9 de mar de 2016

Uma prévia do Debate de amanhã: "Humor em Tempos de Cólera"


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O que transformou João Roberto Marinho num aloprado?

Onde ele perdeu o equilíbrio?
Durante quase três anos, entre 2006 e 2008, fiz parte do Conedit, o Conselho Editorial da Globo.

Comandado por João Roberto, o segundo filho de Roberto Marinho, o Conedit reúne os editores dos diversos veículos de mídia da Globo. As reuniões são às terças feiras às 11 horas da manhã, no prédio da Globo no Jardim Botânico, no Rio.

O objetivo é discutir e firmar as diretrizes editoriais da casa. Numa mesa retangular, João Roberto senta-se na cadeira de comando, no centro. A seu lado, quase que se encarando, estão Merval Pereira e Ali Kamel, numa disputa incessante para ver quem concorda mais com as ideias de João Roberto.

Como diretor editorial das revistas da Globo, me sentava no fundo da sala, no canto dos paulistas, como brincava Luiz Erlanger, à época um dos principais jornalistas da casa.

Guardei sempre de João uma imagem positiva. Sereno, voz baixa, inteligente, sabia ouvir e sabia mandar.

Lembro particularmente uma reunião, no calor da campanha presidencial de 2006, em que ele narrou uma conversa que tivera com Lula, que concorria à reeleição.

Dos irmãos, João é o responsável por todos os contatos com o mundo político. Segundo Jorge Nóbrega, assessor da família Marinho, é algo que lhe é extremamente caro. Nenhum jornalista da Globo sobrevive muito tempo se criar uma agenda pessoal com o alto clero da política.

Na reunião de que falei acima, Lula, contou João, se queixou da cobertura da TV Globo. Ele nos comunicou, ali, o que ficou combinado. Cada qual cuidaria dos seus “aloprados”.

A partir dali, os aloprados da Globo, notadamente Merval e Kamel, baixaram de tom.

Estou contando essa história para dizer quanto me surpreende ver, agora, João Roberto agir como um aloprado na louca cavalgada contra Lula, Dilma e o PT.

Em circunstâncias normais, ele não toleraria que um de seus principais jornalistas, Erick Bretas, pregasse abertamente no Facebook a prisão de Lula e a deposição de Dilma, fantasiado de Moro.

Nem deixaria passar em branco um tuíte do editor da Época, Diego Escosteguy, em que este anunciava, às vésperas da Aletheia, uma sexta-feira esplendorosa, numa alusão à operação que seria feita contra Lula.

Os danos à imagem da Globo, com este tipo de coisa, são enormes. Uma empresa já rejeitada por tantos brasileiros passa a ser detestada por ainda mais gente. Ecos da participação da casa no golpe de 1964 imediatamente voltam à mente das pessoas.

O que terá acontecido?

A primeira hipótese que vem é uma possível fúria diante da aparição do nome de sua filha Paula no escândalo da Paraty House, o casarão praiano erguido sobre um crime ambiental.

Todas as evidências indicam que a casa é dos Marinhos, o que eles negam. Uma paisagista que trabalhou no projeto disse ao DCM que tratou com Paula na Paraty House. O nome dado ao projeto pelo arquiteto da propriedade é PM, iniciais de Paula. A Bloomberg, numa reportagem sobre abusos de ricos em praias brasileiras protegidas pela legislação ambiental, atribuiu a Paraty House à família Marinho. O autor da reportagem disse até que conversou com o advogado dos Marinhos, o qual não quis discutir o assunto.

Ainda assim, os Marinhos negam, escudados em artifícios legais.

Se é a menção a Paula que lhe tirou o equilíbrio, João Roberto está tendo a oportunidade de verificar como é duro ver mexerem com os filhos. Talvez ele reflita sobre a maneira criminosa com a qual a Globo não hesita em incluir os filhos de Lula em reportagens sensacionalistas e acusatórias — e não amparadas em provas.

Tenho outra hipótese.

A Globo tem pavor de não crescer. No livro Dossiê Geisel, feito à base de documentos que Geisel guardou em seus anos presidenciais, isso aparece claramente.

Um ministro diz a Geisel que Roberto Marinho, o “maior e mais constante aliado da ditadura, reivindicava “favores especiais” — mais e mais concessões, sobretudo.

O motivo, está no livro, é que RM acreditava que empresa que não cresce começa a ruir.

A Era Digital está apequenando a Globo. A mítica televisão vai se transformando numa carroça, vencida pela internet.

A perspectiva para a Globo, pelo prisma de  Roberto Marinho segundo O Dossê Geisel, não poderia ser pior.

Não há nada que a Globo possa fazer contra a internet. E muito menos existe a possibilidade de que na Era Digital ela tenha a dominância que teve e tem na televisão.

Fora tudo, na internet a Globo se expõe ao noticiário crítico do qual antes estava livre, graças ao compadrio entre as grandes empresas jornalísticas.

É provável que, em algum momento no futuro próximo, a Globo se torne uma nova Abril, um gigante em processo de diminuição galopante.

João Roberto se formou sob o pai, e dele certamente herdou a visão sobre a maldição da empresa que deixa de crescer.

Pelo que vi dele, esta segunda hipótese é mais verossímel do que a citação da filha Paula para explicar sua transformação num aloprado.

Paulo Nogueira
No DCM
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A quinta-coluna trotskista marchou na Avenida Paulista a favor do golpe


Para deleite da mídia, grupos trotskistas incitaram arruaças na manifestação do “Dia Internacional das Mulheres”, na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo. E saíram em marcha própria, dividindo o ato político, gritando slogans contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidenta Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores (PT). Os grupos seriam ligados ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e ao Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU). Como não poderia deixar de ser, a mídia franqueou suas páginas, microfones e câmeras para que os trotskistas deitassem falação bem ao gosto dos golpistas.

No final dos anos 1930, quando o líder fascista espanhol Francisco Franco preparava-se para marchar sobre Madri com quatro colunas, o general Queipo de Llano disse: “A quinta-coluna está esperando para saudar-nos dentro da cidade.” Pela primeira vez, o mundo ouvia a palavra fatídica — “quinta-coluna”. Era uma referência ao ultra-esquerdista Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), que aderira à política de Leon Trotski e promovia uma frenética propaganda contra o governo republicano. Em 1937, o partido apelou para “uma ação resoluta” a fim de derrubar o governo republicano. O POUM dizia que praticava uma oposição “revolucionária”, mas, na prática, como disse o general Llano, era uma importante linha auxiliar dos fascistas.

Vistas pelas lentes da mídia, as manifestações foram assim: a “petista” foi uma “passeata de claques pagas pelo Estado” e a segunda uma mostra da possibilidade de a oposição ter nas mãos o que o tucano Aécio Neves chamou de pedido da “sociedade” pelo impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Não parece haver argumentos muito brilhantes, no plano prático da luta política, a favor dos trotskistas. Alastram-se indicativos de que os elementos de classe contidos na crise não satisfazem os neurônios dos militantes “revolucionários” educados no preceito do vanguardismo febril do esquerdismo deletério.

Dois erros nunca se anulam

A justificativa pode ser encontrada em um texto antigo intitulado “Fora todos!”, publicado no site do PSTU, segundo o qual “apenas uma revolução socialista no país e a construção de um Estado dirigido pelos trabalhadores pode acabar com a corrupção”. É preciso algum traquejo para distinguir os sintomas dessa doença infantil. Com seu discurso “radical”, esse movimento quer mesmo é produzir encrenca e desgastar o governo. Ao tentar atiçar as massas contra um sistema de representação que considera inócuo para construir um dique contra o capitalismo — isso em meio a uma tempestade de dimensões históricas —, ações como essa servem mesmo para ser explorada pela mídia e engrossar a oposição direitista.

O termo “quinta-coluna” cai como uma luva — a manifestação é contra o capitalismo e ponto. Diz o axioma que dois erros nunca se anulam. Aliás, geralmente somam-se para dar um resultado ainda pior. Ou seja: a manifestação trotskista, que seria contra o “petismo” e o capitalismo, supre um vazio da direita, porque há um inegável clima de desmoralização dos métodos golpistas (especialmente os do juiz Sérgio Moro) criado exatamente pela compreensão da tática e da estratégia do jogo da direita pelo que a mídia chama de “petismo”. A mídia se esforça para manter a chama acesa, mas, para o infortúnio dos que monopolizam o noticiário as luzes do palco onde o golpismo é encenado estão ficando opacas.

Palavras de Lênin sobre Trotski

Quem aprecia esse estilo de fazer política pode até reencenar, irresponsavelmente e com sinal invertido, aquele juvenil orgulho dos tempos do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, quando os que estavam nas ruas eram exatamente os mesmos que hoje voltam a elas para defender a moralidade pública e a democracia, contra o golpismo. Mas isso não passa de demagogia barata, conluio com a desinformação, falta de seriedade ou estultícia mesmo. Para se ter uma ideia de até onde vai essa desvario, a há algum tempo a deputada Luciana Genro (PSOL-RS) elogiou, recorrentemente, o papel da mídia na cobertura da crise política durante entrevista ao apresentador da TV Globo, Jô Soares.

