10 de abr de 2016

Jornalista informou Janot sobre fundação ligada a Aécio Neves em Liechtenstein em março de 2015; revista Época escondeu o assunto por 3 anos e quatro meses

Aécio e a irmã Andréa, acusada de ameaçar prender jornalista caso ele publicasse a denúncia; Vaduz, em
Liechtenstein, também era sede da Sanud, empresa de fachada de Ricardo Teixeira; Aécio de mãos dadas
com a mãe e ao lado da bilionária Angela Gutierrez, uma das herdeiras da empreiteira Andrade Gutierrez
Neste momento, certamente, milhares de brasileiros gostariam de perguntar ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot:

1) Por que apesar de o senador Aécio Neves, presidente Nacional do PSDB, ter sido citado por vários delatores na Operação Lava Jato, o senhor até hoje não abriu nenhum inquérito para investigá-lo?

2) Por que tamanha inação da PGR em relação ao seu conterrâneo tucano, considerando o enorme passivo judicial dele, guardado nas gavetas do Ministério Público e do Tribunal de Justiça de Minas Gerais?

Entre esses brasileiros, está o jornalista mineiro Marco Aurélio Flores Carone, que editava o site NovoJornal, onde publicava denúncias sobre os tucanos mineiros, especialmente Aécio, que governou Minas de 2003 a 2010.

Em 20 de janeiro de 2014, Carone foi preso. Seu jornal literalmente saqueado pela polícia de Minas: computadores, pen-drives, impressoras e documentos apreendidos sequer foram relacionados.

Ficou encarcerado até 4 de novembro de 2014, no complexo penitenciário segurança máxima Nélson Hungria, em Contagem, região metropolitana de BH.

Detalhe: nos três últimos meses, permaneceu incomunicável.


Mas não foi apenas por causa desses dois escândalos.

“Minha prisão teve a ver não só com denúncias anteriores, mas principalmente com as que eu iria fazer na sequência; uma delas era justamente sobre a Operação Norbert e a conta da família de Aécio no paraíso fiscal de Liechtenstein”, denuncia Carone ao Viomundo.

“Aécio, a mãe, dona Inês Maria, a irmã, Andréa, tinham conhecimento da matéria, pois haviam sido consultados pelo Novojornal, para dar as suas versões das denúncias que iríamos publicar”, prossegue.

“O procurador-geral da República, doutor Rodrigo Janot, sabe disso há mais de um ano”, frisa o jornalista. “Em notificação (na íntegra, ao final) que lhe enviei em 23 de março de 2015, dou os detalhes.”

DELAÇÃO DE DELCÍDIO: FURNAS E BENEFICIÁRIO DE CONTA EM PARAÍSO FISCAL

Em delação premiada homologada pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF) e divulgada em 15 de março de 2016, Delcídio do Amaral, ex-líder do governo Dilma no Senado, trouxe o senador Aécio Neves (PSDB-MG) para o centro da Lava Jato.

Delcídio fez duas acusações.


O Viomundo denunciou esse esquema, bem como a Lista de Furnas, que sustentou a campanha eleitoral dos tucanos de 2002. Por exemplo, aqui, aqui, aqui e aqui.


Janot e o seu antecessor na PGR, Roberto Gurgel, receberam diversas representações de parlamentares de Minas Gerais, pedindo-lhes que investigasse as denúncias.



Menos de 24 horas depois, a revista Época publicou reportagem de Diego Escosteguy a respeito: Documentos revelam que doleiro abriu conta secreta da família de Aécio Neves em Liechtenstein.


Aécio - conta em inglês beneficiário
De acordo com documento acima, publicado por Época, dona Inês Maria Neves Faria, mãe de Aécio, é a principal beneficiária da Fundação Bogart & Taylor, no Banco LGT, em Liechtenstein.

Em caso de falecimento, 100% dos seus direitos passariam para o filho Aécio Neves.

Em caso de Aécio morrer, 50% iriam para a sua filha Gabriela Falcão Neves Cunha, para sua irmã Andréa Neves Cunha caberiam 25% e os outros 25% para Ângela Neves Cunha, a então esposa.

De pronto, o perspicaz Fernando Brito observou no Tijolaço:

Pela extensão e riqueza de detalhes da matéria publicada esta manhã pela Época, detalhando aos escaninhos da conta de uma fundação “fantasma”, a Bogart e Taylor, no banco LGT, do principado de Liechtenstein, um paraíso fiscal europeu, não foi escrita de ontem para hoje.

Estava pronta, apenas decidiu-se adaptar e publicar.

Até porque o assunto não é novidade: Luís Nassif o publicou em janeiro de 2015. Há mais de um ano, portanto.

Bingo. Bingo. Bingo.

Em 2 de janeiro de 2015, em A pá de cal na carreira política de Aécio, Nassif publicou em primeira mão que a família de Aécio Neves havia sido pega na Operação Norbert, da Polícia Federal (PF).

Deflagrada em 8 de fevereiro de 2007 para apurar denúncias de lavagem de dinheiro, a PF fez busca e apreensão no escritório e na residência do casal de doleiros Norbert Muller (daí o nome da operação) e Christine Puschmann, na cidade do Rio de Janeiro.


(…) os procuradores encontraram na mesa dos doleiros uma procuração em alemão aguardando a assinatura de Inês Maria, uma das sócias da holding Fundação Bogart & Taylor — que abriu uma offshore no Ducado de Liechtenstein.

Os procuradores avançaram as investigações e constataram que a holding estava em nome de parentes de Aécio Neves: a mãe Inês Maria, a irmã Andréa, a esposa e a filha.

Desde o final de 2012, a Época sabia disso — e muito mais! —, mas nada publicou até 16 de março de 2016, após a delação de Delcídio.

Foram três anos e quatro meses na gaveta do “não vem ao caso”, da revista semanal da Globo.

OPERAÇÃO NORBERT: CASO DE AÉCIO É O ÚNICO AINDA NÃO JULGADO

A Operação Norbert foi conduzida pelos procuradores Marcelo Miller, Fabio Magrinelli e José Schetino.

Em meio ao papelório dos doleiros, eles encontraram documentos que conduziram a duas offshores em paraísos fiscais do desembargador aposentado Manoel Carpena Amorim, o ex-todo poderoso corregedor do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ).

Entre 2005 e 2006, sem aparecer como o verdadeiro dono das contas, Carpena depositou US$ 478 mil no LGT Bank (principado de Liechtenstein) e no UBS Bank (Suíça). Confira aqui e aqui.  Tanto que não declarou os valores ao Banco Central e à Receita Federal no Brasil.

Com o desenrolar dos trabalhos, o procuradores tiveram outra grande surpresa: a Fundação Bogart & Taylor, que abriu uma offshore em Lichtenstein. Estava em nome de parentes de Aécio Neves: a mãe Inês Maria, a irmã Andréa, a então esposa e a filha.

Devido a essas descobertas, eles desmembraram o inquérito principal em três processos:

1) o dos doleiros, tocado pelos procuradores Marcelo Miller, Fabio Magrinelli e José Schetino.

2) o do desembargador Amorim Carpena, que ficou a cargo do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro;

3) o caso da família de Aécio Neves, àquela altura das investigações já senador, foi encaminhado para o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, que o deixou na gaveta, como “herança”, para Janot.

O desembargador e os doleiros já foram julgados e declarados culpados.


Em 20 de abril de 2009, os procuradores denunciaram três integrantes da família do doleiro Norbert Muller, que falecera recentemente: a viúva Christine Puschmann e as filhas Christine Muller e Ingrid Maria Muller.

