23 de abr de 2016

O significado da cuspida de Zé de Abreu

Acabou a paciência
A cuspida de Zé de Abreu num imbecil que o xingou num restaurante em São Paulo é muito mais que uma mera cuspida.

É um símbolo do Brasil que a plutocracia predadora criou. (Aqui, você pode ver o vídeo.)

Pela imprensa, a voz da plutocracia, milhões de midiotas foram manipulados brutalmente nos últimos anos e estimulados a agredir petistas onde quer que os encontrassem.

Durante mais tempo do que o razoável os ataques ficaram sem resposta.

Mas era absolutamente previsível que, diante do assalto à democracia e a 54 milhões de votos promovido pela direita, a esquerda reagisse.

Era ódio contra perplexidade, até algum tempo atrás. Ódio da direita, perplexidade da esquerda.

Agora, é ódio contra ódio.

O Brasil se transformou no país do ódio por força de sua plutocracia.

É esperado que a mídia que jamais condenou os agressores de direita vá agora criticar fortemente os que enfim reagem, como foi o caso de Zé de Abreu.

Situações de extrema injustiça como a que o país vive geram ódio nos injustiçados, e isso se viu na saliva expelida por Zé de Abreu na direção do biltre que o provocava certo de que nada ocorreria, como tantas vezes num passado recente.

Estamos em pé de guerra, e temos que pelo menos reconhecer isso caso queiramos, um dia, reconquistar a paz perdida. É imperioso que a mídia admita sua total responsabilidade num Brasil em que brasileiros detestam brasileiros.

Os progressistas perderam, e com razão, a paciência.

Num tuíte que viralizou ontem, Marcelo Rubens Paiva — que jamais poderia ser acusado de petismo — deu uma resposta memorável ao patético Toffoli, do STF, um trânsfuga que não merece nenhum respeito.

Entrevistado pelo Globo — que só entrevista tipos como Toffoli —, o eminente pupilo de Gilmar Mendes disse que falar em golpe é “ofender as instituições brasileiras”.

Marcelo explodiu: “Está havendo um golpe e as instituições brasileiras são uma merda. Pronto, ofendemos.”

Foi um ato parecido com a cusparada de Zé de Abreu. As palavras jorraram de Marcelo como o cuspe de Zé de Abreu.

Que outro adjetivo para classificar instituições que permitem a um corrupto como Eduardo Cunha presidir um processo de impeachment?

Não há designação melhor tanto para a Câmara como também para o STF com suas togas e seu palavreado oco e pomposo.

Mais uma vez: a sociedade, caso queira aprimorar suas instituições, deve ter clareza em que elas são exatamente o que Marcelo Rubens Paiva disse que são — uma merda.

Que virá daqui por diante?

Caso o golpe seja consumado, episódios como a cuspida de Zé de Abreu se multiplicarão pelo que foi outrora um “país cordial”.

Agentes do golpe — como a Globo e políticos como Temer, FHC, Aécio e tantos outros — serão forçados a se esconder ou a andar sob escolta para não serem objeto da revolta dos que viram a democracia lhes ser roubada.

Em sua ganância obtusa, os plutocratas sonharam que cometeriam a monstruosidade que estão cometendo e sairiam assobiando sorridentes pelas ruas, em gozo de profunda impunidade.

A cusparada de Zé de Abreu é apenas um sinal de que o final da história não será tão feliz assim para os ladrões da democracia.

Paulo Nogueira
No DCM
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A grande dúvida constitucional de que o Supremo fugirá

http://insightnet.com.br/segundaopiniao/?p=306

Avalio como inoportuna, inviável, e ilegal, exceto se por decisão do Superior Tribunal Eleitoral, a sugestão à esquerda de que reivindique “eleições, já”. Inoportuna porque lançada em meio ao processo decisório, primeiro, do Senado da República, e depois, se for o caso, do Supremo Tribunal Federal; inviável porque a Câmara, os partidos que votaram de forma truculenta a favor do impedimento de Dilma Rousseff, não irão introduzir tal mudança na Constituição; e ilegal porque se trata de mudança na regra do jogo ao fim do segundo tempo. Perder a bandeira da legalidade é presentear os golpistas com o argumento de que não dispõem e buscam desesperadamente forjar: o de que a presidente Dilma comete crime de responsabilidade, atentando contra a letra da Carta Magna. E sem ele não há justa causa para a violência impeditiva.

Tenho escassa esperança de que o Senado, julgando o mérito do pedido de impedimento, aceite o óbvio: por nenhuma evidência atual ou histórica, e até biográfica, a presidente Dilma Rousseff jamais violou ou tentou violar as instituições representativas democráticas. Nada até agora pôs em dúvida esse fato, cuja tonelagem de verdade é brutal. Por declarações de mais de um dos integrantes da partidariamente insuspeita força-tarefa da Lava-Jato, jamais houve tentativas de interferência do Executivo no andamento da investigação. Delações interesseiras, assinadas por tipos que acreditam na clemência do algoz quanto mais fabulam historietas para agradá-lo, transformam conversas cotidianas em conspiratas clandestinas em calabouços do Planalto. Mas a denúncia de conveniência será tratada como pepita pelos impolutos senadores, especialmente porque a acusação de deslize administrativo padece de precária virtude, assentada em ilegalidade não comprovada e anã.

Tampouco acredito no discernimento do Supremo. Em matéria de extenso conflito social, só os ministros autoritários costumam içar bandeiras. Os liberais, como de hábito, se escafedem. Dirão todos, ou a maioria esmagadora deles que o rito foi respeitado e não lhes cabe apreciar o mérito da decisão congressual. O dedo do demônio golpista está precisamente neste detalhe. Pode ser difícil encontrar fissura nos trâmites adotados pelo Presidente da Câmara dos Deputados. E não tenho segurança para julgar se é ilegal um réu de processo no Supremo presidir à votação de um pedido de impedimento da Presidente da República, sendo, ademais de réu ele próprio, declarado inimigo político dela. Mas a lisura do rito tem sido reivindicada, até com obsequiosa cautela, não obstante os espasmos alucinados que a TV registrou.

O atentado ao contrato social básico é outro, de cujo exame o Supremo fugirá como lebre. Cabe a qualquer maioria interpretar como lhe convier a forma de aplicar preceitos constitucionais? O rito pode criar o objeto a que se aplica? Se dois terços da Câmara dos Deputados decidirem que as contas do atual presidente da Casa não são contas e que a Suiça não existe, vale a anistia com que pretendem presenteá-lo? Se valer, para quê serve um Supremo Tribunal? Qualquer decisão majoritária seria constitucional. Esta é a mácula do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff: o rito criou o crime a ser punido. Vale? Não devia, pois a verdade de juízos de existência não é matéria plebiscitária. É matéria jurídica, de lógica e da fé contratual que funda as sociedades. Mas os eminentes ministros vão fingir que ela não existe. A seriedade das instituições republicanas se dilui no despudor de um Legislativo que convive com a propaganda da tortura e na prolixidade capciosa dos tribunais de justiça. A república se esfarela e o amanhã promete ser violento.
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Guerra híbrida das hienas dilacera o Brasil

Ratos bem treinados apenas cumprem ordens; que manda mesmo não tem razões para se esconder
A sombria e repulsiva noite em que a presidente da 7ª maior economia do mundo foi a vítima escolhida para um linchamento de hienas num insípido e provinciano Circo Máximo viverá para sempre na infâmia.

