14 de fev de 2016

A direita tem o culpado. Agora procura o crime...


A verdade é que existe, tanto no PT como no grupo mais próximo a Lula da Silva, um claro incômodo diante do silêncio da presidenta Dilma Rousseff e seu governo com relação ao verdadeiro massacre sofrido pelo ex presidente. Uma muito bem organizada ação articulada por amplos e poderosos setores da Polícia Federal, do Ministério Público e, claro, dos grandes meios hegemônicos de comunicação encontraram num juiz de província chamado Sérgio Moro o eixo para uma campanha como não se via no Brasil há pelo menos 65 anos, cujo objetivo é a rápida e fulminante desconstrução da imagem do mais importante líder popular surgido desde Getúlio Vargas, o mítico presidente que, acossado por campanha similar, optou por se matar em agosto de 1954.

São ingredientes claros de toda clareza. De um lado, os partidos de oposição, encabeçados pelo PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), nocauteado pelo PT de Lula em quatro ocasiões sucessivas em suas tentativas de voltar à presidência.

Dando mostras de que sua irresponsabilidade desconhece limites, o PSDB não apenas tanta o golpe institucional por duas vias — a do julgamento político no Congresso, e a da impugnação das eleições de 2014, que reconduziram Dilma Rousseff à presidência, no Tribunal Superior Eleitoral — como se dedica, dia sim e o outro também, a derrotar medidas propostas pelo governo que foram precisamente criadas e defendidas durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), principal expressão do partido. Assim, qualquer coisa que possa ser prejudicial ao governo, não importando as consequências sobre o país, merece o rápido apoio do PSDB.

De outra parte, o verdadeiro combustível da fogueira destinada a tentar carbonizar Lula da Silva vem de um esquema tão visível como absurdo, sem que ninguém tente desfazê-lo.

A coisa funciona assim: algum funcionário da Polícia Federal adverte os meios hegemônicos de comunicação que foi detectada uma suspeita sobre Lula da Silva (as provas e indícios são, claro, desnecessárias). A informação é imediatamente publicada pela imprensa e disseminada pela televisão, especialmente a Globo, que cresceu e se fortaleceu durante a ditadura militar (1964-1985), e não oculta a nostalgia daqueles bons tempos.

Baseado nessa notícia, algum procurador de escalão intermediário pede à Polícia Federal uma investigação. O juiz Sérgio Moro autoriza, e pronto.

Muitos dos delegados da Polícia Federal que investigam o esquema de corrupção implantado na Petrobras e outras estatais fizeram campanha, nas redes sociais, para o derrotado Aécio Neves, do PSDB, contra Dilma, em 2014.

Muitos dos procuradores que orbitam ao redor do juiz Moro integram seitas evangélicas que se opõem a tudo que se refira ao governo, e alegremente participam de cerimônias condenando Lula, Dilma, o PT e tudo que tenha cheiro de esquerda ao fogo eterno.

Moro, ídolo máximo da direita, atua como Justiceiro Supremo. Não parece preocupado com os escandalosos abusos ditados pela sua pluma afiada e sua voz fininha. O que importa é manter empresários e políticos presos inexplicavelmente até que aceitem o recurso da delação premiada e confessem qualquer coisa com tal de voltar para casa.

Há, efetivamente, uma inexplicável inação da parte do ministro de Justiça de Dilma, a quem a Polícia Federal está subordinada administrativamente. Não se trata, claro está, de impedir que se investigue a fundo e sem limites todo e qualquer ato de corrupção. Mas, por que não impedir o vazamento seletivo, à imprensa, de acusações sem prova alguma? Por que permitir que não se investigue denúncias contra partidos de oposição, que se multiplicam sem parar? Nenhuma medida é adotada para que os minuciosos regulamentos de conduta sejam respeitados e obedecidos.

Seja como for, alguma coisa já se conseguiu: Lula é o culpado. De quê? De ser dono de um apartamento de classe média num balneário decadente que ele mesmo admitiu ter tido como opção de compra, da qual desistiu. De ser dono de um sítio que está em nome do filho de um de seus melhores e mais antigos amigos.

Ambos os imóveis foram reformados por construtoras envolvidas em escândalos de corrupção. E que, por sua vez, são as mesmíssimas que financiaram a compra do imóvel e do luxuosíssimo mobiliário do instituto de outro ex-presidente, Fernando Henrique Cardoso, do tão moralista PSDB.

Cardoso é um intelectual de alto coturno, um exemplo nítido das elites acadêmicas não apenas de seu país, mas do continente. Uma doação ao seu instituto é um ato de generosidade do empresariado.

Lula da Silva é um operário de escassíssima cultura acadêmica, mas de indescritível sensibilidade social e intuição política. Uma doação ao seu instituto é, claramente, um ato de corrupção.

A grande imprensa e a direita ressentida já têm o culpado: Lula da Silva. Agora tratam de descobrir qual o crime cometido.

O mais importante, o essencial, é impedir que ele torne a ser eleito em 2018.

Eric Nepomuceno é jornalista, escritor e tradutor.
No 247
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Quem pode fazer o papel de Sanders no Brasil?

O Brasil precisa de alguém que renove o debate político: Sanders
Quando o debate político começa a girar em torno de caixas de cerveja e canoas de 4 000 reais, é porque chegamos à mais pavorosa miséria intelectual.

É o triunfo da migalha sobre a relevância.

E então você olha para o que Bernie Sanders colocou na agenda americana de discussões políticas e sente vontade de chorar.

Num país muito mais rico que o Brasil e muito menos desigual, Sanders forçou a sociedade a enfrentar suas verdadeiras feridas.

Que país pode funcionar decentemente, disse ele, quando a plutocracia toma de assalto a democracia?

Quando o big business toma conta do Congresso e da Casa Branca mediante doações multimilionárias para as campanhas? (Ou alguém acha que é um dinheiro dado de graça?)

Quando um pequeno punhado de privilegiados fica cada vez mais rico enquanto milhões de americanos perderam a casa e vivem nas ruas ou em amontados precários de cabanas?

Quando as pessoas não têm direito a um tratamento público de saúde decente, e os estudantes pobres não têm como pagar faculdades caras?

Ora, ora, ora.

São temas atualíssimos no Brasil. Melhor: velhíssimos. Vivemos uma situação de abjeta desigualdade há décadas, séculos.

E no entanto discutimos cerveja.

Esta é a contribuição da Polícia Federal e da mídia: debater cerveja.

