21 de fev de 2016

Se houvesse regulação democrática da mídia no Brasil, talvez não tivéssemos o FHC II


Felonia, Hipocrisia, Canalhice:

NOTA NADA ORIGINAL SOBRE COMPORTAMENTO PESSOAL E INTERESSE PÚBLICO

É possível admitir que as pessoas não dispõem de um centro regulador que torne suas atitudes, em diferentes dimensões da existência, absolutamente homogêneas.

Canalhas no trato das questões pessoais podem se revelar absolutamente éticos na vida pública. Artistas que revelam talento e sensibilidade em suas obras, por vezes são seres desprezíveis nas relações com familiares e amigos.

Por isso, a régua do julgamento profissional das pessoas, especialmente as que têm relação mais direta com a opinião pública, não pode levar rigidamente em consideração características pessoais, desde que essas não ultrapassem certos limites, legais ou éticos, que acabam por afetar sua atuação.

Parece a muitos que as revelações de Míriam Dutra atestam que Fernando Henrique Cardoso é um canalha. Esse possível elemento de sua personalidade tem servido para legítimas considerações sobre o fenômeno do machismo, expressas em alguns excelentes textos publicados na blogosfera. Ainda assim, não seria suficiente para impugnar o conjunto de sua atuação política.

O problema, como já foi apontado por diversos comentaristas, é que o desabafo de Míriam Dutra revela muito mais do que a vileza de um homem, como marido, pai e amante. A orquestração para esconder o caso, que envolveu personalidades de destaque da República, a maior rede de TV do país (concessionária de um serviço público), além de uma empresa que conheceu surpreendente desempenho durante os anos FHC, evidencia de forma cabal as deformações existentes no sistema de comunicações brasileiro e conluios inaceitáveis entre agentes públicos e interesses privados que, no mínimo, deveriam ser objeto de apuração pela justiça brasileira.

Afinal, a Rede Globo e a Brasif ficaram pagando mesadas a Míriam Dutra por serviços que esta não prestava, por quê? Ela sumiu da Globo nesses anos todos e a alegação de que recebia da Brasif para verificar preços de mercadorias em free shops é risível. Pode até ser que, tecnicamente, seja possível excluir FHC de qualquer responsabilidade, mas por que empresas contratam por valores bem razoáveis pessoas que não lhe prestam serviço algum?

Passado o susto, já se observa na mídia convencional nova operação abafa. Tudo virou um problema pessoal. E o é, em boa medida, mas toda a intrincada operação para calar Míriam Dutra teve como único propósito garantir a eleição e a reeleição de FHC. Boa parte dela foi orquestrada dentro do Palácio do Planalto. Há relação com a boa vida que garante à Rede Globo uma escandalosa impunidade, além de benesses generosas de organismos públicos? Há relação com o sucesso da Brasif?

O episódio Míriam Dutra não traz à tona o que de mais perverso FHC produziu no Brasil. Tangenciei este tema no artigo abaixo — que aproveito para novamente divulgar — e exploro em outros trabalhos que produzi. O “caso Míriam Dutra” é, entretanto, mais um desses episódios que gritam como é urgente no Brasil a regulação democrática da mídia e a garantia de aparatos policiais e judiciários não partidarizados.

Se os tivéssemos sequer, talvez, teríamos vivido o período FHC na presidência.

Ignacio Godinho Delgado é Professor Titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), nas áreas de História e Ciência Política, e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT-PPED). Doutorou-se em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1999, e foi Visiting Senior Fellow na London School of Economics and Political Science (LSE), entre 2011 e 2012.




A louca cavalgada de FHC rumo à doença infantil do golpismo

Autor de uma obra que lidou com temas variados, Fernando Henrique Cardoso, na condição de sociólogo, ficou conhecido principalmente pela noção de desenvolvimento dependente e associado (também vinculada ao nome de Florestan Fernandes), com a qual definiu a trajetória do capitalismo latino-americano (Cardoso e Falletto, 1970). Nela, distinguia-se das concepções ligadas à CEPAL e à versão da teoria da dependência de Gunder Frank e Ruy Mauro Marini, que apontavam limites estruturais à dinamização do mercado interno nos países do continente, sinalizando para a estagnação ou mesmo o colapso do capitalismo na região. Cardoso, ao contrário, considerava que as articulações entre os diversos segmentos da produção capitalista eram capazes de conferir dinamismo ao mercado, não obstante sua tendência à concentração de renda.

No caso brasileiro, esse diagnóstico se conectava a uma percepção de que o empresariado industrial era incapaz de “ação concertada”, dadas as características da formação do mercado para a indústria no país (Cardoso, 1972). No estágio de internacionalização do mercado interno, com a penetração das multinacionais, tal empresariado, conquanto preservasse algum espaço econômico, ficava “enfeudado” às corporações multinacionais e ao Estado (Cardoso, 1975).

Num registro que hoje soa irônico, em 1974, Cardoso assinalava que o capitalismo dependente e associado forjara, “talvez pela primeira vez na história do Brasil”, a presença de “forças sociais como a massa trabalhadora urbana, os segmentos dos setores técnicos do funcionalismo e das empresas (…) a baixa classe média urbana, o estudantado universitário em expansão…”. E pontificava que “por trás destas forças (que poderiam formar no futuro, grosso modo, uma Partido dos Assalariados) existem os deserdados de sempre que (…) talvez possam, em aliança com o Partido dos Assalariados, constituir base social para uma Oposição” (Cardoso, 1975: 220).

Na década de 1990, Fernando Henrique Cardoso negou ter dito a frase “esqueçam tudo que escrevi”, a ele atribuída já na condição de presidente da República. Não era necessário mesmo negar. O que a teoria do capitalismo dependente e associado apresentava como um diagnóstico do processo de desenvolvimento capitalista, tornou-se, no governo de FHC uma prescrição e uma terapia para o que se convencionou chamar de crise do desenvolvimentismo. A referência à possibilidade de formação de um Partido dos Assalariados não era uma escolha, mas um juízo analítico. A escolha foi, em meio às orientações das agências multilaterais sobre as reformas de mercado nos países em desenvolvimento, na década de 1990, a perspectiva de encerrar a Era Vargas, com a atração de capitais externos e o aprofundamento da internacionalização da economia nacional tomados como decisivos a um novo ciclo de desenvolvimento.

Na década de 1990, uma série de medidas do governo FHC tornou a burguesia local ainda mais “enfeudada” às multinacionais. Com a Emenda Constitucional Nº 6 foi eliminada a noção de empresa brasileira de capital nacional, interditando seu tratamento diferenciado nas políticas públicas. A desproteção tarifária, inaugurada no governo Collor, foi acompanhada, via política macroeconômica, da desproteção cambial, primeiro com a virtual paridade entre o real e o dólar (1995-1998), em seguida, de forma algo atenuada, com a política de metas de inflação. Rechaçou-se, ainda, a utilização de políticas industriais para fortalecimento de empresas e setores, induzidos a um processo de reestruturação guiado fundamentalmente pelo mercado. Por fim, mirando até a Petrobrás, e com sustentação do BNDES, a política de privatizações enfraquecia os centros de pesquisa instalados nas estatais e esvaziava um tradicional mecanismo de política industrial e de inovação, ligado aos efeitos projetados dos investimentos das empresas públicas nas cadeias produtivas e em seu entorno econômico.

Para as empresas nacionais, acenava-se, de modo a compensar a abertura econômica, com a redução do Custo Brasil, especialmente o custo do trabalho, mirando a flexibilização das disposições da CLT (Delgado, 2001). Apostava-se, pois, no trabalho barato para assegurar competitividade às empresas locais, uma perspectiva reacionária e ineficaz para fazer frente a países como a China e Índia, em pleno processo de transição rural-urbana (já completada no Brasil), dispondo de um vasto reservatório de mão de obra a ser incorporada ao mercado de trabalho urbano, induzindo a níveis salariais reduzidos (Delgado, 2015).

Nos enunciados do governo FHC, imaginava-se que a exposição das empresas brasileiras a maior concorrência, derivada da abertura econômica e facilitação dos fluxos de capital, acentuaria a sua capacidade e disposição de inovar, uma dogmática cega às experiências reais vividas por países que já dispunham de indicadores elevados de inovação ou logravam êxito em processos de equiparação aos países centrais, partindo de posições semiperiféricas.

Em tais experiências, o papel do Estado foi central não apenas para garantir estabilidade aos contratos e segurança nos direitos de propriedade intelectual (Delgado et al., 2010; Delgado, 2015). Coube a ele, também (e principalmente), orquestrar arranjos para reduzir a incerteza que envolve a atividade inovadora, a exemplo do EUA (para ficarmos num país tomado como paradigma de uma economia liberal), que, para tal propósito, recorre a volumosos aportes estatais para a pesquisa e às compras governamentais. Por seu turno, inexistem casos de sucesso, entre países que ostentam patamares elevados de inovação, em que o êxito alcançado não estivesse assentado num núcleo sólido de empresas nacionais, dada a hierarquia que circunscreve a atuação das multinacionais, mantendo em seus países-sede as atividades de inovação mais relevantes e transferindo às suas filiais atribuições de menor significado.

O governo FHC encerrou-se, em 2002, legando ao país um crescimento monumental da dívida pública em sua dimensão financeira, desemprego, desnacionalização, retração da capacidade indutora e mesmo administrativa do Estado, colapso na infraestrutura (evidenciado de forma mais aguda na crise do setor energético), sem lograr qualquer elevação dos indicadores de inovação da economia brasileira (Delgado, 2001 e 2015). A partir daí, seguiram-se quatro vitórias do PT nas eleições presidenciais, sempre ancoradas num discurso que tinha como mote a comparação com os mandatos tucanos.

Definiu-se, então, o móvel principal do discurso e da atuação política de FHC após sua saída do governo: o ressentimento com o PT e especialmente com Lula, que se tornou o presidente mais popular da história do Brasil. É certo que, pontualmente, pode-se apontar posturas positivas de FHC, após ter deixado a presidência, como na abordagem do tema da descriminalização das drogas, uma alternativa a ser debatida dado o fracasso do tratamento apenas repressivo deste problema. O que sobressai em sua atuação, contudo, é a incapacidade, resultante da vaidade e ressentimento monumentais que o caracterizam, de apresentar-se como uma referência de equilíbrio para a consolidação da convivência democrática no país, como caberia a um ex-presidente da República.
A partir da troca de faixa, FHC se deixou tomar por ressentimento em relação a Lula

A partir da troca de faixa, FHC se deixou tomar por ressentimento em relação a Lula

Neste ano de 2015, FHC, ao invés de exibir a senioridade que advém de sua trajetória intelectual e política, deixou-se guiar, de forma pueril, pela vaidade e o ressentimento aludidos acima, vendo na crise política, instalada pelo desrespeito da oposição aos resultados das urnas em 2014, a oportunidade para a vendeta e a reabilitação de sua imagem. Alguns episódios sintomáticos, revelam, ademais, afoiteza e descuido nos enunciados produzidos por quem já foi chamado de príncipe da sociologia brasileira.

