17 de abr de 2016

Mensagem da Frente Brasil Popular e Frente Povo


Não aceitamos o golpe contra a democracia e nossos direitos!


Vamos derrotar o golpe nas ruas!

Este 17 de abril, data que lembramos o massacre de Eldorado dos Carajás, entrará mais uma vez para a história da nação brasileira como o

dia da vergonha. Isso porque uma maioria circunstancial de uma Câmara de Deputados manchada pela corrupção ousou autorizar o impeachment fraudulento de uma presidente da República contra a qual não pesa qualquer crime de responsabilidade.

As forças econômicas, políticas conservadoras e reacionárias que alimentaram essa farsa têm o objetivo de liquidar direitos trabalhistas e sociais do povo brasileiro. São as entidades empresariais, políticos como Eduardo Cunha, réu no STF por crime de corrupção, partidos derrotados nas urnas como o PSDB, forças exteriores ao Brasil interessadas em pilhar nossas riquezas e privatizar empresas estatais como a Petrobras e entregar o Pré-sal às multinacionais. E fazem isso com a ajuda de uma mídia golpista, que tem como o centro de propaganda ideológica golpista a Rede Globo, e com a cobertura de uma operação jurídico-policial voltada para atacar determinados partidos e lideranças e não outros,

Por isso, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo conclamam os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, e as forças democráticas e progressistas, juristas, advogados, artistas, religiosos a não saírem das ruas e continuar o combate contra o golpe através de todas as formas de mobilização dentro e fora do País.

Faremos pressão agora sobre o Senado, instância que julgará o impeachment da presidente Dilma sob a condução do ministro Lewandowski do STF. A luta continua contra o golpe em defesa da democracia e nossos direitos arrancados na luta, em nome de um falso combate à corrupção e de um impeachment sem crime de responsabilidade.

A Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo desde já afirmam que não reconhecerá legitimidade de um pretenso governo Temer, fruto de um golpe institucional, como pretende a maioria da Câmara ao aprovar a admissibilidade do impeachment golpista.

Não reconhecerão e lutarão contra tal governo ilegítimo, combaterá cada uma das medidas que dele vier a adotar contra nossos empregos e salários, programas sociais, direitos trabalhistas duramente conquistados e em defesa da democracia, da soberania nacional.

Não nos deixaremos intimidar pelo voto majoritário de uma Câmara recheada de corruptos comprovados, cujo chefe, Eduardo Cunha, é réu no STF e ainda assim comandou a farsa do impeachment de Dilma.

Continuaremos na luta para reverter o golpe, agora em curso no Senado Federal e avançar à plena democracia em nosso País, o que passa por uma profunda reforma do sistema político atual, verdadeira forma de combater efetivamente a corrupção.

Na história na República, em vários confrontos as forças do povo e da democracia sofreram revezes, mas logo em seguida, alcançaram a vitória. O mesmo se dará agora: venceremos o golpismo nas ruas!

Portanto, a nossa luta continuará com paralisações, atos, ocupações já nas próximas semanas e a realização de uma grande Assembleia Nacional da Classe Trabalhadora, no próximo 1º de maio.

A luta continua! Não ao retrocesso! Viva a democracia!

Frente Brasil Popular


Frente Povo Sem Medo
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Chapa Temer-Cunha vence. Golpe vai para o Senado

Corrupto Cunha não comanda o Senado

A Câmara dos Deputados preferiu aceitar o Golpe e encaminhar o destino do Governo Dilma ao Senado.

Por maioria simples, o Senado dirá se aceita a decisão da Câmara.

Se aceitar, depois, por 2/3 dos votos terá que dizer se Dilma deve ser deposta ou não.

Sempre haverá a possibilidade de o Governo recorrer ao Supremo, última trincheira do respeito à Constituição.

O espetáculo na Câmara foi uma catástrofe.

Dilma caiu ali em nome de Deus.

Os Golpistas se esqueceram a questão central — as pedaladas — e se concentraram em invocar Deus.

E se valeram da armadilha regimental montada pelo corrupto Cunha.