Apesar da superioridade potencial, as forças democráticas e progressistas ainda estão dispersas. Pela falta de uma delimitação mais clara das posições desse campo político, gente notoriamente comprometida com os interesses da elite consegue iludir setores consideráveis do povo. O esforço agora é para ampliar a unidade das ações a favor da democracia e isolar os grupos golpistas — entre eles o trotskismo. Quanto à manifestação esquerdista  infantil do dia 8 de março, é oportuno terminar com algumas palavras de Vlamir Lênin sobre o papel histórico de Trótski: “Tenho a declarar que ele representa unicamente a sua própria facção.”

Osvaldo Bertolino
No O Outro Lado da Notícia



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Estadão transforma corrente de WhatsApp em fala de Lula


A frase “Se me deixarem solto, viro presidente de novo” nunca foi dita pelo petista e não passa de um meme que circula pelas redes sociais. Jornal a usou como se tivesse sido dita por Lula “a mais de um interlocutor”, sem citar nomes


O jornal O Estado de S. Paulo publicou, na manhã desta quarta-feira (9), uma matéria em que reproduz mais uma suposta fala de Lula. De acordo com a publicação da família Mesquita, o ex-presidente teria feito uma “avaliação positiva” da operação da Polícia Federal que o conduziu de forma coercitiva para um depoimento na última sexta-feira (4).

“A partir de agora, se me prenderem, eu viro herói. Se me matarem, viro mártir. E, se me deixarem solto, viro presidente de novo”, teria, segundo o jornal, dito o ex-presidente na coletiva concedida após o depoimento que prestou na semana passada.

A frase, no entanto, nunca foi dita pelo ex-presidente e não passa de uma corrente que circula no WhatsApp e em outras redes sociais, segundo o Instituto Lula. “Inventaram. Tiraram de corrente. Já conhecíamos a frase faz tempo”, disse à reportagem da Fórum a assessoria de imprensa do instituto.

No Facebook do ex-presidente, uma postagem já desmente a informação.

“A mensagem de apoio a Lula que o Estadão credita ao próprio ex-presidente é velha conhecida da ‪‎Equipe Lula‬: trata-se de corrente que circula o Whatsapp e os comentários no Facebook desde a sexta-feira. Na sanha de construir audiência usando o nome de Lula, o Estadão, que na tarde de hoje dedica 12 chamadas em sua capa ao ex-presidente, parece ter reduzido o critério para colher relatos anônimos sobre o que Lula disse ou deixou de dizer”, escreveu a equipe da entidade.

A partir da matéria do Estadão, a fala foi reproduzida também por outros portais, como Folha de S. Paulo/UOL, Exame e Valor.

Foto: Mídia Ninja

No Fórum
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Quem ganha com a venda da RBS de SC?


Quando se anuncia um grande negócio, é fácil embarcar nas comemorações. A notícia é dada com alarde, com o claro objetivo de espalhar boas vibrações e acalmar os mercados. O discurso se apoia basicamente nas cifras envolvidas e na ideia (nem sempre verdadeira) de que foi a melhor coisa que poderia ter acontecido. Isso aconteceu na fusão das empresas para a criação da Ambev — “Uau! Teremos agora uma multinacional da cerveja!” — e em diversas jogadas de Eike Batista — “Esse cara é agressivo! Isso sim é empresário de verdade!”. Por isso não se surpreenda com o que ouvirá nos próximos dias, agora que foi confirmada a venda dos ativos do Grupo RBS em Santa Catarina. Vão tentar convencê-lo de que é uma excelente notícia e que os benefícios são de todos. Mas será mesmo? Afinal, quem ganha com a venda da RBS no estado?

Alardeada várias vezes, a notícia só se tornou fato hoje, com anúncio formal da cúpula da RBS. Boatos mais insistentes começaram a circular em Florianópolis no começo do ano a partir do jornalista Paulo Alceu. Da sede em Porto Alegre, o grupo se apressou a desmentir. Um mês depois, passaram a circular a conta-gotas informações mais consistentes, como a de que os acionistas do grupo teriam sido comunicados, e que uma videoconferência daria a notícia aos empregados. Isso se deu no início da tarde de segunda-feira, 7, quando os funcionários foram reunidos para um comunicado oficial. Nelson, Pedro e Eduardo Sirotsky falaram pela RBS. Ao lado deles, estavam Lírio Parisotto, Carlos e Marcus Sánchez, os compradores.

Para alguns analistas, um fator foi decisivo nesta história: o suposto envolvimento da RBS num grande esquema de corrupção para abater ou perdoar dívidas fiscais, investigado na Operação Zelotes. A menção ao grupo não apenas teria trazido prejuízos financeiros e de imagem como teria azedado as relações com a TV Globo, principal parceira.

O raciocínio faz sentido, mas não vamos alimentar a esperança de que confirmem as cartas na mesa. De concreto, o que se tem é que a transação fez com que metade de um conglomerado de comunicação trocasse de mãos num passe de mágica. Não é pouca coisa, a se julgar que o Grupo RBS era o maior grupo regional privado de mídia do país, reunindo 57 veículos e atuando com supremacia no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Não se falou em dinheiro, mas o acordo dos acionistas estaria na casa dos R$ 700 milhões, que, se forem confirmados, é um ótimo negócio para quem comprou. Em Santa Catarina, as operações em comunicação incluem a RBSTV — afiliada da TV Globo e líder de audiência —, TV COM (Florianópolis), quatro emissoras de rádio (Atlântida, CBN Diário e Itapema de Florianópolis e Joinville) e os quatro maiores jornais do estado (Diário Catarinense, A Notícia, Jornal de Santa Catarina e Hora de Santa Catarina). Mas a presença do grupo no estado não se marca apenas pela ocupação e exploração dos principais segmentos. É preciso reconhecer que o conglomerado contribuiu para profissionalizar muitas práticas (editoriais, comerciais e de gestão) e soube projetar sombras assustadoras sobre seus concorrentes. Não é exagero dizer que as comunicações nunca mais foram as mesmas depois que os Sirotsky esticaram os olhos para além de suas fronteiras gaúchas.

Magnatas

O lance anunciado hoje não aponta apenas mais um grande negócio no Brasil. É também pouco comum que conglomerados midiáticos — ao menos por aqui — sejam adquiridos numa única tacada. Do ponto de vista gerencial, há ainda uma distinção bem clara: se a família Sirotsky sempre foi identificada com o ramo das comunicações, os novos compradores são neófitos na área.

Carlos Sanchez construiu um império no setor de fármacos, e foi o primeiro a produzir nacionalmente medicamentos genéricos. Dono da EMS, lidera o segmento de genéricos desde 2013 e tem outros três laboratórios: Legrand, Germed e Nova Química. É discreto e agressivo nos negócios, e vem alardeando há pelo menos dois anos que vai entrar com tudo no ramo de medicamentos inovadores.

Lírio Parisotto, que vai responder por 25% do conglomerado que era da RBS, é médico de formação e conhecido e bem sucedido homem do mercado de capitais. Foi agricultor pobre, mas conseguiu romper com as estatísticas, tornando-se mais um bilionário brasileiro. Entre suas empresas, está a Videolar, que, entre outras coisa, fabrica mídias removíveis para DVDs, CDs e Blu-Rays. Afora esse detalhe, Parisotto também não tem qualquer expertise na área de comunicação, mas isso não parece preocupar. A transição da RBS para o Grupo NC deve durar dois anos e os dois lados do negócio anunciaram que o atual diretor-geral de Televisão em Santa Catarina, Mário Neves, presidirá o novo player. Comitês setoriais serão criados nas próximas semanas para facilitar a passagem do bastão. Órgãos como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) também precisarão dar anuência ao negócio. Como se trata ainda de concessões públicas de rádio e TV, o Congresso Nacional deve ser comunicado. Nelson Sirotsky ligou hoje cedo ao ministro das Comunicações, André Figueiredo, para antecipar a novidade.

Dois pequenos detalhes poderiam vincular os compradores à RBS e à Santa Catarina. Parisotto vem do Rio Grande do Sul, sede do grupo de comunicação. Carlos Sanchez cresceu atrás do balcão do estabelecimento comercial do pai, curiosamente a Farmácia Santa Catarina. Ambos não entram em disputas para perder. Uma piada interna no grupo de Sanchez ajuda a entender: dizem que EMS significaria “Eu mando sozinho”.

