8 de fev de 2016

Esse homem não pode ser candidato


Não vai ter golpe. A receita do impeachment secou no forno tucano. A crise mundial escancarou a fraude que atribuía ao PT o desmanche do Brasil. Dilma afrouxou a camisa de força do arrocho com dano inferior ao imaginado. Pode e deve ir além, na frente econômica e política.

A reativação do CDES mostrou que é possível arrastar uma parte expressiva do PIB para fora do golpe. Não é o único broto da frente política necessária à superação da encruzilhada do desenvolvimento, mas é um passo na retomada da iniciativa para além da defensiva e da prostração.

O que sobrou ao golpismo, então?

Sobrou a última carta na mesa: decidir 2018 em 2016.

Significa matar, picar, salgar, espalhar partes do carisma e da credibilidade de Lula pelas ruas, praças, vilas, periferias, vizinhanças e campos de todo o país.

‘Esse homem não pode ser candidato; se for é capaz de vencer; se vencer será impossível impedi-lo de assumir; se assumir pode fazer outro grande governo.’

Essa é a versão de hoje para o que dizia Lacerda em junho de 1950, quando tentava igualmente abortar a candidatura de Vargas à presidência da República: ‘Esse homem não pode ser candidato; se candidato não pode ser eleito; se eleito não deve tomar posse; se tomar posse não deve governar’.

A caçada a Lula ganhou a velocidade vertiginosa da urgência conservadora que manda às favas o pudor e as aparências.

É preciso capturar essa presa antes que ela retome o fôlego e o fôlego tome as ruas.

Vale tudo.

Não é força de expressão.

É o nome da pauta interativa que conectou as redações a um pedaço do judiciário.

De onde virá a pá de cal?

Do pesqueiro que ele frequenta? Da canoa de alumínio de R$ 4 mil reais? Do apartamento que, afinal, não comprou? De um delator desesperado? De alguém coagido pela República do Paraná, disposto a qualquer coisa para proteger familiares retidos e ameaçados?

Eles não vão parar.

A Lava Jato escuda-se em razão meritória para agir como braço partidário. O golpismo os incentiva, a mídia sanciona e se lambuza.

Só a rua.

Desfrutáveis rapazes e moças denominados ‘jornalistas investigativos’ inscrevem-se nas mais diferentes façanhas para antecipar o desfecho, antes que alguma resistência aborte o cronograma.

A piada venezuelana sobre a escassez de pasta de dente, divulgada como noticia pelo UOL, mostra a tensão reinante entre rigor e furor.

A mesma sofreguidão fez a ênfase do delator Paulo Roberto Costa em inocentar Marcelo Odebrecht transformar-se em sutil incriminação do empresário na degravação para Moro.

‘Isso não vem ao caso’ – diria FHC.

Nenhum caso vem ao caso quando associa tucanos a eventos em que o interesse público se subordina ao apetite privado.

Procuradores procuram — produzem? — febrilmente a pauta da semana, auxiliados por redações interativas.

A narrativa geral é adaptada ao sotaque de cada público. Desde a mais crua, tipo JN, às colunas especializadas em conspirar com afetação pretensamente macroeconômica ou jurídica.

A mensagem vibra a contagem regressiva em direção a ‘ele’.

‘Ele’ é o troféu mais cobiçado, a cabeça a ser pendurada no espaço central da parede onde já figuram outras peças preciosas, embalsamadas pela taxidermia conservadora.

A sentença de morte política foi lavrada em 2005/06, quando se concluiu que pela via eleitoral Lula seria imbatível diante das opções disponíveis.

A partir de então seu entorno e depois o seu próprio pescoço seriam espremidos num garrote que range as derradeiras voltas do parafuso vil.

O assalto final será indolor à matilha?

Eis a pergunta política de resposta mais cobiçada nos dias que correm.

Depende muito do discernimento das lideranças nascidas dessa costela, e até mesmo — ou quem sabe, principalmente — de algumas referenciadas a marcos históricos que vão além dela.

São hoje as mais mobilizadas.

Amanhã serão as primeiras atingidas, se a ‘macrização’ do Brasil for bem sucedida.

Acuado como está e limitado pelo erro histórico de um ciclo que promoveu a mobilidade social sem correspondente organização política, Lula é refém da avaliação que o conjunto da esquerda fizer de sua importância para o futuro da democracia social no país.

É tão ou mais refém disso do que do sentenciamento conservador. Neste já foi condenado.

Mas a rua pode salvá-lo.

‘Ah, mas Lula foi ultrapassado pelo avanço da luta popular?’

É um paradoxo: se avançamos tanto, como é que eles estão em sulforosa ofensiva por ar, terra e mar?

‘Culpa do PT.’

Na Venezuela também? Na Argentina, na Europa...?

Há uma recidiva da crise mundial, cuja extensão e profundidade o PT subestimou.

O mundo vai murchar com a desalavancagem global de múltiplas bolhas perfuradas agora pela freada chinesa.

Estamos a bordo de um acirramento da disputa pelo bolo mais magro urbis et orbi.

Nada isenta o PT e o governo dos equívocos sabidos, que o tornaram mais vulneráveis nesse momento.

O embate, porém, vai muito além do que imagina o bisturi que resume a equação histórica a lancetar o espaço do PT na trincheira progressista.

Em Portugal, uma esquerda que conseguiu maioria parlamentar, acaba de perder no primeiro turno presidencial para a direita.

A esquerda portuguesa resolveu ir para as urnas dividida. Cada qual inebriada de sua autossuficiência para enfrentar a desordem mundial do capitalismo.

Como pretendemos caminhar para 2018?

A pergunta vale para o governo, para o PT e para as forças que legitimamente se evocam à esquerda do PT.

O ciclo iniciado em 2003 tirou algumas dezenas de milhões de brasileiros da pobreza; deu mobilidade a outros tantos milhões na pirâmide de renda.

Foi inconcluso porque atribuiu às gôndolas do supermercado a tarefa de promover o salto de consciência que mudaria a correlação de força no país.

A inclusão foi tão expressiva, porém, que sob a cortina de fogo impiedosa do monopólio midiático, há quase uma década, acuado, ferido, enxovalhado noite e dia, sem espaço de resposta, Lula ainda figura como o nome que parte com 25% dos votos nas sondagens da nova corrida presidencial.

Aécio e Marina, teoricamente o suplantariam numa quase certa aliança no segundo turno.

Mas a direita sabe que não é bem assim.

Com acesso diário à tevê que hoje lhe é sonegada, ao rádio e ao debate num cenário econômico que dificilmente será tão ruim quanto o atual, as alardeadas dianteiras dos seus principais adversários podem derreter junto com o ‘crime’ de frequentar um pesqueiro em Atibaia, com a canoa de preço equivalente ao de uma carretilha das disponíveis nos iates de alguns de seus críticos, e com o ‘tríplex’ que, afinal, não lhe pertence.

Por isso é preciso liquidar a fatura agora, na janela de oportunidade entre o vácuo orgânico da militância e a incerteza relativa a 2018.

Em 1954, quando a direita já escalava as grades do Catete e os jornais conservadores escalpelavam a reputação de quem quer que rodeasse Vargas, a sua morte política era comemorada por parte da esquerda.

O varguismo era acusado de ser um corredor aberto ao imperialismo, um manipulador das massas.

Vargas não era um bolchevique.

Tampouco detinha a representação de São Francisco de Assis na terra.

Era um estancieiro.

Não fez a reforma agrária. Nunca viveu agruras, não liderou greves, não leu Marx — perseguiu marxistas no seu primeiro governo.

Ao mesmo tempo, criou o salário mínimo, as leis trabalhistas, peitou o imperialismo...

Vargas foi o que são líderes nacionais populares de cada tempo concreto: seres contraditórios de carne e osso, exatamente por isso magnéticos na personificação de um projeto de desenvolvimento em que o vórtice selvagem do capital passa a ser domado pelas rédeas dos interesses sociais organizados.

Vem de Varoufakis, o ex-ministro da Fazenda da Grécia, a preciosa síntese do que está em jogo num mundo que é o avesso disso, capturado pela desregulação dos mercados: ‘Não deixar nenhuma zona livre de democracia’.

Até onde a sociedade pode ir por esse caminho? Até onde a correlação de forças permitir a democratização de todas as instâncias de poder na sociedade.

Lula tem seu espaço nesse enredo.

Em abril de 1953 uma parte da esquerda brasileira considerava que Vargas não tinha mais.

Simultaneamente uma ciranda de ataques descomprometidos de qualquer outra lógica que não a derrubada de um projeto de desenvolvimento soberano sacudia o entorno do governo que criara a Petrobras, o BNDE e uma política de fortalecimento do mercado interno com forte incremento do salário mínimo.

O clima pesado das acusações e ofensas pessoais atingia Getúlio e sua família de forma virulenta.

Lutero, irmão do Presidente, era seviciado por manchetes garrafais que o tratavam como ‘bastardo’ e "ladrão".

