11 de fev de 2016

O segredo do sucesso instantâneo de Bernie Sanders


Bernie Sanders é arrebatador, simplesmente.

Mas de onde vem tamanha força para transformá-lo de uma nota de rodapé nas eleições americanas de 2016 num potencial futuro presidente?

No centro de tudo está o seguinte: Sanders vai ao âmago da questão.

O câncer dos Estados Unidos, e do mundo, martela ele, é a desigualdade.

Foi o mesmo discurso enfático que fez do Papa Francisco uma personagem grandiosa da cena contemporânea mderna, ao contrário de tantos antecessores irrelevantes.

O que acontece no Brasil é o seguinte. Pela mídia, que é a sua voz, a plutocracia ludibria a sociedade com a falácia de que o mal maior brasileiro é a corrupção.

Com isso, você evita que se debata a desigualdade — da qual os plutocratas se beneficiam amplamente.

É um golpe sujo.

O que Sanders demonstra com suas palavras enérgicas e viris é que não existe nada mais corrupto do que um sistema em que a política é controlada pelos bilionários, por meio de financiamentos de campanhas pelo big business.

Esta é a real corrupção.

E é a pior delas, porque a roubalheira — a transferência de dinheiro dos pobres para os muito ricos, ou dos 99% para o 1% — se dá de forma legal. Você cria leis que favorecem a plutocracia em detrimento dos demais.

Um pequeno exemplo são os paraísos fiscais. O que antes seria motivo de escândalo e prisão por força de sonegação se torna legal com a introdução de legislações permissivas e abjetas.

Um dinheiro que construiria escolas, hospitais, estradas e por aí vai acaba na conta de bilionários gananciosos.

Acontece nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, na Alemanha — e também no Brasil.

Elimine os financiamentos do big business e você progredirá enormemente no enfrentamento da iniquidade.

Não elimine — e mil Lavas Jatos não levarão a nada exceto atender a propósitos políticos e partidários.

Na campanha de Sanders, o valor médio das contribuições de campanha é de 27 dólares, pouco mais de 100 reais. Grandes doações não são aceitas.

Examine o caso brasileiro.

O símbolo maior da corrupção, Eduardo Cunha, é filho do financiamento. Cunha não arrecada apenas para si nas campanhas, mas para dezenas de outros políticos igualmente corruptos, seus paus mandados.

Com isso, ele transformou a Câmara de Deputados num balcão de comércio. Comandou a aprovação de medidas sobre medidas que atendiam exclusivamente o interesse da plutocracia, como a terceirização.

Ao avisar que com ele sequer se discutiria a regulamentação da mídia, conquistou o apoio dos grandes grupos jornalísticos e pôde fazer o que fez — roubar, mentir, escarnecer dos brasileiros — em regime de amplo sossego, até as autoridades suíças entrarem em cena com as provas avassaladoras dos seus crimes.

É contra esse estado pútrido de coisas que Bernie Sanders se ergue nos Estados Unidos. A imprensa corporativa tentou ignorá-lo, mas as redes sociais e a mídia digital compensaram amplamente o silêncio das grandes empresas jornalísticas.

É uma pena que, no Brasil, o PT não tenha feito o mesmo trabalho de catequização de Sanders. Não adianta apenas agir contra a desigualdade. É imperioso pregar, ou espertalhões manobram a sociedade e formam um falso consenso em torno de algo que é bom para eles, como acontece com a corrupção no Brasil.

Faltou a Lula, a Dilma e demais lideranças petistas fazer o que Sanders está fazendo agora, com fabuloso sucesso: mostrar que a verdadeira corrupção está na desigualdade.

Paulo Nogueira
No DCM
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Jornal inglês desmascara o racismo da Globo

Nayara Justino acreditou que o sonho dela se realizou quando foi selecionada como a Globeleza. O jornal The Guardian mostra como isso se tornou um pesadelo


Nayara Justino acreditou que o sonho dela se realizou quando ela foi selecionada como a Globeleza em 2013 depois de um voto público em um dos programas de televisão maiores do Brasil. Mas algumas pessoas consideram negra demais para ser uma rainha aceitável. Nayara e a sua família se perguntam que tudo isso diz sobre papeis raciais no Brasil moderno.

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A República dos hipócritas

Oh, sim, eu estou tão cansado, mas não para dizer que eu não acredito mais em você.


Cansaço.

É o sentimento que me ocorre já há algum tempo quando leio as manchetes referentes a Lula e a Lava Jato. Não há mais nada a dizer, só o mesmo ramerrão do ensopado de Lula — amigo de Lula, filho de Lula, sobrinho de Lula, tríplex de Lula, sítio de Lula, barco de Lula. Quem quiser atualize a lista.

Tudo é nada.

Agora, novamente o repetido sarcasmo do juiz Moro: o anúncio da investigação sobre Lula foi “lançado automática e inadvertidamente”. Mas, já que está, fica. Prisioneiros cumprindo pena por presunção de culpa. Prova ilícita vale, escuta em cela de prisioneiro vale e o juiz natural nada vale. Ao “supremo” é dada a prerrogativa de errar por último. E quem erra por último, ri melhor.

Novamente às favas os pruridos da consciência e o Estado democrático de direito.

Cansaço.

Lula foi presidente por oito anos, deixou o cargo há seis. Em oito anos de mandato quantos contratos foram negociados, quantos bilhões de reais estavam envolvidos? E o que se tem contra Lula? A reforma de um apartamento, a reforma em um sítio, nenhum deles de sua propriedade, e um barquinho a remo?

Depois de tantos anos é isso? E é só isso? Isso é prova de honestidade. A quem isso ainda emociona?

Cansaço.

A Lava Jato fez um belo trabalho, estabeleceu de forma didática como o financiamento privado das campanhas eleitorais era o cancro a partir do qual a corrupção generalizada é a sua metástase. A Lava Jato prendeu e processou os que corromperam, os que se corromperam e os que intermediaram a corrupção na Petrobras. Tivemos a chance de passar o Brasil a limpo. Permitimos que todo esse esforço fosse jogado fora devido à confluência do golpismo com a síndrome de abstinência de holofotes. E a Lava Jato passou a ser um bom negócio para os corruptos.

Cansaço.

Nardes, Cedraz, Eduardo Cunha. Coloque esses nomes em uma pesquisa aleatória na internet e veja quantas vezes eles aparecem associados ao termo “envolvimento em propina”. Pois, esses mesmos foram os varões Plutarco que capitanearam o processo de impeachment da Presidente Dilma. Como disse a própria presidente, em outra ocasião: ”estão todos soltos”.

Cansaço.

Youssef acusa Aécio de receber propina, Fernando Moura acusa Aécio de receber propina, Dimas Toledo está vivo e com saúde, pelo menos por enquanto, a Lista de Furnas é de domínio público. Cerveró deixa claro: 100 milhões de dólares para o governo FHC. E nada é investigado.

Cansaço.

A Operação Zelotes envolve grandes conglomerados econômicos e midiáticos e altos dirigentes do COAF – Conselho de Controle de Atividades Financeiras do Ministério da Fazenda. Bilhões de reais em sonegação de impostos, e a investigação se concentra em um patrocínio ao filho de Lula. Tratar-se-ia de um suborno pago com cinco anos de carência. Caso único em toda a história da humanidade.

Cansaço.

Por fim, as esperanças da nação se voltam para março. Então, novamente, os paneleiros de varanda gourmet. O povo branco de classe média e meia idade, em São Paulo e em Brasília, estará nas ruas pedindo “intervenção militar institucional”. Lá estarão o “vovô metralha”, o “Batman do Leblon” e a peladona “musa do impeachment” e o seu tapa-sexo.

Oh, sim, eu estou tão cansado, mas não para dizer que eu não sou o vapor barato da república de hipócritas em que você tenta transformar o meu país.



PS1: “Vapor Barato” é uma canção composta por Jards Macalé e Waly Salomão. São dela os versos que abrem este texto.


PS2: esta Oficina apoia o Movimento Golpe Nunca Mais.
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A República dos Burocratas e o Poder Político - I

http://www.maurosantayana.com/2016/02/a-republica-dos-burocratas-e-o-poder.html


Um procurador do Ministério Público, do Estado de Goiás, usando de argumentação e justificativa claramente políticas, que refletem — sem esconder apaixonada ojeriza — sua opinião a respeito do atual governo, manda tirar do ar a campanha das Olimpíadas.