Em abril, logo após o Datafolha divulgar pesquisa apontando a preferência pela renúncia de Dilma, entre os participantes de ato contra o governo, na Avenida Paulista, FHC, jogando para a sua plateia, faz eco a tal perspectiva, sugerindo a Dilma um “gesto de grandeza” com a renúncia. O ambiente amaina e ele passa a destacar a honestidade de Dilma e a desancar Lula e o PT, falando em corrupção organizada na Petrobrás apenas a partir de 2003 (tese de um dos “delatores premiados” da Lava a Jato), embora diversas fontes indicassem a existência de esquemas organizados em momentos muito anteriores. O próprio FHC confessaria candidamente em seus diários (que mereceram capa da impoluta e imparcial revista Veja), ter recebido denúncias, em 1996, sobre práticas de corrupção na Petrobrás, alegando ter evitado a apuração para não atrapalhar a tramitação legislativa da medida que punha fim ao monopólio estatal do petróleo. Pouco depois, foram redefinidos os processos de contratação de serviços pela Petrobrás, que facilitaram a prática de corrupção na empresa. Altivamente, distante de tudo, FHC preferiu fazer coro à narrativa midiática que vê na corrupção um problema inerente ao petismo, sem colaborar para a busca de soluções institucionais para o problema.

Ao final do ano, após o acolhimento, por Cunha, do pedido de impedimento, FHC observa, diante de movimento de alta na BOVESPA, que “os mercados preferem o impeachment”, como se isso fosse relevante para a análise do mérito do processo, revelando, ademais, desatenção a outro elemento, apontado na própria mídia, para explicar o comportamento dos “mercados”, qual seja a simultânea aprovação pelo congresso da nova meta fiscal, que tanto destravou a capacidade de operação do governo, quanto esvaziou os fundamentos do pedido de impedimento formulado. Por fim, FHC terminou o ano como um reles Kim Kataguiri octogenário, convocando, pelo twitter, as manifestações de 13 de dezembro em favor do impedimento de Dilma. Já deveria ter observado que tais manifestações têm liberado a fúria fascista de uma turba formada e adulada pela mídia, a pedir por vezes a intervenção militar e a incitar à violência.

Enquanto isso, atentos aos perigos que rondam a democracia, antigos parceiros de convivência acadêmica e política, como Luiz Carlos Bresser Pereira e Paulo Sérgio Pinheiro, ex-ministros de FHC, fazem reiterados apelos ao bom senso, apontado a ausência de fundamentos no pedido de impedimento. Quem já foi o príncipe da sociologia e acabou conhecido como o príncipe da privataria, poderia ouvir velhos amigos, para não incluir em seu extenso currículo a condição de golpista.

Referências

CARDOSO, F. H. (1975) Autoritarismo e Democratização. Rio de Janeiro: Paz e Terra

CARDOSO, F. H. e FALLETO, E. CARDOSO, F.H. & FALLETO, E. (1970) Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar.

CARDOSO, F. H. Empresário industrial e desenvolvimento econômico no Brasil. 2a ed., São Paulo: DIFEL, 1972.

DELGADO, I. G (2015) “Política industrial na China, na Índia e no Brasil: legados, dilemas de coordenação e perspectivas”. Texto para Discussão Nº 2059. Brasília: IPEA

DELGADO, I. G. (2001) Previdência Social e Mercado no Brasil – a presença empresarial na trajetória da política social brasileira. São Paulo: LTr.

DELGADO, I. G. CONDÉ, E.S., ESTHER, A.B., SALLES, H.M. (2010). “Cenários da Diversidade – variedades de capitalismo e política industrial nos EUA, Alemanha, Espanha, Coréia, Argentina, México e Brasil (1998-2008)”.Dados. Rio de Janeiro.
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FHC pede reserva à vida pessoal, mas fez marketing com a “não-paternidade”


Depois da entrevista de Mírian Dutra ao DCM resolvi ir à origem da história de como Fernando Henrique “desassumiu” a paternidade do filho da jornalista.

Ocorreu em 2011, por intermédio de Lauro Jardim, na Veja, que publicou uma nota sobre o resultado dos dois supostos exames de DNA.

Curioso é que Jardim não explica, agora, porque naquela época, em relação ao rapaz, escreveu que “FHC sempre ajudou a jornalista Míriam Dutra, sua mãe, a sustentá-lo”.

Será que você pode contar como, Lauro?

E, para firmar a imagem do “homem bom”, generoso, no dia seguinte publicou que “FHC, notório pão-duro, comprou um carro de presente para Tomás, o filho da jornalista Míriam Dutra perfilhado por ele há dois anos. O presente foi dado, portanto, depois dos resultados negativos dos dois exames de DNA que revelaram que FHC não é o pai biológico do rapaz.”

Ora, é evidente que além do próprio rapaz, que não consta ter contatos na Veja, só poderia ter plantada a nota o homem que agora reclama da invasão de sua vida pessoal”

Depois vieram os detalhes, pela mesma Monica Bérgamo, da Folha, que divulgou o contrato de “subvenção” da Brasif que FHC teria bancado e depois não bancou mais. E sempre com FHC como “homem bom”, generoso.

Tudo é a história de covardia de um poltrão, como este blog o chamou aqui.

Fernando Henrique diz que “não queria fazer” e desejava continuar figurando como pai do rapaz, que já tinha sido reconhecido.

“Depois que o documento já estava pronto, os três filhos do tucano com Ruth Cardoso — Paulo Henrique, Beatriz e Luciana — pediram ao pai que fizesse um exame que comprovasse que Tomás era mesmo filho dele. O ex-presidente concordou, imaginando com isso colocar fim a qualquer possibilidade de desentendimento entre os irmãos e Tomás.”

Foi, coitado, obrigado pelos filhos a fazer.

Certamente FHC não conhece a frase de D. Maria Maluf: “não se depena a galinha ainda viva”…

Mesmo assim, o “senhor bom que ajuda”, segundo a nota publicada então “está disposto a manter o reconhecimento de Tomás”. Mas, com uma ressalva: “Seus herdeiros, no futuro, poderão questionar a paternidade com base nos testes de DNA.”

Não sei e não me compete julgar quais são as intenções de Mírian Dutra. Não parece ser extorsão, porque, a esta altura, só um louco se atreveria a propor algum “acordo” que acabasse vindo a público.

Nem com a atitude parental de FHC, o que seria apenas desprezível na esfera individual.

Mas na maneira que um homem público, ex-presidente da República plantou notas absolutamente dirigidas a deixá-lo “bem na fita” num episódio não apenas íntimo como com reflexos imensos sobre a vida do rapaz e de sua mãe.

Fez marketing e agora tem de aguentar a rebordosa.

Fernando Brito
No Tijolaço
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Ataques à liberdade de expressão na Argentina

Desprezo com diversidade de vozes vem de cima, de uma política de governo que tem no presidente da República seu principal ideólogo

Presidente da Argentina, Mauricio Macri, tenta governar por
meio de decretos, chamados de DNU
O novo presidente da Argentina, Mauricio Macri, tem mostrado a que veio desde o dia de sua posse. Tenta governar por meio de decretos, chamados de DNU (Decreto de Necessidade e Urgência). Tem usado esse recurso para pôr fim aos avanços populares obtidos durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner. Até a liberdade de expressão está ameaçada por um DNU editado para eliminar artigos importantes da Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, também conhecida como Lei de Meios, gestada por mais de uma década, aprovada pelo Parlamento e confirmada pela Justiça.

Ao que tudo indica, a necessidade e a urgência, nesse caso, são do grupo Clarín, ansioso por recuperar o monopólio do rádio e da televisão. O decreto foi suspenso liminarmente — por ser inconstitucional —, mas nada indica que o governo não buscará outras vias para restringir a liberdade de expressão.

Tanto é que vem despedindo funcionários dos meios públicos de comunicação, acabando com programas de TV — como o 6,7,8, que fazia diariamente a crítica da mídia — e exercendo pressões sobre os meios privados para despedir profissionais não alinhados com o governo. Foi o caso do jornalista e radialista Vitor Hugo Morales, um dos mais conhecidos da Argentina, que ao chegar para trabalhar na Rádio Continental (do grupo espanhol Prisa), em uma segunda-feira pela manhã, foi informado de sua dispensa. Teve tempo apenas de entrar no estúdio e dizer aos ouvintes que estava despedido, deixando a emissora onde trabalhava há quase 30 anos.

Ao sair, afirmou tratar-se de “uma demissão política, na mesma linha dos ataques ao Congresso e às leis votadas democraticamente”. E foi direto ao ponto: “A liberdade de expressão está sendo atacada”. Dois dias depois, cerca de 30 mil pessoas foram à Praça de Maio, em Buenos Aires, onde fica a sede do governo argentino, para protestar contra a demissão do jornalista. Macri, ao que tudo indica, não terá vida fácil.

Curioso é que o atual chefe do Sistema Nacional de Meios Públicos, Hernán Lombardi, em entrevista ao próprio Vitor Hugo Morales, em dezembro, tenha declarado que o novo governo veio “para garantir a liberdade e a presença de todas as vozes”.

Não é o que se vê pelo país. Em Mendoza, toda a equipe do programa El Candil, há 20 anos no ar na rádio pública local, não teve seu contrato renovado. E até uma emissora pública dirigida aos jovens, a FM Nacional Rock 93.7, teve a sua programação suspensa após a posse do novo governo. Foi o fim de uma rica experiência radiofônica que colocou no ar músicas e ritmos excluídos das emissoras comerciais, mas de grande aceitação entre o público jovem.

O desprezo com a diversidade de vozes e opiniões vem de cima. Trata-se de uma política de governo que tem no presidente da República seu principal ideólogo. Isso ficou claro quando, ao entrar no hotel em que se hospedava na Suíça, onde participaria do Foro de Davos, foi abordado pelo repórter ­Alejandro Bercovich, do jornal BAE Negócios, do grupo argentino Crónica.