Em 10 de abril de 2013, elas foram condenadas a multa pecuniária e a reclusão: Christine Puschmann pegou quatro anos, e as filhas, dois anos e quatro meses. Mas, como sempre para este tipo de público, em regime aberto.

O único caso não julgado é o da família de Aécio, apesar de decorridos nove anos da deflagração de Operação Norbert.

Em 23 de março de 2015, Marco Aurélio Carone protocolou em Belo Horizonte, no Ministério Público Federal (MPF) em Minas Gerais, uma notificação (na íntegra, ao final) ao PGR Rodrigo Janot.


Notificação - protocolo-003O jornalista-notificante põe o dedo na ferida:

“Senhor Procurador-Geral chega a assustar o fato da operadora do esquema criminoso e um desembargador já terem sido investigados, processados, julgados e condenados, enquanto o senador Aécio Neves e seus familiares permanecem impunes e intocados”.

Além de censurado — o site NovoJornal continua fora do ar —, Carone permaneceu preso por nove meses e 20 dias.


“Meu crime: Publicar matérias que denunciavam o esquema criminoso e corrupto montado por Aécio em Minas Gerais”.

“ANDRÉA CHEGOU A SUGERIR QUE EU FIZESSE COMO A REVISTA ÉPOCA EM 2012”

Na notificação a Janot, Carone relata o que aconteceu nos dias que antecederam ao seu encarceramento:

O notificante foi preso preventivamente, em janeiro de 2014, a pedido do MPMG, permanecendo nesta condição por nove meses e vinte dias na Penitenciaria de Segurança Máxima Nélson Hungria no município de Contagem, Minas Gerais, tudo, sem qualquer condenação. A justificativa: “manutenção da ordem pública e no intuito de evitar que fossem publicadas matérias que poderiam interferir nas eleições presidenciais”. Foi solto três dias após a eleição por: “excesso de prazo” (veja PS 1 de Viomundo).

Dez dias antes de sua prisão, surpreso, o requerente foi visitado pela senhora Andréa Neves, irmã do Senador Aécio Neves, em seu portal jornalístico. O intuito era “determinar” que diversas matérias, já pautadas, não deveriam ser publicadas. Os temas já eram de seu conhecimento uma vez que sua mãe, sua filha, seu irmão e sua sobrinha já tinham sido consultados por Novojornal para dar suas versões sobre os fatos que seriam noticiados.

Não era a primeira vez que a senhora Andréa tentava interferir na pauta do Novojornal. A conversa foi áspera, como nas demais vezes foi lhe informado que as matérias seriam publicadas, pois tínhamos toda documentação que comprovavam os fatos. Oferecendo a mesma a oportunidade de apresentar sua versão. Na ocasião a mesma disse textualmente: “você não vai publicar estas matérias, vou ficar livre de você”. “Você agora está mexendo com minha família”.

Dois dias depois o notificante recebeu em seu portal eletrônico a visita de um desembargador do TJMG [Veja PS2 do Viomundo], fato sob análise do CNJ, informando-lhe que se insistisse na publicação das matérias seria preso. Como tais ameaças eram comuns desde 2008, o notificante deu pouca importância. Porém, os fatos ocorridos posteriormente comprovam que o desembargador estava certo.

Uma das matérias que seriam publicadas relatava o ocorrido na “Operação Norbert” da Polícia Federal, Processo nº 503145-62.2005.4.02.5101 (2005.51.01.503145-3) (2005.51.01.503175-1) (2005.51.01.538314-3), (2009.51.01.810379-1 Inquérito Policial nº 12-208/08-DELEFIN/SR/SP), 2007.51.01.809024-6 Inquérito Policial nº 8/2007-DFIN/DECOR/DPF, (2007.51.01.807393-5), tudo conforme sentença do Juiz Federal substituto Dr. Tiago Pereira Macaciel.

“Lembro como se fosse hoje. Dez dias antes de eu ser preso, Andréa Neves foi-me visitar, de surpresa, no NovoJornal. Ela chegou a sugerir que deveríamos adotar o procedimento da revista Época, que, após ter acesso ao inquérito e ao processo, não publicou nada sobre a sua família”, reforça Carone.

“A sugestão da Andréa ocorreu após eu lhe mostrar que minha matéria tinha fundamentação documental”, relembra. “Mostrei que tinha a mesma documentação que a Justiça havia disponibilizado para a revista Época, no final de 2012.”

“Neste momento, a Andréa falou que, assim como ocorrera com a revista Época, eu não deveria noticiar nada sobre sua família e a conta no paraíso fiscal de Liechtenstein”, expõe Carone. “Foi uma conversa muito áspera.”

Carone expõe isso também a Janot na notificação:

Como demonstrado após a decisão do juiz da 5ª Vara Criminal, liberando cópia da ação para Revista Época, e a confissão da mesma que já tivera acesso ao inquérito da Polícia Federal, não havia nenhuma ilicitude ou impedimento para que o Novojornal publicasse a matéria sobre a “Operação Norbert” da Polícia Federal.

A senhora Andréa no encontro com o notificante antes de sua prisão, chegou a argumentar que deveríamos adotar o procedimento da Revista Época que, após ter acesso ao inquérito e ao processo, nada publicou. Sendo-lhe informado que publicaríamos em 30 janeiro de 2014, toda a lista dos usuários do esquema criminoso entre eles o Senador Aécio Neves, sua mãe, irmã, filha e sobrinha.

Na notificação, Carone inclui a decisão da Justiça (na íntegra, ao final), de 6 de outubro de 2012, que disponibilizou à Época toda a cópia da ação referente à Operação Norbert. Abaixo, apenas uns trechos:


época 4AÉCIO NEVES NÃO RESPONDE AO VIOMUNDO

Nós perguntamos ao senador Aécio Neves, via sua assessoria de imprensa:

1) Sua mãe, o senhor, sua irmã, sua ex-esposa e filha são beneficiários da conta da Bogart &Taylor, no banco LGT, no paraíso fiscal de Liechtenstein?

2) O senhor disse à revista Época que o Ministério Público Federal (MPF) e a PGR arquivaram o caso. Por favor, nos envie os documentos comprovando isso.

Não respondeu. Insistimos. Nada.

PGR AO VIOMUNDO SOBRE AÉCIO-LIECHTENSTEIN E NOTIFICAÇÃO DE CARONE: “EM ANÁLISE”

Nós perguntamos também ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, via assessoria de imprensa da PGR:

1) A PGR já avaliou o caso da conta da família do senador Aécio Neves no paraíso fiscal de Liechtenstein e da qual ele é beneficiário de 100% em caso de falecimento da mãe?

2) Se sim, qual e por quê?

3) Se ainda não, por quê?

4) Em 23 de março de 2015, Marco Aurélio Flores Carone enviou ao senhor procurador-geral uma notificação referente à Operação Norbert e a conta da família de Aécio Neves no paraíso fiscal de Liechtenstein. Na PGR, foi aberto um procedimento em 2016, e a notificação transformada na Notícia de Fato nº 1.00.000.004160/2016-48. Como está o andamento dela?

Resposta da assessoria de imprensa da PGR ao Viomundo:

Sobre as perguntas 1, 2 e 3 informamos que, conforme solicitação do PGR, a delação do senador Delcídio do Amaral foi fatiada em 19 partes. Dessa forma, cada fato citado por ele será analisado em separado. Como a análise ainda está em curso, não podemos dar qualquer detalhe sobre os procedimentos.

