9 de abr de 2016

O fracasso da mídia em exterminar Lula fica claro no Datafolha

A mídia quis matar Lula, mas…
Uma vez, numa conversa com Zé Dirceu já nem sei lá exatamente a propósito de que, ele disse o seguinte: “Os políticos têm pavor de 30 segundos no Jornal Nacional.”

Lembrei. Eu falava do vigor florescente da mídia digital e Dirceu retrucou com a força da mídia tradicional, mais especificamente a Globo.

Aquela conversa me veio à cabeça ao ver o Datafolha de hoje.

Lula nas últimas semanas sofreu massacres sucessivos do Jornal Nacional que foram muito, mas muito além dos 30 segundos citados por Dirceu.

Fernando Morais cronometrou 23 minutos num determinado dia.

Era para Lula estar carbonizado. Apartamento, sítio, ações pirotécnicas da Polícia Federal e da Lava Jato, grampos supostamente incriminadores em que conversas de Lula e Dilma foram interpretadas pelos locutores do JN: nada faltou.

Ao assassinato de reputação de Lula pela Globo se somou ainda o trabalho sujo de jornais e revistas como Veja, Época, IstoÉ, Folha, Estadão, Globo, para não falar de inumeráveis colunistas patronais.

A plutocracia jogou bombas atômicas em Lula. Ou o que ela julgava serem bombas atômicas.

Mas.

Eis que Lula aparece na liderança das pesquisas de intenções de voto para 2018.

E Aécio, tão poupado pela Globo, despenca rumo ao cemitério político. Moro, tão bajulado, aparece na rabeira.

Isso quer dizer o seguinte.

Primeiro, e acima de tudo: Lula é muito mais forte do que a plutocracia sonhava. A jararaca está aí. Sozinho, Lula comandou nas duas últimas semanas um formidável movimento popular de reação ao golpe que a direita imaginava ser coisa liquidada.

Segundo, está aí a prova cabal da perda de influência da Globo e da imprensa em geral.

Tanta perseguição do Jornal Nacional e coadjuvantes para Lula, em vez de estar morto, ser líder das intenções de voto?

É um fracasso espetacular.

Se tiver um mínimo de lucidez, a cúpula da Globo vai se reunir para tentar entender o fiasco miserável.

O antijornalismo que a Globo passou a adotar recentemente, claramente inspirado na Veja, já não funciona entre os brasileiros.

O JN parece, hoje, uma Veja eletrônica. A Globo como um todo, aliás. Uma pequena demonstração disso reside num diretor da casa, Erick Bretas, que conseguiu se fantasiar de Moro em sua conta no Facebook. Isso é um acinte, um insulto ao jornalismo decente.

Ao contrário de outros tempos, a internet funciona como um contraponto aos crimes jornalísticos das grandes corporações de mídia.

Quanto mais um veículo perde o pé no antipetismo radical, menos influência tem. A Veja é o exemplo maior. Ninguém exceto seus leitores, e eles mesmos em número sempre menor, a leva a sério.

A Globo tomou o mesmo caminho. Ficou aloprada.

Mas nem seus funcionários parecem acreditar nela mais. Estrelas de suas novelas queixaram-se publicamente, nas últimas semanas, da cobertura do Jornal Nacional, mesmo ao preço de arriscar o pescoço.

Do mar de lama em que se meteu a imprensa emergiu, paradoxalmente, Lula.

Quiseram exterminá-lo, e no entanto o que fizeram foi uma propaganda involuntária de Lula para 2018.

Não adianta tentar transformar Moro em herói. Não é. É um herói de mentirinha. Lula é, ele sim, um herói do povo, quer a plutocracia goste ou não.

Paulo Nogueira
No DCM
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Beth Carvalho - Não Vai ter Golpe


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Por que Barbara Gancia foi demitida

Barbara Gancia ficou boa demais para o jornalismo nacional
A demissão de Barbara Gancia da Band News FM foi um dos assuntos mais comentados hoje nas redes sociais.

É que Barbara, falante como é, disse que foi demitida por razões políticas. A Band desmentiu. Afirmou que foi por motivos econômicos: corte de custos.

Não é exatamente uma mentira da Band, mas é quase isso.

Evidentemente a posição política de Barbara Gancia é indigesta para o conservadorismo da Band.

Digamos assim: ela foi demitida 4/5 por  ser progressista e 1/5 porque a Band enfrenta uma crise provavelmente terminal por conta da ascensão da internet.

Jornalistas como Barbara são exatamente o que as grandes empresas de jornalismo não querem. Já faz anos que o requisito principal para você fazer carreira na Globo, Abril, Folha, Band etc é bater, bater e bater em Lula, em Dilma e no PT.

Repare nos jornalistas que estão nas colunas de jornal, nas rádios, nas tevês e mesmo nos sites das grandes corporações de mídia. Todos têm o mesmo perfil patronal.

O diretor de novas mídias da Globo, Erick Bretas, é um caso típico. Ele não se envergonhou em colocar um avatar de Sérgio Moro em seu Facebook. Seria impensável num ambiente jornalismo normal.

A virada no perfil dos jornalistas corporativos começou com a vitória de Lula em 2002.

A Veja tomou a dianteira. Colocou em posições de destaque dois jornalistas até ali inexpressivos, um na revista impressa e outro no site, Reinaldo Azevedo e Diogo Mainardi.

Pouco a pouco, este tipo de jornalista foi se multiplicando pelas redações ao mesmo tempo em que profissionais de esquerda ou progressistas foram sumindo.

Os patrões aparelharam as redações com gente que, essencialmente, reproduzem as suas opiniões. Não vou enumerá-los aqui porque a lista seria infindável.

Carreiras floresceram no antipetismo intransigente, e carreiras mortas ressuscitaram. Para ficar num caso, Augusto Nunes jazia em algum canto quando a Veja o contratou para massacrar o PT.

Barbara Gancia foi um caso raro de alguém que em vez de aderir à louca cavalgada contra o PT permaneceu independente.

Ela pareceu, em algum momento, ter ficado incomodada com a perseguição ao PT mesmo sem jamais ter sido petista.

Isto provavelmente foi determinante para que a Folha suprimisse sua coluna, uma das de maior sucesso do jornal.

A Folha já se tornara mais interessada em Kim Kataguiri do que em pessoas como Barbara Gancia.

O mesmo quadro se repete agora na Band.

Não foi Barbara que envelheceu ou piorou. Na verdade ela melhorou. Amadureceu politicamente. Como que despertou para a verdade doída de que os donos da imprensa têm enorme responsabilidade na construção e manutenção de um país tão desigual e injusto como este que temos.

O que ficou ruim — horrível, esta é a palavra — é o ambiente jornalístico.

Jornalistas como Barbara acabarão retomando a vida profissional na internet — que avança na mesma medida em que as mídias tradicionais regridem.

As corporações não vão deixar saudades — a começar pela Band que demitiu Barbara.

Paulo Nogueira
No DCM
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Em debate: Carina Vitral (UNE) humilha Kim Kataguiri (MBL)



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Boato sobre a compra de votos no processo de impeachment


Diante da possibilidade do processo de impeachment ser barrado na Câmara, parlamentares da oposição espalharam boato de que dinheiro teria sido oferecido em troca de apoio na votação; informação não tem fundamento ou qualquer prova

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Professor Túlio Sene faz a cronologia do golpe



O professor Túlio Sene recupera fatos importantes dos últimos 7 anos que nos ajuda a entender os reais interesses escusos por trás dos golpistas: é o pré-sal, é a soberania do país que estão em jogos e sempre foram esses os motivos que impulsionam a direita golpista diuturnamente a inviabilizar o governo Dilma.






2007

Outubro
  • Em meio a um clima de que o Brasil é o país do futuro, somos formalizados como sede da Copa de 2014.