Outro procurador, ligado à Operação Lava-Jato, afirma que é preciso, no contexto do trabalho realizado no âmbito da mesma operação, “refundar a República”.

Ora, não consta na Constituição Federal, que o Ministério Público, tenha entre suas atribuições, refletir a opinião pessoal — e muito menos partidária, que lhes é vetada — de seus membros, ou a de “refundar a República”.

A República, organizada enquanto Estado, fundamenta-se na Lei, e um de seus principais guardiões é, justamente, o Ministério Público, a quem cabe obedecer à Constituição Federal, até que esta, eventualmente, seja mudada em Assembleia Nacional Constituinte.

Se alguns procuradores do Ministério Público querem “refundar” a República, que, do modo que está, parece não ser de seu feitio, o caminho, em nosso atual regime, é outro:

Cabe-lhes lutar, como cidadãos, pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

E, depois, quem sabe favorecidos pela notoriedade alcançada pela espetacularização de certas “operações” em curso, abandonar a carreira e passar a exercer — o que também lhes é vetado enquanto não o façam — atividade político-partidária.

Candidatando-se, finalmente, ao posto de deputados constituintes, para mudar o texto constitucional, e, por meio deste, a Nação.

Há um estranho fenômeno, neste Brasil dos últimos tempos, que é o de que funcionários da estrutura do Estado se metam a querer tutelar politicamente a Nação, principalmente quando a atividade política lhes é — sábia e claramente — vetada pela própria carreira.

Falta-lhes mandato para fazê-lo, ou para “salvar o Brasil”, embora, aproveitando-se da criminalização geral da atividade política e de campanhas destinadas a angariar, de forma corporativa, apoio na opinião pública para suas teses — o que inclui tentar legislar indiretamente — eles continuem insistindo nisso, como se organizados estivessem em verdadeiros partidos.

Neste caminho, confundem-se — em alguns casos, quem sabe, propositadamente — alhos com bugalhos, e pretende-se transformar em crime o que não passam de atos inerentes à própria atividade política.

Esse é o caso, agora, por exemplo, do fato de a imprensa pretender transformar em denúncia a afirmação do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, em sua peça contra o Deputado Wander Loubet, encaminhada ao STF, de que Lula teria dado pessoalmente “ascendência” ao Senador Fernando Collor, sobre a BR Distribuidora, em 2009, em troca de “apoio para o governo no Congresso”.

Ora, não é possível acreditar que o nobre Procurador tenha estranhado, ou queira transformar em fato excepcional e muito menos em crime — caso isso tenha mesmo ocorrido, o que já foi desmentido pelo ex-presidente — a nomeação de membros de um ou de outro partido para a diretoria de uma empresa pública, em um regime presidencialista de coalizão.

Crime existirá — e deve ser exemplarmente punido — se for efetivamente, inequivocamente, provado, o eventual desvio de dinheiro do erário pelos que foram, então, indicados, para cargos nessa empresa.

O resto é Política, no sentido de uma prática que vem se consolidando desde que os homens começaram a se reunir em comunidade, e, em nosso território, desde as Capitanias Hereditárias, quando, em troca também de apoio político a El Rey, na Metrópole, nobres eram indicados para a exploração de nossas riquezas; passando pelo Império, em que partidos e políticos eram apoiados ou indicados pelo imperador de turno em troca de fidelidade; pela República Velha; por Getúlio Vargas e o Estado Novo; por JK à época da construção de Brasília; pelo regime militar, que nomeava até prefeitos de capitais e senadores biônicos, pelo governo do próprio Fernando Collor; pelos de Itamar Franco e de Fernando Henrique Cardoso, pelos governos de Lula e de Dilma Roussef, que não teriam como governar — sem apoio do Congresso ou de determinadas parcelas do eleitorado — se não tivessem assim agido.

Afinal, os partidos políticos existem para disputar, conquistar e ocupar o poder no Estado, para fazer obras ou levar, em troca de votos e de simpatia, por meio de projetos e programas, benefícios à população, e disputam e negociam entre si cargos e pedaços da estrutura pública para atingir tais objetivos.

Essa é a essência da Democracia — um regime imperfeito, cheio de defeitos, mas que ainda é o melhor que existe, entre aqueles que surgiram ao longo dos últimos 2.500 anos, e, fora isso, só existem, na maioria das vezes, ditaduras nuas, duras e cruas, em que a negociação é substituída pela vontade, o arbítrio e o terror dos ditadores.

Vivemos em tempos em que não basta destruir-se, institucionalmente, a Política, como se ela fosse alguma coisa à parte do país e da sociedade, e não um instrumento — o único que existe — para a busca do equilíbrio possível entre os vários setores sociais, grupos de interesse e a população.

Agora se pretende criminalizar também a prática política, como se alianças entre diferentes partidos ou a nomeação de pessoas para o preenchimento de cargos de confiança, ou a edição de medidas provisórias — destinadas a assegurar milhares de empregos em um momento de grave crise econômica internacional — fossem, em si mesmos, crimes, e não, como são em qualquer nação do mundo, atos normais e corriqueiros de negociação política e de gestão pública.

Obviamente, seria melhor que as agremiações políticas se reunissem apenas em torno de ideias, propostas e bandeiras e não de cargos, verbas, empresas, mas quem ocupa o poder tem a prerrogativa de indicar quem lhe aprouver ou contar com sua confiança e se for para se mudar isso, no Poder Legislativo, que para isso são escolhidos, por meio do voto, por seus eleitores.

O que está ocorrendo hoje é que, com a cumplicidade de uma parte da mídia, voltada para a deseducação da população quanto ao Estado e à cidadania, há funcionários públicos que, longe de se submeter ao poder político — e na ausência de votos, que não têm — pensam que foram guiados pela mão de Deus na hora de preencher as respostas dos exames em que foram aprovados, tendo sido assim ungidos pelo altíssimo para assumir o destino de comandar o país e corrigir os problemas nacionais, que não são — e nunca deixarão de ser — poucos.

A situação chegou a tal ponto de surrealismo que alguns espertos e os imbecis que os secundam na internet, parecem querer dar a impressão de que a solução para o país seria acabar com as eleições e os partidos e fazer concurso para vereadores, prefeitos, deputados, governadores, senadores, ministros do Supremo Tribunal Federal — essa última “sugestão” se multiplica por centenas de sites e redes sociais — e para Presidente da República.

Substituindo, assim — como se tal delírio fosse de alguma forma possível — a soberania popular pela “meritocracia” e o suposto saber e competência de meia dúzia de iluminados que entraram muitos deles, na carreira pública, por ter dinheiro para pagar cursinhos e na base da decoreba para passar em exames — criados por empresas e instituições terceirizadas, que ruborizariam — pelo estilo e forma como são elaborados — um professor secundário dos anos 1950.

Afinal, para parte da burocracia atual — à qual se poderia acrescentar, sem medo de exagerar no erro, um “r” a mais, do ponto de vista de seu entendimento prático e histórico do que é e de como funcionam nosso sistema político e a própria Democracia — o povo brasileiro é visto como uma massa amorfa e ignorante, que não sabe, nem merece, votar, e que dá o tom do nível intelectual e de “competência” daqueles que chegam eleitos, ao Executivo e ao Legislativo.

Tudo lindo, maravilhoso.

Se não fossem, boa parte das vezes, péssimos os serviços prestados à população por essa mesma burocracia; se os cidadãos não estivessem conscientes da importância do direito de voto de quatro em quatro anos; se o artigo primeiro da Constituição Federal não rezasse que todo o poder — mesmo o dos burocratas de qualquer tipo — emana do Povo e em seu nome deve ser exercido; se não houvesse carreiras que pagam quase 100 vezes mais do que ganha um trabalhador da base da pirâmide social; se mais de 600 funcionários concursados não tivessem sido demitidos, no ano passado, a bem do serviço público, só na esfera federal, por crimes como prevaricação, peculato, extorsão, corrupção, etc.

Afinal, para o bem da população — que pode votar sem exigir diplomas de seus candidatos — passar em concurso — por mais que pensem o contrário muitos brasileiros — não é selo nem garantia de honestidade, nem de caráter, nem de sanidade mental, nem de compromisso com o bom senso, ou com o futuro, com a soberania, o desenvolvimento e a dignidade da Nação.

Ou passou a ser isso tudo, e não fomos informados disso?