Amor e ódio

Embora motivo de boatos há décadas, o negócio pegou muita gente de surpresa. Seu principal jornal por aqui — o Diário Catarinense — está comemorando trinta anos em 2016, e recentemente passou por um reposicionamento de mercado, que consistiu, por exemplo, na reafirmação do jornalismo como propósito de existência e na ênfase dos laços com a comunidade. A história dos Sirotsky entre os catarinenses vem de 1979, com a primeira emissora de TV, e de lá pra cá a história teve altos e baixos. Se por um lado a RBS ajudou a organizar o mercado, por outro, foi constantemente acusada de forasteira, conforme analisa Carlos Alberto de Souza no livro “O fundo do espelho é outro: quem liga a RBS, liga a Globo” (Ed. Univali, 1999). Ao informatizar redações, fixar padrões de qualidade editorial e tentar domesticar agências de publicidade e anunciantes, o grupo deu impulsos importantes para que o setor se modernizasse no estado. Mas as constantes demonstrações de força não foram suficientes para garantir um ambiente sem críticas, queixas e contestações.

As últimas quatro décadas produziram uma relação tumultuada entre sociedade e o Grupo RBS. Por isso, o anúncio da venda das operações no estado pode gerar sentimentos contraditórios e confusos. Não duvido que haverá saudosos dos “bons tempos da RBS” muito em breve. Assim como certamente ouviremos dizer muitos “já vão tarde”.

O abandono do mercado catarinense é uma boa notícia para os Sirotsky? Não, não é. Ele se traduz em perder uma praça rentável, completamente pacificada e habitada por concorrentes nanicos. As perdas se dão nos planos financeiro, simbólico — pois o conglomerado encolhe! — e político. O comunicado da RBS agradece à sociedade catarinense pela experiência, frisa que vai se concentrar no Rio Grande do Sul e ponto. Se for verdadeira a história de que a Operação Zelotes foi determinante, tratou-se do conhecido movimento de dar os anéis para não perder os dedos. Mas isso é a se conferir…

Foi então um bom negócio para a concorrência? Não necessariamente. Note-se que, com a venda de todas as operações da RBS no estado, o mercado continua a ter um player gigante, agora com apetite renovado. Ainda não sabemos qual o projeto ou estratégia dos novos proprietários, mas o discurso usado nesta segunda-feira foi de que nada muda, esperado para tranquilizar o mercado. Se for assim, teremos apenas a troca de letras: de RBS por NC. Se o grupo tivesse se pulverizado, poderíamos ter uma nova correlação de forças em diferentes segmentos, mas isso não se deu. Concorrentes fragilizados como a TV Band SC — que fechou recentemente duas sucursais no interior e atrasa salários há meses — também pouco podem fazer para reequilibrar a balança local.

Se não foi uma boa para os vendedores nem para a concorrência, foi ao menos positivo para o público? É cedo para dizer já que não temos qualquer garantia de mudança na qualidade dos produtos e serviços. O jornalismo e o entretenimento fornecidos podem melhorar ou não, mas de imediato se pode afirmar que a oferta de conteúdos se mantém limitada. Isto é, quem assume as operações da RBS em Santa Catarina o faz de forma concentracionista, pouco plural e violando regras constitucionais, como a que impede a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Traduzindo: a Constituição Federal proíbe que o setor seja oligopolizado e que uma mesma empresa atue no segmento de jornal e rádio ou TV simultaneamente. Os Sirotsky — e outros por aí — ignoravam esses entraves e nada deve mudar sob nova direção.

A saída da RBS de Santa Catarina foi positiva para os funcionários? Difícil dizer ainda. A depender dos planos de Parisotto, Sánchez e demais investidores. O fato é que hoje pela manhã os funcionários nada sabiam, além do que circulava pelas redes sociais. Próximo do meio-dia, mensagens eletrônicas confirmaram a videoconferência para o início da tarde. O clima era de apreensão e expectativa, que foi substituído depois por relativa calma, após garantias de não fechamento de jornais ou demissões. Entretanto, a transição de dois anos deve trazer novos episódios em breve, imaginam alguns.

No final das contas, a venda da RBS em Santa Catarina foi uma ótima notícia para seus compradores. Ganham os empresários porque amealham uma marca forte, uma estrutura consolidada e um mercado servil. Divisões menores — como o Jornal de Santa Catarina e A Notícia — talvez ganhem novo fôlego, pois eram tratados com algum menosprezo pelos dirigentes de Porto Alegre. Diário Catarinense e a RBSTV também deixam de ficar à sombra de Zero Hora e da emissora da capital gaúcha. Mas isso são suposições num jogo cheio de variáveis.

A tendência é que o Grupo NC se aproxime do governo do estado e de alguns municípios estratégicos, estabelecendo relações de parceria e boa convivência. Não que o governo Raimundo Colombo fosse distante do governo dos Sirotsky, mas novos mandatários precisam de aliados assim que assumem novas terras. Pelo menos até que as coisas se reacomodem como estavam até antes do fatídico anúncio da venda, quando as zonas de atrito eram mínimas e o respeito próprio dos gigantes permitia que habitassem o mesmo território. Isso pode ser muito ruim para o público, potencialmente privado de um jornalismo que fiscalize mesmo os movimentos dos governos e que seja mais autônomo.

Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS
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O que há em comum entre a 'IstoÉ' de hoje e aquela 'Veja' de 2014

Caso Delcídio lembra aquela capa da véspera do segundo turno. Revista troca delação verdadeira contra Aécio por falsa sobre Dilma. Veja documentos 

Se o vazador de hoje for do mesmo de 2014, o teor da 'delação'
de Delcídio também deve estar invertido. Em vez de Dilma ou Lula
serem os citados, algum grão-tucano queridinho da mídia é
que pode estar encrencado
Lembram da capa mentirosa da revista Veja na véspera do segundo turno de 2014, cuja distribuição foi antecipada para a quinta-feira antes do domingo de votação? Dizia que o doleiro Alberto Youssef havia delatado na terça-feira — dia 21 daquele mês — que Lula e Dilma “sabiam tudo”, referindo-se às propinas na Petrobras.

Em março de 2015, toda a delação premiada de Youssef foi publicada em órgãos de imprensa. Então foi possível saber que, naquele 21 de outubro, Youssef prestou três depoimentos. Um sobre propinas relacionadas ao Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) para gente do PP e PTB. Outro sobre propinas de laboratórios na Anvisa. E o terceiro foi quando falou pela primeira vez saber que Aécio Neves (PSDB-MG) tinha influência em Furnas e recebia “comissões” por intermédio da irmã.

Youssef delatou Aécio no dia 21 de outubro, a terça-feira citada na capa e na matéria da revista Veja. A revista, em vez de noticiar a verdade na capa — “Youssef delata Aécio por propinas em Furnas”, noticiou o contrário, como se o doleiro tivesse delatado Dilma e Lula, coisa que ele não fez.

Não tratou-se apenas de péssimo jornalismo, pois o “engano” simplesmente inverteu a notícia sobre os dois candidatos que disputavam a Presidência da República, três dias antes do pleito. A revista foi usada literalmente como panfleto mentiroso de campanha pró Aécio Neves.

Naquela sexta-feira antes das eleições, dia seguinte ao da circulação da revista, o então advogado do doleiro, Antônio Augusto Figueiredo Basto, respondia à própria Veja: “(...) Não posso me manifestar sobre um fato que é sigiloso. Nunca desmenti a reportagem da revista. Eu não posso desmentir um fato sobre o qual não posso me manifestar”.

Ao jornal O Globo, desmentiu, se dizendo “surpreso”: “Eu nunca ouvi nada que confirmasse isso. Não conheço esse depoimento, não conheço o teor dele. Estou surpreso (...) Conversei com todos da minha equipe e nenhum fala isso. Estamos perplexos e desconhecemos o que está acontecendo. É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação”.

Passadas as eleições, outros jornais publicaram que Youssef prestou depoimento na terça-feira 21 e não citou Lula ou Dilma. Era mentira da Veja, como depois a mentira ficou documentada com a publicação dos depoimentos de Youssef.

No dia 17 de novembro de 2014, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, confirmou em entrevista à Folha de S.Paulo que houve tentativa de usar a Lava Jato eleitoralmente: “Estava visível que queriam interferir no processo eleitoral. O advogado do Alberto Youssef operava para o PSDB do Paraná, foi indicado pelo (governador) Beto Richa para a coisa de saneamento (Conselho de administração da Sanepar), tinha vinculação com partido. O advogado começou a vazar coisas seletivamente. Eu alertei que isso deveria parar, porque a cláusula contratual diz que nem o Youssef nem o advogado podem falar. Se isso seguisse, eu não teria compromisso de homologar a delação”.

Por uma incrível coincidência, quando o mesmo Antonio Augusto Figueiredo Basto advoga para o senador Delcídio Amaral (PT-MS), a revista IstoÉ publica o vazamento de uma suposta delação de Delcídio — já desmentida. É mais fantasiosa do que aquela capa da Veja, pois há fatos “delatados” impossíveis de terem ocorrido pela própria cronologia.

Depois de horas de a notícia ser repercutida o dia inteiro, provocando movimentos especulativos nas Bolsas de Valores, no dólar e realimentando movimentos golpistas no Congresso, Delcídio e Basto emitiram no fim da tarde uma nota dizendo “não confirmar” o conteúdo de reportagem: “Não conhecemos a origem, tampouco reconhecemos a autenticidade dos documentos que vão acostados ao texto. Esclarecemos que em momento algum, nem antes nem depois da matéria, fomos contatados pela referida jornalista para nos manifestarmos sobre a fidedignidade dos fatos relatados”.

