6 de fev de 2016

TVs da Amazônia - Uma realidade que você desconhece — Parte 26 - Final


O anistiado, o otimista, o diretor sem dinheiro e os meliantes

Outras histórias encontradas pelo caminho

Um filho de agricultor que se tornou diretor de TV no Mato Grosso, um político dos confins do Amazonas que não conseguiu se reeleger mesmo com o monopólio da comunicação sobre assuntos locais, um taxista que conseguiu um segundo canal depois de envolvido no escândalo da emenda da reeleição, um diretor de TV que investe em programas policiais porque meliantes não têm salário. Abaixo, algumas histórias e personagens típicos das miniemissoras da Amazônia Legal.

A emissora do anistiado político

Nazaire Cordovil Barbosa.
Nazaire Cordovil Barbosa
Foto: Elvira Lobato
Aos 97 anos, Nazaire Cordovil Barbosa, ex-combatente da Marinha na Segunda Guerra Mundial, continua à frente de uma pequena retransmissora de TV na aldeia do Abade, município de Curuçá, no litoral paraense.

Finda a guerra, aderiu ao Partido Comunista e ao movimento pela estatização do petróleo – a campanha o Petróleo é Nosso –; foi preso e passou à reserva. Quando a Petrobras foi criada, foi contratado como técnico em manutenção. Ficou pouco tempo na estatal. No golpe militar, em 1964, perdeu os direitos políticos e o emprego.

Após o período militar, Nazaire foi anistiado e readmitido na Petrobras. É o associado mais antigo do Sindicato dos Petroleiros do Pará. Justiniano Prado de Carvalho, diretor do sindicato, cita a preocupação com as questões sociais e a persistência como as características mais marcantes de Nazário.

“Até hoje ele mantém uma escola para crianças carentes na comunidade onde mora. Paga as professoras, os uniformes e o material escolar do próprio bolso, sem ajuda do governo”, diz.

As filhas de Nazaire não souberam informar como ele conseguiu a retransmissora. A portaria que lhe deu a outorga foi assinada pelo ex-ministro Sérgio Motta, em 1997. O canal retransmite a programação do SBT e passa períodos fora do ar por falta de recursos.

O apresentador que virou dono de TV

Hugo Tillmann é um radialista conhecido no Sul do Pará. Ganhou fama como âncora do jornal da TV Liberal em Altamira. Em janeiro de 2015, entrou para o clube dos radiodifusores ao se tornar dono de sua própria TV, o canal 14 da cidade de Novo Repartimento.

Tillmann diz que esperou dois anos pela outorga e, embora admita que a indicação política ajuda na tramitação do pedido no ministério, sustenta que não teve padrinho. O canal está em nome da empresa Tillmann e Oliveira. Indagado sobre como conseguiu vencer os entraves burocráticos, ele respondeu: “É preciso contratar um bom engenheiro, que conheça os trâmites no Ministério das Comunicações e na Anatel. E ir à luta. Quem tem boca vai a Roma.”

Novo Repartimento tem 65 mil habitantes e está a 200 quilômetros de Marabá e a 70 quilômetros de Tucuruí. É uma cidade em crescimento econômico, que até então não tinha nenhum programa local de TV. “Percebi que tinha uma possibilidade de mercado. Havia dois canais de TV na cidade – o canal 13 da RedeVida e o canal 8, do SBT –, mas nenhum gerava programação local. E corri atrás da oportunidade”, afirmou Tillman.

A emissora foi inaugurada em março de 2015, retransmitindo a Record. Otimista, Tillmann diz que sua iniciativa despertou os concorrentes, que também começaram a fazer programação local.

A Record dá a ele duas janelas de tempo por dia para incluir sua produção: das 12h às 12h40 e das 18h às 18h30. Aos domingos, ele tem uma hora à sua disposição: das 9h30 às 10h30.

O novo radiodifusor disse estar otimista com o futuro. Pretende manter sua TV com a venda de anúncios locais. A relação com a Record, disse ele, é de parceria, e não envolve pagamento entre as duas partes. Indagado se tem planos de fazer carreira política a partir da TV, ele respondeu que não, “por enquanto”.

Enquanto isso, na televisão



Dono de TV em Gurupi é lojista e político

Com 83 mil habitantes, a cidade de Gurupi, no sul do Tocantins, chama a atenção pela quantidade de canais de TV: uma geradora, afiliada da Globo, e sete retransmissoras, todas aptas legalmente a produzir conteúdo local.

Silvério Maciel Filho é o proprietário da SilTV, canal 19, e também presidente do diretório municipal do PDT. É ainda dono da Sil Esportes, uma loja de material esportivo cujas vendas sua emissora ajuda a alavancar.

Na TV, ele faz reportagens, apresenta o jornal local e vende espaços publicitários ao comércio. Segundo disse, a venda de anúncios mal dá para cobrir os custos da emissora, que tem equipe minúscula: um repórter, um cinegrafista, um estagiário e um editor, além do próprio Silvério, que cursou jornalismo depois de comprar a TV.

O que o atraiu na radiodifusão, disse, foi a paixão pelo esporte. Antes de comprar a TV, ele arrendou horário em uma outra emissora para fazer seu próprio programa esportivo.

Em dezembro de 2002, quando o governo de Fernando Henrique Cardoso chegava ao final, o Ministério das Comunicações outorgou três canais de retransmissão à empresa Macarena Telecomunicações em três cidades de Tocantins: o 19, de Gurupi, o 56, de Palmas, e o canal 6, de Araguacema.

O empresário afirmou que comprou a Macarena em 2006, por intermédio de um escritório de advocacia, e que não sabe quem era o proprietário anterior. Seguindo uma prática corriqueira na Amazônia, ele arrendou o canal de Palmas à Igreja Adventista do Sétimo Dia, para exibição da programação da Rede Novo Tempo. A emissora de Araguacema não havia entrado no ar até a realização da entrevista com Silvério, em julho de 2015. “A cidade é muito pequena e não oferece a menor possibilidade de uma emissora se sustentar com a venda de anúncios”, justificou ele.