Leia também: A República dos Burocratas e o Poder Político - II
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Repórter foi ao verdadeiro triplex – o dos Marinhos

Paraíso particular: mansão triplex encravada no melhor point da Mata Atlântica
A mansão de veraneio dos herdeiros do magnata da Globo Roberto Marinho também é um triplex e também está sendo investigada pelo Ministério Público Federal, mas num processo em ritmo bem mais light e sem publicidade.

Os arquitetos que a projetaram e os engenheiros que a ergueram zombaram das leis ambientais: ela está totalmente irregular.

Das fundações ao teto, localiza-se em área desmatada de um parque federal. E parte sobre terra pública, grilada logo por quem não precisa — a família mais rica do Brasil.

A mansão tem um andar quase subterrâneo e outros dois empilhados de forma engenhosa, parece que não se tocam. Fica na baía de Paraty, na costa do Rio.

Ela foi alvo de fiscais do Ministério de Meio Ambiente (MMA) desde o início da construção, em 2008.

A batalha parecia terminada quando a Vara Federal de Angra dos Reis mandou demolir a mansão, em 2010, poucos meses depois de concluída.

Mas, os Marinhos não se curvaram à Justiça.

Seus advogados recorreram e fugiram das intimações. Eles a mantiveram em pé por seis anos e vão lutar para que fique assim até o último juiz.

Como um caso tão pequeno se arrasta no Judiciário por mais tempo do que o da Lava Jato só pode ser explicado pela nova teoria do “abuso do direito de defesa”.

A sentença da primeira instância não tem previsão pra sair, mas os desembargadores do TRF já devem estar se acotovelando pra ver quem terá a sorte de pegar o caso na segunda.

É surpreendente que o MPF não tenha deixado escapar vazamentos. Partes do processo ainda estão sob segredo de justiça. Para vê-lo, use o código 201051110009517, no site

Mamute de concreto

O terreno onde está a mansão é duas vezes maior do que o daquele sitio de Atibaia que tem aparecido no noticiário da Globo nos últimos dias.

Seu tamanho original era menor, apenas 50 mil m². Corretores da cidade disseram que os Marinhos compraram mais áreas lindeiras, para evitar que gente comum quebre a privacidade da mansão acessando por morros e costões.

A mansão é tão pesadona e forte que parece ter sido feita para durar mil anos. Tem 1.300m² de concreto, capaz de resistir a um tsunami.

Caberiam dentro dela três daqueles triplex do Guarujá — veja detalhes no site dos arquitetos.

Aviso: quem não gosta de luxo e ostentação deve evitar as fotos.

Além de estar sobre natureza morta, a mansão se projeta das pedras para o mar. Se arquitetura quer dizer alguma coisa, ela parece um navio de conquistadores, senão uma frota inteira.

Apesar de localizada na praia de Santa Rita, na costa do Rio de Janeiro, é mais conhecida no circuito dos ricos e famosos por seu nome em inglês: “Paraty House”.

A mansão é tida como jóia da arquitetura moderna tupiniquim desde a prancheta. Assim que abriu as portas para os primeiros convivas foi premiada por uma revistinha inglesa de design, a Wallpaper.

A Paraty House oferece aos seus ocupantes uma espetacular imersão na natureza intocada — quer dizer, está intocado o que eles deixaram depois de desmatar uma parte, dar uma raspada nas pedras e cortar o cocuruto do morro para ela ser erguida.

Mesmo assim, o terreno ainda é um naco magnífico da Mata Atlântica, dentro da área de preservação de Cairuçu — puro verde, como no tempo das caravelas. Só se vê a casa quando se chega perto, por mar ou voando. Veja no site do MMA.

Por estes dias quem mais está usando a mansão são netos e bisnetos do magnata.

Uma faxineira, casada com o irmão de um jardineiro, contou ao DCM que os três filhos de Marinho, donos do Grupo Globo, se afastaram dela — da mansão, não da faxineira — devido à publicidade negativa provocada pelo processo do MPF.

Os procuradores investigam tão rigorosamente quanto possível o crime ambiental de desmatamento para erguer mansão, piscina, parquinho, aquashow e heliponto.

Ao centro, a mansão. Direita, trapiche para iates. À esquerda, heliponto na mata.
Ao centro, a mansão. Direita, trapiche para iates. À esquerda, heliponto na mata.
O encarregado do inquérito trocou várias vezes porque o caso não tem força-tarefa, nem procuradores exclusivos, atrasando as coisas. Foi no andar do processo que se descobriu a grilagem de uma área pública: os donos da mansão privatizaram na marra a pequena praia de Santa Rita, reservada para uso exclusivo de seus pimpolhos.

A piscina foi erguida direto na areia da praia — é show de bola, mas ilegal, sem falar na idéia de jerico de ter uma piscina salgada a 30 passos do mar.

Os Marinhos ergueram na Santa Rita também aquashow tubular, ancoradouro para jetski, mansãozinha de árvore, combo balanço-gangorra-escorregador e um depósito para as pranchas de surf e bananaboats — assim a criançada e papais se poupam do complicado leva e traz dos brinquedos. Tudo ilegal.

Guindaste para jetski e escorregador tubular, no costão norte
Guindaste para jetski e escorregador tubular, no costão norte
Para manter os brinquedos na praia sem que ninguém se sinta tentado a usá-los, os Marinhos contrataram seguranças armados. São dois homens em turnos de 12 horas, 7x30x365. Eles intimidam quem desembarca na areia, mas não há registro de violência. Só botam o povão para correr, coisa que ninguém ousaria fazer no Leblon.

Se a luta pela praia tem alguma justificativa deve ser pela qualidade da água. Este repórter esteve lá na semana do Carnaval e ela estava simplesmente deliciosa.

Morninha, limpa, transparente, calma. O fundo tem areia igual de limpa — dá vontade de juntar alguns punhados e levar para aquários, afinal, a areia é do povo.

A prainha é pequena, 83 passos largos de costão a costão, entre o trapiche de jetski e o ancoradouro dos iates. Tem brisa permanente, garante quem conhece a região. Ela está de frente para o noroeste, pega todo sol da manhã e sombra ao entardecer, com o fresquinho de graça, oferta da Mata Atlântica.

Os ricaços que a desfrutam não precisam passar aquele abafamento e sol quente que o povão enfrenta em locais apinhados, nem arrastar guarda-sol: amendoeiras frondosas e palmeiras garantem sombra eterna.

A praia é farofeiros free — uma lancha cobra até 350 reais pelo percurso de 15 minutos entre o cais histórico de Paraty e a House. De vez em quando algum desavisado salta nela, só para ser corrido pelos guardinhas.

As crianças dos Marinhos e seus amiguinhos não sentem falta dos vendedores ambulantes. Elas podem beber água de coco colhido no pé. Claro que não tem o agito de Copacabana, mas pelo menos a areia está sempre varrida e sem papel de picolé.

Parquinho privado na praia grilada: proibido para turistas
Parquinho privado na praia grilada: proibido para turistas
Como se não bastasse desfrutar deste pedaço do paraíso, a vida intramuros é de um conforto que a gente comum pode apenas sonhar — preste atenção nas suítes feitas com lascas de árvores e fotos completas da cozinha naquele site dos arquitetos.

Óbvio que tal cozinha não é para alguém fritar um ovo com arroz. Sempre que a family vai veranear provoca azáfama — correria com atrapalhação — entre os empregados, para abastecer freezers e prateleiras. Em geral, um chef escolhido entre os melhores do país acompanha a comitiva.

A House dispõe de várias embarcações de serviço e recreio. O Indiana X que estava atracado lá no dia da reportagem era apenas para os seguranças e domésticos. Vale 200 mil reais, na avaliação do comandante da lancha deste repórter.

A família, quando não voa direto para seu heliponto, usa um tremendo iatezinho compacto Ferretti 40 — os modelos antigos à venda no Mercado Livre valem um triplex.Os iates mais novos, bem equipados, podem valer até 10 cotas daquela cooperativa imobiliária. O Ferretti dos Marinhos não estava no porto e não pode ser avaliado.

O Ferretão, como foi apelidado pelo comandante Bradock, que já prestou serviços à família, é usado quando a prainha privatizada está sob ataque de farofeiros ou sofrendo das raras fiscalizações federais — aí ele navega para outros points privados.

Não se sabe pra onde porque a prefeitura de Paraty, ao imprimir mapas para turistas e escuneiros, fez a cortesia de omitir a (as) praia (s) dos Marinhos. O repórter marcou a Santa Rita com uma seta, na foto abaixo.