Sobre a Notícia de Fato, informamos que ela também está em análise no gabinete do procurador-geral da República e não podemos fornecer outros detalhes.

CARONE A JANOT: “SOBRE AÉCIO, O MINISTÉRIO PÚBLICO NADA INVESTIGA OU DENUNCIA”

Cada vez mais se evidencia que o procurador-geral Rodrigo Janot age politicamente e não juridicamente, como o seu cargo exige. Blinda de forma escancarada os tucanos, em especial Aécio Neves, tal qual fez o ex-PGR Roberto Gurgel.

“Essa inércia é uma constante em relação a Aécio Neves”, diz Carone, enquanto relê a notificação a Janot. “Sobre ele, o Ministério Público nada investiga ou denuncia. E os poucos procuradores e promotores que cumprem suas atribuições, frustram-se diante da paralisação destes procedimentos junto à PGR.”

Carone pede a Janot que denuncie Aécio com base no que foi apurado pela Operação Norbert.

Aécio e Andréa, quando questionados sobre a origem dos seus bens, costumam dizer: “tudo foi dado pelo Gilberto Faria a minha mãe”.

Trata-se do falecido banqueiro Gilberto Faria, ex-marido de dona Inês Maria e ex-controlador do Banco Bandeirantes, envolvido numa grande fraude bancária na década de 1990.

De 1995 a 1997, o Banco Bandeirantes retirou ilegalmente valores das contas-correntes de seus clientes a título de “juros”, “seguros”, “diversos”, só que eram tarifas falsas.

Em valores de 1999, gerou um prejuízo de R$ 115 milhões a seus clientes. Em valores atualizados, algo em torno de R$ 336 milhões, se considerarmos o IPC-A (IBGE), o índice oficial de inflação. Pelo IGP-M (FGV), seriam cerca de R$ 417 milhões.

“Caso o doutor Janot entenda que a conta em Liechtenstein teria sido aberta por Gilberto Faria, que determine o bloqueio dos bens do senador Aécio e seus familiares que tenham como origem, transferência, doação ou herança do falecido banqueiro”, pede Carone ao PGR. “É pagar os prejudicados na fraude praticada no Banco Bandeirantes, do qual Gilberto Faria era o controlador.”

PS1 do Viomundo: Marco Aurélio Carone foi solto exatamente três dias após o segundo turno da eleição de 2014, quando o tucano Aécio Neves disputou a presidência com Dilma Rousseff e perdeu.

PS 2 do Viomundo: O desembargador Joaquim Herculano, na época presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, foi quem procurou Carone pouco antes de o jornalista ser preso. Após o PSDB perder o governo de Minas Gerais, em 2014, Herculano aposentou-se aos 64 anos. Portanto, seis anos antes da idade-limite. Segundo alguns colegas de tribunal, tal atitude teria sido para evitar que seus atos, praticados no governo do PSDB, continuassem a ser investigados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ).



Conceição Lemes
No Viomundo
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A inépcia sorridente de Mariana Godoy na entrevista com Mírian Dutra


A entrevista com Mírian Dutra mostrou o seguinte: Mariana Godoy tem que se esforçar muito para se tornar uma boa entrevistadora. (assista aqui)

Não basta rir o tempo todo. Melhor: você não pode rir o tempo todo. Toda entrevista que se preze deve ter uma dose de tensão e de atrito. Ou se transforma numa conversa de comadres, ou compadres, ao estilo da Caras.

Como está hoje, Mariana Godoy é uma versão feminina de Roberto Dávila, o Risadinha. É muito pouco.

Pesquise as grandes entrevistas da história e você vai encontrar, sempre, momentos de antagonismo e confronto. Isso é jornalismo.

Uma das maiores referências em entrevistas foi a Playboy americana. Numa entrevista clássica da revista, com o então emergente Robert de Niro, o autor contou que a certa altura o entrevistado pegou o gravador e espatifou na parede.

A passividade simpática e sorridente não leva a nada no jornalismo.

Foi assim que Mariana se comportou diante de Mírian Dutra. Em consequência disso, ela não soube se defender — e muito menos ao espectador — das inumeráveis mentiras que a ex de FHC contou sem nenhuma cerimônia.

Mírian disse, por exemplo, que não conversou com site nenhum. Ora, ele teve longas conversas — documentadas — com Joaquim Carvalho, do DCM, tanto pelo telefone como pessoalmente, na Espanha.

Nos contatos com Joaquim, Mírian fez uma série de denúncias contra FHC e a Globo. Negou tudo ao falar com Mariana Godoy, provavelmente por negociações com ambos, Globo e FHC.

Mariana teve várias oportunidades de expor as inconsistências de Mírian. Na retaguarda do programa, um jornalista assessora Mariana recolhendo perguntas que chegavam pelo Twitter.

Leitores nossos estranharam quando Mírian negou ter falado conosco. Comunicaram sua estranheza, pelo Twitter, ao programa.

Nós mesmos enviamos um vídeo em que Joaquim conversa com Mírian na Espanha.

Nossos leitores e nós fomos ignorados. Mírian Dutra pôde, calmamente, continuar a mentir.

Mariana Godoy tem que aprender que quem perde com esse tipo de coisa é o espectador — e ela mesma, em sua imagem como jornalista.

As duas, entrevistada e entrevistadora, terminaram o programa dando beijinhos. Mírian recebeu até uma lembrança — tolíssima, aliás. Mariana lhe passou uma borboleta, símbolo da transformação, ou algo que o valha.

Que transformação?

Para quem, como nós do DCM, conhece a história de Mírian, ficou clara a farsa que ela montou no programa.

FHC, por tudo que se sabe, foi um péssimo namorado para Mírian. O clássico canalha.

Mas Mírian, pelo que demonstrou na entrevista para Mariana Godoy, não ficou atrás.

Formaram um dos piores casais da história da República. Mereceram um ao outro.

Quanto a Mariana Godoy, ela perdeu uma grande chance de jogar luzes sobre um episódio de imenso interesse público — o romance entre Mírian e FHC.

Para avançar como entrevistadora, ela vai ter que aprender a rir menos e apertar mais o entrevistado.

Paulo Nogueira
No DCM
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Jorge Pontual, repórter da Globo, diz que mentir é liberdade de expressão


Desde 1998, Jorge Pontual é repórter da TV Globo baseado em Nova Iorque. Ele também faz matérias para o programa Sem Fronteiras e participa da equipe de repórteres do programa Milênio, ambos da GloboNews.

No domingo, dia 10/4, Pontual tuitou sua opinião sobre liberdade de expressão e impeachment de Dilma, que, com certeza, é aprovada pelos seus patrões (leia abaixo). Com sua confissão, fica claro que, com a pregação diária de desesperança, medo e ódio, a Rede Globo insufla malucos e fascistas a expressarem seus preconceitos e covardias de forma aberta e descarada. O que Pontual fala é que não há ética nenhuma no que ele e seus colegas fazem nas organizações da famiglia Marinho. Portanto, a Globo não faz jornalismo. Ela mente, porque ela defende que liberdade de expressão lhe dá também o direito de mentir. Isto é a Globo e a mídia brasileira.