Por 367 votos a 137, o impeachment/golpe/mudança de regime contra Dilma Rousseff foi aprovado pelo circo parlamentar brasileiro e agora irá ao Senado, onde uma “comissão especial” será instituída.

Se este for aprovado, Rousseff será então marginalizada durante 180 dias e um ordinário Brutus tropical, o vice-presidente Michel Temer, ascenderá ao poder até o veredito final do Senado.

Esta farsa desprezível deveria servir como um alerta não só aos BRICS, mas a todo o Sul Global.

Quem é que precisa de NATO, R2P (“responsability to protect”) ou “rebeldes moderados” quando pode obter a sua mudança de regime apenas com o ajustamento do sistema político/judicial de um país?

O Supremo Tribunal brasileiro não analisou o mérito da questão — pelo menos ainda não.

Não há qualquer evidência sólida de que Rousseff tenha cometido um “crime de responsabilidade”.

Ela fez o que todo presidente norte-americano desde Reagan tem feito — para não mencionar líderes de todo o mundo: juntamente com o vice-presidente, o desprezível Brutus, Rousseff foi ligeiramente criativa com os números do orçamento federal.

O golpe foi patrocinado por um vigarista certificado, o presidente da câmara baixa Eduardo Cunha, confirmadamente possuidor de várias contas ilegais na Suíça, listado nos Panama Papers e sob investigação do Supremo Tribunal.

Ao invés de reger hienas quase analfabetas num circo racista, em grande medida cripto-fascista, ele deveria estar atrás das grades. Custa crer que o Supremo Tribunal não tenha lançado ação legal contra Cunha.

O segredo do seu poder sobre o circo é um gigantesco esquema de corrupção que perdura há muitos anos, caracterizado pelas contribuições corporativas para o financiamento das suas campanhas e de outros.

E aqui está a beleza de uma mudança de regime light, uma revolução colorida da Guerra Híbrida, quando encenada numa nação tão dinamicamente criativa como o Brasil.

A galeria de espelhos produz um simulacro político que teria levado descontrucionistas como Jean Braudrillard e Umberto Eco, se vivos fossem, a ficarem verdes de inveja.

Um Congresso atulhado com palhaços/tolos/traidores/vigaristas, alguns dos quais investigados por corrupção, conspirou para depor uma presidente que não está sob qualquer investigação formal de corrupção — e que não cometeu qualquer “crime de responsabilidade”.

A restauração neoliberal

Ainda assim, sem um voto popular, os maciçamente rejeitados gêmeos Brutus tropicais, Temer e Cunha, descobrirão que é impossível governar, muito embora eles encarnassem perfeitamente o projeto das imensamente arrogantes e ignorantes elites brasileiras.

Um triunfo neoliberal, com a “democracia” brasileira espezinhada abaixo do chão.

É impossível entender o que aconteceu no Circo Máximo neste domingo sem saber que há um rebanho de partidos políticos brasileiros que está gravemente ameaçado pelos vazamentos ininterruptos da Lava Jato.

Para assegurar a sobrevivência deles, a Lava Jato deve ser “suspensa”; e isto será feito sob a falsa “unidade nacional” proposta pelo desprezível Brutus Temer.

Mas antes a Lava Jato deve produzir um escalpe ostensivo. E este tem de ser Lula na prisão — comparado ao qual a crucificação de Rousseff é uma fábula de Esopo.

Os media corporativos, conduzidos pelo venenoso império Globo, saudariam isto como a vitória final — e ninguém se preocuparia com a aposentadoria da Lava Jato.

Os mais de 54 milhões que em 2014 votaram pela reeleição de Roussef votaram errado.

O “projeto” global é um governo sem voto e sem povo; um sistema parlamentar de estilo brasileiro, sem aborrecimentos com “eleições” incômodas e, crucialmente, campanhas de financiamento muito “generosas” e flexibilidade que não obrigue a incriminar companhias/corporações poderosas.

Em resumo, o objetivo final é “alinhar” perfeitamente os interesses do Executivo, Legislativo, Judiciário e media corporativos. A democracia é para otários.

As elites brasileiras que fazem o controle remoto das hienas sabem muito bem que se Lula concorrer outra vez em 2018, vencerá.

E Lula já advertiu; ele não endossará qualquer “unidade nacional” sem sentido; estará de volta às ruas para combater qualquer governo ilegítimo que surja.

Agora estamos abertos à pilhagem

No pé em que está, Rousseff corre o risco de se tornar a primeira grande baixa da investigação Lava Jato, com origem na NSA [National Security Agency, dos Estados Unidos], que perdura há dois anos.

A presidente, reconhecidamente uma gestora econômica incompetente e sem as qualificações de um político mestre, acreditou que a Lava Jato — que praticamente a impediu de governar — não a atingiria porque ela é pessoalmente honesta. Mas a agenda não tão oculta da Lava Jato foi sempre a mudança de regime.

Quem se importa se no processo o país for deixado à beira de ser controlado exatamente por muitos daqueles acusados de corrupção?

O desprezível Brutus Temer — uma versão fútil de Macri da Argentina — é o condutor perfeito para a implementação da mudança de regime.

Ele representa o poderoso lobby bancário, o poderoso lobby do agronegócio e a poderosa federação de indústrias do líder econômico do Brasil, o Estado de São Paulo.

O projeto neo-desenvolvimentista para a América Latina — pelo menos unindo algumas das elites locais, investindo no desenvolvimento de mercados internos, em associação com as classes trabalhadoras — agora está morto, porque o que pode ser definido como capitalismo sub-hegemônico, ou periférico, está atolado na crise após a derrocada de 2008 provocada por Wall Street.

O que resta é apenas restauração neoliberal, a TINA (“there is no alternative”). Isto implica, no caso brasileiro, a reversão selvagem do legado de Lula: políticas sociais, políticas tecnológicas, o impulso para expandir globalmente grandes companhias brasileiras competitivas, mais universidades públicas, melhores salários.

Numa mensagem à Nação, Brutus Temer admitiu isto; a “esperança” de que o pós-impeachment será absolutamente excelente para o “investimento estrangeiro”, pois lhe permitirá pilhar a colonia à vontade; um retorno à tradição histórica do Brasil desde 1500.

De modo que Wall Street, o Big Oil dos EUA e os proverbiais “American interests” vencem este round no circo — graças às, mais uma vez proverbiais, elites vassalas/compradoras.

Executivos da Chevron já estão a salivar com a perspectiva de porem as mãos nas reservas de petróleo do pré sal; que já foram prometidas por um vassalo confiável, integrante da oposição brasileira.

O golpe continua. As hienas reais ainda não atacaram. De modo que isto está longe de ter terminado.