Foi uma vitória retumbante da Casa Grande.

A Casa Grande, como se sabe, não tem voto.

Dá Golpe.

Com a mão de gato da Globo.

Paulo Henrique Amorim

No CAf
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Silvio Costa denuncia o Partido da Corja do Cunha



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Um país sob impeachment

http://www.maurosantayana.com/2016/04/um-pais-sob-impeachment.html


Traduzida, de forma literal, a palavra inglesa impeachment significa, em português, impedimento.

Ela está relacionada à ideia de retirar-se do poder um presidente que tenha cometido grave infração, de ordem criminal ou constitucional.

No esporte, o termo impedimento — que muitas vezes pode ser imposto taticamente pela defesa contra a outra equipe — está ligado à décima-primeira Lei do Futebol, que se refere à situação em que um jogador está em posição inadequada ou interfere com uma jogada em curso.

Nos dois casos, a imposição do impedimento está dirigida a impedir que prossiga o avanço do adversário, que pode estar prestes a marcar um tento, fazendo com que ele seja obrigado a recomeçar, praticamente do zero, a busca pela consecução de seus objetivos, que são o gol e a vitória.

O problema é quando, no afã de paralisar o inimigo, corre-se o risco de “impedir” a própria partida, e, em última instância, até mesmo o público presente no estádio.

E é isso o que está ocorrendo, e continuará em jogo, no Brasil, em caso de aprovação do impeachment, hoje, ou na próxima jogada, que será decidida, em maio, na pequena área do Senado.

O Congresso irá decidir, não apenas o impeachment de Dilma, mas se o país continuará “impedido” do ponto de vista político — e, por extensão, econômico — até, pelo menos, 2018.

Afinal, o “impedimento” do Brasil — que já se adivinhava quando tudo se fez para sabotar a realização da Copa do Mundo — começou, de fato, quando acabaram as últimas eleições.

Da sabotagem permanente, com as pautas-bombas no Congresso, às decisões e liminares judiciais, incluída a mudança das regras do jogo no meio da partida, como foi o caso das “pedaladas fiscais”, à insuportável, diuturna, pressão da mídia, alimentada por uma estratégia deliberada de lançar a população contra o governo, e a fábrica de factoides da Operação Lava-Jato, baseada, majoritariamente, em prisões ilegais, o cerceamento ao direito de defesa e delações premiadas, o país entrou em situação de impedimento prático, concreto, no dia primeiro de janeiro de 2015, para nunca mais voltar ao normal.

Um “impedimento” agravado pela decisão da Presidente Dilma, de ceder à pressão da mídia e dos adversários, e, no lugar de lançar mão de parte das reservas internacionais para liquidar a questão das “pedaladas” logo no início do governo, e criar um fundo que reestimulasse a economia, aceitar que o país estava em “crise” e em recessão, e se deixar pautar pela agenda recessiva imposta pelos “mercados”, vestindo — por ausência de uma reação articulada e à altura — a carapuça de “mentirosa” e “incompetente”, sem reagir, na política econômica e na comunicação.

Um “impedimento” agravado, também, do ponto de vista psicológico, pela busca do “quanto pior melhor”, e pela campanha permanente de crise, destinada a provocar confusão e desalento nas pessoas, embora os bares, pelo menos em Brasília, continuem tão lotados como os aviões, as rodoviárias, as estradas e os aeroportos nas férias e nos feriados.

Com isso, consolidaram-se, em um ano precioso, os paradigmas dos adversários do governo, que acabaram conduzindo, pela incompetência, isso sim, estratégica do Palácio do Planalto, o país à situação em que se encontra.

Neste momento, a parte mais conservadora e parcial da mídia, e as “organizações” que estão por trás dos movimentos antipetistas, assim como os inimigos do governo no Congresso, conseguiram convencer o senso comum de que basta tirar Dilma do poder, para que o país volte aos trilhos, com a sua reorganização política e fiscal, e crescimento econômico, do consumo e do emprego.

Mas isso dificilmente ocorrerá.

