16 de abr de 2016

Em defesa de Dilma

Como governar com boicote incessante?
Há um clichê sobre Dilma que deve ser rebatido.

Muita gente diz ser contra o impeachment, embora Dilma seja ruim, péssima, incompetente etc.

Falta reflexão a este tipo de consideração.

Dilma sequer teve a chance de ser uma má governanta. Nem saíra o resultado da eleição e ela começou a ser sabotada brutalmente.

Uma aliança imediata entre Aécio e Cunha no Congresso inviabilizou qualquer iniciativa de Dilma.

A mídia se dedicou a desestabilizá-la desde antes da vitória nas urnas. Na véspera da eleição, a Veja deu uma capa que afirmava que um delator dissera Dilma e Lula sabiam de tudo no escândalo da Petrobras.

Era mentira, era crime jornalístico, ficaria demonstrado quando se soube do teor da delação invocada pela Veja.

Mas a revista saiu impune deste que pode ser classificado como o marco zero no processo de desestabilização do governo pela imprensa.

A Globo com suas múltiplas mídias logo passou também a fazer uma guerra aberta contra Dilma.

O Jornal Nacional se transformou numa Veja eletrônica. Protestos contra o governo e pelo impeachment começaram a ser promovidos descaradamente pela Globo. O objetivo era dar a impressão — falsa, como se vê hoje — de que o país estava unido contra o governo.

A cobertura das operações da Lava Jato foi um capítulo à parte na tentativa da Globo e o restante da mídia em derrubar Dilma.

A crise econômica mundial foi ignorada. Os problemas nacionais foram tratados como se fossem uma coisa apenas do Brasil. Éramos, segundo a imprensa, patinhos feios em meio a cisnes maravilhosos em todo o mundo.

A pergunta que faço, diante de tudo isso, é: como governar?

Não dá. Simplesmente não dá. Já é difícil administrar um país quando você não é boicotado todos os dias e todas as horas. Quando é, fica impossível.

Qualquer pessoa que tenha ocupado uma posição executiva numa empresa sabe do que estou falando. Você não consegue fazer nada, numa companhia, se a seu redor conspiram incessantemente contra você.

Acabou acontecendo uma coisa patética. Os golpistas paralisaram o país, e não se pejaram em colocar a culpa da paralisação em Dilma. Foi o triunfo do cinismo. Eu imobilizo você. E depois o acuso de não se mexer.

Steve Jobs não conseguiria administrar o Brasil nas circunstâncias enfrentadas por Dilma no segundo mandato.

Se fôssemos um time de futebol, Guardiola fracassaria se submetido a uma situação como a de Dilma.

Repito: ela sequer teve a chance de ser ruim no segundo mandato.

Isso tudo quer dizer o seguinte.

Não é apenas injustiça acusar Dilma de inépcia. É ignorância.

Paulo Nogueira
No DCM
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Futebol e política se misturam, sim!


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OEA diz que impeachment de Dilma não tem base legal

"Não há nenhuma acusação criminosa contra a presidente, além do argumento relacionado com a má gestão das contas públicas em 2014", diz comunicado

Almagro se encontrou com presidente Dilma nesta sexta-feira, em Brasília
O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro, divulgou um comunicado nesta sexta-feira (15/04), após se encontrar com a presidente Dilma Rousseff, em que diz que considerar que o possível impeachment da mandatária não tem base legal, pois o mesmo “não se enquadra nas regras que sustentam o atual processo”.

“Nossa Organização tem feito uma análise detalhada do juízo político iniciado contra a Presidente e concluiu que o mesmo não se enquadra nas regras que sustentam o atual processo. Não há nenhuma acusação criminosa contra a presidente, além do argumento relacionado com a má gestão das contas públicas em 2014. Trata-se, portanto, de uma acusação de natureza política que não justifica um processo de destituição”, diz um trecho do comunicado.

A nota ainda afirma que um sistema presidencialista, como o brasileiro, “não pode funcionar como se fosse um sistema parlamentar”, em que o mandatário é destituído de forma imediata logo após uma eventual mudança na correlação de forças da coligação governamental. A sustentação do presidencialismo, afirma a OEA, não passa “exclusivamente pelo Poder Legislativo” e pelas alianças ali formadas.

“Não se pode trocar a soberania popular por um oportunismo político-partidário”, afirma o comunicado. “Se os constitucionalistas de 1988 tivessem ensejado uma solução do tipo parlamentar ou semiparlamentar, a ordem constitucional seria estruturada dessa maneira”, prossegue. De acordo com a OEA, se fosse esse o caso, “as lógicas de constituição de Governo, conformação de gabinete, responsabilidade política e destituição dos mandatários seriam completamente diferentes”.

Para a organização, que afirma não fazer juízo sobre qual sistema (presidencialismo ou parlamentarismo) é melhor, a organização política brasileira é clara (presidencialista) e, “por essa razão, definiu os limites legais para a efetivação de um processo de destituição”. “Ignorá-los”, diz, “afeta o funcionamento do sistema político e distorce a força e operacionalidade que devem ter a Constituição e as leis”.

Preocupação compartilhada

A Organização dos Estados Americanos lembra que a preocupação com o sistema democrático no Brasil não é exclusiva. De acordo com a OEA, o sistema das Nações Unidas e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) também dela compartilham.

Por fim, o órgão diz que o Brasil tem sido um “exemplo de democracia no continente” e precisa continuar a ser - e faz um apelo neste sentido.

“Deve-se julgar a partir da decência e da probidade pública os atos indecentes e criminosos e não o inverso”, afirma a OEA.

Leia a íntegra da nota:

Declaração do Secretário-Geral da OEA Luis Almagro após reunião com a Presidente Constitucional do Brasil Dilma Rousseff

Hoje, conversei em Brasília com a presidente Dilma Rousseff sobre a conjuntura presente do país, alguns temas regionais e o papel que vem desempenhando a Organização dos Estados Americanos (OEA).

Além disso, a presidente Rousseff referiu-se à situação política no Brasil e ao rito do processo de impeachment que possivelmente tenha que enfrentar.

Nossa Organização tem feito uma análise detalhada do juízo político iniciado contra a Presidente e concluiu que o mesmo não se enquadra nas regras que sustentam o atual processo.

Não há nenhuma acusação criminosa contra a presidente, além do argumento relacionado com a má gestão das contas públicas em 2014. Trata-se, portanto, de uma acusação de natureza política que não justifica um processo de destituição.