Pepe Escobar
No Viomundo
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A melhor definição da imprensa brasileira apareceu num jornal inglês: mídia plutocrática

Um jornal a serviço da plutocracia
Toda tragédia tem uns pingos de comédia. Os tuítes em inglês de Diogo Escosteguy fazem você rir em meio ao drama do golpe em curso.

Presumivelmente, Escosteguy está oferecendo ao mundo uma versão dos fatos segundo as quais o golpe não é golpe.

Seria ridículo em si defender essa tese. Mas o pior é a pretensão de Escosteguy. Quem quer ouvi-lo no mundo? Que impacto qualquer coisa que ele diga pode ter na comunidade internacional?

É um jornalista provinciano, sem credibilidade sequer no Brasil, onde é apenas uma das vozes da Globo que apenas cumprem ordens dos Marinhos, que dizer no exterior.

Seus tuítes em inglês demonstram sua falta de noção, que já fora expressa nos últimos meses quando ele repetidamente prometia furos revolucionários na moribunda revista Época.

Alguém mais experiente deveria ter-lhe dito: “Garoto, você está fazendo um papelão. Pára com isso.”

Mas quem?

Para além disso, os tuítes the-book-is-on-the-table de Escosteguy sugerem, para mim, que a Globo tenha oficialmente mandado seus jornalistas atuar fortemente nas redes sociais.

Eu já tinha desconfiado de alguma coisa neste sentido quando soube que Erick Bretas, diretor da Globo, se fantasiara de Sérgio Moro no Facebook.

Um jornalista que se presta a tal absurdo ou é um mentecapto completo ou extrapolou em cima de recomendações recebidas.

Pode, é claro, preencher os dois requisitos.

A Globo tem dificuldade em fazer jornalismo, e está evidente que para fazer propaganda política nas redes sociais suas deficiências são ainda maiores.

Isto se percebe em outro jornalista da casa, Ricardo Noblat, que tem tuitado furiosamente. Nesta sexta, viralizou um tuíte em que ele elogiava a elegância de Temer e a graça de sua mulher Marcela.

Mais uma vez, é a falta de noção elevada à máxima potência.

E estamos falando de expoentes da mídia plutocrática brasileira. Eis, aliás, a melhor expressão para designar as companhias jornalísticas nacionais.

Vi-a, pela primeira vez, num artigo do ativista David Miranda publicado no Guardian.

E imediatamente fui fisgado.

A plutocracia controla a imprensa brasileira. Os Marinhos, os Civitas, os Frias são plutocratas na pior acepção do termo. Plutocratas à moda da América Latina, predadores, doentiamente gananciosos, sem pudor nenhum para meter a mão no dinheiro público de todas as formas possíveis. Tampouco hesitam em manipular seu público com meias verdades e mentiras integrais.

Qualquer que seja o desfecho do golpe, a mídia plutocrática sai irremediavelmente desmoralizada da presente crise política, bem como os jornalistas que ela usa para fazer o serviço sujo.

Estes jornalistas parecem fingir não se dar conta disso. No Twitter, dias atrás, Cristiana Lobo, da GloboNews, se queixava dos ataques que recebia ali.

Ficou para mim a impressão de que ela não sabe quanto a Globo é abominada. Qualquer jornalista da Globo sofre os efeitos colaterais dessa abominação, mesmo os raros que procuram fazer um jornalismo minimamente decente.

Profissional nenhum serve à mídia plutocrática impunemente.

Encerro com uma sugestão.

Num rasgo de sinceridade, a Folha poderia atualizar seu velho slogan que aparece na primeira página.

Onde se lê “um jornal a serviço do Brasil” poderia e deveria, a bem da verdade, aparecer “um jornal a serviço da plutocracia”.

Paulo Nogueira
No DCM
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Carta aos Ministros do Supremo


Como é que faz, Teori, Carmen Lúcia, Rosa Weber, Celso de Mello, Luís Barroso, Luiz Fachin? Como é que faz? Não mencionei Lewandowski e Marco Aurélio por desnecessidade; nem Gilmar, Toffoli e Fux  por descrença.

Antes, vocês estavam sendo levados por uma onda única de ódio preconceituoso, virulento, uma aparente unanimidade no obscurantismo, que os fez deixar de lado princípios, valores e se escudar ou no endosso ou na procrastinação, iludindo-se — mais do que aos outros — que definindo o rito do impeachment, poderiam lavar as mãos para o golpe.

Seus nomes, reputações, são ativos públicos. Deveriam  ser utilizados em defesa do país e da democracia; mas, em muitos casos, foram recolhidos a fim de não os expor à vilania. 

Afinal, se tornaram Ministros da mais alta corte para quê?

Os senhores  estarão desertando da linha de frente da grande luta civilizatória e deixando a nação exposta a esse exército de zumbis, querendo puxar de novo o país para as profundezas.

Não dá mais para disfarçar que não existe essa luta. Permitir o golpe será entregar à selvageria décadas de construção democrática, de avanços morais, de direitos das minorias, de construção de uma pátria mais justa e solidária.

A imprensa mundial já constatou que é golpe. A opinião interna está dividida entre os que fingem que não sabem que é golpe, e defendem o impeachment; e os que sabem que é golpe e reagem.

Desde os episódios dantescos de domingo passado, acelerou-se uma mudança inédita na opinião pública. Reparem nisso. Todo o trabalho sistemático de destruição da imagem de Dilma Rousseff de repente começou a se dissolver no ar.

Uma presidente fechada, falsamente fria, infensa a gestos de populismo ou de demagogia, distante até, de repente passou a ser cercada por demonstrações emocionadas  de carinho, como se senhoras, jovens, populares, impotentes ante o avanço dos poderosos, a quisessem proteger com mantos de afeto. Abraçaram Dilma como quem simbolicamente abraça a democracia. E os senhores, que deveriam ser os verdadeiros guardiões da democracia, escondem-se?

Antes que seja tarde, entendam a verdadeira voz das ruas, não a do ódio alimentado diuturnamente por uma imprensa que virou o fio, mas os apelos para a concórdia, para a paz, para o primado das leis. E, na base de tudo, a defesa da democracia.

A vez dos jovens

Aproveitei os feriados para vir para minha Poços de Caldas. Minha caçula de 16 anos não veio. O motivo: ir à Paulista hipotecar apoio à presidente. A manifestação surgiu espontaneamente pelas redes sociais, a rapaziada conversando entre si, acertando as pontas, sem a intermediação de partidos ou movimentos. Mas unida pelos valores da generosidade, da solidariedade, pelas bandeiras das minorias e pelo verdadeiro sentimento de Brasil.

São esses jovens que irão levar pelas próximas décadas as lições deste momento e — tenham certeza — a reputação de cada um dos senhores através dos tempos. Não terá o sentido transitório das transmissões de TV, com seus motes bajulatórios e seu padrão BBB.  Na memória desses rapazes e moças está sendo registrada a história viva, tal e qual será contada daqui a dez, vinte, trinta anos, pois deles nascerá a nova elite política e intelectual do país, da mesma maneira que nasceu a geração das diretas.

Devido à censura, foram necessárias muitas décadas para que a mancha da infâmia se abatesse sobre os que recuaram no AI5, os Ministros que tergiversaram, os acadêmicos que delataram, os jornalistas que celebraram a ditadura. Hoje em dia, esse julgamento se faz em tempo real.