Você vai ouvir o que políticos como FHC, assim chamado sociólogo, têm a dizer sobre o drama social brasileiro. E tudo se resume a uma palavra usada para enganar os ingênuos, os tolos, os analfabetos políticos: corrupção.

Não existe nada mais corrupto do que um sistema feito para beneficiar os ricos. E mesmo assim a palavra corrupção domina entrevistas, artigos e o que mais tiver a assinatura de pretensos pensadores políticos como FHC.

É uma indigência assombrosa.

Não há um vestígio de ideia fresca nas falas de Aécio. É o atraso do atraso. E no entanto ele não sai de jornais e revistas, seus amigos e cúmplices.

Sanders fala, apropriadamente, em promover uma revolução política que devolva o poder ao povo, às pessoas das ruas, e o retire dos bilionários.

É isso que o Brasil tem que fazer.

O primeiro passo, essencial, é pregar, pregar e ainda pregar. É o que Sanders, aos 74 anos, está fazendo.

A pregação força o debate e desperta muitos que estavam adormecidos, completamente descrentes da política e, mais que tudo, dos políticos.

Quem, no Brasil, poderia colocar uma nova agenda política em debate, com vigor e credibilidade?

Quem representa, como Sanders, uma ruptura com o status quo viciado e viciante?

Vejo apenas um nome.

Jean Wyllys.

Paulo Nogueira
No DCM
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O que Sanders tem a dizer ao PT e à classe média brasileira?


Um desequilíbrio estrutural empareda agora a vida dos filhos das camadas médias no mesmo torniquete de impossibilidades que espreme os jovens nas periferias

Nada é mais central na luta política brasileira nesse momento do que posicionar-se em relação ao massacre do qual Lula é o alvo explícito.

Está longe de ser o único, porém.

Enganam-se tragicamente os que pensarem assim.

Lula é uma ponte simbólica — e estratégica.

Sua densidade histórica deriva do último grande ciclo de ascensão de massas no Brasil, iniciado com os levantes operários do ABC paulista, no final dos anos 70, seguido da campanha das Diretas, da Constituinte Cidadã e de quatro vitórias presidenciais progressistas na sétima maior economia do mundo.

Nas quatro letras que formam o seu nome junta-se o denso caudal da esperança na construção de um Brasil socialmente convergente e libertário, a erigir uma democracia social no coração da América Latina, em pleno século 21.

Desnecessário sublinhar a irradiação contagiante que um marco bem sucedido dessa natureza traria à luta pelo desenvolvimento nos quatro cantos do planeta.

Desnecessário reiterar a ferocidade dos interesses contrariados por essa possibilidade.

A singularidade da trajetória do ex-metalúrgico, o alcance de sua palavra, a credibilidade que carrega condensam, assim, um potencial transformador inestimável, e ao mesmo tempo, temido.

No momento em que a mais longa crise mundial do capitalismo desde 1929 impõe a repactuação das bases do desenvolvimento, a exigir um novo degrau de democratização da economia e da sociedade, é preciso lixiviar a possibilidade de que esse potencial, (na verdade nunca inteiramente exercido), estabeleça um novo estirão progressista na história brasileira.

Tudo isso que Lula traz grudado na pele, a irradiar perigosa mistura de precedente, otimismo e encorajamento social é o alvo efetivo da mira conservadora que o picota diuturnamente.

Vive-se uma contagem regressiva golpista.

O que se espera agora é que um personagem do rodapé da história se apresente ao desfrute conservador, de avental e machado na mão, a fremir nas ventas a disposição de desfechar o gesto final.

São esses burros de carga das encomendas superiores que cuidam também das manchetes sulfurosas nesse momento.

Suspeitos canteiros de acelga, canoas e pedalinhos de cisne em pesqueiro frequentado por Lula, em Atibaia, compõem o cerne de sua passagem pela história.

Que um jornalista como Clóvis Rossi, da Folha, tenha dado ao ‘complexo de Atibaia’ o epíteto de ‘um luxo’, evidencia a cooptação feroz dos espíritos pelo cuore conservador.

Com suas contradições de carne e osso, Lula é a costela de pirarucu atravessada na garganta conservadora brasileira. Trata-se da ponte mais extensa a conectar o rico e diversificado campo progressista às camadas mais amplas e sofridas da população.

Não é preciso endossar cada passo e ato do ciclo que elevou em 70% o poder de compra do salário mínimo e retirou 40 milhões de brasileiros da miséria para entender o porquê da convergência que agora avança inescrupulosamente para desloca-lo do imaginário social para um prontuário policial.

Consumada a operação, a restauração neoliberal está contratada para 2018, não importa quem seja o seu portador. Até um material político da qualidade de um José Serra torna-se competitivo nessas condições.

Exatamente por estar em disputa uma nova hegemonia e não uma simples dança das cadeiras dentro de uma mesma época histórica, a defesa daquilo que Lula representa não pode mais ser apenas retrospectiva.

É preciso dizer o que o seu potencial político tem a propor ao passo seguinte do país.

Dize-lo, sobretudo, à base social que o sustenta.

Mas não só.

Entre outras lacunas políticas na trajetória recente da esquerda brasileira, há uma que cobra cada vez mais alto uma resposta desassombrada, que de certa forma condicionará a eficácia das demais.

O que o campo progressista tem a dizer ao segmento mais numeroso da classe média, hoje, como sempre, o principal substrato do preconceito, da desinformação e da incerteza, manipulados para servir de base à agenda do golpismo neoliberal?

O sucesso ou o fracasso dessa resposta condicionará em grande medida o desfecho do braço de ferro que, inicialmente, o conservadorismo tentou resolver com o impeachment; e agora admite decidir nas urnas de 2018, desde que consiga trancar Lula fora da cédula.

Não existe ‘uma classe média única’.

Sob esse guarda-chuva sociológico reúne-se uma vasta gama de renda intermediária, da qual faz parte também uma elite integralmente identificada com os interesses dominantes da sociedade.

Não é desse pedaço do Brasil que se trata aqui.

Mas dos anseios de um amplo contingente de assalariados, profissionais liberais e funcionários públicos, cevados com doses maciças de medo e incerteza pela cooptação conservadora.

Inclui-se aí um pedaço significativo da juventude que vivencia na rua e no bolso o estreitamento do espaço de ascensão que seus pais desfrutaram — ou imaginaram desfrutar um dia, mas que o capitalismo rentista não mais propiciará.