Se “o vazador” de hoje for do mesmo padrão falso e invertido daquele que vazou para a capa da revista Veja em 2014, o teor da delação de Delcídio, se existir ou se vier a existir, também deve estar invertido. Em vez de Dilma ou Lula serem os citados, algum grão-tucano queridinho da mídia é que pode estar encrencado na delação. Lembremos que Delcídio já delatou informalmente o “petrolão tucano” ocorrido no governo FHC em suas inconfidências gravadas pelo filho de Nestor Cerveró.


Helena Sthephanowitz
No RBA
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Explosão fere 12 pessoas no bairro Tancredo Neves, em Manaus


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Por que o dono ‘real’ da Paraty House não aparece?

Hoje a praia é sua, hoje a praia é nossa”: ativistas fazem festa em frente da Paraty House
Já faz algumas semanas que a Paraty House é um dos assuntos mais quentes nas redes sociais.

Mais precisamente, desde que o DCM foi a Parati investigar a casa, que se consagrou na internet como o Triplex dos Marinhos.

Temos, agora, uma situação bizarra.

Contra todas as evidências, os Marinhos afirmam não ser donos do casarão. O DCM recebeu mais de uma notificação judicial da Globo com ameaças caso não disséssemos que os Marinhos nada têm a ver com a Paraty House.

É uma espécie de casa maldita, porque é criminosa desde antes de ser erguida. Um espaço público foi tornado ilegalmente particular, e a legislação ambiental foi simplesmente ignorada.

Considere nossa situação.

Uma paisagista que trabalhou no projeto nos procurou, na condição de anonimato, para contar detalhes de sua rotina na obra. “Atendi a Paula Marinho na casa”, disse ela.

Paula Marinho é filha de João Roberto e neta, portanto, de Roberto Marinho. O arquiteto que desenhou a Paraty House batizou o projeto de PM. Um funcionário da empresa que fornecia internet à propriedade nos procurou para narrar, também sob a condição de anonimato, os serviços prestados à casa. “Todas as questões eram encaminhadas, por telefone, por uma secretária da família Marinho”, ele nos disse.

O anonimato não é gratuito.

As pessoas têm pavor da retaliação da Globo. Uma funcionária de um instituto ambiental que investigava o caso enfrentou um pesadelo. Sua casa foi atacada e seu carro queimado.

O pânico é justificado. Se presidentes da República não conseguem encarar a Globo, que dirá humildes brasileiros residentes em Paraty?

A despeito das negativas da família, a Paraty House entrou na mente dos brasileiros, por justificadas razões, como o Triplex dos Marinhos.

Foi assim que Lula se referiu à casa na entrevista que concedeu depois da condução coercitiva que lhe foi imposta por Moro. Foi assim também que ativistas a chamaram depois de, neste domingo, ocupar a praia tomada pela Paraty House. Eles cantavam: “Hoje a praia é sua, hoje a praia é nossa, é de quem quiser, quem vier.”

Trata-se, hoje, de um caso de enorme interesse nacional.

E é aí que entra a situação bizarra citada acima. Por que, se os Marinhos não são os donos, não aparece o verdadeiro proprietário?

Fernando Brito, do  Tijolaço, também ele notificado, fez uma excelente sugestão à Globo. Com tantos recursos e tantos jornalistas em suas múltiplas redações, por que a Globo não esclarece o caso?

Acrescento aqui: por que as demais empresas jornalísticas ignoram um assunto de tamanha relevância? A suspeita — pesada — de que a família mais rica do país tenha erguido uma casa desconsiderando a lei é notícia, e notícia de primeira página.

Seja para confirmar, seja para desmentir, um jornal ou uma revista decente haveria de investigar o caso.

Mas por que ninguém se mexe para elucidar um mistério? E por que o verdadeiro dono não diz que a casa é dele?

Imagino que ele não vá gostar de ver, dia sim, dia não, pessoas se aglomerando em frente de sua casa. A privacidade comprada a preço tão alto, e com ação criminosa, estaria perdida.

Minha hipótese para tudo isso é a seguinte. O real dono não se apresenta porque ele não existe.

Por trás de uma barragem burocrática e legal que só o dinheiro e o poder conseguem comprar, está — repito, é minha hipótese — sabemos muito bem quem.

Paulo Nogueira
No DCM
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Câmara investiga denúncia sobre assinatura falsa de deputado


Fraude teria sido tentativa de dificultar processo de cassação de Cunha.

Suspeita é que houve fraude na troca de um integrante do Conselho.

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Cunha recebe visita de delegados da PF para pedir apoio

Cunha recebe visita de delegados da PF para pedir apoio a projeto de autonomia do órgão
Ailton de Freitas / Agência O Globo
Menos de uma semana depois de virar réu no Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), recebeu dezenas de delegados da Polícia Federal em seu gabinete nesta terça-feira. Os profissionais vieram lhe pedir apoio na tramitação de Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que dá autonomia funcional, administrativa e financeira para a corporação. A inusitada presença de delegados no gabinete de um réu gerou comentários irônicos até de deputados que dão apoio ao peemedebista.

— Você viu? Tem um monte de PF na sala dele e não vieram para levar o Cunha! — disse um dos principais aliados do presidente.

O encontro foi organizado pelo deputado Fernando Francischini (SD-PR), que teria sido citado na delação premiada do senador Delcídio Amaral (PT-MS), de acordo com trecho publicado pela revista IstoÉ. Francischini é delegado da PF e também brincou quando foi questionado se o agente Newton Ishii, mais conhecido como “Japonês da Federal”, estava entre os presentes.

— O japonês hoje não veio. Ele tem que cuidar das coisas dele lá no Paraná — disse Francischini.

Presidente da Associação Nacional de Delegados da Polícia Federal, Carlos Eduardo Miguel Sobral, disse não ter constrangimento em pedir apoio a um réu na Lava-Jato para conseguir levar adiante a pauta de sua classe.

— Não há constrangimento nenhum. Ele é o presidente da Câmara, representa um poder e nessa qualidade foi visitado — disse Sobral.

Cunha se comprometeu a instalar a comissão especial. Antes, porém, caberá à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) votar pela admissibilidade da proposta de autonomia para a PF. O presidente da Câmara evitou avançar na opinião sobre o mérito do projeto.

— Não temos ideia se está ou não precisando (de autonomia). É uma proposta que está na Casa e eu estou criando a comissão especial. A Casa que vai discutir. Eu não tenho opinião. Não conheço o texto — disse o presidente da Câmara.

A proposta em tramitação na Câmara daria poder aos gestores da PF para direcionar livremente os recursos e fazer mudanças administrativas. A proposta tem apoio dos delegados da PF, mas sofre oposição de agentes, escrivães e papiloscopistas, que chegaram a realizar protestos no país no ano passado.

Eduardo Bresciani, Isabel Braga e Manoel Ventura
No O Globo
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Mais uma prova de como a Globo manipula você

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O momento enfrentado pelo grupo Globo, da família Marinho, é delicado. No fim de semana, centenas de pessoas protestaram diante da sede da emissora no Rio de Janeiro. Pouco depois, um grupo invadiu um triplex em Paraty (RJ), cuja propriedade é atribuída aos Marinho, que negam serem donos da casa. Ontem, integrantes do MST invadiram a sede da afiliada da Globo em Goiânia, o que mereceu notas de repúdio de entidades ligadas ao jornalismo (saiba mais aqui).

Por trás do cerco à Globo, está a percepção de que a emissora dos Marinho hoje atua, assim como em 1964, com o propósito claro de fragilizar a democracia brasileira. E o problema é que a Globo, com seu noticiário enviesado, de fato alimenta essa percepção.

Na sexta-feira passada, por exemplo, quando a Globo decidiu entrar de cabeça na história da suposta delação de Delcídio Amaral (PT-MS) — não homologada pela Justiça e negada pelo próprio "suposto delator" —, o jornal O Globo chegou às bancas e casas de seus assinantes com uma manchete triunfante e definitiva: "Delação de Delcídio põe Dilma no centro da Lava-Jato".

Hoje, quando se sabe que o senador Aécio Neves está na mesma hipotética delação, por seu suposto envolvimento nada republicano numa CPI, o Globo esconde a notícia no pé da primeira página e nem cita o presidente nacional do PSDB em seu título.

Na semana passada, após o vazamento da suposta delação de Delcídio, Aécio convocou uma reunião de emergência da oposição, decretou pela enésima vez a morte do governo da presidente Dilma Rousseff e decidiu retomar a pressão pelo impeachment, informando que anexaria a suposta delação de Delcídio ao pedido inicial, aprovado por Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Coincidência ou não, Aécio passou a dizer, agora, que a suposta delação de Delcídio só será anexada ao pedido de impeachment depois de ser homologada — uma vez citado, pode até ser que o senador passe a trabalhar contra sua homologação.