Baseado num informe da Anistia Internacional que comparava a prisão da líder comunitária argentina Milagro Sala com a do oposicionista venezuelano ­Leopoldo López, tão criticada por Macri, o repórter quis saber a opinião do presidente a respeito. A resposta: “Você não pode estar falando sério. O pobre Leopoldo López não fez nada de mal para que você o compare com Milagro Sala”. Acabou com a entrevista, virou as costas e subiu para o seu apartamento.

É bom lembrar que López foi condenado pela Justiça da Venezuela por instigar ações contra o governo responsáveis pela morte de 43 pessoas. Sala é deputada no Parlasur e dirige a organização Tupac Amaru, que há quase uma década constrói habitações populares e urbaniza áreas pobres no estado de Jujuy. A entidade teve seu registro público cancelado pelo governo local, aliado de Macri, e pode fechar. Ela foi presa por protestar contra essa decisão.

Lalo Leal
No RBA
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Lei prevê a prisão dos que pregam golpe

Comandante do Exército, general Ricardo Paes de Barros Villas Boas: 
segundo Olavo de Carvalho, um “traidor da Pátria, comunista”
Longe de mim querer valorizar alguma “teoria da conspiração”, mas o fato é que a pregação de ódio ao Governo e às esquerdas, e a defesa de um golpe militar como se fosse uma solução para os problemas brasileiros tem avançado. Os grupelhos que defendem o fim da Democracia, cometendo crime previsto em lei, conquistam mais e mais audiência nas redes sociais e têm amplo respaldo no Parlamento e, logicamente, na mídia tradicional.

Obviamente que tais contingentes são numericamente insignificantes neste momento, mas é inegável a sua expansão, e sou forçado a advertir que o discurso contra a Democracia está encontrando eco em escalões inferiores das Forças Armadas. No Estado de São Paulo, dificilmente se encontrará um soldado, cabo, sargento ou mesmo oficial da PM (força auxiliar do Exército, pela atual lei) que não diga que o regime militar foi uma maravilha, nunca houve ditadura, e quem morreu ou foi perseguido eram perigosos comunistas que pretendiam, eles sim, instalar um regime autoritário no país. E todos dizem que Dilma, Lula, o PT e demais partidos de esquerda são totalmente corruptos e merecem ser presos, quando não assassinados. Isso é dito com todas as letras, para quem se dispuser a perguntar ou ouvir mesmo sem querer saber.

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No Rio de Janeiro, acabo de ouvir taxistas — um deles era policial ou militar, pelo corte de cabelo — defendendo a candidatura de Bolsonaro a presidente, não para vencer, mas para fortalecer a pregação golpista. Tenho ouvido recentemente, militares de baixo escalão do Exército, pregando abertamente um golpe como única forma de “acabar com a corrupção”. Com certeza, ouvem tais idéias dentro do quartel, de seus superiores. O taxista do Rio me disse que o descontentamento na tropa é enorme, e que os comandos militares não representam o pensamento geral, até porque “prestam continência a uma terrorista que vai dar um golpe comunista em breve, se não houver uma intervenção militar agora”.

Nas Forças Armadas e nas PMs dos Estados, “manda quem pode, e obedece quem tem juízo”. Confio plenamente nos comandantes das três forças, porém as idéias insurgentes são insidiosas, espraiam-se com facilidade quando não são contraditadas e mesmo reprimidas, já que pregar contra o regime político é crime. Está em pleno vigor a “Lei de Segurança Nacional” – Lei 7.170, de 14 de dezembro de 1983 (do regime militar, portanto), que prevê:

Art. Primeiro – Esta Lei prevê os crimes que lesam ou expõem a perigo de lesão:

I – a integridade territorial e a soberania nacional;

II – o regime representativo e democrático, a Federação e o estado de Direito;

III – a pessoa dos chefes dos Poderes da União.

Grupos atuantes na internet, auto-intitulados “intervencionistas” são organizados, coletam fundos, alguns certamente recebem dinheiro de outros grupos de extrema-direita dos Estados Unidos. Disputam liderança, agindo exatamente como partidos clandestinos. defendem a desobediência civil, o boicote e sonegação de impostos, a agressão a todos que considerarem “vermelhos”, e de forma extremamente radical, pregam o ódio aos imigrantes, especialmente os recém-chegados grupos de haitianos, sírios e africanos, que acusam de serem soldados ou terroristas armados prontos a deflagrar um golpe comunista (ou islâmico, as contradições são imensas). Tudo isso é previsto em lei como crime, e deveria acarretar punição imediata.

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A lei 7.170 parece que foi escrita espeficicamente para tais grupos proto-terroristas:

Art. 16 – integrar ou manter associação, partido, comitê, entidade de classe ou grupamento que tenha por objetivo a mudança do regime vigente ou do Estado de Direito, por meios violentos ou com emprego de grave ameaça.

Pena: reclusão de 1 a 15 anos.

Art. 17 – tentar mudar, com emprego de violência ou grave ameaça, a ordem, o regime vigente ou o Estado de Direito.

Pena: reclusão de 3 a 15 anos.

Art. 18 – Tentar impedir, com emprego de violência ou grave ameaça, o livre exercício de qualquer dos Poderes da União ou dos Estado. (Lembre-se que o recente “acampamento intervencionista” na Esplanada dos Ministérios, planejava e anunciava por todos os meios, invadir o Congresso Nacional e ali permanecer, alguns deitados nas entradas dos estacionamentos para impedir o acesso dos parlamentares e funcionários) até que Dilma “renunciasse ou os militares dessem um golpe”)

Pena: reclusão de 2 a 6 anos.

Art. 22 – Fazer, em público, propaganda:

I – de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social;

(Olavo de Carvalho, o ex-jornalista que se diz filósofo e vive nos EUA orientando a maioria desses grupos proto-terroristas, afirma: “O PT não pode ser derrotado; ele tem que ser eliminado”; “não respeite os comunistas, quando virem alguém com camiseta do PT humilhem-no, xinguem-no até que ele tire a camisa e vista uma camisa verde-amarela”)

II – da discriminação social, de luta por violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa.

Pena: detenção de 1 a 4 anos.

Art. 23 – Incitar:

I – à subversão da ordem política ou social;

II – à animosidade entre as Forças Armadas ou entre essas e as classes sociais ou as instituições civis;

(Olavo de Carvalho escreveu no Facebook e disse em outras redes que o comando do Exército é “canalha”, porque “protege o narcotráfico chefiado pelas FARC e o Foro de São Paulo, que manda no PT e comanda uma revolução comunista na América Latina”. Por tais afirmações e outras mais ofensivas e provocativas, Olavo foi bloqueado na página do Exército Brasileiro no Facebook, que prometeu processá-lo).

III – à luta com violência entre as classes sociais.

Finalmente, o que dizermos deste artigo 26, quando dezenas de militantes fascistas ameaçam e ofendem diuturnamente a presidenta da República e outros chefes de Poder e autoridades? Também importantes veículos de Comunicação o fazem, como a revista Veja, o mais notório panfleto de propaganda golpista em circulação:

Art. 26 – Caluniar ou difamar o Presidente da República, o do Senado Federal, o da Câmara dos Deputados ou o do Supremo Tribunal Federal, imputando-lhes fato definido como crime ou fato ofensivo à sua reputação.

Pena: reclusão de 1 a 4 anos.

Parágrafo Único – Na mesma pena incorre quem, conhecendo o caráter ilícito da imputação, a propaga ou divulga.

A mesma Lei prescreve que a Polícia Federal pode instaurar inquérito policial contra qualquer pessoa ou entidade que cometer tais crimes, “de ofício”, ou seja, independentemente de pedido ou determinação do Ministro da Justiça (que pode fazê-lo, também), ou do Ministério Público.

Como está provado, esses grupos e pessoas que se expressam na internet clamando por um golpe militar, acusando autoridades e partidos por crimes jamais provados, e defendendo a hostilidade a imigrantes, negros, homossexuais, mulheres, índios, trabalhadores sem-terra, esquerdistas, intelectuais, estão em flagrante delito, cometendo crimes previstos e cominados em Lei.

O que falta para alguém coibir tais abusos das Liberdades Democráticas, em defesa da própria Democracia?

Antonio Barbosa Filho é jornalista
No Vale Pensar
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Newton Ishii, o “japonês da federal”, 13 anos de impunidade

Ishii, uma condenação misteriosa e a impunidade que dura 13 anos
Endeusado e paparicado pela mídia e até por parlamentares na visita que fez quarta-feira (17/02) à Câmara dos Deputados, o agente de Polícia Federal Newton Hidenori Ishii, 60 anos, popularmente conhecido como o “japonês da federal”, é um exemplo claro da impunidade gerada pela demora processual.

Nem tudo, porém, é chicana da defesa. Preso em 2003, processado, foi condenado na primeira instância em 30 de abril de 2009. Viu seu recurso de apelação ser parcialmente acatado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (Sul) – TRF-4 em fevereiro de 2013. Mas, decorridos 13 anos desde a prisão, continua aguardando uma decisão no Recurso Especial (REsp) que impetrou no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Os autos dormitam em alguma prateleira do gabinete do ministro Félix Fischer, desde abril de 2015 à espera do julgamento. A impunidade não o atinge sozinho. Com ele, aguardam o julgamento do Recurso outros acusado, julgados nas dez ações penais em que se desdobrou a ação inicial da Operação Sucuri.

Além da questão criminal, o agente e mais 42 réus respondem na 1ª Vara Federal de Foz do Iguaçu uma Ação de Improbidade Administrativa desde junho de 2008. O grande número de réus — no criminal, como afirmamos acima, houve desmembramento — faz o processo andar a passo de tartaruga. Nele é fácil constatar que as defesas usam de todo os expedientes protelatórios que as leis lhes garantem. Com isso, ainda não foi possível vencer as audiências de instrução em que são ouvidas as testemunhas, algumas da quais faleceram, outras se aposentaram e muitas mudaram de endereço e não são encontradas.
Um dos pedidos inusitados apresentado pela defesa de Ishii e de outros sete réus, feito em 2012 — ou seja, há quatro anos, — equipara-se ao que a defesa de Marcelo Odebrecht levou ao juiz Sérgio Moro: perícia nas degravações das conversas telefônicas interceptadas, por ter havido a inserção de elementos interpretativos pelos policiais federais na transcrição das conversas.
Ou seja, os policiais federais, réus nessa operação, colocaram sob suspeição o trabalho dos próprios colegas.Os acusaram de não transcreverem ipsis litteris o que ouviram nos grampos. Além disso, queriam periciar o software do sistema guardião e ainda pediram prova pericial para a identificação das vozes. Assunto, inclusive, abordado na coluna deste domingo (21/02) que Elio Gaspari assina nos jornais O Globo e Folha de S.Paulo: “O ‘Japonês da Federal’ e a Escola Base“.

