9 de fev de 2016

Sexo & Cia

Jack, Jackie, Bobby, Lee, Marilyn, Onassis, Callas — poder, dinheiro e libido na Camelot dos Kennedy

"Dinheiro compra tudo. Até o amor verdadeiro" Nelson Rodrigues
A mítica Camelot, reduto medieval do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, sempre enevoada pelas brumas de Avalon e encantada pelos sortilégios do mago Merlim e da fada Morgana, tinha como  vício  único os duelos de espada com os invasores saxões, até que, de repente, Sir Lancelot, o favorito da corte, se metesse sob os lençóis da rainha Geneviève, em sinistra perfídia da qual o venerável soberano jamais iria se recobrar.

As peripécias da lenda arturiana iriam — trocando-se as liças bélicas por um insaciável show de descargas hormonais sem nenhum compromisso com a ética conjugal — assoalhar o carisma de outra Camelot fictícia: aquela que buscou legitimar, séculos depois, nos Estados Unidos, com atmosfera monárquica, a dinastia republicana dos Kennedy.  

Consistiu, essa Camelot de mentirinha, numa inteligente estratégia de marketing intuída não por John, o Artur revivido, na vida real um adúltero serial e até mesmo incestuoso, capaz de se revezar por três anos com seu irmão Bobby no leito da estrela número 1 de Hollywood, mas por Jackie, sua mulher, a qual, por trás da resguardada fachada de esposa devota e resignada, escondia uma Geneviève vingativamente voluptuosa. Disposta, aos olhos de um público iludido, a traduzir o mito medieval em lenda contemporânea, Jacqueline premeditou uma entrevista para a revista Life com o historiador Theodore H. White – autor de um livro sobre a campanha presidencial de 1960. O termo Camelot ganhou as manchetes e a América engoliu a simulação.

John-Kennedy
Por três anos, John e Bobby se revezaram na cama de Marilyn Monroe
Express/Getty Images
A Camelot dos Kennedy foi uma tremenda bacanal, no qual Jack e Jackie — nunca juntos, diga-se — fizeram as honras da casa, numa sequência sôfrega de triângulos eróticos, e quadrados libidinosos, e quartetos lascivos, e hexágonos lúbricos, e poliedros promíscuos, geometria carnal que faria Bill Clinton, vítima de uma solitária libertinagem, parecer um sacristão. 

Coube a Peter Evans em seu Nêmesis (Editora Intrínseca, 367 págs., R$ 49,90) – publicado no Brasil com o expressivo subtítulo: “Onassis, Jackie O e o triângulo amoroso que derrubou os Kennedy” — produzir o minucioso acervo dessa esbórnia toda, na qual o poder e o dinheiro — muito poder e um excesso de dinheiro — serviam de combustível à libido. Evans, autor de uma biografia de Aristóteles Onassis, morreu em 2012. O gossip em Hollywood é que Fernando Meirelles estaria pronto para levar Nêmesis às telas.

Poderia começar pela cena do jantar na Casa Branca naquele mesmo dia em que milhões de pessoas, mundo afora, haviam testemunhado, com lágrimas nos olhos e agonia no coração, o enterro de John Kennedy, assassinado em Dallas, e o sofrido transe da viúva e de seus dois filhinhos. O luto recomendava recolhimento familiar e, no entanto, à mesa do clã Kennedy, lá estava o controvertido magnata grego Aristóteles Onassis — na condição de que mesmo? 

Onassis hospedou-se na própria Casa Branca — antes mesmo de o sucessor de Kennedy, o vice Lyndon Johnson, aparecer para ocupar os aposentos presidenciais. Chegou ali com a convite de Lee Radziwill, irmã de Jacqueline, e do marido dela, Stanislas Radziwill. Ou seja, de repente um milionário estrangeiro que andava sempre às turras com as autoridades americanas por questões de Fisco e comércio — e que se tinha prometido jamais botar os pés naquela América que o desprezava tanto quanto invejava sua fortuna — usufruía, em ocasião lúgubre, de um privilégio extraordinário.

Kennedys-e-Monroe
Dois meses depois do constrangedor aniversário de 'Mister President', Marilyn se matou
Cecil Stoughton/Time Life Pictures/Getty Images
“The Greek” — como Bobby Kennedy iria pejorativamente jogar na sua cara, à sobremesa daquele jantar tribal — chegara à Casa Branca no enquadramento de um triângulo amoroso que logo revelaria um formato ainda mais elíptico. Aquele armador feioso com arcabouço de estivador mantinha um longo affair com Lee, sob os olhares tolerantes  do marido dela, um soi-disant príncipe polonês que chegara em Londres a bordo de uma fortuna surrupiada da Cruz Vermelha suíça. Faziam parte do jet set londrino. Aquela gente para quem títulos de nobreza decorativos só se completavam de verdade no usufruto de amizades endinheiradas. 

A viúva Jackie convenceu a quem queria crer
na dinastia republicana. Casada, vingou-se de Jack
nos braços de William Holden
CBS Photo Archive
O convite que Lee fizera a Onassis para a estada na Casa Branca era, na verdade, um convite da própria Jackie, resguardando-se o decoro da viuvez. A então primeira-dama dos EUA, um mês antes da morte do marido priápico, desfrutara de uma noite de sexo rasgado com “O Grego”, numa cabine vizinha à da irmã, a bordo do iate Christina, quando ela, Jacqueline, se refazia, no mitológico Mar Egeu, das dores pela morte de um bebê prematuro (Patrick sobreviveu apenas por três dias). Kennedy sequer visitara a mulher no hospital. Suspeitava que o filho não era seu, e sim resultado de uma incursão relâmpago da primeira-dama junto aos travesseiros de William Holden, o consorte marombado de Kim Novak no filme Picnic (que no Brasil ganhou o irônico título de Férias de Amor).

Represálias fugazes, as de Jackie, na comparação com o incêndio de testosterona que era o marido-presidente. JFK reuniu um estrelado acervo de conquistas: Audrey Hepburn, Angie Dickinson, Janet Leigh, Jayne Mansfield e Rhonda Fleming. Mas a maior humilhação, para a esposa, era aquele ménage à trois que John e Bobby mantiveram com Marilyn, com ápice no constrangedor espetáculo público do “Happy Birthday, Mister President”.  



Dia 19 de maio de 1962, Madison Square Garden em Nova York, 45 anos de Kennedy. Espremida num traje que lembrava uma sereia fora do peso, a atriz mostrou-se visivelmente perturbada pelo bullying tramado pelos irmãos cara de pau. Jackie não deu o ar de sua graça (quando Marilyn se matou, dois meses depois, Bobby Kennedy despachou o cunhado Peter Lawford para checar, antes da chegada da perícia, se havia ali algo que comprometesse ele e o irmão).

Na ausência contumaz do maridão emburrado e insensível, o encontro com Onassis se revelaria bastante proveitoso para Jackie. O magnata ofereceu às duas irmãs o consolo discreto, a salvo dos paparazzi, de sua carruagem dos mares, o Christina, de três chefs de cozinha, de dois cabeleireiros franceses, de muito champanhe Cristal, caviar de beluga e violinos ciganos. Acabou por oferecer à inconformada Jackie um pouco mais do que isso. 

Lee não teria feito o convite para Onassis se hospedar na Casa Branca, na noite infeliz, se isso não fosse ideia da própria Jacqueline, interpretou o escritor Truman Capote, confidente da princesa Radziwill. “Lee estava perdidamente apaixonada pelo Grego de Ouro”, contou Capote. “Mas era uma imbecil, fez direitinho o jogo de Jackie.” 

Quando Onassis entrou no circuito, Lee, quatro anos mais nova que Jackie, via-se mais uma vez relegada à sombra da majestosa irmã. Mas, nessa trama alucinada de traição, clandestinidade e peçonha, a caçulinha também sabia operar suas vendetas. Suspeita-se de ter cedido ao assédio do cunhado quando Jackie, no hospital, acabara de dar a luz à  primogênita Caroline, em 1957. De concreto, sabe-se que ela substituiu Jackie grávida na histórica viagem do presidente à Alemanha, em junho de 1963. Aquela em que Kennedy proferiu a famosa frase: “Ich bin ein Berliner”. Cumpriu — diz Peter Evans — todas as obrigações protocolares de primeira-dama substituta. Distraiu também Kennedy fora do cerimonial.   

O casamento de Jackie e Jack era de fachada — o círculo íntimo da Camelot de Washington tinha ciência disso e a imprensa, atrelada a um pacto de silêncio paranoico contra os inimigos eternos da Guerra Fria, acobertava as travessuras da Presidência, as políticas e as sexuais. A mídia era cúmplice, mas Jackie, ao se envolver com um personagem como Onassis, de fortuna escusa e passado ignoto, cujo mérito maior era o de ser o homem mais rico do mundo, desferia um tapa direto e vingativo no rosto hipócrita do establishment. A união só era mantida em nome da reeleição do John, em 1964 — que o atentado de Dallas impediu. 