Essa perspectiva dá margem a uma série de dúvidas que estão refletidas na opinião de vários setores da população, incluindo o próprio sistema de acusação pública, como pudemos notar na carta assinada por 130 membros do Ministério Público de vários estados brasileiros:

“2. É sabido que o juízo de “impeachment” a versar crime de responsabilidade imputado a Presidente da República perfaz-se em juízo jurídico-político, que não dispensa a caracterização de quadro de certeza sobre os fatos que se imputam à autoridade, assim questionada.

3. Ausente o juízo de certeza, a deliberação positiva do “impeachment” constitui-se em ato de flagrante ilegalidade por significar conclusão desmotivada, assim arbitrária, assentada em ilações opinativas que, obviamente, carecem de demonstração límpida e clara.

4. Os fatos articulados no procedimento preliminar de “impeachment”, em curso, e como tratados na comissão preparatória a subsidiar a decisão plenária das senhoras deputadas e dos senhores deputados, com a devida vênia, passam longe de ensejar qualquer juízo de indício de crimes de responsabilidade, quanto mais de certeza.

5. Com efeito, a edição de decretos de crédito suplementar para remanejar limites de gastos em determinadas políticas públicas autorizados em lei, e os atrasos nos repasses de subsídios da União a bancos públicos para cobrir gastos dessas instituições com empréstimos realizados a terceiros por meio de programas do governo, são ambos procedimentos embasados em lei, pareceres jurídicos e entendimentos do TCU, que sempre considerou tais medidas legais, até o final do ano de 2015, quando houve mudança de entendimento do referido tribunal.

6. Ora, não há crime sem lei anterior que o defina e muito menos sem entendimento jurisprudencial anterior assentado. Do contrário, a insegurança jurídica seria absurda, inclusive com relação a mais da metade dos governadores e inúmeros prefeitos que sempre utilizaram e continuam utilizando as mesmas medidas que supostamente embasam o processo de impedimento da Presidente.

7. Desse modo, não há comprovação da prática de crime de responsabilidade, conforme previsão do artigo 85 da Constituição Federal.”

Além disso, é preciso ressaltar que um regime presidencialista, como o brasileiro - prevalente na grande maioria dos países do nosso hemisfério - não pode funcionar como se fosse um sistema parlamentar, onde a destituição do primeiro mandatário se dá imediatamente, bastando uma mudança na correlação das forças políticas na coligação governamental.

De fato, a sustentabilidade do sistema presidencialista não passa exclusivamente pelo Poder Legislativo e pelas alianças formadas nesse contexto. As alianças políticas, no presidencialismo, garantem a eficiência para legislar e governar, mas não substituem o apoio soberano representado pelo voto popular consignado à atual presidente. Não se pode trocar a soberania popular por um oportunismo político-partidário. Se os constitucionalistas de 1982 tivessem ensejado uma solução do tipo parlamentar ou semiparlamentar, a ordem constitucional seria estruturada dessa maneira e, por exemplo, as lógicas de constituição de Governo, conformação de gabinete, responsabilidade política e destituição dos mandatários seriam completamente diferentes.

Não fazemos aqui qualquer juízo sobre qual é o melhor sistema – presidencialismo ou parlamentarismo - porque isso depende do pacto social e político de cada sociedade. Mas a organização do sistema constitucional brasileiro é clara e, por essa razão, definiu os limites legais para a efetivação de um processo de destituição. Ignorá-los afeta o funcionamento do sistema político e distorce a força e operacionalidade que devem ter a Constituição e as leis.

Nossa preocupação não é isolada, porque o sistema das Nações Unidas e a União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) também dela compartilham. O sistema das Nações Unidas observou:

“O Brasil é um país muito importante e qualquer instabilidade política é uma preocupação social para nós,” disse à imprensa brasileira na semana passada o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon. “Renovamos nosso apelo para garantir que o Poder Judicial seja respeitado, que as instituções democráticas pelas quais o Brasil lutou tanto para ter sejam respeitadas e nãn sejam minadas no processo,” afirmou Ravina Shamdasani, Porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos.

Por outro lado, a UNASUL destacou que:

“A presidente só pode ser processada e destituída - revogando o mandato popular que a elegeu - por faltas criminosas nas quais se comprove sua participação dolosa e ativa. Aceitar que um líder possa ser afastado de seu cargo por supostas falhas em atos de caráter administrativo levaria à perigosa criminalização do exercício do governo por razões de índole simplesmente políticas”.

O Brasil tem sido um exemplo de democracia no continente e todos precisamos que continue sendo. É por isso que a comunidade internacional faz um apelo nesse sentido.

Deve-se julgar a partir da decência e da probidade pública os atos indecentes e criminosos e não o inverso.

Esse princípio será também essencial para a luta contra a corrupção que assola o país e que dever ser combatida até o fim. É do interesse de todos que a investigação chegue até suas últimas consequências.

A conscientização deve valer-se da verdade e da justiça; e a consciência política só é válida quando se expressa em conformidade com a institucionalidade em vigor no país.

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Como Cunha passou de golpista a ‘libertador’ na avaliação do advogado do impeachment

Reale é um dos símbolos da insanidade nacional
Um dos símbolos da insanidade golpista que caracteriza o Brasil destes dias turvos tem nome. Miguel.

Miguel Reale, jurista.

Nesta sexta, Miguel Reale defendeu o golpe no Congresso. Chamou os parlamentares de “libertadores”, como se aquele ninho de víboras contivesse Bolívares.

Mas este mesmo Reale, tão logo Cunha aceitou o pedido de impeachment contra Dilma, afirmou que se tratava de uma “chantagem explícita“. Repare. Não apenas chantagem, o que já seria criminoso. Mas uma chantagem aberta, descarada, despudorada.

Cunha agiu não por convicções patrióticas, que jamais teve, ou por motivos de moral, algo de que ele significa o oposto.

Agiu por vingança.

Se é para usar a palavra empregada por Reale, Cunha recorreu ao impeachment para libertar a si mesmo das devastadoras acusações de corrupção.

É neste sentido, e apenas nele, que se pode aceitar o termo de Reale. Os deputados golpistas são “libertadores” deles próprios.

Querem, com o golpe, libertar-se de pagar os preços de sua roubalheira. Caso Dilma seja derrubada, estará garantida a sua impunidade. Continuarão a fazer o que sempre fizeram.

Moro sumirá, a Lava Jato sumirá, a cobertura de corrupção da imprensa sumirá.

