2 de abr de 2016

Nota Pública de Bibi Ferreira


Todos me conhecem e sabem que nos meus 93 anos de vida nunca fui dada a emitir opiniões de cunho político.

Contudo, enquanto cidadã brasileira e mulher sinto obrigação de alertar as pessoas sobre o que está acontecendo.

Muito do que vemos é o mais puro e repugnante machismo, pois tristemente muitos conseguem cultivar a ideia de que as mulheres não são capazes de ocupar cargos de importância e por isso na primeira dificuldade já querem substituí-la. Só assim pode se explicado a falta de respeito não só com uma presidenta que obteve nas urnas mais de 54 milhões de votos e com toda população.

Querer retirá-la da presidência sem que ela tenha praticado qualquer crime é inaceitável.

É muito triste constatar que muitas pessoas não conseguem enxergar que as emissoras de TV são empresas, e como qualquer empresa, o seu compromisso maior é com quem lhe garante vultuosos recursos financeiros e não com o povo.

Confio que a presidenta representa hoje os valores da Democracia e do Estado Democrático de Direito no só não nosso querido Brasil como no mundo.

Viva a Democracia e abaixo o golpe.

Bibi Ferreira
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O deslumbramento fotográfico de Moro

Dois Moros numa foto só
Circula com intensidade neste sábado nas redes sociais uma foto postada pela senhora Moro numa página que ela criou para o marido no Facebook.

Moro a fotografa com uma máscara de Moro.

É um sintoma notável de deslumbramento, de autoembevecimento. Moro não apenas tem uma máscara dele mesmo como manda a mulher usá-la, e registra isso numa foto.

É uma foto infame, e ele não se dá conta disso, o que é pior.

Essa imagem vem numa sequência de outros desastres fotográficos de Moro. Ele não se vexou de repetidas vezes se deixar fotografar num sorriso alvar ao lado de políticos tão envolvidos no golpe em curso como João Dória.

Num país rachado em dois, ele estava demonstrando de que lado está, o que é lastimável quando se trata de um juiz.

Também não pareceu atentar para o equívoco brutal que é aceitar prêmio de uma empresa como a Globo. Mais uma vez, ele estava dizendo com quem está.

Quando, com um juiz como ele, a Globo será cobrada por múltiplas delinquências que pratica desde sempre, de sonegações a subornos para corruptos como Ricardo Teixeira e João Havelange.

Tenho para mim que parte desse enredo constrangedor vem do paroquialismo de Moro. Ele parece desconhecer o que é ser juiz em sociedades avançadas, do decoro às práticas em si.

Vivi muitos anos na Inglaterra, e jamais vi um juiz que buscasse os holofotes como se fosse personagem de coluna social.

Na Suécia, um magistrado da Suprema Corte disse à jornalista Claudia Wallin, do DCM, que sequer podia imaginar a ideia de um juiz que grampeasse conversas presidenciais e depois as vazasse para uma rede de tevê.

O Brasil já é, em si, um país provinciano. Moro é um provinciano na província.

Uma temporada no exterior provavelmente lhe fizesse bem no quesito bons modos de um magistrado.

No Brasil, ele não tem sequer uma imprensa que lhe diga como deve se comportar um juiz.

A mídia parece achar normal juízes como Gilmar Mendes, e Moro mesmo, que escancaram suas preferências políticas ao melhor modelo “bolivariano”.

Na verdade jornais e revistas estimulam Moro a fazer este tipo de coisa que ele faz — como fotografar a própria mulher com uma máscara dele.

Moro é o pior tipo de deslumbrado: o deslumbrado de si mesmo.

Para completar o quadro talvez ele pudesse fazer um dueto com Roger e cantar ‘Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim’.

Ele talvez não possa, mas o Brasil pode, e muito bem.

Paulo Nogueira
No DCM
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Dilma, uma vítima do planeta intolerância


Num programa de auditório comandado por Ary Barroso chega ao palco uma mocinha magra, com o rosto marcado pelos maus tratos da vida. O apresentador e compositor, querendo fazer graça, pergunta: “De que planeta você veio, minha filha”. De pronto a jovem candidata a cantora respondeu: “Do planeta fome, seu Ary”. Era a hoje consagrada cantora Elza Soares, que também está na campanha do “não vai ter golpe”. Se hoje alguém perguntar para a presidenta Dilma de onde ela veio, ela pode, de pronto, responder: “Vim do planeta intolerância”.

O ódio destilado contra Dilma Rousseff vem de um manancial caudaloso. Agora foi a revista(?) Isto É que dedicou uma capa eivada de intolerância e misoginia contra esta mulher tão torturada, antes fisicamente pela ditadura, hoje mentalmente pela oposição e a chamada velha mídia.

Contra a publicação, a AGU – Advocacia Geral da União vai acionar o Ministério da Justiça para que este determine abertura de inquérito para apurar crime de ofensa contra a honra da presidenta da República.

Nota da AGU sobre IstoÉ

A Advocacia-Geral da União (AGU) acionará o Ministério da Justiça para que determine a abertura de inquérito para apurar crime de ofensa contra a honra da presidenta da República cometido pela revista IstoÉ em reportagens publicadas nas duas últimas edições.

A AGU também invocará a Lei de Direito de Resposta para garantir, junto ao Poder Judiciário, o mesmo espaço destinado pela revista à difusão de informações inverídicas e acusações levianas.

Eventuais ações judiciais de reparação de danos morais também estão sob análise de advogados privados da presidenta Dilma Rousseff.

No Bem Blogado
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Os riscos do ódio

Da eventual reação à altura dos odiados, poderia nascer a intervenção para restabelecer a ordem que a Constituição prevê

Estes ministros fazem juz à proteção policial
Gervásio Baptista-STF
A secreção expelida pelas glândulas salivares da oposição na tribuna do Congresso, ou representada nas manifestações de rua, com a finalidade de fortalecer o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, é a conhecida baba do ódio que se expande e contamina com a velocidade desses vírus que azucrinam por aí.