Não é um gargalo criado pelo ‘lulopetismo’, como diz a propaganda das falanges dentro e fora da mídia.

É um estreitamento estrutural dos canais de mobilidade no capitalismo globalizado.

Nele, o emprego estável, de qualidade e bem remunerado sucumbiu, desde a base industrial minguante, até o setor de serviços expandido, configurando-se um novo normal de vagas abastardadas pela provisoriedade, a supressão de direitos e o achatamento real dos salários.

Um dado resume todos os demais: a modalidade atual de emprego que mais cresce na Inglaterra sob o domínio conservador é a que reduz o trabalhador a um insumo igual a qualquer matéria-prima. Só requisitada do ‘depósito’ (o mercado) quando a demanda assim o exige, ela receberá apenas e somente o equivalente ao tempo durante o qual seu cérebro e músculos forem diretamente consumidos pela engrenagem produtiva.

Isso não impede, na verdade guarda estreita funcionalidade com o fastígio da riqueza na ponta financeira do sistema.

Quase 2,5 milhões de crianças vivendo na antessala da pobreza absoluta na terceira maior economia europeia, compõe a síntese desse paradoxo semeado por Pinochet e Thatcher desde os anos 70/80, cuja essência consiste em libertar o capitalismo de seus contrapesos regulatórios de natureza econômica, política e social.

Deu-se o que se traduz nesse momento em um desconcertante avanço da desigualdade em escala global.

Um de seus vórtices foi exaustivamente documentado por Thomas Piketty: a riqueza financeira não apenas cresce sempre à frente, mas em contraposição à expansão real da renda per capita.

Em sua cristalização mais recente, a gosma inutilizou o sonho sistêmico do way of life na qual a classe média saboreou waffles com creme de mobilidade social, do pós-guerra até meados dos anos 70.

O protocolo da meritocracia perdeu sentido.

Nenhum critério uniforme de avaliação é justo quando a igualdade de oportunidades inexiste.

Um desequilíbrio estrutural empareda agora a vida dos filhos das camadas de renda média no mesmo torniquete de impossibilidades que espreme a existência dos jovens nas periferias conflagradas.

Questões básicas como o atendimento à saúde, a qualidade do ensino, a segurança e a moradia, o emprego, o custo de criar um filho sem sistemas públicos eficientes, o amparo à velhice dos pais mas também o anseio por dignidade, reconhecimento e convivência pública, assumem o peso crescente de uma centralidade política carente de respostas.

Nenhum agrupamento progressista logrou de fato traduzir esse mal-estar social do capitalismo financeiro em um projeto capaz de transformar os desfavorecidos de toda a sociedade em um novo sujeito histórico.

A extrema direita navega com razoável sucesso e competência nesse vácuo, como mostra os Le Pen, na França, o Tea Party, nos EUA, e uma ampla gama de fascistas em ascensão nos países nórdicos e do leste europeu.

A radicalização conservadora da classe média brasileira — localmente temperada pelo fermento golpista — reflete em certa medida esse mesmo caldo de cultura.

O fantasma da espiral descendente é o seu leme.

Escola pública de qualidade, transporte barato e eficiente, moradias sociais, saúde pública de reconhecida competência formaram no pós-guerra europeu um substrato de estabilidade, capaz de afastar assalariados e classe média das tentações totalitárias que a incerteza atual enseja.

O ganho de produtividade subtraído aos salários em nome da eficiência industrial era compensado pela rede de proteção coletiva, ancorada em uma tributação mais justa de todo espectro da riqueza.

A inexistência desse horizonte empurra o subconsciente da classe média a uma disjuntiva: aderir ao apartheid explícito ou regredir.

Sem falar a essa encruzilhada dos setores de renda média, será cada vez mais difícil a uma sigla progressista romper o cerco ideológico que a impede de ser ouvida pelo conjunto da sociedade.

O crescimento contagiante da candidatura do social democrata Bernie Sanders, nos EUA, que disputa com Hillary Clinton a indicação dos democratas à corrida presidencial, traz um sopro de esperança a essa equação.

O fenômeno Sanders consiste em falar aos ‘desiguais’ com uma mesma proposta: uma sociedade de serviços públicos dignos e eficientes para todos.

Os mais pobres, naturalmente.

Cerca de 47 milhões de pessoas encontram-se nessa categoria nos EUA — uma em cada cinco crianças, no país mais rico da terra.

Mas não só a eles.

A classe média espremida pela hipoteca, o desemprego, a descrença no futuro, o desamparo diante da velhice, a humilhação familiar e individual passou também a prestar atenção as suas palavras.

Sobretudo, os seus filhos.

Nas prévias dos democratas em Iowa, Sanders teve nada menos que 84% dos votos na faixa dos eleitores entre 17 e 29 anos.

Um ponto fora da curva?

Tudo indica que não.

A juventude ‘apática’, ‘apolítica’, ‘desligada dos partidos’, ‘indiferente aos velhos paradigmas de direita e esquerda’, como diz a sociologia conveniente de Marina Silva & FHC, que se atirou agora de corpo e alma na campanha de Sanders, é irmã histórica daquela que no ano passado, com igual entusiasmo, deu o comando do trabalhismo britânico a um velho socialista, Jeremy Corbyn

Todo o planeta pulsa a saturação da mais lenta, errática e incerta recuperação de todas as crises vividas pelo capitalismo do século XX até agora.

Desafios econômicos, sociais, ambientais e sanitários — a exemplo do aquecimento global e do zika vírus agora no Brasil — cobrarão cada vez mais respostas cuja eficácia técnica terá que repousar na repactuação política das formas de viver e de produzir, e contar com indispensável mobilização da sociedade.

Nada mais distante disso do que o fermento de preconceito, ódio de classe e desmonte do aparato público com o qual a restauração neoliberal pretende pavimentar a sua volta ao poder no Brasil.

O medo egoísta da classe média é o seu veículo.

Quem acha que não há nada a fazer sob o domínio do capitalismo desregulado do século 21, e pretende insistir no celofane da indiferenciação programática, abraçando reformas que o mercado exige, deveria atentar para o discurso simples e ao mesmo tempo empolgante de um sexagenário social-democrata norte-americano.

Saul Leblon
No Carta Maior
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Arquiteto do Triplex dos Marinhos conta em vídeo como foi a encomenda


Num vídeo, o arquiteto Márcio Kogan fala da já célebre Paraty House, o triplex da família Marinho que afrontou as leis ambientais.