Por último, mas não menos importante, na semana passada todos os veículos de comunicação do grupo Globo relativizavam o fato de o próprio Delcídio ter negado, em nota, o teor da delação atribuída a ele. Hoje, o Globo publica declaração de um dos advogados de Delcídio, Antonio Figueiredo Basto, afirmando que "documentos falsos estão sendo publicados" e, de novo, negando a delação.

Ou seja: no mundo da Globo, ela só seria verdadeira, se atingisse apenas o PT e a presidente Dilma. Contra Aécio, vira mentira.

No 247




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Lava-Jato sequestra ilegalmente toda a comunicação do Instituto Lula

http://www.institutolula.org/lava-jato-sequestra-comunicacao-do-instituto-lula

Durante a operação de busca e apreensão no Instituto Lula na última sexta-feira (4), a Polícia Federal exigiu, sob voz de prisão do técnico de informática, a senha do administrador das contas de e-mail @institutolula.org, o que não constava no mandado da justiça, que fazia referência apenas poucas contas de e-mail específicas.

Com a informação que receberam sem mandato, passaram a ser os únicos a poder criar e bloquear e-mails, além de terem acesso livre a todas as contas do Instituto Lula, indo muito além do mandado original expedido pelo juiz Sérgio Moro. 

Mais do que isso. Ontem foi efetivamente violado o sigilo de cinco contas de e-mail, todas sem o respaldo legal de um mandato judicial.

Trata-se não somente de mais uma violação das regras legais. Trata-se de uma violência às garantias e direitos fundamentais expressos no artigo 5º da Constituição Federal, uma salvaguarda civilizatória defendida na Declaração Universal dos Direitos Humanos e por todas as democracias deste planeta.

O Instituto Lula peticionou na terça-feira (8), ao juiz Moro, a devolução da senha do administrador para o fim desse abuso de poder contra o trabalho de uma entidade da sociedade civil brasileira.

A apropriação ilegal da senha do administrador dos e-mails do Instituto (hospedados no Google) permite à Polícia Federal: ler todas as mensagens de todas as contas do Instituto (inclusive esta e qualquer comunicação com a imprensa, violando princípio constitucional), apagar informações, e, como já aconteceu, trocar a senha, impedindo o acesso as contas pelos seus usuários, bloqueando seu trabalho e contatos.

A senha também permite que eles criem novos (e ilegítimos) e-mails com o domínio do institutolula.org e que mandem mensagens em nome de qualquer conta do Instituto. Imagine se um abuso desse fosse cometido com a sua conta de e-mail pessoal, com a conta de e-mail de uma empresa, ou de um órgão da imprensa. 

O Instituto Lula é uma organização da sociedade civil brasileira sem fins lucrativos, com contatos e trabalho conjunto com movimentos sociais, entidades sindicais, organismos internacionais, governos e ex-mandatários da África, América Latina, Estados Unidos, Europa, Ásia e Oceania. 

Apenas para citar alguns exemplos, temos acordos, parcerias ou relacionamento com a FAO, a Cepal, com a União Africana, com a União Europeia, com a Unasul, com as fundações do Partido Socialista Francês e do Partido Social Democrata Alemão, com o Podemos e o PSOE da Espanha, com o sindicato dos trabalhadores da indústria automotiva dos Estados Unidos (UAW), com o sindicato dos metalúrgicos da Alemanha (IG Metall), com a Central Sindical da África do Sul (Cosatu), com a Fundação Bill e Melinda Gates, com a Fundação Clinton etc. 

Recebemos visitas de jornalistas, acadêmicos, embaixadores, lideranças partidárias, chefes e ex-chefes de estado interessados em conversar sobre o cenário político mundial e a experiência do Brasil no combate à pobreza com os diretores do Instituto e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma das personalidades brasileiras mais conhecidas no exterior.

O sequestro feito pela Polícia Federal de toda a nossa autonomia e privacidade em comunicações eletrônicas é uma violência contra a democracia, a liberdade de organização e expressão.
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A guerra da informação na luta pelo poder

Se observarmos as crises do suicídio de Getúlio, da renúncia de Jânio, do golpe militar de 1964, do impeachment de Collor e agora da provocada pela Lava Jato, é possível identificar uma importante evolução do papel da imprensa em todos estes momentos de convulsão política no país. De ator secundário e passivo, ela passou gradualmente a um protagonismo central, onde as fronteiras entre o papel de informador e de indutor de opiniões se tornaram difusas.

O crescimento da importância da imprensa no desenrolar de processos de mudança de governo ocorreu simultaneamente e em sentido inverso à redução do papel das Forças Armadas no desenlace de impasses políticos. Se os militares foram o fator decisivo nas crises de 1954, 1961 e 1964, na de 1992 e agora no caso Lava Jato eles passaram a um discretíssimo segundo plano.

Se por um lado o poder do exército, marinha e aeronáutica perderam relevância como fator definidor de crises, por outro aumentou o papel da opinião pública alimentada e condicionada pela imprensa. As estratégias de informação passaram ao primeiro plano enquanto o uso da força deixou de ser ostensivo nas ruas para se tornar representado em fotos e vídeos das ações da Polícia Federal. Seus agentes, como mostram imagens do “japonês da Federal”, usam uniformes de combate para escoltar políticos, empresários, lobistas e doleiros cuja aparência não tem nada de beligerante. Na prática é uma informação visual que está sendo transmitida ao telespectador ou leitor com o objetivo de empoderar simpatizantes e atemorizar suspeitos de corrupção.

O fato da informação ter se tornado mais eficiente do que as armas num contexto de crise política, sinaliza uma evolução de processos simplistas, do tipo os bons contra os maus, para outros muito mais complexos porque lidam com um número muito maior de variáveis. Até a virada do século a informação estava concentrada e controlável. Hoje existem as redes sociais onde circulam versões, ddos e fatos de todos os tipos, o que torna a avaliação de situações, processos e personagens uma ação que pode ser extremamente complexa.

Um retorno à dicotomia bons contra maus, justo contra injusto, acaba sempre levando à necessidade do uso da força na hora da definição, o que pode acabar se constituindo num tiro no pé. A simplificação informativa pode até resolver impasses políticos mas não acaba com ressentimentos e retaliações.

A ascensão da informação como fator preponderante em crises politicas exige uma mudança radical nos comportamentos dos diversos protagonistas institucionais. Agora são os neurônios e o conhecimento que definem o desenlace, o que obriga os atores a usar mais a inteligência do que os músculos e a força bruta.

Na atual crise por que passa o país, a troika Ministério Público, Polícia Federal e a grande imprensa (três jornais, três revistas e a Rede Globo) souberam usar a inteligência ao montar uma estratégia de informação e comunicação que foi meticulosamente seguida ao longo dos últimos 20 meses e que logrou reverter um quadro politico que parecia consolidado no desfecho das eleições de 2014.

O governo da presidente Dilma Rousseff e os lideres do Partido dos Trabalhadores adotaram uma atitude defensiva sem contrapor outra estratégia de informação, no que resultou a perda do apoio de setores consideráveis da classe media, principalmente nos grandes centros urbanos do país.

O novo roteiro para desestabilizar governos já foi aplicado noutros países latino-americanos como o Paraguai em 2012, e usa intensivamente a informação e da imprensa para impactar a opinião pública com denúncias de corrupção tanto institucional com pessoal, de políticos, ministros, governantes e dirigentes de empresas estatais e privadas. Cada suspeito interrogado retroalimenta o fluxo de denúncias por meio do instituto da delação premiada, o que fornece mais material para a geração da síndrome do escândalo por meio de manchetes, fotos, gravações e vídeos.

A corrupção está entranhada no aparelho estatal e no sistema político da maioria dos países latino-americanos, inclusive o Brasil, há muito tempo. Ela está associada ao financiamento de campanhas eleitorais e todos os partidos políticos acabaram contaminados pela propina, superfaturamento e lavagem de dinheiro. Quem está no poder tem mais possibilidades de lucrar no submundo da informalidade financeira. A facilidade para desviar dinheiro por meio de propinas e superfaturamento acabou contaminando também que exerce algum cargo público. Funcionários públicos e políticos acabaram embolsando dinheiro ilegal para beneficio pessoal, usando como desculpa a justificativa de financiamento de campanhas eleitorais.

O governo da presidente Dilma Rousseff está de joelhos à espera do golpe final, mostrando que a estratégia da troika deu certo no que se refere à luta pelo poder. O problema é que a simples troca de governantes não resolve o problema da corrupção institucionalizada. Se a operação Lava Jato se esgotar na punição de corruptos e corruptores o sistema que deu origem a escândalos tipo mensalão e petrolão permanecerá intacto e ressurgirá dentro de algum tempo.

O esforço para criar uma consciência coletiva contrária à corrupção depende da conquista de corações e mentes para uma nova cultura político-social que só poderá ser desenvolvida com o uso de estratégias de informação. Mais do que leis e punições é necessária uma mudança global de atitudes diante da corrupção política e da impunidade. Se ficarmos apenas na troca de governantes, a operação Lava Jato ficará marcada como uma desforra eleitoral em vez de se transformar num marco na vida do país.