O país ficará um paraíso de mentirinha, como foi nos anos de ditadura segundo as lentes da Rede Globo.

É claro que haverá uma convulsão social de proporções imprevisíveis, mas isto não parece preocupar os golpistas diante do alívio momentâneo que receberão com a consumação do golpe.

Caso corra sangue, eles confiam que não será o deles, mas dos brasileiros que saírem às ruas em protesto contra o roubo de seus 54 milhões de votos.

Eduardo Cunha, que deveria há muito tempo já estar na cadeia, ficará com mais poder ainda do que já tinha com os paus mandados que amealhou no Congresso à base de dinheiro.

É Cunha, a maior expressão do roubo na política nacional, o chefe dos “libertadores”, no gongorismo doente de Miguel Reale.

Este mesmo Reale que classificara o impeachment como uma chantagem explícita.

O Brasil sofre uma crise moral sem precedentes, simbolizada por Cunha e demais “libertadores” — e também por cínicos como o jurista Reale.

Paulo Nogueira
No DCM
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Eduardo Cunha explica porque impeachment de Dilma é golpe



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O estranho silêncio de Washington e como o Brasil ficará menor se o golpe for aprovado domingo


Nova York, anos 80. Eu era correspondente da TV Manchete. O grupo imobiliário japonês Mitsubishi compra 50% do Rockefeller Center, um símbolo turístico e empresarial dos Estados Unidos. A imprensa local não perdeu o simbolismo do fato, que veio na esteira de outros investimentos japoneses nos Estados Unidos. Sobrava poupança no Japão.

Um livro havia atiçado o nacionalismo dos norte-americanos: Japão como número um, de Ezra Vogel. Era a ameaça amarela, apresentada agora em tons mais diplomáticos. Falar em declínio dos EUA é garantia de capturar a atenção da opinião pública.

Por trás daquela onda semi-xenofóbica, havia um interesse claríssimo, expresso muitas vezes nas capas de jornais, especialmente no grande diário de negócios, o Wall Street Journal.

Empresas americanas queriam abrir o mercado japonês. O argumento era de que, enquanto o grupo Mitsubishi podia comprar livremente o Rockefeller Center (um negócio que provou-se péssimo), empresas como o Walmart enfrentavam barreiras para entrar no Japão, que dava vantagens aos donos de biroscas locais.

Resumo do filme: eram norte-americanos estimulando uma onda sobre a ascensão inevitável do Japão — com a consequente decadência dos Estados Unidos — para cobrar concessões do governo japonês. Fique registrado: as previsões provaram-se estapafúrdias e os anos 90 foram a década perdida para os japoneses.

Passei, ao todo, quase 20 anos nos Estados Unidos. Glen Burnie, Maryland. Manhattan, Queens, Roosevelt Island, Nova York. Bethesda, Maryland (nas cercanias de Washington).

Testemunhei mais de uma vez o fenômeno que descrevi acima: o estímulo ao nacionalismo com o objetivo de extrair concessões de parceiros econômicos. Hoje, a promessa mais importante do candidato republicano Donald Trump é jogar duro com China. Logo a China, que com sua mão-de-obra massiva e barata ajudou a salvar o capitalismo.

Por outro lado, em minha carreira de correspondente não me lembro de ter feito uma única reportagem em que norte-americanos tenham atirado concretamente contra seus próprios interesses.

Cobri, por exemplo, o escândalo dos gastos do Pentágono, que são denunciados desde os anos 80.

O mais famoso episódio foi o da tampa de privada pela qual uma empreiteira teria cobrado 640 dólares. Na verdade, tratava-se de um lavatório para um avião. Exageros à parte, é aceito nos Estados Unidos que existe um conluio entre parlamentares, fornecedores do Pentágono e o Departamento de Defesa. As instalações militares se espalham por centenas de distritos eleitorais, garantindo intercâmbio de verbas e votos.

Apesar disso, a atuação do FBI em casos de corrupção é absolutamente discreta. Uma busca e apreensão na sede do Pentágono, transmitida ao vivo com helicópteros pelas redes ABC, CBS e NBC, é inimaginável. Não porque não haja corrupção. É porque jamais os Estados Unidos exporiam suas estranhas em público para o mundo, com repercussões óbvias para a política externa. Discrição, sempre, é o que rege o aparelho estatal.

Acreditem: mesmo para experientes jornalistas norte-americanos, extrair um documento oficial vazado por uma autoridade é uma impossibilidade. Acima da luta política, estão os interesses coletivos. Não é por acaso que eles começaram na costa Leste da América do Norte e acabaram no Alasca.

ESCOLA DAS AMÉRICAS x ESCOLA DE PROMOTORES E JUÍZES

Fundada em 1946, funcionando inicialmente em uma base militar no Panamá, a Escola das Américas ficou famosa. Seu objetivo, na guerra fria, era estabelecer uma relação próxima entre as elites militares dos Estados Unidos e de todos os países da América Latina. Teve um papel crucial no futuro do continente. Através dela, Washington desenvolvia assets, o jargão utilizado para definir aliados que podem ter um papel crucial para a política externa do país.

As relações desenvolvidas na escola foram essenciais para a influência de Washington em todo o seu quintal, especialmente na instalação de ditaduras anticomunistas nos anos 60 e 70.

Porém, vivemos novos tempos. Ditaduras como aquelas não interessam mais. Vivemos no mundo do consenso forjado pela cultura e pela mídia.

Hoje, como está comprovado pela análise das várias revoluções de veludo que aconteceram no entorno da ex-União Soviética e no Oriente Médio, a influência externa na política local se dá através da sociedade civil, notadamente da atuação de jovens via internet.

Os Estados Unidos têm uma longa história de diplomacia civil. É o outro lado das operações clandestinas. Não se trata de comprar corações e mentes, mas de naturalizar a hierarquia que coloca Washington sempre numa posição superior — política, diplomática, econômica e culturalmente.

Hoje os Estados Unidos são os maiores interessados na cooperação internacional com promotorias de outros países.

Há vários motivos para isso. Em primeiro lugar, é preciso forjar uma legislação internacional razoavelmente homogênea que reduza os custos de atuação das grandes corporações. É um consenso que interessa a Washington construir, à sua imagem e semelhança. É o arcabouço jurídico de um governo mundial sob tutela dos Estados Unidos.