Por vias indiretas, a onda de arrendamento de canais a igrejas beneficiou duplamente o empresário. Além de faturar com o aluguel na capital, ele fez um upgrade na programação em Gurupi: no final de junho de 2015, trocou a RedeTV pela Band, que, segundo diz, tem uma programação mais atrativa. Isso foi possível porque a antiga afiliada da Band em Gurupi, a TV Girassol, arrendou o canal ao pastor Waldomiro, da Igreja Mundial do Poder de Deus.

Perguntei a quem pertence a TV Girassol, e Silvério respondeu com uma evasiva: “A gente nunca sabe direito. Sempre ouvi dizer que era do Eduardo Siqueira Campos”, disse, referindo-se ao deputado estadual, ex-senador e ex-prefeito de Palmas.

O meliante é a estrela na TV de Cacoal

Com 90 mil habitantes, a cidade de Cacoal, em Rondônia, tem cinco emissoras de televisão com programação local. Uma delas é a TV Allamanda, canal 13, retransmissora do SBT.

O programa de maior audiência da emissora é o Comando Policial, que, como o nome indica, privilegia a cobertura de crimes. Ele é transmitido diariamente das 11h30 às 13h45.

Enquanto isso, na televisão



Diretor da emissora há doze anos, Valdecir Lopes, 42, disse que não tem recursos financeiros nem mão de obra qualificada para produzir programas culturais. Bem humorado, explicou a razão da abundância dos programas policiais nas pequenas emissoras da Amazônia Legal: “No noticiário policial o meliante é a estrela. E ele não cobra para aparecer na TV. Se o apresentador é bom questionador, tem boa desenvoltura e faro para a notícia, o programa está viabilizado.”

Além do Comando Policial, a TV tem um segundo noticiário, o Allamanda Notícias, que vai ao ar das 18h15 às 18h40. E aos domingos transmite a missa direto da catedral.

Concorrente da Allamanda, a retransmissora da Record em Cacoal – TV Candelária, canal 46 – terceirizou a produção de conteúdo. O Cidade em Destaque, que vai ao ar do meio-dia às 13h40, é produzido pelo publicitário Jenézio Lima e transmitido simultaneamente por mais duas emissoras de cidades vizinhas: o canal 10 de Pimenta Bueno e o canal 8 de Espigão do Oeste.

Na contramão do concorrente Valdecir Lopes, Jenézio diz que o programa é uma “revista eletrônica” e que prefere o noticiário “soft”. “Jamais mostro violência”, diz.

O programa foi exibido durante 14 anos pela KTV, afiliada da TV Cultura, pertencente ao ex-vice-prefeito de Cacoal Luiz Carlos Katatau. Para Jenézio, a oportunidade de mudar de emissora surgiu com a implantação do canal 46, afiliado da Record, que pertence ao ex-presidente da Assembleia Legislativa de Rondônia Everton Leoni.

Segundo o apresentador, a concorrência entre emissoras de TV em Cacoal é maior do que a existente na capital do estado, Porto Velho. “É algo meio doido, que não tem explicação.”

Quem é o dono desta emissora?

Como muitos de seus conterrâneos, o paranaense Dirceu Zanatta, 40, deixou sua cidade de Ivaiporã quando jovem em busca de novas oportunidades no Mato Grosso. Estabeleceu-se em Sorriso, um dos municípios de maior produção de soja do país. Lá entrou para a política e se elegeu vereador pelo PMDB, em 2012. Em 2014, candidatou-se a deputado federal, mas não foi eleito.

Também como tantos outros políticos, Zanatta buscou ter sua própria TV e arrendou o canal 6, afiliado do SBT. Entrevistado por telefone, ele disse que a emissora é viável economicamente porque Sorriso é uma cidade próspera, de 80 mil habitantes.

O canal está registrado em nome da empresa Teles Pires, mas o vereador disse não conhecer os nomes que aparecem como sócios no sistema de informações da Receita Federal: Ieso Bento Vasconcelos, Marta Machado Ramos e Harrison Ormond. Quando entrou no negócio, afirmou, a empresa já estava sob responsabilidade de outras pessoas. Zanatta disse que tem uma parceria com o proprietário da emissora, cujo nome não quis revelar.

Perguntei se ele não considera as retransmissoras de TV inseguras do ponto de vista jurídico, já que não possuem concessões como as geradoras. “Minha segurança é o contrato com o SBT”, respondeu de pronto, demonstrando estar convencido de que tem um negócio garantido nas mãos. O contrato com o SBT é renovado a cada três anos.

Zanatta disse que tem uma relação de parceria tanto com o SBT quanto com o proprietário da retransmissora. Com o primeiro, a relação não envolve pagamento: “Temos um horário na grade de programação para produção de conteúdo local e a responsabilidade pela qualidade desse conteúdo é nossa. Já o dono da outorga do canal recebe uma parte do lucro do negócio.”

De provedor de internet a dono de TV

À medida que a rede de banda larga das companhias telefônicas se espalha pelo interior da Amazônia Legal, pequenos provedores de internet se veem obrigados a mudar de negócio. Foi o caso de Jean Carlos Rodrigues Pereira, empresário da cidade de Confresa, no norte do Mato Grosso.

“Fui a primeira pessoa a oferecer internet na região. Mas quando a Oi implantou o ADSL [tecnologia de banda larga], matou os provedores locais. Os que persistem enfrentam muitas dificuldades para ter link”, explicou o empresário.

Jean Carlos fez uma parceira com o grupo Gazeta, afiliado da Record no estado, e implantou o canal 12, que estava fora do ar. Investiu R$ 80 mil em equipamentos, segundo disse. O sinal da emissora cobre treze municípios, num raio de 35 quilômetros. Com duas equipes de jornalismo e um total de nove funcionários, ele é responsável pela cobertura jornalística em toda sua área de cobertura. O jornal local tem 1 hora e 15 minutos de duração e vai ao ar de segunda a sexta-feira.

A TV Gazeta terceirizou a gestão do canal pelo período de quinze anos. Jean Carlos diz que não se trata de arrendamento, porque ele não paga a Gazeta pelo uso do canal. “Temos uma parceria em que eu tenho várias obrigações a cumprir. A principal delas é manter o canal no ar. A outorga do canal pertence à Gazeta e, se ficar fora do ar, ela estará sujeita a multa.”

