Temer deve estar buscando formas de se reaproximar de Cunha. Ficou mais do que claro agora que Cunha não estaria para brincadeira quando disse a alguns aliados, neste final de semana, que o governo Temer pode acabar antes de começar. Cunha não perdoará o vice se ele o abandonar pelo caminho.
Leia Mais ►

Mídia e oposição esperneiam diante da anulação da votação do Impeachment


O presidente interino da Câmara dos deputados, Waldir Maranhão (PP), anulou a sessão de votação de impeachment de Dilma. Em sua decisão, baseada na Lei do impeachment (1079/50), no Regimento Interno da Casa e na Constituição Federal, Maranhão argumentou que a sessão de votação cometeu vícios que infringiram tanto normas legais e regimentais, como o amplo direito de defesa da presidenta.

Essa decisão, obviamente, caiu como uma bomba no cenário nacional.

A grande mídia está literalmente esperneando. Trazendo parlamentares, advogados e correspondentes para refutar a decisão da presidência da Câmara. Já o chamaram de desequilibrado, intempestivo, ilegítimo, entre outros adjetivos que visam desqualifica-lo. Fazem o mesmo com a decisão em si. Segundo os impeachmistas, é uma atitude absurda, oportunista, de cunho político, que desrespeita a voz e os votos dos parlamentares.

No mínimo, estranha essa reação, tendo em vista que passamos os últimos 14 meses sob o jugo autoritário de Eduardo Cunha (PMDB) na presidência da Câmara, cometendo manobras e irregularidades regimentais, tomando decisões absurdas para impor o que era do seu interesse, passando por cima da legalidade e da democracia; e essas mesmas pessoas e mídias que, hoje, estão revoltadas, quase nada fizeram, pelo contrário, a maior parte delas apoiou Eduardo Cunha.

Reclamam desesperados pela legalidade do processo que, segundo eles, não pode ser conduzido por interesses políticos. Mas, há três dias, defendiam com unhas e dentes, quando questionados sobre a inexistência de crime de responsabilidade contra Dilma, que o impeachment é um julgamento político. O que mudou agora?

Está evidente que Michel Temer (PMDB) e sua corja de traidores, assim como a mídia, não contavam com essa reviravolta. Estão correndo contra o tempo, tentando sanar algo que está sendo anunciado há muito tempo: Esse processo de impeachment não tem sustentação jurídica, foi conduzido por um réu mal intencionado, feriu o amplo direito de defesa da presidenta e foi votado numa sessão esdruxula que envergonhou até os favoráveis à ação.

Não há, portanto, nada de absurdo, muito menos de novo na decisão de Maranhão. Milhões de brasileiros estão gritando tais argumentos há meses. A mídia internacional tem denunciado as artimanhas golpistas de Temer, Cunha e aliados aos quatro ventos. As cartas usadas pela presidência da Câmara, hoje, estavam na mesa faz tempo. A oposição que fingiu não vê-las ou se julgou poderosa demais para ter que se precaver delas.

Pelo desespero, estavam tão seguros do sucesso do plano golpista que esqueceram de combinar com os russos, no caso, com o Maranhão.

Curiosamente, o senador Magno Malta (PR), há poucos dias, disse que o rei Salomão que cassaria o mandato de Dilma, pois ele escreveu que “a arrogância precede a ruína”. Faltou o senador exortar, a si próprio e aos seus aliados golpistas, que o provérbio judeu vale para os dois lados.

Thais Moya
No Jornalistas Livres
Leia Mais ►

Globo quer dar Golpe contra o vice do Cunha


O presidente da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), anulou a tramitação do impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

A Rede Globo não perdeu tempo e quer a saída de Maranhão da presidência da Câmara. Para a emissora, é necessária uma nova eleição para substituir Eduardo Cunha e Waldir Maranhão.

Agora, amigo navegante, quem é legítimo? Michel Temer?

Leia Mais ►

As reações de Dilma e Temer ao saberem da anulação do Impeachment por Waldir Maranhão


Leia Mais ►

Presidente da Câmara anula sessão de votação do impeachment

O presidente em exercício na Câmara dos Deputados, dep. Waldir Maranhão, acaba de anular a sessão de votação do impeachment da presidente Dilma, aquela realizada no dia 17 de abril, com base na punição do STF à Cunha.

A intenção dele é reabrir um novo processo de impeachment, desta vez incluindo o vice-presidente Michel Temer.

Presidente da Câmara em exercício Waldir Maranhao acaba de anular a sessão q autorizou o impeachment. E convocou nova.

Aqui vocês podem ler o pronunciamento público de Waldir Maranhão


Leia Mais ►

Carta de José Saramago lida no encerramento do II Fórum Social Mundial


Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um fato notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de 400 anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.

Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta."

Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à proteção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então, desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exato tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...

Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exato e rigoroso sinônimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em ação, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste.

Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objetivamente tem sido. Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e ação social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protetora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há 50 anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas 30 direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há 400 anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a retidão de princípios e clareza de objetivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo atual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em conseqüência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização econômica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica.

E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingênuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efetivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que atualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de ação democrática começa e acaba aí. O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder econômico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos fatos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e atuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder econômico, com a objetiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os de certas conhecidas minorias eternamente descontentes...

Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder econômico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo.

Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

No Revista Espaço Acadêmico
Leia Mais ►

Temer poderá ser o mais “decorativo” dos presidentes

Provável marionete
Como absolutamente em tudo que envolve o golpe, a marca da ilegitimidade de um governo Temer tende a fazer dele uma marionete conduzida justamente pelo que há de pior nos interesses políticos e econômicos do país.

Um governo que já nasce com o seu mais poderoso aliado, Eduardo Cunha, defenestrado da Câmara e com um igual pedido de cassação tramitando na casa, terá que fazer das concessões o seu alimento diário.

Se o programa intitulado “Ponte para o futuro” já é uma celebração ao retrocesso, os interesses particulares da quadrilha de deputados e senadores que lhes dará sustentação são ainda mais desastrosos.

Junte-se a tudo isso o mais completo descrédito perante toda a população — cuja única concordância é exatamente sobre a sua incompetência — e teremos uma verdadeira nulidade à frente da nação.

Uma vez consumado o golpe, não será Temer efetivamente a sentar na cadeira do mais alto cargo da República. Apesar de ser a sua figura ignóbil a se apresentar para as lentes da grande mídia condescendente, os verdadeiros administradores do país serão outros.

Somente um completo imbecil pode acreditar que tudo isso que está acontecendo no Brasil não acoberta um intrincado jogo de poder que passa invariavelmente pela ganância de dinheiro.

O investimento financeiro num projeto como um impeachment de uma presidente democraticamente eleita é altíssimo e de grande risco. Ainda mais para que seja colocado em seu lugar um político que não ultrapassa miseráveis 1% das intenções de voto.

Para que Temer satisfaça o seu ego galopante colocando a faixa presidencial, será preciso que abdique de qualquer participação nas principais decisões que influenciarão no futuro do país.

O capital internacional, grandes empresários, a imprensa tradicional e fundamentalistas religiosos serão os verdadeiros comandantes dessa pátria que preferiu a ilegalidade em detrimento da democracia.

Se o golpe passar, Michel Temer entrará para a história como o mais “decorativo” dos presidentes enquanto os reais “donos” do Brasil cobrarão a conta. E alguém, mais cedo ou mais tarde, terá que pagar.

Carlos Fernandes
No DCM
Leia Mais ►