Primeiro, porque a bolsa subirá fortemente por um intervalo curto, e muita gente vai ganhar milhões de reais, em poucos dias, especulando com o câmbio e com ações, mas, depois, o peso da crise internacional, que depende de fatores como a China e o preço das commodities, incluído o petróleo, voltará a se impor, assim como a percepção, como já mostram matérias em jornais estrangeiros como o New York Times, de que o que está ocorrendo no Brasil é um golpe judiciário-midiático organizado por gente como Eduardo Cunha, contra uma presidente da República sobre a qual não pesam acusações de enriquecimento ilícito.

E, em segundo lugar, porque o país continuará, de fato, imobilizado, sob impeachment permanente, porque, no dia seguinte ao de sua posse, poderá começar, clom a banalização da utilização desse instrumento a partir de agora, o processo de impeachment do hoje vice-presidente Michel Temer, baseado no fato, lógico, consequente, dele ter cometido os mesmos supostos “crimes” de Dilma, em uma situação que será influenciada também pela atitude que será adotada por um PT ferido e indignado com a queda da Presidente da República.

Meses se passarão, no tempo em que se desenrolar o impeachment de Michel Temer.

Depois dele, em caso de aprovação, se já não tiver sido — o que é cada vez mais improvável — cassado Eduardo Cunha, começará a ser discutido o impedimento do Presidente da Câmara dos Deputados, caso ele venha a tomar posse como Presidente da República.

E, depois, ocorrerá o mesmo com o Presidente do Senado, Renan Calheiros, caso este venha a suceder o atual Presidente da Câmara dos Deputados, até que as eleições de 2018 venham a ser provavelmente realizadas sob a batuta do Ministro Ricardo Lewandowski, como último elo da corrente sucessória presidencial.

O impeachment da Presidente Dilma, portanto, não acabará com o “impedimento” do Brasil.

Com ela no poder, em sua peculiar situação atual, ainda é possível forjar um amplo acordo nacional que garanta a governabilidade, mesmo que seus adversários venham a vencer — se concentrarem-se nisso e não no caos — as eleições municipais deste ano, aproveitando o enfraquecimento institucional do Partido dos Trabalhadores.

Sem ela, o avanço do estraçalhamento político e econômico do país continuará, inexoravelmente.

Não apenas por causa da insegurança jurídica que envolve os três possíveis “impincháveis” seguintes, em sua linha de sucessão.

Mas também porque nesse clima de incerteza e de disputa pelos despojos — já se começa a dividir a pele do urso, ou melhor, da ursa, antes que ela tenha sido abatida pelo caçador — depois de toda essa lambança vai ser difícil costurar uma aliança que dure o suficiente — considerando-se principalmente as incógnitas Moro e Bolsonaro — para a travessia até 2018, e — como diria o astronauta de plástico, Buzz Lightyear — se o país não começar a tomar juízo, política e democraticamente — depois de 2018, ao infinito... e além!
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Pronunciamento de Deputados - 8


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Merval Pereira, enfim, a confissão

Para quem ainda tinha dúvidas de que toda esta campanha de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff, sem que lhe apontassem um real crime de responsabilidade, nada mais é do que a longa luta da oposição pelo terceiro turno, a coluna de Merval Pereira neste domingo (17/04) coloca os pingos nos iiii.
“…começa hoje uma transição que poderia ter sido iniciada na eleição presidencial de 2014″.
Nem vou me alongar, pois é desnecessário. Apenas registro aqui o que todos nós que defendemos o Estado de Direito, a Democracia, o respeito ao voto popular — o que nem sempre significa defender o governo Dilma — insistimos em dizer. Querem ganhar no tapetão o que não conseguiram no voto. Ainda tenho confiança de que, mais uma vez, serão derrotados afinal, impeachment sem crime de responsabilidade, é golpe.

Para eles, não importa quem seja o ocupante da cadeira presidencial. Antes queriam Aécio Neves (PSDB). Hoje se contentam com Michel Temer de presidente e Eduardo Cunha, de vice, os dois do PMDB, que jamais teriam condições de chegar a esses cargos pelo voto popular.