Carlos Castilho
No Observatório da Imprensa
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O que Aécio tem a dizer agora que apareceu na alegada delação de Delcídio?

O que este demagogo vai dizer agora que apareceu na delação de Delcídio?
Poucos dias atrás, diante das notícias sobre a alegada delação de Delcídio, Aécio se apressou em vestir suas melhores roupas de demagogo e postar uma lição de moral no Twitter.

Expressou “repúdio e indignação”, e afirmou que chegamos ao “fundo do poço”.

E eis que agora se sabe que Aécio também está citado no documento que supostamente traz a delação de Delcídio.

O Moralista Mineiro, nosso MM, irrompe num  trecho que diz respeito a sua atuação numa Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).  Não se sabe ainda exatamente qual é esta CPI. Mas é bom lembrar que numa delação um falecido presidente  do PSDB, Sérgio Guerra, foi acusado de receber 10 milhões de reais para fazer melar uma CPI sobre a Petrobras.

Desde já é divertido ver como será a reação deste que é um dos campeões em citações de delatores, um dos quais disse que ele é o mais chato cobrador de propinas. Tudo isso não o impede de falar em corrupção como se fosse Mujica ou o Papa Francisco.

MM não hesita em atirar pedras quando a imprensa amiga, por meio de vazamentos da Lava Jato amiga, menciona Lula, Dilma e o PT.

Saca a pistola como se fosse Billy the Kid.

Mas e quando, como agora, é seu nome que circula na lama?

Aí então deve-se ter “extremo cuidado” com acusações que sequer foram averiguadas. Aí então MM, compungido, aparece como um defensor intransigente da presunção de inocência — esta pedra fundamental do Estado de Direito que Moro simplesmente pulverizou.

O acusador furioso se defende como um, bem, a palavra é dura, mas não há outra melhor: um rato.

É uma das aberrações nacionais que Aécio encontre espaço em jornais e revistas de magnatas amigos para falar em corrupção depois de fazer uma pista de aeroporto particular com dinheiro público, se recusar a enfrentar um teste de bafômetro numa noite bêbada, investir recursos do contribuinte em suas rádios e transformar Furnas num cofre para sua conta bancária.

(Veja aqui o documentário do DCM sobre a Lista de Furnas, já um best-seller com mais de 100 mil visualizações em menos de um mês.)

Mas é o que acontece, infelizmente.

Um dos mais consagrados corruptos da República perora sobre corrupção diariamente nas primeiras páginas dos jornais.

Os sábios da antiguidade diziam que entre rir e chorar da miséria humana é preferível a primeira opção.

Vou tentar, assim, rir ao pensar em Aécio e sua descomunal dose de miséria humana.

Paulo Nogueira
No DCM
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Senador tucano teria sido o vazador da delação de Delcídio

http://www.revistaforum.com.br/blogdorovai/2016/03/09/senador-tucano-teria-sido-o-vazador-da-delacao-de-delcidio/

istoedelcidioParlamentares do PT no Congresso Nacional já teriam fortes indícios de que a fonte das informações da Revista Isto É que deu origem a capa com a delação do senador Delcídio Amaral teria sido um senador tucano.

O senador é amigo do diretor executivo da Editora 3, Carlos Alzugaray, filho de Domingos Alzugaray, fundador da empresa.

A operação da publicação da reportagem teria sido definida em reunião entre ambos, onde também ficou acertado que só seriam publicados os trechos que atingiram integrantes do PT, Lula e Dilma em especial.

O senador seria um dos citados na delação.

A revista também teria chegado a Brasília na quinta a partir de uma operação especial que envolveu um esquema heterodoxo de envio do material.

Se as investigações vierem a se confirmar, integrantes da bancada do PT já cogitam solicitar a cassação do mandato do senador por quebra de decoro parlamentar.
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Lava Jato: tudo começou em junho de 2013


Para entender o nosso jogo de xadrez é importante clareza sobre um divisor de águas: a condução coercitiva de Lula a Congonhas.

Para o juiz, os procuradores justificaram que a intenção seria proteger a imagem e a integridade de Lula. Na nota oficial, os procuradores sustentam que pretenderam conferir a Lula o mesmo tratamento aplicado em 114 réus anteriores. Quem está enganando quem?

A operação fugiu do padrão escracho da Lava Jato. Lula foi conduzido em sigilo à sala VIP do aeroporto de Congonhas, na beira da pista, com um jatinho da Polícia Federal no hangar pronto para decolar.

Pesados todos os fatos e possibilidades, a hipótese mais robusta foi levantada por José Gregori, ex-Ministro da Justiça do governo FHC: a intenção era, de fato, prender Lula e conduzi-lo a Curitiba.

No interrogatório havia quatro delegados da PF e quatro procuradores. À medida que o tempo avançou e divulgou-se a localização de Lula, de dentro da sala era possível ouvir os urros da multidão do lado de fora.

Seja lá o que ocorreu, a ida de deputados do partido a Congonhas, a aglomeração de manifestantes, o fato é que não se consumou a operação.

No final do dia, um Sérgio Moro visivelmente assustado com os riscos da operação, soltou a nota oficial explicando que o pedido partiu dos procuradores, enfatizando a intenção de preservar a imagem e a integridade de Lula e lançando um apelo pela paz e pela concórdia.

Mesmo com a perspectiva de acirramento de conflitos de rua, os procuradores da Lava Jato trataram de botar mais óleo na fervura, soltando a nota em que desmentiam as razões invocadas por Moro e se comportavam como deuses ex-machina lançando raios do Olimpo.

A história reconhecerá no futuro a enorme contribuição do procurador Carlos Fernando dos Santos Lima para expor a conspiração quase em tempo real. Seu estilo grosseiro, tosco, atropela e expõe uma estratégia muito mais refinada. Tão refinada que parece difícil que tivesse sido planejada em Curitiba.

A estratégia se completa com a matéria de ontem da Folha, de que a Lava Jato prepara um conjunto de ações de improbidade visando impedir Lula de concorrer novamente (http://migre.me/tbiYy), confirmando, aliás, os cenários que venho traçando.

Os dois comunicados, mais as informações adicionais, colocam, de uma vez, quatro peças a mais no nosso quebra-cabeças.

Peça 1 — A radicalização é alimentada pelos procuradores da Lava Jato. Mais do que explicações, a nota oficial dos procuradores é um libelo, antecipando a peça final da acusação.

Peça 2 — Moro não é nem nunca foi o cérebro por trás da operação.

Uma operação dessa envergadura não poderia ter sido obra de um juiz de primeira instância, de um estado pouco relevante politicamente, conhecido por seu conservadorismo, rígido nas sentenças, mas tímido, tosco até fora dos limites dos autos. Foi só recuar para ser atropelado pela Força Tarefa.

Peça 3 — A Polícia Federal é um mero instrumento nas mãos dos procuradores.

Domingo, o Estadão publicou matéria condenando os abusos da operação, atribuindo-os à Polícia Federal. Ora, a PF limitou-se a cumprir um mandado requerido pelos procuradores e autorizado pelo juiz Moro. Já os procuradores formam um todo coeso, obedecendo a uma estratégia nítida: a inabilitação política de Lula.

Peça 4 — Em meio às turbulências políticas, houve o risco de confrontos entre manifestantes se alastrarem por todo o país. Um mero Procurador Regional de Curitiba pode definir, por si, a oportunidade de um libelo político com aquele grau de temperatura?

Aí cabem duas hipóteses:

Hipótese 1 — O Ministério Público Federal é um arquipélago formado por comitês, regionais independentes, cada qual com poderes de interferir até nos aspectos psicossociais do país, sem nenhuma forma de coordenação ou de controle interno.

Hipótese 2 — há um comando central, de nível hierárquico superior ao dos procuradores do Paraná.

Em qualquer hipótese se abre um enorme flanco na armadura institucional do Ministério Público. Quando o modelo de atuação torna o país refém de um juiz de 1a instância armado por procuradores regionais beligerantes, há algo de errado na história.

Para entender o jogo, vamos relembrar o histórico da perseguição a Lula.

A perseguição a Lula

As declarações reiteradas dos procuradores — que investigam fatos e não pessoas — foram desmentidas cabalmente pela última operação.

A perseguição a Lula pela Lava Jato começou em março do ano passado, em cima das investigações da Bancoop pelo Ministério Público Estadual (MPE).

O site Jota contou em detalhes essa história, em reportagem de Laura Diniz (http://migre.me/tbiZP).

Em março de 2015 o promotor José Carlos Blat, do MPE paulista, foi procurado por integrantes da Força Tarefa da Lava Jato, para compartilhar informações. Em maio teriam surgido fatos novos em relação à Bancoop, OAS e o prédio de Guarujá. Blat comunicou à juíza Cristina Ribeiro Leite Costa, da 5a Vara Criminal da Capital. Em despacho de 10 de junho, a juíza informou que novas informações deveriam ser investigadas em separado.