Novembro
  • É anunciada a descoberta de enormes reservas de petróleo numa região do Pré-Sal em águas oceânicas profundas da costa brasileira. As reservas são 5 vezes maiores do que as reservas em exploração no Brasil na época. O Brasil passa a ser o queridinho dos mercadores de petróleo do mundo todo e de Wall Street.

Dezembro
  • Ainda ministra, Dilma começa a orientar a preparação do marco regulatório do Pré-Sal.

2008

Janeiro
  • Quatro notebooks e dois HDs da Petrobrás contendo dados sigilosos sobre a exploração de petróleo são furtados. No mesmo container havia outros notebooks e materiais de escritório que não foram levados. Em entrevista na época, o superintendente da PF no Rio afirmou que espionagem industrial era a única linha de investigação.

Abril
  • A 4ª Frota Naval americana (Atlântico Sul) é reativada. Ela havia sido criada durante a 2ª Guerra, em 1943, e foi desmobilizada em 1950. Não só o presidente Lula questionou a sua reativação após mais de cinco décadas, mas também Hugo Chávez e Evo Morales, da Venezuela e Bolívia, entre outros presidentes sul-americanos. Todos duvidaram dos propósitos “pacíficos” alegados pelos americanos.

Julho
  • Lula exige explicações dos Estados Unidos sobre a Quarta Frota da marinha americana, que reapareceu nas águas da América Latina quase 60 anos após ter sido desativada. Segundo os Estados Unidos, trata-se de um ajuste operacional sem intenções agressivas, para melhorar a capacidade operativa no combate ao narcotráfico, manejo de desastres naturais e trabalhos de cooperação.

Setembro
  • Em um dos episódios mais simbólicos da crise mundial, ocorre o pedido de concordata do tradicional banco de investimentos Lehman Brothers, com mais de 150 anos de existência e um dos pilares financeiros de Wall Street. A crise no mundo desenvolvido é manchete de todos os jornais. Governo americano perdoa bancos, cria liquidez para acalmar os mercados de crédito e previne que a crise financeira se torne algo ainda mais grave.

2009

Abril
  • Em Londres, Barack Obama diz que Lula era "o político mais popular da Terra". Obama diz que Lula “é o cara”. Começa a lua de mel do Ocidente com o Brasil.

Setembro
  • Lula é considerado o político mais influente do mundo pela Time e Newsweek.

Outubro
  • O Rio é escolhido como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Novembro
  • Brasil é capa da The Economist, onde lê-se “Brasil decola”.

Dezembro
  • Em uma mensagem diplomática vazada pela Wikileaks, o governo dos EUA, no dia 02/12/2009, questiona seu embaixador no RJ através de mensagem confidencial se "Pode a indústria do petróleo fazer retroceder a lei do pré-sal?".

2010

Outubro
  • Dilma vence José Serra nas urnas e é eleita a primeira presidente mulher do Brasil, com 56,05% dos votos contra 43,95% de Serra no segundo turno.

Dezembro
  • Datafolha aponta 80% de aprovação do governo Lula.

Dia 2
  • Plenário da Câmara aprova a Lei do Pré-Sal (204 votos a favor, 66 contra).

Dia 13
  • Wikileaks revela conversas de Serra com lobistas do petróleo. Despachos vazados por Julian Assange relatam a frustração das petrolíferas com a falta de empenho da oposição no Brasil para tentar derrubar a proposta do governo brasileiro em relação ao Pré-Sal. O texto diz que Serra se opõe ao projeto, mas não tem "senso de urgência". Serra responde: "Deixe esses sujeitos (o PT) fazerem o que quiserem. Os leilões e concorrências não acontecerão, e depois nós mostraremos a todos que o velho modelo funcionava (...) e faremos tudo voltar ao que era antes".

Dia 22
  • Uma semana antes deixar o governo, Lula sanciona a Lei do Pré-Sal. A lei determina que a Petrobrás deve participar (mínimo de 30% de participação) de todos os consórcios para exploração do Pré-Sal. Estabelece também a criação do Fundo Social, onde deve ser depositado 25% das receitas da Petrobrás com o Pré-Sal para uso exclusivo em Saúde e Educação.

2011

Fevereiro
  • Lula cria a “LILS – Palestras, Eventos e Publicações” para administrar os convites que passou a receber para proferir palestras e conferências. São 72 palestras empresariais pagas em 4 anos a um custo de 200 mil dólares cada palestra. Além das palestras pagas, Lula participa gratuitamente de centenas de debates, palestras e encontros com sindicatos, entidades dos movimentos sociais, órgãos de comunicação, associações de classe, entidades assistenciais e partidos políticos no mesmo período.

Novembro
  • Sob o argumento de aumentar a transparência nos serviços públicos, Dilma sanciona a Lei 12.527 – Lei Geral de Acesso à Informação.

Dezembro
  • PIB no Brasil fecha o primeiro ano de Dilma com crescimento de 3,9%

2012

Julho
  • Dilma sanciona lei 12.683 para tornar mais eficiente o combate à lavagem de dinheiro.

Jan/Dez
  • PIB no Brasil fecha o primeiro ano de Dilma com crescimento de 1,9%. Preparativos para a Copa e obras acontecem em ritmo acelerado.

2013

Jan/Dez
  • PIB no Brasil fecha o primeiro ano de Dilma com crescimento de 3%.

Abr/Jun
  • Em uma fase de alta, os protestos começam a surgir. A insatisfação começa com relação ao aumento nos preços do transporte público. Em São Paulo o auge das manifestações ocorreu nos dias 6, 7 e 11 de junho. Começaram reclamando de um aumento de 0,20 centavos e foram duramente reprimidas pelas PM do Governador Geraldo Alckmin. A repressão fez o protesto aumentar e a pauta ficou difusa.

Junho
  • Snowden começa a revelar informações confidenciais da NSA. Revela que o celular, o email e o telefone oficial de Dilma eram grampeados.

Agosto
  • EUA são cobrados pelo Brasil por terem rastreado Dilma. Acaba a lua de mel do Ocidente com o Brasil.

  • Dilma propõe pacto nacional e recebe líderes de protestos. Ela promete continuar combatendo a corrupção.

Setembro

Dia 8
  • Reportagem do Fantástico revela novos documentos vazados por Edward Snowden envolvendo a Petrobrás. Estamos a 10 meses da corrida presidencial.

  • Brasil é capa da The Economist novamente, agora de forma negativa.

Dia 24
  • Dilma faz duras críticas à espionagem americana em seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU. Classifica como violação de direitos humanos.

Outubro
  • Dilma cancela viagem oficial a Washington.

  • As petroleiras americanas não participam do primeiro leilão do Pré-Sal.

Dezembro
  • Governo Federal anuncia compra de 36 caças suecos por US$ 4,5 bi. O caças americanos também estavam na concorrência, que se arrastou por mais de uma década.

2014

Janeiro
  • Obama anuncia mudanças nos serviços de inteligência e promete não monitorar mais governos aliados.

Março
  • É deflagrada a Lava Jato para investigar a Petrobrás. Estamos a 6 meses das eleições presidenciais.

Agosto
  • O avião com o então candidato Eduardo Campos cai matando todos a bordo. Há suspeitas de sabotagem. A oposição acaba ganhando boa parte dos seus eleitores.

Setembro
  • Lava Jato é amplamente utilizada na mídia contra Dilma nas eleições.

Outubro
  • Aécio perde no 2° turno, mas não reconhece a derrota. São 54,5 milhões de votos para Dilma e 51 milhões para Aécio.

2015

Janeiro
  • A estratégia da oposição derrotada passa a ser inviabilizar o governo de Dilma. Sua principal manobra é conseguir eleger Eduardo Cunha como presidente da Câmara.