A imagem veiculada do ministro do Trabalho, João Goulart, era a de um cafajeste, um "personagem de boate".

Lembra algo?

A dramaticidade do suicídio político mais devastador da história iluminaria o discernimento popular gerando revolta diante do ódio golpista que tirou a vida de Vargas.

Porta-vozes da oposição a Getúlio foram escorraçados nas ruas do Rio; uma multidão consternada e enfurecida cercou e depredou a rádio Globo que saiu do ar; veículos da família Marinho foram caçados, tombados, queimados nas ruas da cidade. Para Carlos Lacerda não sobrou um centímetro de chão firme: o "Corvo" foi recolhido a bordo do cruzador Barroso, distante da costa.

A esquerda que dispensava a Vargas o tratamento dado a um cachorro morto, teve que reinventar a sua agenda com a bicicleta andando.

Quase sessenta e dois anos depois do tiro que sacudiu o país, a pressão atual do cerco conservador permite aquilatar a virulência daquele período.

O Brasil está de novo sob o tropel da mesma cavalaria.

Com os mesmos cascos escoiceando a nação e reputações.

O mesmo arsenal para alvos e objetivos correlatos.

No julgamento do chamado 'mensalão', o sociólogo Marcos Coimbra, presidente do Instituto de Pesquisas Vox Populi, mensurou um pedaço da artilharia conservadora voltada contra o discernimento da sociedade.

Em apenas quatro semanas até 13 de agosto de 2012, 65 mil textos foram publicados na imprensa atacando o PT, Lula e o seu governo.

"No Jornal Nacional, para cada 10 segundos de cobertura neutra houve cerca de 1,5 segundos negativos.

Nas rádios, conectadas pela propriedade cruzada aos mesmos núcleos emissores, a pregação incessante era e ainda é mais abusada.

A mesma elasticidade ética reveste a ação da mídia determinada a calafetar cada poro do país com uma gosma de nojo e prostração.

Persiste, enfim, o cerco ao Catete.

A qualquer Catete dentro do qual políticas públicas tenham buscado pavimentar mais um trecho da estrada inconclusa que leva à construção de uma democracia social na AL.

Desta vez não haverá tiro para alertar a esquerda brasileira.

Mas caberá a ela escrever a carta testamento para explicar o Brasil deixado aos que vierem depois de nós.

A ver.

Saul Leblon
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Lava Jato chega aos dois anos sob controvérsia


"É evidente que a soltura dos acusados vai gerar sensação de impunidade. Estamos tratando de caso rumoroso. A lentidão da Justiça faz com que a sociedade aviste as prisões preventivas como instrumento de punição, não de garantia."

Ao votar, em abril de 2015, pelo fim da prisão preventiva de Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC e um dos réus da Lava Jato, o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes abordou um dos pontos que advogados de defesa e alguns juristas consideram mais problemáticos na operação até aqui.

Para estes, o juiz Sergio Moro e o Ministério Público Federal têm usado as prisões preventivas para forçar os réus a aceitar a delação premiada. "O problema não é a delação, mas o modo como tem sido obtida. Para sair da preventiva, que ainda não foi julgada, é preciso dizer algo. Mais: é preciso uma confissão que agrade a hipótese do investigador. É uma falha que gera nulidade absoluta do processo", afirma Pedro Estevam Serrano, professor de direito constitucional da PUC­-SP e advogado da Odebrecht na área cível.

Para as defesas, mais questionável que a determinação das prisões preventivas em si, geralmente justificadas por Moro com base na continuidade dos crimes de corrupção, é a estratégia para lidar com pedidos de habeas corpus.

O caso de Alexandrino de Alencar, ex-­executivo da Odebrecht, ilustra bem essa situação. Cumprindo prisão preventiva, recorreu ao Tribunal Regional Federal.

Antes que a corte examinasse seu habeas corpus, Moro já havia feito uma segunda determinação de prisão preventiva, razão pela qual o tribunal considerou o recurso de Alexandrino prejudicado. Seria preciso refazer o considerou o recurso de Alexandrino prejudicado. Seria preciso refazer o caminho. 

Outro habeas corpus, então, foi submetido ao Superior Tribunal de Justiça; o pedido foi negado pelo ministro relator, em decisão individual, e, posteriormente, em julgamento colegiado.

Apenas ao ser examinado pelo ministro Teori  Zavascki, no STF, o assunto teve decisão diversa. "Realmente, não há razão lógica e jurídica para obrigar a defesa a renovar o pedido de liberdade perante as instâncias subsequentes", sentenciou Zavascki.

Para um advogado que atua na Lava Jato, esse tipo de estratégia é perversa. "Você está para conseguir e vem nova prisão a partir de simulacros de fatos novos."

"A Lava Jato já é um enunciado performativo. Virou uma marca. Ou uma série de TV. Está se criando um clima com o objetivo de constranger qualquer tribunal superior que venha a reconhecer alguma irregularidade ou nulidade nos processos em favor dos acusados", afirma Lenio Streck, advogado e membro da Academia Brasileira de Direito Constitucional.

Nulidades

A legalidade de alguns episódios da operação deverá ser questionada nos tribunais superiores para pedir a nulidade de processos. Recentemente, a defesa de Marcelo Odebrecht acusou a força­tarefa responsável pela operação de ter manipulado transcrição de depoimento do ex­diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa sobre o empresário.

Em vídeo do depoimento, Costa afirma: "Nem põe o nome dele aí porque com ele não, ele não participava disso". Para a defesa de Odebrecht, se trechos assim integrassem o processo, seria mais difícil manter sua prisão. 

Na opinião do advogado Alberto Toron, que defendeu o dono da UTC, Ricardo Pessoa, a denúncia de Odebrecht "é muito grave". "Fica clara a parcialidade do juiz", diz.

Advogados questionam outros dois pontos. Um deles é a forma como o Ministério Público obteve informações de contas offshore ligadas à Odebrecht na Suíça. No final de janeiro, um tribunal daquele país considerou o envio dos dados irregular. A decisão, no entanto, rejeitou decretar a nulidade das provas.

O segundo problema, de natureza similar, está no modo como a Polícia Federal estabeleceu um canal direto com a empresa canadense Research in Motion, fabricante dos aparelhos BlackBerry, para cumprir ordens de quebra de sigilo de mensagens.

"São provas obtidas por via ilícita, sem respeitar os trâmites legais", afirma Serrano

Outro lado

Para Roberson Henrique Pozzobon, procurador da República que integra a força-­tarefa da Lava Jato no Paraná, não fazem sentido as críticas apontadas, sobretudo por advogados, a certos aspectos da operação.

Pozzobon define como "uma falácia gigante" a consideração de que as prisões preventivas estejam sendo usadas como punição e modo de obtenção de delações premiadas.

"As preventivas são excepcionais, temos mais de 180 acusados e um número bem inferior de cautelares", diz. 

"Já nos manifestamos pró-­réu em alguns casos. Além disso, o que causa certo espanto a esses advogados é que agora também criminosos de colarinho branco sejam objeto de prisões preventivas. Por que a crítica ao instrumento só é feita nesse momento?", questiona o procurador da República.

Sobre a acusação de uso de prisões preventivas para forçar delações, Pozzobon explica que mais de 70% dos acordos celebrados com réus da operação ocorreram enquanto estes estavam soltos.

O procurador observa também que o Ministério Público, em todos os acordos firmados, jamais tomou a iniciativa de sugeri­-los aos acusados. "É sempre uma opção do colaborador", afirma.

Quanto à crítica de que se estaria usando, na operação, o artifício de decretar mais de uma prisão preventiva para um mesmo réu, com a finalidade de atrasar o julgamento de recursos de habeas corpus nas instâncias superiores, Pozzobon argumenta que a cada vez que isso é feito é com base em motivos novos e relevantes, que precisam ser levados em conta pelos órgãos revisores da Justiça.

"Se surgem novos motivos, ou documentação mais robusta de provas, deveríamos omiti­-los do Judiciário? Essas evidências, que justificam e reforçam a necessidade de prisão, precisam constar do processo", diz Pozzobon.

O procurador qualifica o questionamento em torno da transcrição do depoimento de Paulo Roberto Costa como uma "tempestade em copo d'água", feita a partir de releitura equivocada da defesa de Marcelo Odebrecht. 

Segundo Pozzobon, o termo levou em conta o que importava no contexto. "O termo de depoimento foi colhido no início das investigações e funciona como um sumário, um resumo do mais importante naquele momento. Hoje, com maior conjunto de provas que o incrimina, se Paulo Roberto falasse algo similar, essa informação seria relevante e constaria do termo", avalia.

No que diz respeito a possíveis alegações de nulidades por falta de trâmites de cooperação jurídica internacional adequados nos casos da Suíça e do Canadá, Pozzobon avalia que os críticos se atêm a "procedimentalismo" sem cabimento, em tentativas de macular o que for possível no processo a essa altura.