Jorge_Pontual04_Twitter_Mentir
Jorge_Pontual02_Twitter_Glenn
Depois da besteira que fez, Pontual “trancou” sua página no Twitter.
Jorge_Pontual03_Twitter

Do Blog do Luiz Müller
No Limpinho & Cheiroso
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CPI dos Crimes Cibernéticos põe país a reboque do autoritarismo 2

A CPI dos Crimes Cibernéticos, instalada em 17 de julho de 2015 pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, apresentou em seu relatório final uma série de proposições que colocam em risco as conquistas do Marco Civil da Internet no Brasil. Também retoma pontos polêmicos e perigosos do projeto de lei conhecido como AI-5 Digital, que havia sido derrotado na legislatura passada.

Entre as propostas da CPI, a mais grave para a liberdade de expressão no país é a que modifica o Marco Civil da Internet, determinando a retirada de conteúdos que atentem contra a honra sem ordem judicial. Caso tal proposta se torne lei, estaremos implementando um processo distribuído de censura na internet.

Sites, redes sociais, blogs serão responsabilizados por conteúdos postados por terceiros em suas páginas. Ao serem notificados por quem se sentir ofendido por alguma publicação, os provedores de aplicação deverão retirar o conteúdo em 48 horas. Imagine a quantidade de denúncias vazias que são promovidas por políticos ou corporações que querem evitar as críticas à sua atuação.

Ao retirar a exigência de ordem judicial, perde-se o filtro de uma terceira parte que analisa, por exemplo, se uma crítica a Eduardo Cunha é ou não injuriosa. Assim, o deputado poderá usar esse dispositivo para ameaçar todos que o criticam, mesmo sem que pratiquem ataque à sua honra.

Outra proposição da CPI atenta não somente contra a liberdade de expressão como também contra a liberdade de criação tecnológica. Nela está a perigosa ideia de bloqueio de aplicações existentes na internet. Esse procedimento permitirá que um juiz, por exemplo, mande proibir o acesso às redes P2P (peer-to-peer) ou coibir o acesso às novas tecnologias e implantar um obscurantismo digital inaceitável para um país que pretende avançar na era informacional.

Sem medir as consequências de um novo tipo penal, a CPI cria o crime de "acesso indevido a sistema informatizado". Com uma redação genérica, o esse projeto permite uma elasticidade que é incompatível com a natureza de uma lei criminal.

Nela poderia se enquadrar atividades de empresas de segurança que desenvolvem ferramentas de testes de redes e de sistemas computacionais. Além disso, desconsidera que quem mais invade a máquina das pessoas sem autorização expressa são empresas de tracking e de captura de dados para finalidades comerciais. Bancos, mecanismos de busca e redes sociais enviam cookies persistentes para as máquinas dos usuários. A CPI diz pouco sobre isso.

Ademais, o relatório da CPI propõe ao Congresso outro projeto que permitirá incluir no Marco Civil o endereço de IP como dado cadastral. Desse modo, qualquer policial poderá exigir dos provedores a vinculação de um determinado IP a uma identidade civil. Também poderá obter toda a navegação que a pessoa realizou na internet. Sem ordem judicial, isso presta-se mais ao autoritarismo, à chantagem e à perseguição de cidadãos comuns. É inaceitável que as informações sobre o uso da internet sejam obtidas sem uma ordem judicial fundamentada.

A CPI dos Crimes Cibernéticos retrocede em relação ao Marco Civil e coloca o Brasil novamente a reboque dos interesses vigilantistas da política norte-americana de destruição de direitos em razão de um suposto combate ao terrorismo. Pesquisadores de redes digitais, ativistas da democratização das comunicações e juristas apontam que o relatório proposto pela CPI cria medidas de exceção inaceitáveis para uma sociedade democrática. Não é destruindo direitos que defenderemos nossa sociedade contra qualquer tipo de crime.

Sergio Amadeu da Silveira
No Uol
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Fama de "herói" de Sergio Moro cai de 90% para 60%, diz pesquisa

A pesquisa por monitoramento de redes sociais foi apresentada à Fiesp e noticiada pela Veja, que assumiu: Moro tinha "embates com Lula"


A popularidade do juiz Sergio Moro, que comanda as investigações da Operação Lava Jato no Paraná, caiu 30 pontos percentuais. É o que revela uma pesquisa apresentada à Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que se autodeclarou a favor do impeachment de Dilma Rousseff, por meio de seu presidente, Paulo Skaf (PMDB-SP).

O anúncio do levantamento interno apresentado apenas à Federação foi feito pelo radar da revista Veja. A jornalista Vera Magalhães disse que a pesquisa foi realizada por uma empresa de monitoramento de redes sociais, mostrando que "a imagem de herói" do juiz da Lava Jato sofreu abalos.

Pela TV Veja, o portal traz como uma das justificativas para a diminuição de 90% para menos de 60% de "apoio incondicional ao coordenador da Lava Jato" o fato de que Sergio Moro teve "embates com o ex-presidente Lula", admitiu a Veja, assim, o caráter político das investigações no Paraná.

A pesquisa, que também incluiu outros personagens, elenca que o desgaste de Moro aparece relacionado a críticas a episódios como a condução coercitiva do ex-presidente e o posterior grampo de Lula, incluindo políticos com foro privilegiado, fora da alçada do juiz de primeira instância.

No GGN
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Datafolha: a conta do fiasco do PSDB pode ser enviada a Aécio Neves

“É inaceitável o que está acontecendo”
A conta do fracasso tucano na cavalgada do golpe deve ser enviada ao derrotado Aécio Neves, mas todos eles poderiam se coçar para pagar, inclusive o decano Fernando Henrique Cardoso.

O último Datafolha aponta que os principais nomes do partido — Aécio, Serra e Alckmin — despencaram nas intenções de voto.

Serra faz 11%, enquanto a dupla Lula e Marina fica com 22%. Aécio aparece com 17%, 9 pontos percentuais a menos do que em relação aos 26% de dezembro de 2015. Geraldo Alckmin foi de 14% a 9% no mesmo período.

Jair Bolsonaro aparece com 8%, empatado tecnicamente com Ciro Gomes (7%).

Quando se juntam os três tucanos na mesma simulação, a coisa se complica mais: Lula 21%, Marina Silva com 16% e Aécio Neves com 12%. Alckmin e Serra com mirrados 5%.

Desde outubro de 2014, quando perdeu por uma margem apertada, Aécio apostou na instabilidade e no atalho do impeachment. Apanhou das urnas e, em seguida, apanharia da opinião pública com suas oito citações na Lava Jato. Sumiram 70 mil seguidores do Facebook.

O deputado pitbull Carlos Sampaio se pendurou em Eduardo Cunha, com o beneplácito de Aécio, mesmo quando Cunha já tinha sido fotografado com a mão ensanguentada e cheia de dinheiro escondido na Suíça.

Sem qualquer sinal de grandeza, FHC pregou incialmente a renúncia de Dilma até virar um papagaio do impedimento. No meio do caminho, não emplacou sequer seu candidato à prefeitura de São Paulo.

Sem deixar Dilma governar, aliando-se ao bandido da ocasião, eles colhem os frutos da criminalização do PT, da aposta na crise, da demagogia e do apoio a grupelhos fascistoides como Revoltados online, MBL, Vem Pra Rua e outros.

Montados nos kataguiris, conseguiram ser expulsos da Avenida Paulista. A estratégia abriu espaço para o crescimento de nulidades direitistas assumidas como Jair Bolsonaro.

O PSBD paga o karma de uma guinada canalha. De grande esperança branca, Aécio é hoje o criador de memes mais famoso do Twitter. O que está acontecendo, ele sabe, é inaceitável.