Fevereiro
  • Serra apresenta projeto de lei para mudar a Lei do Pré-Sal

Março
  • Depois de pedir recontagem de votos, começa a história do impeachment.

Abril
  • Suíça acusa Eduardo Cunha de lavagem de dinheiro e congela seus ativos no país.

Agosto
  • É preso o almirante Othon, líder do projeto do submarino nuclear brasileiro.

Novembro
  • Cunha abre o processo de impeachment, em clara retaliação ao posicionamento do PT, favorável à abertura de ação contra ele no Conselho de Ética.

Dezembro
  • Após todos os recursos, Suíça envia documentos sobre contas de Cunha.

Jan/Dez
  • Em um ano completamente travado, economia vai mal e mídia alimenta a crise.

2016

Fevereiro
  • Senado aprova a reformulação da Lei do Pré-Sal, tirando poderes da Petrobrás

Março
  • A PF sequestra Lula, que promete voltar à ativa.

  • Os movimentos de esquerda tomam as ruas.

Abril
  • Opinião pública começa a entender que o impeachment de Cunha é golpe. Será?

Túlio Sene
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Jandira Feghali destrói relatório da Comissão e defende a Democracia


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As mentiras de Mírian no programa de Mariana Godoy

Mírian desdisse Mírian
Na entrevista que deu ao programa Mariana Godoy, esta noite na RedeTV, Mírian Dutra mentiu mais de uma vez, e para informar a audiência desse fato relevante bastava a produção exibir o vídeo disponível no Youtube, em que a ex-namorada do Fernando Henrique Cardoso diz que tem contratos e recibos sobre o caso Brasif.

Você pode ver aqui:



Tenho mais duas gravações. Uma, de 20 minutos, em que Mírian conta como o seu relacionamento com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi usado para que a TV Globo obtivesse vantagens.

A outra gravação, de 10 minutos, é uma entrevista que fiz com dois de seus melhores amigos, indicados por ela. Eles contam como foi o que a própria Mírian classificou de exílio em Barcelona.

Tenho outras gravações em vídeo, realizadas abertamente, que mostram momentos relevantes das horas em que estive com ela, entre os dias 19 e 23 de março, como a conversa dela com o advogado e outra com um delegado da Polícia Federal. Uma dessas conversas foi quando ela voltava da Cerdaña para Barcelona.

A proposta é usar esse material na vídeo-reportagem que produzi com o consentimento dela.

Aqui cabe contar como cheguei até Mírian Dutra. Quando trabalhei na TV Globo, conhecia a história de Mírian Dutra, mas não tive nenhum contato com ela. Eu trabalhei no Rio de Janeiro e em São Paulo, Mírian Dutra estava na Europa.

Em fevereiro deste ano, logo depois que repercutiu no Brasil a entrevista que ela deu à Revista Brazil com Z, da Espanha, entrei em contato por e-mail com a jornalista Fernanda Sampaio, autora da entrevista, e pedi o telefone de Mírian Dutra.

Fernanda pediu o meu telefone e disse que repassaria a Mírian. Um dia depois, Fernanda encaminhou um e-mail de Mírian Dutra, que informava seu telefone. Fiz a ligação e falamos durante quatro horas. Os principais trechos da entrevista, no que não estava protegido pelo off, foi publicado na primeira reportagem que fiz.

Uma semana depois, telefonei novamente e manifestei a ela meu interesse de fazer uma vídeo-reportagem e talvez um livro, dependendo do que houvesse para ser contado. Mírian disse que tinha documentos, fotos e que me mostraria tudo, se eu fosse para a Espanha.

Também falamos sobre a gravação em vídeo e ela até ponderou que poderia chorar e a entrevista não ficaria boa. Respondi que tanto eu quanto ela somos do ramo e, se a entrevista não ficasse boa, faríamos de novo.

Pedi-lhe uma semana para tentar viabilizar a viagem e, quando reservei o voo, perguntei se podia comprar a passagem. Ela disse que sim, mas ponderou que eu deveria antecipar a viagem.

Mírian fez também a reserva do hotel, como mostra nossa conversa pelo celular.

No dia em que cheguei a Barcelona, ela me apresentou a uma publicitária, Glória, mãe de um dos melhores amigos de Tomás, e falamos sobre Globo, Fernando Henrique Cardoso e o exílio de Mírian na Espanha. No dia seguinte, Mírian decidiu ir a outro hotel, na Cerdaña, e lá gravou as entrevistas.

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Também me deu o número de sua melhor amiga na Espanha, a jornalista Carme Polo, e recomendou que eu a entrevistasse. Foi o que fiz, no retorno a Barcelona, dois dias depois.

O que Mírian contou não pode ser apagado e é de grande interesse público. Alguma coisa mudou depois que retornei ao Brasil. Seu depoimento à Polícia Federal, em que diz nada saber sobre a Brasif, obedece a uma lógica de defesa jurídica.

Se reafirmasse o que me disse em entrevista gravada, que Fernando Henrique Cardoso providenciou um contrato fajuto para remeter dinheiro ao exterior, poderia até ser indiciada, dependendo do rigor do delegado.

Mírian assinou um documento mentiroso, o que pode ser caracterizado como fraude. Também poderia ter complicações com o antigo empregador, a Globo, a quem havia empenhado, por contato, o dever de exclusividade.

Mas talvez não tenha sido apenas isso. No dia em que deixei o hotel em que ela estava, Mírian me contou que tinha sido procurada por alguém do alto escalão da Globo, em viagem à Espanha, mas não quis recebê-lo.

Na entrevista a Mariana Godoy, me chamou a atenção a forma como ela isentou a emissora de responsabilidade por mantê-la longe do Brasil. Como se verá no documentário que estamos preparando, nada mais distante do relato que Mírian me fez.




Joaquim de Carvalho
No DCM
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Entrevista de Mírian Dutra — assista na íntegra


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A crise é mental

O bestialógico galopa enquanto um criminoso decide o destino do Brasil. Mas há um problema mundial...

O cavalheiro à esquerda serve para aumentar
as saudades dos cavalheiros à sua direita
O escândalo chamado Panama Papers cabe com encaixe perfeito entre os resultados da sujeição do mundo ao deus mercado que o papa Francisco mais propriamente definiria como demônio do dinheiro.

Antes de cogitarmos de uma reforma política brasileira, de resto, por ora tão improvável quanto duvidosa, seria altamente recomendável uma reforma do globo terráqueo. De sorte a reverter o processo destinado a enriquecer cada vez mais uns poucos para empobrecer e imbecilizar os demais. Aludo a bilhões de seres ditos humanos.

Um jurista italiano em recente visita ao Brasil, ex-integrante da força-tarefa da Operazione Mani Pulite, Gherardo Colombo, convidado com o transparente propósito de constatar convenientes similitudes entre aquela ação justiceira e a Lava Jato, cuidou de desencantar os anfitriões, de sorte a não merecer maior repercussão na mídia nativa, a do pensamento único a favor do golpe.

A tese central de Colombo, exposta no debate promovido para favorecer Sergio Moro e os promotores curitibanos, é a seguinte: em situações de corrupção desenfreada, a magistratura terá de agir para prender e incriminar quem quer que seja, mas não extirpará o mal se este for da cultura do país. O pecado só será remido pela educação dos graúdos e dos miúdos. Dura lição, que não se coaduna com as pretensões da Lava Jato.

A corrupção é global, como, por exemplo, os Panama Papers comprovam. Nem por isso Moro e sua operação deixam de ser representativos de um país a seu modo único. A Lava Jato presta-se a fornecer munição a uma tentativa de golpe, vale-se de uma polícia disposta a desservir ao Estado para favorecer a manobra em sintonia com a mídia compactamente envolvida no processo.

Atenta contra a lei impavidamente e tanto esquece a origem da corrupção e seus mais atilados praticantes, bem como liquida em um piscar de olhos a possibilidade de qualquer envolvimento da Mossack.