Cortesia da prefeitura: praia Santa Rita fora do mapa dos farofeiros
Cortesia da prefeitura: praia Santa Rita fora do mapa dos farofeiros
Motosserra

O problema da Paraty House na Justiça é que para ser construída, premiada e desfrutada pelos pimpolhos dos bilionários, alguns operários tiveram que derrubar árvores protegidas por lei federal — todo verde hoje esmagado pelo concreto da mansão era original até eles desembarcarem no pedaço.

Não foi possível apurar o nome dos carinhas que passaram a motosserra nas árvores.

Assim, eles não poderão ser responsabilizados.

Mas, na outra ponta, nenhum Marinho jamais será punido ou multado — eles usaram uma empresa de fachada para erguer a House.

A empresa aparece como ré no processo do MPF. Chama-se Agropecuária Veine. O responsável é um tal de Celso Campos — ele conseguiu a proeza de ficar de outubro de 2011 a abril de 2014 sem ser localizado por um oficial de justiça.

Alguém no infalível MPF errou o endereço dele da Avenida Copacabana XXX para XYY, apenas 30 metros, o suficiente para Campos nunca ser encontrado. O truque funcionou bem até uma recente troca de procuradores, que descobriram a patacoada.

Os procuradores que se debruçaram sobre o caso disseram à revista americana Bloomberg que “os ricos brasileiros usam as praias públicas como se fossem sua propriedade” – só não deram entrevista pra Globo.

Nos bastidores, eles dizem horrores dos Marinhos, mas sem jamais citá-los oficialmente, já que o réu de fachada é o tal Celso Campos. Este, procurado em Copa, não falou ao DCM.

O que talvez tenha faltado para andar rápido uma ação tão simples — casa erguida irregularmente, praia ocupada na marra, tudo documentado pelo MMA — tenha sido um juiz como aquele paranaense, com seu apetite por enfrentar poderosos.

Na Vara de Angra dos Reis, o processo da Veine se arrasta porque é uma batata quente que ninguém quer segurar. Até o porteiro sabe quem está por trás dela — e não é o Celsinho.

Uma avó combativa

Quem levantou a lebre foi uma servidora pública federal, concursada, Graziela de Moraes Barros, fiscal do Instituto Chico Mendes (ICMBio), órgão do MMA.

Ela tem apenas 39 anos e já é avó. Mora num sítio escondido numas quebradas e implora pra que o repórter não diga onde é, porque teme represálias.De quem? “Quando fiz a denúncia da casa dos Marinhos, alguém atacou a minha e incendiou meu carro”, conta, sem acusar ninguém.

A Polícia Federal investigou o caso, óbvio que sem sucesso. Hoje, ela anda sempre em carro oficial e acompanhada de uma colega.

Graziela não é mais fiscal. Deu entrevista, na semana do carnaval, em seu escritório na APA Tamoios, no alto de um morro do qual se vê Angra dos Reis e Paraty — a House agora está fora de sua jurisdição.

“Desisti porque passei cinco anos dando murro em ponta de faca. O Estado e a Justiça não enfrentam e nem punem os poderosos. Minha função acaba sendo fazer o papel de polícia contra pescadores e pequenos posseiros”, resmunga, amargurada.

Ela aponta o processo contra os Marinhos como um exemplo de desrespeito: “Eles poderiam ter erguido uma casa menor, de até 200m², o que seria permitido pela lei. Mas fizeram aquele monstrengo de concreto derrubando mata. Foi uma afronta à lei e à natureza”.

Graziela é a estrela da acusação. Ela inspecionou a praia Santa Rita uma vez durante a construção e outra depois que a mansão ficou pronta: “Heliponto e casa devem ser derrubados. A piscina está na praia…” e ela despeja os argumentos que estão no processo iniciado pelo procurador Fernando Lavieri, tim tim por tim tim.

Ela quer os Marinhos fora do pedaço: “Eles entram com recursos e vão rolando. Pagam multas e continuam ocupando a área, esperando tudo cair no esquecimento. Calculo que gastem mais de um milhão em multas e advogados, mas vão continuar lá, porque podem tudo”.

Graziela enumera uma lista de milionários que cometeram crimes ambientais na mesma região. Está desiludida: “Nada vai mudar”.

Na hora da fotografia, Graziela entra em pânico: “Tenho medo de ser exposta”, diz preocupada com sua segurança como se vivesse no meio de uma guerra de gangues. Pede que a foto seja tirada pelas costas, solicitação atendida.

Graziela Moraes Barros: fiscal do ICMBio que primeiro denunciou crime ambiental na obra da Paraty House
Graziela Moraes Barros: fiscal do ICMBio que primeiro denunciou crime ambiental na obra da Paraty House
A Paraty House foi desenhada pelo arquiteto paulista Márcio Kogan e sua equipe. Não foi possível localizá-lo para saber se ele nunca ouviu falar da proibição de derrubar Mata Atlântica. Se não ensinaram na faculdade dele, consola saber que já existe preservação ambiental até no currículo da escola fundamental.

O projeto original sempre esteve em desacordo com a lei de máximo 200m² porque saiu da prancheta com 840. Aí foram mexendo e subiram para os 1.300.

Como a construção daquele bruto bloco de concreto foi premiada, as opiniões variam de maravilha arquitetônica a monstrengo — no prêmio Wallpaper 2010 os jurados analisaram apenas a arquitetura, sem avaliar o prejú ambiental que ela causou.

Um arquiteto de Paraty, ligado à Organização Caiçara e defensor de quanto mais verde melhor, acha que “a mansão é até bonitinha, mas está totalmente deslocada do entorno. Na mata é um horror. Ficaria bem na Avenida Paulista. Por que tanto concreto no meio da mata”?

O arquiteto diz que “caberiam ali vários chalés de madeira, rústicos, bem mais leves, com o mesmo grau de conforto. Seria de bom gosto e estaria dando sinal de respeito à sociedade”. O homem não quer ver seu nome citado, temendo represálias.

De quem? O arquiteto fica de bico calado — deve temer a mesma gangue que aterroriza Graziela.

O dono de uma pousada — nome omitido porque teme represálias — contou que sua ex namorada, a bióloga Xis, fez um plano de manejo de pesca em cativeiro nas águas da Santa Rita: “Na verdade, o objetivo deles não era pescar, e sim lançar o emaranhado de bóias para demarcar o cativeiro, impedindo atracação de barcos”.

Bóias amarelas para impedir navegação na praia de Santa Rita
Bóias amarelas para impedir navegação na praia de Santa Rita
Ele disse que moça ficou seis meses só assinando papéis, até que se fartou do negócio e foi morar na Bélgica: “Por favor, não bote o nome dela na reportagem”.

Viagem ao paraíso privado

Depois de realizar várias entrevistas em terra firme, decidi ir à praia dos Marinhos, sem ser convidado, para conferir alguns dados do processo — no final do ano passado um juiz determinou diligências para saber se os parquinhos ainda estavam de pé.

Contratei uma lancha. O simpático comandante não quis ver seu nome aqui, temendo represálias: “Eu vivo do turismo e eles…sabe como é”, disse, parecendo assustado.

Minha lancha zarpou e por alguns minutos da viagem me senti inebriado com toda aquela beleza da baía de Paraty – mas logo veio o medo de enfrentar os tais seguranças armados.

Torci para que um Marinho, com quem troquei cumprimentos anos atrás quando era repórter de O Eco, estivesse tomando café na beira da piscina.

Quase 10 da manhã e eu estava na lancha, com o mar às costas e a mata na frente, temperatura de 22 graus, céu azul — até aquele ponto tudo ia bem.

Pedi para o comandante apagar o motor para gozar o silêncio, mas a barulheira de outros navegantes quebrou o encanto.

Dez e pouco começamos a nos aproximar da mítica Paraty House.

Fui fazendo fotos à distância. Ninguém à vista. Fiquei com aquela sensação de filmes quando vai surgir um dinossauro na praia deserta e só o mocinho não sabe.

Desviamos das bóias fajutas da bióloga da Bélgica e pulei na água — morninha, como contei antes.

Já estava na areia quando, do meio das amendoeiras, surge um guardinha.

Guarda particular armado na praia pública de Santa Rita
Guarda particular armado na praia pública de Santa Rita
Ele veio falando qualquer coisa, de longe, com a mão escondendo o logotipo da empresa e o nome na farda, assim como fazem os PMs quando batem em jornalistas.