Em segundo lugar, existe uma óbvia assimetria que favorece os Estados Unidos. O país dispõe de um aparato policial e de inteligência que é mastodôntico. Passa pelo FBI, pela CIA, pela National Security Agency (aquela que ouviu conversas de líderes mundiais, inclusive de Dilma Rousseff) e pelo Departament of Homeland Security.

Quais foram as situações concretas em que estas agências ajudaram o Brasil a investigar, por exemplo, as atividades da Boeing ou da Chevron?

É de uma obviedade gritante: a capacidade dos Estados Unidos de investigar e denunciar a corrupção alheia é infinitamente maior que a de qualquer outro país em fazer o mesmo em relação a empresas baseadas nos Estados Unidos.

Não há como garantir que esta “colaboração” não seja assimétrica ou politicamente dirigida. Vivemos na Era da Informação — os Panama Papers que o digam.

Será que teremos Delaware Papers? Delaware, para quem não sabe, é um paraíso fiscal onde estão instaladas as sedes de grandes corporações norte-americanas, que assim tiram proveito de vantagens fiscais.

Por outro lado, o Ministério Público Federal vai ajudar os Estados Unidos a processar nossa maior empresa, a Petrobras. Executivos da Embraer serão acionados no Brasil por pagar propina na República Dominicana. O almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, pai do programa nuclear brasileiro, foi preso por determinação do juiz Sérgio Moro. Dados relativos a operações da Eletronuclear se tornaram públicos.

Não, em nenhum momento apoiamos a corrupção ou o acobertamento de corruptos. Porém, o MPF e a Justiça brasileira não podem desconsiderar os aspectos geopolíticos de sua atuação. O mundo mudou. Estamos todos interconectados. A guerra de informação deixou de ser algo dos livros de ficção.

Por isso, é preciso agir sempre com ponderação, com discrição e sem espetáculo. Nunca em defesa dos corruptos, mas da preservação de algo que vai além da presunção de inocência: há grandes interesses econômicos em jogo e a ingenuidade pode custar caríssimo.

Exemplo? Uma empresa tem como um de seus principais bens a imagem que ela é capaz de projetar no mercado internacional. A maior construtora brasileira, capaz de competir por obras em todo o mundo, será enterrada pela Operação Lava Jato. Mas a Odebrecht não operou no vácuo, como ficou demonstrado na contabilidade paralela que o Jornal Nacional omitiu: políticos de praticamente todos os partidos operaram em cumplicidade com a empresa.

É preciso acabar com a prática, não destruir a empresa.

O IDEALISMO DO JUIZ MORO

O juiz Sérgio Moro é obcecado por botar abaixo o sistema político brasileiro. Isso está claro nas próprias palavras que escreveu sobre a Operação Mãos Limpas. Seria uma impossibilidade se o sistema político fosse de fato representativo e não estivesse corrompido por relação promíscua com os grandes financiadores.

Porém, o método “revolucionário” de Moro pode, ao fim e ao cabo, trazer mais danos que benefícios ao Brasil. Assim como o MPF, o juiz desconsidera circunstâncias geopolíticas e econômicas num momento de profunda crise mundial.

Além de apaixonado pela Operação Mãos Limpas, o juiz Moro também demonstra uma grande admiração pela Justiça dos Estados Unidos.

Em seus textos e despachos, ele frequentemente cita decisões tomadas por juizes americanos.


Citado pelo Washington Post, o advogado Carlos Zucolotto, amigo de Moro, disse ao jornal que o juiz do Paraná tem admiração pelo rigor e eficiência da Justiça dos Estados Unidos. “Ele está transmitindo uma experiência da cultura norte-americana, de como os advogados de lá se comportam em processos como este”, disse Zucolotto ao jornal.

Devemos dar um desconto ao amigo de Moro, que pode ter ficado entusiasmado ao dar entrevista ao jornalista Dom Phillips. Porém, é improvável que as breves passagens de Moro pelos Estados Unidos tenham dado a ele insight sobre o funcionamento real do sistema.


Captura de Tela 2016-04-16 às 02.10.47Minha primeira reportagem nos Estados Unidos foi sobre o assassinato do mafioso Paul Castellano diante da churrascaria Sparks. Era, por sinal, a preferida de Paulo Francis, que costumava dizer que os mafiosos sabiam comer bem.

Cobri todo o desmanche da máfia de Nova York nos tribunais. Não foi um espetáculo bonito de se ver, com óbvio cerceamento de defesa em nome de um “bem maior”.

O promotor Rudolph Giuliani tinha claras pretensões políticas quando enfiou na cadeia o chefão John Gotti.

Giuliani sempre adorou uma prisão espetaculosa que não dava em nada, por falta de provas. Tornou-se, lá adiante, prefeito de Nova York.

Provavelmente, Moro idealizou a Justiça norte-americana da mesma forma que idealizou a Operação Mãos Limpas.

A realidade é que a Justiça dos Estados Unidos, que conheci na intimidade durante a cobertura de dezenas de casos, encarcera negros de uma maneira desproprocional e condenou dezenas de pessoas à morte com provas questionáveis.

Desde os atentados às Torres Gêmeas, em 2001, advogados de defesa foram acusados de colaborar com réus em casos relacionados ao terrorismo. Os EUA têm uma tradição de advocacia radical, que desafia o Estado. Entrevistei Lynne Stewart, que foi presa por supostamente transmitir mensagens de um réu a seus colaboradores. No futuro vai provar-se que ela foi vítima de intimidação estatal, vigilantismo contra o direito de defesa.

Note-se que, na Lava Jato, Moro foi informado por uma empresa de telefonia que gravava um escritório inteiro de advogados, pertence a Roberto Teixeira, que representa o ex-presidentre Lula. Mesmo informado, não recuou. Está claríssimo que Moro está disposto a solapar garantias constitucionais — neste caso na relação advogado-cliente — para atingir seus objetivos.

NÃO HÁ MAIS BOBO NO FUTEBOL

A viagem que o Departamento de Estado bancou para Moro nos Estados Unidos é muito tradicional. São três semanas de imersão na sociedade americana, para troca de conhecimento. Conheço jornalistas que fizeram a viagem, vários. Os convites partem de consulados ou embaixadas norte-americanas, com tudo pago.

O IVLP existe desde os anos 40. É certamente o mais conhecido programa do vasto aparato da diplomacia civil dos Estados Unidos.

Não, as pessoas não são submetidas a lavagem cerebral, nem a hipnose por agentes da CIA.

Repito: trata-se de naturalizar a ideia de que os Estados Unidos pairam sobre o Universo, expressão do Destino Manifesto.