O zelador da moralidade alheia era Bobby, tão inescrupuloso quanto o irmão. Tratou de oferecer um ombro suspeito à cunhada viúva — e afagos por baixo da mesa. Por isso, a sombra de um personagem como Onassis o inquietava tanto. Jackie tentou salvar as aparências até que o próprio Bobby, pré-candidato à sucessão de Johnson, foi assassinado em 1968. O esquisito casamento da princesa de Camelot com o plebeu dos petroleiros podia, enfim, se realizar.

Ari-e-Jackie
Ari mostra a Jackie o seu artefato de sedução (AFP)
Quem acabou tendo de ir cantar em outra freguesia, ao fim de um conúbio íntimo que começara em 1957, foi a soprano Maria Callas. Ela e Ari costumavam protagonizar cenas tórridas até mesmo no banco de trás da limusine. Callas estava no iate Christina, em outubro de 1968, quando Onassis a convidou a desembarcar; a nova favorita estava a caminho. No dia do casório, 19 de outubro, o céu caiu sobre a ilha privada de Skorpios. Os deuses gregos se pronunciavam.

Com Jackie era business as usual: Ted Kennedy, o irmão sobrevivente, foi acertar o pacto nupcial da cunhada e pediu 100 milhões de dólares para assegurar o futuro da cunhada e dos sobrinhos. Onassis regateou. Acertou em 20 milhões — que o contador de Jackie cobrou à vista. O noivo sem brasão também depositava na ex-princesa de Camelot altas quimeras comerciais.

Sempre vigiado pelo armador Stavros Niarchos, duplamente rival (nos negócios e na cama, já que Niarchos seduziu Tina, a primeira mulher de Onassis, para obter inside information do concorrente), Onassis pretendia usar a ex-sra. Kennedy para se aproximar, com argumentos mais sedutores do que o habitual expediente de lubrificar as mãos dos intermediários, da junta de coronéis que tomara o poder na Grécia. Jackie recusou-se a entrar no jogo. Dois dias após o casamento, Ari se queixava, em Londres, que aquilo lá tinha sido um erro.  

Onassis morreu em 1975. Tinha 75 anos (e não 69, como fingia). Jackie estava à beira de seu leito de morte. Ela celebrou “os muitos momentos belos” que tiveram juntos. Maior deferência foi manter, até a sua própria morte, o sobrenome que a insincera nobiliarquia de Camelot tanto menosprezava. Sua lápide diz: “Jacqueline Bouvier Kennedy Onassis, 1929-1994”. 

Nirlando Beirão
No CartaCapital
Leia Mais ►

Interroguem Mariza: porque a senhora plantou salsa, couve, cebolinha e alface?


É possível que alguém possa chamar de “benfeitorias” fazer uma horta, plantar uma mudas de árvore e criar patos?

Pois o Estadão chama, na matéria em que diz que “Segundo relatos, ex-primeira-dama e Lula realizaram benfeitorias em imóvel de Atibaia“. Vou reproduzir, para que o leitor veja que eu não me passei na folia do Carnaval:

“Frequentadores do Sítio Santa Bárbara em Atibaia (SP), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua mulher, Marisa Letícia, também fizeram benfeitorias no local. A ex-primeira dama plantou árvores frutíferas, fez uma horta e cria patos na propriedade, que, no papel, está em nome dos empresários Fernando Bittar e Jonas Suassuna, sócios do filho mais velho do petista, Fábio Luís, o Lulinha. Segundo pessoas próximas ao ex-presidente, Marisa também transferiu para o sítio em Atibaia as festas juninas que costumava fazer na Granja do Torto, residência de campo dos presidentes da República, quando ocupava o cargo de primeira-dama. A lista de convidados costuma ser feita por ela.”

É possível ter tanta cara-de-pau ao ponto de dizer que plantar um dúzia ou duas de mudas é “benfeitoria”? Fazer uma horta? Criar uns patos no açude? E olha que isso nem é uma citação “pitoresca”, mas o “abre” da matéria, o mais importante…

Meu Deus! Não irão dizer, por acaso, que agora a família Lula está no agronegócio? Será que couve e cebolinha agora são commodities na Bolsa de Chicago?

E onde é que a D. Mariza ia fazer a festa junina? Na Granja do Torto? Vejam o primor: “a lista de convidados costuma ser feita por ela”… Não, é feita pelo Itamaraty, mas a Angela Merkel, o Obama e o François Hollande não puderam vir, por causa da crise…

Pena que o Ary Leite e o Francisco Milani, que fizeram o “Seu Saraiva”, aquele que tinha chiliques diante de coisas imbecis, já tenham partido, porque é coisa para o personagem…

Ah, mas o Estadão é capaz de coisas mais talentosas. Tem uma chamada dizendo que “Topógrafo diz que mudou às pressas área de sítio em 2015“, quase sugerindo uma operação de fraude. Quem sabe aquele “empurrãozinho” de cerca?

Numa matéria muito mal escrita (propositadamente?) deixa certa confusão se o sítio que Lula frequenta está sendo dividido ou se, ao contrário, um de seus proprietários, Jonas Suassuna, está comprando algum pedaço de algum sítio vizinho, o que parece mais provável pela declaração do agrimensor: “É um desmembramento para esse Suassuna que parece que ele comprou 30 mil metros do vizinho.”

Como minha família é roça, vou falar em linguagem do interior, para que os incautos não se impressionem com as medidas, imensas, se comparadas à área de nossos minúsculos apartamentos. 30 mil metros é pouco mais que um alqueire paulista (24 mil m²) e bem menos que um alqueire mineiro (48 mil m²).

Vejam o tamanho do escândalo: um alqueire, seja para comprar ou para vender, é nada como propriedade rural.

É páreo duro com a “benfeitoria” de criação de patos.

Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

Os inimigos de Lula e os milhões de Silvas


"Não parece razoável o que estão fazendo com o Lula". A frase do tucano Luís Carlos Bresser-Pereira poderia ser o sinal da tão esperada distensão politica, mas não é por um único motivo: Lula não é adversário, é inimigo. Ao adversário se estende a mão, reconhece-se a sua dignidade humana e se respeita as regras do jogo. Lula nunca foi aceito. Desde o primeiro dia do primeiro mandato, Lula tem sido submetido a um ataque sistemático. A Folha de S. Paulo investigou uma tal propensão genética da família Silva ao álcool, a Revista Veja já celebrou o 'câncer do presidente' e o Globo já apresentou Lula como presidiário em suas charges. Tudo isso sem falar na violência sanitarizada dos telejornais da Globo com seus apresentadores cinicamente consternados com a corrupção no país, enquanto o nome emissora (agora a RBS) aparece em mais um escândalo fiscal. Na ausência absoluta de padrões éticos jornalísticos, nos resta perguntar se a raiva irracional de William Waack contra Lula, Hugo Chaves e Cristina Kirchner, por exemplo, não seria o caso de tratamento psiquiátrico.

No fundo no fundo, até os incendiários Aécio Neves e Carlos Sampaio sabem que "não é razoável" como a imprensa trata o ex-presidente Lula. Mas Lula da Silva foi longe demais em sua loucura política de desafiar o establishment; e olhe que para aqueles de nós frustrados com o PT, Lula fez muitas concessões e perdeu a oportunidade de fazer as mudanças radicais que o Brasil tanto precisa; entre elas a urgente e cara ley dos médios, a reforma agrária, e a justiça tributária. Inútil chorar o leite derramado aqui porque ele segue derramando. O governo Dilma Rousseff continua implacável no mesmo script, com o agravante de que em sua tecnicidade Dilma nega a politica, se afasta do povo e afasta de vez a esperança na tão sonhada virada de mesa do primeiro governo, do segundo, do terceiro, do quarto.

Ainda que Lula tenha alimentado os seus próprios predadores na esperança inútil de que fazendo concessões estratégicas a elite permitiria um governo popular, ir 'as ruas defendê-lo é um dever de todos aqueles com um mínimo de educação politica e de perspectiva histórica. A perseguição implacável que sofre é um indicativo das suas virtudes não dos seus defeitos. Lula não é atacado porque fez menos do que o Brasil precisa, mas sim porque ousou arranhar a centenária estrutura hierárquica do país trazendo os pobres para o debate nacional. A não ser que as forças políticas de esquerda corroborem com o moralismo dirigido do conglomerado policial-midiático segundo o qual o PT é o partido mais corrupto da historia, a perseguição implacável a Lula deveria despertar uma solidariedade política estratégica. A mensagem é clara aqui: se Lula, com suas concessões pragmáticas, se converteu em inimigo mortal, imagine a maquina de guerra que seria montada contra um hipotético governo muito mais 'a esquerda? Talvez o tratamento editorial da Globo ao presidente venezuelano Hugo Chaves – o sorriso mal disfarçado dos apresentadores da Globo News com a sua morte - nos dê uma milésima dimensão de como seria o terror midiático a um projeto político radical que as forças mais a' esquerda do PT defendem e que o Brasil urgentemente precisa.