Nem importa o passado dos dois. Tampouco que Eduardo Cunha, com todas as acusações e processos contra ele por corrupção já confirmada nas contas de bancos da Suíça, presida um julgamento como o de hoje.

Culpa sim da omissão — acovardamento? — dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Eles, desde dezembro, guardam na gaveta o pedido do Procurador-Geral da República para afastar Cunha da presidência da Câmara. Por que não enfrentaram esta questão?

Na coluna, Merval ainda diz que é simplificação afirmar que uma presidente honesta está sendo destituída por corruptos. Não, Merval, não se trata de simplificação. Trata-se sim de uma verdade irrecorrível: políticos acusados de roubalheira — e Cunha é apenas um deles — estão destituindo uma presidente honesta que foi escolhida pelo voto popular. Errou muito, tem responsabilidade por parte da crise que o país vive,mas não roubou e nem cometeu crime de responsabilidade como exige a Constituição. Logo, está sofrendo um golpe.

Simplificar é dizer que ela foi eleita com dinheiro sujo e não olhar para os doadores das campanhas do PSDB, quase os mesmos. Ai vale a perguntar: o dinheiro que irrigou a campanha do PT é sujo e o do PSDB limpo? Só falta querer nos convencer que a verba destinada aos tucanos saiu do salário/lucro/dividendos dos empresários e não do caixa um, dois ou três das empresas.

Marcelo Auler
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Radicais de centro

Qualquer que seja o resultado na Câmara, é patente que o país está outra vez dividido, como em 1964. Ficaram para trás os detalhes, confusões, equívocos, tropeços e trapalhadas dos últimos 15 meses. Os polos voltam a se confrontar. Mas quem radicalizou?

Desde que a presidente Dilma Rousseff tomou a trágica decisão de adotar o programa do adversário, serrando o galho no qual estava sentada, logo após a reeleição em 2014, abriu-se período de inversões. O Executivo de centro-esquerda cortava o seguro-desemprego. Os neoliberais do PSDB votavam contra o fator previdenciário. Contudo, por forças de certas circunstâncias, o ciclo lulista de conciliação acabou, a luta de classes retornou ao centro do cenário e os atores reocupam os lugares originais.

Na contagem prévia dos sufrágios parlamentares, vê-se que o único apoio sólido que restou a Dilma está à esquerda do centro. PT, PC do B, PDT e o PSOL formam o núcleo duro dilmista. Com exceção de um ou outro partido, os demais se encontram na articulação do impeachment. A surpresa está em que coube ao pivô do centro, o PMDB, dividir as águas.

A decisão chave foi tomada pelo presidente da Câmara em dezembro passado, ao considerar aceitável pedido de impedimento frágil e insuficiente. No entanto, a ousadia do questionável Eduardo Cunha (PMDB-RJ), sempre considerado ponto fora da curva no mundo peemedebista, teria ido para o lixo histórico caso outros três fatores não tivessem se acoplado. Dentre eles, o propriamente político foi a traição de Temer.

Primeiro ocorreu a inflexão da Lava Jato. Sérgio Moro, face visível de sistema pouco transparente de decisões, escolheu abandonar o papel neutro de juiz para intervir no jogo partidário ao autorizar a condução coercitiva de Lula e, depois, divulgar gravação entre ele e a atual mandatária. Tornou suspeito o esforço anticorrupção realizado desde 2014, colocando-se na ponta de operação para criminalizar o PT.

O segundo fator foi a extraordinária amplitude que a televisão deu às acusações antipetistas. A partir daí, as pífias manifestações a favor do impeachment em dezembro de 2015 converteram-se nas enormes manifestações de massa de março de 2016. Nada, contudo, teria se efetivado caso o PMDB, comandado pelo vice-presidente da República, tivesse cumprido a missão conciliadora que afirma perseguir.