A TV de Jean Carlos é a única existente em Confresa com produção de conteúdo local. A TV Centro América, afiliada da Globo no estado, possui uma retransmissora na cidade, o canal 9, que apenas repete a programação gerada na capital. Para o empresário, seria melhor se houvesse mais competidores gerando conteúdo, o que ajudaria a criar uma cultura no comércio local de investir em publicidade.

Arrendada após irritar o prefeito

Uma emissora de televisão, mesmo pequena, é uma arma política de grosso calibre, como se viu em Barra do Bugres, um município a 150 quilômetros de Cuiabá, em 2012.

A cidade, de 30 mil habitantes, tem uma pequena retransmissora que produz conteúdo local: a TV Independência, canal 9, afiliada Record. É administrada por um ex-presidente da Câmara municipal, Orlando Cardoso Chaves, apresentador do programa Tribuna do Povo.

Sob o comando de Chaves, a emissora foi uma crítica implacável da gestão do ex-prefeito Wilson Oliveira, do PSD (2009-2012). Em reação, ele apertou o pescoço de uma repórter diante da câmera ligada, causando protestos.

Pouco depois, o assessor jurídico do então prefeito arrendou a TV, o apresentador foi afastado e as críticas à prefeitura cessaram. Terminado o mandato do prefeito, Chaves reassumiu a emissora. Ele sustenta que faz jornalismo e que a TV fiscaliza o poder público.

Em 2009, cinco empresários da cidade se juntaram para solicitar ao Ministério das Comunicações um outro canal de TV para a cidade, em nome da Associação Metropolitana de Comunicação. À frente do projeto está o ex-locutor de rádio Odair Alves Lara. “A cidade está mal servida de comunicação. Tem uma rádio comunitária e uma TV que funcionam como instrumento político. Fora isso, restam apenas os blogs”, disse Odair.

Enquanto isso, na televisão



Filho de agricultores comanda TV em Colíder

Filho de agricultores, Wesley Bras Tavares começou a trabalhar em televisão ainda adolescente. Tinha 16 anos quando uma prima lhe arrumou emprego na TV Tropical, canal 13, afiliada do SBT em Colider, no Mato Grosso.

De operador de máster – o computador que interrompe o sinal captado do satélite para incluir a programação local –, ele passou a cinegrafista, repórter e diretor da emissora. Assumiu a direção em 2008, no lugar de Nilson Santos, ex-deputado estadual e atual prefeito de Colider pelo PMDB.

A TV faz parte da rede de comunicação criada pelo ex-governador Silval Barbosa, também do PMDB. Wesley contou que o ex-governador montou a emissora, em 1998, mas sempre delegou a gestão a terceiros.

A TV se mantém com a venda de publicidade. O faturamento mensal, segundo o diretor, é de cerca de R$ 15 mil, para manter dez empregados. A prefeitura gasta R$ 1.500 com publicidade na TV, respondendo por 10% do faturamento.

Perguntei a Wesley o que atrai os jovens para a profissão, tendo em vista que os salários são baixos. Para ele, a perspectiva de construir uma carreira política a partir da visibilidade dada pela TV é um atrativo. “Televisão é um caminho muito bom para se construir uma carreira pública. Quando o apresentador assume causas de interesse da população e cobra limpeza de ruas, conserto de estradas e atendimento de saúde, ele faz seu nome.”

A emissora produz três programas locais: um noticiário policial diário, o Repórter em Ação, no horário do almoço; um resumo do noticiário no final da tarde, o Cidade Notícia, e um programa de variedade, aos sábados, inspirado no Mais Você, de Ana Maria Braga.

Wesley se disse preocupado com o futuro. Até dezembro de 2018, a emissora terá de migrar do sistema analógico para o digital. A migração custará R$ 200 mil, e ele não vê como bancar a despesa com o faturamento da TV. Se o proprietário Silval Barbosa não fizer o investimento, antevê que terá de buscar uma alternativa profissional.

Uma pequena TV na Cabeça do Cachorro

No interior do Estado do Amazonas não há retransmissoras de TV de empresários ou políticos locais, que funcionem como unidades de negócio independentes. Todas as outorgas de retransmissão de TV pertencem às redes geradoras. O fenômeno é atribuído ao isolamento dos municípios e ao vazio demográfico. A exceção é a TV Quirino, canal 10, de São Gabriel da Cachoeira, região isolada na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, conhecida como Cabeça do Cachorro.

São Gabriel da Cachoeira.
São Gabriel da Cachoeira
Foto: Natalia Viana
A pequena retransmissora pertence a um político: o ex-prefeito Raimundo Quirino Calixto, que ocupou o cargo em dois mandatos –1986 a 1988 e 2001 a 2014. Calixto disse que sempre foi político e que a emissora não influenciou seu desempenho nas urnas. De fato, ele não se reelegeu em 2004 e foi novamente derrotado na eleição para prefeito em 2008, quando concorreu pelo PRP.

Calixto conseguiu o canal em 1988, por portaria do então ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães. A TV está em franco declínio, e não tem mais programação local.

No início, a TV retransmitia o SBT e tinha noticiário próprio. O SBT não renovou o contrato, e Calixto passou a retransmitir o sinal da RedeTV. Por fim, em 2015, passou a veicular a programação da Rede Vida, da Igreja Católica, na qual inclui anúncios locais.

O ex-prefeito é comerciante de produtos eletrônicos e não depende financeiramente da receita da emissora. Mas a empresa tem valor econômico. Na campanha eleitoral de 2008, ele informou ao TSE que a TV valia R$ 90 mil.

O vereador Jerônimo Almeida Ferreira, do PTB, testemunhou que o ex-prefeito é uma exceção à regra de que políticos usam meios de comunicação para atacar adversários e se promover. Para o vereador, a emissora se enfraqueceu por causa da proliferação das antenas parabólicas. Como não existem outros canais na cidade, a população não se sente estimulada a colocar uma segunda antena para captar o sinal local. Ele próprio diz que não vê a TV Quirino há vários anos.