Que a imprensa trate Lula como inimigo é explicável e deveria até fazer bem ao ego do ex-presidente. Ter a mídia como inimiga é um termômetro importante. O que não é razoável é o silencio das esquerdas com a violência politica da qual o ex-presidente é vitima, como se os movimentos sociais e os partidos neste espectro políticos não fossem os próximos da fila. Eles virão por nós!

Não é uma incongruência defender o legado de Lula da Silva e criticar o pragmatismo político que nos trouxe ao momento atual. Tampouco se trata de relativização moral porque o que está em questão aqui não é provar sua inocência. Tarefa inútil. Há neste momento toda uma estrutura estatal, incrivelmente sob o comando do ministro da Justiça do PT, para encontrar um 'crime' praticado pelo ex-presidente. Perguntar não ofende: quem de nós sobreviveria a tamanha cruzada policial-midiática? Não me refiro a uma checagem de antecedentes criminais ou a uma varredura em contas no exterior, mas a todo um aparelho policial estatal orientado a encontrar um crime, um arranhão na biografia, um desvio na conduta dos filhos, dos vizinhos, dos amigos.

Não há tempo a perder. Se há alguma lição a se aprender do julgamento do 'mensalão' é que a defesa de Lula da Silva deve acontecer nas ruas e nas mídias sociais porque é perda de tempo lamentar a inimputabilidade tucana sob a plutocracia judiciária. Juízes, promotores e delegados têm alma, classe social e partido político. Senão, como explicar as aberrações jurídicas com assento na suprema corte e com suas retóricas anti-petistas nos e fora dos autos? Leigos nos assuntos legais, eu e meu sobrinho de sete anos sabemos que "não é razoável" que um juiz falastrão utilize suas prerrogativas (e o nosso dinheiro!) para militância político-partidária e que seja endossado pelo silencio ensurdecedor dos seus pares. Mania de perseguição? Nas mãos petistas um cartão corporativo, uma tapioca, uma canoa de lata ou o empréstimo de um sitio em Atibaia têm mais peso policial-midiático do que um apartamento na Avenida Foch, no centro de Paris, um helicóptero com meia tonelada de cocaína, as fraudes do metro paulistano, ou cinco milhões de dólares em bancos suíços.

A tentativa de assassinato da biografia da figura mais marcante da vida política nacional contemporânea tem um outro significado importante. Com o assassinato politico de Lula abre-se caminho para o desmonte da política soberana do pré-sal e para o retrocesso nas conquistas sociais como o Bolsa Família e as cotas raciais nas universidades publicas. É o que está por trás da violência contra Lula da Silva e é o que deveria nos unir em sua defesa.

A história haverá de colocar em seus devidos lugares dois presidentes, em dois brasis e com duas trajetórias distintas. Um, (o presidente-sociólogo, poliglota, membro da Academia Brasileira de Letras, descendente de imigrantes portugueses, frequentador dos círculos acadêmicos norte-americanos) levou a cabo um criminoso programa de privatizações do patrimônio público e alienação da soberania nacional. O outro, (o presidente nordestino, metalúrgico, sem formação superior, e sem etiquetas no falar) resgatou a esperança de milhões de brasileiros submetidos à humilhação da fome e da seca. Nossos netos lerão nos livros de história sobre um presidente semi-analfabeto, que abriu as portas do ensino superior para milhões de jovens condenados por um presidente-sociólogo a repetir os passos dos seus pais envelhecendo fora das universidades. A história não poderá apagar o nome do presidente nordestino que, não sendo poliglota como o presidente-sociólogo, inseriu o Brasil como país soberano na cena politica mundial. Talvez quem hoje tenha 20 anos de idade ou nasceu sob o governo do PT não tenha um parâmetro para comparar o que era a vida dos mais pobres uma década. Eu tenho. Como jovem e membro da Pastoral da Criança, durante os últimos resquícios da teologia da libertação no interior da Bahia, eu conheci de perto a fome, a desnutrição e a morte. Pesávamos crianças raquíticas, de pais raquíticos, com salários raquíticos. Era morte produzida pelas politicas sociais do presidente sociólogo e sua turma. Agora eles perseguem a capa do jornal matutino com Lula da Silva algemado. Talvez ganhem a foto, mas perderão o sono. Somos Lula! #‎LulaEuConfio‬‬‬‬‬

Jaime Amparo Alves, Doutor em Antropologia Social pela Universidade do Texas em Austin e professor de sociologia e antropologia da City University of New York (CUNY/CSI)
No 247
Leia Mais ►

O dia em que Dirceu interrogou Moro


Muitos já escreveram sobre o depoimento de Dirceu a Moro. Vai aqui uma outra leitura que demonstra que os papeis parecem ter se invertido naquela ocasião.

Zé Dirceu deu um depoimento de mais de 2 horas ao juiz Moro.

Confesso que havia de minha parte uma grande expectativa, uma vez que estavam enfim frente a frente o inimigo público número um da Nação e o justiceiro eleito pela grande mídia e pela classe média brasileira.

Logo no começo foi possível ver um Dirceu magro, envelhecido e com certa aparência de cansaço. Seria logo engolido por Moro.

Mas para minha surpresa, Dirceu foi respondendo pausadamente e com muito preparo a todas as questões que lhe eram formuladas.

Aos poucos fui percebendo que as perguntas a ele dirigidas eram frágeis, quase simplórias.

Já tinha lido alguns despachos de Sérgio Moro que me chamaram a atenção por uma certa dificuldade em escrever em bom Português.

Alguém poderá alegar preconceito meu, uma vez que nosso idioma passa constantemente por transformações. Porém, ao contrário do comum dos brasileiros, um juiz não pode escrever mal, sob pena de ser mal interpretado em seus despachos.

Mas voltando às perguntas.

Moro à certa altura pergunta a Dirceu se ele tinha alguma divergência com relação à delação premiada de Fernando Moura que o isentou do esquema da Lava Jato ao que Dirceu responde de imediato que não. Mas é claro que não. Se ele foi isentado, como iria invalidar a delação?

Moro faz até 5 vezes as mesmas perguntas, demonstrando que, ou não se preparou direito para o embate ou realmente não tinha o que perguntar a alguém que ele certamente já sabe que não está envolvido na Lava Jato. É que a vaidade o impede de simplesmente soltar o preso o que seria ruim para sua imagem.

Ele e o promotor do Ministério Público, de voz adolescente trêmula demonstraram não conhecer o Zé Dirceu de antes de 2005, ano que estourou o Mensalão. Não conhecem sua história.

Por não conhecer sua história não conseguem compreender que alguém dê consultorias à empresas sem que elabore planilhas, tabelas, gráficos e relatórios como faria qualquer técnico médio.

Não sabiam que o trabalho de Dirceu era, aproveitando-se de seu relacionamento com políticos importantes e governos de esquerda da América Latina e Cuba, abrir oportunidades para que empresas brasileiras pudessem disputar concorrências lá fora, com consequente entrada de divisas para o país e contratação de mão de obra brasileira.

À certa altura Moro lhe pergunta se não enriqueceu com isso, ao que Zé lhe responde que seu objetivo de vida nunca foi enriquecer. Incompreensível para lacaios do capital.

O promotor foi ainda mais primário. Indagou o por quê de Dirceu ter parado de dar consultorias. Ele responde: ora, porque eu estava preso! O promotor não sabia disso?

Além disso, ao final, indagou sobre a pensão às filhas de Dirceu, coisa totalmente alheia à Lava Jato.

Moro revelou também desconhecer que Dirceu não é ministro nem deputado desde 2005.

À certa altura um dos inquiridores o chama por excelência, ao que Dirceu responde que dispensa o termo uma vez que não é mais deputado.

Dirceu foi humilde do começo ao fim. Nem ao perceber a fragilidade dos que o ouviam, mudou de comportamento.

Mas Moro sentiu que lhe escapava a capacidade de desestabilizar o homem e induzi-lo ao erro. Por isso, fez questão de demonstrar sua autoridade quando Zé Dirceu ao responder a alguém, virou-se de costas. Lembrou então ao depoente que não se vira as costas para um juiz, ao que Zé reagiu com um pedido de desculpas.

Outra pergunta que demonstra cabalmente o despreparo de Moro foi quando ele indagou a Dirceu sobre seu patrimônio em dinheiro. Este lembrou-lhe que seu sigilo bancário havia sido quebrado, o que só demonstrou o volume de dívidas que vem se acumulando mês a mês.

Ao final, quando Moro deu a palavra a Dirceu para as últimas considerações, la crème de la crème: a mídia sempre martelou que as relações entre ele e Lula estavam muito abaladas pelo fato de o ex-presidente nunca tê-lo defendido, certo? Pois Dirceu afirmou a Moro que Lula não tem qualquer envolvimento em esquemas de propinas da Petrobrás.

Quando digo que desconfio que Moro e o promotor desconhecem a história de Dirceu é porque foram surpreendidos. Esperavam entrevistar um homem destruído psicologicamente mas não esperavam que ele tivesse aquela fibra moldada em anos de treinamento de guerrilha, vida clandestina, privações de toda ordem.