Nas últimas semanas está florescendo uma mobilização inédita, que não se via desde a campanha das diretas.

De um lado, o país moderno, institucional; do outro, o exército de zumbis que emergiu dos grotões. De um lado, poetas, cantores, intelectuais e jovens, jovens, jovens, resgatando a dignidade nacional e a proposta de pacificação. Do outro, o ódio rocambolesco aliado ao golpismo.

Não permitam que o golpe seja consumado. Não humilhem o país perante a opinião pública mundial. Principalmente, deixem na memória dessa rapaziada exemplos de dignidade. Não será por pedagogia, não: eles conhecem muito melhor o significado da palavra dignidade. Mas para não criar mais dificuldades para a retomada da grande caminhada civilizatória, quando a rapaziada receber o bastão de nossa geração.

Luís Nassif
No GGN
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Juízes se auto-impediram de julgar o impeachment

Os juízes do STF Celso de Mello, Gilmar Mendes e Dias Toffoli se auto-impediram de participar do julgamento de recursos da defesa da Presidente Dilma que questionem a natureza golpista do impeachment.


Eles anteciparam publicamente na imprensa a posição que defendem sobre a matéria e, portanto, perderam a isenção, a imparcialidade e a capacidade para julgar a partir dos elementos concretos futuros que a Presidente Dilma poderá apresentar à Suprema Corte.

A argüição de suspeição deles, neste que é um julgamento de transcendental importância para a normalidade e estabilidade do país, pode ser feita com base em diversos fundamentos jurídico-legais:

— o Código de Ética da Magistratura [Resolução 60/2008, do Conselho Nacional de Justiça, ironicamente promulgado por Gilmar Mendes quando presidia o CNJ (sic)], que no artigo primeiro define que os juízes devem se nortear “pelos princípios da independência, da imparcialidade, da cortesia, da transparência, da prudência, da diligência, da integridade profissional e pessoal, da dignidade, da honra e do decoro”;

— a Lei Complementar 35/1979, que no artigo 36 veda ao magistrado “manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças, de órgãos judiciais, ressalvada a crítica nos autos e em obras técnicas ou no exercício do magistério”;

— o Código de Processo Civil, que no artigo 135 fundamenta “a suspeição de parcialidade do juiz quando: I - amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer das partes [jantares do Gilmar com Aécio, Serra...]; e V - interessado no julgamento da causa em favor de uma das partes”;

— a Constituição Brasileira, que no parágrafo único do artigo 95, veda aos juízes “III - dedicar-se à atividade político-partidária”.

Celso de Mello, Gilmar Mendes e Dias Toffoli já anteciparam posicionamento político claro sobre o impeachment e, independentemente das alegações jurídicas que Dilma venha a apresentar em sua defesa, eles estarão, de antemão contra qualquer postulação da Presidente, porque formularam juízo prévio; possuem pré-conceito político-ideológico firmado.

O STF se pronunciou, até o presente momento, somente sobre aspectos relacionados ao rito do impeachment — critérios para formar comissão especial, etapas de acusação e defesa, tipo nominal de votação, ordem de votação e outras questões procedimentais.

A defesa da Presidente ainda não questionou, todavia, o mérito da denúncia de impeachment, ou seja, a existência ou não de fundamentos para o acolhimento pelo Presidente da Câmara para a tramitação do processo naquela Casa que a imprensa internacional caracteriza como “uma assembléia geral de bandidos comandada por um bandido chamado Eduardo Cunha”.

A aceitação e votação do impeachment sem crime de responsabilidade na “assembléia geral de bandidos”, e a continuidade do trâmite do processo no Senado é ilegal; não passa de farsa processual para legitimar o discurso de normalidade institucional do golpe de Estado.

Isso considerado, é inadequado e juridicamente inaceitável o pronunciamento prévio e fora dos autos dos três juízes, que assumiram através da mídia as vozes da oposição no jogo político com o objetivo de inibir e enquadrar a participação da Presidente Dilma na ONU.

Estes três “juízes” atuaram politicamente, embora sejam proibidos pela Constituição de fazê-lo [artigo 95]. Pode-se dizer, por analogia, que eles buscaram intencionalmente causar o mesmo constrangimento político que os deputados José Aleluia [DEM] e Luiz Lauro Filho [PSB], despachados em classe executiva com diária de 400 dólares a Nova York pelo “bandido chamado Eduardo Cunha” para cercear os passos da Presidente.

São totalmente fora de propósito as declarações deles de que o “o procedimento destinado a apurar a responsabilidade da senhora presidente da República respeitou todas as fórmulas estabelecidas na Constituição” [Celso de Mello], e que “se trata de procedimentos absolutamente normais, dentro do quadro de institucionalidade” [Gilmar Mendes]. Ainda mais disparatada, talvez por um exagero de realismo que empresta ao seu adesismo golpista, é a manifestação do Dias Toffoli, de que “é uma ofensa às instituições brasileiras” a alegação de que está em andamento um golpe de Estado.

Estes três “juízes” do STF perderam toda a condição para julgar o impeachment. A participação deles no julgamento do impeachment será uma ofensa à Constituição que transformará o STF num tribunal de exceção.

Para preservar o Estado Democrático de Direito e a ordem jurídica do país, a Presidente Dilma deve defender a Constituição e as Leis de todas as maneiras, inclusive no âmbito das Cortes Internacionais.

Jeferson Miola
No Vermelho
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Gastrofascismo


A doença infantil do antipetismo criou, no Brasil, a figura do fascista de restaurante.

É o sujeito ou grupo de sujeitos que vai ao restaurante insultar pessoas que pensam de forma diferente ou tem outra opção política-ideológica à dele.

São, quase sempre, idiotas funcionais que foram ativados pela mídia, como naquelas experiências com espiões hipnotizados atribuídas a americanos e soviéticos, durante a Guerra Fria.

O sujeito sai de casa com a esposa, vai almoçar ou jantar num restaurante qualquer e, de repente, ele vê... um petista!

Não um petista qualquer, aquele vizinho inconveniente que não bate panelas, que chama ele de coxinha pela varanda, que coloca ‪#‎Lula2018‬como nome de rede de internet, por pura sacanagem.

Um petista MESMO: uma deputada que defende direitos humanos, um senador que apoia o MST, uma celebridade que detona Bolsonaro nas redes sociais.

Aí, o fascista de restaurante, simplesmente, esquece a mulher, os filhos, a comida, o próprio sentido de sair de casa para ir comer fora, e parte para cima do petista. Mesmo que o alvo não seja petista, mas apenas esquerdista, o que é, claro, a mesma coisa.

Basta ter dito por aí que o impeachment de Dilma é golpe.

Ele parte para cima, ativado no modo Globo News, uma metralhadora de clichês roubados dos debates radiofônicos da CBN, uma Veja desgovernada babando ódio e ressentimento de classe.

"Como assim, no MEU restaurante, ESSA GENTE?"