Radicado em São Paulo, detentor de vários prêmios, ele conta que recebeu um convite para ir ao Rio para discutir um projeto.

Era a Paraty House.

O mais revelador é que ele conta que inicialmente falou numa casinha incorporada à paisagem.

A resposta, segundo ele, foi definitiva. Se ele voltasse a falar disso, estava “demitido”.

O trecho em que Kogan fala da PH está no vídeo abaixo.



No DCM
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Caruso desafina

As caricaturas do chargista afinam-se à perfeição com a linha golpista da mídia nativa

Nus como os perseguidos pela Inquisição
Em meados de janeiro, o cartunista Chico Caruso, de O Globo, fez uma das mais agressivas charges políticas de tantas assinadas por ele. Em sintonia fina com a linha conservadora do jornal, de tenaz oposição aos governos petistas, ele atacou a Carta Aberta assinada por 104 advogados redigida em reação ao “desrespeito a direitos e garantias fundamentais dos acusados” ocorrido na Operação Lava Jato.

Em oposição aos argumentos do manifesto, o festejado Caruso foi além da referência aos signatários e lambuzou toda a categoria. Jogou lama nos advogados e os rebaixou literalmente à condição de bandidos.

A Ordem dos Advogados do Brasil ficou calada. A seccional do Rio reagiu. Rebateu com cartum de Aliedo no qual é lembrada a luta de advogados pela democracia e pela liberdade de expressão e, também, pelo direito de qualquer um de “dizer tolices”.

As caricaturas de Caruso têm sido parte integrante da linha golpista adotada hegemonicamente pela maioria maciça da imprensa brasileira. Esse comportamento de chargistas não é novidade.

Charge-da-OAB
A OAB do Rio de Janeiro rebateu a charge de Caruso
Em 1964, por exemplo, quase todos reagiram de acordo com a linha editorial dos mesmos jornais de hoje — O Globo, a Folha e o Estadão —, opositores do discurso progressista de João Goulart. Emparedaram o presidente, facilitados pelo conflito da Guerra Fria.

Alguns cartunistas por oportunismo, outros por ideologia. Ocultavam-se, então, no discutível princípio de que o intuito do desenho é o humor. Mas, se o humor faz rir, faz também pensar. Ao fim e ao cabo, os humoristas entraram em luta contra a democracia e terminaram dando apoio aberto ao golpe civil-militar. A honrosa e conhecida exceção coube ao cartunista Sergio Jaguaribe, o Jaguar.

Hoje em dia não dá mais para enganar. Que cada um pense como quiser. Mas tem de se expor.

No caso de Caruso, a agressividade política emergiu com mais força a partir do julgamento dos réus do chamado “mensalão”, no Supremo Tribunal Federal. A partir daí ele assumiu um papel mais opinativo e colérico no consagrado rastro do ódio de classe. O discurso do cartunista é interpretado pelo professor Wedencley Alves como “punitivo” e convergente com as “práticas de humilhação dos réus”.

Alves, doutor em Linguística pela Unicamp, analisou charges de Caruso que, paralelas às decisões do STF, eram estampadas diariamente na primeira página de O Globo. Nelas os ministros estão com as costumeiras togas e os réus são despidos pelo cartunista. A nudez dos réus não é dissonante e pode ser identificada ao longo da história.

Alves explica: “A condenação parajurídica e a nudez sempre andaram juntas. Dos castigos medievais à Santa Inquisição; da escravidão aos julgados pelo tráfico aos torturados nas salas do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), os algozes sempre deixaram nuas suas vítimas”.

Punições execráveis como essas, mesmo sendo estampadas em desenhos, não ocorrem sem autorização superior.

Maurício Dias
No CartaCapital
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A Globo perde (sempre) no oitavo round

Lula guarda o Golpe que vai simbolizar a carreira

Na lona, de calção vermelho, o Ali Kamel

De Edinho Barbosa, marqueteiro do PT ao Estadão:
"Achei o presidente sereno e tranquilo, muito Cassius Clay contra George Foreman, na luta do Zaire. Respirando, esperando o momento, entendendo que o processo precisa rodar, muito consciente de que não existe materialidade de práticas ilícitas nas investigações contra ele. Até comentei: 'Ô, presidente, achei que ia encontrá-lo mais preocupado'. Ele disse: 'Estou chateado, né, velho, família, filhos, amigos...'. O Lula é o Cassius Clay da caatinga. Está muito chateado, é claro, porque é incômodo você tomar tanta porrada".
Em 1974, em Kinshasa, capital do então Zaire (hoje República Democrática do Congo) realizou-se a luta tira-teima entre os pesos pesados Cassius Clay — depois Muhammad Ali — e George Foreman.

Foi uma genial jogada de marketing do controvertido empresário Don King: realizar a luta no Congo e chamá-la de "Rumble in the Jungle" — estrondo, barulho na selva!

O escritor Norman Mailer cobriu o evento e escreveu antológico "A Luta":
"(Quando faltavam vinte segundos para o fim do oitavo round), Ali atingiu Foreman com uma combinação de golpes tão rápidos quanto os que deu no primeiro round. Porém, mais fortes e em sequência mais rápida. Foreman se deu conta de que estava em perigo e começou a procurar sua última proteção. O adversário estava atacando. E não havia (como nos rounds anteriores) cordas nas costas do oponente. O eixo da sua existência tinha sido revertido. Era ele nas cordas, agora. Então, um enorme projetil, exatamente do tamanho de um punho numa luva, penetrou no meio da mente de Foreman — foi o melhor golpe da noite deslumbrada. O golpe que Ali reservou para cingir uma carreira." (Traducão irresponsável de PHA)
Para assistir à luta memorável:



Em tempo: Marcos Coimbra, na Carta Capital, já tinha, a seu modo, descrito como, no oitavo round, o Lula esmurra a Globo ...

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Neto de João Goulart é parado em blitz, faz o teste do bafômetro e dá exemplo. Viu Aécio?

Christopher Goulart, Senador suplente pelo PDT/RS, relatou em sua página do Facebook a abordagem a que foi submetido por uma operação da Empresa Pública de Transporte e Circulação de Porto Alegre (EPTC).

O neto de joão Goulart fez o teste do bafômetro e deu um exemplo de cidadania a todos.

Christopher ainda parabenizou o trabalho da EPTC, que fez a operação em conjunto com o Detran, e deixou um recado:

"Álcool e direção não combinam.
Então, vale sempre relembrar: Se beber não não dirija".