Aí, parou na minha frente e me intimou: “Vá embora, você não pode tirar fotos da casa”.

Não vi o segundo guarda e avaliei o perigo: apenas alerta amarelo.

Então, dei um patético carteiraço nele: “Sou jornalista e posso tirar fotos porque esta praia é pública” — e estendi minha carteira da Federação dos Jornalistas.

Na mesma hora contive o riso pela ironia de invocar este direito num solo supostamente sagrado à liberdade de imprensa. Ele nem deu bola pro documento.

O guardinha me mandou embora outra vez, desta vez com a mão na coronha da arma.

Mas, ele não sacou. Ponto para mim. Senti a fraquejada e blefei: “Tá vendo aquela lancha? Tem uma câmera filmando nós dois. Você não manda aqui e só pode ficar dentro da propriedade, não pode nem andar armado na praia” — aí apontei minha Nikon pra ele.

Vapt vupt e o guardinha se esfumaçou. Entendeu que eu não era turista, virou pra esquerda e saiu dando pulinhos na areia — sinal que ele sabia que ali os guardas privados podem ser presos em flagrante por porte ilegal de arma, se não estiverem no perímetro da mansão.

Minutos depois, ele voltou, mais gentil, apelando: “Por favor, é meu trabalho”. Concordamos que eu poderia fotografar tudo, menos entrar na casa — uma banalidade, já que estava vazia.

O guardinha contou que “faz pouco avisaram que o helicóptero vai chegar com a patroa”. Ele não disse o nome, talvez temendo represálias. Trata-se de uma neta de Roberto Marinho. Meu único conhecido não estava na lista de passageiros, ia ser mais difícil me aproximar dela.

Outro problema: quem chega pelo heliponto, atrás da linha da praia e acima da mansão, pode entrar nela por um caminho de espelhos de cristal sobre um lago artificial. Eu não teria acesso àquela área.

Decidi não esperar um improvável convite para o almoço.

Mandei o guardinha sumir da minha frente, ele obedeceu.

E como meu nome não é trabalho, me joguei naquela pintura de água.

Repórter do DCM na praia Santa Rita
Repórter do DCM na praia Santa Rita
Mal voltei do primeiro mergulho e o dono da lancha me lembrou que o taxímetro estava correndo.

Zarpei, com a certeza de que aquela não é minha praia.

Renan Antunes de Oliveira, de Paraty (RJ)
No DCM
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Mesmo abalado, ele é ainda o PREFERIDO


Apesar do desgaste, Lula mantém folgada margem na comparação com FHC, aponta o Vox Populi

Em dezembro passado, entre os dias 11 e 15, o Instituto Vox Populi realizou sua última pesquisa nacional de opinião pública de 2015. Foram entrevistados 2 mil eleitores em todo o País.

No levantamento havia um conjunto de perguntas que pedia aos entrevistados para comparar o desempenho dos governos Lula e Fernando Henrique Cardoso em dez áreas de atuação e apontar qual deles havia sido o "melhor presidente" em cada uma.

Não é preciso se estender na caracterização do momento no qual a pesquisa foi realizada. Ninguém ignora o que se passou em 2015 e a intensidade da campanha dirigida pelo conjunto das oposições contra o governo Dilma Rousseff e o PT. Todos sabem que o ex-presidente foi um dos alvos principais. Os entrevistados foram ouvidos, portanto, em um ambiente de opinião desfavorável a Lula.

Inversamente, o clime era favorável a seu antecessor. Fernando Henrique tinha tudo para haver terminado 2015 com a imagem nas alturas, beneficiado pelos problmas do adversário e do tratamento sempre amigável recebido dos aliados na "grande" mídia e no Judiciário. Salvo uma ou outra crítica rapidamente ignorada, não quiseram aborrecê-lo com perguntas incômodas. No PSDB, muita gente chegou a celebrar o ano como o de uma hipotética "volta por cima de Fernando Henrique".

A pesquisa não lhes dá razão para comemorar. A imagem de Lula, mesmo em circunstâncias negativas, continua a ser muito melhor que aquela do tucano, em especial na comparação de suas performances em temas sociais. Nesses casos, as diferenças chegam a ser acachapantes.

A maior diferença em uma questão decisiva para a maioria da população: "Qual dos dois teve mais poreocupação com os pobres?" Lula obteve 74% das respostas, enquanto FHC colheu apenas 9% das menções. Outros 8% disseram "nenhum dos dois" e 2% "ambos". Os restantes não souberam opinar.

As vantagens do petistas continuam muito dilatadas quando se fala em emprego e educação. Em relação ao primeiro tópico, 65% dos entrevistados afirmaram que Lula "gerou mais empregos". O tucano foi citado por 19% dos entrevistados. Quanto à educação, 60% acreditam que o operário Lula "investiu mais". O professor Fernando Henrique Cardoso obteve 18%, menos de um terço do adversário político.

Em saúde e segurança pública, Lula sai-se um pouco pior, mas FHC permanece em um patamar abaixo de 20%: o petista é considerado por 46% como aquele que mais "investiu em saúde", ante 18% de menções ao tucano. Na segurança, Lula obteve o mais baixo índice (37%), embora mantenha mais do dobro de vantagem em relação ao líder do PSDB (17%).

Ao contrário do que alguns supõem, Lula também leva vantagem nos temas de política econômica. É quem "mais estimulou o crescimento econômico" para 55% e quem "controlou melhor a inflação" para 52%. FHC foi o escolhido de 21% e 28%, respectivamente. Segundo 56% dos entrevistados, Lula é quem mais contribuiu para "melhorar a imagem do Brasil no exterior", o que apenas 20% afirmam a respeito de Fernando Henrique Cardoso. O que quer dizer que, em todas as áreas de atuação pesquisadas, o melhor que o tucano consegue é chegar à metade do petista.

Resta a percepção a respeito da corrupção e seu combate. De um lado, este é o único assunto no qual Lula tem resultado abaixo de FHC, algo compreensível em razão da conjuntura da pesquisa? 47% disseram que "houve mais corrupção" no governo do petista, ante 18% que citaram o período de FHC no poder. Lula é, porém, percebido por 32% como o presidente que "mais combateu a corrupção". No mesmo quesito, o tucano foi o indicado por 18%. Uma maioria de 35% escolheu a opção "nenhum dos dois".

O lastro da imagem de Lula após cinco anos de sua saída da Prsidência da República, mostra a pesquisa, deriva do consenso de que existe na sociedade a respeito de seu compromisso com os desfavorecidos, seguido pelo quase consenso sobre sua capacidade como governante: "Preocupa-se com os pobres" e fez melhor governo do que a oposição quando lá esteve. Para proporções muito elevadas da população, foi mais competente do que FHC em tudo, na área social, na economia, além de ser aquele que mais elevou a imagem do País no exterior.

O conjunto dessas avaliações é um caminho para explicar a ferocidade com a qual as oposições procuram destruir a imagem de Lula. A coalizão nefasta e antidemocrática que reúne políticos profissionais, integrantes do Judiciário e do aparato policial e empresários de comunicação e seus funcionários, parece não ter nenhum objetivo além desse e nenhum freio que a impeça de desferir golpes baixos para alcançá-lo.

É preciso ressaltar: essas são as comparações feitas pela população há pouco mais de um mês entre Lula e a figura de maior brilho das oposições. Um, exposto à sanha de quem se esconde atrás de corporações pouco transparentes e oligopólios midiáticos. Outro, protegido como um bibelô. Resta saber se conseguirão impor seus interesses à maioria da sociedade. E até onde estão dispostos a chegar para terminar o trabalho.

Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

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Muito além das fronteiras do ridículo

Na tentativa de incriminar Lula, os perdigueiros da informação mordem seu próprio rabo, mas poucos se riem

Um triplex em uma Guarujá degradada e um sítio em Atibaia
protagonizam enredos completamente desenrolados para provar
que não são propriedade da família Lula da Silva.
Sérgio Lima
Na semana passada, sugeri aos perdigueiros da informação que passassem a procurar o jatinho, o Rolls-Royce, a fazenda, o iate que Lula não possui. E não é que acharam o barco de dona Marisa? De lata, custa 4 mil reais. Quanto à fazenda, fazendeiro mesmo é Fernando Henrique Cardoso e de jatinho há de voar Aécio Neves, ao certo sei que dispõe de campo de pouso.