No caso de José de Abreu, que encerrou a discussão com uma bela cusparada na cara de um desses cretinos, o argumento de fundo utilizado é uma pérola no direitismo tupiniquim: como alguém que vota no PT, ou é comunista, pode ser dar ao desfrute de almoçar em um caro restaurante japonês?

Essa visão pedestre de que a esquerda deve se alimentar de ovo frito e banana não é fruto de reflexão alguma, por óbvio.

É parte de um vasto relicário de dogmas organizados em apostilas da Escola Superior de Guerra para serem usados como doutrina anticomunista, entre os anos 1960 e 1980.

Trata-se de uma contraposição primária, feita sob medida para alienados, ao conceito marxista de mais valia.

Ou seja, ao fato de que o trabalho incorporado a um produto, pela força do trabalho em si, é sempre inferior ao que Marx chama de "trabalho comandado" — isto é, o que o valor de venda desse mesmo produto pode comprar em termos de horas trabalhadas.

Essa discrepância está na base da impossibilidade natural, no nosso capitalismo, de os trabalhadores e trabalhadoras não poderem acessar boa parte dos bens de consumo que produzem, seja um automóvel de luxo, seja um pedaço de salmão cru em cima de um bolinho de arroz.

O que o pensamento de esquerda clássico (não necessariamente marxista) defende é que tudo que o trabalhador produz deve, para efeito de justiça social, também ser consumido por ele.

Justamente, essa interface escandalosamente ideológica está na origem da reação do grande capital aos governos do PT. A percepção de que a aproximação do trabalho ao seu valor de uso capitalista cria uma perigosa consciência de classe contra-hegemônica.

Por isso, os principais interessados em destruir essa percepção — o capital rentista e o latifúndio — acionaram a mídia. A esta, ancorada no dinheiro e nas concessões públicas, coube ativar a vasta rede de analfabetos políticos e indigentes morais que atacam pessoas em restaurantes.

Os gastrofascistas, a nossa mais nova jabuticaba.

Leandro Fortes
No CAf
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Temer defende Eduardo Cunha em entrevista ao NYTimes


Com o título "Vice-Presidente do Brasil, impopular e sob escrutínio, se prepara para liderar", o NY Times traz entrevista feita por Simon Romero com o vice-presidente Michel Temer. A entrevista foi feita em São Paulo, na casa do vice e, na rua, manifestantes escreveram "quartel do golpe". Foi neste endereço. Na porta, conforme relato, a polícia guardava a casa do vice.

A matéria começa lembrando que em recente pesquisa, somente 2% dos brasileiros votariam no vice. Ele está em investigação por conta de vazamentos de delações premiadas. Lembra ainda que o Supremo Tribunal Federal determinou que o Congresso deve considerar um processo de impeachment contra ele.

Romero avisa que Michel Temer, vice-presidente do Brasil, está se preparando para assumir o comando do Brasil no próximo mês, se assim o Senado decidir, colocando a presidente Dilma Rousseff em julgamento. Necessitando só de maioria simples, o Senado já a suspenderia por seis meses, enquanto Dilma luta contra a criminalização dos movimentos orçamentários, as tais "pedaladas fiscais".

A decisão deixaria Temer no comando "do maior país da América Latina", e que também lida com a sua pior crise econômica em décadas, uma epidemia de Zika, a discórdia política ferve e os Jogos Olímpicos estão prestes a acontecer. Tudo ao mesmo tempo.

"Eu não quero que pareça que estou conspirando para assumir", disse Temer na entrevista, insistindo ainda que não estava planejando um golpe de Estado, como Dilma tratou de nomear em inúmeros pronunciamentos. Até então, Temer, do alto de seus 75 anos, tão raramente nos holofotes da ribalta nacional, ficou em evidência por causa de sua mulher Marcela, de 32 anos e ex-participante de concurso de beleza, com seu nome tatuado na nuca.

Segundo o jornalista, os brasileiros estão começando a conhecer melhor o Temer conforme a batalha do impeachment se desloca para o Senado. Chamado pelos rivais como "mordomo de filme de terror", por sua postura formal e comportamento enigmático, Temer está procurando levar a situação, sob sua ótica, à nação, mais fortemente agora.

O jornal evidencia que ele parece bem preocupado por Dilma ter ido denunciar a campanha para derrubá-la como ilegal, e esta seria a posição adotada frente as Nações Unidas, onde a presidente poderá transmitir suas reivindicações para o mundo.

A presidente Dilma condenou seu vice-presidente, chamando-o de traidor. Mas Temer, cujo partido político fez parte do governo de coalizão, disse que foi tratado de "forma terrível pela presidente" durante os momentos no gabinete dela. Disse ainda que eles nunca foram amigos, basicamente se cumprimentando cerimoniosamente, disse Temer. E, segundo ele, a última vez que se falaram foi no último mes de janeiro.

"Eu passei quatro anos condenado a um absoluto ostracismo", disse Temer, que foi professor de direito consitucional. "Nós não éramos amigos, porque ela não se considerava minha amiga", declarou ele ao NY Times.

Lutando para montar um gabinete, caso assuma, Temer está enfrentando uma série de desafios, evidencia o jornalista, incluindo os depoimentos que o implicam, e aos principais aliados para a tomada de poder, em um escândalo em torno da Petrobras; a questao de fomentar o desemprego durante o pior da crise econômica; e crescentes críticas de que a campanha para acusar a presidente eleita Dilma Rousseff, conduzida por legisladores que mascaram seus próprios escândalos de corrupção, é ilegítima.

Ao jornalista, Temer se diz muito preocupado com as intenções da presidente em dizer que o Brasil é alguma república secundária onde "os golpes são realizados". Ele afirma que ela também está lutando contra acusações, separadas das suas, de que as campanhas receberam financiamento ilegal e mais, que ela tentou obstruir a investigação da Petrobras. Na outra ponta, Dilma afirma que seu impeachment é o equivalente à "fraude política".

Temer, que assumirá a presidência caso a presidente eleita Dilma Rousseff vá a julgamento, diz que ele "não está conspirando para assumir", pois que ela chamou este esforço conjunto de golpe. Na entrevista por telefone, ele refutou estas alegações argumentando que "impeachment é permitido sob a Constituição do Brasil". Disse ainda que não iria barrar ou anular as investigações de corrupção no escândalo da Petrobras, mesmo desestabilizando seu próprio partido, o PMDB, centrista, se ele tomar posse.

Temer se defende como também aos seus aliados que estão sob uma nuvem de acusações no esquema. Ele manifestou apoio a Eduardo Cunha, que conduz o esforço de impeachment no Congresso, dizendo que não iria perguntar a Cunha se vai renunciar. Cunha será o próximo na fila para a presidência, caso Temer assuma.

"Essa é uma questão para o Supremo Tribunal Federal decidir", disse ele, referindo-se ao julgamento de Cunha, acusado de embolsar até US$ 40 milhões em subornos no esquema em torno da Petrobras.

O jornalista lembra que Temer também terá que explicar seus próprios problemas legais. Delcídio do Amaral, senador que barganhou seu testemunho, apontou o dedo para a elite política brasileira, dizendo que Temer tem sido o responsável pela obtenção de cargos executivos na Petrobras para negociar com figuras que já estão sentenciadas na prisão com acusações que incluem suborno, lavagem de dinheiro e fraude.