TV nasceu de projeto de assentamento

Tucumã é um dos muitos municípios do sul do Pará que nasceram dos projetos de povoamento da Amazônia promovidos pelo regime militar. A agrovila foi implantada em 1981 e hoje é uma cidade de 36 mil habitantes. Colonos chegavam em busca de terras e ficavam isolados, sem informações do resto do país. Para romper o isolamento, criaram o Conselho Comunitário de Desenvolvimento de Tucumã e pleitearam um canal de TV.

Em 1988, o então ministro Antônio Carlos Magalhães autorizou duas retransmissoras para o conselho: o canal 12, em Tucumã, e o canal 4, em São Félix do Xingu, ambos para retransmitir a TV Globo. O canal de Xingu está desativado há mais de dois anos.

No cadastro da Anatel, o canal 12 ainda consta como retransmissor da Globo, embora desde 2007 tenha migrado para a Record. A emissora está registrada em nome de um conselho comunitário, mas, na prática, é um canal particular do vereador Anivaldo Julião de Lima, do PV, presidente da Câmara Municipal de Tucumã e membro do diretório nacional do Partido Verde.

Conhecido como Anivaldo Savanas, o político disse que a emissora deixou de produzir programação local em 2013, por causa da crise econômica e do aumento da competição pela publicidade. Segundo ele, criar conteúdo local custaria pelo menos R$ 10 mil por mês.

Atualmente, há cinco retransmissoras na cidade – da Globo, Bandeirantes, SBT, Record e TV Mundial – e a competição por anúncios em Tucumã é acirrada. Nenhuma das cinco emissoras tem programação própria local. Savanas calcula que o bolo publicitário total de Tucumã, para rádios e TVs, é de R$ 50 mil por mês.

Ele disse que a prefeitura não gasta com publicidade na TV e que sua emissora estaria proibida de assinar contrato com a prefeitura. “A TV Carajás não pode ter contrato com a prefeitura porque sou vereador e estou impedido de prestar serviço ao município.”

Savanas está no terceiro mandato como vereador, e afirmou nunca ter usado a TV em seu benefício político.

O taxista que ganhou duas TVs no Acre

Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Para a sorte, porém, não parece haver limite de coincidência. Valcy de Souza Campos é um homem de poucas palavras. E de muita “sorte”. Ele foi contemplado com dois canais de retransmissão de TV em governos distintos, e para a mesma cidade: Senador Guiomard, na região metropolitana de Rio Branco, capital do Acre.

Ex-taxista, Valcy ficou nacionalmente conhecido em maio de 1997, no escândalo sobre a compra de votos para a aprovação da emenda constitucional que permitiu a reeleição para presidente da República, governadores e prefeitos.

O nome de Valcy apareceu por causa da divulgação de um telefonema em que o então deputado Ronivon Santiago, do Acre, afirmava ter recebido o canal 40, em Senador Guiomard, do então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, em troca de seu voto pela reeleição.

O canal havia sido outorgado à empresa VN Imagem e Som, da qual Valcy, na época taxista, e sua mulher, Nilza Freitas, manicure, eram proprietários. Segundo reportagens publicadas no período, Valcy morava em uma casa emprestada pela sogra. A emissora, a TV Quinari, estava instalada num cômodo de seis metros quadrados, onde ele e dois ajudantes operavam os equipamentos para manter o canal no ar.

Valcy negou ser laranja do deputado Ronivon, que acabou por perder o mandato. Passado o escândalo, o ex-taxista voltou ao anonimato, e por uma década e meia não se ouviu falar mais dele.

Depois desse tempo, Valcy obteve uma outra retransmissora de TV em Senador Guiomard, o canal 25. A outorga foi dada à empresa Rede Quinari de Comunicações, da qual Valcy tem 99% das quotas. A portaria de outorga do canal foi assinada em junho de 2010 pelo então ministro das Comunicações, José Artur Filardi, do grupo político do ex-senador Hélio Costa (PMDB), de Minas Gerais.

Valcy já tinha passado o canal 40 adiante quando recebeu o segundo. Em maio de 2013, a imprensa do Acre noticiou que a Igreja Assembleia de Deus de Rio Branco comprara o canal 40 do ex-deputado federal Júnior Betão, do PL, por R$ 1,5 milhão, e que o dinheiro fora arrecadado entre os fiéis.

Por telefone, Valcy de Souza Campos deu curtas explicações sobre os dois canais. Leia a entrevista:

O senhor vendeu o canal 40?

Tive problemas e passei adiante.

Problemas financeiros?

Mais ou menos isso.

O senhor vendeu para o ex-deputado federal Betão Júnior?

A gente passou para uma pessoa aí. Fiz uma besteira e graças a Deus consegui outra TV, que vai ser a minha aposentadoria.

Saiu na internet que a TV foi revendida a uma igreja por R$ 1,5 milhão.

Tem essa fofoca.

O senhor vendeu por menos?

Não quero comentar. Eu estava com problema e passei a TV adiante pra resolver.

Para quem o senhor vendeu o canal 40?

Faz tanto tempo que eu não me lembro.

O senhor era taxista. Por que decidiu montar uma TV?

Porque eu gosto. Fico feliz quando alguém assiste à minha TV.

Como o senhor conseguiu o segundo canal? Foi com ajuda de algum político?

Eu não desisto fácil das coisas. Sou brasileiro. Tenho o mesmo direito de ter uma TV que um gari ou o presidente da República. Eu montei um projeto e corri atrás. Demorou quase dez anos para eu conseguir o segundo canal.

O senhor foi a Brasília para isso?

O processo de retransmissora é técnico. Padrinho político funciona, mas também funciona a força da gente. Telefono, mando e-mail e memorando.

Quando vale uma retransmissora de TV em Senador Guiomard?

A minha não tem preço. Vai ficar para os meus filhos e netos.