"A BlackBerry presta serviços a brasileiros no Brasil, logo está sujeita à legislação nacional. Não há razão para cooperação internacional, é pacífico nos tribunais", diz.

Por fim, manifestando­-se acerca dos documentos vindos da Suíça, o procurador afirma que a insurgência é "manifestamente irrelevante". Ele frisa que todos os pontos da decisão de um tribunal suíço foram esclarecidos no processo brasileiro.

Rodrigo Russo
No fAlha
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A dificuldade demográfica para os Republicanos elegerem presidente

É improvável que Republicanos vençam nos EUA para Presidente. Para Congresso é outra estória, dado o voto distrital que a sobrerrepresentatividade dos estados do Meio-Oeste, como aqui ocorre com Norte e Centro-Oeste.

O mínimo de votos delegados é 269 e, desde 1992, há 22 estados, com 252 votos, que quase só votam em presidente democrata (bastava New Hampshire, em 2000, ter dado maioria a Gore que Bush Jr não teria se eleito).

Ainda não saíram pesquisas por estados, mas mesmo considerando que alguns estados oscilantes, como Florida, Virgínia e Colorado, sejam Republicanos, desta vez (e não há a rigor razão para esperar isso), os Democratas ganham.

Não têm muita utilidade as pesquisas quando dizem Fulano 52 x Siclano 48. Isto porque o voto Republicano é mais concentrado. Não adianta ter 70% dos votos em 30 estados se os Democratas conseguirem 51% nos outros 21, em geral mais populosos (o único estado muito populoso + republicano é o Texas).

E o peso das minorias quase 'explodiu' nas últimas 3 décadas. De 1960 a 1990, o voto branco ficou em torno de 85%. Agora, espera-se entre 70 e 75%.

A transformação demográfica é visível: segundo o USCB, a população branca não hispânica terá passado de 87% em 1960 para 47% em 2050. Grande parte disso pela imigração de 1980-2015, que fez com que, hoje, cerca de 25% da população seja de estrangeiros ou filhos destes. Ainda segundo o USCB, a partir de 2020, 50% dos menores de 18 anos serão não-brancos e, a partir de 2043, 50% dos adultos também.

Quando candidatos republicanos se apresentam xenófobos conseguem eleger deputados em distritos, mas deixam de eleger presidente em estados como Califórnia e Flórida.


Gunter Zibell - pró-Rede
No GGN
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Não há nada tão ruim que não possa piorar

Jornal Nacional é o veículo do pessimismo e da "crise"
Este parece ser o mantra dos principais telejornais brasileiros numa monótona ênfase no pessimismo como estratégia editorial. Só pode ser uma opção informativa orientada por objetivos políticos porque faltam argumentos para justificar uma estratégia como esta.

Desgraças, desastres, escândalos, corrupção, má administração, carências, crimes, violência são atos e eventos tão comuns em nosso quotidiano quanto as ações humanitárias, solidárias e grandes realizações científicas, culturais ou sociais.

O noticiário, em especial dos telejornais, tornou-se um show de desgraças, tragédias e pessimismo generalizado. A líder absoluta no marketing do negativismo é a TV Globo, que por incrível que pareça, historicamente sempre procurou distanciar-se das baixarias predominantes nas emissoras concorrentes. Os telejornais Bom Dia Brasil e Jornal Hoje preferem os dramas pessoais, os assassinatos envolvendo problemas familiares enquanto o Jornal Nacional e o Jornal da Globo preferem a baixaria política e o derrotismo econômico.

A agenda noticiosa é tão monotonamente constante que o espectador é colocado diante da seguinte dúvida: será que o país está sofrendo um ataque de paranoia coletiva ou se trata de uma linha editorial noticiosa preocupada em consolidar a ideia de que o país não tem mais jeito e nem há solução a vista para problemas como corrupção, epidemias, desastres, obsolescência da máquina estatal, desmoralização da atividade parlamentar, violência urbana, paralisia produtiva e outras mazelas. Enfim, uma aplicação massiva da lei de Murphy, segundo a qual tudo o que pode dar errado, dá errado.

Se estivéssemos sendo vítimas de um surto coletivo de paranoia depressiva inevitavelmente algum especialista de plantão já teria colocado a boca no trombone e trataria de buscar algum tipo de terapia capaz de lhe render um belo faturamento. Portanto, a prudência indica a conveniência de descartar esta possibilidade. Sobra então uma montagem editorial para produzir um fluxo noticioso destinado a estimular a percepção de que a vida no país está se tornando insustentável e insuportável.

No momento em que a população é bombardeada com notícias jornalísticas orientadas para este objetivo, em algum momento o instinto de sobrevivência das pessoas vai aflorar e o desdobramento inevitável será a generalização do sentimento de que “ é preciso fazer qualquer coisa”. Este “fazer qualquer coisa”, equivale a uma reação que irá se expressar de forma política com altíssima chance de que surjam alternativas radicalizadas e excludentes. Estaremos então no limiar de uma quebra de paradigmas institucionais, onde o pêndulo da história aponta no sentido de uma tendência conservadora.

A imprensa como partido político

Este é o papel político que a grande imprensa brasileira vem exercendo, depois que abandonou os princípios do jornalismo para envolver-se diretamente na luta pelo poder. Há todo um discurso profissional para justificar a opção preferencial pela estratégia de ver a realidade nacional pelo ângulo do copo meio vazio. Quando os telejornais de todas as emissoras integradas à Rede Globo focam nas misérias do nosso sistema hospitalar, é óbvio que os repórteres não estão inventando nada. As deficiências existem e não são novas.

A postura dos jornalistas em escarafunchar as mazelas hospitalares e os dramas dos pacientes é justificada pelo empenho em promover os direitos do cidadão. Nada mais justo e apropriado para o exercício de uma profissão cujo código de ética coloca a promoção do bem publico como a grande preocupação. Qualquer insinuação de ênfase intencional no negativismo é refutada com base nos manuais jornalísticos.

O problema é que os profissionais da informação preocupam-se com as árvores mas perderam de vista a floresta. Cobrar melhorias na saúde, na economia, na segurança e na política é indispensável e inadiável, mas quando esta cobrança configura a formação de um fluxo informativo que leva ao desenvolvimento de opiniões radicalizadas, estamos entrando noutro terreno. Já não é mais o do exercício do jornalismo, mas o da política.

O repórter ou editor não podem lavar as mãos diante das consequências sociais e políticas das notícias publicadas. A primeira pagina de um jornal, ou a edição de um telejornal, não é uma mera colagem aleatoria de notícias. Há uma intencionalidade, que inicialmente era pouco visível mas que agora está se tornando escancarada, a ponto do público já começar a perceber que há algo estranho na insistência em aplicar a regra do quanto pior melhor no noticiário diário.

É claro que estamos em crise. Nós e o mundo. E que esta crise não será rápida. Portanto se a imprensa ainda pensa em servir ao cidadão, pelo menos no discurso, deveria noticiar também, e com igual intensidade, os esforços e soluções para minorar os efeitos das dificuldades vividas pela população.

Carlos Castilho
No Vermelho
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Defesa de Lula: Estadão novamente mente


Nota

Depois de ser cabalmente desmentido em relação ao que foi publicado no dia 04/02/2016 ("Compra de sítio em Atibaia foi lavrada em escritório de compadre de Lula"), o jornal O Estado de S.Paulo, que é dirigido por um conselho de credores, passou a atacar a minha atuação como advogado, buscando, claramente, fragilizar a defesa de meus clientes.

O jornal já tentou na mesma reportagem em que foi desmentido, qualificar-me como "empresário", atividade que jamais tive, pois nos últimos 46 anos me dediquei de forma ininterrupta à advocacia, tendo sido, inclusive, eleito pelos meus pares em duas oportunidades para exercer a presidência da Subsecional da OAB de São Bernardo do Campo (SP), além de ter sido presidente de banca do Exame de Ordem do Estado de São Paulo.

O jornal também mentiu ao afirmar que a compra do sítio "Santa Barbara" teria envolvido transação em dinheiro vivo no meu escritório. Demonstrei, através de documentos incontestáveis, que o preço foi pago integralmente por meio de cheques administrativos, sendo mendaz também essa versão do diário.

Na data de hoje (08/02/2016), o jornal publicou nova reportagem ("Topógrafo diz que fez alterações na área da propriedade") por meio da qual está, à toda evidência, manipulando as palavras do topógrafo Claudio Benatti e misturando assuntos estritamente jurídicos com "obras realizadas na propriedade". Como já disse anteriormente, já fiz a indicação do referido profissional a diversos clientes para dar suporte a trabalhos jurídicos envolvendo a conferência das dimensões de um imóvel ou a delimitação da propriedade. No caso concreto, o Sr. Benatti foi indicado exatamente para fazer o levantamento da área que estava sendo adquirida pelos meus clientes Fernando Bittar e Jonas Suassuna, no ano de 2010, quando prestei assessoria jurídica no processo de aquisição. Posteriormente, no ano de 2015, o mesmo profissional foi indicado apenas para subsidiar um estudo jurídico tendente à melhor divisão da propriedade. Ou seja, não houve qualquer atividade do profissional na propriedade no ano mencionado, como sugere a reportagem.