Na entrevista, o vice disse que é inocente de qualquer acusação, sendo que suas conexões com antigos executivos da Petrobras se deram por suas responsabilidades burocráticas como líder do PMDB. O partido serve como uma âncora para a coalizão que permitir que a presidente Dilma, do PT, governasse por tanto tempo.

Tanto Temer como seu partido estão no escândalo da Petrobras e ele está lutando contra o ressentimento crescente dos brasileiros com o momento político brasileiro. Enquanto 61% dos brasileiros apoiam o impeachment de Dilma, 58% também quer o vice-presidente cassado, conforme pesquisa de opinião feita este mês pelo Datafolha.

Não bastasse, Temer tem apenas 2% das intenções de voto dos brasileiros para as eleições de 2018, conforme apurou o Datafolha, colocando-o bem atrás de potenciais candidatos como Lula e Jair Bolsonaro, um congressista ultraconservador do Rio.

Formar um governo tem sido um desafio para Temer, diz Simon Romero. Armínio Fraga, um respeitado ex-presidente do Banco Central, deixou claro que não quer um posto no gabineto do governo de Temer. A oposição social-democrata têm impedido que se forje uma coalizão, mesmo esperando também que se derrube Dilma.

"Visões pessimistas de Michel Temer e o seu eventual governo entre os vencedores estão crescendo com velocidade supreendente", escreveu Janio de Freitas, colunista da Folha.

Temer, o caçula de oito crianças em uma família Cristã Maronita que veio do Líbano para São Paulo na década de 1920, disse que permanece esperançoso de que ele promoverá a catarse em reuniões, conseguindo um "governo de unidade nacional".

O vice citou como inspiração Juscelino Jubitscheck, presidente que ordenou a construção da capital futurista, Brasília, no final da década de 1950, dizendo que queria criar um "governo de otimismo". Mencionou também sua admiração por presidentes americanos, como Theodore Roosevelt e Franklin D. Roosevelt, enfatizando pretender melhorar as relações com os Estados Unidos.

"É necessário que a esperança venha de novo para a luz", teria dito ele, acrescentando que o problema mais urgente no Brasil é o desemprego. Depois disso, e ao final de tudo, Temer avaliou que a luta contra a corrupção "está sendo travada como deveria".


Tradução e adaptação Equipe GGN
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A resposta constrangedora do dono da Globo a um artigo no Guardian sobre o impeachment

Paulo Francis dizia que quem escreve cartas para jornais é doido. Francis provavelmente abriria uma exceção para João Roberto Marinho, que de doido não tem nada.

Eventualmente, de desesperado. Ou de alguém que não aprecia muito ser contrariado.

O dono da Globo é autor de uma resposta a um artigo de David Miranda no Guardian chamado “A razão real por que os inimigos de Dilma Rousseff querem seu impeachment”.

No subtítulo: “Corrupção é só um pretexto para os ricos e poderosos que falharam em derrotá-la nas eleições”.

Miranda lembra que “a maioria dos grandes grupos de mídia atuais — que aparentam ser respeitáveis para quem é de fora — apoiaram o golpe militar de 1964 que trouxe duas décadas de uma ditadura de direita e enriqueceu ainda mais as oligarquias do país. Esse evento histórico chave ainda joga uma sombra sobre a identidade e política do país. Essas corporações — lideradas pelos múltiplos braços midiáticos das Organizações Globo — anunciaram o golpe como um ataque nobre à corrupção de um governo progressista democraticamente eleito. Soa familiar?”

Continua: “Por um ano, esses mesmos grupos midiáticos têm vendido uma narrativa atraente: uma população insatisfeita, impulsionada pela fúria contra um governo corrupto, se organiza e demanda a derrubada da primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e do Partido dos Trabalhadores (PT). O mundo viu inúmeras imagens de grandes multidões protestando nas ruas, uma visão sempre inspiradora.

Mas o que muitos fora do Brasil não viram foi que a mídia plutocrática do país gastou meses incitando esses protestos (enquanto pretendia apenas ‘cobri-los’). Os manifestantes não representavam nem de longe a população do Brasil. Ao contrário, eles eram desproporcionalmente brancos e ricos: as mesmas pessoas que se opuseram ao PT e seus programas de combate à pobreza por duas décadas.”

JRM não gostou do que leu e escreveu, ou mandou escrever, um texto publicado pelos editores do Guardian na seção de comentários.

O contraste com as palavras de Miranda não fica apenas na simplificação para inglês ver do papel da emissora no processo — “com o Grupo Globo repousa a responsabilidade de relatar os fatos como eles aconteceram”, diz ele —, mas num erro de fundamento que explicita a farsa jurídica.

Marinho confirma Miranda.

“Tudo começou com uma investigação (chamada Operação Lava Jato), que por sua vez revelou o maior esquema de suborno e corrupção na história do país, envolvendo os principais membros do Partido dos Trabalhadores (PT), assim como líderes de outras partidos da coalizão do governo, funcionários públicos e magnatas dos negócios.

Muitas dessas figuras foram encarceradas, algumas foram condenadas. Ttodo o processo de investigação foi conduzido de acordo com as regras do direito do Brasil, sob a estrita supervisão de Suprema Corte”.

Ok. Mas o impeachment não é baseado na Lava Jato e sim nas inefáveis pedaladas fiscais. Ou mudou tudo? Melhor deixar pra lá?

“O Grupo Globo não apoiou o impeachment em editoriais”, prossegue. Dois exemplos dessa falácia: “O impeachment é uma saída institucional da crise” e “Tempo no impeachment corre contra o país”.

Por fim, uma demonstração de humildade. “A imprensa brasileira é uma paisagem vasta e plural de várias organizações independentes, 784 jornais diários impressos, 4 626 estações de rádio, 5 redes nacionais de transmissão de televisão, 216 canais a cabo pagos e outra infinidade de sites de notícias”.

Um comentarista rebateu: “É sofisma especioso, especialmente no que concerne à pluralidade da mídia. Dos 221 canais de televisão mencionadas, a Globo detém 122 deles. Em 1995, eles tentaram censurar o filme ‘Muito Além do Cidadão Kane’”.

O golpe está consumado, mas a tentativa de legitimá-lo a todo custo está levando seus agentes a malabarismos lógicos patéticos que passam, desde já, para a história.

Kiko Nogueira
No DCM
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Dilma fala sobre momento político do Brasil em entrevista nos EUA


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Pronunciamento de José Pepe Mujica, durante solenidade da Medalha da Inconfidência

Foto: Midia Ninja
Mineiros e mineiras, a vida me ensinou algumas coisas. Os únicos derrotados são os que deixam de lutar. Mas vocês têm de saber que não há um prêmio no final do caminho.

O prêmio é o caminho mesmo, é o andar mesmo. Nossa luta é muito velha. São falsos os términos. Esquerda e direita são inventos da Revolução Francesa. Na realidade, são caras permanentes da condição humana, como as caras de uma moeda, e fluem e refluem permanentemente na história.