E Dirceu não se utilizou disso para crescer frente a eles. Eles é que se assustaram e se apequenaram diante do mito.

Por tudo isso, a impressão que se tem foi de que Moro prestou um depoimento a Zé Dirceu.

Nesse depoimento, Moro revelou que é um juiz despreparado, não conhece História, não se aprofundou em saber qual trabalho Dirceu desempenhou em suas consultorias e nem tinha perguntas objetivas que o pudessem incriminar.

A impressão que fica é que, devido à juventude e imaturidade, Moro e o promotor do MP estiveram juntos jogando games na véspera do depoimento.

E após o depoimento, Moro deve ser condenado a libertar Zé Dirceu.

Se continuar preso será a prevalência da vaidade de Moro sobre a Justiça.




Fernando Castilho
No Análise e Opinião
Leia Mais ►

Coletivo de jornalistas em Blumenau fiscaliza sistema de transportes


Uma iniciativa experimental em jornalismo colaborativo monitorou no dia 1º de fevereiro, o primeiro dia de atuação da Viação Piracicabana, a nova empresa de transporte coletivo de Blumenau. Criado na noite de quinta-feira, 28 de janeiro, o Coletivo Blumenau conseguiu reunir, até as 20h de segunda-feira, 251 participantes que publicaram mais de 100 fotos e vídeos das condições e da lotação dos ônibus e terminais. A Piracicabana foi contratada por 180 dias após o prefeito Napoleão Bernardes (PSDB) rescindir o contrato com o Consórcio Siga, concessionário desde 2007.

Embora ainda em caráter emergencial, a principal constatação do primeiro dia de monitoramento coletivo foi de que parte da frota da Piracicabana apresentou problemas de manutenção, entre os quais portas que não fechavam, catracas e elevadores para deficientes emperrados e velocímetros travados. Também houve relatos de pelo menos quatro ônibus enguiçados nos trajetos ao longo do primeiro dia. Todos os flagrantes foram registrados com fotos pelos integrantes do Coletivo Blumenau. Dos 240 ônibus contratados, 80 circularam na segunda-feira. A contratação de novos motoristas deve ampliar o número de veículos e linhas ao longo da semana, informou a concessionária.

A mediação das informações publicadas nesta primeira experiência do Coletivo Blumenau foi feita pelo jornalista Evandro de Assis, professor de Jornalismo da FURB e editor-chefe do Jornal de Santa Catarina – o Santa – até julho de 2015. Também integram a equipe os jornalistas Clóvis Reis, professor do curso de Publicidade da FURB e colunista do Santa, e Edgar Gonçalves Jr., editor-chefe do Diário Catarinense até setembro de 2015 e ex-professor de Jornalismo da Univali. Outros mediadores poderão participar nas próximas coberturas sobre outros assuntos de interesse da população.

“Todo mundo tem a ganhar”

A proposta do Coletivo Blumenau é potencializar o jornalismo local com base nas mídias digitais e no engajamento da população: “Há tempos a comunicação evoluiu da relação de um a um e de um a muitos para o modelo de muitos a muitos, um processo com muitos emissores, muitos receptores e uma quantidade muito maior de intercâmbios e de cooperação”, explica Assis. “Os leitores não se contentam mais em simplesmente receber informações, mas buscam a interação com a produção da informação, desafiando os padrões tradicionais da comunicação e do jornalismo.”

O resultado da produção colaborativa é a qualificação da opinião pública e do próprio jornalismo: “Se o jornalismo melhora à medida que o número de fontes de informação cresce, temos que usar a internet, os smartphones e as redes sociais para aproximar jornalistas e cidadãos. Todo mundo tem a ganhar.”

O Coletivo Blumenau funciona em um grupo no Facebook. O resultado do trabalho é publicado na página www.facebook.com/coletivoblumenau

Clóvis Reis é jornalista
No OI
Leia Mais ►

A metamorfose



A METAMORFOSE estuda a história do Partido dos Trabalhadores, desde 1980 até 2005, com ênfase na análise de seu programa, de sua estratégia política e da análise que faz da sociedade brasileira.

O livro está disponível em formato digital, gratuitamente. E logo mais estará disponível em versão impressa. Caso você deseje contribuir com a versão impressa, compre agora no PagSeguro o livro com desconto, R$ 30,00. Assim que o livro estiver impresso, você receberá seu exemplar pelo correio.

Descarregue aqui o livro:


Reserve o seu exemplar impresso com desconto pelo PagSeguro.

Valter Pomar
Leia Mais ►

Globo mostra ao vivo como que se pratica censura

Foi um ato de censura explícita da Globo. E o assunto explodiu nesta terça de carnaval (9) nas redes sociais e nos blogs relacionados à mídia. A maior rede de TV do país sacaneou a Escola de Samba Vila Isabel e só passou parte de seu desfile.

A jornalista Fátima Bernardes, da Globo, durante a transmissão do desfile das escolas de samba
do Rio: “Isso vai ficar muito estranho”.
A transmissão do segundo dia do grupo especial começou por volta das 22h45 de segunda-feira (8), quando a escola de Martinho da Vila ainda passava pelo Sambódromo, com o samba enredo homenageando o "esquerdista" Miguel Arraes (seria esta a razão da censura?).

A situação, inusitada, criou embaraços para os narradores Luis Roberto e Fátima Bernardes. Eles não puderam apresentar o final do desfile da Vila Isabel. A situação, esdrúxula, equivale à transmissão da decisão do campeonato brasileiro de futebol somente até os 15 minutos do segundo tempo. Quer dizer: não há lógica alguma. E a situação se tornou vexatória para a emissora carioca porque o áudio da indignação dos apresentadores vazou.

Nos diálogos que vieram a público, Luis Roberto pergunta: “Faltam duas alegorias. Isso não vai ser narrado pra Globo? Pro compacto?” A resposta não é ouvida, mas possivelmente foi “não” já que Fátima observa: “Nossa, se o compacto ficar sem esse final vai ficar muito estranho.” Mais estranho ainda é o ato deliberado de censura à Vila Isabel. Ainda mais que a abertura do desfile da escola passou ao vivo somente pelo portal G1, mas sua apresentação acabou cerca de 20 minutos antes do fim, com ainda dois carros por passar.

Globo luta contra queda da audiência

Por causa da constante queda na audiência, a Globo, já há alguns anos, começa as transmissões do Carnaval com o desfile já em andamento. Para compensar o que não foi mostrado, exibe, depois, ao final, um compacto com a apresentação da primeira escola. Neste ano, quando a emissora amarga índices de audiências ainda menores, decidiu não mostrar as duas primeiras escolas de cada noite. Mas a repercussão negativa foi tamanha, que a Globo teve que rever a sua decisão.

No blog de Maurício Stycer, especializado em TV, a critica à decisão da Globo termina com um elogio à postura de Fátima Bernardes, pois a crítica que ela fez ao vivo se revelou acertada. Na manhã desta terça-feira, a Globo exibiu um compacto de 45 minutos do desfile da Vila Isabel. E quem assistiu, percebeu que a transmissão foi encerada secamente por Luis Roberto com uma imagem da atriz Aghata Moreira, logo depois da passagem da ala Teatro dos Mamelungos — sem mostrar o final da escola.”Como previu Fátima, ficou estranho”, escreveu Stycer.

Ouça o áudio que vazou da Fátima Bernardes alertando que “ficaria estranho cortar o desfile”:



Leia Mais ►

O problema do “esperto” é mostrarem o que ele é: um idiota. Assista: fazendo mervices


Aldo Mariátegui, um jornalista “poderoso” do Peru, onde funciona como um dublê de colunista a la Merval Pereira e dirigente de empresas de comunicação, ficou com cara de palerma no programa Sin Medias Tintas,  na TV Latina, emissora acusada pelos jornalistas peruanos de “tv basura“: tevê lixo.

Logo ele, tão metido a esperto que criou a expressão “esquerda caviar” que o luminar Rodrigo Constantino importou sem royalties ao autor.

Foi tirar “onda” em cima de Verónika Mendoza, nascida e criada em Cuzco, e de mãe francesa, dirigindo-se a ela em francês, claro que na sua estratégica de “mostrar” que a candidata da Frente Ampla de esquerda às eleições presidenciais peruana era mais uma “caviar”.

Tomou um traulitada daquelas de ir parar longe: calmamente, Verónika respondeu fluentemente em quéchua, língua das populações indígenas do Peru, falada desde os incas até hoje entre os povo do altiplano.

Allillanchu kachkanki, Aldo. Sumaq ch’isi kachun qamkunapaq llaqtamasiykuna”.

“Como vai, Aldo. Boa tarde, meus concidadãos”, disse ela.

Assim, na lata, deixando o idiota com cara de idiota, virou-se para a outra apresentadora, Mónica Delta, e completou, candidamente: “Eu tenho paciência, Mónica”.



Fernando Brito
No Tijolaço
Leia Mais ►

Quando Hollywood denuncia a intolerância

O filme "Dalton Trumbo — A Lista Negra" merece mais atenção do que tem recebido até aqui.