É mentirosa a afirmação de que o "topógrafo fez alterações na propriedade", uma vez que o trabalho por ele realizado teve por objetivo apenas dar suporte a providências jurídicas que estavam sob a minha responsabilidade como advogado. E este trabalho jurídico se restringiu à elaboração de documentos, como o contrato particular de compra e venda, a lavratura da escritura de compra e venda e um estudo jurídico visando a uma nova divisão da propriedade.

É lamentável a conduta do jornal, que se prestou a conceder suas páginas para a publicação de novas mentiras, como forma de tentar fragilizar a defesa jurídica dos meus clientes e retribuir o vazamento seletivo de documentos e informações, promovido de forma regular por autoridades descomprometidas com o Estado Democrático de Direito.

Roberto Teixeira
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Pepe Mujica: el pueblo cubano puede criticar hasta a Dios pero Fidel es una cosa mítica

El expresidente uruguayo José Mujica destacó que le líder cubano Fidel Castro está en la categoría de mito del pueblo, y activo y comprometido con cosas concretas que hacen a la vida de la gente.

En una extensa entrevista que publica hoy el periódico La República, el actual senador por el Frente Amplio habló sobre su reciente viaje a La Habana, Cuba, donde sostuvo un encuentro con el líder histórico de la Revolución cubana.

“Me sorprendió que lee sin lentes, está vivaz, hace preguntas inteligentes permanentemente como siempre. Lo vi hasta mejor de lo que lo había visto hace dos años. Está bien”, describió.

Mujica remarcó que “el pueblo cubano puede criticar hasta a Dios pero Fidel es una cosa mítica”.

Afirmó que da gusto hablar con Fidel y su hermano Raúl “porque uno registra episodios importantes de la historia del siglo XX que ellos vivieron y que tuvieron repercusiones mundiales”.

Y uno tiende a ver la “historia en calzoncillos y no como la cuentan los libros de historia, porque ellos la vivieron”, añadió.

Interrogado sobre cómo vive Fidel, el senador frenteamplista apuntó que vive en una finca, “es una casa de clase media típica, bastante sencilla y tiene un pedazo de campo que viene a ser como una chacra, donde tiene un montón de parcelas con trabajos experimentales”.

Explicó que el Comandante en Jefe cubano monitorea una serie de elementos que tienen que ver con el uso de nuevas variedades forrajeras y leguminosas que puedan servir para mejorar la ganadería cubana.

“Me hizo comer yogurt de oveja, que yo nunca había comido y que es mucho más espeso que el común, dijo el expresidente, y contó que “estaba trabajando con unas semillas traídas de Perú que al parecer son muy ricas en omega tres”.

Mujica comentó que Fidel está “muy preocupado por el mosquito” (Aedes aegypti) y le leyó un escrito que tenía sobre cómo llegó desde la Polinesia, a través de la Isla de Pascua, y “unos esquiadores lo llevaron al continente sin darse cuenta”.

Él estaba alarmado porque en ese momento lo veía como algo muy grave y no notaba una reacción importante, aseveró.

Mujica dijo que el presidente de Cuba Raúl Castro ha decidido dejar el gobierno debido a su edad.

Raúl dejará tiene 85 años ya está con la decisión. ¿Por qué? Porque no se puede luchar contra la biología. Hay que respetar es crucial", dijo, tras ser preguntado si volvería a ser candidato en Uruguay, que también descartó debido a su edad.
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Em busca do jornalismo perdido


O grande livro de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, ficção científica escrita em 1953, apontou uma sociedade futura na qual as pessoas teriam uma tela multidimensional na sala de casa e que ali ficaria passando informação sem parar,  o dia todo, e a pessoa, viciada naquela algaravia, não conseguiria mais compreender o mundo criticamente. Tudo se resumiria naquele caleidoscópio de palavras desconexas que perpetuavam o poder de quem mandava. Aquela passagem do livro sempre me causou calafrios. Era o mundo perdido no qual vivia a esposa do personagem principal, o que descobre a beleza dos livros num mundo no qual eles não mais existiam.

Apesar da mensagem de esperança que o perturbador livro de Bradbury traz, aquela imagem da sociedade futura fica a corroer os miolos, principalmente quando aquilo que era só uma invenção ficcional nos anos 50 do século passado parece ser a realidade dos tempos atuais. Esse é o nosso mundo. As televisões espertas, de 50 polegadas, já conectam a internet e, nela, o facebook, esse espaço multicomunicacional que parece ter abduzido todas as mídias numa só. Ali, no seu mural, as informações passam em velocidade da luz, formando a mesma algaravia enfeitiçante da sala do mundo Fahrenheit. A vida está ali, prisioneira e saltitante.

Essa constatação aterrorizante é o que me leva a pensar sobre a minha profissão: o jornalismo. Onde ele está? Quem consegue vê-lo em meio a selva de informações fortuitas, rápidas, e mentirosas? Sobreviverá ao buraco negro do facebook, cada vez mais empoderado?

Antes de mais nada é preciso entender sobre o que estou falando, visto que há muitos entendimentos sobre o que seja o jornalismo. Falo da análise do dia, a descrição da realidade com impressão de repórter, contexto histórico, narrativa. Falo da produção de textos e vídeos que apresentem criticamente aspectos da realidade, levando o leitor/espectador a pensar sobre os fatos e estabelecer nexos com a vida.

É fato que não é o facebook o assassino do jornalismo. Ele agoniza desde há tempos na medida em que foi hegemonizado como mera propaganda, a apontar as belezas do sistema capitalista, da agricultura predadora, do consumo desenfreado e outras facetas mais desse modo de organizar a vida. As notícias que pipocam nas telas de TV, nos jornais, não dizem da realidade. Elas servem para aprisionar e alienar numa verdade inventada, que esconde o discurso da maioria da população. A voz do jornalismo existente é a voz oficial, do presidente, do deputado, do economista, do especialista. Nele não aparecem os trabalhadores, os que lutam, os que realmente criam o mundo. Esses estão fora, sem lugar onde expressar sua voz.

Por conta disso que ao longo dos tempos sempre foi necessário constituir um jornalismo de verdade, que se faz em outras instâncias, alternativas e populares. Um jornalismo que abre espaço para a voz do oprimido, da comunidade das vítimas e que contextualiza a realidade. E desde há tempos, esse jornalismo vem se equilibrando no emaranhado de um mundo midiático, criado para o engano. É a luta de classes se  expressando no campo da palavra, da informação. De um lado, os poderosos, buscando impor seu modelo de mundo como o modelo universal, e de outro lado — ainda que com menos poder de abrangência, mas valente as gentes em luta, procurando abrir espaço para a informação crítica que leve as pessoas a pensar sobre a realidade e, desde aí, transformá-la.

Com a ascensão da revolução tecnológica, o jornalismo precisou se reinventar. A Rede Mundial de Computadores trouxe uma novidade até então impossível de ser pensada: a possibilidade de a palavra do oprimido também ultrapassar os limites geográficos. Isso aprecia bom. Com a popularização da internet, os sindicatos, movimentos sociais, movimentos indígenas, movimentos populares, pessoas individuais, cada um que quisesse externalizar seu pensamento, tinha a sua chance. E não apenas para a sua aldeia, mas para o mundo inteiro. As incognoscíveis páginas, criadas em linguagem html foram se popularizando, com a criação de modelos facilmente manipuláveis. Vieram então os blogs que se tornaram muito mais acessíveis. A internet não apenas democratizava o espaço para que os movimentos coletivos se expressassem mundialmente, mas também viabilizava que qualquer um, com acesso à rede, pudesse ser um produtor de conteúdo.

Aí mais uma vez foi a hora de pensar o jornalismo. Se qualquer um pode divulgar informações, como peneirar o que é apenas informação e o que é jornalismo? Como reconhecer o que é uma opinião? Como estabelecer os nexos entre as informações soltas divulgadas aos borbotões? Como encontrar espaços de informação crítica e contextualizada? O que se viu num primeiro momento foi que as pessoas continuavam a acessar a informação formal, produzida pelos mesmos grupos que já dominavam a informação televisiva ou do papel. Ou seja, a informação/propaganda produzida pelo jornalismo das grandes empresas de comunicação ainda era a referência. E, de novo, os movimentos e entidades da luta popular tiveram de disputar o espaço internético como "ilhas alternativas", sempre perdendo a batalha para os velhos grupos de poder que controlam a mídia no mundo.

Foi então que chegou o facebook, um espaço na rede que começou a abocanhar todas as possibilidades comunicacionais, aglutinando-as numa só. O correio eletrônico foi sendo abandonado e a comunicação agora vai se fazendo — em tempo real pelo esquema de mensagens do face. A ideia é de que a pessoa esteja o tempo todo conectada, aproximando-nos daquela assombrosa ficção de Bradbury. E assim, no mundo atual, ou a pessoa está conectada, ou não é. É a versão eletrônica do consuma ou te devoro, outro mantra do capitalismo.