Desponta a urgência de interrogar os botões: por que será que Moro e cia. enterraram o assunto? Respondem: talvez o peso de nomes graúdos detentores das offshore à margem do canal, nomes retumbantes, tenha aconselhado o súbito recuo, mesmo depois da prisão de cinco suspeitos da Mossack, logo postos em liberdade.

Uma pergunta chama outra: e por quais cargas-d’água as atividades do empresário Fernando Henrique Cardoso e do seu endiabrado herdeiro Paulo Henrique não mereceram eco da mídia nativa? Ora, ora, respondem os botões, FHC é ainda mais invulnerável do que Aquiles, o herói grego de calcanhar indefeso. Nem mesmo Páris, de excelente pontaria, conseguiria abater o ex-presidente sem pontos fracos.

A incerteza do momento precipita mais perguntas. Por que ressurge a proposta da renúncia da presidenta Dilma, formulada tempos atrás pelo acima citado FHC? A Folha de S.Paulo ressuscita a ideia como portadora da bandeira a abrir o desfile olímpico. Marcha imponente, a convocar muitos dos titulares da casa-grande, seus aspirantes e fâmulos.

E por que Dilma haveria de renunciar? Nada empurra a tanto o vencedor de uma eleição, menos ainda a lei. Há quem diga: antecipemos as eleições, outubro próximo seria uma boa data. A presidenta reage com louvável ironia: pois então, renunciemos todos em bloco, governo, governadores e congressistas.

A quem aproveita a proposta? Panorama confuso, de névoa do Mar do Norte, na madrugada invernal. Em meio à cerração, aparecem desentendimentos na tripulação do barco golpista. Não vale a pena perder tempo em relação ao patético comportamento de Marina Silva, crente ferrenha das pesquisas, incapaz de perceber que a coisa pega somente nas cercanias do pleito.

Colombo
Este Colombo decepcionou os anfitriões nativos
Permito-me outros exemplos: eleições em outubro não comovem, por motivos diversos, Michel Temer e Aécio Neves. Encantam, porém, por razões insondáveis, Paulo Skaf, aquele que estimula imensa saudade de Antonio Ermírio de Moraes e Olavo Setubal, dois empresários que praticaram a política com outros méritos e válidos atributos. Tampouco está claro se Skaf é empresário.

Algo é certo, soletram os botões: a proposta da renúncia nasce de uma forte dúvida a respeito do desfecho da manobra golpista do impeachment. A tigrada deu para temer, de uns dias para cá, que o complô soçobre no fracasso final.

Retomada a normalidade democrática, e diante de uma crise iniciada no exterior que não tende a arrefecer, a possibilidade de antecipar eleições gerais poderia ser levada em conta, ao cabo de um amplo debate e de uma adequada emenda constitucional, operada pelos poderes previstos em lei.

Antecipação de um ano, para outubro de 2017, quem sabe. Não é por acaso, de todo modo, que a Folha assuma o papel de portador da proposta da renúncia, inequivocamente golpista nas circunstâncias. Diz um caro amigo que o jornalão da família Frias é o mais hipócrita da categoria.

Abriga textos que contradizem a linha do jornal, sem contar a pretensão do ombudsman faccioso, para alardear uma isenção desmentida na totalidade dos demais espaços. O Estadão é um vetusto fazendeiro que não consegue enxergar além da cancela das suas terras. O Globo é homem de negócios suspeitos, sem escrúpulos, entregue ao demônio do dinheiro.

Os jornalões, os revistões e os programões abrigam o bestialógico mais grandioso da história do País. No confronto, o Febeapá da Stanislaw Ponte Preta empalidece. O que se lê e se ouve, imediatamente repetido por uma fatia conspícua da sociedade, é algo que não tem similar mundo afora. Trata-se de um besteirol clangoroso que exibe o estágio cultural primitivo de uma nação carente de saúde mental.

Não falta quem escape ao desastre, mas o conjunto da obra é apavorante. Fôssemos diferentes, nos riríamos dos equívocos, dos mal-entendidos, das acusações pueris, e das pretensões descabidas, das ambições idem, dos exibicionismos provincianos, da pompa ridícula, da ostentação grosseira, da vulgaridade geral. O fenômeno apresenta, contudo, uma imponência tão avassaladora a ponto de provocar por parte de quem dispõe de bons olhos, vergonha e desalento.

Perguntam agora meus envergonhados botões: quem haverá, neste Brasil em apuros, capaz de entender que o impeachment não resolve a crise, pelo contrário, a complicaria? E quem se dá conta de que os Panama Papers desvendam o ninho do ovo da serpente da crise que, sem isentar o País, transcende a economia?

Há outra discrepância, ainda mais espantosa, a denunciar ausência de saúde mental, bem como política: enquanto se discute se Dilma cometeu um crime inexistente, decide os destinos do Brasil um notório criminoso chamado Eduardo Cunha.

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As relações entre a Lava Jato, a Globo e a Mossack & Fonseca

O envolvimento da emissora com a lavanderia de dinheiro panamenha explicaria o recuo da força-tarefa em Curitiba?

O juiz responsável pela Lava Jato e a Triplo X: ponto fora da curva
Atropelada por outros fatos e providencialmente esquecida pela mídia, a 22ª fase da Lava Jato continua um mistério. Por que ela destoa tanto dos padrões de outras ações do juiz Sergio Moro e da força-tarefa?

E por que a missão organizada para ser a cereja do bolo após dois anos de intensas investigações tornou-se uma letra morta, um arquivo incômodo nos escaninhos da Justiça Federal em Curitiba?

A 22ª fase, batizada de Triplo X, referência pouco sutil ao apartamento triplex em um edifício na praia paulista do Guarujá atribuído ao ex-presidente Lula, ganhou as ruas em 27 de janeiro.

Não era, portanto, uma ação qualquer. Investia-se naquele momento contra o alvo mais cobiçado desde o início da Lava Jato. As coisas não saíram, porém, como planejado.

Um dos endereços visitados por agentes da Polícia Federal ficava no Conjunto Nacional, prédio de escritórios e lojas na Avenida Paulista, centro financeiro de São Paulo.

A busca e apreensão aconteceu mais precisamente na filial brasileira da Mossack & Fonseca, banca de advocacia panamenha internacionalmente conhecida por assessorar traficantes, ditadores, corruptos e sonegadores no ato de esconder dinheiro em paraísos fiscais.

Qual a relação da empresa com o apartamento no Guarujá? Uma offshore aberta pela Mossack & Fonseca, a Murray Holdings LCC, tinha em seu nome outro tríplex no mesmo prédio. Ao esbarrar na firma panamenha durante a fase preliminar da investigação, a força-tarefa acreditou ter encontrado o elo para provar que Lula havia cometido o crime de ocultação de patrimônio.

Em resumo: por meio de laranjas, a empreiteira OAS esconderia os verdadeiros proprietários dos imóveis no Edifício Solaris. Bingo? Longe disso. Logo no primeiro dia, a Triplo X identificou 40 indivíduos e empresas no Brasil que fizeram negócios com a Mossack & Fonseca. E aí começa o mistério. (Leia o outro lado)

Ao contrário de outras fases e do padrão de comportamento do juiz Moro, os representantes do escritório panamenho não amargaram longos períodos na cadeia nem tiveram os pedidos de prisões temporárias convertidos em detenções preventivas, cuja suspensão fica a critério da Justiça. Foram soltos em tempo recorde, menos de dez dias após a operação.Entre os libertados perfilava-se o principal representante da companhia no Brasil, Ricardo Honório Neto.