Por que tanto ódio? A quem serve?

Esse sentimento, contido nos corações dos manifestantes contra Dilma, contra Lula e contra o PT, é a tradução do velho preconceito de classe. Isso foi percebido na contagem e recontagem das marchas dominicais onde não apareceram nem pobres nem negros. Nada, porém, ficou por aí. Mais provas sustentam a afirmação.

O ódio desdobrou-se com os “panelaços”. Neles soou o barulho estridente dos melhores alumínios à venda no mercado. Na sequência desta reação a baba do ódio alastrou-se pelos ambientes fechados. Entre vizinhos, nos restaurantes, nas escolas, em hospitais e, por fim, nas agressivas faixas empunhadas nas marchas.  

Assustou, por exemplo, aquela exibida na Avenida Paulista, poderia ser também em Copacabana, com a proposta de trocar a prisão pelo fuzilamento dos adversários.

Nas últimas semanas os manifestantes pró-impeachment, entre outras reações, partiram para infernizar a residência daqueles que se manifestam ou são reconhecidamente contrários ao golpe. A reação atinge também as autoridades. Nesse contexto o filho de Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, pagou o pato. A casa dele foi cercada, no Rio Grande do Sul, porque o pai, como se sabe, determinou ao juiz Sergio Moro a remessa, para o STF, dos autos do processo sobre Lula.

Parece brincadeira inconveniente. Mas a Polícia Federal não fez esta avaliação. Pelo sim, pelo não, ampliou a segurança de Zavascki, como tinha feito com o esquema de proteção do ministro Roberto Barroso. Essa decisão ocorreu após a avalanche de ameaças que Barroso recebeu por ter estabelecido o rito do impeachment da presidenta Dilma. Não agradou à oposição. 

As reações contra Dilma, contra Lula e contra o PT, além das subjetividades, podem ter desdobramentos mais perigosos na prática. Ou seja, confrontos diretos nas ruas. A iniciativa partiu dos grupos estimulados pelo ódio como comprovam as agressões recentes.

As oposições estimulam o ódio e aumentam a possibilidade de confrontos radicais. Isto, se ocorrer como é possível, deriva de premeditação caso vingue golpe disfarçado no pedido de impeachment que, embora previsto na Constituição, não tem a sustentação exigida. Ou seja, a arma do crime.

A troca no poder, apoiada neste inconsistente golpe parlamentar, provocará contestações.

Assim se explica o estímulo do ódio. O confronto nas ruas configura a expressão da desordem prevista no artigo 142 da Constituição. Assim, soa sinistra a afirmação cautelosa do general Eduardo Villas Bôas. As Forças Armadas, tem repetido ele, só atuarão se “absolutamente respaldadas” pela Constituição.

Maurício Dias
No CartaCapital
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Jefferson antecipa o que seria a rotina da família Cunha na prisão


O ex-deputado Roberto Jefferson, que deve reassumir ainda este mês o comando do PTB, faz um alerta, em entrevista à jornalista Luciana Nunes Leal, sobre o que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), poderá enfrentar na prisão.

"Minha preocupação é que a prisão humilha muito. Para ele a situação vai complicar. Vai levantar de manhã cedo, chinelo de dedo, bermuda azul, camiseta branca. Está lá no coletivo dos presos, aquele cheiro de gente doente, com tuberculose, com Aids. Banheiro com cheiro terrível, banho frio. De manhã cedo, todo mundo em fila. 'Senhor Roberto Jefferson!'. 'Presente, senhor'. Cabeça baixa, mão para trás. De noite, o 'confere', aquela averiguação que se faz. É duro. Dinheiro contadinho, R$ 100 por semana para comprar na cantina. E quem tem R$ 100 tem que comprar para todo mundo. Se furar a bola, tem que dar uma bola nova. Tem que aturar isso. Limpar privada, varrer o chão", relata.

Jefferson se diz preocupado com o que a esposa e filhas do Cunha poderão enfrentar: "O que me preocupa são as filhas e a esposa, mulheres bonitas, cheirosas, entram lá naquele meio, vão ser assediadas. Vão acordar com aquelas mulheres deitadas na cama, vão apanhar na cara, vão denunciar, vão apanhar de novo. O cara vai ter que aturar isso. O ambiente prisional é muito duro, muito triste, muito pesado. O cara não pode expor a esposa, a filha. Não ataca a Justiça, não ataca o Ministério Público. Respeita. O cara tem 20 contas no exterior, nunca declarou. Gastos milionários em cartão de crédito. Traz para si, tira a esposa e a filha. Ele não pode permitir a filha e a esposa passarem por isso".

No 247
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Vídeo do Lula a Temer e Cunha: não vai ter Golpe


"O Brasil não pode voltar ao tempo que eles governaram"


No CAf
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Ex-ajudante de Alckmin e dono do Endireita Brasil ameaça integridade de Ciro Gomes


O Movimento Endireita Brasil tem história dentro do governo Alckmin. É seu fundador e mentor o advogado Ricardo Salles, que foi braço direito de Geraldo Alckmin. E que ficou dentro do Palácio dos Bandeirantes, cuidando da agenda do governador tucano, por algum tempo. O moço fez tantas trapalhadas que até na Folha pediram sua cabeça.

O MEB se diz um movimento político válido. Os princípios espalhados pelo movimento em questão são aqueles que exaltam o golpe militar de 1964, espalha mentiras na internet, fomenta o ódio, instila uma nova leva de descontentes que não tem ética, nem norte, nem ideologia e nem critério.