Está claro que de FHC e de Aécio não é admissível suspeitar: postam-se na proa da fragata tucana e, portanto, são intocáveis. Seu partido tornou-se de fato o mais perfeito intérprete dos ideais da direita mais reacionária do País. O Partido da Social-Democracia Brasileira, e já aí nos defrontamos com uma piada. Nunca houve quem ousasse perguntar-se como um professor universitário seja proprietário de um apartamento paulistano muito maior do que o triplex praiano que dona Marisa não comprou, e de uma fazenda de boa extensão, fruto de uma obscura história a envolver um certo Jovelino Mineiro, de turva memória. O único filho de FHC (o outro dele não era) andou metido em aventuras estranhas e eu não esqueço as excelentes relações que o ex-presidente mantinha com Daniel Dantas, o banqueiro do Opportunity, deliberadamente favorecido pelo então presidente do BNDES, Luiz Carlos Mendonça de Barros, por ocasião da bandalheira da privatização das comunicações.

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Não são eles que podem rir.
Edilson Dantas/ Ag. O Globo
Tive a oportunidade de ouvir a gravação dos grampos das conversas telefônicas entre Mendonça de Barros, André Lara Resende e Persio Arida e parte mais significativa CartaCapital publicou em 25/8/1998, ecoada obviamente pelo estrondoso silêncio da mídia nativa. Ouvi claras referências à manipulação dos resultados da privatização a favor “dos italianos” e, portanto, de Dantas, admitida a possibilidade de recorrer, caso necessário, à “bomba atômica”, ou seja, o presidente FHC. Certa vez, de volta de Cayman, onde cuida dos seus negócios e de muitos outros graúdos, o banqueiro foi diretamente a Brasília para uma visita ao Alvorada. Perguntei-me se estaria em missão de agradecimento.

A vocação aérea de Aécio Neves é certa e sabida, costumava usar o avião da governança mineira para viagens sem agenda oficial, e o emprestava com generosidade aos amigos e nem tanto para suas deslocações Brasil afora. Até um vilão recente, Delcídio do Amaral, gozou da regalia. Do ex-governador falou-se muito e mal, em incursões inclusive por sua vida privada, e eis que, de improviso, ao se tornar candidato tucano contra Dilma Rousseff, a mídia nativa o assume como varão de Plutarco.

Os argumentos brandidos agora na tentativa de incriminar Lula, repetidos à exaustão produzem jornalões idênticos de um dia para o outro, e também revistas e programas de rádio e tevê. Ao ler a Folha de S.Paulo de sexta-feira você pode ser levado a crer que de verdade se trate de O Globo de domingo ou do Estado de S. Paulo da quinta seguinte. Não se distingue colunista, ou um comentarista, de outro. Por exemplo, Dora Kramer de Eliane Cantanhêde. De todo modo, na terça 2 de fevereiro, na Folha Mario Sergio Conti aponta em Ernesto Geisel um herói da probidade. Dado a esquecimentos, o colunista graciosamente olvida a vivenda nababesca que Geisel construiu na encosta da Serra do Mar e de como permitiu que o então mandachuva da Petrobras, Shigeaki Ueki, cobrasse pedágio sobre cada barril produzido ou importado. Sem contar que, ao encerrar o seu “mandato”, levou para casa os presentes recebidos de visitantes ilustres na qualidade de ditador. Consta ter apreciado sobretudo vasos chineses da dinastia Ming.

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Há 18 anos provamos a maior
bandalheira da história, ecoador por
estrondoso silêncio
Mesmo para quem se acostumou à leitura da imprensa, ou acompanha programas políticos na tevê e no rádio, haveria de sofrer autênticas crises de desalentado enfado diante da repetição dos tais argumentos, de resto até o momento tão pouco consistentes. Os jornais contam até as vezes em que a família de Lula esteve no celebérrimo sítio de Atibaia como se os passeios apontassem para os verdadeiros donos do imóvel. Fica provado apenas que a polícia segue os passos da família Lula da Silva e se prontifica a vazar informações aos repórteres que certamente não se dispõem a certas tarefas.

Ampla conspirata em andamento como se vê, conluio de policiais com os perdigueiros midiáticos, diante do olhar atônito de Rolando Lero, perdão, do ministro da Justiça. Envolvidos, ainda, promotores certos da autoridade que a Constituição lhes concede, qual fossem instituições à parte, além das três previstas pelo regime democrático. No caso, o doutor Ulysses Guimarães, pai da Carta de 1988, cometeu um equívoco. Houve, entre seus assessores, quem recomendasse não conceder ao Ministério Público tamanho poder, mas o “Senhor Diretas Já”, movido a idealismo, não quis ouvir.

Os enredos protagonizados pelo triplex praiano e pelo sítio interiorano foram completamente desenrolados. No caso do sítio, um dos donos é filho de um dos fundadores do PT, Jacó Bittar, velho companheiro de lutas sindicais do ex-presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema. Jacó comandava o sindicato dos petroleiros de Paulínia, e os filhos dos dois sindicalistas cresceram juntos. Seria imaginável que um Bittar funcionasse como laranja de Lula? Mesmo assim, os perdigueiros farejam o pecado e contam com um promotor paulista, Cassio Conserino, para dar ouvidos à sua algazarra e indiciar o casal Lula da Silva para depor no próximo dia 17. Admita-se a hipótese de que Conserino aspirasse a ter seu retrato nas páginas dos jornalões.

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Sítio em Atibaia também é objeto de acusações contra Lula.
Cesar Dellamonica/ Frame Photo/ Ag. O Globo
A razão da caçada é transparente, nasce do ódio de classe dos senhores da casa-grande e visa cortar pela raiz a eventualidade de uma candidatura de Lula em 2018. Ocorre que os perdigueiros se perdem pelo caminho à procura do que não existe, vítimas de sua própria insistência ao longo da pista que a nada leva. Surpresa? O jornalismo à brasileira é o mister, com raríssimas exceções, de uma horda de lacaios dos barões midiáticos. Estes se odeiam entre si, mas se unem à frente do risco comum, para formar o verdadeiro partido de oposição a qualquer ameaça à fórmula medieval, casa-grande e senzala. Nem por isso sobra espaço para espanto quando os perdigueiros estão a morder seu próprio rabo.

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O doutor Ulysses cometeu um equívoco ao
conceder poder excessivo ao MP na
Constituição de 1988...
Sergio Amaral
Quantos, além do promotor Conserino, não percebem o ridículo? Em primeiro lugar, os proprietários de apartamentos mensuráveis em milhares de metros quadrados de construção, dotados de terraços gourmet e de sete a oito garagens, em edifícios definidos como torres. Foi-se o tempo em que veraneavam em Guarujá. Por lá havia até um cassino em roleta, dedicado, porém, a jogos de baralho, e à mesa de pôquer o rebento de uma graúda família paulistana certa vez perdeu um carro Studebaker, verde e recém-importado. Décadas e décadas atrás, quando a Praia das Astúrias servia apenas para os passeios dos moradores de Pitangueiras, esta sim, habilitada a receber na orla a aristocracia, enquanto o time aspirante se espalhava por trás, em prédios ou sobrados sem vista para o mar. Guarujá é hoje uma amostra terrificante da degradação brasileira, com suas praias cercadas de favelas e bandos de assaltantes estavelmente instalados no túnel que dá acesso às praias da Enseada, Pernambuco e Perequê no rumo de Bertioga. 

É um faroeste do terceiro milênio, bem diferente de Coral Gables, onde inúmeros privilegiados brasileiros têm apartamentos, quando não os têm em Nova York, com vista para o Central Park, e em Paris na Avenue Foch. Das Astúrias cabe dizer ter-se tornado há muitos anos a meta preferida dos farofeiros. Permito-me achar que dona Marisa agiu bem ao renunciar a tão falado triplex, que, aliás, com seus duzentos e poucos metros de construção, não há de ser a morada do rei. Basta, no entanto, pensar nele e, evidentemente, na possibilidade de que a família Lula da Silva dele usufruísse, para enraivecer os senhores até o paroxismo, bem como toda uma dita classe média que aspira a morar, algum dia, ao menos na mansarda da casa-grande.

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....e o promotor Conserino aproveita-se.
Sergio Amaral
Não vivessem uma poderosa degradação mental, fruto da incultura e da parvoíce dignas de uma república bananeira, perceberiam que essa história transpôs as fronteiras do ridículo, e o fracasso dos perdigueiros se retorceria contra quem os soltou. Receio que ninguém escape ao final infeliz de uma tragicomédia, mesmo quantos não merecem este destino, vítimas do carnaval encenado pela minoria branca, como diria Cláudio Lembo.