Num desses raros e belos momentos em que o cinema norte-americano se debruça com coragem sobre a história de seu país, o filme retrata a aparição e consolidação do machartysmo, um sistema de perseguição a milhares de lideranças populares, sindicalistas, altos funcionários do Estado e intelectuais. Num país onde o cinema se tornava uma indústria importante, com faturamento bilionário, milhares de empregados e uma força política capaz de influenciar até mesmo negociações comerciais realizadas no final da Segunda Guerra Mundial, a perseguição também envolveu atores, diretores e roteiristas de Hollywood, num processo que jogou os Estados Unidos num período de treva cultural e retrocesso político.

Com atores competentes e uma narrativa cronólogica, que facilita a compreensão dos acontecimentos, o personagem central do filme é Dalton Trumbo, roteirista filiado ao Partido Comunista. Ao se recusar a prestar depoimento sobre sua militância no circo de uma Comissão do Congresso, num ambiente típico das CPIs que os brasileiros conhecem muito bem, Trumbo recusou-se a delatar colegas de trabalho e foi condenado à prisão por "desacato." Ao deixar a cadeia, encabeçou a lista negra de profissionais proibidos de trabalhar.

Com uma competência fora do comum para redigir histórias para o cinema, passou a trabalhar na clandestinidade, organizando um grupo de perseguidos para atuar na sombra. Mesmo nessa condição, dois roteiros de Trumbo acabaram premiados com o Oscar — sem que na noite de premiação, transmitida pela TV para o país inteiro, a população pudesse saber quem era o verdadeiro vencedor.

Apesar das imensas distâncias impostas pela geografia, pela história, pela cultura e pela sociologia, o filme retrata uma situação de reviravolta política que os povos de nossa época — inclusive brasileiros — conhecem muito bem. Embalada pela retórica extremada da Guerra Fria, assistiu-se ali ao despertar de uma mobilização conservadora em busca de uma revanche contra conquistas sociais produzidas pelo New Deal promovido pelo governo de Franklin Roosevelt. Este é o pano de fundo do filme.  

Para além de importantes epopeias individuais, Dalton Trumbo — A Lista Negra ajuda a entender a intolerância política como uma estratégia de assalto ao poder. Trumbo foi chamado a depor em 1947, um ano depois que o Partido Republicano conseguiu uma primeira vitória em eleições parlamentares desde 1932, o ano em que o democrata Franklin Roosevelt venceu a primeira de quatro  eleições presidenciais consecutivas. Os membros do Partido Comunista, que chegou a possuir 70 000 filiados  logo após a Segunda Guerra Mundial, tornaram-se alvo visível de uma perseguição muito mais ampla, que atingiu lideranças da esquerda do Partido Democrata e personalidades comprometidas com as liberdades civis e os direitos dos oprimidos, como aparece na tela.

Sem melodrama, o filme narra cenas de grandeza e fraqueza, tão comuns em situações de gravidade política em que cada um é chamado a escolher o papel que se considera capaz de desempenhar na história de seu país.

Ninguém fez escolhas fáceis nem tem o direito de imaginar que merece uma medalha de herói, recorda o próprio Trumbo, numa passagem em que o filme reproduz um discurso feito no fim de sua vida. Ali, o roteirista retrata a perseguição política como um mal absoluto: fez mal tanto àqueles que perderam empregos para manter-se fiéis a seus princípios, como àqueles que mantiveram os empregos mas perderam os valores em que acreditavam.

Paulo Moreira Leite
Leia Mais ►

A lista dos brasileiros em paraísos fiscais

No final de janeiro, no curso da provocativa fase "Triplo X", da Operação Lava-Jato — que teve como único intento incriminar o ex-presidente Lula —, a Polícia Federal apreendeu uma lista com os nomes de centenas de ricaços brasileiros que remeteram grana para paraísos fiscais espalhados pelo mundo. As planilhas, com os registros das contas offshore e de seus respectivos donos, estavam armazenadas nos computadores da filial nacional da empresa panamenha Mossack Fonseca. A notícia atemorizou muitos sonegadores e foi encarada como um tiro pela culatra. Eles temeram os famosos — e seletivos — vazamentos da PF. Para seu alívio, porém, nada vazou e a imprensa simplesmente já esqueceu a lista.

Na ocasião, a expectativa entre os investigadores era de que as planilhas da Mossack detalhassem um esquema de evasão de capitais e lavagem de dinheiro não apenas dos suspeitos de corrupção na Lava-Jato, mas também em outras áreas. "A Mossack é bem mais ampla que o caso Lava-Jato. A empresa não só apresentou indícios de aparecer em outras investigações já deflagradas como provavelmente vai se descobrir muita coisa. Não podemos descartar que surjam provas para outras investigações", afirmou o delegado Igor Romário Paula, que esteve à frente das ações da Polícia Federal na operação.

A Mossack é conhecida mundialmente como uma "fábrica de laranjas". Fundada no Panamá em 1977 e com filiais em 40 países, ela é especialista na abertura de offshore. A partir dos grampos telefônicos feitos pela Polícia Federal, a força-tarefa concluiu que a empresa oferece diversos serviços ilícitos, como a venda de "laranjas" e de empresas offshore com a finalidade de ocultar a real titularidade dos proprietários brasileiros. Também há indícios de que ela facilitaria a abertura de contas no exterior. Em decisão proferida sobre a 22ª fase da Lava-Jato, o juiz Sergio Moro alegou que a Mossack serviu a "agentes envolvidos no esquema criminoso da Petrobras, que a usaram para lavagem de dinheiro".

Ainda na ocasião, o coordenador da força-tarefa em Curitiba, o carrasco Deltan Dallagnol, fez as suas midiáticas ameaças: "Aconselharia os donos dessas offshore a procurar espontaneamente o Ministério Público, tendo em mente o que aconteceu na Lava-Jato. Quem procurou primeiro obteve acordos melhores". Pela legislação brasileira, manter valores no exterior não é crime, mas donos de recursos acima de US$ 100 mil são obrigados a comunicar à Receita e ao Banco Central. No submundo do crime da lavagem internacional de capitais, as empresas offshore são abertas exatamente com o objetivo de ocultar dinheiro sem procedência, preservando a identidade de seus verdadeiros donos. 

Desde o final de janeiro, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal, tendo à frente o juiz Sergio Moro, já permitiram o vazamento de um bocado de factoides — sempre com o objetivo de incriminar Lula e outros petistas. Nesta ação seletiva, que visa atrair os holofotes da imprensa com propósitos nitidamente políticos, os ricaços com contas em paraísos fiscais — entre eles, banqueiros, ruralistas, industriais, barões da mídia e estrelas globais — podem dormir tranquilos. Nada vai vazar — a exemplo do que já ocorreu com as contas do HSBC na Suíça e com os fraudadores da Operação Zelotes!

Altamiro Borges
Leia Mais ►

Noam Chomsky: “Es el momento más crítico en la historia de la humanidad”

Chomsky repasa las principales tendencias del escenario internacional, la escalada militarista de su país y los riesgos crecientes de guerra nuclear. Se detiene en el proceso electoral estadunidense y esboza una reflexión sobre las esperanzas de paz en Colombia.

Estados Unidos fue siempre una sociedad colonizadora. Incluso antes de constituirse como Estado estaba eliminando a la población indígena, lo que significó la destrucción de muchas naciones originarias, sintetiza el lingüista y activista estadunidense Noam Chomsky cuando se le pide que describa la situación política mundial. Crítico acérrimo de la política exterior de su país, sostiene que desde 1898 se volcó hacia el escenario internacional con el control de Cuba, a la que convirtió esencialmente en colonia, para invadir luego Filipinas, asesinando a un par de cientos de miles de personas.

Continúa hilvanando una suerte de contrahistoria del imperio: Luego le robó Hawai a su población originaria, 50 años antes de incorporarla como un estado más. Inmediatamente después de la segunda Guerra Mundial Estados Unidos se convierte en potencia internacional, con un poder sin precedente en la historia, un incomparable sistema de seguridad, controlaba el hemisferio occidental y los dos océanos, y naturalmente trazó planes para tratar de organizar el mundo a su antojo.

Acepta que el poder de la superpotencia ha disminuido respecto al que tenía en 1950, la cima de su poder, cuando acumulaba 50 por ciento del producto interno bruto mundial, que ahora ha caído hasta 25 por ciento. Aun así, le parece necesario recordar que Estados Unidos sigue siendo el país más rico y poderoso del mundo, y a nivel militar es incomparable.

Un sistema de partido único

En algún momento Chomsky comparó las votaciones en su país con la elección de una marca de pasta de dientes en un supermercado. El nuestro es un país de un solo partido político, el partido de la empresa y de los negocios, con dos facciones, demócratas y republicanos, proclama. Pero cree que ya no es posible seguir hablando de esas dos viejas colectividades políticas, ya que sus tradiciones sufrieron una mutación completa durante el periodo neoliberal.