O Ricardo Salles, escudado como MEB, já soltou pérolas na internet, espalhada por sua massa de seguidores, de que Lula teria uma fortuna estimada em US$ 3 bilhões e de que a boate Kiss, por exemplo, era de um deputado petista. Insanidades jogadas aos montes para alimentar um ódio sem precedentes na história da democracia deste país.

Agora, a bola da vez é Ciro Gomes. O movimento de ultradireita de Salles está oferecendo de comprar vídeos de quem desacatar e gravar. Deu, no Facebook, a localização de Ciro Gomes, e ofereceu a recompensa por gravações de hostilizações que ele possa sofrer. Oferece muito mais caso Lula passe por isso dentro dos "limites" da lei.

Até quando isso será permitido? Não existe poder nenhum para barrar a ação criminosa deste ser de ultradireita? O próximo passo será oferecer uma grana para quem machucar petista? Desde quando a nossa Constituição prevê este tipo de desrespeito? A OAB não visualiza essas maluquices feitas por advogados?  

O dono do Movimento Endireita Brasil ficou algumas semanas como secretário particular de Geraldo Alckmin e, saído do governo, se dizia Secretário de Alckmin para fazer lobby. Parece que viveu disso algum tempo, ou ainda vive. Seu discurso recorrente é a defesa da ditadura militar, em verso e prosa.


Lourdes Nassif
No GGN
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Operação “Carbono14″: mandados ficaram um mês na gaveta. Por quê?

Um detalhe, nada insignificante, nesta 27ª fase da Operação Lava Jato vem corroborar uma desconfiança forte em Brasília de que o juiz Sérgio Moro joga politicamente com esta investigação.

Os mandados utilizados nesta sexta-feira (01/04) estavam assinados desde 15 de fevereiro e ficaram guardados em alguma gaveta. Por quê?

Talvez não tenha sido mera coincidência o fato de a Operação Carbono 14, que mais uma vez tem como alvo o Partido dos Trabalhadores (PT) – inclusive remexendo em um caso mal esclarecido até o momento -, ter ocorrido no dia seguinte à sessão em que o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a decisão do ministro Teori Zavascki de avocar para a corte as investigações em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Agora, mesmo sem poder investigar Lula por conta do sítio de Atibaia, Moro continua em cima do PT através do Caso Celso Daniel e das propinas que o ex-secretário do partido, Sílvio Rodrigues, teria recebido. Tudo girando sempre em torno do desvio de verbas dos contratos da Petrobras, segundo as justificativas dos operadores da Lava Jato. A grande curiosidade é com relação a datas.
Os mandados para a operação desta sexta-feira (01/04) foram assinados pelo juiz Sérgio Moro em 15 de fevereiro e revistos no dia 22 do mesmo mês. Apesar disso, sem qualquer explicação plausível, eles só foram cumpridos agora, decorridos 39 dias. Em Brasília, acredita-se que o juiz está jogando com as operações politicamente.
O fato de os mandados terem ficado guardados por tanto tempo e utilizados, por coincidência ou estratégia, um dia depois da sessão do STF e das manifestações pró-Dilma, chamou a atenção de autoridade do governo. Agora, se buscará saber se foi mera coincidência ou se faz parte de uma estratégia para se ganhar espaço na mídia, abafar o noticiário desfavorável e manter mobilizada a opinião pública.

O objetivo por detrás desta estratégia seria de manter a opinião pública como aliada dos operadores da Lava Jato, ainda que gerando grandes risco de conflito. Inclusive com agressões até a ministros do STF, como ocorreu com Teori Zavascki. Isso já vem sendo admitido naquela corte. Ali, o próprio ministro Marco Aurélio, na sessão de quinta-feira, ao criticar a divulgação do conteúdo dos grampos usou uma expressão direta que não deixa de demonstrar a suspeita com relação às atitudes do juiz. Na sua manifestação, acusou Moro dizendo que ele:
“colocou mais lenha em uma fogueira cuja chama já estava muito alta, em prejuízo da paz social e da segurança jurídica”.


O decano da corte, Celso de Mello, foi mais comedido, mas também cutucou Moro com relação à preocupação do juiz em satisfazer a opinião pública. Ele lertou que  o dever de proteção constitucional precisa ser respeitado “mesmo que o clamor popular se manifeste contrariamente”.

Breno Altman: “O Brasil não pode aceitar que um estado policial se
desenvolva nas entranhas de nossas instituições democráticas”.
Foto Reprodução JortnalGGN
Condução coercitiva novamente

Independentemente da questão da data e coincidência com as manifestações pró-Dilma, nessa 27ª fase a equipe da Lava Jato voltou a utilizar o expediente da condução coercitiva. O ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares e o jornalista Breno Altman, também colaborador do partido — não se sabe se como testemunhas ou suspeitos — foram forçados a acompanhar os agentes para prestarem depoimento. Isto sem que eles, antes, tenham sido intimados. Legalmente, a condução coercitiva só pode acontecer depois que a testemunha – jamais o suspeito – recusar-se duas vezes a cumprir intimações.

No artigo/depoimento que Breno Altamn escreveu no JornalGGN de Luis Nassif. — Operação Lava Jato esculacha a Constituição ,— ele corrobora a hipótese do uso político das operações:

Sou apenas mais um dos alvos deste tornado antidemocrático.

Não foi apresentada, durante o interrogatório, qualquer prova ou indício de meu eventual envolvimento no caso investigado, de suposto empréstimo ao empresário Ronan Maria Pinto.

A falta de solidez na inquirição também se revela, por exemplo, pelas perguntas que diziam respeito às atividades de antiga editora da minha propriedade, fechada há quase vinte anos, com indagações até sobre o tipo de livros que publicávamos, e à doação eleitoral de dois mil reais que fiz, em 2006, a Renato Cinco, então candidato a deputado estadual pelo PSOL do Rio de Janeiro.