Resolveu-se rapidamente o problema através de um artifício, uma Representação Criminal combinada com três escritórios de advocacia que já atuavam no caso Bancoop, dirigidas diretamente ao procurador — atropelando o conceito de promotor natural, aquele designado por sorteio.

Com o estratagema, o tríplex entrou na Lava Jato, diz a matéria. E “caídas literalmente do céu”, segundo a reportagem, as informações sobre a offshore Murray e a Mossak Fonseca, que serviram de pretexto para a Operação Triplo X.

Caíram do céu da mesma maneira que as informações iniciais sobre a Petrobras caindo no colo do juiz Moro.

Na mesma época, um obscuro deputado federal do PSDB do Acre pega matéria de Veja, que falava do sítio de Atibaia, com informações erradas — atribuindo as obras à OAS — e fez uma representação ao MPE paulista. O MPE recusou e encaminhou a representação para a Procuradoria Geral da República. No dia 15 de julho, o próprio PGR Rodrigo Janot encaminhou a Curitiba, abrindo o segundo duto de bombas contra Lula (http://migre.me/tbj0y).

Na nova etapa, a primeira investida foi sobre a Mossak Fonseca. A Força Tarefa invadiu os escritórios, deteve funcionários, recolheu computadores e e-mails. Pouco depois vazou a informação das ligações da Murray com a casa atribuída à família Marinho em Parati. Imediatamente a operação Mossak sumiu dos noticiários, os detidos foram imediatamente liberados, contradizendo todo o padrão da operação até então, demonstrando que a Lava Jato não investigava fatos, mas pessoas. Aliás, algumas pessoas.

A perseguição a Lula ficou mais nítida no dia 2 de fevereiro, por volta das 18 horas, quando quatro procuradores da Força Tarefa foram à casa do trabalhador Edivaldo Pereira Vieira.  Eram eles, Athayde Ribeiro Costa, Roberto Henrique Pozzobon, Januario Paludo e Júlio Noronha.


Não tinham mandado, intimação, apenas suas carteiras de promotores e o autoconferido poder de investigar. Pressionaram, constrangeram e intimidaram Edivaldo, um sexagenário humilde, porque era irmão de Élcio Pereira Vieira, caseiro do Sítio Santa Bárbara — levado em condução coercitiva na 24a fase da Operação. Ao final dessa típica batida policial, os procuradores deixaram um telefone de Curitiba, para o caso de sua presa decidir "colaborar".

Finalmente, com a operação de sexta, se valeram do estratagema de envolver esposa e filhos de Lula, visando derrubar emocionalmente o adversário

No decorrer de todo o ano, os vazamentos da Lava Jato, planejados pelos Procuradores da República e Delegados Federais, lançaram no ar toda sorte de factoides.

Qualquer suspeita, por mais ridícula que fosse, era transformada em sentença condenatória, misturando fatos relevantes com bobagens monumentais. Essa mistura ajudou a alimentar dois sentimentos conflitantes. Nos especialistas, a convicção de que a Lava Jato perseguia pessoas, depois ia atrás de qualquer fato que incriminasse o alvo. Nos leigos a certeza de que havia um ladrão de galinhas no Planalto, pois até suspeitas de desaparecimento de estátuas e adagas foram ventilada pelo escoadouro montado na Lava Jato.

E aí alguns fatos incômodos começam a invadir o raciocínio. Toda a estratégia de mídia foi montada em Brasília, pela própria Procuradoria Geral da República, assim como o reforço da Força Tarefa e a ênfase na cooperação internacional.

Seria Janot responsável direto por todos esses absurdos, ou meramente abriu a porteira e perdeu o controle da boiada?

Vamos avançar no nosso quebra-cabeça, sem nenhum juízo de valor definitivo.

A Primavera brasileira no início de tudo

O ponto de partida foram as manifestações de junho de 2013, que deixaram claro que o Brasil estava preparado para a sua “Primavera”, a exemplo das que ocorreram nos países árabes e do leste europeu. Essa possibilidade alertou organismos de outros países, como o próprio FBI e acendeu alerta na Cooperação Internacional — a organização informal de procuradores e polícias federais de vários países, que se articularam a partir de 2002 para combate ao crime organizado.

Evidência: informação me foi confirmada por Jamil Chade, correspondente do Estadão em Genebra, para explicar porque o FBI decidiu só agora investir contra a FIFA. As manifestações teriam comprovado que a opinião pública brasileira estaria suficientemente madura para apoiar ações anticorrupção — e de interesse geopolítico dos EUA, claro.

Atenção — não significa que as primeiras manifestações foram articuladas de fora para dentro. O início foi de um grupo acima de qualquer suspeita, o MPL (Movimento Passe Livre). Foi a surpreendente adesão de todos os setores, da classe média à extrema esquerda que mostrou que a sede de participação, trazida pelas redes sociais, havia transbordado para as ruas. As manipulações das manifestações passam a ocorrer mais tarde devido à absoluta insensibilidade do governo Dilma e do próprio PT em entender o momento.

É a partir daí que, em contato com a cooperação internacional, começam a ser planejadas as duas grandes operações mundiais anticorrupção do momento: a Lava Jato, que visaria desmontar a quadrilha que se apossou da Petrobras e a do FBI contra quadrilha que se apossou da FIFA e da CBF. 

Houve movimentos internos relevantes que antecederam o início do jogo. No bojo das manifestações de 2013 ficou nítida a parceria da Globo com o MPF.

Evidência — Do nada começaram a pipocar cartazes pedindo a derrubada da PEC 37 — que proibia procuradores de realizar investigações por conta própria. Os veículos da Globo passaram a dar cobertura exaustiva à campanha, ajudando na derrubada da PEC. Matérias no Jornal Nacional (http://migre.me/tbj1a http://migre.me/tbj1I) conferindo dimensão nacional ao movimento. E propondo não apenas derrubar a PEC, como aprovar nova PEC que garantisse explicitamente o poder do MP de investigar (http://mcaf.ee/auivz5).

No mesmo mês de junho de 2013 surge outro fato revelador: o vazamento de informações da NSA (Agência de Segurança Nacional) pelo ex-técnico Edward Snowden.

Na primeira semana, foram vazados documentos de casos internos de espionagem. Depois, a espionagem sobre outros países. Na enxurrada de documentos vazados, fica-se sabendo que a NSA espionava preferencialmente a Petrobras.

De repente, um juiz de 1a instância em Curitiba, Sérgio Moro, tendo como fonte de informação apenas um doleiro, Alberto Yousseff, tem acesso a um enorme volume de informações sobre a Petrobras e consegue nacionalizar um processo regional.

Até hoje a Lava Jato não revelou como chegou às primeiras informações sobre a Petrobras, que permitiram expandir a operação para todo o país.

O que se viu, dali em diante, foram dois dutos de informação montados entre o MPF brasileiro e a cooperação Internacional: o duto da Lava Jato e o duto da FIFA. Pelo duto da Lava Jato vieram informações centrais para o desmantelamento da quadrilha da Petrobras. Já o duto da FIFA ficou obstruído. As informações de lá para cá esbarraram em uma mera juíza de 1a instância do Rio de Janeiro e até hoje não foram destravadas. E as informações daqui para lá não fluíram. Por todas as informações levantadas em Genebra, a Globo era peça central do esquema FIFA-CBF.

Depois disso, a cooperação internacional torna-se instrumento central nas investigações da Lava Jato. Mas nas investigações da FIFA, o braço brasileiro da cooperação internacional falha. A Globo está sendo poupada.

Evidência — A entrevista de Jamil Chade (http://migre.me/tbj35) informa o desagrado do FBI com a demora do MPF em atender às suas solicitações sobre a Globo. Diz ele: “Um dos únicos países que não colabora nesse caso (é o Brasil), ironia total. O craque que montou é brasileiro e parte fundamental atuação foi dos dirigentes brasileiros. O Departamento de Justiça já deixou muito claro ao Brasil que estava muito incomodado com essa falta de colaboração”.

A estratégia midiática da Lava Jato

Um levantamento sobre as intervenções norte-americanas nas Primaveras que sacudiram o Oriente Médio, mostra que todas elas vieram acompanhadas de uma estratégia de comunicação através das redes sociais. E com foco na corrupção e na defesa da democracia.

A Lava Jato foi montada seguindo todo o receituário das Primaveras. Receita pronta, ou recolhida de algum manual ou aulas particulares com especialistas.

1.    Acesso a informações críticas sobre a quadrilha que atuava na Petrobras.

2.    Identificação de algum inquérito regional que pudesse ser nacionalizado. Não havia nenhum melhor que Sérgio Moro, testado na AP 470 — como assessor da Ministra Rosa Weber — tendo atuado no caso Banestado.

3.    Montagem imediata de um aparato de comunicação, contratando assessorias especiais, montando hotsites de maneira a potencializar as denúncias de corrupção. O que foi feito pela Procuradoria Geral da República.,

Outro know-how adquirido foi o da criação de personagens para atuar como polos nas batalhas pelas redes sociais.