Ishii foi preso, em março de 2003, na primeira das grandes operações policiais do governo Lula — a Sucuri — junto com outros 22 agentes da Polícia Federal, sete auditores da Receita Federal e três Policiais Rodoviários Federais, todos de Foz do Iguaçu, na fronteira do Paraná com o Paraguai. Também foram atingidos contrabandistas e intermediários.

Os servidores públicos “se omitiam de forma consciente e voluntária, de fiscalizar os veículos cujas placas lhes eram previamente informadas, ou realizavam fiscalização ficta, abordando os veículos para simular uma fiscalização sem a apreensão de qualquer mercadoria“, como explicou o juiz Pedro Carvalho Aguirre Filho.

Conforme o delegado Reinaldo de Almeida César, então porta-voz do DPF, existia um acerto prévio e os fiscais já estavam avisados para deixarem determinados veículos passar (geralmente táxis ou vans). “Eram valores altos, US$ 30 mil ou US$ 40 mil entravam no país sem o pagamento dos impostos“, disse à época ao portal Paraná-online.

A prisão dos réus foi mantida até 11 de julho, quando o desembargador João Surreaux Chagas, relator dos pedidos de Habeas Corpus no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), concedeu liminar mandando soltar os presos. Sua decisão foi acatada por maioria da turma em 20 de agosto.

Este processo criminal contra Ishii e quatro colegas seus — Ação Penal nº 2003.70.02.004491-7 (PR) / 0004491-42.2003.4.04.7002 —, chama ainda atenção por um fato inusitado: até hoje sua sentença é mantida em sigilo e ninguém, que não os envolvidos, sabe ao certo a pena inicial a que ele e a maioria dos réus foram condenados.

Trata-se de uma atitude poucas vezes vista pois, com exceção dos casos envolvendo questões familiares, normalmente a publicidade da sentença, como determinam a Constituição e os códigos, é respeitada até em processos que correm em sigilo.

Como não quis divulgar sua decisão por causa do segredo de justiça submetido aos autos, o juiz Aguirre Filho, em julho de 2013, explicou-a por meio de nota oficial. Nela (veja ao lado uma versão editada ou leia a íntegra aqui) ele não especificou os condenados e suas penas. Segundo disse, “restaram condenados 19 (dezenove) Agentes de Polícia Federal, nas penas cominadas aos crimes de corrupção passiva qualificada e facilitação de contrabando e/ou descaminho, tipificados nos artigos 317, , e 318, todos do Código Penal, sendo que 17 (dezessete) desses policiais federais também foram condenados pelo crime de formação de quadrilha ou bando, tipificado no artigo 288, do Código Penal“. Dos 23 servidores da Polícia Federal, 19 foram condenados. Mais abaixo a a nota resume as penas, sem individualizá-las:
“As penas impostas aos servidores públicos federais variaram entre 08 anos, 01 mês e 20 dias de reclusão, além de 160 dias-multa a 04 anos e 08 meses de reclusão e 100 dias-multa (…) Outrossim, foi decretada a perda do cargo público que os servidores públicos federais, condenados na sentença, ocupavam à época dos fatos criminosos“.
Com todo esse mistério poderia-se até duvidar da condenação do agente federal Ishii. Mas ela (a condenação) não é apenas uma dedução. Confirma-se pela Apelação Criminal junto ao TRF-4 na qual é citado (veja ao lado). Sabe-se ainda pela página do processo, que dos quatro agentes federais que responderam com Ishii a ação desmembrada, um foi absolvido — Rogério Fleury Watanabe — e outro teve extinta a punibilidade — Adriano da Costa Luetz.

Cestas básicas/Impunidade

No TRF-4, em fevereiro de 2013, dez anos após a operação policial, apenas os réus tiveram seus recursos providos ainda que parcialmente. A corrupção qualificada, imposta na primeira instância, foi revista e caiu para corrupção simples.

Por ofício, isto é, sem questionamento pelas partes, o tribunal reconheceu a prescrição da pena do crime de quadrilha ou bando e extinguiu a punibilidade dos acusados neste artigo do Código Penal.

Foi reconhecida a “consumação” (ocorre no caso de crimes conexos, quando o delito final absorve o anterior e deixa de haver punição no primeiro). Na ação penal da Operação Sucuri, o TRF-4 reconheceu a consumação entre a corrupção passiva dos servidores públicos e o crime de facilitação do contrabando ou descaminho. Isto é, os desembargadores deixaram de punir pela corrupção passiva e mantiveram a condenação pela facilitação de contrabando e descaminho. Por fim, o tribunal afastou a pena de perda do cargo imposta ao “japonês da federal”.

Questionando transcrição de grampos

Com todas essas reduções, segundo o próprio Ishii, ele acabou condenado ao pagamento de cestas básicas. Ainda assim, recorreu do resultado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde os Recursos Especiais, impetrados pelo MPF e pelos condenados — não apenas nesta ação penal, mas também nas outras da Operação Sucuri — aguardam para serem julgados.

Já a Ação Civil Pública não tem qualquer expectativa de conclusão na primeira instância dado o número de réus e a fase em que se encontra. Os pedidos da defesa de Ishii e de outros réus de perícias no sistema guardião (software especializado para cruzamentos de dados obtidos com o grampos e quebras de sigilos fiscal e bancário) e nas transcrições do que foi gravado foram rechaçados de imediato pelo juiz Daniel Marchionatti Barbosa, em julho de 2012.

Como lembrou o magistrado, “a prova no processo judicial são as gravações elas mesmas. As transcrições e comentários são mera forma de facilitar a consulta e indexação às gravações (…) Além disso, a transcrição das gravações não depende de conhecimento técnico. Se a parte sentiu-se prejudicada por transcrições ou comentários, pode produzir sua própria versão”.

Punições mal feitas e anuladas

Ao longo destes 13 anos de impunidade, a se completarem em março, o agente federal Ishii e 10 outros agentes, sofreram uma única punição além do período em que ficaram presos (março a julho de 2003): foram mantidos afastados dos cargos e depois exonerados do DPF.

Enquanto afastado do cargo, Ishii recorreu à sua aposentadoria. Mas, com a conclusão do Processo Administrativo Disciplinar (PAD) nº 007/006-NUDIS/COR/SR/DPF/PR, em 22 de outubro de 2009, o então ministro da Justiça, Tarso Genro, assinou 11 portarias pelas quais demitia os dez agentes e cancelava a aposentadoria do agente Ishii.

Por meio de Mandado de Segurança impetrado no STJ – MS 14.795 – os atingidos reverteram a punição alegando que a Comissão Disciplinar que cuidou do PAD não era uma Comissão Disciplinar Permanente, nomeada pelo diretor geral, conforme manda a Lei que regulamenta o DPF. A comissão tinha sido instituída pelo superintendente do Paraná. Com isso, eles primeiro obtiveram uma liminar do ministro Og Fernandes que depois foi confirmada pela turma. Ishi voltou a ter direito à aposentadoria e os outras dez agentes foram reintegrados. Àquela altura, já existia a sentença de primeira instância condenando os agentes e afastando Ishii do serviço público o que foi revertido em 2013, pelo TRF-4,

Como se constata, a discussão em consequência do resultado do PAD não se deu em torno da inocência dos agentes demitidos, mas sim das formalidades na criação da comissão que cuidou do processo administrativo. Um segundo PAD foi instaurado, em Foz do Iguaçu, durante o qual a Corregedoria Geral do DPF deu um jerto de não afastá-los novamente das funções. No caso de Ishii, ele foi mantido como aposentado. Mais uma vez o PAD resultou em anulação, por ter utilizado como provas gravações telefônicas autorizadas judicialmente e que embasaram o processo criminal. Na época, os processo administrativos não admitiam este tipo de provas.A Justiça também entendeu que a Comissão Disciplinar Permanente criada pela direção-geral do Departamento, “era uma comissão de exceção”.

Mais uma vez, o retorno dos agentes ao serviço não se deu por prova da inocência nos crimes que foram acusados. Quando da anulação do primeiro PAD, o processo criminal já tinha sentença na qual alguns réus conseguiram ser absolvidos por falta de provas. Mas, Ishii além da pena que ainda é desconhecida, foi afastado do serviço público. Depois, no TRF-4 a pena foi reduzida, por desqualificarem alguns dos crimes creditados aos agentes e também pela extinção da punibilidade na acusação de formação de quadrilha ou bando, devido à sua prescrição, consequência da demora processual.

No caso de Ishi, ele teve revertida pela turma do TRF-4 a sua demissão pela sentença de 2013. Beneficiado ainda pelo Mandado de Segurança acatado pelo STJ, voltou à condição de aposentado. Mas, em 2014, como noticia Élio Gaspari na sua coluna citada acima, o Tribunal de Contas da União (TCU) cancelou-a por faltarem ainda dois anos de serviço para que ele pudesse fazer jus ao benefício. Por isso ele voltou à ativa e neste período tornou-se, como lembrou Gaspari, “a maior estrela da Lava Jato”, logo depois do juiz Sérgio Moro.

Atualmente em férias, Ishii não deve retornar ao serviço na superintendência. Em maio vencem os dois anos exigidos pelo TCU e ele finalmente terá direito a se aposentar. Impunemente, apesar do crime cometido no passado, jamais contestada, e com a popularidade em alta, por ter escoltado os presos da Lava Jato.




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PT é o partido com mais simpatizantes, conclui estudo de universidade dos EUA


Apesar do desgaste e do massacre midiático, o PT continua sendo o partido com maior número de simpatizantes, segundo pesquisa realizada pelo cientista político David Samuels, professor da Universidade do Minnesota (EUA), em parceria com o colega Cesar Zucco Jr., da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro.

Dados de 2014 mostram que 15,95% dos brasileiros declaram simpatia pelo PT, enquanto pelo PSDB este índice é de apenas 4,29% e pelo PMDB é de 3,7%. No entanto, está crescendo no país o número de eleitores que não toleram o PT e, ao mesmo tempo, não manifestam preferência por nenhum outro partido político. Os "antipetistas puros" saltaram de 7,49% do eleitorado em 1997 para 11,44% em 2014 e já representam um grupo proporcionalmente maior que a soma de pessoas que declaram preferência por PSDB e PMDB.

Cerca de 14% do eleitorado declarava simpatia pelo PT em 1997. Esse número pulou para 23,28% em 2006 e recuou para 15,95% em 2014. PMDB e PSDB também perderam fatias de seus partidários nos últimos anos.