Están los republicanos modernos que se hacen llamar demócratas, mientras la antigua organización republicana quedó fuera del espectro, porque ambas partes se desplazaron a la derecha durante el periodo neoliberal, igual que sucedió en Europa. El resultado es que los nuevos demócratas de Hillary Clinton han adoptado el programa de los viejos republicanos, mientras éstos fueron completamente desplazados por los neoconservadores. Si usted mira los espectáculos televisivos donde dicen debatir, sólo se gritan unos a los otros y las pocas políticas que presentan son aterradoras.

Por ejemplo, destaca que todos los candidatos republicanos niegan el calentamiento global o son escépticos, que si bien no lo niegan dicen que los gobiernos no deben hacer algo al respecto. Sin embargo el calentamiento global es el peor problema que la especie humana ha enfrentado jamás, y estamos dirigiéndonos a un completo desastre. En su opinión, el cambio climático tiene efectos sólo comparables con la guerra nuclear. Peor aún, los republicanos quieren aumentar el uso de combustibles fósiles. No estamos ante un problema de cientos de años, sino de una o dos generaciones.

La negación de la realidad, que caracteriza a los neoconservadores, responde a una lógica similar a la que impulsa la construcción de un muro en la frontera con México. “Esas personas que tratamos de alejar son las que huyen de la destrucción causada por las políticas estadunidenses.

En Boston, donde vivo, hace un par de días el gobierno de Obama deportó a un guatemalteco que vivió aquí durante 25 años; tenía una familia, una empresa, era parte de la comunidad. Había escapado de la Guatemala destruida durante la administración Reagan. En respuesta, la idea es construir un muro para prevenirnos. En Europa es lo mismo. Cuando vemos que millones de personas huyen de Libia y de Siria a Europa, tenemos que preguntarnos qué sucedió en los últimos 300 años para llegar a esto.

Invasiones y cambio climático se retroalimentan

Hace apenas 15 años no existía el tipo de conflicto que observamos hoy en Medio Oriente. Es consecuencia de la invasión estadunidense a Irak, que es el peor crimen del siglo. La invasión británica-estadunidense tuvo consecuencias horribles, destruyeron Irak, que ahora está clasificado como el país más infeliz del mundo, porque la invasión se cobró la vida de cientos de miles de personas y generó millones de refugiados, que no fueron acogidos por Estados Unidos y tuvieron que ser recibidos por los países vecinos pobres, a los que se encargó recoger las ruinas de lo que nosotros destruimos. Y lo peor de todo es que instigaron un conflicto entre sunitas y chiítas que no existía antes.

Las palabras de Chomsky recuerdan la destrucción de Yugoslavia durante la década de 1990, instigada por Occidente. Al igual que Sarajevo, destaca que Bagdad era una ciudad integrada, donde los diversos grupos culturales compartían los mismos barrios, se casaban miembros de diferentes grupos étnicos y religiones. La invasión y las atrocidades que siguieron instigaron la creación de una monstruosidad llamada Estado Islámico, que nace con financiación saudita, uno de nuestros principales aliados en el mundo.

Uno de los mayores crímenes fue, en su opinión, la destrucción de gran parte del sistema agrícola sirio, que aseguraba la alimentación, lo que condujo a miles de personas a las ciudades, creando tensiones y conflictos que explotan apenas comienza la represión.

Una de sus hipótesis más interesantes consiste en cruzar los efectos de las intervenciones armadas del Pentágono con las consecuencias del calentamiento global.

En la guerra en Darfur (Sudán), por ejemplo, convergen los intereses de las potencias con la desertificación que expulsa poblaciones enteras de las zonas agrícolas, lo que agrava y agudiza los conflictos. Estas situaciones desembocan en crisis espantosas, como sucede en Siria, donde se registra la mayor sequía de su historia que destruyó gran parte del sistema agrícola, generando desplazamientos, exacerbando tensiones y conflictos, reflexiona.

Aún no hemos pensado detenidamente, destaca, sobre lo que implica esta negación del calentamiento global y los planes a largo plazo de los republicanos que pretenden acelerarlo: Si el nivel del mar sigue subiendo y se eleva mucho más rápido, se va a tragar países como Bangladesh, afectando a cientos de millones de personas. Los glaciares del Himalaya se derriten rápidamente poniendo en riesgo el suministro de agua para el sur de Asia. ¿Qué va a pasar con esos miles de millones de personas? Las consecuencias inminentes son horrendas, este es el momento más importante en la historia de la humanidad.

Chomsky cree que estamos ante un recodo de la historia en el que los seres humanos tenemos que decidir si queremos vivir o morir: “Lo digo literalmente. No vamos a morir todos, pero sí se destruirían las posibilidades de vida digna, y tenemos una organización llamada Partido Republicano que quiere acelerar el calentamiento global No exagero — remata — es exactamente lo que quieren hacer”.

A continuación cita el Boletín de Científicos Atómicos y su Reloj del Apocalipsis, para recordar que los especialistas sostienen que en la Conferencia de París sobre el calentamiento global era imposible conseguir un tratado vinculante, solamente acuerdos voluntarios. ¿Por qué? Debido a que los republicanos no lo aceptarían. Han bloqueado la posibilidad de un tratado vinculante que podría haber hecho algo para impedir esta tragedia masiva e inminente, una tragedia como nunca ha existido en la historia de la humanidad. Eso es lo que estamos hablando, no son cosas de importancia menor.

Guerra nuclear, posibilidad cierta

Chomsky no es de las personas que se dejan impresionar por modas académicas o intelectuales; su razonamiento radical y sereno busca evitar furores y, quizá por eso, se muestra reacio a echar las campanas al vuelo sobre la anunciada decadencia del imperio. Tiene 800 bases alrededor del mundo e invierte en su ejército tanto como todo el resto del mundo junto. Nadie tiene algo así, con soldados peleando en todas partes del mundo. China tiene una política principalmente defensiva, no posee un gran programa nuclear, aunque es posible que crezca.

El caso de Rusia es diferente. Es la principal piedra en el zapato de la dominación del Pentágono, porque tiene un sistema militar enorme. El problema es que tanto Rusia como Estados Unidos están ampliando sus sistemas militares, ambos están actuando como si la guerra fuera posible, lo cual es una locura colectiva. Cree que la guerra nuclear es irracional y que sólo podría suceder en caso de accidente o error humano. Sin embargo, coincide con William Perry, ex secretario de Defensa, quien dijo recientemente que la amenaza de una guerra nuclear es hoy mayor de lo que era durante la guerra fría. Chomsky estima que el riesgo se concentra en la proliferación de incidentes que involucran fuerzas armadas de potencias nucleares.

La guerra ha estado muy cerca innumerables veces, admite. Uno de sus ejemplos favoritos es lo sucedido bajo el gobierno de Ronald Reagan, cuando el Pentágono decidió poner a prueba las defensas rusas mediante la simulación de ataques contra la Unión Soviética.

Resultó que los rusos se lo tomaron muy en serio. En 1983 después de que los soviéticos automatizaron sus sistemas de defensa detectaron un ataque de misil estadunidense. En estos casos el protocolo es ir directo al alto mando y lanzar un contraataque. Había una persona que tenía que transmitir esta información, Stanislav Petrov, pero decidió que era una falsa alarma. Gracias a eso estamos acá hablando.

Sostiene que los sistemas de defensa de Estados Unidos tienen errores serios y hace un par de semanas se difundió un caso de 1979, cuando se detectó un ataque masivo con misiles desde Rusia. Cuando el consejero de Seguridad Nacional, Zbigniew Brzezinski, estaba levantando el teléfono para llamar al presidente James Carter y lanzar un ataque de represalia, llegó la información de que se trataba de una falsa alarma. Hay docenas de falsas alarmas cada año, asegura.

En este momento las provocaciones de Estados Unidos son constantes. La OTAN están llevando a cabo maniobras militares a 200 metros de la frontera rusa con Estonia. Nosotros no toleraríamos algo así sucediendo en México.

El caso más reciente fue el derribo de un caza ruso que estaba bombardeando fuerzas yihadistas en Siria a fines de noviembre. Hay una parte de Turquía casi rodeada por territorio sirio y el bombardero ruso voló a través de esa zona durante 17 segundos, y lo derribaron. Una gran provocación que por suerte no fue respondida por la fuerza, pero llevaron su más avanzado sistema antiaéreo a la región, que le permite derribar aviones de la OTAN. Argumenta que hechos similares están sucediendo a diario en el mar de China.

La impresión que se desprende de sus gestos y reflexiones es que si las potencias que son agredidas por Estados Unidos actuaran con la misma irresponsabilidad que Washington, la suerte estaría echada.

Visión sobre Colombia

El lingüista estadunidense Noam Chomsky conoce de primera mano la realidad colombiana. Fiel a su estilo y sus ideas, visitó el país en puntillas, lejos de los focos académicos y mediáticos, para adentrarse en el Cauca, donde los indígenas nasa construyen su autonomía en resguardos y cabildos, con base en sus saberes ancestrales actualizados en medio del conflicto armado.