O irmão de Christopher — João Alexandre — que já foi entrevistado pelo Debate Progressista, comentou a publicação:

"Diferentemente de muitos políticos que se valem de "carteiraços" aqui está meu irmão Christopher que de boa passou tranquilamente pelo bafómetro em uma blitz da Balada Segura aqui em Porto Alegre.
Quem não deve não teme, basta só andar na legalidade!
Parabéns Christopher Goulart!".

Lucas Ponez
quinta-feira, 11 de fevereiro 2016

No Instituto João Goulart
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Samsung alerta clientes para não discutir informações pessoais na frente de smart TV’s

Parece obra de ficção de George Orwell, mas não é. A empresa Samsung confirmou que seus conjuntos de “smart TV’s” estão ouvindo cada palavra de seus clientes. A companhia os alertou para não falar sobre a informações pessoais enquanto estiver perto dos aparelhos de TV.


A empresa revelou que o recurso de ativação por voz em suas TVs inteligentes irá capturar todas as conversas próximas. Os aparelhos de TV podem compartilhar as informações, incluindo dados sensíveis, com a Samsung, bem como empresas terceirizadas.

A notícia vem depois de Shane Harris, no The Daily Beast, apontar uma linha preocupante na política de privacidade da Samsung: “Por favor, esteja ciente de que, se suas palavras ditas próximas de sua TV incluir informações pessoais ou confidenciais, essa informação estará entre os dados capturados e transmitidos a terceiros”.

A Samsung emitiu nota com um novo comunicado esclarecendo como o recurso de ativação por voz funciona. “Se houver consentimento para o recurso de reconhecimento de voz, tais dados são fornecidos a um terceiro durante uma busca de voz solicitado”, disse a empresa. “Nisso, os dados de voz são enviados para um servidor, que procura o conteúdo solicitado e em seguida, retorna o conteúdo desejado para a TV”.

A empresa acrescentou que ela não mantém ou vende os dados de voz, mas não revelou o nome da empresa terceirizada que traduz a fala dos usuários.
Cena do filme adaptado no romance de George Orwell, “1984”?—?a trama mostra como uma sociedade moderna em plena vigilância funcionaria
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Ode ao burguês


Mário de Andrade
PAULICÉIA DESVAIRADA (1922)

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!

A digestão bem feita de São Paulo!

O homem-curva!, o homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro,italiano
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! Os condes Jões, os duques zurros!
que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os ” Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará sol? Choverá? Arlequinal!

Mas á chuva dos rosais

o extâse fará sempre o sol

Morte á gordura!

Morte ás adiposidades cerebrais

Morte ao burguês mensal,
ao burguês-cinema! ao burguês-tíburi!
Padaria suíssa! Morte viva ao Adriano!
“- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
– Um colar… – Conto e quinhentos!!!
mas nós morremos de fome ! “

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!

Oh! Cabelos nas ventas ! Oh! Carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte á infâmia!

Ódio á soma! Ódio aos secos e molhados!

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos
cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico

Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

No Desacato
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Líder do PCdoB é assassinado em São Domingos do Araguaia, no PA

Mais uma liderança pelos direitos à terra foi assassinada no Pará. Luiz Antônio Bonfim, de 45 anos, era presidente do PCdoB e também estava à frente de uma ocupação de sem terra na comunidade de Brejo Grande do Araguaia. Ele foi assassinado na sexta-feira (12), em São Domingos do Araguaia, sudeste do estado.

Luiz defendia a desapropriação de áreas para reforma agrária na região. Ele foi morto a tiros na cabeça enquanto comprava pão em um estabelecimento da cidade. Mas a polícia, por enquanto, afirma que não há evidências de crime ligado à questão agrária.

Segundo as investigações, dois motoqueiros chegaram no local e dispararam vários tiros contra Luiz. Os motoqueiros fugiram logo depois do crime. O caso foi registrado na Delegacia de São Domingos do Araguaia. Em nota, a liderança do partido no Pará cobrou uma apuração rigorosa e a prisão dos criminosos.

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Arrependidos

Não se desespere. Se a humanidade lhe parece desprovida de caráter e autocrítica, movida pela ganância e a cupidez, odienta, suja, podre, nojenta e má, sem nada que a redima, confie em outra característica humana, que é o arrependimento.

É preciso acreditar que, cedo ou tarde, as pessoas se arrependem do que eram ou fizeram e se retratam, e podemos voltar a confiar no ser humano. Temos muitos exemplos disso à nossa volta. Sim, bem aqui, neste país que, a julgar pelo noticiário, chafurda num atoleiro moral sem precedentes.

Na própria operação Lava-Jato, que desnuda diariamente as mazelas brasileiras, temos tido casos de remorso que reacendem nossas esperanças. Grandes empresas, acusadas de comprar contratos e vantagens com propinas para políticos e partidos, arrependeram-se e pedem leniência para poderem, modestamente, continuar a trabalhar.

Em troca, prometem devolver o dinheiro desviado nos casos investigados — não, claro, o lucro produzido em muitos anos fazendo a mesma coisa sem chamar atenção, o que já seria demais — e fazer penitência. Duas ave-marias e três padres-nossos e não se fala mais nisso. Que bonito.

Há outros exemplos edificantes. Um dos delatores da operação Lava-Jato fez uma delação premiada, arrependeu-se dela e fez outra, desmentindo a primeira. A primeira não agradou aos investigadores; a segunda, sim.

Porque, além de tudo, veio abençoada pela bela virtude do arrependimento. Que se saiba, o delator repetente continua delatando, em homenagem ao seu remorso exemplar.

Lula e o PT, o segundo partido mais citado nas investigações sobre propinas (o primeiro é o PP, cujo envolvimento, estranhamente, não parece interessar muito aos investigadores e ao noticiário), têm dado mostras de arrependimento, ainda não explícito mas bastante promissor.

Talvez um remorso mais evidente pelos seus erros (cinzas sobre a cabeça etc.) ajude a salvar o PT. E agora temos uma confissão de remorso surpreendente, partindo do PSDB, que, se imaginava, não precisava fazer penitência porque nunca pecara.

O deputado baiano Antonio Imbassahy, novo líder do partido, reconheceu que o PSDB optou por sabotar o ajuste fiscal e cometeu o que chamou de “outras extravagâncias” com a única intenção de atrapalhar o governo, mesmo prejudicando o país.