Os dados de 2014 foram coletados pela Brazilian Electoral Panel Survey, do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Foram entrevistadas para essas pesquisas 2.469 pessoas em 1997, 2.379 em 2006 e 3.120 em 2014. David Samuels acredita que os antipetistas puros são "desiludidos com a democracia, verdadeiros herdeiros do regime militar". Em 2014, a maioria deles defendia os militares no poder e não via tanta utilidade no voto. De um modo geral, eles se declaram brancos, têm renda mais elevada que os demais simpatizantes de partidos políticos e média de 40 anos de idade.

Mas eles não podem ser classificados como conservadores convencionais, alerta o professor. Em 2014, os antipetistas puros declararam-se pró-aborto e pelos direitos de homossexuais em número proporcionalmente maior até do que entre os que dizem gostar do PT.

Ao mesmo tempo em que são contra as políticas sociais que ganharam força ou foram elaboradas com o PT à frente do Executivo federal, como o Bolsa Família e cotas para negros em universidades públicas, eles se dizem a favor de que o governo atue para reduzir os índices de desigualdade social. Toleram mais impostos para saúde e educação e, em proporção similar aos outros grupos que declaram simpatia a partidos políticos, também acham que ricos deveriam pagar mais tributos.



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'Miscasting'

A crise e as investigações da Lava-Jato nos transformaram todos em monotemáticos, incapazes de falar em outra coisa. Por isso, é importante tentar escapar para a pura bobagem, com a única e terapêutica intenção de mudar de assunto. É o que vou fazer hoje. Dois pontos.

Miscast é o nome que dão a um ator ou uma atriz mal escolhidos para papéis que não lhes servem. Há vários casos de miscasting no cinema americano. Você deve ter a sua lista. Esta é a minha.

Começando por, talvez, o exemplo mais evidente de um ator mal escolhido: John Wayne para o papel de Gengis Khan. Sim, isto aconteceu. John Wayne trocou seu tradicional colete pela blusa felpuda do “flagelo de Deus”, mas não mudou o seu jeito de caminhar, como se a Estepe asiática fosse uma extensão do Oeste americano. No filme, Gengis Khan rapta uma princesa tártara que, apesar da lamentável maquilagem para fazê-lo parecer mais oriental, se apaixona por ele. Mas ela é Susan Hayward, também miscast como tártara, de sorte que tudo acaba bem.

Outro exemplo notório de miscasting foi Marlon Brando no papel de Napoleão Bonaparte. O filme se chamava “Désirée”, e o que o redimia era a presença de Jean Simmons no papel título. Por justiça, deve-se reconhecer que Brando passa o filme todo desconfortável, como se mal pudesse esperar que chegasse Waterloo.

Lamentável, também, foi Gérard Depardieu no papel de Cristóvão Colombo, com sotaque francês e tudo. Passei o filme inteiro esperando que, ao ter sua primeira visão do Novo Mundo, Depardieu exclamasse “Ulalá!”.

A pobrezinha da Sofia Coppola não deve ter pedido para ser a Maria no “Poderoso chefão 3”, foi coisa de um pai carinhoso. Ela depois foi ser uma competente diretora, como o pai. Que está perdoado.

Quem mais? Robert Downey Jr. como Sherlock Holmes, por certo. Um autêntico crime de lesa-majestade. E, claro, Daniel Day-Lewis fazendo um Federico Fellini completamente errado, no “Nine”.

A lista de horrores continua. Mas acabou o espaço.

Luís Fernando Veríssimo
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Matarazzo quis comprar silêncio da “Caros Amigos”


O telefone tocou em casa num domingo de manhã do ano 2000. Não recordo o mês nem o dia.

Quem chamava era Andrea Matarazzo, atual vereador e pré-candidato a prefeito de São Paulo pelo PSDB, então Ministro-Chefe da Secretaria de Comunicação de Governo da Presidência da República (1999 a 2001) de Fernando Henrique Cardoso, para quem eu trabalhava redigindo artigos para jornais, discursos e, em parceria com Alex Periscinoto, anúncios institucionais.

A pasta de Matarazzo, instalada em São Paulo num dos últimos andares do prédio do Banco do Brasil, esquina da Paulista com Augusta, era também a responsável por distribuir as verbas publicitárias do governo para jornais, rádios, revistas e TVs de todo o Brasil.

Ele jamais tinha me chamado num domingo, fora do expediente. Fiquei curioso para saber o motivo.

“Você é amigo do Sérgio de Souza, não é?” perguntou ele, já sabendo qual seria minha resposta de antemão.

“Sou”, respondi. “Praticamente comecei no jornalismo com ele, com Hamilton Almeida Filho, Mylton Severiano da Silva, Paulo Patarra e Narciso Kalili no ex-. Também trabalhei com Serjão na revista Globo Rural, aos sábados vou às feijoadas da sua mulher, conheço seus filhos”.

“Eu soube” continuou Andrea “que a revista dele, a Caros Amigos está preparando uma matéria a respeito do filho do presidente. Queria te pedir uma coisa. Fala com ele, já que você é amigo. Claro que a matéria deles é furada, porque não tem a palavra da mãe. Mas pode nos fazer muito mal. Essa matéria não pode sair. Diz pra ele o seguinte: se ele não publicar a matéria vai ter todos os anúncios do governo que quiser”.

Fiquei mal de repente. Minha visão escureceu. O coração disparou. Não acreditei. Eu não queria ter ouvido aquilo. Ele jamais deveria ter dito uma coisa dessas. As pessoas com as quais eu começara no jornalismo, Sergio de Souza incluso, tinham horror a qualquer interferência na redação, fosse o departamento comercial, fosse o dono.

Certa vez, Narciso praticamente saiu aos tapas com o governador do Paraná, Paulo Pimentel, que era o dono do jornal “Panorama” por causa disso.

“Você mentiu quando me deu carta branca” gritou ele no meio de uma roda de jornalistas que acabavam de ser demitidos.

“Ninguém me chama de mentiroso na minha casa!" devolveu Pimentel. “Repita se for homem!"

“Você é um mentiroso”! repetiu Kalili.

Pimentel partiu pra cima dele, mas os seguranças não deixaram chegar às vias de fato.

A redação era o território sagrado dos jornalistas, nunca abrimos mão disso.

Por outro lado, naquele momento eu trabalhava para ele. Embora essa tarefa não estivesse incluída no contrato de trabalho se eu a recusasse correria o risco de perder o emprego, do qual precisava para pagar minhas contas.

“Não vou fazer isso” respondi. “Conhecendo o Serjão como conheço, tenho certeza que, além de não aceitar a proposta, porque ele não faz essas coisas, não é da índole dele, ele ainda vai incluir esse episódio na reportagem, o que vai piorar as coisas para o governo. A emenda será pior que o soneto. É um plano furado”.

Ele insistiu um pouco, mas logo depois desligamos, eu convencido de que tinha feito a coisa certa e ele certamente aborrecido com minha recusa em “colaborar”.

O plano naufragou. A reportagem foi publicada. Mas para mim ficou a nítida sensação de que houve ao menos uma tentativa de utilizar o poder do estado e de forma nada republicana para resolver um caso pessoal envolvendo o presidente da República.

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Quero ver tucana mostrar os peitos

Até onde vai a indignação das coxinhas de Hygyenopolis com a escravidão a que FHC submeteu Mírian

Na porta da casa dele
Dominique Strauss-Kahn era o diretor-gerente do FMI.

Candidato a Presidente da França pelo Partido Socialista (sic), ele ia salvar o Socialismo, o Capitalismo e a União Europeia.

Casado com uma milionária, ele não tinha problema de dinheiro.

Quando se mudou para Washington, para dirigir o Fundo dos bancos, ela lhe deu uma mansão espetacular.

O problema dele eram a impunidade, a megalomania — além de ser tarado sexual.

Diz-se em Paris que ele chegava às surubas dos amigos sem ser convidado, na companhia de duas, três prostitutas.

Ao voltar de Washington para a Paris, numa escala em Nova York, tentou estuprar uma arrumadeira de hotel, e foi preso ao entrar no avião, no aeroporto Kennedy.

Foi julgado, condenado, absolvido, mas sua carreira acabou.

A mulher se separou, fechou a bolsa, e ele se refugiou no Marrocos.

Porque não pode mais sair às ruas na França.

As mulheres o perseguem.

Mostram os peitos e perguntam: cadê a tua grana, DSK?

Quer me comprar também?

Acha que vai me escravizar por 25 anos, em conluio com teus amiguinhos na Veja e na Globo?

É uma lição muito instrutiva.

Vamos nos preparar para ver as tucanas, coxinhas de Hygyenopolis e da Moóca, onde vive aquele notável Místico, ('Cerra'),  protetor de funcionária fantasma, vamos ver as indignadas coxinhas mostrar os peitos!

Porque essas tucanas de Hygyenopolis e da Moóca não compactuam com a safadeza!

Paulo Henrique Amorim

No CAf
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“FHC comprou a mídia, a reeleição e a namorada”


Senador Roberto Requião (PMDB-PR) pôs neste sábado, 20, lenha na fogueira acendida pela jornalista Mirian Dutra em torno do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB); Requião classifica o ex-presidente tucano como "comprador", pela revelação de que utilizou esquema ilegal de envio de dinheiro ao exterior para sustentar sua ex-amante, que foi funcionária da Globo por 35 anos; "Ele é comprador juramentado e militante, comprou a namorada, a reeleição e a mídia? O famoso quem? Diga aí! Mas vendeu o Brasil?", escreveu Requião no Twitter




Leia também: FHC violentou Mirian Dutra numa relação de poder
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Cartel midiático culpa PT até pelos “malfeitos” de FHC


Quando você pensa que já viu de tudo na política brasileira, ela consegue surpreendê-lo outra e outra vez. Todavia, confesso que a última — ou melhor, a mais recente — me fez cair o queixo. O cartel de grupos empresariais que controla a comunicação de massa no Brasil estuprou o jornalismo de novo.

Semana passada, uma ex-jornalista da Globo com quem o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso manteve um caso extraconjugal nos anos 1990 resolveu confirmar o que há muito tempo já era comentado a boca pequena, que ela foi exilada pela empresa de comunicação na Europa para não causar embaraços ao aliado político dos patrões em um momento em que ele ascendia politicamente.

Quem quiser conhecer essa história a fundo não pode deixar de ler O Príncipe da Privataria” (Geração Editorial, 2013), do escritor Palmério Dória. O livro antecipa tudo o que veio à tona nos últimos dias.