O que importava, afinal, era a criação de fato político que realimentasse tanto a Operação Lava Jato quanto a ofensiva por um golpe parlamentar contra a presidente da República“.

Marcelo Auler
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Como Mírian Dutra fala da Brasif, do DNA, da Globo etc

Miriam em Cerdaña, fronteira da Espanha com a França
Quinta-feira, 31 de março, o jornalista Mário Sérgio Conti apresenta Fernando Henrique Cardoso para sua audiência na Globonews:



— O nosso entrevistado de hoje dispensa apresentação. É um dos intelectuais e políticos mais respeitados do país e no exterior. É uma referência para os brasileiros, sobretudo nestes momentos de crise. É um elder statesman (velho estadista). Vamos ver quem é.

Rolam na tela imagens do ex-presidente e os dois voltam para tratar dos temas da noite: Lava Jato e impeachment.

Nada de Mírian Dutra, nada da Brasif.

Domingo, 20 de março. Mírian Dutra está em Cerdaña, perto da fronteira da Espanha com a França, e me dá entrevista. No caminho até o hotel, em meio a montanhas com neve, ela para num posto de combustível e abastece o carro. “Aqui não tem mordomia, não”, comenta.

Mírian fala sobre Mário Sérgio Conti e Fernando Henrique Cardoso:

— O Fernando Henrique deve um grande favor ao Mário sergio Conti. A nota que o Mário Sérgio publicou na coluna Veja em 1991 é simplesmente uma mentira.

A nota diz que Mírian Dutra, “conhecida pelas reportagens que faz para o Jornal Nacional”, havia trocado o clima seco de Brasília por uma temporada de inverno em Santa Catarina. Em seguida, conta que Mírian espera um filho e que o pai é um biólogo.

Mírian conta a mesma história para uma amiga, a publicitária Glória Maria Campamá, com quem está reunida em Barcelona.

As duas não se vêem há bastante tempo, depois que Mírian se mudou para Madri. Glória, que nasceu na Catalunha e é mãe de um dos melhores amigos do filho de Mírian, os dois na faixa dos 25 anos de idade, ouve atentamente. Mírian explica:

— Veja é uma importante revista do Brasil. É como a Época — diz ela, em referência a uma publicação da Espanha.

Glória não esconde a surpresa, e Mírian diz que quem armou com o então diretor de redação da maior revista do Brasil a publicação de uma fraude pode muito bem ter armado um exame de DNA.

Na conversa com a amiga, Mírian Dutra fazia referência a um episódio de 2011, quando Fernando Henrique Cardoso divulgou à imprensa que se submetera a dois exames nos Estados Unidos, e o resultado foi negativo para a paternidade do filho de Mírian.

Mesmo assim, informou à época Fernando Henrique à imprensa, ele continuaria a atender às necessidades materiais e afetivas do filho da ex-namorada, inclusive mantendo o reconhecimento de Tomás como filho, que teria feito na Espanha no ano de 2009.

Mas, no cartório onde Tomás foi registrado, o 1º Ofício de Brasília, a certidão de nascimento obtida no último dia 24 de fevereiro pelo jornalista Fernando Molica, da coluna Informe do Dia, registra Tomás Dutra Schmidt como filho de Mírian Dutra e de pai desconhecido.

Enquanto conversa com Glória, Mírian está com os olhos marejados, e esses fatos seriam de absoluta privacidade não tivesse Fernando Henrique Cardoso movimentado uma máquina poderosa para encobrir seu relacionamento com Mírian Dutra e o filho, durante os anos em que foi presidente da república, com o apoio de empresas de comunicação e concessionárias do governo federal.

Mírian, Glória e eu estamos no bar do Hotel Villa Emilia. Mírian vê que o cãozinho Chico, sua companhia de alguns anos para cá, precisa dar uma volta e pede licença. Glória me conta que Mírian viveu anos difíceis em Barcelona. “Ele queria trabalhar, mas a empresa (Globo) pagava e ela não produzia nada. Isso deprime qualquer um”, comenta.

Glória diz ainda que o mercado de comunicação no Brasil é estranho.

Como funcionária de uma agência de publicidade em Barcelona, diz que a empresa, multinacional, tem negócios na Argentina, na Colômbia e no México, mas não consegue entrar no Brasil. “No seu País, a Globo dá as cartas”, afirma.

Glória diz também que seu filho mais velho, que hoje mora no Canadá, esteve com Fernando Henrique Cardoso, numa visita que ele fez a Tomás em Barcelona.

— O Tomás, na época criança, queria muito que os amigos conhecessem Fernando Henrique, mas ele não queria que vissem o presidente, mas o pai. E como Tomás estava feliz – diz Glória.

Mírian retorna com Chico e pede ao garçom mais uma cesta de pão. Ela quer alimentar o cachorrinho com pequenos pedaços de miolo.

— Sabe como eu soube do DNA? Eu estava em São Paulo para acompanhar minha irmã, que estava com câncer, ao hospital. Fernando Henrique soube que eu iria para lá e pediu para me encontrar com ele num hotel no Morumbi.

Segundo ela, Fernando Henrique chegou com dois seguranças, sentou-se numa mesa, lhe entregou um envelope e disse:

— Tomás não é meu filho.

— Não, então é de quem? Do biólogo?

— Fiz dois exames, e deram negativo – teria dito Fernando Henrique.

Mírian diz que ficou sem reação.

— O hotel estava cheio de gente e ele estava com dois seguranças.

A conversa não demorou muito. Ele teria pegado o exame de volta, se levantou e saiu.

Mírian recorda que, à noite, enquanto jantava num restaurante do Itaim com a irmã, começou a chorar.

A irmã achou que era por causa da doença dela e procurou tranquilizá-la:

— Eu vou superar.

Mírian, então, revelou:

— O Fernando Henrique me mostrou um exame de DNA e disse que Tomás não é filho dele.