O Imbassahy não pede desculpa ao país, mas promete que a irresponsabilidade não se repetirá porque “não cabe à oposição fazer coisas malucas”. Ou seja, quando perdeu a eleição, o PSDB ficou maluco, mas já passou.

E o Imbassahy se arrependeu, gente. Há esperança.

Luís Fernando Veríssimo
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O condomínio Solaris pode ter sido o Riocentro da Lava Jato


A operação descobriu um elefante — a Mossack Fonseca — e agora não sabe como escondê-lo para não comprometer os Marinho.

Está ficando cada vez mais interessante o jogo da Lava Jato.

As novas peças do tabuleiro mostram uma reviravolta no chamado modus operandi da Lava Jato, uma inversão total da estratégia original, de cobrir a operação com o manto do legalismo e da isenção.

Fato 1 — na semana passada, a decisão “inadvertida” de Sérgio Moro de vazar informações sobre um inquérito supostamente sigiloso sobre o sítio de Atibaia.

Fato 2 — no rastro da porteira aberta, procuradores e delegados vazam para a revista Veja a relevante informação sobre as caixas de bebida de Lula, transportadas de Brasília para o sitio em Atibaia. Ou seja, uma armação que coloca em risco a imagem de isenção da Lava Jato e que resulta em um factoide que despertou reação indignada até de juristas inicialmente a favor da operação, como Walter Maierovitch, um ícone na luta contra o crime organizado, por meramente ser uma invasão da vida privada de Lula.

Fato 3 — O procurador Carlos Fernando dos Santos, o mais imprudente dos procuradores da Lava Jato, em entrevista ao Estadão escancara o viés partidário da operação. “A Força Tarefa Lava Jato ainda pretende demonstrar além de qualquer dúvida razoável que todo esse esquema se originou dentro das altas esferas do Governo Federal”.

Se acha assim, que investigue. Qual a razão para sair apregoando suspeitas?

O bordão anterior de que “a Lava Jato investiga fatos, e não pessoas” é substituído por insinuações graves contra as “altas esferas do Governo Federal”, modo pouco sutil de se referir a Lula.

Qual a razão desse açodamento? O que teria ocorrido internamente na Lava Jato, para essa mudança no modus operandi?

Há uma articulação nítida entre três operações: a Lava Jato, a Zelotes e a do Ministério Público Estadual de São Paulo. As três visam pegar Lula.

Ao mesmo tempo, aparentemente houve alguma perda de controle da Lava Jato sobre seus vazadores, que se comportam como os “radicais, porém sinceros” do regime militar, expondo questões altamente delicadas no modo de atuação de Moro e seus rapazes.

O caso Solaris

O pepino começou com o caso Solaris, o edifício que tem o tal tríplex que pretendem atribuir a Lula.

Na investigação sobre o Bancoop, o MPE de São Paulo já tinha levantado o fato de alguns apartamentos do edifício estarem em nome de uma lavanderia, a Murray Holding LLC.

A Lava Jato julgou que estaria ali a pista para pegar Lula já que os apartamentos não vendidos do Solaris teoricamente deveriam ser de propriedade da OAS. Mesmo já estando sob investigação do MPE, a Lava Jato se apropriou do tema e tratou de adubar o terreno com a parceria com veículos, especialmente da Globo.

Acompanhem a cronologia para entender o pepino que a Lava Jato arrumou para si própria:

27/01/2016 — a Lava Jato vaza para a revista Época (das Organizações Globo) a informação de que vários apartamentos estavam em nome da Murray Holding, empresa da holding panamenha Mossack Fonseca. No dia 22 de janeiro, dizia a matéria, a Polícia Federal captou uma conversa telefônica entre Carolina Auada e seu pai Ademir Auada, representante da Mossack no qual ele diz estar picando papéis. Segundo a revista, a queima de arquivos começou depois que a reportagem tentou entrevistar uma ex-funcionária da Bancoop, Nelci Warken, que teria transferido imóveis para a Murray (http://glo.bo/1TfPals).

27/01/2016 — chegam à Superintendência da Polícia Federal Ricardo Honório Neto, Renata Pereira Brito, com prisão temporária decretada. Outras pessoas ligadas à Mossack não tinham sido encontradas. Segundo a PF, Renata Brito seria funcionária de confiança da Mossack no Brasil. E Nelci Warken apresentada como responsável por um tríplex no Condomínio Solaris. A 22a Operação da Lava Jato mobilizou 80 policiais. Segundo o G1, das Organizações Globo, entre os crimes investigados estão corrupção, fraude, evasão de divisas e lavagem de dinheiro”. (http://glo.bo/1VcuJ87)

28/01/2016 — o Globo traz uma excelente reportagem mostrando as ligações da Mossack com ditadores e delatores. Segundo a reportagem, a Mossack é acusada de financiar ações de terrorismo e corrupção no Oriente Médio e na África. Na relação de prioridades das polícias mundiais, o crime de terrorismo ocupa o primeiro lugar. The Economist tratou a empresa como “líder impressionantemente discreto da indústria de finanças de fachada do mundo”. Era uma “fábrica de offshores à disposição de empresários e agentes públicos interessados em ocultar bens no exterior”. Na lista de clientes havia o ditador sírio Bashar Al-Assad, o líbio Muammar Gaddafi, o presidente do Zimbabwe Robert Mugabe e três figuras centrais da Lava Jato, Renato Duque, Pedro Barusco e Mário Goes.

28/01/2016 — No mesmo dia, o DCM publica uma matéria sobre a casa da família Marinho em Parati (http://bit.ly/1TfQ0yy). Recupera uma reportagem da Bloomberg de 8 de março de 2012 (http://bloom.bg/242ZsdF). A reportagem narra os crimes ambientais da família Marinho.

Duas declarações chamaram a atenção dos repórteres da Bloomberg:

Da fiscal do CMBio Graziela Moraes Barros: “Muitas pessoas dizem que os Marinhos mandam no Brasil. A casa de praia mostra que a família certamente pensa que está acima da lei”.

De Fernando Amorim Lavieri, procurador que passou três anos batalhando contra os crimes ambientais na região: “Os brasileiros ricos conseguem tudo”.

A reportagem pretendia apenas expor os crimes ambientais dos Marinho. Mas abriu uma caixa de Pandora, como se verá a seguir.

29/01/2016 — A revista Época publica matéria alentada dando mais foco nos negócios nebulosos da Murray. O título já mostrava qual o alvo perseguido: “Nova fase da Lava Jato mira na OAS, mas pode acertar Lula - MP diz que todos os apartamentos do condomínio onde ex-presidente tem tríplex reservado serão investigados” (http://glo.bo/1TfPals).