Bastidores



Expediente

Texto, fotos e elaboração do projeto: Elvira Lobato
Revisão: Claudia Antunes
Projeto multimídia: Babak Fakhamzadeh e Natalia Viana
Edição de arte e desenvolvimento: Babak Fakhamzadeh
Filmagem e edição do vídeo: José Cícero da Silva
Animação: Bruno Fonseca
Fotografias adicionais: Rafael Araújo, Agência Pública, Natalia Viana, Jeremy Bigwood, EBC, Midia Ninja, Simião Castro, Edilson Rodrigues, Agência Brasil, Agência Assembleia, Agência Senado, José Cruz, Valter Campanato, joaofilho.com, djalmarodrigues.com.br.
Desenho do mapa baseado no  trabalho de Arif Kolukırık.
Design do Template baseado no trabalho de Automattic.

Agradecimentos:
Aos jornalistas da Amazônia que expuseram suas emoções e suas histórias para este trabalho;
A Geraldo Francisco Araújo,  meu irmão, veterinário e professor, companheiro de aventura e motorista voluntário na expedição ao Tocantins e Pará;
A Ivone Gonçalves, minha cunhada, incansável na função de copiloto na expedição ao Tocantins e Pará;
A Marcelo Beraba, meu companheiro, pelo apoio e incentivo;
A Cecília Lobato Beraba, minha filha, estudante de música, também integrante da  expedição ao Maranhão;
Ao jornalista Paulo Totti que fez a leitura preliminar do texto;
A Suzy Santos, professora de doutorado da Escola de Comunicação que acompanhou e apoiou o projeto;
A Janaine Aires, doutoranda da UFRJ, que integrou a expedição ao Maranhão
E a Graciela Selaimen, diretora  da Fundação Ford no Brasil, sem cujo apoio pessoal este projeto não teria sido viabilizado.

Apoio à pesquisa:

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TVs da Amazônia - Uma realidade que você desconhece — Parte 25


Marabá

TV é mandato sem urna


Um homem de meia idade e acima do peso vem ao meu encontro em Marabá. É Demetrius Fernandes Oliveira, de 59 anos, ex-suplente do senador Mário Couto, do PSDB. Ele retransmitiu o SBT na cidade até dezembro de 2014, quando perdeu a bandeira da emissora para o prefeito de Curionópolis, Wenderson Chamon, do PMDB.

Demetrius foi proprietário da Usina Siderúrgica de Marabá, acusada por ambientalistas de usar madeira retirada ilegalmente da Amazônia. Ele comprou o canal 7 de Marabá em 2004 com o objetivo de blindar a empresa de críticas, mas a usina acabou fechando quatro anos depois.

O empresário comparou a outorga de televisão a um mandato político. “É um mandato diferenciado, porque não passa pelas urnas. Com uma emissora local você se torna uma mini autoridade, digamos assim.” Depois de passar pela política e pela mídia, ele concluiu que a força dos dois campos é similar, com alguma vantagem para a última. Costuma dizer que o maior coronel eletrônico do Brasil é a Globo, pelo poder de massificar opiniões.

Demetrius administrou o canal 7 por dez anos, mas manteve a outorga em nome do antigo proprietário, o radialista José Adão, que possui várias retransmissoras no Pará. Ele resumiu numa palavra o motivo de não ter feito a transferência da outorga: “Desleixo”. Disse não ver maiores problemas em ter uma televisão em nome de terceiros: “É mais perigoso ter um carro em nome de outro. Televisão só dá uns processinhos bestas, sem relevância.”

O empresário disse que vendeu a outorga da emissora a um pastor evangélico depois de perder a afiliação ao SBT, mas que ainda são dele as instalações e os equipamentos. O canal 7 se afiliou à Record News.

Com 250 mil habitantes, Marabá é uma praça concorrida na televisão. Fica no sudeste do estado, a 500 quilômetros de Belém, e tem 13 canais de retransmissão de TV com autorização de funcionamento do Ministério das Comunicações. Seis deles nunca entraram no ar. Segundo Demetrius, uma outorga de retransmissão de TV em Marabá vale R$ 1 milhão, enquanto o arrendamento do canal custa cerca de R$ 50 mil mensais.

Apesar da concorrência, afirmou ele, o mercado de trabalho para os jornalistas é muito cruel na cidade. “Os jornalistas são uns pobres coitados. A maioria dos repórteres ganha salário mínimo.”

Rio Tocantins na cidade de Marabá.
Rio Tocantins na cidade de Marabá
Foto: Ninja Midia

A seguir: O anistiado, o otimista, o diretor sem dinheiro e os meliantes e Bastidores

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TVs da Amazônia - Uma realidade que você desconhece — Parte 24


Parauapebas e Curionópolis

Um império televisivo no reino da Vale


O prefeito de Curionópolis, Wenderson Chamon, do PMDB, é o novo fenômeno da radiodifusão do sul do Pará. Ele montou uma rede regional de televisão, afiliada ao SBT, a partir de seis retransmissoras obtidas em 2010, no último ano do governo Lula. O prefeito, conhecido como Chamonzinho, é filho do deputado estadual João Chamon Neto. As outorgas dos canais estão em nome da mãe, Ângela Chamon, e da mulher dele, Mariana Azevedo.

A emissora central é o canal 26, de Marabá, onde a família Chamon tem também rádios e jornal impresso. A rede se estende às cidades de Canaã dos Carajás, Curionópolis, Parauapebas, Redenção e São Félix do Xingu. Com a entrada de Chamon, políticos sem mandato da região perderam a bandeira do SBT e tiveram de buscar guarida em redes menores e menos lucrativas para não perder seus canais.

Curionópolis foi fundada pelo major Sebastião Curió perto de Serra Pelada, ou o que restou do maior garimpo de ouro a céu aberto que já existiu. É uma cidade pobre, com casas de madeira e uma população de antigos garimpeiros de Serra Pelada. Muitos exibem incrustações de ouro nos dentes. Vários moradores abordados desconheciam que o prefeito possui TV na região.

A 40 quilômetros de Curionópolis fica Parauapebas, o portão de entrada de Carajás, o megaprojeto de extração de minério de ferro da Companhia Vale.

Genésio da Silva Filho, de 45 anos, é diretor e acionista minoritário da Amazônia Comunicação e Marketing, de Parauapebas, que perdeu a bandeira do SBT para Wenderson Chamon. A empresa de Genésio ocupa o canal 4, que, oficialmente, está em nome da empresa RCR – Rede de Comunicação Regional, de Nagib Mutran Neto, ex-prefeito e vereador de Marabá. Como Chamon, Mutran é do PMDB.