Durante 18 longos anos, a autoproclamada “grande imprensa” brasileira se recusou a divulgar que o affaire entre FHC e a jornalista Mirian Dutra gerou um filho. Só em 2009, depois que a exposa legítima do tucano faleceu, seu filho ilegítimo atingiu a maioridade e o ex-presidente decidiu reconhecê-lo como filho legítimo é que a mídia divulgou o caso.

Em 2011, porém, dois testes de DNA — um feito em São Paulo e o outro, em Nova York — teriam revelado, segundo FHC, que Tomás Dutra Schmidt, o filho que teve com a jornalista Miriam Dutra, não seria dele.

A partir dali, era previsível que Mirian não ficaria satisfeita. Ela apareceu na foto como uma vigarista que conseguiu benesses como residir na Europa sem trabalhar com todas as contas pagas pela Globo e pelo ex-presidente com base em uma fraude, dizer ao tucano que o filho que gerara era dele.

Quase cinco anos depois de FHC tê-la exposto como uma vigarista, Mirian volta à cena pública trazendo revelações comprometedoras contra quem a difamou e põe em dúvida a versão dele de que o teste de DNA que a compromete e tira direitos de herança de seu filho seja verdadeiro.

E, de quebra, ainda diz ao mundo que FHC, enquanto ocupava a Presidência, cometeu atos que sugerem que esteve envolvido em corrupção no exercício do mandato, como enviar dinheiro ilegalmente para fora do Brasil valendo-se de um esquema criminoso com uma empresa com a qual seu governo mantinha negócios.

O indício de corrupção é forte. Mirian tem documentos que comprovam a transação ilícita. E que constituem o fio da meada de esquema maior.

De repente, porém, de forma estarrecedora, jornalistas conhecidos começam a publicar colunas em grandes jornais insinuando que tudo isso que veio à tona é, pasmem, uma “armação do PT”.

Hein?!

FHC monta um esquema desses para acobertar suas escapadas amorosas, utiliza esquema criminoso para esse fim e, sem prova alguma, sem um mísero indício, um bando de jornalistas irresponsáveis elabora uma hipótese sem pé nem cabeça e começa a divulgá-la como se tivessem algum elemento que fundamentasse tal suposição.

A primeira engraçadinha a transformar suas especulações em “notícia” foi a conhecida “musa da massa cheirosa”, a colunista do Estadão Eliane Cantanhêde, quem gosta de ressaltar as fragrâncias que exalam dos corpos dos políticos do PSDB — e isso não é piada, é fato.

Dali em diante, os colunistas do cartel midiático começaram a tratar como “fato” que o PT esteja por trás das revelações da ex-namorada ressentida de FHC. A insinuação é uma enormidade: ela teria sido paga pelo partido para dizer o que disse sobre o homem responsável por seu exílio, por seu confinamento por décadas em uma gaiola dourada e, finalmente, pela demolição de sua honra.

Neste domingo, leio o colunista da Folha de São Paulo Hélio Schwartsman atacar Lula pelas suspeitas que recaem sobre FHC. E ele ainda recomenda “aos petistas” que não “comemorem” porque os problemas do tucano com a lei — que, segundo esse cara-de-pau, seriam “menos graves”, como se existisse meia gravidez — não absolvem Lula.

Cantanhêde, Schwartsman e toda a fila de paus-mandados dos barões da mídia que estão tratando o PT como culpado pelas estripulias de FHC sem disporem de um fio de prova, porém, podem ficar descansados. Não há lei que incomode a máfia tucana.

A roubalheira praticada por FHC (privataria) continuará impune enquanto a mídia e a Justiça perseguem Lula sem disporem contra ele de um décimo das evidências que pesam contra o tucano, quem, se vivêssemos em um país sério, estaria preso há muito tempo por ter vendido o patrimônio público brasileiro a preço de banana em troca de tal fortuna em propina que hoje lhe permite distribuir por aí apartamentos de um milhão de reais cada.

Eduardo Guimarães
No Blog da Cidadania
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No caso FHC, mídia escancara a parcialidade

http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/2016/02/21/no-caso-fhc-midia-escancara-a-parcialidade//


Imparcial, isenta, independente, neutra, pluralista, apartidária: é assim que a grande imprensa brasileira gosta de se apresentar. Alguém ainda pode acreditar nisso?

Quem mais gosta de ostentar estas qualificações virtuosas é a Folha, o jornal de maior circulação no País faz mais de 20 anos, a ponto de perguntar em sua seção "Tendências/Debates" no último sábado: "A Folha é pluralista o suficiente?". Para mostrar que é, publica um artigo respondendo que "sim" e outro que "não".

Na primeira página da mesma edição, o jornal publica duas chamadas que mostram aos leitores a realidade fora da propaganda. Em dois casos análogos, o tratamento é diferenciado conforme o personagem abordado na notícia. Vejam a sutileza:

"Marita Lorenz, espiã da CIA e ex-amante de Fidel, conta em livro a sua trajetória".

"A empresa Brasif — acusada de usar contrato fictício com a jornalista Mírian Dutra para ajudar o ex-presidente FHC (PSDB) a bancar ex-namorada no exterior — negou que o tucano tenha participado da contratação".

Quer dizer, no caso de Fidel, é "ex-amante"; no de FHC, "ex-namorada".

Menos sutil é a revista Veja. Na mesma semana em que a revelação do caso FHC foi o assunto mais comentado nas redes sociais e em toda parte (menos na mídia grande), a nossa ainda maior revista semanal simplesmente ignorou o tema em sua capa, que pela 968ª vez foi dedicada a denúncias contra o ex-presidente Lula. E, em suas 98 páginas, a revista não dedicou uma única linha para tratar das denúncias de Mírian Dutra que provocaram grande repercussão.

Sua principal concorrente, a revista Época, também ignorou o assunto na capa e lhe reservou apenas duas paginetas, sob a rubrica "Teatro da Política", com um texto escrito cheio de dedos, não assinado, costurado em notas oficiais, como se estivesse pisando em ovos.

Se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre a descarada parcialidade da mídia ao tratar de denúncias contra os dois ex-presidentes, a cobertura do caso FHC pelos principais veículos mostrou que a "missão de informar e noticiar fatos", como diz Veja em sua "Carta ao Leitor", não passa de propaganda enganosa.

A revista ainda teve o requinte de afirmar nesta carta, sob o título "De que lado está Veja?", que a "Veja sempre esteve entre as forças da nação que se unem em torno dos valores éticos comuns às sociedades civilizadas e avançadas".

Para reforçar a afirmação anônima, o editor republicou anúncios de uma campanha publicitária de 1999 com frases como "A esquerda acha que a Veja é de direita" e "A direita, que é esquerdista". Nem se trata de ser de esquerda ou de direita, mas apenas de ser honesta com seu leitorado, tratando de todos os fatos e personagens com as mesmas medidas, não manipulando nem omitindo informações.

É sintomático que, na mesma semana, Veja e Folha, líderes de mercado em seus segmentos, questionem-se sobre o próprio comportamento editorial.

Mantenho o que escrevi aqui em post anterior sobre a vida privada dos homens públicos, que deve ser preservada, até o limite do interesse público. Outra coisa é esta cobertura parcial e seletiva da velha imprensa familiar, em que uns são sistematicamente atacados e, outros, defendidos. O que vale para um, não vale para outro; são mil pesos e mil medidas.

Chega até a dar vergonha de ser jornalista.

Vida que segue.
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Mírian-FHC: as preferências de classe da mídia


A autocrítica de tantos jornalistas diante da notícia envolvendo um filho de Fernando Henrique Cardoso e da jornalista Mírian Dutra está fora de foco.

Editores e repórteres com influência nas grandes redações brasileiras na década de 1990 têm sido criticados por não ter dado curso a notícia de que o senador/ministro da Fazenda/presidente da República teve um filho fora do casamento.

É uma crítica menos fácil do que parece, pois desde 2012 é preciso responder a um fato novo: dois testes de DNA dizem que FHC não é o pai da criança.

De duas, uma. Ou se demonstra que os testes contém informações falsas ou erradas, como sugere Mirian Dutra, com a credibilidade que toda mãe merece.

Ou é preciso admitir que, após atravessar duas décadas em torno de uma história de paternidade fora do casamento envolvendo um presidente da República, os  jornalistas brasileiros não foram capazes de encontrar um meio confiável para distinguir a pura fofoca de uma notícia real.

Pelos dados disponíveis hoje, é impossível negar que a decisão de não publicar uma linha sobre o caso pode ter evitado um erro lamentável, ainda que a motivação real não fosse defender os bons padrões do jornalismo. Apenas refletia um interesse político: proteger, de qualquer maneira, a reputação de Fernando Henrique, num período em que este se firmava como um quadro político importante da elite brasileira, condição que lhe permitiria, num prazo inferior a dez anos, chegar ao Itamaraty, ao Ministério da Fazenda e cumprir dois mandatos como Presidência da República.

Publicar notícias verdadeiras sobre a vida privada de qualquer pessoa — um cidadão anônimo, um homem público — é sempre um exercício discutível e complicado. Produz dores profundas, deixando feridas que nunca são inteiramente cicatrizadas. O mínimo que se pode exigir, em qualquer caso, é que elas tenham um grau máximo de segurança e confirmação, evitando vexames e constrangimentos particularmente vergonhosos caso um desmentido se faça necessário.

Qual o problema do caso, então?

Mais uma vez, a moral seletiva, o tratamento com dois pesos e duas medidas, que expressa a pesada desigualdade social brasileira. Estamos falando de um fenômeno que não se limita a este episódio específico, obviamente, mas se expressa através do jornalismo que persegue uns e protege outros, cujo exemplo mais atual é a Lava Jato e, antes dele, os dois mensalões. O importante, aqui, são questões de interesse público.

Dois anos antes de surgirem os primeiros rumores sobre a gravidez de Mírian Dutra, espalhados em primeiro lugar por vários integrantes do círculo de amigos e auxiliares de FHC, o Brasil ficara estarrecido por um episódio que marcou a campanha presidencial de 1989: as reportagens sobre Lurian, a filha que Lula tivera como fruto de um namoro de curta duração, quando seu estado civil era de viúvo.

Na reta final de 1989, quando Lula subia nas pesquisas e exibia condições reais de vencer  a eleição, a campanha de Fernando Collor comprou um depoimento da ex-namorada de Lula, que foi exibido no horário político e contribuiu para enfraquecer a ascensão do candidato do PT.

Lula era solteiro no momento em que a filha nasceu. Não podia, portanto,  ser acusado de adultério. Registrou a menina com seu nome e vários membros da família, inclusive a avó materna, atestam que sempre prestou a assistência possível. Não podia ser acusado de mau pai, portanto. Ainda assim, sofreu um massacre. Lurian pagou o preço de quem estava interessado em questionar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva mas, à falta de argumentos políticos, queria apelar para o desapego a "valores familiares".