Kiko Nogueira
No DCM
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Entrevista com Olívio Dutra


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Entrevista com Tarso Genro


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Bárbara Gancia desabafa


Em ato no Sindicato dos Jornalistas contra o Golpe e pela Democracia, a jornalista Bárbara Gancia falou sobre "o momento gravíssimo que estamos vivendo", contou os bastidores de sua demissão da Band News FM, falou da importância de buscar informação em veículos alternativos.

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Veja prevê derrota do golpe e culpa Cunha


A revista Veja, agora, conduzida pelo jornalista André Petry, publica um surpreendente editorial neste fim de semana, em que aponta os seguintes elementos:

1) O impeachment não passará na Câmara dos Deputados.

2) Não há lisura no processo que vem sendo conduzido na casa.

3) Eduardo Cunha abriu o processo por vingança, confirmando o que vem sendo dito tanto pela presidente Dilma Rousseff como pelo ministro José Eduardo Cardozo.

Eis alguns trechos:
"Desmoralizado por propinas e contas secretas na Suíça, Cunha com sua presença, contamina a lisura do impeachment."

"Faz parecer, como alegam petistas e sequazes, que a corrupção é apenas um pretexto para tirar Dilma do poder. Pior: deu ao governo a chance de alegar, com razão, que o processo de impeachment só foi instalado na Câmara por um ato de 'vingança' de Cunha. Brasília inteira sabe que, de fato, o deputado se revoltou com a recusa do PT em preservar seu pescoço da guilhotina na comissão de ética."

"Cunha é o aliado errado. Se, por algum infortúnio, o impeachment de Dilma não prevalecer na Câmara, os políticos que aceitaram a aliança com Cunha talvez tenham algo a dizer aos milhões de cidadãos que lamentarão a derrota".
Veja sabe que o golpe para o qual ela própria contribuiu não passará. E agora busca um culpado.

No 247
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A Mídia, o Mercado, o Dinheiro e o Golpe


Neste vídeo, busco explicar por que a mídia e o "mercado" estão tão interessados no impeachment.

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Macri violó ley y financió su campaña con dinero de empresas delegadas de gobiernos

La ley de financiamiento de Argentina prohíbe el financiamiento de campañas electorales por parte de empresas concesionarias de gobiernos.


El presidente de Argentina, Mauricio Macri, recibió casi 3 millones de pesos (unos 207 mil 300 dólares) como aportes privados para financiar su campaña para las elecciones de 2015.

La ley de financiamiento de Argentina prohíbe que empresas concesionarias de gobiernos aporten dinero a los candidatos, no obstante, la Cámara Nacional Electoral informó recientemente que Macri recibió donaciones de integrantes de compañías, muchos de ellos con altos cargos jerárquicos, así lo informa el sitio web Chequeado.

Especialistas en financiamiento político han coincidido en que el dinero en negro que mueven las campañas en Argentina es mucho mayor al declarado oficialmente, sin embargo, el último proceso electoral de ese país reveló un fenómeno muy llamativo, y es que ni siquiera cerraron las cuentas "en blanco" que los partidos declararon haber gastado.

Con relación a esto, la fuente indica que alrededor de 3 millones de pesos (207 mil 300 dólares) para la campaña de Macri fueron aportados por gerentes y empleados de empresas contratistas del Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires y gobiernos provinciales, un hecho que entra en conflicto con la ley de financiamiento.

El portal web, Chequeado, detalla que al menos 33 integrantes de agencias de publicidad; 20 miembros de empresas de seguridad privada; siete empleados ligados con una constructora y cuatro gerentes de una empresa de higiene urbana, todas vinculadas a la gestión porteña o en provincias, aportaron 2,7 millones de pesos (alrededor de 186 mil 570), en la carrera de Macri hacia la Casa Rosada.

EL DATO: El artículo 15 de la Ley de Financiamiento de Partidos Políticos prohíbe que las alianzas políticas reciban "contribuciones o donaciones de empresas concesionarias de servicios u obras públicas de la Nación, las provincias, los municipios o la Ciudad de Buenos Aires". Dentro del período electoral, el artículo 44 de la misma norma extiende además dicha prohibición a todo tipo de empresas.

Al sumar esta cantidad a los aportes de personas con altos cargos directivos vinculados con empresas, que actualmente no son concesionarias de gobiernos, el monto recibido por la fórmula de Mauricio Macri alcanza al menos los cinco millones de pesos.

Asimismo, chequeado.com añade que a pesar de las pruebas aportadas por el Cuerpo de Auditores de la Nación en diferentes casos, hasta el momento ningún juez o fiscal federal ha avanzado en forma significativa en la investigación de partidos o candidatos por este tipo de irregularidades.

Aportes detallados

El sitio web realizó un análisis detallado de los 849 nombres de los donantes que figuran en el informe financiero, donde se especifica los montos declarados por Macri en las elecciones primarias de Argentina:

— Seguridad privada: la fórmula Macri declaró haber recibido 875 mil pesos (unos 60 mil 462 dólares) por parte de personas vinculadas con Briefing Security-Impes UTE (unión transitoria de empresas), Murata SA, Verini Security SA y Yusion SRL, empresas de seguridad que desde 2011 se reparten el negocio de la custodia de los edificios públicos porteños.

De los 20 empleados que figuran como aportantes, se destacan ocho de Briefing Security-Impes, todos ellos con altos cargos directivos, que aportaron 320 mil pesos (alrededor de 22 mil 112 dólares).

También figuran siete representantes de la empresa Murata, quienes aportaron 295 mil pesos (unos 20 mil 384 dólares).

— Publicidad: Los empresarios mendocinos Adrián Dalla Torre, Jorge Reale y Roberto Fernando Reale aportaron 285 mil pesos (19 mil 693 dólares) para la campaña de Macri. Son socios en Reale-Dalla Torre Consultores, empresa que creó “la imagen y la marca de la Policía Metropolitana” y además distribuyeron parte de la pauta publicitaria del Gobierno de la Ciudad de Buenos Aires.

Entre los aportantes también se destacan varios gerentes de la empresa Publicidad Sarmiento, ganadora de la licitación del mobiliario urbano porteño, incluyendo nombres como el de Oscar Contreras, gerente de Operaciones; Raúl Menéndez, jefe de Locaciones y Santiago Terranova, socio director, todos ellos con 50 mil pesos cada uno (3 mil 455 dólares).

Al ser consultado por chequeado.com, Raúl Menéndez negó haber puesto plata para la campaña, además, otra de las personas empleadas en Publicidad Sarmiento, que pidió el anonimato por miedo a represalias, confirmó que tampoco hizo el aporte que figura en el informe financiero de campaña.

— Higiene urbana: Cuatro empleados de la firma cordobesa Oscar Scorza Equipos y Servicios SRL, más conocida como Econovo, pusieron 180 mil pesos (12 mil 438 dólares) para la fórmula Macri. De igual manera, Econovo fue contratada en su momento por la empresa estatal Córdoba Recicla Sociedad del Estado (CRESE) para la provisión de camiones de recolección de residuos, negocio que continuó con Lusa y Cotreco, las dos empresas que operan el servicio en la ciudad de Córdoba.

Estos tres grupos de aportantes suman 2 millones 145 mil pesos (148 mil 219 dólares) y representan el 10 por ciento del total de las donaciones privadas que Macri recibió en las elecciones primarias.