Segundo a revista, “o foco na Mossack é outro passo grande dado pela Lava Jato. Criada em 1977 no Panamá, a Mossack Fonseca tem representações em mais de 40 países. É famosa pela criação e administração de offshores, frequentemente usadas como empresas de fachada. O cumprimento do mandado de busca na sede brasileira da Mossack só se encerrou na quinta-feira — peritos viraram a madrugada para baixar e-mails e documentos armazenados em serviços de arquivos virtuais, pelo servidor central da empresa. A coleta de provas no local foi igualmente proveitosa. Além das centenas de offshores nas mensagens e documentos eletrônicos, os policiais arrecadaram papéis com o nome de clientes, cópias de passaportes, comprovantes de endereço e nomes da offshore criada. Um pacote completo. As apreensões devem motivar algumas centenas de inquéritos e levar a Operação Lava Jato para um gigantesco canal de lavagem de dinheiro. A apreensão poderá gerar filhotes por anos”. Como diriam os garimpeiros, a Lava Jato “bamburrou” — isto é, descobriu uma verdadeira mina de ouro para suas investigações.

31/01/2016 — O Estadão reforça as informações sobre a Mossack Fonseca, informando que autoridades norte-americanas investigam a Mossack por conta de dois argentinos acusados de desviar dinheiros de estatais argentinas nos governos Nestor e Cristina Kirchner. Naquele dia, Moro renovou a prisão temporária de Nelci mas libertou Ricardo Honório Neto e Renata Pereira Brito,

De repente, a Mossack some do noticiário, que passa a ser invadido por notícias de pedalinho, barcos de 4 mil reais.

Uma pesquisa nos sistemas de busca da Folha, Estadão e Globo mostra que as últimas menções à Murray e à Mossack são de 1o de fevereiro.

04/02/2016 — O Edifício Solaris sai completamente do foco da Lava Jato. A Polícia Federal solicita ao juiz Moro para ampliar as investigações do IPL (Inquérito Policial) que investiga a suposta ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro da OAS. A solicitação de ampliar o escopo para outras empresas revelava que havia acontecido algo novo, que fez a Lava Jato abandonar o tríplex para se concentrar no sítio em Atibaia.

05/02/2016 — Moro manda libertar a publicitária Nelsi Warken e o empresário Ademir Auada, que havia sido detido sob suspeita de estar destruindo documentos. A justificativa de Moro é surpreendente: "Apesar do contexto de falsificação, ocultação e destruição de provas, (...) na qual um dos investigados foi surpreendido, em cognição sumária, destruindo quantidade significativa de provas, a aparente mudança de comportamento dos investigados não autoriza juízo de que a investigação e a instrução remanescem em risco", escreveu ele ao justificar a soltura (http://bit.ly/2430pmr). Ora, a possibilidade de queima de arquivos e de atrapalhar as investigações foram o mote para a manutenção de todas as prisões preventivas. Como abre mão desse argumento justamente para um sujeito flagrado eliminando documentos? E aceita a tese da "aparente mudança de comportamento dos investigados" para libertá-lo.

A justificativa colide com informações da própria Lava Jato repassadas à revista Época: “Clientes da panamenha Mossack Fonseca vão ser investigados para averiguar se faziam parte do esquema de corrupção na Petrobras ou se cometeram outros crimes. (...) A empresa panamenha Mossack Fonseca também foi alvo de buscas, porque foi ela quem criou a offshore Murray. Mas representantes da Mossack Fonseca atrapalharam os policiais e deletaram arquivos guardados na nuvem da empresa”.

Á luz das informações divulgadas até então, não havia lógica na decisão de Moro.

09/02/2016 — No dia 4 Moro autorizou a PF a ampliar a investigação do sítio em Atibaia, que deveria ser sigilosa. No dia 9 o próprio Moro liberou “inadvertidamente” a informação e os dados do novo inquérito.

12/02/2016 — reportagem de Helena Sthephanowitz, no RBA (Rede Brasil Atual), informa que a mansão dos Marinho, em Paraty, é de propriedade de uma offshore, a Vaincre LLC, controlada pela mesma Murray Holdings LLC, a empresa dona dos apartamentos em Guarujá (http://bit.ly/1SoRhEw) e que pertence à Mossack Fonseca.

13/02/2016 — o Viomundo, do Luiz Carlos Azenha, completa a informação com um levantamento minucioso das ligações da Mossack Fonseca com a mansão dos Marinho em Paraty (http://bit.ly/1SoRnMA).

Era a peça que faltava para entender esses movimentos erráticos da Lava Jato. Aparentemente foi para impedir que viessem à tona os atropelos dos Marinho com a Mossack Fonseca.

O procurador Carlos Fernando e seus colegas, os delegados federais e o juiz Sérgio Moro trocaram a possibilidade de desvendar o submundo da lavagem de dinheiro no país pelos móveis que a OAS comprou para o sítio de Atibaia. Pois, como enfatiza o procurador, a Lava Jato não investiga pessoas, mas fatos.

Em recente entrevista ao Globo, o procurador Carlos Fernando desabafou: “Sempre soubemos que a longo prazo as elites vai se compor de maneira a reduzir os prejuízos que tiveram com essas operações”. O desfecho do caso Mossack Fonseca é um belo CQD (Como Queríamos Demonstrar).

Como não existe nada perfeito, assim como no caso do Riocentro a Lava Jato liberou seus radicais para explodir petardos em Guarujá. Por açodamento, explodiram em Paraty.

No Riocentro, o coronel Job conseguir montar um inquérito isentando a todos.

Em tempo de redes sociais, impossível.

Luís Nassif
No GGN
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Na TV

O filme era uma daquelas comédias “para toda a família” que os americanos fazem melhor do que ninguém. Vi na TV até o final só porque o controle remoto estava longe e deu preguiça de ir pegá-lo para mudar de canal. E o final do filme era uma Natividade, encenada no auditório da escola por crianças, todas adoráveis. Maria, José, o bebê na manjedoura, os reis magos com suas barbas postiças, etc.

A representação acabava com Maria dirigindo-se à plateia:

– Foi assim que veio ao mundo o meu filho Jesus.

José a corrige:

– O NOSSO filho Jesus....

Maria:

– É o que você pensa...