Agora, a novidade que se aproxima me foi sussurrada por um texto do irianiano Hassein Derakhshan, chamado de o pai dos blogs do Irã, que informa o novo plano de Zuckerman: acabar com a possibilidade da publicação de links no facebook. E o que isso significa? Que se hoje os blogs e os movimentos sociais utilizam o facebook para potencializar suas informações, divulgando os links para serem consultados, amanhã isso já não será possível. A tendência será a morte das páginas individualizadas. Segundo Hassein, o facebook acabará sendo a única fonte de informação, totalmente homogeneizada. Não é sem razão que o criador dessa tecnologia tem andado pelo mundo fazendo convênio com os governos para permitir que "todos" tenham acesso ao facebook.

Atualmente um bilhão e meio de pessoas usam a internet diariamente e mais da metade tem o facebook como fonte principal de informação. Se considerarmos que somos sete bilhões no planeta, ainda há gente demais fora dessa mídia, coisa que Zuckerman está batalhando muito para mudar. Mas, esse mudar é apenas seguir sendo o mesmo, já que a tal da internet dos pobres apenas possibilitará o acesso ao facebook, tornando a pessoa prisioneira dessa plataforma.

A questão é que o futuro nos reserva uma espécie de oligopólio mundial, uma plataforma única de comunicação, na qual será muito difícil discernir o que é verdade, o que é mentira, o que é propaganda, o que é crítico. Estaremos jogados na sala multidimensional de Bradbury, com as vozes falando, falando, falando e não dizendo nada, fortalecendo a dominação.

Voltamos então a questão do jornalismo. Como ele sobreviverá nessa sala caleidoscópica? Haverá saída? Encontraremos um espaço para a informação crítica? Estará perdido para sempre o jornalismo que desaloja, que perturba, que faz pensar? Perguntas incômodas, mas necessárias.  

No mundo ficcional de Bradbury as pessoas acabaram encontrando uma maneira de fazer seguir o pensamento crítico. E nós, encontraremos? Essa é a questão que tem me corroído as entranhas.

Elaine Tavares
No Palavras Insurgentes
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Religulous - Que o Céu Nos Ajude


Religulous acompanha o comediante Bill Maher na sua viagem a locais de culto religioso em todo o mundo para entrevistar um vasto espectro de crentes em Deus e na Religião.

Conhecido pela sua astuta capacidade analítica e pelo seu empenho em não ser agressivo para ninguém, Maher aplica a sua característica honestidade e espírito irreverente às questões da Fé, fazendo-nos entrar numa divertida e provocativa viagem espiritual.

Um documentário que põe os deuses em causa com um apurado sentido de humor!


No 420 Doc
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Einstein, Nietzsche e Tumelero: sobre as leituras e citações de José Ivo Sartori

José Ivo Sartori gosta de fazer citações, como a demonstrar que não é apenas um “homem simples que sabe fazer”, mas que também tem lá suas leituras.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
José Ivo Sartori é um homem simples, mas competente. Durante a campanha eleitoral de 2014, essa foi uma das mensagens principais veiculadas pela propaganda do candidato do PMDB. O par “simples-competente” era uma oposição explícita ao “intelectual-incompetente” que traduziria a figura do então governador Tarso Genro. Em inúmeras ocasiões, com inclinações e contextos diferentes, essa oposição era trabalhada. Tarso é habilidoso com as palavras, sabe falar, mas não sabe fazer. Já Sartori, é o homem simples do interior, meio tosco até, mas que sabe fazer. No entanto, apesar da mistura de ironia e desprezo com que encara os “intelectualismos” da vida, José Ivo Sartori gosta de fazer citações, como a demonstrar que não é apenas um “homem simples que sabe fazer”, mas que também tem lá suas leituras.

Em sua última incursão teórica, o atual governador lembrou um episódio que envolveu anos atrás o jornalista Paulo Santana e o psiquiatra Paulo Rebelato. Em um programa na extinta TVCOM, os dois pretendiam debater problemas gerais da vida cotidiana e da existência humana. Certo dia, Santana sacou um papelzinho do bolso e advertiu seu interlocutor dizendo que, naquele dia, tinha ido preparado e Rebelato não ficaria dando “carteiraços teóricos” sozinho. E desandou a ler algumas citações de Nietzsche que recolhera para o programa. Na semana que passou, o governador de Sartori repetiu o gesto de Santana e tirou do bolso o seu papelzinho com uma suposta citação de Einstein sobre as crises, escolhida para responder a críticas feitas no dia anterior pelo novo presidente do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, Luiz Felipe Silveira Difini.

Einstein é um dos autores que lidera o ranking de falsas atribuições de citações, nas redes sociais. Até hoje, ninguém conseguiu apontar a fonte, nos textos de Einstein, da citação feita pelo governador gaúcho. Após o caso vir a público, alguns apoiadores de Sartori ensaiaram uma tentativa, dizendo que as frases em questão estavam em uma reflexão que Einstein fez sobre a crise econômica mundial da década de 1930, que apareceriam no livro “The world as I see it”, traduzido no Brasil, em 1981, pela Editora Nova Fronteira. De fato, o físico escreveu alguns parágrafos sobre a crise, mas a citação de Sartori não habita os mesmos. Mas não é isso que importa, aqui. O que chama a atenção é como a autoridade política máxima do Estado expõe-se publicamente com um gesto deste. Não se trata de um detalhe insignificante, como alguns se apressaram em dizer, em defesa do governador.

Em primeiro lugar, o mínimo que se espera de alguém que faz uma citação em uma conversa é que a mesma seja verdadeira, ou seja, que as palavras em questão tenham saído mesmo da boca ou da pena do autor citado. Podem acontecer enganos, mas espera-se que a assessoria de um governador de Estado o preserve desse tipo de situação. Em segundo, por que o “homem simples, que não tem grandes elaborações intelectuais, mas que sabe como fazer” recorre a citações para responder a críticas políticas, ainda mais a citações de autoria não comprovada? Ao contrário do que quis fazer crer sua propaganda eleitoral, Sartori parece ter também as suas pretensões intelectuais e que não é apenas um homem simples que gosta de fazer piadas, como mandar os professores buscarem o piso na Tumelero. (N.E. Loja de materiais de construção).

A Wikipedia apresenta o atual governador do Rio Grande do Sul como um “professor, filósofo e político” brasileiro. Sartori, de fato, formou-se em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul. Como alguém com formação acadêmica, deveria saber, portanto, que comprovar a autoria das citações é uma regra básica de respeito e bons modos intelectuais. Uma visita rápida ao Google não garante o cumprimento dessa regra básica.

No dia de setembro de 2015, o governador fez outra incursão teórica durante uma cerimônia no Palácio Piratini. Desta vez citou Nietzsche, lendo um trecho do livro “Nietzsche para estressados”, de Allan Percy. O livro em questão é uma espécie de manual de autoajuda intelectual que reúne 99 máximas de Nietzsche e “sua aplicação a várias situações do dia a dia”.

A mistura desse tipo de citações com piadas improvisadas de gosto duvidoso parecem indicar vestígios de um complexo de inferioridade que, em algum recanto da alma, revela uma aspiração sufocada: “não sou apenas um homem simples; também posso dar meus carteiraços teóricos”. Se é assim, a assessoria do governador deveria ajudá-lo. Na campanha eleitoral, Sartori tinha o apoio permanente de seu marqueteiro de campanha que o orientava com cartazes durante debates. Agora, no governo, ele não tem mais esses cartazes à sua disposição para orientá-lo sobre o que dizer, a cada situação. Leituras de orelha, citações via Google e manuais de autoajuda intelectual não fazem de “um homem simples que sabe fazer” um “homem sofisticado que também sabe como fazer”. Fica o conselho. De grátis, como diria o filósofo.

Marco Aurélio Weissheimer
No RS Urgente
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A inquisição de Sérgio Moro: uma tragédia ou uma farsa?


Na abertura de “O 18 de Brumário de Louis Bonaparte”, Marx cita a assertiva de Hegel, em uma de suas obras, segundo a qual “todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes” e, mais adiante, completa: “a primeira vez como tragédia, a segundo como farsa”.

O livro foi escrito em 1851, e narra as circunstâncias caricatas da política francesa que permitiram a ascensão de Louis Bonaparte, o sobrinho de Napoleão, à Coroa do país, sendo o segundo Bonaparte um político com traços inexpressivos e esquálidos, frente à gigantesca personalidade representada pelo tio.

Faço esta breve citação para analisar a onda inquisitória conduzida pelo juiz Sérgio Moro na Justiça Federal do Paraná contra a Democracia. Cercado pela ação de Procuradores Federais que, como já dissemos anteriormente, pelas suas práticas lembram o alto comando da SS Nazista, o Juiz Sérgio Moro tenta reintroduzir no país algo que estava extinto na América Latina desde meados do século XIX: “a Inquisição”.