Parece haber señales positivas en las negociaciones de paz, reflexiona Chomsky. Colombia tiene una terrible historia de violencia desde el siglo pasado, la violencia en los años 50 era monstruosa, reconociendo que la peor parte ha sido la de las operaciones paramilitares. Más recientes son las fumigaciones de Estados Unidos, verdaderas operaciones de guerra química que desplazaron poblaciones campesinas para beneficio de multinacionales.

En consecuencia, Colombia es el segundo país del mundo en desplazados, detrás de Afganistán.Debería ser un país rico, próspero, pero se está rompiendo en pedazos, añade. Por eso, si las negociaciones de paz funcionan, eliminarán algunos de los problemas, no todos. Colombia aun sin el problema de la guerrilla sigue siendo uno de los peores países para los defensores de derechos humanos, para líderes sindicales y otros.

Uno de los peligros que observa en caso de que se firme la paz, sería la integración de los paramilitares en el gobierno, una realidad latente en el país. Así y todo, sostiene que la reducción del conflicto con las FARC sería un gran paso hacia adelante, por eso cree que se debe hacer todo lo posible para contribuir al proceso de paz.

No Diario Octubre
Leia Mais ►

Decreto tira nome de Sarney de escolas no Maranhão

Sarney, Murad, Castelo e Lobão são nomes comuns em prédios públicos de escolas e outras áreas do Estado do Maranhão. Porém, essa realidade vai mudar. Em 2015, ao assumir o governo, Flávio Dino (PCdoB) proibiu que o patrimônio estadual receba o "batismo" de pessoas vivas e também vetou que os bens públicos sejam nomeados em homenagem a pessoas responsabilizadas por violações aos Direitos Humanos durante o regime militar. Esta foi uma das primeiras medidas anunciadas pelo governador em 1º de janeiro do ano passado.

Um ano depois, Flávio Dino por meio do decreto 31.4690, assinado no dia 4 de janeiro e publicado no Diário Oficial do Estado de 14 de janeiro, trocou as denominações de 37 estabelecimentos da rede estadual de ensino que homenageavam pessoas vivas e deu a eles nomes de personalidades que já morreram — professores, religiosos, políticos (como os ex-deputados João Evangelista e Júlio Monteles) e até mesmo o cientista alemão Albert Einstein.

O campeão em perdas de homenagens foi o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP), que exerceu também os cargos de governador do Maranhão, deputado federal, senador da República e presidente do Congresso Nacional - Sarney também é membro das academias de letras do Brasil (ABL) e do Maranhão (AML). No total, o ex-presidente do Senado perdeu sete homenagens em diferentes municípios maranhenses.

Sarney não foi o único a perder as homenagens. Os ex-governadores Edison Lobão — atual senador e ex-ministro de Minas e Energia — (três), Roseana Sarney (três), João Alberto de Souza (duas) e João Castelo (uma) também tiveram seus nomes trocados, assim como a ex-secretária de Educação Leda Tajra (cinco), o ex-deputado federal e ex-proprietário da Rádio e TV Difusora Magno Bacelar, o ex-vice-presidente da República e ex-governador de Pernambuco Marco Maciel.

Além dos políticos, também perdeu a homenagem o poeta Ferreira Gullar, membro da Academia Brasileira de Letras.

Militares

Em março de 2015, Flávio Dino, alegando não haver motivos para se homenagear "ditadores", tirou os nomes dos ex-presidentes militares de vários estabelecimentos de ensino. Na oportunidade, os ex-presidentes Castelo Branco, Emílio Garrastazu Médici e Arthur Costa e Silva perderam as homenagens conferidas em dez escolas e cidades diferentes.

O governador justifica em seu decreto que promoveu as mudanças em obediência aos os incisos III e V do Art. 64 da Constituição Estadual. Segundo o governo, a medida também pretende regular algo que é constitucionalmente previsto e que deveria ser cumprido conforme a Lei Federal n.º 6.454, de 1977.
Leia Mais ►

Tráfico de crianças nos Estados Unidos: a omissão da mídia e a conivência do Governo

O cartaz diz: “As crianças da América Central estão fugindo da violência causada pela sede dos EUA por drogas. 
E nós estamos mandando eles de volta”.
Tráfico de crianças nos Estados Unidos sob conivência estatal: Quem julga o Império mais terrorista da história?

O Departamento de Saúde e de Serviços Humanos, agência federal dos Estados Unidos (HHS, na sigla em inglês) designada pelo Congresso para custodiar crianças estrangeiras que ingressam ao país desacompanhadas (unaccompanied alien children, ou UAC na sigla em inglês), a fim de protegê-las do tráfico humano, tem entregue esses menores exatamente aos traficantes que os utilizam em trabalho análogo à escravidão, sob muita coerção e ameaça de acordo com o relatório da Subcomissão Permanente sobre Investigações do Senado norte-americano, publicado no último dia 26 de janeiro.

Intitulada Protegendo Crianças Estrangeiras Desacompanhadas do Tráfico e de Outros Abusos, a investigação conclui que 28 menores foram traficados após agentes federais tê-los entregues a adultos que deveriam cuidar deles. Outros menores 15 também apresentam sinais de tráfico. Os traficantes retinham os ganhos financeiros das vítimas, e lhes davam muito pouco dinheiro para alimentação e necessidades básicas sob ameaça de agressão física e de morte, inclusive contra os familiares desses menores.

De acordo com indiciamento realizado em 2015, um traficante chegou a agredir uma vítima por esta ter se recusado a entregar o salário. Os traficantes puniram outra vítima menor de idade quando ela havia se queixado trabalhando em uma fazenda do ovo, conduzindo-a a um trailer diferente, segundo a investigação, “anti-higiênico e inseguro, sem cama, sem calor, sem água quente, sem banheiro e com vermes. Os traficantes, então, chamaram o pai da vítima menor de idade, e ameaçaram atirar na cabeça do pai se a vítima menor não trabalhasse. Os réus usaram uma combinação de ameaças, humilhação, privação financeira, coerção, manipulação da dívida e monitoramento para criar um clima de medo e de desamparo que obrigaria [as vítimas] ao cumprimento [das ordens]”.

Tais crianças somam-se às pelo menos seis que chegam a 14 anos de idade, traficadas da Guatemala em 2014 sob promessas de uma vida melhor à cidade de Marion, no estado de Ohio, após terem estado sob custódia federal, fato descoberto por juristas que motivou a instauração da atual Subcomissão Permanente.

A investigação, que busca determinar se as entregas de menores em Marion foram uma trágica série de erros ou uma deficiência mais sistêmica no processo de custódio da HHS, aponta que tais crimes vão além do contrabando de menores, conforme tenta-se fazer crer, caracterizando-se ainda mais gravemente em tráfico de crianças migrantes, diferença esta bem definida pelo Departamento das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes.

“Durante um período de quatro meses em 2014 [de junho a setembro], no entanto, a HHS supostamente colocou um número de UACs nas mãos de uma quadrilha de traficantes de seres humanos que as forçaram a trabalhar em fazendas de ovos em Marion e arredores, em Ohio, levando a uma acusação criminal federal. Segundo a acusação, os menores vítimas eram forçados a trabalhar seis e até mesmo sete dias por semana, doze horas por dia. Os traficantes ameaçaram repetidamente as vítimas e suas famílias de agressões físicas, e até mesmo de morte, se não trabalhassem ou abrissem mão de todo o salário. A acusação alega que o réus ‘usaram uma combinação de ameaças, humilhação, privação, coerção financeira, manipulação da dívida, e monitoramento a fim de criar um clima de medo e de desamparo que obrigaria [as vítimas] ao cumprimento [das imposições]”, relata a investigação.

Em agosto de 2014, a HHS permitiu que um “tutor” de menores impedisse determinado funcionário do bem-estar infantil de visitar uma das vítimas, mesmo depois de o funcionário ter descoberto que a criança não estava vivendo no endereço arquivado pela HHS, relata a investigação.

“É intolerável que o tráfico humano — a escravidão moderna — possa ocorrer em nosso próprio quintal”, disse o senador republicano por Ohio, Rob Portman, presidente da Subcomissão. “Mas o que faz com que os casos de Marion sejam ainda mais alarmantes, é que uma agência do governo dos Estados Unidos foi responsável pela entrega de algumas das vítimas às mãos de seus agressores.

Com base nessa investigação, o Subcomitê conclui que as políticas e os procedimentos da HHS são inadequadas na proteção às crianças que entram no país norte-americano. As graves deficiências encontradas pela Subcomissão inclui fatos tais como a permissão de que supostos tutores, após a entrega de uma criança, recusem trabalhos pós-entrega e até mesmo impeçam o contato do menor com a agência, além do que muitos desses menores nem sequer constam no processo de imigração.