O ex-presidente José Sarney fez a viagem em 1964. A presidente Dilma Rousseff em 1992, quando ainda estava no Rio Grande do Sul. Gilberto Gil foi em 1989 e 1990. Provavelmente para garantir financiamento ao projeto, a turma do IVLP costuma dizer que já levou aos Estados Unidos 335 chefes de governo ou chefes de Estado antes deles assumirem o poder. O que justifica o nome: Programa de Visitação de Lideranças Internacionais.

É um bom augúrio para o candidato Moro, se ele um dia quiser tirar a toga e encarar a carreira política.

Nas peças de propaganda do IVLP, há menção constante ao ex-primeiro ministro Tony Blair, que britânicos chamavam de “cãozinho de colo” de George W. Bush.


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A descrição dos objetivos do programa é clara:

O IVLP é o principal programa de intercâmbio profissional do Departamento de Estado. Através de visitas curtas aos Estados Unidos, líderes estrangeiros atuais ou emergentes, numa variedade de campos profissionais, experimentam o país em pessoa e cultivam relacionamentos duradouros com colegas norte-americanos. Os encontros profissionais refletem os interesses dos visitantes e apoiam os objetivos da política externa dos Estados Unidos.

NÃO VIVEMOS NO VÁCUO

Por isso, é importante ter clareza: não vivemos no vácuo.

O ex-presidente Lula, dentro de circunstâncias tornadas possíveis por um boom de commodities, armou com o ex-ministro Celso Amorim uma política externa que, longe de garantir completa soberania ao Brasil, ofereceu ao menos um caminho para que o capitalismo brasileiro tirasse proveito de vantagens geográficas e competisse pelo mercado da América Latina com os Estados Unidos.

A Washington desagrada especialmente a ideia de que a energia da América do Sul — do Brasil, Venezuela e Bolívia — seja utilizada de forma prioritária para induzir o desenvolvimento local.

Como bem sabem os industriais paulistas usuários da energia barata que vem do gás boliviano, sem energia confiável e de valor razoavelmente previsível, não há futuro.

O controle das fontes e a determinação do preço desta energia é central para a capacidade de competir por mercados, sempre dentro da lógica do capitalismo.

Os Estados Unidos buscam uma diversificação de fontes de energia que os livrem da dependência do petróleo do Oriente Médio. Miram, obviamente, nos lugares geograficamente mais próximos: costa da África e América do Sul.

Venezuela, Bolívia e Brasil têm algo em comum: elites locais associadas ao projeto dos Estados Unidos de contenção dos BRICs, em particular Rússia e China.

Depois do interesse pela energia, há óbvia tentativa dos Estados Unidos de controlar a cadeia tecnológica, essencial para garantir a submissão econômica alheia.

As decisões do Brasil de construir um submarino nuclear em parceria com a França e os caças militares em parceria com a Suécia desagradaram aos Estados Unidos. Foram perdidos negócios imediatos e fornecimento de peças a longo prazo. Perdeu-se o controle do cliente. Para o Brasil, fazia sentido: as decisões se inseriam no projeto brasileiro de exercer sua soberania de forma menos limitada.

Quando se tornou secretária de Estado de Barack Obama, Hillary Clinton prometeu trocar as custosas intervenções militares no Exterior pelo eficaz soft power, do qual o Brasil tem a melhor “tecnologia mundial”, desenvolvida pelo Itamaraty. Há pistas de que isso já esteja acontecendo.

O presidente Barack Obama, depois de visitar Cuba, passou por Buenos Aires para encontrar-se com o novo presidente Maurício Macri, sinalizando a retomada do tradicional jogo dos Estados Unidos na região: equilibrar o Brasil com a Argentina, aproveitando-se da antiga desconfiança que o Brasil desperta na vizinhança, por seu tamanho e potencial econômico.

O silêncio de Obama, que fez apenas uma referência anódina à crise brasileira, é sintomático de algo maior e muito mais importante: o desabamento daquela arquitetura diplomática projetada por Lula, Celso Amorim e o Itamaraty, se acontecer, deixaria o Brasil menor. No cruel jogo de poder que existe nos bastidores sorridentes da diplomacia, um Brasil menor interessa aos Estados Unidos. Grosseiramente, seria o equivalente a vencer uma guerra sem dar um único tiro. É o que pode acontecer domingo, se aprovado o processo de impeachment.

Luiz Carlos Azenha
No Viomundo
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Pronunciamento do Dep. Sílvio Costa — assista


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Meire Poza é pivô de provas ilegais na Lava Jato, indicam documentos

Meire Poza: a contadora de Youssef
A maior investigação da história pode ter passado por cima da lei em nome da justiça, mostram bastidores da operação

CartaCapital teve acesso a um conjunto de trocas de mensagens, vídeos, fotos e documentos que revelam que integrantes da Operação Lava Jato podem ter feito uso de provas ilegais, vazado informações confidenciais, forjado buscas e apreensões e usado uma informante infiltrada irregularmente. São diálogos entre agentes e delegados da Polícia Federal e Meire Poza, contadora e ex-braço direito de Alberto Youssef, principal delator do escândalo de corrupção na Petrobras.

O que será narrado a seguir mostra que, à margem da lei, a força-tarefa pode ter colocado todo o trabalho de três anos de investigação em risco por conta do "justiça a qualquer preço". Eventualmente, a chamada doutrina jurídica dos frutos da árvore envenenada pode fazer com que todas as provas e missões concluídas sejam questionadas e até invalidadas pela Justiça. Outras operações, entre elas a Castelo de Areia, foram anuladas por supostamente conterem erros de procedimento.

A revista questionou a contadora a respeito dos documentos. Meire ameaçou processar o veículo, caso as conversas e dados fossem divulgados. A contadora publicou um livro faz dois meses expondo sua intimidade com os bastidores da operação, mas não revelou na ocasião todas as conversas e nem explicou à reportagem a omissão de tais fatos.

A revista decidiu tornar pública toda a documentação e revelar os fatos que serão expostos a seguir.

A história que se segue começa a ser contada em meados de 2012, quando a contadora esteve na sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Poza, ainda não se sabe o motivo, decide denunciar a existência de um esquema de fraudes em fundos de pensão privados operados em conluio pelo doleiro Alberto Youssef e agentes de vários estados. Um delegado da PF em São Paulo que a recebeu deu de ombros. Nenhum depoimento foi colhido e nada foi feito para apurar as denúncias.