Segundo Genésio, a Amazônia Comunicação comprou o canal de Mutran em 1998, mas a transferência não foi oficializada. É a mesma situação encontrada nas emissoras em nome de Mutran em Conceição do Araguaia e em Xinguara.

A empresa retransmitiu o SBT até o final de março de 2015, quando se afiliou à Rede Brasil, de São Paulo, de menor audiência. O impacto financeiro foi muito grande: doze dos quinze funcionários foram demitidos. A receita caiu e a emissora foi colocada à venda.
Ex-garimpeiro de Serra Pelada mora em Curionópolis.
Ex-garimpeiro de Serra Pelada mora em Curionópolis
Foto: Elvira Lobato
“TV é importante para impor respeito aos adversários”

Genésio da Silva Filho começou a entrevista afirmando que televisão no interior da Amazônia só é viável como negócio se estiver vinculada à política ou a igrejas.

O senhor não é político nem pastor. Por que entrou nessa atividade?

Nós éramos um grupo político. Uma das sócias da TV é a Bel Mesquita, que foi deputada federal [PMDB, 2007-11] e duas vezes prefeita de Parauapebas, mas se aposentou da política. Ela disputou a última eleição em 2012, para vice-prefeita de Parauapebas, mas foi derrotada.

Sua empresa se viabilizava por que uma sócia era política?

Sim.

Em que medida a emissora de TV é útil ao político?

TV é importante para impor respeito aos adversários. Eles pensam: não vou bater nele, porque ele também pode me bater.

A Bel Mesquita tinha a emissora para impor respeito e não ser atacada pelos adversários?

Basicamente é isso. Mas ela nunca precisou usar a TV para atacar nem para se defender.

Como vocês compraram o canal 4 de Parauapebas?

O Mutran Neto conseguiu o canal junto ao Ministério das Comunicações e o repassou a um empresário, que revendeu a outorga à jornalista Mariana Pacheco e à ex-deputada Bel Mesquita, que são primas.

Por que vocês perderam a bandeira do SBT?

O contrato de afiliação tinha uma cláusula que permitia ao SBT romper o acordo a qualquer hora, desde que avisasse com 30 dias de antecedência. No dia 15 de novembro de 2014, o SBT nos avisou do rompimento. Conseguimos uma prorrogação por 90 dias. Deixamos de retransmitir o SBT no dia 31 de março de 2015. O sinal do SBT agora está com o Chamonzinho, no canal 40. Passamos a retransmitir a Rede Brasil, do empresário Marcos Tolentino, de São Paulo.

E como está a emissora depois da mudança?

Ainda não conseguimos empatar custo e receita. Estamos comendo o capital da empresa. Demitimos 12 dos 15 funcionários. Suspendemos a produção de conteúdo local.

Você acha que a empresa perdeu o contrato com a SBT por que a sócia não é mais política?

Com certeza. O atual prefeito de Curionópolis está comprando um império de comunicação. Muitos se perguntam sobre a origem dos recursos, mas ninguém bate com ele de frente. Quem vai enfrentar o império?

Ex-garimpeiro de Serra Pelada se mudou para Curionópolis quando o garimpo entrou em declínio.
Ex-garimpeiro de Serra Pelada se mudou para Curionópolis quando o garimpo entrou em declínio
Foto: Elvira Lobato
A seguir: Marabá

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TVs da Amazônia - Uma realidade que você desconhece — Parte 23


Canaã dos Carajás

Amigo da polícia, inimigo de bandido


Canaã dos Carajás, no sul do Pará, é uma cidade dormitório que abriga milhares de trabalhadores terceirizados das minas da Companhia Vale. Lembra o Velho Oeste norte-americano: empoeirada, com maioria da população masculina e onde tudo parece estar em construção.

“Aqui tem gente de todo lugar do Brasil. Pessoas que vêm trabalhar, outras que vêm roubar. Isto gera informação, gera notícia”, disse Patrick Siqueira, o Chocolate, 21 anos de idade, apresentador da TV Serra Azul, afiliada da Record. Ousado, hiperativo e autoconfiante, ele é a síntese do jovem profissional de televisão daquela área.

A emissora em que Chocolate trabalha pertence a Valdemar da Pavinorte, empresário e político do PSDB que disputou a eleição para prefeito várias vezes, sem nunca ter sido eleito. No dia 22 de agosto de 2015, quando este capítulo foi escrito, Valdemar acabara de ser preso pela Polícia Federal, sob a suspeita de superfaturar o transporte escolar público em Marabá.

Com cerca de 33 mil habitantes, Canaã dos Carajás tem três retransmissoras de TV, mas só a Serra Azul tem programação local. A prefeitura possui um canal que está cedido em comodato (empréstimo) por dez anos para retransmissão da Bandeirantes. O terceiro canal pertence à família do prefeito de Curionópolis e está em implantação.

A prefeitura de Canaã, comandada por Jeová Andrade, do PMDB, diz que não explora sua outorga por ter necessidades mais urgentes do que implantar uma televisão. O assessor de Comunicação municipal, Carlos Magno Oliveira, acusou a TV Serra Azul de fazer “um jornalismo rasteiro, baixo e comprometido”, e disse que o proprietário usa o canal para atacar os adversários políticos.

Enquanto isso, na televisão



“Palavras verdadeiras aumentam meu pedigree”

Encontrei Patrick Siqueira, o Chocolate, em um evento público em Canaã dos Carajás. Ele iria se apresentar com sua banda gospel e deixou o palco por instantes para a seguinte entrevista:

Fale um pouco sobre você.

Tenho experiência com rádio e televisão. Hoje pela manhã, fiz um programa ao vivo na Rádio Correio FM. Aprendi a fazer jornalismo na caminhada da vida, de televisão em televisão, pelo estado do Pará. Já passei por emissoras do SBT, pela RBA [rede de TV do senador Jader Barbalho, afiliada da Bandeirantes], e agora estou na Record. Nasci em Tucuruí e cheguei a Canaã dos Carajás aos 16 anos. Estudei até o ensino médio.