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Ciro Gomes: “Convocar novas eleições é um contragolpe, uma marinice”

O ex-ministro Ciro Gomes é mais um alvo da intolerância
política a emergir no País
Se impeachment for aprovado, não haverá governo estável pelos próximos 20 anos, emenda o presidenciável do PDT

Crítico do governo, mas ferrenho opositor do processo de impedimento de Dilma Rousseff, o ex-ministro Ciro Gomes tornou-se mais um alvo da intolerância política. No início de abril, um grupo pró-impeachment usou seu perfil no Facebook para oferecer 1 mil reais a quem hostilizasse o presidenciável do PDT no restaurante em que ele jantava, em São Paulo.

“Esse episódio é o retrato de uma fração muito pequena da sociedade, mas bastante barulhenta, que precisa ser enfrentada”, diz Ciro, em entrevista a CartaCapital. Na avaliação do ex-ministro, não haverá governo estável no Brasil pelos próximos 20 anos, caso o impeachment seja aprovado pelo Congresso.

Ele também rechaça a proposta de convocar novas eleições para presidente, mesmo que o pleito inclua a renovação dos mandatos de deputados e senadores: “Isso é uma pura e simples marinice, um contragolpe com jeitão charmoso de chamar o povo para votar de novo”.

Recentemente, o Movimento Endireita Brasil, pró-impeachment, ofereceu 1 mil reais a quem hostilizasse o senhor em um restaurante e registrasse o ataque em vídeo. Como o senhor qualifica esse ato?

Esse episódio é o retrato de uma fração muito pequena da sociedade, mas bastante barulhenta, que precisa ser enfrentada. O autor dessa proposta provavelmente estava presente no restaurante, mas não teve coragem de me enfrentar. Então ele vai para o anonimato da internet, refúgio dos covardes, e oferece dinheiro para alguém me hostilizar, o que é uma característica do fascista, do cara que detém poder econômico e vai suprir a frouxidão dele com esse tipo de artifício.

Reagi com deboche, até porque o ataque não foi feito pessoalmente. Acho que toda a sociedade brasileira precisa recuperar um princípio da democracia e do Estado de Direito, que é o da legítima defesa. Essa turma acha que pode agredir e insultar qualquer pessoa, como fizeram com o Eduardo Suplicy, que é um homem de bem, como fizeram com o ex-ministro Guido Mantega, dentro de um hospital. Eles partem da premissa que um homem público tem que cumprir certo atributo aristocrático de não exercer a legítima defesa.

Essa é a primeira vez que o senhor torna-se alvo desse tipo de ação?

Diretamente comigo, sim. Outro dia aconteceu com meu irmão (Cid Gomes, ex-governador do Ceará). Ele estava chegando em casa, por volta de 1h30 da madrugada, quando cercaram o carro dele, bateram na lataria, começaram a gritar insultos e palavrões. Minha cunhada ligou chorando, para pedir socorro, e eu fui lá para acudir. É curioso, pois nem eu nem ele estamos ocupando cargo público, é preciso ter clareza. A última vez que fui candidato faz dez anos. Basicamente, a ideia dessa turma é intimidar, fazer coação moral. Isso se alimenta de um analfabetismo político muito sofrido. No fundo, são pessoas que merecem pena, não outra coisa.

Esse tipo de ação é um produto imediato da falta de escrúpulos da grande mídia, a incitar o ódio, casado com problemas da sociedade. Tem muita gente que tem problema com os pais, falta amor em casa, e extravasa esse rancor fora. Uma pessoa bem amada, que tem carinho em casa, não tem esse tipo de comportamento. É intolerante na rua porque é vítima, dentro de casa, da grosseria ou da omissão dos pais, por exemplo.

Caso o processo de impeachment seja aprovado no Congresso, qual é o cenário político que o senhor vislumbra depois?

Se esse golpe for consumado, não vejo mais a possibilidade de um governo estável pelos próximos 20 anos. Repare bem, a generalização da raiva e do ódio se dá por três grandes grupos. O primeiro é composto pelos eleitores frustrados do Aécio Neves, que nunca aceitaram a derrota nas urnas ou a atribuem a uma fraude, a uma mentira da campanha petista, não sem alguma dose de razão.

O segundo grupo é integrado por aqueles que sofrem as consequências da decadência econômica e da recessão, este com razões muito mais objetivas para estar insatisfeito. O terceiro grupo é o que está chocado com a novelização do escândalo pela grande mídia. Mas esses três grupos só se juntam na negação. Não tem moralidade intrínseca, não tem apego à moralidade, tanto que Eduardo Cunha se junta a essa turma na negação.

Essa coalização negativa vai se dissolver nessa dança. Quem assume o poder é alguém vinculado a tudo que mais podre e corrupto há no Brasil. Os problemas econômicos vão se agravar, porque haverá um componente de ilegitimidade do governante e de entreguismo aos interesses internacionais, flagrantemente entranhados nesse assunto, sobretudo quando falamos de petróleo. E o eleitor do Aécio vai ver de longe essa nova frente de governo. Pior: com uma grande parte do País desacreditando na linguagem da democracia e, portanto, sentindo-se autorizado a valer-se da violência e outras linguagens.

Mesmo que consiga derrotar o impeachment, Dilma teria condições de recompor o governo em um ambiente tão conturbado?

Tem toda a condição do mundo. Basicamente, a presidente Dilma Rousseff precisa sinalizar para esse grupo que se sentiu enganado nas últimas eleições, entre eles eu, e buscar uma reconciliação com os grupos sociais e políticos que lhe deram a vitória. Precisa mudar radicalmente os rumos da economia, assumir um compromisso com a produção brasileira, com os trabalhadores do País, e confrontar o que precisa ser confrontado.

Ela pode obter maiorias quando houver mérito das decisões dela, denunciando à população aquilo que for sabotagem de uma fração corrompida do Congresso. Aliás, ela deveria fazer isso hoje, não precisa esperar o desfecho do processo de impeachment.

E o que o senhor acha da ideia de convocar novas eleições?

É um contragolpe, uma marinice. Para isso prosperar, seria preciso aprovar uma emenda à Constituição, e qualquer deputado, senador ou mesmo um cidadão, que se sentir prejudicado pela interrupção dos mandatos, pode ingressar com uma ação direta de inconstitucionalidade junto ao Supremo Tribunal Federal, que seria obrigado a intervir. Claro que é um golpe muito menos enojante, menos repugnante que este pilotado por Michel Temer e Eduardo Cunha, pois entrega ao povo a soberania final. Mas é uma pura e simples marinice, um contragolpe com jeitão charmoso de chamar o povo para votar de novo.

Rodrigo Martins
No CartaCapital
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A sempre suspeita pesquisa Datafolha e suas possíveis leituras


A impressão que dá é que esses números impressionantes estão a gritar para o consórcio golpista formado pela mídia, oposição (agora com Temer e setores do PMDB), Janot, Cunha, Moro e Gilmar Mendes que é preciso mais vigor para prender Lula porque ele, caso concorra, vencerá com folga as eleições de 2018 e a direita poderá amargar mais 8 anos longe do poder, simplesmente por não ter nomes e estar desacreditada.



A maioria dos analistas de política costuma desdenhar das pesquisas do Datafolha quando seus resultados não são favoráveis a seus candidatos e comemorar quando elas batem com seus desejos.



Seguindo uma linha de coerência, para mim qualquer resultado do Datafolha deve ser colocado em suspeição pelo simples fato de o instituto pertencer a um jornal e todos nós sabemos os malabarismos diários que a grande mídia faz para manipular seus leitores/telespectadores/ouvintes todos os dias.
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Mas vejam que nesta última pesquisa de sábado (9) , além de possivelmente ter manipulado dados (o que pode significar que Lula tenha menos ou mais porcentagem de votos do que consta nos gráficos), a Folha, não se sabe se por descuido do estagiário, manipulou o próprio gráfico para mostrar em um de seus cenários Marina Silva disparando de 23% para...23% e Alckmin subindo de 11% para 9%.