Em lugar de isolar Cunha e promover o acordo que Lula sempre buscou, Temer levou o seu partido à liderança do golpe constitucional que tenta afastar a alternativa popular não só do governo como da luta pelo poder. Desta vez, diferentemente de 1964, não há um Brizola, à esquerda, que se possa acusar de ter posto fogo no circo. Os centristas o fizeram.

André Singer
No fAlha
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Questão de semântica

Quando o Eduardo Cunha alegou que não tinha mentido sobre suas contas na Suíça porque o que tem na Suíça não são contas, mas trustes que pode acessar como se fossem contas, e ninguém riu, ou perguntou se era certo um cínico declarado presidir a Câmara nacional ou comandar um movimento pelo impeachment da presidente da República, estava, sem querer, dando o mote destes dias. Tudo se resume numa questão de semântica.

Dinheiro em trustes é a mesma coisa que dinheiro em contas? Questão de semântica. O pretexto “oficial” para derrubar a Dilma é o uso das tais pedaladas fiscais.

Além da controvérsia sobre a legitimidade de governos recorrerem ao recurso emergencial, tivemos o estranho caso do Tribunal de Contas da União, que depois de um longo e profundo sono, do governo Getúlio Vargas ao governo atual, durante o qual não julgou ou sequer examinou as contas de nenhuma — nenhuma — administração, acordou justamente para julgar as contas da Dilma, por coincidência. E desaprová-las, por nenhuma coincidência.

É na discussão das pedaladas que a semântica entra com mais força, embora, a esta altura, não decida mais nada. O “crime” do qual a Dilma está sendo acusada é crime ou não é crime, eis a questão.

Se é crime, já é um crime tradicional, no Brasil, onde vem sendo cometido através dos anos. Pena que o TCU estivesse dormindo em vez de examinando as contas do governo Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, quando o recurso foi usado com abandono, apenas com outro nome.

Se pedalada não é crime, a Dilma é inocente como um, sei lá. Como um Fernando Henrique. Mas é claro que as supostas manobras fiscais são pretextos para um final que vem sendo urdido desde que o povo brasileiro teve a audácia de dar mais votos para a Dilma do que para o Aécio. No dia seguinte às eleições começava o movimento do impeachment. Ou o golpe. Questão, de novo, de semântica.

Seria bom se as pessoas pudessem se encontrar, de vez em quando, com sua própria posteridade. Olhar um espelho mágico e ver como ficou sua imagem na História.

Não tenho dúvidas de que muitos votarão pelo impeachment com convicção e não se envergonharão do que fizeram. Mas muitos não escaparão de ver ao seu lado, no espelho, a figura sorridente do Eduardo Cunha. Para sempre.

Luís Fernando Veríssimo
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Papo-cabeça


– Sabe quem nos parecemos? Aqueles personagens que passam o tempo inteiro esperando o Godote.

– Esperado quem?!

– O Godote.

– Quem é o Godote?

– Da peça do Brecht. Esperando Godote.

– Em primeiro lugar, não se diz Godote. A pronúncia certa é Godô.

– Godô? O cara é francês?

– Quem?

– O Brecht.

– O autor da peça não é Brecht. É Beckett. Que, como qualquer pessoa minimamente informada sabe, era americano.

– Desculpe minha ignorância. Desculpe minha desinformação. Desculpe minha existência.

– Bom, se você vai ficar sentido só porque...

– Sentido, eu? Nós, os primitivos, não ficamos sentidos. Quem fica sentido é gente fina. Gente bem informada...

– Está bem, está bem. Já tivemos nossa briga da semana. Vamos pedir mais dois chopes e mudar de assunto.

– Não, você não vê? Estas brigas são o nosso significado. Nosso assunto é sempre este, minha ignorância e a sua sapiência. Sua classe e a minha rudeza de espírito. Por isso que eu venho a estas nossas reuniões semanais. Para desempenhar meu papel. Para ser humilhado pela sua cultura superior, semana após semana após semana. Como os dois personagens de Esperando Godot...

– Acho que são três.

– O quê?

– Os personagens de Esperando Godot. São três.