Entre as várias deficiências sistêmicas no processo de entrega de menores por parte da HHS, a Subcomissão aponta que a agência federal tem sido incapaz de proteger as crianças de tutores da tentativa destes de acumular vários filhos, além do uso inadequado de dados domésticos, fragilidade na realização do trabalho pós-entrega, e que a HHS não garante que um tutor tenha renda adequada para manter um menor de idade. É enfatizada também a falta de transparência por parte da agência no que diz respeito às regulamentações e aos procedimentos do programa de acolhimento de menores desacompanhados nos Estados Unidos

Em 1º de julho de 2015, um júri federal indiciou quatro réus pelo recrutamento e contrabando de cidadãos guatemaltecos para os Estados Unidos, com a finalidade de executarem trabalho forçado em campos agrícolas em uma fazenda ovo em Marion. Entre as vítimas, há vários menores que foram entregues a tutores através do Programa de Crianças Desacompanhadas (Unaccompanied Children Program) da HHS.

Segundo a acusação, a partir de 2011 os réus e conspiradores anônimas trouxeram cidadãos guatemaltecos para os Estados Unidos para trabalhar em regime forçado. Em meados de março de 2014, os réus começaram a recrutar menores sob promessas de colocá-los em escolas e de boas condições de trabalho, acreditando que esses menores seriam mais fáceis de serem trazidos ao país sem apresentarem problemas jurídicos, mais fáceis de serem controlados, e que trabalhariam com mais intensidade”, segundo o indiciamento.

“Qualquer que seja o ponto de vista sobre a política nacional de imigração, todos concordam que o governo tem a responsabilidade de garantir a segurança das crianças migrantes que entraram sob custódia do governo, até a data do julgamento da imigração”, disse o senador Portman.

Acima do bem e do mal

Nos Estados Unidos tais crimes quase não viram notícia, barbaridades que não importam aos porões do poder político e nem à sociedade local: a democracia mais eficiente que o dinheiro pode comprar segue intensamente distraída pela esquizofrenia islamofóbica, profundo sentimento de ódio promovido sobretudo pela AIPAC e pelos meios de comunicação hegemônicos, com o velho caráter fascistoide que marca uma das sociedades mais discriminatórias do planeta, exatamente a norte-americana – lembremo-nos da emblemática organização secreta e terrorista, jamais considerada como tal pelo regime de Washington, a Ku Klux Klan, à solta ainda hoje em nome do ódio racial.

Em março de 2011, WikiLeaks entregou ao jornal mexicano La Jornada diversos telegramas secretos revelando que parte do tráfico ilegal de armas dos Estados Unidos ao México era tão secreta quanto estatal: ignorando solicitações e reclamações da Cidade do México, tinha sinal verde por parte dos lords do bem-dizer do regime de Washington, sob o codinome Fast and the Furious (Rápido e Furioso) que acabaria se tornando um escândalo, devidamente abafado (reportagem de La Jornada. Graças a esse plano elaborado pela administração do Nobel da Paz, Barack Obama, circulam em solo mexicano atualmente mais de 2 mil rifles de alto calibre, fora de controle. Armas de guerra, também contrabandeadas do norte “avançado” ao sul “atrasado”, são proibidas por lei no país latino-americano, porém sua comercialização é livre na “democracia mais avançada do planeta”, mal-acostumada a espalhar violência e terror mundo afora.

Tiroteios por todos os Estados Unidos quase que semanais em escolas, shopping centers e nos mais diversos lares e locais públicos, fazem a sociedade mais armada do mundo, ostentadora da maior população carcerária do planeta e maior consumidora de drogas do globo, perpetuar o velho bang-bang existente desde o genocídio contra os povos originários, que possibilitou a anexação de 50% do território mexicano.

Por um lado idolatrado desde Hollywood, este cenário é precariamente transformado em “parte da paisagem” com a qual o cidadão estadunidense deve conviver e combater até vencer, isto é, não se encara a guerra civil por que vive o país como subproduto de suas políticas domésticas altamente repressivas, e coercitivo-expansionistas mundo afora, baseadas na indústria bélica, a força de uma “raça superior”. Senso comum entre o establishment, trata-se de culpa de inimigos “invejosos” e “rancorosos” sempre combatidos a todo o custo, porém jamais vencidos. A mesma estupidez intelectual que crê no excepcionalismo norte-americano impede de conectar minimamente os fatos, a fim de enxergar que esse excepcionalismo não consegue sobrepassar as telas do cinema.

Isso tudo, apenas para mencionar a política doméstica e a realidade social dentro dos Estados Unidos, sem mencionar sua “política externa” (eufemismo para crimes contra todas as leis internacionais cujo país, apenas na América Latina, perpetrou 47 invasões militares diretas desde 1846, além de ter sido o único em toda a história a atacar com bombas atômicas), se se aplicasse contra o regime de Washington uma pequena parte de seu próprio rigor mundo afora, uma intervenção armada aos Estados Unidos seria necessária mesmo na visão dos menos conservadores, apenas por uma questão de lógica (o que menos importa quando os interesses da decadente capital global do capital estão em jogo).

Em relação à mídia predominante internacional, mais especificamente a intelectualidade sob encomenda tupiniquim (*), certamente muitos “comentaristas” consagrados pela cada vez mais indisfarçável prática intensiva da desinformação das massas nem sequer têm tomado conhecimento do tráfico e da escravização de crianças, facilitados de todas as formas pelo Estado norte-americano – altamente criminoso, ou em última instância incompetente como poucos no mundo, levando-se em consideração inclusive “falhas” históricas como as no dia 11 de setembro de 2001, na infundada detecção de armas de destruição em messa no Iraque de Saddam Hussein, e no assassinato de John Fitzgerald Kennedy.

Quem julga o moribundo Império das mega-mortes sistemáticas, divorciado de sua própria Constituição?

É a pergunta que fazem hoje 100 milhões de famintos, 100 milhões de analfabetos, 222 milhões de excluídos que representam 43% da capacidade de trabalho da região mais rica em biodiversidade e, paradoxalmente, a mais desigual do planeta sobre a qual caem três bombas de Hiroshima anualmente, onde silenciosamente morre uma criança faminta ou enferma a cada minuto: exatamente a América Latina, maior contingente de imigrantes nos Estados Unidos, considerada aberta e historicamente o “quintal” do regime de Washington. Desde o tal Big Stick (Grande Porrete) do presidente Theodore Roosevelt (1901 – 1909), que definia sua “diplomacia” na América Latina através do provérbio africano, “fale com suavidade, e tenha à mão um grande porrete”, passando pela “liberdade e democracia” exportadas por Tio Sam à região sob a verdade absoluta já proclamada em 1913 pelo então ocupante da Casa Branca, Woodrow Wilson (1912 a 1921): “Ouve-se falar de concessões feitas pela América Latina ao capital estrangeiro, mas não de concessões feitas pelos Estados Unidos ao capital de outros países… É que nós não fazemos concessões.”

Enfim, quando o Estado mais terrorista da história e seus lacaios se conscientizarão, ou abrirão mão dos medos e dos interesses a fim de reconhecer que os pobres não são os culpados pela pobreza? Da mesma forma, o único responsável pela crise imigratória e de refugiados é o sistema competitivo, dominador e explorador, com sede em Wall Street.

Neste sentido, o economista norte-americano Joseph Stiglitz muito bem observou sobre as profundas desigualdades sociais de seu país, no artigo, na revista estadunidense Vanity Fair em Of the 1%, by the 1%, for the 1%:

“O 1% no topo da sociedade tem as melhores casas, a melhor educação, os melhores médicos, e os melhores meios de vida, Mas há uma coisa que o dinheiro não parece ter comprado: o ententimento de que oeu destino está relacionado à forma como o outro 99% vive. Ao longo da história, isso é algo que o topo de cima acaba aprendendo. Muito tarde…”.

A história está tratando de julgar precisamente os Estados Unidos e certamente dará seu veredito final, sem demora.

Notas:

(*) Sobre a intelectualidade sob encomenda tupiniquim, para quem ainda não leu revelações WikiLeaks de telegrama confidencial emitido pela “Embaixada” (centro de espionagem) dos Estados Unidos em Brasília em 22.12.2009, lembremo-nos aqui, lembre-se sempre disto em contraposição à omissão midiática brasileira:

“(…) O Estado de S. Paulo e O Globo, além da revista Veja, podem se dedicar a informar sobre os riscos que podem advir de se punir quem difame religiões, sobretudo entre a elite do país. Esta Missão [Embaixada dos Estados Unidos em Brasília] tem obtido significativo sucesso em implantar entrevistas encomendadas a jornalistas, com altos funcionários do governo dos EUA e intelectuais respeitados” [grifo nosso].

Sobre o autor:

Edu Montesanti é professor de idiomas, autor de Mentiras e Crimes da “Guerra ao Terror” (Scortecci Editora, 2012), colaborador do Diário Liberdade (Galiza), de Truth Out (Estados Unidos), tradutor do sítio na Internet das Abuelas de Plaza de Mayo (Argentina), da ativista pelos direitos humanos, escritora e ex-parlamentar afegã, Malalaï Joya, ex-articulista semanal do Observatório da Imprensa (Brasil), e editor do blog.


Leia Mais ►

Aula Pública Opera Mundi: Os palestinos têm direito à insurreição?


Leia Mais ►