Funcionários-da-Mossack
Fora dos padrões da Lava Jato, os funcionários da Mossack foram rapidamente liberados
Foto: Paulo Lisboa/Estadão Conteúdo
O executivo trabalha na Mossack & Fonseca há ao menos dez anos e é bem relacionado, com contatos na própria Polícia Federal. Em 2007, um e-mail interceptado prova que Honório Neto havia sido informado a respeito de uma operação da PF no escritório da empresa.

Na mensagem, ele avisa da ação e orienta subordinados a destruir e ocultar documentos antes da chegada dos federais. Esconder informações é, aliás, uma prática corriqueira e contínua na companhia. Escutas telefônicas recentemente autorizadas que embasaram a Triplo X flagraram Ademir Auada, um dos presos em 27 de janeiro e logo liberado, a confessar a destruição de papéis do escritório.

A eclosão do escândalo internacional que envolve diretamente a empresa panamenha, a partir do megavazamento de 11,5 milhões de documentos sobre as offshore pertencentes a políticos, ditadores, celebridades e afins, todas criadas com o intuito de no mínimo sonegar impostos, causou constrangimentos na força-tarefa da Lava Jato.

Os investigadores sabem que serão cobrados por causa do “desinteresse” em relação às atividades da Mossack & Fonseca. O juiz Moro não atendeu aos pedidos de explicação de CartaCapital. Teria sido apenas desatenção ou algum interesse específico explicaria o comportamento incomum da turma de Curitiba no episódio?

Raciocinemos: Moro já afirmou mais de uma vez que o apoio dos meios de comunicação é essencial na cruzada contra a corrupção. A parceria mídia-Justiça, entende o magistrado, serve para impedir o sistema político de barrar as investigações. Mas e se um dos aliados na imprensa cair por acaso na rede de apuração? O que fazer?

Não se sabe. Fato é que entre os documentos apreendidos durante a Triplo X aparecem os registros de offshore ligadas a Alexandre Chiapetta de Azevedo. O empresário foi casado até recentemente com Paula Marinho Azevedo, filha de João Roberto Marinho, um dos herdeiros da Globo, que apoia de forma acrítica a Lava Jato e até concedeu um prêmio ao juiz Moro. Na lista encontrada na sede da Mossack & Fonseca desponta a Vaincre LLC.

A offshore integra uma complexa estrutura patrimonial: é sócia da Agropecuária Veine Patrimonial, que por sua vez é dona de uma imponente e moderna casa em uma praia exclusiva de Paraty, litoral do Rio de Janeiro, que pertenceria à família Marinho.

A propriedade é alvo de uma ação do Ministério Púbico Federal por crime ambiental. Os Marinho, assim como o ex-presidente Lula no caso do triplex no Guarujá, negam ser os donos do imóvel.

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Brasileiros offshore: Lobão, Cardoso e Lyra, entre políticos de sete partidos
Foto: Valter Campanato/ABr, Helena Rodrigues/Futura Press, Luis Macedo
Diferentemente do que acontece no caso de Lula, as relações dos herdeiros da Globo com a casa em Paraty se avolumam. Na mesma lista apreendida no escritório da Mossack & Fonseca, ao lado do registro a respeito da Vaincre LLC aparece o nome de outra empresa, a Glem Participações, que detém um contrato com o governo estadual do Rio de Janeiro para a exploração do parque de remo da Lagoa Rodrigo de Freitas.

Segundo o blog Viomundo, do jornalista Luiz Carlos Azenha, a Glem pertence a Azevedo, ex-marido de Paula Marinho. A neta de Roberto Marinho aparece ainda como fiadora do contrato entre o governo fluminense e a Glem.

Outro documento revela que a Agropecuária Veine é dona de uma cota de um helicóptero do modelo Augusta A-109, matrícula PT-SDA, utilizado pela família Marinho. O endereço para entrega de correspondências no contrato de importação do helicóptero é o mesmo da empresa de Azevedo.

Só para esclarecer: a empresa dona do triplex em Paraty recebe suas correspondências no escritório do ex-marido de uma das herdeiras da Rede Globo.

As Organizações Globo enviaram nota a CartaCapital explicando a situação das offshore, do helicóptero e do triplex em Paraty. Diz a nota que ninguém da família é proprietário da empresa que administra o sítio. Diz também que Paula Marinho não é dona da offshore Vaincre, mas pela primeira vez confirma que a empresa é de propriedade do ex-marido.

Ou seja, o triplex serviu, sim, à família, uma vez que a offshore é uma das sócias da propriedade em Paraty. A emissora afirma também que Paula não tem ligação nenhuma com a Glem Participações e diz que o helicóptero pertenceu ao ex-genro, tendo sido fiadora da aeronave a pedido de Alexandre.

O ex-genro global foi procurado pela revista, mas não se manifestou sobre o assunto.
A história da casa em Paraty não é a única relação dos Marinho com a Mossack & Fonseca e os Panama Papers.

Segundo o jornal holandês deVerdieping Trouw, com base em documentos vazados, a emissora brasileira teria usado empresas de fachada para pagar intermediários na compra de direitos de transmissão da Copa Libertadores da América.

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A casa em Paraty da qual os Marinho negam ser donos
Foto: João Miguel Júnior/TV Globo
O diário argentino La Nación trouxe outras revelações: “Por razões fiscais, em 2012, a T&T transferiu os seus direitos à empresa Torneios&Traffic Sports Marketing BV, com sede nos Países Baixos. Por trás dessa offshore holandesa, a Mossack & Fonseca criou a Medak Holding Ltd., registrada em Chipre, que, por sua vez, era controlada pela uruguaia Henlets Grupo”.

A reportagem prossegue: “A empresa holandesa, com licença de televisão concedida pela T&T, intermediava a venda dos direitos. A offshore negociou aportes milionários com a TV Globo do Brasil, que eram depositados no ING Bank, em Amsterdã.

A empresa holandesa e a TV Globo tiveram contratos negociados de 2004 a 2019, a uma quantia estimada de 10 milhões de dólares”.

Não à toa, a Globo registrou timidamente o escândalo internacional que monopolizou a atenção da mídia estrangeira nos últimos dias. Na segunda-feira 4, por exemplo, o Jornal Nacional tratou do assunto em meros 40 segundos. Sem imagens, o texto basicamente informava que a Procuradoria-Geral da República investigaria os donos brasileiros de offshore abertas pela Mossack & Fonseca. E ponto.

Há outros ilustres nativos, vários envolvidos em crimes de corrupção, no rol de clientes do escritório panamenho. Robson Marinho, conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo e acusado de receber propina durante sua passagem pelo governo do tucano Mário Covas, é dono da Higgins Finance.

Documentos
Os documentos de uma transação complexa
Segundo o Ministério Público, Marinho embolsou 2,7 milhões de dólares em troca de contratos fraudulentos assinados com a multinacional francesa Alstom. A propina teria ainda abastecido o caixa 2 de campanhas eleitorais do PSDB paulista.

Além dos Marinho globais e do Marinho tucano, os proprietários de offshore até agora flagrados na enorme pilha de documentos incluem políticos brasileiros de sete partidos: PSDB, PDT, PMDB, PP, PSB, PSD e PTB.

Constam da lista, entre outros, o indefectível Eduardo Cunha, presidente da Câmara, o ex-governador de Minas Gerais Newton Cardoso, o ex-ministro Edison Lobão, o falecido tucano Sérgio Guerra, acusado por um dos delatores da Lava Jato de ter recebido 10 milhões de reais para abafar uma CPI, e o ex-deputado federal João Lyra.

Fora do Brasil, a “lista negra”, conforme definição de parte da mídia estrangeira, também inclui nomes para todos os gostos, de amigos do presidente russo Vladimir Putin ao cunhado do presidente chinês Xi Jinping.

O primeiro-ministro islandês, Sigmundur Gunnlaugsson, viu-se obrigado a renunciar após a descoberta de que mantinha uma offshore em sociedade com a mulher.