Mais tarde ela consertou o erro mas milhares de leitores devem ter sido iludidos.



Bem, Lula está muito bem na fita apesar do bombardeio midiático e a perseguição que sofreu do juiz Sérgio Moro. Era de se esperar na verdade uma queda.



E é aí que entro com uma ''teoria da conspiração'' seguindo a linha da suspeição do instituto.



A impressão que dá é que esses números impressionantes estão a gritar para o consórcio golpista formado pela mídia, oposição (agora com Temer e setores do PMDB), Janot, Cunha, Moro e Gilmar Mendes que é preciso mais vigor para prender Lula porque ele, caso concorra, vencerá com folga as eleições de 2018 e a direita poderá amargar mais 8 anos longe do poder, simplesmente por não ter nomes e estar desacreditada.



Outra leitura possível é que Lula pode estar na verdade ainda mais à frente na pesquisa, uma vez que as demonstrações de apoio popular e manifestações contrárias ao golpe têm ocorrido com frequência em todo o Brasil. Não seria nada interessante neste momento mostrá-lo tão à frente.



De qualquer forma os números divulgados mostram que para a oposição Dilma agora não deverá mais ser cassada pelo TSE pois se isso acontecer, com ela cai seu vice, Michel Temer e novas eleições terão que ser convocadas em três meses e é lógico que o favorito é a jararaca.



Outro fato interessante nos números da pesquisa é que em todos os cenários possíveis os tucanos não têm condição de vencer.



Parece que a opinião pública não mais vê Aécio e companhia como gente digna de assumir a presidência. Melhor para Marina Silva, por enquanto, porque caso ela se mostre uma alternativa consistente poderá sofrer ataque da mídia a menos que a direita considere que não há outra saída e tente elegê-la para ver o que consegue dela mais tarde, já que ela não se considera direita nem esquerda, o que convenhamos, é conveniente.



O que transparece além disso é que Aécio et caterva não parecem mais ser os nomes para a direita. Pode ser que ela invista em Bolsonaro...



O interessante é que nestas últimas semanas estamos assistindo a alguns tiros em pés.



Primeiro foi Temer e sua tresloucada aventura de se retirar do governo, porém mantendo o cargo de vice. Pegou mal, o PMDB não se retirou por completo e agora ele pode até sofrer processo de impeachment pelas mesmas razões de Dilma. Sua estatura política que nunca foi alta baixou ainda mais. E veja que pelo Datafolha 58% dos entrevistados são a favor de seu impeachment contra 61% de Dilma. Empate técnico.



Depois veio esta pesquisa mostrando que depois que assanharam o formigueiro, ele está mais agitado do que nunca e a popularidade de Lula só cresce ainda mais.



A cereja do bolo do fim do golpismo pode vir com a derrota da oposição no processo de impeachment de Dilma.



Se isso acontecer, entre mortos e feridos, só Dilma e Lula sairão incólumes.

Fernando Castilho
No Análise e Opinião
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Pesquisa Datafolha – aquilo que Oficina deu antes


Dilma nunca esteve tão bem e Lula é o cara. Marina parou para conferir. E alguém viu Aécio por aí? Não vai ter golpe — a pesquisa Datafolha de abril.

Datafolha abril cenario1

Lula e Marina lideram corrida para 2018; tucanos despencam essa é a manchete de Folha de 10 de abril de 2016.

Alguma novidade?

Só para quem não frequenta a Oficina.

A Folha finalmente da os nomes aos bois: Aécio despenca e Alckmin não participa das eleições. Como, aliás, esta Oficina já vem dizendo desde dezembro de 2015. Aécio é um fenômeno a ser estudado.  Conseguiu corroer um capital eleitoral de 48% de votos- Esse foi seu resultado no 2º turno das eleições presidenciais de outubro de 2014. Em abril de 2016, um ano e meio depois, ao abrigo da grande mídia e sempre no ataque, sua intenção de votos é de 17%.

O veneno da jararaca

Em março, esta Oficina já havia dito que a pesquisa Datafolha de então trazia uma malandragem estatística. Havia sido feita de modo a não capturar as manifestações em defesa da democracia de dia 18. Após isso, ainda houve o ”31 de março”.

Agora ocorreu o que já se prenunciava ao longo de 2015, a inversão das curvas de Aécio e Lula. Aécio é o terceiro e Lula é o primeiro nas intenções de voto. Lula inverteu inclusive a curva de Marina Silva. Fosse na Fórmula 1 e diríamos que Lula aplicou um “X” em Marina.

Num cenário de disputa com Aécio e Marina, Lula tem 21% com Aécio em 17% e Marina com 19%.  Em um cenário com Mariana, Lula e Alckmin. Marina tem 23%, Lula tem 22% e Alckmin com 9% – tinha 11% em março.

Empates técnicos, na margem de erro?

Não.

Aécio despenca, Marina está estacionada, mas Lula, mesmo sob intenso ataque midiático-judicial, reverteu a tendência de queda. Alckmin jamais participou das disputas.

Datafolha abril cenário2

E o Serra? O Serra entrou na pesquisa somente em fevereiro deste ano com 15% de intenção de votos, mas já está saindo de fininho com 11% três meses depois.

O principal concorrente de Lula é o candidato “brancos, nulo e não sabe” com 21%. Esse empata com Lula, mas, em março, estava com 24%.

Marina Silva não é a terceira via

Aqui a algo interessante. O antilulismo tem rostos bem definidos. Quando Aécio não está em cena, quem herda seus votos é Marina Silva, e não Alckmin. Marina não é terceira via, era a segunda opção do antilulismo. Agora é a primeira.

O crepúsculo do macho

Sergio Moro, Bolsonaro e Ciro Gomes com 8% de intenção de votos, cada um. Somados dão um “brancos, nulos e não sabe”.

Para Temer só resta o golpe. Na melhor das hipóteses tem 2% dos votos. Uma grande melhora, em março contava com 1% das intenções.

Dilma nunca este tão bem

É como olhar a tragédia com óculos de lentes cor-de-rosa, mas a aprovação do governo Dilma melhorou. Seu índice de ruim e péssimo está em 63%. Nunca esteve tão baixo desde o longínquo primeiro trimestre de 2015.

Datafolha abril aprovação

Parece pouco para quem luta contra um impeachment, mas aqui também há sinais claros de uma reversão de cenários. Em vinte dias, desde as manifestações pró-democracia, esse índice caiu seis pontos percentuais. E melhor ainda, o de ótimo e bom cresce para 13%. Nunca igualmente esteve tão alto.

Dilma é resistente. Mas vender Dilma é como vender injeção de penicilina. Ela ainda é melhor que um mal pior.

Não vai ter golpe.

Para o PSDB só restou o impeachment.

Suprema ironia, o PSDB e o PSB disputariam para ver quem seria o PMBD do PMDB — ao outro restaria seria o DEM. Isso se o Kassab e o seu PSD não lhes tomasse o lugar.

Pobre Brasil.

Porém, junto com a popularidade dos tucanos, cai o apoio ao golpe. Se o impeachment necessita de apoio popular massivo, não vai ter golpe. Os ventos começaram a mudar, mas já sopram com força.

Com o impeachment derrotado, o que restaria aos golpistas?