Num país traumatizado por uma covardia desse tipo, usar o argumento do direito a privacidade para evitar a publicação de uma história que envolvia as relações Fernando Henrique e Mírian Dutra podia até ser um ponto de vista correto como princípio geral. Mas era interesseiro demais para ser levado a sério depois que a paternidade se tornou uma moeda de troca política.

Até porque não foi o único caso. No mesmo período, descobriu-se que o governador de São Paulo Orestes Quércia tivera um filho numa relação antiga, que não terminou em casamento. Nada muito diferente daquilo que se sempre se viu em tantas famílias, em todas as épocas. Foi notícia grande, em primeira página de jornais e espaço generoso nas revistas.

Este conjunto de episódios confirma que nosso jornalismo tem mais conexões de classe  do que fidelidade aos princípios profissionais. A célebre preocupação em atender a "curiosidade do leitor", mesmo quando se trata de oferecer mercadoria vulgar mas capaz de causar impacto, é sempre relativa.

Fernando Henrique não foi protegido porque os jornalistas desconfiassem de que a história fosse falsa. Possuíam aquilo que não têm mais hoje: 100% de certeza que era verdadeira. Até porque, em caso de dúvida, eram convencidos por insistentes depoimentos reservados de pessoas ligadas a família do presidente.

Mas todos fizeram a opção de não apurar, jogando nas costas de Mírian Dutra a responsabilidade de confirmar ou desmentir — em público, formalmente — aquilo que lhe era atribuído em conversas privadas. Se ela denunciasse, o caso seria publicado. Se fosse à Justiça cobrar direitos, melhor ainda. Apurar? Nunca.

Naquele mundo onde não surgira uma personalidade como o Papa Francisco, capaz de explicar a uma sociedade de tantos pais irresponsáveis que não existem mães solteiras, apareceu a guerra de uma mulher sozinha contra um presidente da República.   

Isso aconteceu porque Fernando Henrique faz parte do clube fechado de homens e mulheres que controla os fios que conduzem as grandes decisões que envolvem a sociedade brasileira e controlam acessos ao poder de Estado. Essas pessoas impõem respeito e distância, até porque exibem um inegável poder de retaliação, econômica e política, extensivo a suas famílias. Não são desafiados facilmente.

Os mesmos jornais que 48 horas antes estavam exclusivamente ocupados com um apartamento que a família Lula da Silva não comprou, agora estão às voltas com um apartamento em Barcelona, que Fernando Henrique comprou em euros para o filho de Mírian Dutra. Também cabe apurar a utilização de uma concessiária de serviços de free-shop para realizar pagamentos mensais que não era conveniente realizar por meios oficiais. Ninguém deve ser acusado nem antecipado previamente sem provas — no caso de FHC, não há risco disso acontecer — mas é bom que tudo venha ser esclarecido. Ajuda a elevar a consciência e combater persistentes hipocrisias.

A grande lição do episódio, mais do que nunca, ensina que é preciso ter independência para apurar e investigar.

Também se confirma, mais uma vez, que é preciso respeitar o direito a privacidade, sem aceitar a moral relativa que cristaliza a existência de cidadãos de primeira e segunda classe. Isso começa por lembrar que a vida privada deve ser um direito de todos, sem distinção de classe, raça, gênero nem origem. Quando a paternidade de uma criança está no centro da notícia, esse cuidado deve ser reforçado por cautelas suplementares — até porque se trata da única pessoa que não tem responsabilidade alguma por desvios e abusos que possam ter sido cometidos. 

Paulo Moreira Leite
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Do DCM: Mírian Dutra diz que Globo foi beneficiada com dinheiro do BNDES ao ‘exilá-la’ (+vídeos)

Mírian Dutra
Existem muitas maneiras de entender o que foi e como foi executado o projeto de poder que resultou na aprovação da emenda que permitiu a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, mas duas são particularmente reveladoras.

Uma delas é traçar o perfil dos deputados acreanos que venderam o voto para mudar a Constituição por R$ 200 mil reais em 1997 (R$ 923 mil corrigidos pelo IGP-M até janeiro deste ano).

A outra maneira de buscar um quadro mais nítido do episódio da reeleição é entrevistando a jornalista Mirian Dutra Schmidt, que conhece Fernando Henrique Cardoso como poucos e viveu esse período como “exilada” na Europa, por ter um filho que ela diz ser dele.

Percorri os dois caminhos, e o que emergiu foi uma história que une as duas práticas. Uma delas é a da política do Brasil profundo, de fronteira, onde a moeda sonante é o argumento mais eficaz para mudar consciências.

A outra prática é a do Brasil central, com políticos e profissionais de comunicação que trocam o silêncio por prestígio ou poder e, no final das contas, acabam por transferir riqueza a grupos privilegiados.

Vamos começar esta série pelo episódio atual, Mirian Dutra, que deu entrevista à revista Brazil com Z (publicação para brasileiros que vivem na Europa) e falou pela primeira vez de seu relacionamento com Fernando Henrique Cardoso.

Mirian se formou em jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina e, em 1982, aos 22 anos de idade, ancorava em Florianópolis pela RBS (afiliada da Globo) o horário local do TV Mulher.

“Para mim, aconteceu tudo muito rápido. Eu era estudante, trabalhava na rádio Itapema e fui chamada para apresentar o TV Mulher, logo depois apresentava no jornal do almoço um quadro sobre turismo em Florianópolis”, diz Mirian.

Nesse período, casou-se com um fotógrafo e teve uma filha, Isadora. O casamento durou cerca de um ano. “Eu queria cobrir política, era minha paixão e pedi à Globo outro local para trabalhar. Me ofereceram apresentar o jornal local de Minas, mas eu queria política e fui para a Manchete em Brasília”, diz.

Ela chegou à capital da República em 1985, com 24 anos de idade e uma filha de um ano e meio. Seis meses depois, Antônio Britto deixou a TV Globo para ser porta-voz de Tancredo Neves, e, com os remanejamentos internos da Globo em Brasília, surgiu uma vaga para trabalhar no Bom Dia Brasil.

“Eu fui a primeira mulher a trabalhar no Bom Dia Brasil, porque o trabalho lá é difícil. Tem que levantar às 4 da manhã e dormir às 7 da noite. Eu era divorciada, mulher casada que trabalha no ritmo desses perde o casamento.”

O casamento da sucessora dela no Bom Dia Brasil, a jornalista Beatriz Castro, não resistiu seis meses.

Eram os dias de intensa cobertura em Brasília, por causa da doença e morte de Tancredo Neves e do início do governo José Sarney, o primeiro civil depois de 20 anos de ditadura militar, quando Mirian conheceu Fernando Henrique Cardoso no restaurante Piantella.

O Piantella, hoje propriedade do advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, era reduto de políticos e jornalistas. Ali costumavam ocorrer às terças-feiras jantares que definiam a pauta do Congresso, primeiro com Ulysses Guimarães à frente, depois Luiz Eduardo Magalhães e, mais recentemente, Michel Temer.

Como bebida destrava a língua, para jornalistas era um prato cheio frequentar o Piantella. Mirian conta que estava jantando com colegas de profissão quando Fernando Henrique Cardoso chegou e foi convidado para se sentar à mesa.

Era 1985, e Fernando Henrique Cardoso estava cotado para disputar a prefeitura de São Paulo, o que viria a ocorrer. “Eu admirava o Fernando Henrique pelos livros que ele tinha escrito, mas não pintou nada, nada”, diz.

Na versão dela, depois de muitos telefonemas, com Fernando Henrique ‘dizendo que estava apaixonado’, os dois começaram a namorar. Em 1991, quando Collor cogitou levar Fernando Henrique para o Ministério das Relações Exteriores, Mirian o desaconselhou, por cobrir o governo.

“Ele chegou em casa às duas horas da manhã, depois da reunião em que o Mário Covas foi contra o PSDB entrar no governo, e disse: ‘Você acabou com a minha vida’”.

FHC com Covas: “Ele chegou em casa às duas horas da manhã, depois da reunião em que o Mário Covas foi contra o PSDB entrar no governo, e disse: ‘Você acabou com a minha vida’”
FHC com Covas: “Ele chegou em casa às duas horas da manhã, depois da reunião em que o Mário Covas
foi contra o PSDB entrar no governo, e disse: ‘Você acabou com a minha vida’”
Alguns meses depois, segundo ela, Fernando Henrique repetiria algo nessa linha, ao dizer que Mirian não poderia levar adiante a gravidez anunciada. “Você pode ter filho de quem quiser, menos meu.”

Segundo Mirian, estava foi a última vez que os dois falaram como namorados. “Para mim, acabou. Vi o tipo de homem que era.”

Pergunto: mas Fernando Henrique era o pai da criança?

“Claro que é.”

Mas e os DNAs posteriores, que provam o contrário?

“Ele diz que fez os exames nos Estados Unidos e o correto teria ter sido feito na minha presença, com a coleta do meu sangue. Por que fez lá? Por que demorou tanto para fazer, se eu pedi que fizesse quando fiquei grávida?”

Mirian diz estar disposta a um novo exame e afirma que tentou convencer seu filho a fazê-lo.

“Mas ele não quis. O Fernando Henrique deu a ele o que eu, como jornalista, nunca poderia dar: estudo de graduação na Georgetown University, uma das mais conceituadas do mundo, 60 mil dólares por ano, no mínimo, bancou sua permanência lá, e depois deu um apartamento de 200 mil euros, cash, em Barcelona. Para o Tomás (nome do filho), está bem feito. Para que questionar?”

Aspectos privados da vida de Fernando Henrique, Mirian Dutra e do filho dela pertencem a eles, mas o assunto deixou a esfera da privacidade quando o então senador Fernando Henrique, líder do PSDB e um dos formuladores da política em Brasília, colocou em marcha a engrenagem de mídia para iludir a opinião pública.

“O Fernando Henrique me ligou várias vezes e me pediu que recebesse a revista Veja em Florianópolis, onde eu estava para ganhar o bebê, e dissesse que o filho era de outra pessoa. Era uma coisa meio esquisita. Quem eu era para aparecer na Veja?”

Uma fotógrafa da agência Somm, Suzete Sandin, que Mirian Dutra conhecia dos tempos da Universidade Federal de Santa Catarina, foi contratada pela revista para um freelance, e procurou Mirian, que aceitou posar.