Depois de uma entrevista desastrada a um canal de tevê, na qual emudeceu diante das perguntas dos repórteres e encerrou a conversa sem maiores explicações, Gunnlaugsson foi pressionado pelo partido e por protestos de eleitores.

Na América Latina, o nome de maior destaque é o do presidente da Argentina, Mauricio Macri. Dono de duas offshore abertas nos anos 1980, Macri afirma que as operações foram legais e tratavam de uma sociedade com o pai.

Embora os 11,5 milhões de documentos vazados possibilitem a todos entender melhor como funciona o esquema de lavagem de dinheiro no mundo, a atuação da Mossack & Fonseca não é propriamente uma novidade.

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O primeiro-ministro islandês renunciou. Macri não se abala e Putin tem amigos na lista suja
Foto: Halldor Kolbeins/AFP, Juan Mabromata/AFP e Ivan Sekretarev/AFP
O escritório, fundado em 1977 pelo alemão Jurgen Mossack e o panamenho Ramón Fonseca, à época vice-presidente do país, estendeu seus serviços por mais de 40 países.

Em 2014, o jornalista norte-americano Ken Silverstein reconstruiu a história da Mossack & Fonseca e suas relações com ditadores, traficantes e criminosos diversos.

Rami Makhlouf, o homem mais rico da Síria, descreve Silverstein, valeu-se da empresa panamenha para esconder dinheiro sujo do ditador Bashar al-Assad. Muammar Kaddafi, que dominava a Líbia com mão de ferro, e Robert Mugabe, do Zimbábue, também foram clientes.

Os Panama Papers, pelo que se viu até o momento, tendem a se tornar um escândalo de maior proporção do que o vazamento das contas da filial suíça do banco britânico HSBC. Mas, no Brasil atual, como diria o juiz Moro, “não vem ao caso”.

A rede criminosa da Mossack é grande e em outros momentos, curiosamente, chegou a ser alvo de interesse da Lava Jato. Foi quando identificou que a lavanderia panamenha foi responsável pela abertura das offshore em nome do ex-diretor da Petrobras Renato Duque e o lobista Mário Góes.

Todos foram presos e cumprem ou cumpriram longas prisões preventivas até delatar tudo o que sabiam ou até desconheciam.

Caberá ao Conselho Nacional de Justiça, ao Conselho Nacional do Ministério Público e ao Supremo Tribunal Federal, se provocados, se manifestarem sobre tais “peculiaridades” judiciais de Curitiba.

Outro lado: a resposta do Grupo Globo

1- Existe alguma relação entre os proprietários do Grupo Globo e a empresa Agropecuaria Veine Patrimonial?

Não. Os proprietários do Grupo Globo não são donos dessa empresa.

2 - Existe alguma relação entre a offshore Vaincre LCC e Paula Marinho Azevedo?

Paula Marinho não é proprietária dessa empresa, direta ou indiretamente. O responsável por essa empresa é o ex-marido de Paula Marinho.

3 - Existe alguma relação entre a Glem Participações e Paula Marinho Azevedo?

Paula Marinho não é e nunca foi proprietária dessa empresa. A empresa é de propriedade da família do ex-marido de Paula Marinho.

4 - Um contrato do helicóptero Agusta A-109, matrícula PT-DAS, tem como endereço de correspondência a Glem Participações. Paula foi fiadora do termo entre o Estado do Rio e a Glem Participações para a concessão do estádio de remo na Lagoa Rodrigues de Freitas. Qual a relação dela com o helicóptero e com a empresa?

O helicóptero que teve as documentações expostas não pertence e nem é utilizado pela família ou pelo Grupo Globo. Quanto à fiança, se operou na época em que esteve casada, a pedido do então marido.

5 - Um heliponto em Paraty foi registrado em nome da Agricultura Veine com o direito de uso de tal aeronave acima mencionada. O ex-marido dela fez ou faz uso da aeronave? Qual a relação de Paula com este heliponto?

O Grupo Globo não tem relações com essa empresa nem com o heliponto. O possuidor da aeronave é o ex-marido de Paula.

6 - Tal heliponto fica em uma praia e presta serviço a uma residência a beira mar. Qual a relação da propriedade com a empresária?

O Grupo Globo informa que a citada casa não pertence e nunca pertenceu a qualquer membro da família Marinho.

7 - Segundo o jornal holandês deVerdieping Trouw, documentos revelam que a emissora teria usado empresas de fechada para pagar intermediários em direitos de transmissão da Libertadores da América. Qual o posicionamento da empresa?

A Globo adquiriu os direitos de transmissão da Copa Libertadores da América da empresa detentora e autorizada a cedê-los. Toda a movimentação financeira foi registrada e realizada via Banco Central e todos os impostos recolhidos conforme a regulação vigente.

Henrique Beirangê
No CartaCapital
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Quem criou o site de difamação Folha Política, no centro do caso Sakamoto, e por que eles se escondem

Ernani e um de seus colaboradores do “Folha Política”
Esta matéria, já publicada anteriormente, está voltando ao ar à luz do caso de difamação de Leonardo Sakamoto. Documentos sugerem que as empresas JBS e 4Buzz promoveram um anúncio pago no Google com um texto de um extremista chamado Leonardo Ayan, abrigado no site Folha Política, acusando o jornalista de corrupção. 

O site de direita Folha Política é um dos maiores propagadores de boatos e desinformação da internet. Seus artigos, em sua grande maioria, ou são anônimos ou assinados por uma certa Lígia Ferreira. Outros são republicados de sites indigentes como o Ceticismo Político, de um certo Luciano Ayan, ou Luciano Henrique, uma figura sinistra, sem passado e sem futuro, paranoico de guerra fria.

Kim Kataguiri, do MBL, hoje colunista da Folha, foi um dos apresentadores dos vídeos.

Mas o idealizador daquilo se chama Ernani Fernandes. Ele era estudante de Direito em maio de 2013, quando escreveu alguns textos atacando o número de ministérios da gestão de Dilma Rousseff.

Fernandes é um dos fundadores do Movimento Contra Corrupção, o MCC, e deu uma entrevista na mesma época, há quase dois anos, defendendo a criação de um veículo de comunicação novo. “[Existe o] caráter tendencioso dos meios de comunicação, aventando a necessidade de uma forma de divulgação de informações isenta”, disse.

O MCC foi criado na época das eleições municipais de São Paulo em 2012 e não apoiou nenhum candidato, criticando inclusive José Serra e Celso Russomanno. No entanto, a partir do ano seguinte, passou a centrar fogo nos petistas.

No site do MCC, há um link de recomendação para a Folha Política. Já na Folha Política, não há nenhum link mencionando o Movimento Contra a Corrupção que a apoia.

Uma leitora do DCM trouxe dados interessantes do site Who.is, que mostra informações sobre registros dos endereços na internet através de dados da instituição americana ICANN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers). Os dados da Folha Política estão ocultos e foram registrados no dia 7 de maio de 2013, na mesma época da entrevista do MCC. O domínio é de Queensland, na Austrália.

Por que um endereço de internet fora do Brasil? Gravataí Merengue, do blog Implicante, diz que faz isso por causa da “exposição indevida que domínios no Brasil (.br) apresentam”. O mesmo blogueiro acusado de receber 70 mil reais do governo Alckmin alega que a opção pelo .org é para obter com mais facilidade a privacidade dentro de solo americano e reduzir custos.

É realmente mais barato lá fora, mas estes sites buscam registros no exterior para não ter que se explicar na Justiça brasileira ou segundo os preceitos do Marco Civil da Internet aprovado no país. A Folha Política parece adotar o mesmo procedimento do Implicante nesse aspecto.