Mino Carta
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Argentina e o cachorro na presidência


A Revolução das Balas de Borracha: Argentina sob Mauricio Macri

Dez cientistas culturais e sociais europeus queixam-se num apelo conjunto à restrição das liberdades civis e liberdade de imprensa, cortes de bem-estar e o fim do trabalho sobre a ditadura militar na Argentina depois da tomada de posse do governo de direita.

Balões amarelos, música de festa, o cão na cadeira presidencial: Com ascensão de Mauricio Macri ao cargo, meios de comunicação nacionais e internacionais foram unânimes, na Argentina explodiu a "Revolução feliz" — o fim do endurecimento populista e o "retorno ao palco mundial” sob a liderança de uma pós-ideológica, liberal, democrática centro-direita. Seu ídolo, disse Macri aos jornalistas reunidos do Le Monde, The Guardian, La Stampa e El País, foi Nelson Mandela. Nenhum dos presentes parecia acalentar a mais leve suspeita de sarcasmo.

Como pesquisadores acadêmicos, lidamos ha décadas com a história e a cultura da Argentina. Estamos consternados. Indignados. Preocupados. À medida que escrevemos estas linhas, a polícia atira com balas de borracha em crianças e adolescentes.

Forças especiais penetraram em uma favela, onde os moradores se reuniram para um dos poucos momentos de felicidade que lhes dá a vida: o ensaio de um desfile de carnaval. A polícia estava atirando em qualquer coisa que se movesse. Sem justa causa, sem aviso prévio. Por puro terror.

Desde a posse de Mauricio Macri prevalece na Argentina um clima, que o país não via desde os anos sangrentos da última ditadura militar. Sob o manto do recesso parlamentar anual, sob o pretexto de combater o tráfico de drogas, o presidente declarou estado de emergência nacional, o que permite o uso de militares em assuntos de segurança interna e até mesmo permite o abate de aviões de passageiros sem aviso. Ninguém pode sair de casa sem documentos. Nem mesmo o México foi tão longe em resposta a uma ameaça percebida pelo crime organizado – mesmo sendo Buenos Aires, em conjunto com Montevidéu, a capital mais segura da América Latina. Também por decreto e claramente excedendo suas competências constitucionais, Macri nomeou dois antigos informantes para juízes federais e anulou a lei que regulamenta os monopólios da mídia. Nem mesmo sob a ditadura militar uma concentração tão alta de canais era permitida como hoje. Concomitantemente inúmeros jornalistas críticos ou simplesmente não-alinhados com o governo foram demitidos — não só da rádio e de televisão pública, mesmo na mídia privada, que foi ameaçada com a retirada da publicidade estatal. Enquanto a tributação das exportações agrícolas foi suspensa, a desvalorização do peso provocou uma maciça redistribuição (de renda) em favor dos setores mais ricos, no aparelho estatal, começou uma onda de demissões, onde 25.000 postos de trabalho já foram cortados (com idêntico número no setor privado); a maioria deles no alvo de uma campanha de limpeza contra os opositores políticos, reais ou suspeitos.

Particularmente duro foi o golpe nas estruturas de apoio do Estado e proteção aos direitos humanos: em vários ministérios e agências departamentos inteiros foram fechados. Simultaneamente ex-funcionários da ditadura militar, suspeitos de envolvimento em abusos contra direitos humanos, foram nomeados para cargos no governo. O Presidente tem recusado audiências às organizações de direitos humanos, incluindo as mães e avós da Plaza de Mayo, até o dia de hoje; Ministro da Cultura do governo da cidade de Buenos Aires, aliada Macri, afirmou que o número de desaparecidos da última ditadura militar era uma "mentira de que foi fabricado na mesa de negociação, a fim de obter subsídios".

Neste clima de intimidação geral, não surpreende, a violência com que a polícia age contra protestos de sindicatos e desempregados, mulheres e povos indígenas, assim como a criminalização de qualquer oposição política. Seu ponto máximo (por agora), foi atingido com a prisão de ativista indígena e deputada do Parlamento do Mercosul (Parlasul) Milagro Sala, que havia participado de um acampamento de protesto pacífico para obter uma audiência com o governador da província de Jujuy, Gerardo Morales, aliado de Macri. Este, depois de tomar posse, havia declarado como ilegal as cooperativas habitacionais indígenas e ameaçou retirar o apoio do governo. Depois da Anistia Internacional, o Parlasul e ao Parlamento Europeu terem apresentado oficialmente um protesto, as autoridades judiciais da província (que Morales, seguindo exemplo de Macris, empossou por decreto com informantes) responderam pelo aperto das condições prisionais de Salas e a prisão de outros ativistas.

O governo Mauricio Macri não é nem pós-ideológico nem moderado; é liberal, no sentido de unicamente seguir as diretrizes do establishment financeiro internacional. A “nova direita” Argentina é semelhante ao da Polônia ou Hungria: Seu programa consiste em esmagar a liberdade de imprensa, a cooptação do sistema judicial, a perseguição de dissidentes, o violento esmagamento de toda a resistência.

Como um ex-presidente de um grande clube de futebol e dono de um império financeiro e midiático de vários milhões de dólares, com ótimos contatos no submundo das organizações hooligan e judiciário, tem dezenas de ações pendentes por corrupção e espionagem ilegal, entre outros por parentes das vítimas do ataque terrorista no judaica organização comunitária AMIA, benevolentemente arquivados. Macri não tem nada em comum com Mandela. Pelo contrário, é um Berlusconi sul-americano: um magnata que ama “ratings” e despreza democracia.

Em menos de dois meses, o governo Macri encaminhou o maior retrocesso em questões de direitos humanos desde o fim da ditadura militar na Argentina no ano 1983. Esta não é uma "revolução feliz": É simplesmente a Revolução de balas de borracha. Os seus projéteis visando o coração do processo democrático na Argentina e em toda a região.

Contra o totalitarismo a pressão internacional é uma das poucas armas que nos restam. Em nome da democracia e dos direitos humanos em nome da liberdade de imprensa e do direito à informação, pedimos aos nossos colegas na imprensa, no trabalho cultural e ciências sociais e técnicas: Chamem a atenção dos seus leitores, estudantes e público para o estado anti-democrático e repressivo na Argentina Mauricio Macri.

A revolução de balas de borracha não tem nada revolucionário. São apenas balas. De borracha dura, até agora. Até mais.

Brigitte Adria­ensen (Univer­siteit Nijmegen)

Jens Ander­mann (Univer­sität Zürich)

Ben Bollig (Univer­sity of Oxford)

Geneviève Fabry (Univer­sité Catho­lique de Louvain)

Liliana Ruth Feier­stein (Humboldt Univer­sität zu Berlin)

Anna Forné (Göteborgs Univer­sitet)

John Krani­auskas (Birkbeck College, Univer­sity of London)

Emilia Perassi (Univer­sità degli Studi di Milano)

Kathrin Sartingen (Univer­sität Wien)

Dardo Scavino (Univer­sité de Pau et des Pays de l’Adour)

Do Geschichten der Gegen­wart
Tradução: Etzel Ritter von Stockert
No GGN



Insetos proliferam na Argentina

Foto: Minutouno
Enquanto os feitos políticos do governo de Maurício Macri contém uma violência feroz, a bonança que ainda resta nas carteiras, as férias e a operação midiática tendendo a disfarçar a realidade ao ponto de faze-la desaparecer das telas de televisão e dos jornais, faz com que grande parte da sociedade se mantenha na expectativa.

O que define esse modelo de governo é a tremenda transferência de riquezas desde os setores mais pobres  para os mais ricos. A quitação de retenções das exportações agropecuárias, que encareceu a comida dos argentinos, se somam aos anunciados aumentos da tarifa de serviços elétricos em 600% e do gás em 250%. Ambas impactaram não somente no bolso dos trabalhadores e aposentados, mas também nos dos fabricantes e comerciantes, que aumentarão os preços dos produtos, que já haviam aumentado pela desvalorização da moeda, que Macri fixou em 40%. Não existe vontade política de exercer controle do Estado sobre os empresários, a cadeia de valor, nem sobre os distribuidores. O Secretário de Comércio, Miguel Braun, além de ser multimilionário, é dono de uma cadeia de supermercados e sua família é dona de um banco que, graças a desregulação bancária que ordenou Macri, financiará com juros de 70% ao ano as compras com cartões de crédito.