O TSE cassar a chapa Dilma-Temer e prender o Lula.

Em novas eleições dá Marina Silva.

Claro, se houver país após isso.

PS1: para não dizer que não falei de flores. Miriam Dutra é o Paulo Preto do FHC. O mal já está feito, ainda que ela nada revele para a PF. O que aliás jamais deve ter sido sua intenção. Miriam já mostrou que ama animais, não mataria a sua galinha dos ovos de ouro. Não se abandona um líder ferido na estrada, assim como não se abandona uma mãe desamparada na Europa. Presto aqui também minha solidariedade a Augusto Nunes, deve estar desconsolado.

PS2: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.

Sérgio Saraiva
No Ofina de Concertos Gerais e Poesia
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Olivia

Querida Olívia Schmid, muito obrigado pela carta que você me mandou no hospital Pró-Cardíaco, quando soube que eu estava internado lá, na semana passada. Sua carta me emocionou, bem como as muitas mensagens que recebi de amigos e de desconhecidos como você, desejando meu restabelecimento.

O restabelecimento era garantido, pois eu estava nas mãos dos médicos Cláudio Domenico, Marcos Fernandes, Aline Vargas, Felipe Campos e toda a retaguarda de craques do hospital, além do dr. Alberto Rosa e do dr. Eduardo Saad, que instalou no meu peito o marca-passo que, se entendi bem, vai me permitir competir nas próximas Olimpíadas.

Mas, infelizmente, não pude responder sua cartinha, porque você não colocou seu endereço. Só sei que você se chama Olívia (lindo nome), tem 10 anos, mora na Tijuca e cursa o quinto ano da Escola Municipal Friedenreich. E que gosta muito de ler.

Você me fez uma encomenda: pediu que eu escrevesse uma história sobre pessoas que não gostam de acordar cedo de manhã, como você. Vou escrever a história, Olivia, inclusive porque pertenço à mesma irmandade.

Concordo que não existe maldade maior do que tirar a gente do quentinho da cama com o pretexto absurdo de que é preciso ir à escola, trabalhar etc., todas essas coisas que não se comparam com o prazer de ficar na cama só mais um pouquinho.

Acho até que poderíamos formar uma associação de pessoas que pensam como nós, uma Associação dos que Odeiam Sair da Cama de Manhã (AOSCM). Poderíamos até fazer reuniões do nosso grupo — desde que não fossem muito cedo de manhã, claro.

Você me fez um pedido e eu vou fazer um a você, Olívia. Por favor, continue sendo o que você é. Não, não quero dizer leitora dos meus livros, se bem que isto também. Continue sendo uma pessoa que consegue emocionar outra pessoa com um simples ato de bondade, sem qualquer outro pretexto a não ser sua vontade de ser solidária.

Você deve ter notado que o pessoal anda muito mal-humorado, Olívia. Se desentendem e brigam porque um não tolera a opinião do outro. Conversa vira bate-boca, debate vira, às vezes, até troca de tapas.

Uma das crises em que o Brasil está metido é uma crise de civilidade. Não deixe que nada disso mude a sua maneira de ser, Olívia. O seu simples ato de bondade vale mais do que qualquer um desses discursos rancorosos. Animou meu coração mais do que um marca-passo.

O Brasil precisa muito de você, Olívia.

Luís Fernando Veríssimo
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A lição da escola

Uma única certeza: seja qual for o desfecho da crise, será muito ruim. Isto supondo-se que haja desfecho, propriamente dito, e não a também possível continuidade da degradação caótica como um estado permanente. A "Constituição Cidadã", as leis, a reverência ao Direito, a ética jornalística, a administração pública, as práticas políticas, a respeitabilidade mínima do Congresso, a divergência com convivência — o que aí não está muito abalado é porque já desmorona.

A meio da semana, um aspecto dessa situação motivou observações que há poucos anos o Brasil não precisaria ouvir, sobre o respeito a procedimentos judiciais. Vieram de ninguém menos do que o próprio presidente da Corte Interamericana de Direitos Humanos, Roberto Caldas, em solenidade no Supremo. Referia-se, não citando por delicadeza diplomática, aos "vazamentos" de delações e investigações:

"Em vários países, quando se divulgam elementos da investigação, tais elementos se tornam nulos. Vejam o quanto isso é grave: tornam-se nulos."

No Brasil, essas práticas já estão no território da imoralidade. A começar da denominação ingênua de "vazamento". São acusações pesadas, em deliberada confusão de dinheiro sujo e doações legais. "O ex-ministro Delfim Netto participou da criação do segundo consórcio; Delfim teria ganhado propina de R$ 15 milhões" — disse um grande jornal, entre outros que apenas mudaram a forma. Se, porém, Delfim trabalhou para o consórcio de Belo Monte, teve o seu preço e o que recebeu não foi "propina" — que, no caso, é dinheiro comprometedor e em geral criminoso.

Nos anais da imprensa brasileira estará para sempre o "caso da Escola Base". Era 1994 quando as mães de duas crianças denunciaram à polícia paulista que os donos da escola faziam orgias sexuais com os pequenos alunos. O delegado Antonino Primante revirou as casas dos acusados e a escola. Nada encontrou, nem em depoimentos. Crianças passaram por exame pericial, que nada constatou. Indignada, uma das mães repetiu a denúncia para a TV. Um escândalo fenomenal tomou a imprensa. A escola e as casas dos seus donos foram atacadas, eles estiveram presos. E mais dois delegados só puderam concluir que não havia sequer um leve indício de veracidade da acusação.

Os donos da escola tiveram as vidas arruinadas. Só a Folha se retratou. Nas Redações, houve uma onda de "lição da Escola Base": não mais encampar acusações morais sem a segurança necessária, comprovar a seriedade do informante e a qualidade da informação, e por aí. Inúmeros artigos, debates, seminários ocorreram durante anos. Os "vazamentos" da Lava Jato, da Zelotes (sobre o Conselho da Receita Federal) e outros, seguem o mesmo padrão do caso Escola Base: um policial/procurador diz, é o suficiente.

Agora, um agravante sobre o caso anterior: o direcionamento.

A seletividade dos "vazamentos" originários da Lava Jato incorpora-se à crescente imoralidade política: a Lava Jato é uma função do Estado, e não pode estar a serviço de correntes políticas e ideológicas.

Por que o escarcéu só com alguns dos apontados pelo ex-presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques Azevedo, como recebedores de dinheiro do consócio construtor da usina Belo Monte? Por que embaralhar doações legais e ilegais, pagamentos e caixa dois? Não é decente.

Em nada prejudicariam a Lava Jato e a imprensa as práticas, de parte a parte, respeitosas das leis pela primeira e da ética pela segunda. O procurador-geral Rodrigo Janot emitiu, há duas semanas, recomendações de sobriedade e obediência às normas. Falou ao vento, e, como em toda parte, a desordem ficou por isso mesmo. E foi o próprio Janot a dar uma colaboração: inverteu parecer de março para acusar Dilma Rousseff de "intenção (...) de tumultuar o andamento das investigações criminais da Lava Jato". O Supremo, então, é incapaz para investigar Lula? Mas Janot invocou-se também com "as circunstâncias anormais da antecipação da posse" de Lula. É claro que se tratava de proteger Lula de novas exorbitâncias. Mas, ao que se saiba, presidente ainda decide data e hora das posses ministeriais e fazê-lo não constitui delito. Ao que se saiba, não. Sabia-se.

Janio de Freitas
No fAlha
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