O humor irreverente pode aparecer onde menos se espera, até para toda a família.

Donald J. Jimmy Fallon apresenta o Tonight Show na TV americana. É um apresentador competente, um pouco empolgado demais, mas engraçado. Ele tem feito imitações do candidato a candidato à presidência dos Estados Unidos Donald J. Trump, o que não é muito difícil, o Trump de verdade já é uma piada. Na outra noite, o “Trump” interpretado por Fallon explicou o significado do “J” no seu nome:

– E de “jênio”.

Amigos. O filme do Ettore Scola sobre Fellini, reapresentado na TV há dias, tem várias coisas saborosas, a escolher. Mistura tomadas reais e encenadas de Fellini e seu trabalho e da amizade dos dois diretores desde o tempo em que Scola era um chargista de jornal e Felllini começava no cinema, inclusive fazendo pontas como ator. Há uma sequência fantástica dos testes que Fellini fez para escolher o ator que faria o papel de Casanova. Os testados foram Alberto Sordi, Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman, cada um improvisando para Fellini ver, um mais inseguro e canastrão do que o outro. Curiosamente, Fellini nem pensou em Marcello Mastroianni — seu alter ego idealizado — para fazer Casanova, que acabou sendo Donald Sutherland. O próprio Scola desagravou Mastroianni e o colocou como Casanova no seu filme A Noite de Varennes. Outra ótima cena é a da filmagem da Anita Ekberg entrando na Fontana de Trevi, uma das sequências inesquecíveis de A Doce Vida. Fellini é apresentando a “um coronelo” que se declara extasiado por estar conhecendo “o grande Rossellini”... Nota biográfica: eu estava em Roma na ocasião e assisti a parte da filmagem da cena na Fontana. Não, não apareço no filme. Que termina com o velório de Fellini, seu caixão ornamentado cercado de guardas em uniforme de gala, num dos estúdios da Cinecittà. Mas na versão do Scola, Fellini foge do seu velório. Sai correndo, perseguido pelos guardas, e acaba num carrossel, cercado pelas suas lembranças e pelos seus personagens. Com música, claro, do Nino Rota.

Luís Fernando Veríssimo
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Em defesa do rigor

Os donos e dirigentes das grandes empreiteiras começavam a ver a Folha pela página A5. Em várias delas, eu soube também, havia encarregados de examinar todos os pequenos anúncios, todos os dias. Procuravam, no lugar então fixo desta coluna hoje volátil, e também em possíveis anúncios cifrados, a revelação da fraude na próxima grande licitação de obra pública. Foi preciso usar outros jornais, com modalidades diferentes, e um desequilibrado dirigente do "Globo" até me prometeu, literalmente, acabar comigo, porque usei os classificados do jornal — não para provocar o neurótico, claro, mas pela urgência de usar o jornal que encerrava mais tarde a recepção de anúncios.

Foram muitas fraudes bem arquitetadas entre governo e empreiteiras, e no entanto frustradas na Folha. Em jogo, dinheiro público equivalente a vários bilhões de dólares. Neles incluídas, por exemplo, todas as licitações do metrô carioca no governo Moreira Franco, forçado a anulá-las.

Foram também vários processos contra mim, dois inquéritos policiais (um da Polícia Federal, a mando do diretor Romeu Tuma, outro da polícia fluminense, a mando de Moreira) e uma CPI no Senado. Nenhuma condenação. Fui defendido por alguns dos mais brilhantes advogados, sem ser cobrado em um centavo sequer. Palavras de Márcio Thomaz Bastos: "Defender você foi serviço público".

Por si mesmos, esses fatos não têm mais interesse. Mas têm uma função. Atestam que advogados aptos a ganhar muito bem na defesa das ricas empreiteiras, alguns procurados por elas, provaram não ser meros mercenários. Entre esses advogados, há quem tenha clientes na Lava Jato. E esteja entre os inconformados com alguns procedimentos de procuradores e do juiz Sergio Moro. Suas ponderações, formais ou pessoais, porém, são recebidas com menosprezo, quando não com mal disfarçada arrogância. Tal atitude não é rara na magistratura e no Ministério Público, mas se a Lava Jato ostenta a pretensão de estar corrigindo costumes inadmissíveis, só pode ter autoridade moral se não incorrer, ela própria, em alguns deles.

A carta pública da centena de advogados foi emocional, sim. Mas as questões que levantou eram infundadas, a ponto de só merecerem da Lava Jato umas poucas e duvidosas ironias? Tanto não era o caso, que logo viria a reclamação do ocorrido ao depoimento do delator premiado Paulo Roberto Costa. Sua frase inocentando um acusado, com ênfase e convicção, foi omitida na transcrição e substituída por uma afirmação frágil.

A meio do Carnaval, a Folha trouxe respostas de Roberson Henrique Pozzobon, procurador integrante da Lava Jato, a diversos questionamentos à operação. O problema com a frase de Paulo Roberto, a seu ver, é "tempestade em copo d'água", decorrente de releitura equivocada de advogado de defesa. Não houve erro de leitura nem de releitura: o texto da Lava Jato é muito claro. O erro foi de redação na Lava Jato, precedido de erro ético, ou mais, muito grave.

A percepção de que prisões duradouras são feitas como coação para obter delações premiadas é, segundo Pozzobon, "uma falácia gigante". Não. É uma evidência. Com repetições numerosas. Evidência que os procuradores e o juiz da Lava Jato não demonstraram ser ilusória, antes fortalecendo-a com novas repetições.

Pozzobon recupera o argumento de que "mais de 70% dos acordos celebrados [de delação premiada] com réus da operação ocorreram enquanto estes estavam soltos" (texto da Folha). Os 70% soltos não provam a inexistência de coação sobre os 30% que estavam presos. E nada prova que, soltos, muitos dos 70% não se entregaram ao acordo por medo à ameaça de serem presos.

Já disse Sérgio Moro que os advogados reclamam por interesse dos seus clientes. Óbvio, não? Mas enganoso. Na defesa de procedimentos judiciais corretos, o suspeito, o acusado e o condenado são circunstanciais, são apenas instrumentos. O que é defendido é o Estado de Direito, é a democracia, é a Constituição. É cada cidadão, cada um de nós.

O rigor nos procedimentos não impede e nem mesmo dificulta investigações e a condenação de quem deva tê-la. O contrário do rigor foi o que começou como mau uso de poder, na Petrobras, e levou à criação da Lava Jato.

Janio de Freitas
No fAlha
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