E penso que talvez seja uma luta eterna com fluxos e refluxos, com pontos de partida, com quedas e voltar-se a levantar. Há que se aprender que, na vida, as causas nobres necessitam de coragem sempre para voltar e começar.

Eu sou do sul, venho do sul e represento o sul, os eternos esquecidos do planeta.

Ser do sul não é uma posição geográfica, é um resultado histórico.

E venho ao Brasil, tenho cultivado amigos no Brasil, porque a América será livre com a Amazônia ou não será. Porque é enorme o conhecimento e ciência que nos tiraram o mundo central.

Porque perdemos nossos melhores filhos, porque lhes pagam melhores salários no mundo central, porque estamos entrando em uma outra era, globalizada, de comunicações, onde a fronteira é mais de negócio do que de amparo e justiça aos povos.

E todos sabemos que a democracia nunca será perfeita, e não pode ser, porque é uma construção humana e os seres humanos não são deuses. Não.

Por isso, porque somos diferentes, porque nascemos em lugares diferentes, porque pertencemos a classes diferentes, porque geneticamente temos matizes em nossos programas. Porque nossa história pessoal nos dá ou nos tira pelo que foi.

Os homens são semelhantes, mas cada um é particular, diferente, e como não somos perfeitos, a sociedade tem e terá sempre conflitos.

Não podemos viver sozinhos, somos sociais. Ninguém pode viver sozinho. Precisamos de um cardiologista, de um mecânico, de um professor para nosso filho. Precisamos de alguém que dirija o ônibus, de alguém que nos ampare na vida, de uma parteira quando nascemos e de alguém quando morremos.

Porque somos sociais e temos defeitos, porque somos diferentes, há conflitos. Por isso, precisamos da política. Tem razão Aristóteles: o homem é um animal político, porque a função da política não é gerar corrupção e acomodar gente. A função da política é colocar limite à dor e à injustiça.

A função da política é lutar por um mundo melhor e também buscar permanentemente as inevitáveis diferenças. A função da política não é aplastar. A função da política é negociar as inevitáveis diferenças que se apresentam na sociedade.

Porque insisto nesse ponto? Porque o pior resultado que se pode ter para as novas gerações é o conflito que se está vivendo no Brasil, e que pode fazer com que muitos jovens cheguem à conclusão de que a política não serve para nada, e são todos iguais.

E caso essa juventude se recolha e que cada um for cuidar apenas de si, é o mesmo que construir a selva. Todos contra todos. Há que salvar a política. Há que dar estatura à política, e isso não é um problema de partido, é um problema do Brasil. Pior que as derrotas é o desencanto.

Viver é construir esperanças, esperanças de um mundo melhor. O que seria da vida sem sonho, sem esperança, sem utopia, sem alegria de viver, o que seria da nossa existência? Um negócio calculado, uma mercadoria que se compra e que se vende.

Não, a espécie humana é outra coisa, é contraditória mas tem sentido e tem sentimento. Se você tem um casal de filhos de três ou quatro anos e leva um jogo só para um, verá que você tem um problema. Porque o outro sente que você não o tratou com igualdade.

Porque, companheiros, a igualdade a gente tem dentro de nós, antropologicamente. Não se toma a igualdade como desejo de ser tudo igualzinho, como tijolo, todos alinhados.

O sentimento de igualdade é ter o direito às mesmas oportunidades na vida, e quanto nos falta, latino-americanos, para poder dar oportunidade aos milhões que ficam à margem do caminho da nossa pobre América!

Com minha companheira, estivemos 30 anos presos, mas a vida nos deu o prêmio de viver e nada é mais bonito que a vida. Mas sobretudo os jovens devem saber: há que se cuidar da vida, há que semeá-la, há que colocá-la a serviço de uma causa nobre. Aprendam a viver, e tem de trabalhar para viver, porque senão viverás às custas dos outros.

A vida não é só trabalhar. Tem de assegurar tempo para viver, amor, filhos, para os amigos, que nesta vida não é felicidade acumular dinheiro. O problema é acumular carinho e servir para algo. A diferença é como vemos a vida, se a vida é só egoísmo ou a vida é também solidariedade, “hoje por mim, amanhã por você”.

Mineiros, o Brasil é muito grande, muito forte, mas tem muitas feridas. Há que defendê-lo, mas há que se entender que já não estamos no século passado e o desafio é outro. Estão construindo unidades mundiais de caráter gigantesco, como a comunidade econômica europeia, e que se os latino-americanos não conseguirem uma voz comum no concerto internacional, não seremos nada.

Do mundo que nos vê em cima, os frágeis têm de se unir com os frágeis para ser menos frágeis. É isso que temos de começar a entender. A burguesia que conduz a economia não pode sair a colonizar. Há que juntar aliados, porque essa batalha é no mundo inteiro.

Eu me sinto muito uruguaio, e sou brasileiro porque sou americano, porque sou da América Latina. Minha pátria se chama América Latina. Meus irmãos, todos os pobres esquecidos da América Latina. Os que não chegaram em nenhum lugar, os que são apenas um número, os estigmatizados, os perseguidos, os esquecidos, porque democracia não é só votar a cada quatro ou cinco anos.

Democracia é acrescentar o sentimento de igualdade da realidade e igualdade básica entre os homens.

Com vocês até sempre. Obrigado, mineiros.

No Jornalistas Livres
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José de Abreu cospe em casal durante jantar em São Paulo


Ator dedicou a agressão ao deputado Jean Wyllys

O ator José de Abreu cuspiu em um casal durante jantar em um restaurante de São Paulo. O incidente ocorreu na noite desta sexta-feira, dia 22, e foi relatado pelo próprio global no Twitter.



No vídeo acima, é possível ver o momento em que o ator cospe em uma mulher que o chamou de “safado” (a partir dos 53 segundos). Na sequência, Abreu cospe no homem que discutia com ele sentado na mesa.

No Twitter, o ator relatou a sua versão para o episódio e disse que só não chamou a polícia por respeito aos donos do restaurante.

“Acabei de ser ofendido num restaurante paulista. Cuspi na cara do coxinha e da mulher dele! Não reagiu! Covarde. Advogado carioca… O covarde perdeu a linha, deve ter cagado nas calças. Cuspi na sua cara, na cara da mulher dele e ele não reagiu. Covardes fascistas. Adorei o entrevero com o coxinha. Fujão covarde levou uma cusparada na cara e a mulher levou outra. Fascistas são tratados assim”, escreveu.

O ator dedicou a agressão ao deputado Jean Wyllys (PSOL), que, no último domingo, tentou cuspir no deputado Jair Bolsonaro (PSC).

No Almanaque
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A razão real que os inimigos de Dilma Rousseff querem seu impeachment

Corrupção é só um pretesto para os ricos e poderosos que falharam em derrotá-la nas eleições

A história da crise política no Brasil, e a mudança rápida da perspectiva global em torno dela, começa pela sua mídia nacional. A imprensa e as emissoras de TV dominantes no país estão nas mãos de um pequeno grupo de famílias, entre as mais ricas do Brasil, e são claramente conservadoras. Por décadas, esses meios de comunicação têm sido usados em favor dos ricos brasileiros, assegurando que a grande desigualdade social (e a irregularidade política que a causa) permanecesse a mesma.