Dois anos mais tarde, quando a investigação da Lava Jato ganhou as ruas, em março de 2014, Meire procurou a PF mais uma vez e desta vez foi ouvida. Ela foi recebida em São Paulo pelo delegado Márcio Anselmo, líder do grupo que investigava lavagem de dinheiro por meio de doleiros a partir de Curitiba. Até aquele momento, a força-tarefa não fazia a mínima ideia onde a Lava Jato iria chegar e sabia-se apenas que era mais uma investigação contra lavagem de dinheiro.

CartaCapital apurou que foi feito um acordo com a contadora: ela forneceria informações dos investigados e vazaria documentações em troco de não ser processada. E há indícios de que isso de fato ocorreu. Embora seu escritório tenha lavado 5,6 milhões de reais de Youssef, Poza nunca foi sequer indiciada. CartaCapital teve acesso a trocas de mensagens, fotos, vídeos e documentos entre Meire e integrantes da força-tarefa que datam de 5 de maio de 2014 a março de 2015.

Um dos diálogos que mais chamam atenção trata da farta documentação escriturária e contábil das empresas de fachada de Youssef. Meire tinha em seu poder caixas de documentos com contratos fictícios da RCI, MO Consultoria, GDF e Empreiteira Rigidez. Companhias que só existiam no papel, mas serviam para Youssef receber propina das maiores construtoras do País.

A força-tarefa não fazia a mínima ideia da existência desses documentos. Era um acervo que identificou que Youssef recebia dinheiro das maiores construtoras do País por serviços que nunca prestou. As caixas foram entregues pela contadora, em março de 2014. No entanto, como a documentação foi entregue de maneira aparentemente ilegal, a força-tarefa precisava “esquentar a documentação” na gíria policial.

Em 5 de maio, o delegado Márcio Anselmo fala com Poza pelo aplicativo de conversas WhatsApp. “Devemos acertar para a prox semana uma viagem a sp para formalizar a apreensão daqueles documentos”. Poza responde: “Te aguardo!!!”. O delegado continua: “Se puder já separe todo o material dos contratos da gfd”.

A busca acabou se dando em 1º de julho de 2014, durante a 5ª fase da Operação Lava Jato. Um indicativo de que a Polícia Federal marcou dia e hora para uma busca e apreensão desnecessária. Uma diligência que deu ensejo ao uso de documentos que municiaram grande parte de tudo o que veio a ser descoberto.

Em um dos diálogos, o delegado indica que buscaria o Ministério Público Federal e que levaria ao conhecimento dos procuradores a relação com a contadora: “Vou conversar c o mpf sobre a sua situação”.

Meire Poza
Delegado avisa contadora que iria tratar da situação de Meire Poza com o MPF
Os agentes também já sabiam em maio de 2014 do envolvimento de parlamentares na investigação. Diferente do que foi dito pelos integrantes da força-tarefa, que só tomaram conhecimento da existência de personagens com prerrogativa de foro ao longo da investigação, um dos diálogos revela que Meire e Márcio Anselmo falam do então deputado federal Luís Argolo.

Em 14 de maio, Márcio pergunta para Meire: “vc sabe se o bebe jhonson tinha alguma relação com o precatório do maranhão?”. Bebê Jhonson era como os investigados se referiam ao ex-deputado Luiz Argolo. Ou seja, naquele momento a força-tarefa investigava um deputado federal sem autorização do Supremo Tribunal Federal.

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Delegado da PF e Meire Poza conversam sobre a situação do deputado Luiz Argolo
Em 15 de maio, Meire dispara: “O Argolo ameaçou um monte de deputado”. Márcio responde: “Eu descobri pq o boato na semana passada”. O delegado continua: “Eu acho que o argolo, mesmo no sdd, distribuía $$$ para o PP”.

Rodrigo Prado
O agente Rodrigo Prado encaminhou esta
foto, feita durante ação da Lava Jato,
para a contadora
O delegado mostra que a operação visava mais políticos. Márcio pergunta: “Com que outros políticos ele tinha contato?”, a contadora responde: “tem um senador que eu preciso lembrar o nome, tinha o governador da Bahia”. Nos diálogos também há menções à então deputada Aline Correa (PR-CE) e ao senador Cícero Lucena (PSDB-PB).

As conversas não se limitam ao delegado. O agente Rodrigo Prado era quem Meire municiava com informações. A contadora faz gravações escondidas com os investigados da operação, encaminha documentos irregularmente e trocam fotos. Numa delas, o agente mostra uma foto de dentro da viatura com um dos investigados. 

Ao que parece, outros integrantes da força-tarefa em Curitiba tinham conhecimento da utilização da contadora na operação, como indica um email encaminhado por Meire ao delegado Eduardo Mauat. Estão em cópia na mensagem o delegado Igor de Paula, a delega Érika Marena, o agente Prado e o delegado Márcio Anselmo, nomes relevantes da força-tarefa dentro da PF em Curitiba.

Tudo isso com o aparente conhecimento do superintende da PF no Paraná, Rosalvo Ferreira Franco, conforme email de 13 de agosto. Em email encaminhado aos delegados e a Meire, que usava o endereço eletrônico rabellopassos@gmail.com, ele diz estar ciente de uma conversa entre Igor e Meire a respeito da segurança da contadora.

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Troca de mensagem entre delegado, superintendente da PF e Meire Poza
No email, a contadora se diz abandonada pela operação e reclama: “Não vou ficar esperando que algo de ruim aconteça comigo ou com a minha filha. Espero que tenham a sensatez de saber que um erro não justifica o outro. Eu mostrei minha cara, mas foram vocês que colocaram minha vida em risco. Isso eu não vou perdoar nunca.”

Todos os detalhes dessas conversas e mais diálogos que expõem a Lava Jato você acompanha na edição especial de CartaCapital que começa a circular na próxima quarta-feira, 20. Todos os documentos, mensagens, áudios e fotos em poder da revista serão encaminhados ao Procurador Geral da República, ao Ministério da Justiça, à direção da Polícia Federal e à Ordem dos Advogados do Brasil.

Henrique Beirangê
No CartaCapital
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Secou o Caixa Dois do Golpe


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Lula no acampamento da democracia: Não podemos habituar esse país a viver de golpe em golpe

Foto: Gustavo Ferreira / Jornalistas Livres

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou na manhã deste sábado (16) o acampamento da democracia, no ginásio Nilson Nelson, em Brasília. Lula falou durante cerca de 10 minutos, relembrou a história do Brasil e das diversas tentativas de golpe contra governos que se colocaram ao lado do povo e disse: “Nossa luta é pela democracia, pelo respeito à Constituição e ao estado de direito. Não podemos habituar esse país a viver de golpe em golpe”.