A repressão dos movimentos sociais quase não encontram eco nos meios de comunicação. E se aparecem tais notícias, são para justificar a utilização das forças de segurança, inclusive inventando uma operação política. Assim como ficou em evidência no caso das crianças baleadas enquanto ensaiavam para o Carnaval; a Ministra de Segurança, Patricia Bullrich, montou nas redes sociais uma farsa e publicou fotos de sua visita ao hospital onde se encontravam os supostos policiais feridos.

Com frases pomposas como: “Vamos defender nossos policias feridos. Não deixaremos que os ataquem com tanta impunidade”; escreveu a funcionária em sua conta de Twitter (@patobullrich), publicou essas fotos e foi levantada pelas mídias locais.

macri
Ministra Patricia Bullrich

Como se pode observar, a máscara do paciente, não está conectada ao tubo de oxigênio que está ao seu lado, visivelmente não sendo utilizado, já que o manômetro está virado para a parede e não se vê a guia que deveria se conectar na máscara. Assim mentirosas são as manobras midiáticas que se veem por aqui nestes dias.

As cenas postas para influenciar a opinião pública, a partir de agora serão controladas desde uma “Secretaria do Discurso” criada para tal fim. Se vivesse, Joseph Goebbels estaria orgulhoso!

A dirigente social Milagro Sala leva 24 dias ilegitimamente presa, apesar das manifestações nacionais e internacionais de diferentes organismos de Direitos Humanos. Quando seu caso aparece nos meios mais importantes, é para semear calúnias contra sua pessoa, com o fim de que a dúvida seja instalada, mesmo quando a liberem e a absolvam posteriormente em juízo. “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, dizia o ministro de propaganda alemão.

O Congresso Nacional que permanecia em recesso, foi ressuscitado por Macri ao chamar sessões extraordinárias para tratar alguns dos mais de 300 decretos que leva assinados, a maioria deles questionados quanto a sua legalidade. A mudança de atitude  foi o que comprou a vontade de doze legisladores opositores, que garantiram apoiar sua gestão votando as leis mais controversas e mais graves para o povo argentino: as de endividamento com a banca estrangeira que mergulharam no inferno novamente a Argentina; e da nomeação de juízes relacionados as corporações, que garantem a impunidade das medidas econômicas vindouras.

A organização proposta aos fundos dos abutres, os garante cobrar em dinheiro vivo a dívida reclamada, com uma ganância superior a 1300%. De todos os fundos credores, somente um aceitou, o de Keneth Dart. Os outros dois fundos mais importantes, o MNL de Paul Singer e o Aurelius Capital de Mark Brodsky rechaçaram a oferta. Esta dívida, ilegítima e gerada no ano de 2001 pela mesma equipe econômica que hoje governa, havia sido reestruturada por Néstor e Cristina Kirchner, logrando uma importante quitação, e a aceitação de 93% dos credores, o que foi garantido através de uma lei em que ninguém cobraria mais do que eles haviam aceitado. Essa lei chamada “parafuso”(cerrojo) é a que hoje busca modificar Maurício Macri, já que lhe permitiria cumprir com os compromissos eleitorais que contraiu com Paul Singer, quem financiou sua campanha; mas também, lhe permitiria tomar novas dívidas. Caso se sucedesse e se chegasse a um acordo que supere o que já havia sido combinado com os 93% dos credores, esses investidores reclamariam o mesmo trato para eles que se desse para Paul Singer e seus amigos; o que geraria uma catarata de julgamentos sobre nosso país e sem dúvida, ganhariam.

Às calamidades econômicas, todas produtos das decisões políticas do governo que encabeça Maurício Macri, se somam as pragas de insetos. A de gafanhotos que afetou a 5 províncias e a de mosquitos, que proliferaram pelas intensas chuvas, somadas a inoperância do Ministro de Saúde Alberto Lemus, que não recomendou fumegar preventivamente, e não previu uma campanha de conscientização sobre a dengue, registrando-se já alguns casos fatais.

Para todos os afetados, já disse claramente que não terá ajuda econômica, por que não tem dinheiro.

Sem delongas, ordenou a compra de um avião para 12 passageiros, um Challenger 650 que custará 67 milhões de dólares. Sem dúvida um grande negócio para Macri: para Franco Macri, seu pai, dono da empresa Mac Air que venderá o avião ao Estado argentino.

Os insetos sempre possuem asas.

Débora Mabaires, de Buenos Aires
Tradução: Thiago Iessim
No Desacato
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Tucanos são famintos por merenda escolar — Parte 11


'Moita' admite ação favorável a cooperativa ligada a esquema da merenda

Ex-assessor da Casa Civil do governo paulista nega irregularidades, mas diz ter orientado empresário envolvido no caso

O ex-chefe de gabinete da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin (PSDB) Luiz Roberto dos Santos, conhecido como “Moita”, admitiu à Corregedoria-geral da Administração (CGA) ter orientado o empresário Marcel Ferreira Júlio, apontado como lobista do esquema de fraudes em licitações da merenda escolar, a pedir reequilíbrio financeiro do contrato posto sob suspeita na Operação Alba Branca firmado entre a Cooperativa Orgânica Agrícola Familiar (Coaf) e a Secretaria da Educação.

No depoimento, ele ainda confessou ter tratado do assunto com o ex-chefe de gabinete da Educação Fernando Padula, demitido em janeiro. Santos prestou esclarecimentos ao órgão que regula a conduta dos funcionários estaduais no dia 2 de fevereiro.

A polícia investiga suposto pagamento de propina a agentes públicos com dinheiro dos contratos destinados à merenda escolar. Depoimentos dados por funcionários da Coaf à polícia apontam Santos, o presidente da Assembleia Legislativa, Fernando Capez (PSDB), e o secretário de Logística e Transporte, Duarte Nogueira (PSDB), como beneficiários da propina. Todos eles negam as acusações. Os relatos colhidos pela polícia também apontam Marcel como operador das propinas no esquema investigado pela Operação Alba Branca. Ele está foragido desde 19 de janeiro, quando sua prisão foi decretada pela Justiça.

No depoimento, o ex-chefe de gabinete da Casa Civil assumiu ter dado orientações ao lobista e de ter recebido Marcel no gabinete em audiências não registradas na agenda oficial. Santos disse que Marcel se apresentou a ele como “assessor do deputado Nelson Marquezelli (PTB) e representante da Coaf”. Marquezelli também foi citado pelos funcionários da Coaf à polícia como um suposto beneficiário da propina oriunda dos contratos firmados com o governo.

Santos afirmou que Marcel pedia a ele contatos com a Secretaria da Educação porque estava “tendo dificuldades em cumprir o contrato da Coaf”.

Apesar de confirmar à CGA ter tratado com Padula sobre o pedido do lobista, Santos nega ter “interferido diretamente” na secretaria em razão do cargo que ocupava. Ele negou também no depoimento ter “recebido vantagem indevida a título de comissão” de Marcel. “Nunca foi pedido e também nunca pediu nenhuma vantagem”, disse Santos no esclarecimento prestado aos corregedores. O lobista, disse Santos, também nunca pediu que ele intermediasse em favor da Coaf na Secretaria da Educação.

Celular

Santos disse aos corregedores que a conversa com Padula sobre o pedido de reequilíbrio financeiro do contrato foi feito pelo celular. Segundo o depoimento de Santos, o então chefe de gabinete da Educação teria dito que Marcel tinha que formalizar um pedido para análise da pasta.

Um dia antes da deflagração da Alba Branca, Santos foi demitido pelo secretário da Casa Civil, Edson Aparecido, do cargo de confiança que ocupava. Ele foi devolvido à função de origem na Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

Depois de ter sido exonerado, Aparecido cobrou também uma postura do PSDB, já que Santos é um militante histórico do partido. Até agora, a legenda não instaurou nenhum tipo de procedimento para discutir o caso do suposto envolvimento de Santos na Operação Alba Branca.

Na semana passada, a CGA também colheu o depoimento do secretário de Logística e Transportes, Duarte Nogueira. O tucano disse ter negado todas as acusações e marcou para hoje uma oitiva na Polícia Civil para prestar esclarecimentos sobre as denúncias.

Ricardo Chapola e Pedro Venceslau
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