– Viu só? Mais uma vez, você me expõe como um semiletrado. O que mais uma pessoa minimamente informada deveria saber sobre Esperando Godot? Vamos, me arrase.

– É uma peça difícil. Você não tinha a obrigação de saber tudo sobre ela.

– Obrigado, obrigado. Estou me sentindo menos burro.

– O significado da peça não é claro. Nem pra mim. O que simbolizam os três personagens em cena? Godot seria Deus, que os três procuram inutilmente?

– O que ele diz, quando chega?

– Quem?

– O Godot.

– O Godot nunca chega. Tudo se passa num cenário neutro, vazio, simbolizando a ausência de Deus. A peça poderia se passar até numa mesa de bar, com os três personagens numa conversa absurda, sem sentido.

– Ou dois personagens, esperando a chegada de um terceiro.

– Que nunca chega. Mas a conversa não para. A conversa é eterna.

– Lembra da última briga que nós tivemos?

– Claro. Foi na semana passada.

– A questão era, o que fazem os vaga-lumes de dia?

– Não chegamos a nenhuma conclusão.

– Mas na semana que vem tem mais.

Luís Fernando Veíssimo
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Não há motivo para impeachment

Quando a nossa ordem jurídica afirma que são crimes de responsabilidade os "atos do presidente da República que atentem contra a Constituição", faz um claro reconhecimento da excepcionalidade das hipóteses de afastamento do chefe da nação. No presidencialismo, ao contrário do parlamentarismo, a perda do mandato só pode se dar em casos graves e marcados por provada má-fé presidencial.

"Atentar" contra a Constituição significa violentá-la brutalmente, de forma induvidosa e injustificada. Nada disso se aplica à presidente Dilma Rousseff. Uma mulher honrada e digna, sobre quem não pesa um ato ilícito sequer.

Apenas duas acusações frágeis lhe são dirigidas. A edição de seis decretos de créditos suplementares que teriam contrariado metas fiscais e o atraso no repasse de subvenções da União ao Banco do Brasil para execução do Plano Safra, em 2015. Neste último, acusam a presidente de simular uma operação de crédito, vedada pela Lei de Responsabilidade Fiscal. No entanto, este plano de custeio do agronegócio é gerido diretamente pelo ministro da Fazenda, não existindo qualquer ato jurídico praticado pela Presidência da República.

As denúncias não se sustentam. Um decreto que abre crédito suplementar apenas rearranja gastos dentro do próprio orçamento e jamais ferirá metas fiscais. Além disso, houve uma lei que ajustou essas metas à situação econômica. E foi isso o que o governo fez. Baixou decretos tanto para remanejar o orçamento quanto para contingenciar gastos. Cumpriu as metas anuais. Tudo com aval do Congresso Nacional.

O argumento das "pedaladas fiscais" é ainda mais frágil. Renomados juristas e técnicos experientes refutam a tese de "operação de crédito" na relação entre o governo e o Banco do Brasil para execução do Plano Safra. Entendem, sim, que houve um mero contrato de prestação de serviços, em que um atraso de pagamento não configuraria "empréstimo". Fosse assim, poderíamos dizer que um trabalhador empresta dinheiro à empresa quando esta atrasa seu salário, o que é absurdo.

Vale lembrar que o Tribunal de Contas da União sempre permitiu tais mecanismos nos governos de Fernando Henrique e de Lula e jamais reprovou as contas dos ex-presidentes. Pelo contrário, o TCU também solicitou decretos de abertura de crédito suplementar para recompor seu próprio orçamento.

Nem mesmo o relatório da comissão especial da Câmara conseguiu demonstrar a má-fé ou a procedência das denúncias. Acusa sem provas e transfere a responsabilidade para o Senado, não sem antes pretender afastar a presidente do cargo. Pune-se primeiro para depois investigar.

De que ato ilegal da presidente se fala, então? Qual é a sua ação dolosa? Onde está a má-fé de Dilma se suas decisões foram amparadas em pareceres de órgãos técnicos que atestavam a sua legalidade?