Getúlio se matou, Jango sofreu golpe e foi para o exílio. “Nós não nos mataremos. Nós achamos que a vida é a coisa mais maravilhosa que existe. Nós não vamos nos exilar, nós amamos este país. Nós vamos é lutar pela democracia neste país”. Lula lembrou ainda todas as suas derrotas eleitorais e que, em nenhuma delas, contestou o resultado. “Fui para casa chorar minhas mágoas".

Lula terminou sua fala pregando a paz e a tolerância. “Nós não agredimos pessoas em aeroportos, quem faz isso são eles. Ninguém quer mais a paz do que o povo trabalhador. Nós sabemos conviver com a divergência, eles não. Quando os mais pobres sobem um degrau na escada social, eles já se incomodaram. Mas vamos nos manifestar sabendo que não podemos aceitar provocações”.



No Instituto Lula
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Dilma Rousseff — Democracia: o lado certo da história


Vivemos dias decisivos para a jovem democracia brasileira. Vivemos tempos que colocam em risco o direito do povo escolher, por eleição direta, quem deve governar o nosso país. São tempos em que a capacidade de diálogo, tolerância e respeito às diferenças políticas está sendo testada ao limite.

Vivemos sob a ameaça de um golpe de estado. Um golpe sem armas, mas que usa de artifícios ainda mais destrutivos como a fraude e a mentira, na tentativa de destituir um governo legitimamente eleito, substituindo-o por um governo sem voto e sem legitimidade.

Sou de uma geração que lutou muito pela democracia e, apesar de todas as dores e sacrifícios, inclusive a dor extrema da tortura e o sacrifício maior da vida, venceu.

Acredito no Brasil democrático e no povo brasileiro e tenho trabalhado muito para honrar os votos dos mais de 54 milhões de eleitores que me elegeram para governar o Brasil por quatro anos, até 31 de dezembro de 2018.

Neste momento, há um pedido de impeachment contra mim em julgamento no Congresso Nacional. Um pedido de impeachment aberto sem que eu tenha cometido crime de responsabilidade. Aliás, não cometi crime algum, de nenhum tipo.

Os que se pretendem meus algozes é que têm encontro marcado com a Justiça, mais cedo ou mais tarde. Para fugir dela, tentam derrubar um governo que criou leis contra a corrupção, deu transparência à administração pública e sempre apoiou a ação independente da Polícia Federal e do Ministério Público.

Tudo isso faz deste julgamento uma grande fraude. Na verdade, a maior fraude jurídica e política da história de nosso país. Destituir uma presidenta pelo impeachment, sem que ela tenha cometido crime de responsabilidade, é rasgar a Constituição brasileira. Trata-se de um golpe contra a República, contra a democracia e, sobretudo, contra os votos de todos os brasileiros que participaram do processo eleitoral.

Fazer oposição e criticar meu governo é parte da democracia. Mas derrubar uma presidenta legitimamente eleita, sem que tenha cometido qualquer crime, sem que seja sequer investigada em um processo, não faz parte da democracia.

É golpe!

Não temo investigação de qualquer natureza sobre minha conduta. Jamais me opus ou criei obstáculos a qualquer investigação, sobre quem quer que seja.

Não sou suspeita, não sou investigada, não sou ré, mas querem me derrubar por meio de um impeachment ilegal. Querem me submeter a uma das maiores injustiças que se pode cometer contra alguém: condenar um inocente.

Querem condenar uma inocente e salvam corruptos.

Peço a todas as brasileiras e a todos os brasileiros que não se iludam, nem se deixem enganar. Vejam quem está liderando este processo. Perguntem-se porque querem tanto me derrubar da Presidência e desrespeitar o voto do povo.

Será que estes que lideram o golpe permitirão que o combate à corrupção continue? Qual a sua legitimidade? O que querem dizer quando anunciam a necessidade de impor sacrifícios à população? O governo de salvação que prometem será para salvar o Brasil ou a eles mesmos?

Respeito os que se opõem a meu governo e gostariam de ver outra pessoa na Presidência. Sei que muitos pensam assim de boa-fé, porque ainda não perceberam quem são os conspiradores.

As pessoas que pensam e agem de boa fé, ao contrário dos líderes da fraude golpista, devem entender que não precisam gostar de mim para se opor ao golpe. Basta gostar da democracia. Basta respeitar o eleitor.

Nossa democracia não pode ser violentada. O voto de cada brasileiro e cada brasileira deve ser respeitado. O golpe deve ser impedido, para que o Brasil não retroceda na política, nos direitos, na inclusão.

Derrubar uma presidenta legitimamente eleita não é solução para enfrentar os momentos difíceis que vivemos na economia brasileira. Muito ao contrário: sem a legitimidade concedida pelo voto direto, nenhum governo é capaz de construir saídas democráticas para a crise. Com o golpe, a crise se aprofundaria e se prolongaria.

Faço questão de lembrar que, apesar de toda a crise, as nossas políticas sociais continuam em curso. Os jovens seguem tendo acesso ao ProUni, ao Fies e ao Pronatec. O Bolsa Família, o Mais Médicos, o Minha Casa, Minha Vida continuam íntegros e mudando a vida do povo brasileiro. Jamais rompemos ou romperemos com os compromissos por um Brasil justo e inclusivo, de todos os brasileiros e brasileiras. Sabemos que estabilizar a economia e o nível de emprego é tarefa urgente e fundamental, que enfrentaremos com ainda mais vigor, assim que superarmos a crise política.

A inflação felizmente já começou a diminuir. Os consumidores já perceberam isso em seu dia a dia, na conta de luz e no preço dos alimentos. Esta é uma boa notícia porque interrompe a perda de poder de compra das famílias e abre espaço para a redução da taxa de juros.

Estamos vendendo mais produtos para o resto do mundo e, com isso, o superávit em nossa balança comercial é crescente. Nossas reservas internacionais são elevadas e, ao contrário do que tentam mostrar na imprensa, o investimento estrangeiro direto continua vindo para o Brasil.

Os fundamentos da economia são hoje muito melhores do que no tempo em que mandavam no Brasil os líderes do golpe e o FMI. Muitas de nossas dificuldades hoje são obra do golpismo e da aposta política no "quanto pior melhor", que instabiliza o país desde a eleição.