Nas eleições de 2010, com seus consultores estrangeiros a campanha de Serra registrou pela primeira vez o uso científico das redes sociais. Criavam perfis fakes, capazes de galvanizar ilhas de influência no Twitter. Havia o jovem curitibano de vinte anos, vítima de uma doença fatal; o músico negro da periferia de São Paulo, capaz das maiores baixarias (aliás, o fato de conferir esse perfil a um músico e negro é indicativo do jogo conservador).

Na Lava Jato, investiram em duas imagens reais. Numa ponta, a imagem evangelizadora de rapaz do bem, o procurador Deltan Dallagnol; na outra, do homem mau, o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima, uma imagem tão marcadamente detestável que, infelizmente, será a imagem do MPF durante bons anos para grande parte da opinião pública.

Obviamente, não me refiro ao procurador, que nem conheço, mas à imagem propagada. O MPF não tem mais a cara dos procuradores que ajudaram a institucionalizar direitos sociais, democracia, direitos das minorias, a punir os crimes da ditadura. É de Carlos Fernando e seu olhar rútilo, de matador, a nova cara do MPF.

Nas redes sociais e movimentações de rua surgem, da noite para o dia, movimentos como o “Movimento Brasil Livre” e “Estudantes Pela Liberdade”. Constatou-se, com o tempo, que eram financiados pelo Charles Kock Institute, ONG de dois irmãos, Charles e David, herdeiros donos de uma das maiores fortunas dos Estados Unidos.

Os Kock ficaram conhecidos por financiar ONGs de ultradireita visando interferir na política norte-americana (http://migre.me/tbj3w). E tem obviamente ambições de ampliar seu império petrolífero explorando outras bacias fora dos EUA.

Para selar de vez a parceria com a cooperação internacional, o próprio PGR Rodrigo Janot foi aos Estados Unidos comandando uma equipe da Lava Jato para dois eventos controversos.

O primeiro, levar informações da Petrobras para possíveis processos conduzidos pelo Departamento de Justiça contra a estatal brasileira. O segundo trazer de lá informações que explodiram na Eletronuclear, depois de encontro com advogado do Departamento de Justiça ligada a escritório de advocacia que atende o segmento nuclear por lá.

A geopolítica da cooperação internacional

Desde os anos 70, a parceria com ditaduras militares mostrou-se inconveniente para a diplomacia norte-americana. De um lado, pela dificuldade em justificá-la perante a opinião pública liberal norte-americana. De outro, pelo fato dos governos militares terem nítido cunho nacionalista — como se viu com o governo Geisel, no Brasil, ou a ditadura militar argentina deflagrando a guerra das Malvinas.

Gradativamente, a diplomacia e as instituições norte-americana foram mudando o eixo, aproximando-se dos sistemas judiciários nacionais, das polícias federais, de procuradores e estimulando ONGs, especialmente aquelas voltadas para a defesa do meio-ambiente. A internacionalização da Justiça tornou-se um fator legitimador, para fortalecer outro polo de influência nos sistemas nacionais, acima dos partidos e do Congresso.

Tornou-se conhecido o modelo de desestabilização no Oriente Médio com as diversas primaveras nacionais. Insuflava-se a classe média com denúncias de corrupção. Seguiam-se as manifestações de rua que, devido ao clima de catarse criado, descambavam para a violência. Depois, a intervenção de alguma força visando trazer a ordem e implantar a democracia. Foi assim nas ações desastrosas no Iraque, Afeganistão e Líbia — conforme explicou o professor Moniz Bandeira em longa entrevista concedida esta manhã ao GGN. Em todos esses casos, desmontou-se um regime autoritário e deixou-se como herança o caos, a destruição de nações e regimes muito mais restritivos dos direitos individuais, quase todos marcadamente conservadores nos hábitos morais.

O problema está no lado oficial da história. E aí entra o papel da cooperação internacional na nova geopolítica do poder.

Desde a viagem de Janot aos Estados Unidos começamos a desconfiar  que os EUA estavam se valendo dessa cooperação para impor suas estratégias geopolíticas.

A Lava Jato não pode mais ser vista como uma operação de investigação isolada. Ela é tudo o que gerou de forma associada, e teve a ajuda central de organismos internacionais — caso contrário jamais teria chegado às quadrilhas que operavam na Petrobras.

Ambos — operadores da Lava Jato e do Congresso — estão umbilicalmente ligados. No plano econômico e social, a contraparte da Lava Jato é a flexibilização da Lei do Petróleo e dos gastos sociais, acabando de vez com o legado social dos últimos governos. 

Evidências — as operações de impacto da Lava Jato sempre caíram como uma luva, sincronizadas com as estratégias de impeachment seja no Congresso seja em dobradinha com Gilmar Mendes no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Toda a pressão em cima de Dilma têm, do lado político-econômico, a intenção precípua de obter concessões nas áreas de petróleo e de gastos sociais.

No plano social, a Lava Jato conseguiu despertar a comoção popular, o afloramento de uma ideologia da classe média, ultraconservadora e intolerante, muito longe da vitalidade juvenil do MPL. No plano econômico, além da flexibilização da lei do pré-sal e do fim dos gastos sociais obrigatórios, ganhou corpo a criminalização das estratégias de desenvolvimento autóctone — como o avanço diplomático na África e o financiamento às exportações, as políticas de conteúdo nacional (que podem ser liquidadas com o fim da Lei do pré-sal.

Ou seja, não dá para desvencilhar a Lava Jato de todo esse leque de princípios ultraconservadores e ultraliberais. Fazem parte do mesmo pacote político.

Na falta de estudos mais apurados sobre o tema, alguns comentaristas julgaram estar frente a uma dessas teorias conspiratórias que povoa o universo das redes sociais.

No Brasilianas de ontem, o professor Luiz Felipe de Alencastro (recém aposentado da Universidade de Sorbonne) informou que nas últimas semanas, o tema ganhou repercussão nos círculos acadêmicos internacionais.

Em breve, a Lava Jato deixará de ser estudada meramente como uma imensa operação anticorrupção para se transformar em um case sobre as estratégias geopolíticas norte-americanas na era das redes sociais, da globalização e da alta tecnologia.

O presidencialismo de coalizão do MPF

E aí se entram nas questões internas do Ministério Público Federal.

Trata-se de uma organização admirável que, desde a Constituição de 1988, foi protagonista de inúmeros avanços civilizatórios no país.

Com o tempo, algumas de suas maiores virtudes — como a independência de cada procurador — transformaram-se em alguns dos seus maiores problemas. A sucessão de representações contra Lula, partindo de todos os cantos, mostra que, hoje em dia, qualquer procurador que queira participar do jogo político basta pegar um factoide qualquer e transformar em representação, valendo-se do poder que lhe foi conferido pela Constituição. E nada acontecerá com ele, sequer o repúdio dos colegas.

Os procuradores se organizam em grupos, de acordo com suas convicções e áreas de atuação. Há desde grupos envolvidos com direitos humanos até os que atuam na área criminal. E há, também, uma enorme gana de protagonismo político por parte de alguns grupos, de participar de cargos executivos, a exemplo de colegas de MPs estaduais.

Quando Lula sancionou a eleição direta para escolha do PGR, abriu a caixa de Pandora. Os candidatos são indicados pela ANPR (Associação Nacional de Procuradores da República) — que representa apenas uma classe de procuradores e é uma associação sindical, de defesa dos interesses corporativos da classe. Não participam os procuradores estaduais, os dos Tribunais de Contas, os militares.

Recentemente, o CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) avançou na questão de permitir que procuradores ocupem cargos no Executivo — hipótese vedada pelo STF.

Na própria campanha eleitoral, os candidatos a PGR vão firmando acordos políticos capazes de viabilizar sua eleição. E, com isso, diluindo poder e capacidade de intervir em abusos.

Em Brasília, há integrantes isentos do Judiciário que defendem Janot, consideram-no uma pessoa equilibrada e responsável. Sustentam que ele perdeu o controle da situação. Ou seja, abriu a caixa de Pandora quando estimulou o vazamento da Lava Jato e agora não conseguiria controlar sua tropa.

Mas há um conjunto de atos e omissões inexplicáveis:

1.    A visita aos EUA levando informações da Petrobras e trazendo da Eletronorte.

2.    A blindagem ao senador Aécio Neves. Na única vez que conversei com Janot ele assegurou que até abril (do ano passado) daria parecer no inquérito que investiga contas de Aécio em Liechtenstein. Não só não desengavetou como desqualificou três delações sobre ele.

3.    A incapacidade de conduzir um inquérito sequer sobre as Organizações Globo.

Será possível que, com a enorme capacidade jurídica acumulada entre seus procuradores mais velhos, com as inúmeras referências de direitos humanos, cidadania, responsabilidade para com o Estado brasileiro, o Ministério Público Federal tenha se transformado em uma corporação dominada pelo sindicalismo?

É a última incógnita desses tempos turbulentos. Todas as demais peças já foram devidamente encaixadas.

Luís Nassif
No GGN
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