Se você digitar o endereço do site do Movimento Contra Corrupção, o mesmo domínio de Nobby Beach, em Queensland, aparece sem um dono do registro ocultado a pedido dos proprietários. No entanto, o LinkedIn de Ernani Fernandes o liga aos dois sites.

Ele seria administrador de um grupo empresarial chamado Raposo Fernandes. Essa companhia teria uma “escola filosófica” para ensino de humanidades com site próprio. Se você acessar a fanpage no Facebook desta instituição, o que encontra? Textos da Folha Política.

Procurando pelo Who.is da escola filosófica, encontramos como proprietário o nome de Ernani Fernandes Barbosa Neto com um domínio em São Paulo.

Outro autor apareceu em maio de 2013. Seu nome é Allan Carvalho e ele se define como estudante de administração e coordenador nacional do Movimento Contra Corrupção.

O DCM tentou falar com Ernani Fernandes. Por email, perguntamos se a Folha serve como veículo de informação do MCC, se ele realmente é o fundador, quem é o editor, por que não há autores identificados na maioria dos artigos e se eles temem processos. Até o momento da publicação deste texto, ele não nos respondeu.

Em mais de dois anos no ar, o site Folha Política pratica antijornalismo a serviço de uma milícia política. O MCC não tem coragem de se assumir tucano ou pró-PSDB, mesmo fazendo apenas críticas antipetistas. A estrutura desta rede de difamações é um mistério, mas está serviço de alimentar o ódio nas redes sociais para colher frutos.



Pedro Zambarda de Araujo
No DCM
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Em coletiva de José Eduardo Cardozo diz que processo de impedimento não tem provas contra a presidenta


Nesta sexta-feira (8), o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, concedeu entrevista coletiva. Cardozo rebateu pontos do relatório da Comissão Especial de Impeachment na Câmara dos Deputados, destacando que faltam provas no processo contra a presidenta. Cardozo também ressaltou que não há base constitucional para o mesmo processo.

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Mulher invade link de telejornal e grita: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”


Episódio ocorreu nesta quinta-feira, durante transmissão ao vivo do SPTV – 1ª edição. Confira o vídeo

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Dia da Terra Palestina — Programa Desacato Entrevista — assista


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O Cargueiro e as Hidrelétricas



O céu era “de brigadeiro”.

Mas, para a maior parte da mídia passou em brancas nuvens a apresentação do novo cargueiro militar KC-390 da EMBRAER à Presidente da República, ao Ministro da Defesa, Aldo Rebelo, e ao Ministro da Aeronaútica, Nivaldo Luiz Rossato, após viagem de Gavião Peixoto à Capital Federal, nesta semana, na Base Aérea de Brasília.

E, no entanto, tratava-se apenas da maior aeronave já construída no Brasil, com capacidade de transporte de blindados, de brigadas de paraquedistas, de operar como avião-tanque para reabastecimento aéreo de caças, ou como unidade de salvamento, em um projeto que custou 7 bilhões de reais, em grande parte financiado pelo Governo Federal, que teve também participação minoritária de outros países, como Portugal, Argentina e a República Tcheca, destinada a substituir, no mercado internacional, nada menos que o Hércules C-130 norte-americano.

A mesma indiferença, para não dizer, desprezo, ou deliberada desinformação, ocorreu com o início do processo de geração da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, a terceira maior do mundo, com capacidade de 11.000 megawatts, na semana passada.

Ou com a hidrelétrica de Santo Antônio, situada no Rio Madeira, em Rondônia, a quarta maior do país, que colocou em operação sua 39ª turbina geradora há alguns dias.

Como sempre se dá com os grandes projetos erguidos nos últimos 13 anos neste país — e põe obra nisso — escolheu-se dar atenção, prioridade e divulgação preferencial a aspectos negativos, discutíveis e polêmicos como eventuais “estouros” de orçamento, atrasos ou suspeita de corrupção, do que às próprias obras.

Projetos que, depois de prontos, passarão a pertencer, inexoravelmente, ao patrimônio nacional e ao domínio do concreto, da realidade — e que, querendo ou não seus detratores — continuarão, agora e no futuro, beneficiando o país com mais empregos, mais energia, melhora no nível tecnológico de nossa indústria bélica e aeroespacial e da capacidade de defesa da Nação.

Bom mesmo, para essa gente, deve ter sido o governo do Sr. Fernando Henrique Cardoso, que, segundo o Banco Mundial, conseguiu encolher o PIB e a renda per capita do Brasil em dólares nos oito anos em que permaneceu à frente do Palácio do Planalto, aumentou a carga tributária em vários pontos percentuais e duplicou a relação dívida líquida-PIB, além de deixar uma dívida de dezenas de bilhões de dólares o FMI, sendo obrigado a racionar energia por falta de investimentos na geração de eletricidade — além de deixar que desaparecessem empresas como a ENGESA, sem forjar um simples parafuso para as forças armadas.

Naquele tempo não se discutia a suspeita de irregularidades na construção de usinas, refinarias, plataformas de petróleo, gigantescos sistemas de irrigação e saneamento, ferrovias, tanques, submarinos — até mesmo atômicos — usinas nucleares, estádios, aviões, mísseis, porque não se fazia quase nada disso em nosso país, e, quando havia encomendas, poucas, eram para o exterior, e não para aqui dentro.

Aludia-se, sim — muito timidamente com relação ao que se faz hoje — à possibilidade da existência de irregularidades na compra da emenda da reeleição no Congresso; e na sabotagem, esquartejamento, destruição, por exemplo, de grandes empresas nacionais, algumas delas centenárias, a maioria estratégicas, para sua entrega, a preço de banana, para estrangeiros, com financiamento farto, subsidiado, do BNDES.

Lembrando George Orwell — em seu inesquecível e cada vez mais atual “1984” — o Ministério da Verdade, ou Miniver, em “novilíngua” — formado pela parte mais seletiva, parcial, ideologicamente engajada e entreguista da mídia brasileira - pode fazer o que quiser — um diário chegou a trocar a foto de Dilma na cabine do KC-390, por outra, menos “favorável”, em pleno processo de impressão da tiragem do dia seguinte ao fato — que não se conseguirá derrubar obras como Belo Monte, Telles Pires, Santo Antônio, ou Jirau, ou o novo trecho da ferrovia norte-sul, que já leva soja de Anápolis ao Porto de Itaqui, no Maranhão, ou paralisar — com a desculpa de que vão dar ou deram prejuízo (prejuízo contábil, virtual, não interessa, afinal, dinheiro se necessário, como fazem os EUA, se fabrica), como se não bastassem o 1 trilhão e 500 bilhões de reais em reservas internacionais que o Brasil possui — a construção da Transposição do São Francisco ou a expansão da refinaria Abreu e Lima, que já está processando, em sua primeira fase, cerca de 100.000 barris de petróleo por dia.

As obras e as armas construídas, para o Brasil, como os fuzis de assalto IA-2, ou os radares SABER, ou o Sistema Astros 2020 — até mesmo porque as Forças Armadas não vão permitir que esses programas venham a ser destruídos e sucateados - vão ficar, por mais que muitos queiram que elas desapareçam em pleno ar, em uma nuvem de fumaça ou nunca venham a ser vistos em um livro de história.

Et latrare canes caravanis transit — ouviu, certa vez um romano, em um ponto qualquer da rota da seda, entre as dunas do deserto do Saara.

O calendário da pátria não se mede com o ponteiro fugaz das vaidades humanas.

O que importa para o Brasil é o que fica.

No futuro, o povo saberá datar essas conquistas — separando o joio do trigo — no tempo e nas circunstâncias.
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Após 80 anos de casamento, idosa com Alzheimer só reconhece marido

Genésia e Luiz Gonzaga eram primos e matrimônio aconteceu em 1936.

Casal de Piracicaba teve 15 filhos, 46 netos, 33 bisnetos e 9 tataranetos.