Acabamos de firmar um acordo com os governadores para alongar o prazo das dívidas estaduais, garantindo um alívio às contas dos Estados neste momento de dificuldades. Isto é muito importante, pois diminuirá os riscos de atrasos de pagamentos do funcionalismo, permitirá a continuidade de serviços fundamentais para a população e até mesmo a retomada ou aceleração de obras.

Enviei ao Congresso uma proposta para ampliar os recursos disponíveis para gastos fundamentais, em especial na área de saúde e educação, e para dar sequência a obras que estão em andamento e a investimentos na área de defesa, fundamentais para nosso futuro. Esta proposta e a renegociação da dívida dos governos estaduais terão, juntas, impacto suficiente para gerar 1 ponto percentual de crescimento no PIB do país.

Tudo isso já está em curso. Sei que precisamos fazer muito mais e, vencida esta batalha contra o golpe, proponho a construção de um pacto nacional.

Proponho um pacto que envolva todos os segmentos da sociedade –todos, sem exceção– para construirmos novas propostas para a retomada do desenvolvimento do Brasil. Propostas que devem ter como premissas a continuidade dos programas sociais e o respeito aos direitos de todos os cidadãos.

O futuro do Brasil está na inclusão social que dinamiza a economia e aprofunda a democracia. Entre as propostas de futuro, faço questão de destacar a necessária e inadiável reforma política, para aumentar a representatividade de nosso sistema, cortar a raiz da corrupção política e democratizar e tornar mais transparente a atividade política.

Faço um apelo aos brasileiros que estarão nas ruas, mobilizados, nos próximos dias, até que o golpe de estado seja derrotado. Acompanhem os acontecimentos com atenção e, sobretudo, com calma e em paz. Peço calma e paz a todos –aos que são contra mim e aos que estão comigo e contra o golpe.

Peço aos deputados federais de todos os Estados e de todas as agremiações políticas, sem distinção ideológica que, no domingo, tomem posição clara em defesa da democracia e da legalidade.

Desejo que suas consciências os aconselhem a votar contra o golpe, contra a interrupção de um mandato conferido pelo povo e contra os enormes riscos que a derrubada de um governo legítimo pode causar. Presto homenagem aos parlamentares de todos os partidos que estão contra o golpe. Chamo à reflexão aqueles que ainda relutam em cerrar fileiras contra o impeachment.

A história, que fará nosso julgamento definitivo, vai honrar a biografia de vocês, tanto quanto vocês estarão honrando seu país ao votar contra um impeachment ilegal. Quem defende a democracia nunca se arrepende.

A democracia é sempre o lado certo da história.

Dilma Rousseff, é presidenta da República Federativa do Brasil
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Não dá pra confiar no Congresso. Às ruas!




Na manhã desta sexta-feira (15), quando o correntista suíço Eduardo Cunha deu início à vergonhosa sessão pelo impeachment da presidenta Dilma, os movimentos sociais foram às ruas contra o "golpe dos corruptos". Trabalhadores rurais bloquearam estradas em vários Estados; lideranças populares ocuparam ruas e praças nas capitais; teve até greve dos motoristas e cobradores de ônibus em Salvador (BA). Tudo indica que estas ações vão crescer ainda mais até domingo, data prevista para a votação na Câmara Federal. Os movimentos sociais sabem que não podem confiar nos "nobres deputados" — alvos da sedução da mídia e do balcão de negócios da quadrilha que deseja assaltar o Palácio do Planalto.

Nos últimos dias, a imprensa golpista tentou criar o clima do já ganhou, apostando no efeito manada para atrair os parlamentares vacilantes. As emissoras de tevê, principalmente a Globo, só exibem as versões favoráveis ao impeachment — o espaço para o contraditório é quase inexistente. Na internet, os sites dos impérios midiáticos apresentam gráficos com o número de deputados que votarão pelo golpe — se bobear já seriam mais de 513 parlamentares. Já nos bastidores, o traidor Michel Temer, o correntista suíço Eduardo Cunha e os caciques demotucanos montaram um balcão de negócios com promessas para os fisiológicos - inclusive de se livrarem de denúncias por corrupção.

Esta violenta pressão teve efeitos. Partidos da base governista — como o PSD de Gilberto Kassab e o PP de Ciro Nogueira — anunciaram nesta semana que fecharam questão em favor do impeachment. Antes satanizados pela imprensa, estas siglas agora são elogiadas por seus "gestos de coragem". Estas decisões, contudo, não garantem o voto golpista de todos os deputados destas legendas. "Não haverá punição para aqueles parlamentares não seguirem a orientação da sigla", já antecipou Ciro Nogueira. A própria Folha, que não esconde sua torcida pelo golpe, revela que "o entorno do ex-presidente Lula contabilizava 14 votos de deputados do PP contra o impeachment". Outros quatro estariam indecisos!

A mesma situação é vivenciada pelo PSD. Por 30 votos a 8, a bancada da sigla decidiu desembarcar do governo e votar pela destituição de Dilma. Mas não há consenso entre os deputados, conforme já alertou o ministro Gilberto Kassab. Em outras legendas menores, o cenário também é conturbado. Mesmo assim, a imprensa golpista tenta vender a imagem de que o impeachment já está aprovado e até especula sobre o futuro ministério do traidor trapalhão Michel Temer. 

No outro extremo, o governo e os partidos de esquerda afirmam que já reuniram o número necessário de parlamentares para rejeitar o golpe. Fala-se em 184 deputados - quando seriam precisos 172 votos. Até a pesquisa Datafolha divulgada na semana passada concluiu que o "impeachment de Dilma não passa no plenário da Câmara". Os golpistas teriam 60% dos votos. "Considerando o total de 513 votantes, contando com o presidente Eduardo Cunha, o processo de impeachment teria 308 votos, — 34 a menos que os 342 necessários (67% da Câmara) para que o processo seja levado ao Senado". A pesquisa, porém, já foi arquivada pela própria famiglia Frias, dona do instituto e da Folha.

Diante deste quadro de incertezas, traições e manipulações, não dá mesmo para confiar no Congresso. Daí a justa decisão dos movimentos sociais de ocupar as ruas e aumentar a pressão. Quanto mais protestos ocorrerem até domingo, melhores são as chances de se evitar um duro e covarde golpe na democracia brasileira.

Altamiro Borges
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Pronunciamento de Dilma Rousseff sobre o golpe


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