A Inquisição, também conhecida como “Santa Inquisição”, foi um movimento conduzido pelos setores mais conservadores da Igreja Católica contra todos aqueles que pudessem ameaçar o seu poder. Não raras vezes, pessoas pobres, envelhecidas e desvalidas foram vítimas dos “autos de fé” e da voracidade da “Fogueira”. Vários animais, especialmente gatos e cães da cor preta também foram levados ao fogo, sob a regência de um discurso de ódio que procurava afastar bruxas, bruxos e o demônio (em síntese, as ameaças ao poder do alto clero conservador medieval, que gozava de inúmeros privilégios e de grande poder político e econômico).

Mas as principais vítimas do movimento inquisitorial, iniciado na Idade Média, e entinto na Península Ibérica e na América Latina apenas em meados do século XIX, foram os judeus, os muçulmanos, os cientistas, as religiões e cultura dos indígenas e dos povos africanos escravizados. Segundo alguns historiadores, também estava presente na Inquisição uma tentativa de limpeza étnica e cultural na Europa e nos povos dominados para afastar todos aqueles que carregassem algum tipo de “sangue não cristão”, e qualquer comparação com o pensamento de um grupo político do século XX, comandado por um certo Adolf Hitler, não é mera coincidência.

Também seja feita justiça, a Inquisição não foi um privilégio da Igreja Católica. Alguns grupos protestantes também criaram os seus “autos de fé”, e conduziram pessoas para a “limpeza da alma pelo fogo”. Lembrem-se do famoso caso das “bruxas de Salém”, nos EUA, quando algumas adolescentes foram torturadas e mortas para satisfazer grupos conservadores puritanos. É importante destacar que a maioria das vítimas de todas as formas de Inquisição sempre foram do sexo feminino, o que também comprova que a pregação do horror dos inquisidores também tinha um forte cunho machista.

Mas trazendo o tema para o século XXI, o que tudo isto tem a ver som Juiz paranaense Sérgio Moro, e com o comando da SS local? A resposta é simples: as práticas utilizadas para a produção de provas.

Todo o trabalho, de qualquer inquisidor, em qualquer época, em qualquer canto do planeta nunca demonstrou nenhuma preocupação com a verdade, e sim com a condenação pura e simples. Pessoas eram presas sem saber porque, forçadas a confessar práticas de bruxaria, e a denunciar outros envolvidos. Para obter as suas provas os “autos da fé” nunca abdicaram de práticas de tortura, física ou moral, do aprisionamento sem provas, da pregação do medo e do ódio, e da eleição de alvos específicos para obter legitimidade, além, é claro de vantagens aos delatores (sendo que na maior parte das vezes o prêmio era uma forma mais tênue de sofrimento, diferentemente do que se observa hoje).

Os métodos de tortura utilizados durante a “era das trevas e do fogo” eram vários, desde a compressão do corpo pelos mais diversos mecanismos, passando pelo afogamento, por técnicas mais elaboradas como o “strappado” (pêndulo pela qual a vítima era amarrada numa corda por trás de uma viga e, reiteradamente, era içada e largada no chão com violência), até o empalamento. Maquiavel, Giodano Bruno, Galileu, Copérnico e Joana D’arc são apenas alguns exemplos de vítimas famosas da “Santa” Inquisição.

Mas como já disse anteriormente, a tortura não é apenas física, pode ser simbólica e psicológica. Logo, colocar uma pessoa na cadeia, sem nenhuma prova consistente, apenas para forçar a confissão e a delação premiada pode, sim, ser considerada como uma forma de tortura. É a utilização de um sofrimento moral forçado para a obtenção de provas, e aqui neste ponto é que a conduta do Juiz Federal do Paraná se assemelha com as dos inquisidores medievais.

No século XXI não é preciso queimar as pessoas numa fogueira física, como ocorria nos tempos passados. Existe hoje um mecanismo muito eficiente e eficaz para atingir tal resultado que é a utilização da mídia, que sem nenhuma preocupação com a verdade e com os fatos, expõe as pessoas a uma condição vexatória de abalo moral, muitas vezes sem retorno. É a chamada “morte em vida”, que é se sustenta pela destruição da imagem, perda de credibilidade, da reputação, e enfraquecimento dos laços familiares e de amizade, sem contar o desmonte de um trabalho de uma existência.

Todavia, não consigo ver em Sérgio Moro identidade com “grande inquisidor” da inquisição espanhola Thomaz de Torquemada.  O último, indiscutivelmente, apesar de todos os males trazidos para a humanidade e para a sua geração, era um protagonista, um nome forte e com grande poder de influência na sua época. Moro, ao contrário, é um mero executor, e apesar de toda a sua vocação para os holofotes, não tem o mesmo poder de influência, tendo em vista que apenas cumpre com a agenda conservadora construído pelo alto escalão da mídia oligopolista.

A aproximação do juiz paranaense com a inquisição ocorre no campo das práticas processuais para a obtenção de provas, pela obtenção contínua de delações forçadas e com pouca credibilidade, pelas prisões arbitrárias e seletivas, totalmente incompatíveis com o Estado Democrático de Direito.

Mas existe uma outra face do que observamos na condução processual de Moro que são as contradições no tratamento oferecido aos presos. Enquanto alguns acusados seguem na cadeia para agradar a voracidade da mídia, outros recebem tratamento especial. Isso fica evidente quando identificamos a facilidade como juiz que se apresenta como um “paladino da moralidade” liberta e afasta as restrições dos acusadores de políticos do PSDB. Partido que, por sinal, também Governo o Estado onde vive Sérgio Moro.

Primeiro tivemos a libertação do acusado confesso Jayme Alves de Oliveira Filho, mais conhecido como “Careca”, que depôs afirmando que o Senador Mineiro Antônio Anastasia (PSDB) recebeu cerca de R$ 1 milhão de reais de propina a pedido do doleiro Alberto Youssef. Diga-se de passagem, o último, junto com Paulo Roberto da Costa, também está envolvido em vários escândalos das privatizações tucanas como Furnas e Banestado, e artífice de todas as ações da operação cujas investigações são conduzidas por Moro, desapareceu rapidamente das páginas de imprensa. Por quê?

Mais recentemente, graças ao excelente trabalho do Blog de Helena Sthephanowtiz, da Rede Brasil Atual, chegou ao conhecimento da população que Carlos Alexandre de Souza Rocha, apelidado de “Ceará”, e também ligado há mais de 20 anos ao doleiro Youssef teve o mesmo tratamento oferecido a Jayme Alves de Oliveira Filho.

Preso em março de 2014, na primeira fase da operação Lava Jato, Ceará foi libertado em agosto do mesmo ano após mais um acordo de delação premiada, onde não delatou nada, recebendo de volta, além da liberdade, a suspensão condicional do processo e a liberação dos bens bloqueados.

Conforme consta nos autos da investigação, Ceará contou que um diretor da empresa UTC, apenas conhecido como Miranda, desabafou afirmando que a empresa carioca iria repassar R$ 300 mil ao Senador Mineiro Aécio Neves, também do PSDB/MG, e que este estava sempre em cima dele atrás desse dinheiro. Ou seja, situação idêntica a de Careca.

Assim, mais uma vez o nome de um político tucano apareceu claramente no processo e, como já havia ocorrido anteriormente, o processo de acusação foi suspenso e o delator, réu confesso, foi premiado com a liberdade e devolução dos bens, algo que não aconteceu com outros indiciados. Desta forma, fica evidenciado o caráter binário do trabalho de Moro e o MPF paranaense, e a facilidade como as acusações contra políticos do PSDB recebem tratamento diferenciado, o que nos leva a concluir que mesmo sendo uma tragédia no que tange ao desrespeito de direitos fundamentais e ao uso arbitrário do poder, a condução processual da Lava Jato também está impregnada de um tom farsesco.

Portanto, caso viéssemos a enquadrar o trabalho do juiz Moro na assertiva de Marx no 18 de Brumário de Luiz Bonaparte chegaríamos a uma conclusão híbrida, pois estaríamos diante de uma tragédia frente ao Estado Democrático de Direito, e de uma farsa, quando observamos todo o tratamento para a libertação dos acusadores do tucanato, o que em alguns casos repercutiu, também, no sumiço das testemunhas…

Sandro Ari Andrade de Miranda, advogado, mestre em ciências sociais.
No Sul21
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O jornalismo cínico e o ponto de não-retorno

Em 1988, o psicanalista Jurandir Freire Costa alertava que a sociedade brasileira poderia estar chegando a um perigoso ponto de não-retorno. Ela estaria incorporando quatro valores: cinismo, narcisismo, violência e delinquência. À época, seus estudos tinham como referência, entre outros, as ideias de Peter Sloterdijk. O filósofo alemão havia escrito, desde a década de 1970, artigos sobre o cinismo. Suas ideias culminariam no clássico livro “Crítica da razão cínica”, publicado na Alemanha no início dos anos 80, com grande repercussão naquele País e Europa em geral.