Mírian, que diz ter tido sempre um relacionamento tenso com Margrit Dutra Schimidt, conta que viu a irmã baixar a cabeça e dizer:

— Eu já sabia… Que vergonha…

Como sabia?

Mírian diz que Margrit foi uma das pessoas que, a pedido de Fernando Henrique Cardoso ou de José Serra (grande amigo dela e de Fernando Henrique), pediram que Mírian não levasse adiante a gravidez.

— Mas, depois que o Tomás nasceu, ela gostava de ser conhecida como a cunhadinha do Brasil.

Nesse ponto da conversa, Mírian muda a expressão e diz que a irmã era sócia do marido (já falecido) na empresa de lobby Polimídia. “Com a história do filho de Mírian Dutra, as portas se abriam para ela e minha irmã ganhou muito dinheiro”, diz e sugere que se investigue o patrimônio da irmã: “Ela era funcionária da UNB (Universidade Federal de Brasília), não tinha nada e hoje tem conta no Canadá e muitos imóveis.”

mirian - certidão tomas

Margrit Dutra Shimidt tem hoje um cargo comissionado no gabinete de José Serra, no Senado, mas quase não é vista por lá.

Com a notícia do DNA, Mírian procurou o filho e quis saber por que ele fez o exame sem o conhecimento dela:

— O Tomás não tinha ideia do que significava aquilo e falou: ‘Ah, mãe, não é definitivo.’

Mírian achou que ela, Fernando Henrique e Tomás, deveriam ter uma conversa, e se encontraram no hotel Palace, de Madri.

— Eu estava no meu território e a conversa foi dura. Acho que tinha caído a ficha do Tomás. Ele queria saber se eu tinha me relacionado com outra pessoa e eu respondi: tive, sim, com o porteiro. Claro que não, Tomás!

Enquanto mãe e filho discutiam, Mírian Dutra diz que Fernando Henrique chorou.

Mírian conta que também procurou um antigo terapeuta em Brasília, com quem fez psicanálise durante os seis anos de namoro com Fernando Henrique, para saber se, na ficha dela, constava alguma referência a um caso com outra pessoa.

— Eu fiquei tão confusa que achei que eu pudesse mesmo ter tido outro relacionamento e bloqueado isso por algum motivo. Meu terapeuta ficou de procurar as anotações no arquivo morto e, depois de alguns dias, me ligou para dizer que a coisa mais importante que tinha achado era uma referência à troca de medicamento para dormir. Não tinha nada.

Em agosto de 2014, seu advogado no Brasil, José Diogo Bastos, notificou duas vezes Fernando Henrique Cardoso para apresentar os documentos de reconhecimento de Tomás como filho e o resultado dos DNAs.

Fernando Henrique, que assina uma das notificações — a outra é assinada por uma secretária do Instituto Fernando Henrique Cardoso —, não respondeu. Em janeiro de 2015, ele concluiu a compra de um apartamento para Tomás, por 200 mil euros, perto da Universidade de Barcelona, onde o jovem faz pós-graduação.

Telefonei para Tomás, mas ele não quis falar. Disse que um dia, quando “tudo isso passar”, poderia dar entrevista. Procurei também Fernando Henrique Cardoso. A chefe de gabinete do Instituto FHC, Helena Maria Gasparian, retornou minha ligação e disse que tentaria marcar uma conversa. Caso a entrevista pessoal não fosse possível, propus enviar perguntas por escrito, mas não tive resposta.

Mírian diz que hoje estuda processar o ex-namorado, por danos morais, particularmente porque diz que sempre quis fazer o exame de DNA, mas ele recusou.

— Na maternidade, quando Tomás nasceu, ele me telefonou e eu disse que ele deveria fazer o DNA. Ele não quis, esperou meu filho ficar maior de idade e estar bem longe de mim — quando o exame foi feito, Tomás estudava nos Estados Unidos, com dinheiro de Fernando Henrique Cardoso.

Segundo Mírian, foi Fernando Henrique quem contou a Tomás que o resultado do DNA deu negativo. “Ainda que fosse verdade, e não é, ele deveria conversar comigo primeiro e depois falar com o Tomás”, diz.

A tragédia da família Dutra se mistura a situações em que é difícil separar o assunto público do privado. Nos anos em que considera seu exílio na Europa, com salário da Globo e o dinheiro de um contrato fictício da Brasif, ela teria questionado Fernando Henrique quando a Brasif, empresa concessionária do governo federal, parou de transferir dinheiro — eram 3 mil dólares por mês.

— O Fernando Henrique disse: é claro, eu coloquei 100 mil dólares lá, e esse dinheiro já acabou.

A família não deixou de receber recursos, mas a Brasif, segundo Mírian, deixou de ser o canal. Ela diz guardar todos os registros de transferência de dinheiro — da Brasif e de outros meios — e é o que pretende entregar à Polícia Federal. Seu depoimento foi marcado para 7 de abril, em São Paulo.

Esta reportagem faz parte do novo projeto de crowdfunding do DCM. Para colaborar, clique aqui

Joaquim de Carvalho
No DCM
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O discurso do mordomo do Drácula para Lisboa - (na íntegra)



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Crise de narrativa


Entre as vertiginosas crises que vivemos, talvez a maior seja de ordem narrativa. O que a literatura de ficção e o cinema apresentam como questão estética, o Brasil hoje experimenta na carne.

Quando a imprensa troca jornalismo por engajamento político e juízes oferecem comícios, parece não existir farol fora do proselitismo radioativo que contaminou nossos ares. Viramos caricaturas num romance picaresco, vivendo uma cornucópia de tretas, perdidos como Cândido sem reconhecer seu Pangloss em trapos — e aqui há muitos, a gosto do freguês.