Como você se tornou apresentador de TV?

Tudo começou quando fui trabalhar com um carro de som, fazendo anúncios pela cidade. O dono tinha uma rádio pirata, achou que eu levava jeito para a comunicação e me levou para a emissora. O começo foi difícil, mas com o tempo fui ganhando fama. Eu apontava os políticos corruptos no meu programa e fui ameaçado de morte. Passei perto da morte.

Pode contar como foi?

Eu ficava no estúdio e falava dos vereadores que não trabalhavam. Tinha fontes nas ruas. Fontes seguras, com informações contundentes.

Quem te ameaçou?

Um vereador. Por ética não vou dizer o nome. Hoje somos melhores amigos. Ele chegou à rádio junto com um pistoleiro. Eu abri o microfone, e ele se intimidou. Eu o coloquei no ar. Ali começou nossa amizade. Eu o havia chamado de corrupto e ladrão.

Recebeu outras ameaças?

Até hoje recebo. Sou um apresentador de jornal. Todos os jornalistas aqui são coagidos.

Por quanto tempo ficou na rádio?

Por três anos.

De onde vem esse apelido de Chocolate?

Eu ainda estava só na rádio e surgiu a oportunidade de fazer propaganda de uma farmácia na TV. Me apresentei como Patrick Chocolate. Entrava na farmácia, perguntava a um garotinho se tinha determinado remédio. Ele dizia: “Só na Bigfarma é que tem”. Deu certo. Passei a ser requisitado pelo comércio. Sou o único garoto propaganda do município. Faço comercial de materiais de construção, de loja de artigos para escritório, lojas de roupas e de automóveis.

Daí se tornou apresentador do jornal da afiliada da Record?

Meu primeiro trabalho na TV foi em um programa de produção independente para a RBA. Em seguida, apresentei um programa aos domingos. Depois passei a fazer reportagens e a apresentar o Balanço Geral, com transmissão ao vivo. Hoje sou só âncora do jornal.

E seu estilo mudou do rádio para a TV?

Continuo com o mesmo estilo. Sou um cara ativo. Não tenho temor da situação, e o pessoal confia em mim. Minhas palavras são verdadeiras e isso faz meu pedigree crescer mais e mais.

Você é muito garoto ainda.

Muito novo para estar com esta onda toda, não é? Mas já estou cansado. Sou muito vivido. Vivido mesmo!

Como você define seu estilo?

Amigo da polícia. Bandido não gosta de mim.

Qual é a linha do noticiário que apresenta?

É um noticiário sério, com padrão de qualidade da Record de São Paulo.

Agora que está famoso, quando fatura por mês?

R$ 2.800 com carteira assinada como apresentador e jornalista. Fora isso, tenho uma borracharia e casa própria. Tenho mulher e dois filhos. Fui pai aos 17 e aos 19 anos.

Você vende anúncios?

Eu não vendo anúncios. Eu faço anúncios para a televisão. Tenho de anunciar para ter meu salário no final do mês. Se não tiver anúncio, o salário fica atrasado.

O Valdemar da Pavinorte concorreu várias vezes a prefeito e nunca se elegeu. Isso mostra que a televisão não garante eleição?

[Silêncio]

Como é seu trabalho durante a campanha eleitoral?

A gente busca divulgar o candidato dono da TV. Chamar a atenção do povo e mostrar que ele está fazendo alguma coisa. Isso é difícil, cara. Ele dá entrevistas na TV. Eu o entrevisto nas festas.

E você não pode criticá-lo?

Jamais.

Como é a relação da TV com o prefeito?

O Valdemar é do PSDB e o prefeito, Jeová Andrade, é do PMDB. A prefeitura nos discrimina. Não dá entrevista à TV.

Se o prefeito fizer algo bom, a televisão não pode mostrar?

O dono da emissora é que decide se a matéria vai para o ar ou não. As retransmissoras do SBT e da Bandeirantes não têm jornalismo local, e veiculam comerciais da prefeitura.

A prefeitura não anuncia na emissora do Pavinorte?

Não.

Como é viver em Canaã dos Carajás?

É uma cidade cheia de homens. Há muitas empresas de mão de obra terceirizada, que prestam serviços para a Vale. Aqui tem gente de todo lugar do Brasil. Pessoas que vêm trabalhar, outras que vêm roubar. Isto gera informação, gera notícia. Não há estrutura de lazer, só bar, bar e bar.

O que você acha do jornalismo?

Ele nos dá a oportunidade de conhecer a comunidade de perto. Financeiramente, não tenho do que reclamar. Me ajudou 100%. Estou pronto para sobreviver em qualquer cidade. Estou pronto para a vida.

Pensa em concorrer a algum cargo político?

Penso em concorrer a vereador, mas ainda não tenho partido.

Patrick Siqueira, o Chocolate, repórter e apresentador da
TV Serra Azul, afiliada Record. A emissora pertence a
Valdemar da Pavinorte, que concorreu diversas vezes a
prefeito de Canaã dos Carajás pelo PSDB
Foto: Elvira Lobato

A seguir: Parauapebas e Curionópolis

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TVs da Amazônia - Uma realidade que você desconhece — Parte 22


Xinguara

Políticos pagam para aparecer na TV


Aqui a gente brinca de fazer televisão”, resumiu bem humorado o empresário Júlio César Pitombo, proprietário da afiliada do SBT em Xinguara, no sul do Pará. O empresário, de 49 anos, admite que sua emissora cobra pagamento dos políticos para entrevistá-los. “Eu não bajulo ninguém. O político que quiser aparecer vai ter que gastar algum. Ele vai ter que pagar alguma coisa pra sair, se não eu não faço.”

Pitombo não é exceção. Em vários estados da Amazônia Legal, é praxe o político pagar para ser entrevistado pelas retransmissoras quando quer se promover.

Com uma equipe pequena, de cinco funcionários, ele diz que não depende financeiramente da emissora e que o faturamento que obtém com a venda de anúncios e de espaços no noticiário mal dá para cobrir as despesas. O preço da inserção comercial é um indicador da precariedade financeira das pequenas emissoras da Amazônia: um anúncio com quatro inserções diárias custa R$ 1.500 por mês.