Aliás, a maioria dos grandes grupos de mídia atuais — que aparentam ser respeitáveis para quem é de fora — apoiaram o golpe militar de 1964 que trouxe duas décadas de uma ditadura de direita e enriqueceu ainda mais as oligarquias do país. Esse evento histórico chave ainda joga uma sombra sobre a identidade e política do país. Essas corporações — lideradas pelos múltiplos braços midiáticos das Organizações Globo — anunciaram o golpe como um ataque nobre à corrupção de um governo progressista democraticamente eleito. Soa familiar?

Por um ano, esses mesmos grupos midiáticos têm vendido uma narrativa atraente: uma população insatisfeita, impulsionada pela fúria contra um governo corrupto, se organiza e demanda a derrubada da primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Rousseff, e do Partido dos Trabalhadores (PT). O mundo viu inúmeras imagens de grandes multidões protestando nas ruas, uma visão sempre inspiradora.



Mas o que muitos fora do Brasil não viram foi que a mídia plutocrática do país gastou meses incitando esses protestos (enquanto pretendia apenas “cobri-los”). Os manifestantes não representavam nem de longe a população do Brasil. Ao contrário, eles eram desproporcionalmente brancos e ricos: as mesmas pessoas que se opuseram ao PT e seus programas de combate à pobreza por duas décadas.

Aos poucos, o resto do mundo começou a ver além da caricatura simples e bidimensional criada pela imprensa local, e a reconhecer quem obterá o poder uma vez que Rousseff seja derrubada. Agora tornou-se claro que a corrupção não é a razão de todo o esforço para retirar do cargo a presidente reeleita do Brasil; na verdade, a corrupção é apenas o pretexto.

O partido de Dilma, de centro-esquerda, conseguiu a presidência pela primeira vez em 2002, quando seu antecessor, Lula da Silva, obteve uma vitória espetacular. Graças a sua popularidade e carisma, e reforçada pela grande expansão econômica do Brasil durante seu mandato na presidência, o PT ganhou quatro eleições presidenciais seguidas — incluindo a vitória de Dilma em 2010 e, apenas 18 meses atrás, sua reeleição com 54 milhões de votos.

A elite do país e seus grupos midiáticos fracassaram, várias vezes, em seus esforços para derrotar o partido nas urnas. Mas plutocratas não são conhecidos por aceitarem a derrota de forma gentil, ou por jogarem de acordo com as regras. O que foram incapazes de conseguir democraticamente, eles agora estão tentando alcançar de maneira antidemocrática: agrupando uma mistura bizarra de políticos — evangélicos extremistas, apoiadores da extrema direita que defendem a volta do regime militar, figuras dos bastidores sem ideologia alguma — para simplesmente derrubarem ela do cargo.

Inclusive, aqueles liderando a campanha pelo impeachment dela e os que estão na linha sucessória do poder — principalmente o inelegível Presidente da Câmara Eduardo Cunha — estão bem mais envolvidos em escândalos de corrupção do que ela. Cunha foi pego ano passado com milhões de dólares de subornos em contas secretas na Suíça, logo depois de ter mentido ao negar no Congresso que tivesse contas no exterior. Cunha também aparece no Panamá Papers, com provas de que agiu para esconder seus milhões ilícitos em paraísos fiscais para não ser detectado e evitar responsabilidades fiscais.

É impossível marchar de forma convincente atrás de um banner de “contra a corrupção” e “democracia” quando simultaneamente se trabalha para instalar no poder algumas das figuras políticas mais corruptas e antipáticas do país. Palavras não podem descrever o surrealismo de assistir a votação no Congresso do pedido de impeachment para o senado, enquanto um membro evidentemente corrupto após o outro se endereçava a Cunha, proclamando com uma expressão séria que votavam pela remoção de Dilma por causa da raiva que sentiam da corrupção.

Como o The Guardian reportou: “Sim, votou Paulo Maluf, que está na lista vermelha da Interpol por conspiração. Sim, votou Nilton Capixaba, que é acusado de lavagem de dinheiro. ‘Pelo amor de Deus, sim!’ declarou Silas Câmara, que está sob investigação por forjar documentos e por desvio de dinheiro público.”

Mas esses políticos abusaram da situação. Nem os mais poderosos do Brasil podem convencer o mundo de que o impeachment de Dilma é sobre combater a corrupção — seu esquema iria dar mais poder a políticos cujos escândalos próprios destruiriam qualquer carreira em uma democracia saudável.

Um artigo do New York Times da semana passada reportou que “60% dos 594 membros do Congresso brasileiro” — aqueles votando para a cassação de Dilma — “enfrentam sérias acusações como suborno, fraude eleitoral, desmatamento ilegal, sequestro e homicídio”. Por contraste, disse o artigo, Rousseff “é uma espécie rara entre as principais figuras políticas do Brasil: Ela não foi acusada de roubar para si mesma”.

O chocante espetáculo da Câmara dos Deputados televisionado domingo passado recebeu atenção mundial devido a algumas repulsivas (e reveladoras) afirmações dos defensores do impeachment. Um deles, o proeminente congressista de direita Jair Bolsonaro – que muitos esperam que concorra à presidência e em pesquisas recentes é o candidato líder entre os brasileiros mais ricos – disse que estava votando em homenagem a um coronel que violou os direitos humanos durante a ditadura militar e que foi um dos torturadores responsáveis por Dilma. Seu filho, Eduardo, orgulhosamente dedicou o voto aos “militares de 64” – aqueles que lideraram o golpe.

Women carrying flowers take part in a demonstration against the impeachment process of Dilma Rousseff

Até agora, os brasileiros têm direcionando sua atenção exclusivamente para Rousseff, que está profundamente impopular devido a grave recessão atual do país. Ninguém sabe como os brasileiros, especialmente as classes mais pobres e trabalhadoras, irão reagir quando verem seu novo chefe de estado recém-instalado: um vice-presidente pró-negócios, sem identidade e manchado de corrupção que, segundo as pesquisas mostram, a maioria dos brasileiros também querem que seja cassado.

O mais instável de tudo, é que muitos — incluindo os promotores e investigadores que tem promovido a varredura da corrupção — temem que o real plano por trás do impeachment de Rousseff é botar um fim nas investigações em andamento, assim protegendo a corrupção, invés de puni-la. Há um risco real de que uma vez que ela seja cassada, a mídia brasileira não irá mais se focar na corrupção, o interesse público irá se desmanchar, e as novas facções de Brasília no poder estarão hábeis para explorar o apoio da maioria do Congresso para paralisar as investigações e se protegerem.

Por fim, as elites políticas e a mídia do Brasil têm brincado com os mecanismos da democracia. Isso é um jogo imprevisível e perigoso para se jogar em qualquer lugar, porém mais ainda em uma democracia tão jovem com uma história recente de instabilidade política e tirania, e onde milhões estão furiosos com a crise econômica que enfrentam.

David Miranda
No The Guardian
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