Entre Voltaire, a Coração Valente e o Patinho da Fiesp, mudaram as formas épicas, mas seguimos com o mesmo pendor ao fanatismo cego e ignorante. Nesta luta de crendices obscuras, perdemos algo mais que a simples objetividade.

Como diz Adorno em seu ensaio sobre a "Posição do narrador no romance contemporâneo": "o subjetivismo não tolera mais nenhuma matéria sem transformá-la". No capítulo "Brasil, março de 2016", as fronteiras entre relato e mistificação foram completamente diluídas.

Aqui, a crise de representação da arte pós-moderna se entrelaça com a crise de representatividade política — a entropia onde "vale tudo". E a filosófica crise do real e da verdade objetiva (Bauman) confunde-se com nosso pavor secreto de uma crise do Real — ele, o Real moeda, cuja estabilidade, aliás, surge de uma abstração numérica e de uma sigla sem significado.

Território limítrofe

É nesse território limítrofe que nossos muitos narradores tentam, a todo o momento, manipular e cooptar leitores — que logo também farão parte do mesmo exército de narradores não confiáveis. Em primeira, em segunda e, a depender do veículo, em terceira pessoa, por trás de uma bancada de TV.

Tal romance grotesco, realidade baseada em fatos reais, talvez seja divertido de ler em algumas décadas, mas é nada agradável para nós, seus figurantes.

A inesgotável disputa entre suas versões nos paralisa num labirinto de ambiguidades. Não confiamos no que lemos, ouvimos, vemos e, principalmente, não confiamos mais uns nos outros.

Somos Brutos e Cássio esfaqueando Júlio César e, num susto, acordamos para perceber que somos Júlio César ensanguentado nas escadarias do Senado — onde, num último estertor, nos reconhecemos no olhar de nossos algozes.

O boato é regra, retórica virou sinônimo de engano — o relato deixa de ser "réplica da vida, caso a vida fosse feita só de palavras" (Piglia), "os fatos já nos chegam acompanhados de explicações" (Benjamin) e eu mesmo, neste momento, estou tentando bater a sua carteira. Ou passar a mão na sua bunda.

"Queria que tudo explodisse e todos virassem bichos", me escreve a amiga com o coração apertado. Eu também.

Acontece tudo, nada acontece, "mas daqui do alto do Copan vai dar pra ver bonito", penso, mas não respondo.

João Paulo Cuenca
No fAlha
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Delação


Em terra de delator, quem tem boca fala o que sabe. Mas quem escuta faz o que quer.

Elenco:
Fabio Porchat
Gregorio Duvivier


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Entenda: impeachment sem crime é Golpe

Não existe base legal



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O Brasil no Contexto dos Golpes do Século XXI

Os processos históricos não são dados a coincidências. E como diria o velho filósofo, os grandes personagens e fatos históricos ocorrem duas vezes, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. A crise política que vem se agudizando desde junho de 2013 no Brasil não reflete apenas suas contradições domésticas. Ao contrário, somente é possível compreendê-la à luz das dinâmicas internacionais e das novas formas que assumem os velhos processos.

Cabe rememorar que as ditaduras militares na América Latina entre as décadas de 1960 e 1980 emergiram, sem exceção, profundamente articuladas à dinâmica internacional: Brasil em 1964, Chile em 1973, Argentina e Uruguai em 1976. Ou seja, não é possível entendê-las dissociadas da lógica da Guerra Fria, do patrocínio político-diplomático dos EUA através da Doutrina de Segurança Nacional, da promoção da retórica anti-comunista pela grande mídia e indústria cultural, da instrumentalização dos militares na Escola das Américas no Panamá, etc. Nesse sentido, a desestabilização interna, com a espiral inflacionária, o denuncismo moralista da corrupção pelos setores conservadores, a paralisia institucional e a crise econômica foram pré-condições construídas para a efetivação dos golpes militares. Já o fim desses regimes também ocorreu no mesmo contexto da virada dos 1980-90, quando estes tornaram-se disfuncionais para os EUA e seus aliados. Com o colapso do bloco soviético, o objetivo era afirmar a agenda liberal a partir das políticas do Consenso de Washington. Não por acaso firmaram-se os governos de Collor-FHC (Brasil), Salinas de Gortari (México), Andrés Pérez (Venezuela), Fujimori (Peru), Menem (Argentina), Sanchéz de Lozada (Bolívia), Sanguinetti (Uruguai), etc.

As políticas neoliberais recrudesceram as contradições na América Latina ao término da década de 1990. O resultado foi uma virada à esquerda com os governos Chávez-Maduro, Evo, Lula-Dilma, Néstor-Cristina Kirchner, Rafael Correa, etc. Não parece coincidência que todos tenham enfrentado processos de desestabilização importantíssimos tais como aqueles do contexto da Guerra Fria. A Venezuela (2002) teve um golpe, com a tentativa de apresentá-lo como renúncia, que fracassou; enquanto a elite na Bolívia (2008) tentou fragmentar o país com o separatismo da elite da Meia Lua. Em Honduras (2009) e no Paraguai (2012) os golpes foram bem-sucedidos e assumiram a face constitucional. Em Honduras, o Presidente Zelaya chegou a ser expulso do país, em decisão frontalmente contrária à Constituição do país posteriormente anulada pela Corte; enquanto no Paraguai o processo de impeachment foi encaminhado de forma açodada sem o devido processo legal. A tragédia dos golpes na região se repete, mas farsa, assumindo contornos de ‘legalidade’.

Como chama a atenção Jessé Souza ao tratar do Brasil, o golpe moderniza-se, substituindo a arma pelo argumento pseudo-jurídico e sua aparente neutralidade. Os endinheirados, que controlam a riqueza, o poder e instrumentalizam a mídia, mobilizam seus recursos para evitar regimes reformistas aproveitando-se da fragilidade institucional para subverter a soberania popular (SOUZA, p. 261). As práticas típicas de Estados de exceção são realizadas sem a interrupção do Estado democrático. Assim, o entrelaçamento de interesses de certas elites latinas é encaminhado e, com efeito, se atropela a soberania popular.