Mais tarde, além de outros idiomas, foi traduzido para o espanhol (1989) e para o português (2012). Nele, o autor aborda o crescimento do cinismo em escala institucional e pessoal na contemporaneidade. Para Sloterdijk, sob a capa das instituições e grupos, e em contrapartida com discursos de interesse público, crescem os componentes cínicos que se amparam em interesses privados.

Sloterdijk era cético com o destino das instituições. Em relação à mídia, considera viver num mundo aparentemente “superinformado” e, no entanto, de notícias “hipertrofiadas”. Estudioso do cinismo que se agigantava, o autor alemão era descrente em relação às potencialidades midiáticas tradicionais para a democracia. E, por extensão, do jornalismo com sua volumosa informação, que para ele era cada vez mais um espaço de mediação pública de interesses privados. E com a colaboração crescente de jornalistas que incorporam tal “valor”, de forma ingênua ou não, conscientemente ou não…

Já o ponto de não-retorno de Freire Costa atingiria diversas instituições e o comportamento individual. Segundo o psicanalista, a cultura do cinismo deriva da cultura narcísica e “se não há como recorrer a regras supra-individuais, historicamente estabelecidas pela negociação e pelo consenso, para dirimir direitos e deveres privados, tudo passa a ser uma questão de força, de deliberação ou de decisão, em função de interesses particulares. Donde o recurso sistemático à violência, à delinquência, à mentira, à escroqueria, ao banditismo ‘legalizado’ e à demissão de responsabilidade, que caracterizam a ‘cultura cínico-narcísica’ dos dias de hoje” (Costa: 1989, p. 30-31).

O que o Jornalismo tem a ver com isso?

O Jornalismo tentou se afirmar, nos últimos 300 anos, como espaço de informação, conhecimento e esclarecimento sociais, baseado na crença de que tem legitimidade social para isso e fundamentado na credibilidade das informações que por ele circulam.  Desde a década de 1970 passou a ser quase um subproduto dentro dos conglomerados midiáticos, em que cada vez mais sócios de empresas de fora da mídia atuam dentro dele, a ponto de não se saber quem investe em quem: se acionistas investem na produção informativa e interferem na adequação a seus interesses; se empresários da mídia e do jornalismo investem em empresas de fora da área para fortalecer interesses particulares que não estão mais no próprio modelo de negócios ou, afinal, se são um só faz muito tempo e hoje as coisas ficaram apenas mais claras, mais descaradas…

O que vem acontecendo, de forma reiterada, é de uma desfaçatez enorme diante da ideia de esclarecimento público e da defesa de que o jornalismo é o porta-voz da controvérsia e, portanto, a liberdade de expressão é sagrada, bandeira não só dos profissionais — a maioria honestos —, mas também de empresários — a maioria envolvida em sonegação de impostos, achaque dos cofres públicos e política de demissões e rotatividade sem qualquer piedade, embora sempre defendam o jornalismo, em quaisquer circunstâncias oficiais, como vinculado ao interesse público, à informação de qualidade, à fidelidade sobre a história do cotidiano.

Talvez por isso que Sloterdijk tenha escrito que “cinicamente dispostas estão estas épocas de gestos vazios e de fraseologia refinadamente tramada, em que sob cada palavra oficial se ocultam reservas privadas” (1989: v. II, p. 209);

O cinismo e o narcisismo tem se configurado em diversas coberturas, opiniões, comentários e tratamentos dos fatos, apesar de vários profissionais darem o melhor de si para a profissão e a sociedade em muitas matérias, em variadas notícias e reportagens. E sejam honestos em comentários. No entanto, isso parece ser cada vez mais exceção na grande empresa jornalística. O processo que engole e ameaça jornalistas é dilacerante para a profissão e presume que o jornalismo, para sobreviver com o melhor que conseguiu nos últimos séculos, estaria fora do modelo de negócios tradicional, este hoje e de forma inexorável muito mais pautado pelos critérios de audiência do que por relevância temática social. E acentua de forma descarada esta vertente a cada dia…

Rapidamente, três exemplos:
  • Na semana de 25 a 29 de janeiro, o Jornal Nacional exibiu série de reportagens sobre os problemas da saúde no Brasil, focando, claro, no setor público, tratando do SUS, dos hospitais públicos… O JN esmerou-se em retratar as mazelas pelas quais passa o povo brasileiro em atendimento médico e em tratamento de doenças como câncer e várias outras: filas, espera, mau atendimento, falta de estrutura e tantos outros problemas foram apontados. Isso para o tratamento público e gratuito. Situações reais. Mas durante muito tempo, e hoje, todo o jornalismo da Rede Globo, e especialmente o JN, fez campanha aberta pela redução dos gastos públicos, pelo enxugamento da máquina pública. Depois de intensa e sistemática campanha ao longo de anos, mobilizando a sociedade para cortes em todas as áreas do Estado, há um claro cinismo — e responsabilidade — quando falta dinheiro para qualquer área social, incluindo a saúde. Além disso, o JN esquece de dizer que uma parte da estrutura e do dinheiro que falta é responsabilidade da própria emissora e do grupo que representa, sonegador de impostos e com dívidas que ultrapassam a casa do bilhão de reais com a União. Se a dívida fosse paga, certamente seria de muita valia para o uso na área da saúde, como de resto tem sido o atendimento feito, se não perfeito, em geral bem razoável, por exemplo, pelos postos de saúde, hospitais públicos e o setor em geral e que tem logrado salvar muita gente. E ainda mais quando o próprio grupo do qual faz parte o JN esperneia quando o governo ameaça cortar gastos de publicidade, bilionário ao longo dos anos. É o cinismo que beira à delinquência jornalística, à escroqueria: o grupo Globo recebeu do Estado brasileiro — ou seja, “saiu do meu bolso, do seu bolso, da saúde” — mais de seis bilhões de reais nos últimos 12 anos;
  • Na edição de 30/01/2016, a Folha de S. Paulo traz matéria, quase humorística, assinada por Flávio Ferreira. Em editoria específica de “brasil em crise” (em minúsculo mesmo), o critério de noticiabilidade utilizado pela Folha colocou, no primeiro plano e em tom acusatório, a sensacional informação de que “Mulher de Lula adquiriu barco para sítio”. Um barco que não chega a cinco mil reais; uma propriedade que não se compara em valor às de Aécio Neves, Fernando Henrique Cardoso e a de tantos outros ex-presidentes, parlamentares, mulheres de parlamentares e de presidentes. E que jamais foi notícia. Trata-se de uma peça jornalística que beira à delinquência e ao cinismo, feita a mando talvez para tentar corrigir os continuados dados equivocados sobre o triplex de Lula, sobre os imóveis e negócios comprados sem prova alguma por filho de Lula (Havan, entre eles), pelos “ilícitos” nunca provados feitos pelo ex-presidente, que além de não serem ilegais, muitas vezes foram feitos à luz do dia e em função de parcerias de governo, seja com Estados Unidos ou Cuba, conforme deve ser em qualquer relação comercial entre dois países. Suspeitas, sempre suspeitas, e mais suspeitas… Se houvesse provas já haveria faz muito tempo. O mesmo ocorreu quando parte do jornalismo brasileiro insistia em atacar Leonel Brizola sem nunca provar nada;
  • É quase autoexplicativa a seleção feita pelo site/blog Mídia Independente Coletiva, feita a partir do site do G1 (Rede Globo) e como este trata determinados assuntos. É exemplar e pedagógica. O cinismo bate à porta e ocupa o posto do jornalismo:


O crescente número de agressões e processos contra profissionais e empresas está num quadro de perda de legitimidade e de credibilidade, valores que precisam ser arduamente recuperados. No entanto, na lógica empresarial em que se move o jornalismo tradicional, e na submissão de grande parte de seus profissionais em questões-chave de economia e de política, está cada vez mais distante o reconhecimento público à atividade e o respeito a uma profissão que lutou muito, por suas entidades, para adquirir um estatuto profissional específico e uma moral ancorada no interesse público, coisa que ainda as escolas estão a propor e a realizar. Mas que encontra cada vez mais espaço fora do jornalismo de referência histórica e encontra mais possibilidades dentro de modelos alternativos que surgem, dentro ou fora das redes sociais.

Parece ser um caminho para continuar chamando Jornalismo de Jornalismo, driblando os quatro vértices elencados por Freire Costa: cinismo, narcisismo, violência e delinquência. Quem sabe assim o jornalismo, sobretudo o tradicional, escape do que inevitavelmente tem sido a sua marca atual: o perigoso ponto de não-retorno. Ali onde o pêndulo da dialética que sempre marcou a sua história — entre o capital/interesse privado versus interesse público — tem pendido sempre para o lado do primeiro. Pelo menos corresponderia em parte ao que se propôs historicamente.

Referências

COSTA, Jurandir Freire. Psicanálise e Moral. São Paulo: Educ, 1989.