Casal completou 80 anos juntos em fevereiro deste ano
Foto: Laila Braghero/G1
Do alto da cama hospitalar instalada no meio da sala, dona Genésia Generina Soares de Araújo, de 97 anos, espia o marido pelo canto do olho direito enquanto ele fala sobre quando construiu uma casinha de barro para os dois morarem em um sítio, no interior de Natal (RN). Com Alzheimer há 6 anos, apesar da família de 103 descendentes entre filhos, netos e até tataranetos, ela só reconhece o centenário Luiz Gonzaga de Araújo, com quem se casou há 8 décadas.

A união do casal aconteceu em 1936. Ela era de família com melhores condições financeiras, mas não se importou em mudar para um lugar mais simples com o companheiro. Foram morar na casa que Luiz ergueu na propriedade do pai dele e viveram lá por cinco anos.

Por baixo dos óculos miúdos, a mulher magrinha reconhece o esposo pela voz e pelo arrastar do andador até a poltrona que fica ao lado da cama dela, na residência com quintal amplo do bairro Vale do Sol, em Piracicaba (SP), onde moram desde os anos 1980.

A família conta que a ex-costureira foi diagnosticada com Alzheimer 4 anos depois de um Acidente Vascular Cerebral (AVC) que paralisou o braço direito, mas nunca esqueceu o amor da vida dela.

– Quem é seu marido? – pergunta a filha caçula, professora Rita Maria de Araújo, de 56 anos, enquanto reclina o encosto da cama na posição vertical para a mãe sentar.

– Luiz Gonzaga – responde a idosa.

Casal completa 80 anos em Piracicaba 2 (Foto: Laila Braghero/G1)
Aos 100 anos, aposentado recorda os anos vividos
ao lado de dona Genésia

Foto: Laila Braghero/G1
A união

Luiz se apaixonou pela prima aos 20 anos. Ela tinha 18. Hoje, o agricultor aposentado soma um século de histórias para contar, entre elas o dia do casamento, fato vivo na memória como se fosse ontem, mas que na realidade ocorreu em 25 de fevereiro de 1936, em Florânia (RN).

A festa que oficializou a união do casal foi embalada por sanfonas e muita dança, para fazer jus ao xará do Rei do Baião (Luiz Gonzaga do Nascimento).

Grande família

Seu Luiz e Genésia tiveram 15 filhos. As 6 primeiras meninas morreram ainda bebês, vítimas da falta de informações médicas no Nordeste daquela época. Mas os demais, outras 6 meninas e 3 meninos, não só "vingaram" como deram ao casal 46 netos, 33 bisnetos e 9 tataranetos.

Já adultos, os filhos convenceram os pais a se mudarem para Piracicaba em 1986. A família toda migrou para o interior de São Paulo e nunca mais voltou para o Rio Grande do Norte. Foi na cidade paulista que o aposentado comemorou os 100 anos, em junho do ano passado. A festa reuniu quase 200 pessoas.

Alzheimer x convivência

O neurologista Márcio Balthazar, professor da Unicamp, disse que o fato de Genésia ainda reconhecer o marido entre tantos outros familiares e amigos pode ser atribuído à relação próxima entre eles, à convivência e às muitas conversas diárias ao longo dos anos.

"A princípio as pessoas não reconhecem o companheiro mesmo, mas quanto mais intimidade melhor. Quanto mais contato tiver com o outro, melhor." Ele ressaltou também que o Alzheimer é uma doença que afeta primeiro as lembranças recentes.

Segundo o professor, há casos em que a mãe ou pai não reconhece mais o filho pois só lembra dele quando criança. "Vê um barbudo, uma pessoa mais velha chamando de filho, causa estranheza. É mais fácil achar que o neto é filho." O especialista ainda afirmou que o mesmo pode acontecer entre casais. "Às vezes, a paciente confunde o marido com o pai."

Casal completa 80 anos em Piracicaba 5 (Foto: Laila Braghero/G1)
Seu Luiz Gonzaga sempre chegava em casa com um flor para a esposa
Foto: Laila Braghero/G1
80 anos juntos

As oito décadas de matrimônio reluzem na mente de seu Luiz como fagulhas embaralhadas pelo peso de seu centenário e saem como peças de um quebra-cabeça. A filha Rita é responsável pela montagem desses fragmentos para facilitar o entendimento inclusive entre o próprio casal.

Com olhos marejados à sombra do chapéu, o idoso recorda como a mulher era "trabalhadeira" e deu conta dos estudos dos herdeiros sozinha. "Uma vez passei seis meses aqui para tratar de uma infecção e seis meses na estrada de Minas. Cheguei no Nordeste e ela tinha cuidado de tudo na casa. Não levei um centavo, porque eu não tinha, e ainda voltei e estava tudo certo."

"Nós todos estudamos por conta dela", confirmou Rita. "Meu pai vivia na roça, trabalhando, e ela tomava conta da gente. Fazia de tudo para estudarmos." E deu certo. A caçula fez magistério e depois cursou pedagogia. "Era aquela pessoa que andava na cola da gente para estudarmos."

Saudades do diálogo

O casal sempre foi de conversar muito quando Luiz Gonzaga estava em casa. Já na velhice, todas as tardes eles passavam sentados na calçada olhando a rua e batendo papo. Chegavam a almoçar na rua, conta a filha. "Eu ainda dava aulas, então a moça que cuidava deles era orientada a dar comida fora de casa mesmo, porque eles não queriam entrar", lembrou Rita.

Aos poucos, porém, ambos se tornaram mais quietos. Nos últimos dois anos, mesmo período em que Genésia passou a ficar acamada, o silêncio começou a falar mais alto entre os dois. "Ele não aceita muito a situação dela", diz Rita.

O aposentado passa pela cama da esposa, pergunta se está tudo bem, mas não entende muito bem o que a mulher fala e sente saudades dos tempos em que a companheira tinha mais saúde.

Casal completa 80 anos em Piracicaba 4 (Foto: Laila Braghero/G1)
Rita ao lado da mãe Genésia na casa
em Piracicaba

Foto: Laila Braghero/G1
Rita acredita que ambos pioraram depois que um dos filhos morreu de câncer no intestino, há três anos. "Era o xodó da minha mãe. Quando ela pergunta dele e a gente diz que ele morreu, ela dá um suspiro. Então às vezes a gente só fala que ele saiu."

Mimos e poesia

Todos os dias, a filha enfeita os cabelos de Genésia com uma flor. A costureira sempre gostou de flores e ganhava uma cada vez que o marido voltava para casa. Ainda hoje ele a presenteia com pequenos mimos.

Outro costume de seu Luiz e que deixa a casa mais alegre é a literatura de cordel que aprendeu com o pai na infância:

"Se o poeta Laurindo fosse criança mimosa
No peito da mãe mamando, com as faces cor de rosa
No peito da mãe mamando, se ele se amamentasse
O tempo bom foi passado
Ah, se o passado voltasse"

Enquanto Luiz declama, Genésia acompanha interessada com a cabeça inclinada para o lado da poltrona onde o marido está sentado.

65 livros em um ano

O gosto da mulher pela leitura também pode ter contribuído para retardar o avanço do Alzheimer, conforme o neurologista Márcio Balthazar. De acordo com a filha, a costureira chegou a ler pelo menos 65 livros em um ano. "Quanto mais escolaridade, mais atividade mental e intelectual menores são as chances de ter a doença", afirmou o professor da Unicamp.

"Muitas vezes isso retarda o aparecimento da doença ou faz com que ela apareça de forma mais branda", completou Balthazar.

Casal completa 80 anos em Piracicaba 3 (Foto: Laila Braghero/G1)
Costureira tem Alzheimer há pelo menos 6 anos e só reconhece o marido
Foto: Laila Braghero/G1

Laila Braghero
No G1
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