Já Losurdo destaca que o Ocidente, na sua autodefinição de guardião da consciência moral da humanidade, se acha autorizado a desencadear desestabilizações, golpes de Estado e ‘revoluções coloridas’, embargos e guerras ‘humanitárias’ em todos os quadrantes do globo (LOSURDO, 2012, p. 277). O imperialismo cru do século XIX também assume novas formas. A outrora narrativa cínica do ‘fardo do homem branco’ agora recebe a forma legal e legítima das agressões por meio da retórica da ‘intervenção humanitária’ e do ‘direito de proteger’, sob mandato de poderes ampliados autoconcedidos às potências membras do CSNU – ou, no limite, violando suas próprias atribuições.

Seria ingênuo supor que as ‘revoluções coloridas’ no entorno da Rússia, como a Revolução das Rosas (Geórgia-2003), Laranja (Ucrânia, 2004-14) e das Tulipas (Quirguistão-2005), teriam sido “espontâneas” ou não orientadas pelo ocidente. Moniz Bandeira foi exaustivo ao revelar os grupos criados pelo governo dos EUA como a National Endowment for Democracy (NED) e a Agência Internacional para o Desenvolvimento (Usaid), assim como os thinktanks e fundações como Freedom House e Open Society Institute voltados a ‘exportar a democracia’ (BANDEIRA, 2013, 95). Novos golpes que convergem com a velha política de contenção da Rússia, como destacamos (PAUTASSO, 2014).

Assim, não se entendem esses processos de desestabilização e golpes do século XXI (ou políticas de regime change como prefere a elite estadunidense) fora do quadro internacional. Da mesma forma, o abandono de conceitos centrais do marxismo, como de imperialismo e luta de classes, fez setores progressistas não entenderem as raízes profundas do golpismo no Brasil. De um lado, os interesses e o poder (imperialista) das grandes potências inspiram e apoiam os grupos que patrocinam o golpe constitucional no país, ansioso por atuar no Pré-Sal; evitar o protagonismo diplomático do país na integração regional, na África e/ou no BRICS; ter acesso privilegiado ao gigantesco mercado doméstico e seus recursos naturais. De outro lado, os conflitos (de classe) que atravessam o aparelho de Estado estão no âmago da crise atual; e as ingênuas noções ‘republicanistas’ deixaram míope a esquerda brasileira.

Agora como antes repetem-se afirmações alarmistas vindas da direita mais alinhada aos ultraliberais e neoconservadores dos EUA. Em 1964, Jango não era comunista nem corrupto como acusados pelas oligarquias e camadas médias aliadas à UDN. A partir de novembro de 2014, repetem-se mantras no Brasil. Os governos socialdemocratas de Lula-Dilma não são nem bolivariano, nem passível de crítica de moralidade pelo PMDB e seus aliados – silentes diante da sonegação, do financiamento privado de campanha e da corrupção dos partidos tradicionais. Novamente, a moralidade é a retórica para interromper as políticas reformistas e voltar ao seio do Estado e de seus privilégios autoconcedidos. Mais uma vez as camadas médias são insufladas por uma mídia com histórico golpista e práticas pouco transparentes. Novamente a OAB se coloca do mesmo lado, buscando agora a ‘legalidade’ através de um impeachment sem crime de responsabilidade, o que em 1964 buscou-se através do discurso de que Jango teria renunciado e, com efeito, assumido a Junta Militar, conforme a Constituição e mantendo-se funcionamento das instituições (STF, Parlamento, etc.) pelo menos até o AI5 em 1968. Tal como antes, não parece improvável que os grupos líderes das manifestações (Movimento Brasil Livre, Estudantes pela Liberdade, Revoltados Online e Vem pra Rua) tenham apoio externo, como em outros países e em outros contextos (em 1964 o IPES-IBAD). Enfim, a História não é dada a coincidências e mais uma vez veste-se com o manto da farsa. E com isso o Brasil continua sendo o país do futuro a realizar-se…


Diego Pautasso é Professor de Relações Internacionais na UNISINOS e na ESPM Porto Alegre.

Bibliografia


BANDEIRA, Luiz. A Segunda Guerra Fria. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2013.


LOSURDO, Domenico. A não-violência. Rio de Janeiro: Revan, 2012.


MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luis Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.


PAUTASSO, Diego. Da política de conteção à reemergência. In:Revista Austral. Vol. 3, nº 6, 2014, pp. 73-94.


SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2015.

No Sul21
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Caixa 2 montado pela Fiesp para comprar impeachment vai virar o caixão de Skaf


A Fiesp montou um caixa 2 de, por enquanto, R$ 500 milhões para comprar o impeachment de Dilma. R$ 300 milhões virão dos recursos públicos que administra em nome do Sesi e do Senai; R$ 100 milhões serão “doados” pelo parceiro de Skaf no golpismo a partir do mesmo fundo publico, o presidente da Federação das Indústrias do Rio, Eduardo Eugênio; R$ 50 milhões serão aportados pela Federação do Paraná e outro tanto pela Federação do Rio Grande do Sul, todos irmanados pelo impeachment.

Esses industriais golpistas decidiram apostar tudo na derrubada da Presidenta, não importam as consequências. A solução da crise, conforme havia antecipado Veja em nome de todos eles e de uma parte substancial das classes dominantes, é o Vice-presidente Temer. Mergulhando na conspiração até o pescoço, Temer promete rever a iniciativa de Dilma de contingenciar 30% dos recursos do Sesi/Senai (ou dos 4 S) e promover uma reforma trabalhista regressiva contra direitos consagrados na Constituição, que estará a cargo de Moreira Franco.