“Uma repórter, que eu não conheço, acho que era de outra cidade, me procurou e vi que ela tinha uma única missão: pegar a declaração que o Fernando Henrique tinha passado para mim”, afirma.

Na coluna Gente da edição de 24 de julho de 1991, a de número 30 do 24º ano de Veja, é publicada uma frase atribuída a Mirian:

“O pai da criança, um biólogo brasileiro, viajou para a Inglaterra para fazer um curso e voltará para o Brasil na época do nascimento do bebê.”

E existe esse biólogo?

“Claro que não. Isso é mentira. Era o que Fernando Henrique queria ver publicado, e foi publicado”, diz hoje a arrependida Mirian.

“Minha mãe quase enlouqueceu e disse: ‘Você não pode fazer isso.’ Eu tinha contado para ela quem é o pai. A barra foi muito pesada e eu quase perdi a gravidez”!

Mirian revela que ouviria mais tarde de Paulo Moreira Leite, na época um dos editores executivos de Veja, que a ordem para apurar e publicar a nota tinha partido de Mario Sergio Conti, que tinha assumido pouco tempo antes a direção de redação da revista.

“Foi uma armação do Fernando Henrique com o Mario Sergio”, diz a jornalista.

Ela diz que esta foi a primeira das muitas vezes em que viu a sua gravidez (e posterior nascimento do filho) ser usada para angariar prestígio. O governo era de Collor e ainda se cogitava abertamente a possibilidade de Fernando Henrique disputar a presidência, embora desfrutasse de prestígio como poucos na política, sobretudo por sua relação com a imprensa. Mas, segundo Mirian, chegar à presidência era o projeto de vida dele.

“Ouvi dele muitas vezes que seria presidente, porque os políticos no Brasil não sabiam de nada, eram mequetrefes. É claro que um filho fora do casamento, de uma mulher que todo mundo em Brasília sabia que era a namorada dele, prejudicaria seus planos.”

O filho nasceu e Mirian foi perdendo espaço de vídeo na Globo. Por razões que não ficaram para mim muito claras, na entrevista de mais de três horas que fiz com ela, Mirian Dutra decidiu ir para Portugal e logo estava empregada numa emissora em que Roberto Marinho era sócio.

Fernando Henrique já era ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco e apontado como um nome forte para a sucessão no ano seguinte. Mirian chama sua saída do Brasil de um autoexílio, e diz que o diretor de jornalismo da Globo à época, Alberico de Souza Cruz, padrinho do seu filho Tomás, o ajudou muito nessa saída.

“Eu gosto muito do Alberico, e ele dizia que me ajudou porque me respeitava profissionalmente. Éramos amigos, conhecíamos segredos um do outro, mas eu fiquei surpresa quando, mais tarde, no governo de Fernando Henrique, ele ganhou a concessão de uma TV em Minas. Será que foi retribuição pelo bem que fez ao Fernando Henrique por me ajudar a sair do Brasil?”

Mírian sobre Alberico, antigo diretor da Globo: concessão de tv como retribuição de FHC?
Mírian sobre Alberico, antigo diretor da Globo: concessão de tv como retribuição de FHC?
No caso de Alberico, ela não passa da insinuação, mas quando o assunto é uma de suas irmãs, Margrit Dutra Schmidt, a jornalista é direta. Segundo Mirian, a irmã era dona da Polimídia, uma empresa de lobby em sociedade com o marido, Fernando Lemos, que cresceu nos anos 90, com a venda de serviços de gestão de crise.

“A minha irmã tinha as portas abertas em tudo quanto é lugar e era chamada de ‘a cunhadinha do Brasil.’ Agora soube que ela tem um cargo de assessora do Serra no Senado e não aparece para trabalhar. Eu não sabia, mas não fiquei surpresa. Este é o bando de gente para quem ela sempre trabalhou. E o Serra eu conheço bem.”

“Por que a imprensa não vai atrás dessas informações? A minha irmã, funcionária pública sem nenhuma expressão, tem um patrimônio muito grande. Só o terreno dela em Trancoso vale mais de 1 milhão de reais. Tem conta no Canadá e apartamentos no Brasil. Era a ‘cunhadinha do Brasil’”.

No que diz respeito a seu contrato com a Globo, nos anos que ela considera de exílio no exterior, Mirian quebra o silêncio e vai além das declarações protocolares. “Sabe o que eles fizeram comigo? Ensaboa mulata, ensaboa…”, diz, cantarolando a música de Cartola.

Segundo ela, quem ensaboava era Carlos Henrique Schroeder, atual diretor geral da Globo, na época o número 2 do jornalismo.

Schroeder, hoje diretor geral da Globo, era o encarregado de 'ensaboar Mírian'
Schroeder, hoje diretor geral da Globo, era o encarregado de ‘ensaboar Mírian’
“Em 1997, eu estava cansada do trabalho que fazia em Portugal, sem nenhuma importância, e me apresentei para trabalhar no escritório em Londres. Na época, quem dirigia era o Ernesto Rodrigues e ele me disse, na cara: ‘Enquanto eu dirigir este escritório, nenhuma amantezinha vai trabalhar aqui.’”

Mirian diz que voltou para o Brasil e se reuniu com Evandro Carlos de Andrade, sucessor de Alberico na direção de jornalismo, e comunicou que ou voltaria para o Brasil, ou pediria demissão. “O Evandro disse, na frente do Schroeder e do Erlanger (Luís Erlanger, que dividia com Schroeder as funções de número 2 no jornalismo): “Ninguém mexe com essa mulher. Ela mostrou que tem caráter”, conta.

Schroeder foi então, conforme o relato de Mirian, destacado para ser uma espécie de padrinho dela na TV Globo. “Poxa, você conquistou o chefe”, disse ele.

Apesar disso, Mirian não desistiu da ideia de voltar para o Brasil. “Eu fui repórter do Jornal da Globo na época da Constituinte, fiz Jornal Nacional e estava na geladeira. Isso derruba qualquer um.”

Os planos de Mirian chegaram ao conhecimento dos amigos e um deles, Luís Eduardo Magalhães, que foi presidente da Câmara dos Deputados e líder de Fernando Henrique no Congresso, a convidou para um almoço.

“Sobre o Luís Eduardo, tem uma coisa interessante: eu era amiga dele antes do Fernando Henrique e fui eu que aproximei os dois.”

No almoço, Luís Eduardo levou o pai, o senador Antônio Carlos Magalhães, que ela também conhecia, e ouviu deles, mas principalmente de ACM, que não era hora de voltar, que Fernando Henrique disputaria a reeleição e ela deveria ter paciência.

“Foi quando entendi que eu deveria viver numa espécie clandestinidade. Se eu voltasse, não seria bem recebida e as portas se fechariam para mim”, conta.

Mirian tomou a decisão de comprar um apartamento em Barcelona e ir para lá, como contratada da Globo, e produzir matérias de lá. A empresa topou, mas, mesmo pagando a ela um salário de 4 mil euros (cerca de R$ 18 mil), não aprovou a realização de nenhuma pauta em muitos anos.

“Me manter longe do Brasil era um grande negócio para a Globo”, diz. “Minha imagem na TV era propaganda subliminar contra Fernando Henrique e isso prejudicaria o projeto da reeleição.”

Mas o que a empresa ganhou com isso?

“BNDES”.

Como assim?

“Financiamentos a juro baixo, e não foram poucos”.

FHC e Roberto Marinho comemoram nova gráfica do Globo, financiada com dinheiro público
FHC e Roberto Marinho comemoram nova gráfica do Globo, financiada com dinheiro público



Mirian afirma que a demissão da TV Globo, em setembro do ano passado, foi o que a levou a decidir fazer um relato da sua vida.

Foi um episódio que ela considera cruel. Depois de 25 anos de Globo, entre afiliada em Santa Catarina e Brasília, recebeu um e-mail de José Mariano Boni de Mathis, diretor executivo da Central Globo de Jornalismo. Curto e seco, ele informou: seu contrato não será renovado.

“A partir daí, eu não era mais a Mirian da TV Globo e me senti livre para fazer o que sempre quis, mas não podia: desenterrar os ossos e enterrar de novo, era como publicar um diário. Mas vi que esse cadáver incomoda muita gente, e a repercussão foi maior do que eu imaginava. Agora eu tenho que ler até o artigo de uma jornalista que me conhece e sabe bem dessa história, a Eliane Cantanhede, que me compara ao caso da Luriam, Miriam Cordeiro. Esse pessoal perde a compostura quando é para defender seus amigos. Absurdo.”

No almoço com Luís Eduardo Magalhães, havia uma quarta pessoa, cujo nome prefere não revelar no momento. Era representante da TV Globo. Na quinta-feira passada, quando a Folha de S. Paulo publicou entrevista de Mirian, ela recebeu um telefonema de Mariano Boni (diretor-executivo da Central Globo de Jornalismo).

“Ele queria saber quem era o representante da TV Globo no almoço em Brasília. Sabe o que respondi para ele? Você acha que eu vou contar para você? Acho que o microfone estava aberto e, se eu conheço a Globo, o Ali Kamel (diretor de jornalismo) estava ouvindo a conversa. O Boni disse: mas a Globo sempre foi muito correta com você. Disse que ele era cínico e falei outras coisas pesadas. Fui bem malcriada, e desliguei o telefone. A secretária do Boni me ligou várias vezes, e eu não atendi.”

O telefonema em que ela conversou com Boni foi por volta das 14 horas, no horário de Madri, onde hoje ela mora, 11 horas no fuso brasileiro. Duas horas depois, o Jornal Hoje repercutiu a entrevista de Mirian à Folha e o apresentador Evaristo leu uma nota da emissora, em que a direção afirma:

“Durante os anos em que colaborou com a TV Globo, Miriam Dutra sempre cumpriu suas tarefas com competência e profissionalismo.”



Mirian faz uma ironia com a declaração: “Quando vi, pensei que eu tivesse morrido. Elogio assim só em obituário. Mas sei qual é a intenção deles: me calar com elogio fácil.”

E qual a relação do seu exílio com o projeto de poder representado pela emenda da reeleição?

“Mostra o jogo pesado que foi a continuidade do governo de Fernando Henrique Cardoso. Só olhar para o que aconteceu no segundo governo: as privatizações mais selvagens. Não podia dar errado, a Mirian não podia atrapalhar os grandes negócios. Está na hora de quebrar a blindagem desse pessoal. Mas onde estão os jornalistas, que não investigam?”

Esta é a primeira matéria da série sobre a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. O projeto foi financiado pelos leitores através de um crowdfunding na plataforma Catarse. Fique ligado.

Joaquim de Carvalho
No DCM
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