“É um pequeno negócio, mas se eu fechar a TV vou deixar cinco pessoas na mão”, acrescentou Pitombo, referindo-se aos empregados.

Teia acionária complicada

A emissora é administrada pelo Sistema Marajoara de Comunicação, empresa de Pitombo. Mas o canal está registrado no Ministério das Comunicações em nome da RCR – Rede de Comunicação Regional, que pertence ao vereador e ex-prefeito de Marabá Nagib Mutran. O vereador tem outras oito outorgas de retransmissoras de TV no sul do Pará: em Altamira, Conceição do Araguaia, Itupiranga, Jacundá, Parauapebas, São João do Araguaia e Marabá, onde acumula dois canais.

Segundo Pitombo, Mutran vendeu todos os canais, à exceção dos de Marabá, há vários anos. Cada outorga foi repassada a um comprador diferente, o que torna a regularização da venda muito complexa.

Xinguara é uma cidade de 42 mil habitantes e sua economia é baseada no agronegócio, sobretudo gado de corte e plantio de soja. A prefeitura possui dois canais de retransmissão de TV, mas não os utiliza. Um dos canais do município foi cedido à Igreja Adventista do Sétimo Dia.

A emissora de Pitombo fica no topo do morro da Torre e, se não fosse pelas antenas, pareceria uma casa de família do interior, com pomar e jardim. No estúdio, há uma grande foto do proprietário com Silvio Santos, com quem ele diz “trocar figurinhas”.

“Na minha TV mando eu”

A entrevista a seguir foi dada por Júlio César Pitombo no hall do hotel Bravos, na entrada de Xinguara:

Por que resolveu investir em televisão?

Eu trabalhava com laticínio quando soube que existia um canal de TV disponível na cidade e que deveria ser instalado em dois anos. Isso foi em 1998. Comprei a licença. Construí o prédio e pus a televisão para funcionar. É uma emissora pequena, que cobre um raio de 35 Km.

Qual é a estrutura da TV?

Tenho cinco funcionários: dois repórteres, o operador do máster, um cinegrafista e um editor. Um dos repórteres apresenta o jornal. Quando falta pessoal, eu edito e filmo. Apresentei o jornal durante seis anos, mas fiz uma cirurgia no pescoço e minha voz ficou ruim.

Qual é a formação de seus repórteres?

O atual apresentador, Tiago Gomes, trabalhou na TV Record de Belém, mas é raro encontrar repórter formado em comunicação. A repórter trabalhava na rádio local. Como tem uma desenvoltura grande, eu a chamei para fazer reportagem na TV. Ela faz o que muitos jornalistas formados não fazem, principalmente na área policial. Se tiver um morto com furo de bala, é capaz de meter o dedo. O pessoal que se forma e vem para cá serve mais para jornalismo de revista.

Você vive da TV ou tem outras atividades?

Tenho renda de aluguéis. Não dependo da TV para sobreviver. É um pequeno negócio, mas se seu sair de lá vou deixar cinco pessoas na mão. Tenho uma folha salarial de R$ 10 mil por mês. É um custo fixo alto. O apresentador do jornal “O Povo na TV” ganha mais ou menos R$ 3.500. Pago metade do salário dele em dinheiro e metade em cota de publicidade. Ele ainda pode agregar um pouco mais com merchandising. Repórter ganha R$ 1.000 por mês. É pouco, mas não dá para pagar mais do que isso.

Tenho um cinegrafista e um repórter pela manhã. À tarde, o apresentador do jornal e a mulher dele fazem de duas a três matérias para o dia seguinte. Eu quase fechei a televisão no início de 2015. Estava estressado e precisava investir em equipamento. Mas resolvi arriscar: comprei câmera nova e contratei o apresentador. Investi R$ 25 mil. Graças a Deus está dando certo.

Você tem concorrente na cidade?

Meu concorrente é a Sky e a antena parabólica. Mas toda a cidade quer ver o noticiário local e as famílias mantém uma televisão com antena comum na cozinha. É o que nos salva.

As retransmissoras de televisão da Amazônia Legal vivem num limbo jurídico porque o governo pode retomar o canal a qualquer momento. Como você vê seu futuro?

Se o governo decidir cancelar as outorgas, todos vão brigar. Acredito que temos direito adquirido. A grande maioria das televisões da Amazônia é de político. Então com certeza o que eles conseguirem nós vamos conseguir também.

Como é a cobertura política no período eleitoral?

Durante a campanha eleitoral o horário político é de graça, não é?

E fora do período eleitoral?

Não é todo mundo que gosta de mim aqui. Não bajulo ninguém. Aqui, o político que quiser aparecer vai ter que gastar alguma coisa. Ele vai ter que pagar alguma coisa pra sair. Se não eu não faço.

E quanto ele tem de pagar?

De R$ 300 a R$ 500.

Para dar entrevista?

Exato.

E para atacar o adversário?

Não aceito. Na gestão passada, fiz uma reportagem sobre uma obra inacabada da prefeitura. O secretário de Obras ameaçou cancelar o contrato de publicidade da prefeitura com a TV, de R$ 5 mil por mês. Fizemos a matéria e ficamos um ano sem verba publicitária da prefeitura. Não me intimidei. Na prefeitura manda o prefeito. Na minha TV mando eu. Hoje a prefeitura tem um contrato comigo de R$ 6 mil por mês para três inserções por dia.

Quanto vale sua televisão?

Me ofereceram R$ 2,5 milhões certa vez. O interessado era laranja de um cara de Brasília, que acabou preso.

Qual o segmento que mais cresce na radiodifusão no interior da Amazônia, políticos ou igrejas?

Igrejas, principalmente pelo arrendamento de espaços nas emissoras.

Você vislumbra possibilidade de crescimento?

Não, porque o comércio local não tem renda.

Júlio César Pitombo, proprietário da afiliada SBT de Xinguara.
Políticos pagam para aparecer na TV
Foto: Elvira Lobato

A seguir: Canaã dos Carajás

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