Como haveria crime de responsabilidade se, depois que o TCU mudou seu entendimento, nenhum outro decreto foi expedido? Onde existe a ilicitude se alguns decretos visavam o pagamento de despesas obrigatórias, e outros foram baixados para atender decisões do próprio TCU? Onde está o "atentado à Constituição"? Não há.

Não existe dolo, má-fé ou ato ilícito que caracterize um "atentado à Constituição". Não acreditamos na consumação deste impeachment, pois ele desrespeita a Carta Magna e impõe uma ruptura com nosso Estado democrático de Direito.

Levar adiante esse processo é promover um golpe de Estado sem armas, fundado apenas em retórica jurídica incompreensível aos olhos da quase totalidade dos cidadãos. Se a Câmara respeitar a Constituição, não haverá impeachment.

JOSÉ EDUARDO CARDOZO, é advogado-geral da União. Foi ministro da Justiça entre 2011 e 2016 (governo Dilma)
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Outra vez

Chegamos a mais uma encruzilhada. Vem de longe a motivação mais profunda que aí nos põe: democracia não é para qualquer um, e o Brasil não tem aptidão para vivê-la. É historicamente inapto, como provam suas poucas e vãs tentativas.

A democracia exige certo refinamento. Sua difícil construção exige, para os passos iniciais que jamais completamos, algum desenvolvimento mental da minoritária camada da sociedade que detém os instrumentos de direção do todo; e, para levá-lo a resultados razoáveis, alguma qualidade moral, a que podemos até chamar de caráter, dessa camada.

A ridícula industrialização do Brasil só se iniciou de fato mais de 450 anos depois da chegada dos mal denominados colonizadores. Assim espelha bem a combinação de avareza e preguiça, mental e física, da classe que sempre preferiu, e prefere ainda, amontoar patrimônio a ter de trabalhar no possível investimento em produção, em crescimento, em inovação.

Daí os monstros de concreto que são nossas cidades, destino imobiliário dos resultados com a fácil exploração de mão de obra na lerdeza da agricultura e da pecuária, na mineração, no açúcar e no café. Depois, o máximo da modernidade, nas ações de uma Bolsa cujo número insignificante de empresas figurantes atesta a outra insignificância, a do próprio empresariado brasileiro.

Estamos na décima situação de golpe, consumado ou não, só no tempo de minha vida (e não sou o recordista nem entre os que escrevem na Folha). Apenas uma teve raízes fora da minoritária camada que dirige o todo. Foi a de 1935, quando Prestes precipitou uma quartelada desastrosa, que levou ao retorno absoluto do velho poder. Na décima, já seria para ter me acostumado. Nem de longe.

É no mínimo indecente que um processo de impeachment seja conduzido por quem e como é conduzido, já desde o seu primeiro ato como chantagem e vingança. É no mínimo indecente o conluio, com a indecência anterior, do partido que representa a cúpula social e econômica do país e, sobretudo, de São Paulo. É no mínimo indecente que, "ao se propor o impeachment sem cumprir os requisitos constitucionais de mérito" — palavras "em defesa da democracia" dos reitores das universidades federais —, se falsifique como crime uma prática contábil também de presidentes anteriores. E nunca reprovada. Por isso mesmo posta, desta vez, sob o apelido pejorativo de "pedaladas", para ninguém entender.

É tão legítima a operação do pretendido impeachment que têm sido de madrugada as reuniões em que o presidente da Câmara, na sua casa, articula tanto para derrubar a presidente como para salvá-lo no Conselho de Ética. A votação da Câmara logo mais ainda não é decisiva, se vitorioso o impeachment. Mas, até onde se percebe, deverá ser suficiente para dar início a preliminares de fermentação social que o governo seguinte, com o que pretende, só fará agravar. Até onde é a nova incógnita brasileira. O que, aliás, nem está questionado pela minoritária camada que dirige o todo. O que busca é esse domínio livre de divisão e contestação, exercido com os seus políticos de mãos falsamente limpas.

Janio de Freitas
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