SLOTERDIJK, Peter. Crítica de la razón cínica. Madrid: Taurus, 1989, 2v.

Francisco José Castilhos Karam é professor na UFSC e pesquisador do objETHOS

No OI
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É decente usar o filho de Lula para caçá-lo?

Mark com a mãe Margaret Thatcher
Agora é um filho de Lula que está nas manchetes, acusado de haver recebido 500 mil reais do Corinthians sem haver trabalhado.

Para além dos detalhes do caso, o que deve ser debatido, urgentemente, é qual o limite para a caçada brutal a Lula.

Lula deve responder por qualquer coisa que um filho faça? É uma insanidade. Isso só se explica pelo objetivo de destruir Lula.

Vale a pena comparar o tratamento dado, no Reino Unido, aos escândalos em torno do filho de Margaret Thatcher, heroína dos que caçam Lula.

Uma biografia recente de Thatcher conta o seguinte.

“Em novembro de 1980, Margaret Thatcher, imprudentemente e sem o conhecimento de seu chefe de gabinete, deu a seu filho, então com 27 anos, uma carta manuscrita de apresentação ao Xeque Zayed, presidente dos Emirados Árabes Unidos.”

A partir dali, ocorreriam vários episódios que sugeriam que Mark estava explorando o nome da mãe em proveito próprio, sobretudo no Oriente Médio.

Em 1984, o jornal Observer publicou uma reportagem com um dos escândalos do filho de Thatcher. A partir dali, segundo a biografia mencionada, o governo britânico decidiu que Mark devia deixar o Reino Unido, “uma coisa extraordinariamente dura para minha mãe”.

Mark foi para os Estados Unidos, e depois para outros lugares, sem deixar jamais de protagonizar escândalos. Num deles, quando morava na África, foi preso por participar de um golpe frustrado na Guiné Equatorial.

Mas mesmo os inimigos de Margaret Thatcher, e ela os tinha em elevado número, jamais exploraram Mark para atingi-la. Esse decoro foi respeitado ainda que houvesse evidências, como a carta ao xeque dos Emirados Árabes Unidos, de que a mãe trabalhara ativamente pelo filho.

Filhos adultos devem responder por seus atos, eis uma máxima de inexpugnável justiça.

Thatcher, quando enfim caiu em 1989, depois de onze anos de poder, era amplamente detestada entre os britânicos, incluídos aí seus próprios ministros. Foram eles que a derrubaram.

Thatcher foi desafiada na liderança do Partido Conservador, e não obteve os votos necessários para permanecer no poder.

Derrotada, teve que sair em horas do número 10 de Downing Street, sede do governo britânico.

Mark não teve influência nenhuma na derrocada súbita da mãe.

Isto se chama civilização.

Em contraste, a oposição brasileira bombardeia o filho de Lula — contra o qual não há nada provado — como se Lula fosse responsável por qualquer coisa que o filho faça.

Não é justo. Não é humano: é desumano. É cruel. É mesquinho. É fruto de muito ódio e de igual dose de desespero com a perspectiva de uma candidatura de Lula em 2018.

Mark Thatcher não serviu de munição contra os adversários da mãe. Não era decente fazer isso, mesmo com a carta escrita por Margaret Thatcher.

Ainda muito mais indecente é usar o filho de Lula — os filhos, na verdade — contra o pai, sem evidência nenhuma.

É a indecência levada ao limite extremo, e um dia isso terá que ser cobrado dos perseguidores.

Paulo Nogueira
No DCM
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Fazem um carnaval da Globo

E o Ali Kamel o que é?





Ao vivo, folião recusa entrevista e chama diretor da Globo de ‘nazista’

Um folião que estava no bloco Cordão do Boitatá, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro, constrangeu a equipe de jornalismo da GloboNews ao se recusar, ao vivo, a falar com a repórter da emissora: “Ali Kamel é nazista. Eu não falo com a Rede Globo”. No sábado (6), outro folião recusou entrevista: “Ei, Rede Globo, vai tomar no cu”

Por Redação

A reação de um folião no carnaval de rua do Rio de Janeiro chamou a atenção de telespectadores da GloboNews e de internautas na manhã deste domingo (7). Fazendo a cobertura do bloco Cordão do Boitatá, um dos mais tradicionais da cidade, a equipe de jornalismo da emissora ficou constrangida com a resposta de um homem a uma tentativa de entrevista, ao vivo, da repórter Cecília Flesch.

“Ali Kamel é um nazista. Eu não falo com a Rede Globo”, disse o folião ao ser questionado sobre o motivo pelo qual estava usando um véu de noiva.

Sem graça, a repórter tentou contornar: “Ihh, o pessoal não gosta da Globo. Aí fica difícil. Vamos tentar arrumar outros entrevistados”, disse, encerrando o boletim e devolvendo a palavra ao estúdio, onde a declaração do rapaz foi completamente ignorada.

No sábado (6), também no Rio de Janeiro, aconteceu uma situação parecida. Uma foliã, ao ser questionada pelo repórter da emissora, também ao vivo, onde estava indo, disparou: “Ei, Rede Globo, vai tomar no cu”, e saiu sorrindo. A transmissão foi interrompida na hora.

Nas redes sociais, internautas repercutiram a atitude do folião do Cordão do Boitatá.
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A cooperação internacional e o negócio da Globo


Há tempos vimos alertando sobre o papel econômico e geopolítico da cooperação internacional — os tratados de cooperação entre Ministérios Públicos e Polícias Federais de vários países. Os Estados Unidos são um país no qual o conceito de interesse nacional está estreitamente associado às estratégias de suas multinacionais.

Passaram a ser o ponto central da cooperação e a exercer uma espécie de jurisdição internacional, utilizando o instrumento como estratégia de guerra comercial.

No Brasil, a cooperação já vitimou empreiteiras que se internacionalizavam, a Eletronuclear e a Petrobras. Sua próxima vítima serão os grupos de mídia nacional, graças ao desmantelamento das organizações criminosas que orbitavam em torno do futebol.

Para entender melhor.

Na grande expansão das multi norte-americanas no pós-guerra, houve tentativas de internacionalizar os grupos de mídia, mas que sempre esbarraram nas legislações nacionais, obrigando-os a se associar ou ocupar papel secundário na relação com os parceiros nativos.

Veja o caso Globo-Time/Life. Os americanos bancaram o investimento, o know how, forneceram a tecnologia e os quadros técnicos e acabaram tendo de abrir mão da sociedade devido à reação política interna — que, sendo aparentemente contra o acordo, acabou beneficiando Roberto Marinho.

Com a Internet e a popularização da TV a cabo, as barreiras legais foram superadas. Os grupos tiraram do baú seus projetos internacionais  e passaram a montar estratégias visando conquistar audiência nos países-alvo.

Aí entra o futebol. Desde as históricas lutas de Jack Dempsey, nos anos 20, eventos esportivos sempre foram o carro chefe das audiências das emissoras. E, fora dos Estados Unidos, o futebol sempre o esporte por excelência.

Ao longo das décadas, os eventos futebolísticos tornaram-se a grande mina de ouro. Em torno dos contratos de patrocínios às transmissões de futebol  montou-se uma tentacular cadeia tendo como epicentro a FIFA e como braços os grupos de mídia hegemônicos em cada país, influenciando governos e ajudando a consolidar a influência das confederações filiadas.

Se dependesse das estruturas nacionais de combate ao crime organizado, seria mais fácil um elefante voando do que a o Ministério Público Federal ou da Polícia Federal investigando para valer as ligações da Globo com FIFA, CBF e os clubes esportivos. Essa mesma dificuldade deve ocorrer em outros países politicamente frágeis.

Usando a cooperação internacional como alavanca, os Estados Unidos lograram desbaratar a quadrilha que atuava na FIFA e, por tabela, os esquemas viciados de compras de transmissões de campeonatos nacionais.

O quadro midiático tornou-se tão demolidor que a própria Globosat foi obrigada a aceitar transmitir os canais concorrentes.

A cada dia que passa, maior é o peso da Globosat nos resultados gerais das Organizações Globo, na mesma medida em que há queda nas receitas dos demais veículos. Essa a razão da própria Globosat ter admitido incluir os canais concorrentes em sua programação.

E aí se tem o grande paradoxo.

O Ministério Público Federal, um órgão do Estado brasileiro, mandou uma missão aos Estados Unidos, chefiada pelo próprio Procurador Geral da República, levando informações contra a Petrobras, que é uma empresa de controle estatal, que deverão ser utilizadas nas ações empreendidas contra a empresa.

A mesma equipe voltou dos EUA com informações contra a Eletronuclear, outra empresa pública, em outro setor-chave para os interesses setoriais norte-americanos.

E, no entanto, não se tem informação sobre a contrapartida brasileira na cooperação internacional contra a máfia das transmissões esportivas e, especificamente, investigando os contratos da Globo com a CBF.

Luís Nassif
No GGN
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