O esquema Skaf/Temer só tem um problema. Como canalizar R$ 500 milhões para os bolsos de parlamentares favoráveis ao impeachment sem o risco de, agora ou no futuro, o dinheiro ser rastreado pela Justiça? Sim, porque a Justiça não será entregue permanentemente nas mãos de promotores e juízes partidários dos golpistas. Em algum momento aparecerão em seu meio homens honrados que vão buscar na vida pública e privada de parlamentares os indícios de enriquecimento ilícito. Como diz Luís Nassif, acabou a era do dinheiro escondido.

Alguns, obviamente, correrão o risco. Ademais, a decisão do impeachment se aproxima como velocidade anti-natural. O mais importante nessa questão é que os órgãos controladores da probidade administrativa, a partir do Ministério da Justiça, tomem uma providência para ver de onde sai o dinheiro golpista da Fiesp. Só um idiota acreditaria que sai dos bolsos dos empresários ou mesmo de suas empresas. Eles são generosos, sim. Mas são generosos com dinheiro alheio. Nesse caso, com o dinheiro dos 4S.

Eu conheço isso muito bem. Fui assessor da presidência da CNI, nos anos 80, e já então se podia perceber a pajelança com dinheiro público que era a gestão do Sesi e do Senai de muitos dirigentes de federações, notadamente de São Paulo, que por seu poder econômico gozava de ampla autonomia. Isso só deve estar piorado. Gente como Skaf não passa de abutres em torno do dinheiro público quando se trata de dinheiro que controlam, a despeito da retórica anti-imposto e anti-setor público que professam com a maior cara dee pau.

Insista-se que recursos do Sistema S são, inequivocamente, públicos. Correspondem a recolhimentos obrigatórios sobre a folha salarial das empresas destinados ao ensino profissional e a atividades sociais dos trabalhadores. Federações industriais, como Fiesp e Firjan, para simular seu assalto a esse caixa público, criaram Centros industriais vinculados às federações, por onde flui o dinheiro supostamente livre, mediante manobras contábeis. É muito fácil desmascarar isso. Qualquer órgão controlador público pode fazer uma devassa na circulação desses recursos e desmascarar seu uso indevido.

Defendo o direito da Fiesp propor o impeachment. Mas que seja com o dinheiro dos empresários e não dos trabalhadores. Sesi e Senai, quando foram criados há mais de seis décadas, certamente eram melhor geridas por empresários porque, nessa época, trabalhadores não tinham grande experiência de gestão. Agora a situação é outra. Sesi e Senai devem ser entregues à gestão dos trabalhadores, inclusive como forma de evitar o uso político dos dinheiro pelas entidades empresariais, suscetíveis de maracutaias. Com isso o grande caixa da Fiesp, para comprar o impeachment, pode virar o caixão de Skaf!

P.S. Encontrei-me ontem no aeroporto de Brasília com o deputado Wadyh Damous, ex-presidente da OAB do Rio, com a deputada Jandira Feghali e com o senador Lindeberg Farias. Os três deram-me a boa notícia de que estará sendo movida na próxima semana ação popular contra a Fiesp e seu presidente, tendo em vista desvio de dinheiro público na campanha do impeachment, aqui denunciada.

J. Carlos de Assis, Jornalista, economista, doutor pela Coppe/UFRJ
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A corrupção não importa

O discurso do combate à corrupção acompanha a história brasileira em seus momentos ditatoriais e nos períodos democráticos. Mas esse combate é falso. Sempre serviu como bode expiatório de razões menos nobres, que se confundem com a própria corrupção, que os arautos dizem combater.

As forças que querem o impeachment de Dilma Rousseff estão atentas aos movimentos da Câmara de Deputados e da comissão que examina as acusações contra a presidente, mas não dão importância ao fato de a Câmara ser presidida por Eduardo Cunha, réu da Lava-Jato por decisão do STF. Da comissão composta de 65 deputados, 40 são citados nas investigações da Lava-Jato.

Outro agente importante no cenário é o mercado, sente-se agredido, às vezes exageradamente excitado, faz caras e bocas. Mas fingem esquecer seus defensores de plantão que todo o dinheiro da corrupção vem do mercado, o grande corruptor. E fazem parte dele os bancos e financeiras, que foram protagonistas de escândalos nas últimas décadas e, atualmente, as empreiteiras envolvidas na Operação Lava-Jato.

Mas os deputados, o mercado e parcelas importantes da população resolveram que a solução para a corrupção e para crise política é o impeachment da presidente da República, contra a qual não há uma única acusação de corrupção. Dizem os defensores do impedimento que não se trata de um golpe porque está previsto na Constituição. Ora, este é um argumento pífio, pois a Constituição fala em impedimento quando provado crime de responsabilidade e o que está ocorrendo é transformação de uma prática corrente dos poderes Executivos estaduais e federal em crime. As pedaladas fiscais não foram crime no governo FHC, nem o são nos governos dos Estados. Só é crime quando cometido pelo governo de Dilma Rousseff. Seria interessante investigar como alguns Estados da federação, incluindo o Rio Grande do Sul, em crise econômica hoje, tratam suas dívidas com instituições públicas.

Os escândalos de corrupção não foram inventados, foram trazidos à tona por uma Polícia Federal e por um Ministério Público independentes. Mas enganam-se aqueles que pensam que não há uma forte relação entre o empenho em aprovar o impedimento e a expectativa que um novo governo, um governo do PMDB, teria os meios para conter as investigações, que atingem os políticos do próprio PMDB e dos principais partidos da oposição. Reduzir a corrupção ao PT, seria um formidável salvo-conduto para ela continuar a não importar.

Céli Pinto, Cientista política, professora do Departamento de História da UFRGS
No ZH
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