4 de fev de 2016

Denúncia de lobista contra Aécio é 100% verossímil




Na noite de ontem, assim que começou a circular o depoimento do delator Fernando Moura, sobre um esquema de propinas capitaneado pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG), os tucanos divulgaram a nota abaixo:

Nota do PSDB em resposta às declarações feitas pelo lobista Fernando Moura
Em relação às declarações feitas pelo lobista Fernando Moura, o PSDB informa:

Esta declaração requentada e absurda repete uma vez mais a velha tentativa de vincular o PSDB aos crimes cometidos no governo petista. O PSDB jamais fez qualquer indicação para o governo do PT. O senador Aécio Neves não conhece o lobista, réu confesso de diversos crimes, e tomará todas as providências cabíveis para desmontar mais essa sórdida tentativa de ligar lideranças da oposição aos escândalos investigados pela Operação Lava Jato.
Assessoria de Imprensa do PSDB
À primeira vista, pareceria ilógico que um tucano, que havia acabado de se eleger governador de Minas Gerais pela primeira vez, conseguisse indicar um diretor de uma estatal num governo petista.

No entanto, em política, nem tudo é o que parece ser. Dimas Toledo, que havia sido indicado diretor de Furnas por Aécio Neves no governo FHC, permaneceu no cargo no governo Lula, assim como disse Fernando Moura.

Ele só deixou a diretoria da estatal em agosto de 2005, quando Roberto Jefferson, delator do chamado 'mensalão do PT', denunciou a existência de outro mensalão em Furnas — e que vinha desde o governo FHC.

Desde então, diversas reportagens trataram da chamada "lista de Furnas" e dos políticos beneficiados pelo esquema.

Enquanto foi governador de Minas, Aécio sempre manteve uma relação construtiva com o ex-presidente Lula.

Em 2006, ele deixou que prosperasse o movimento "Lulécio", de eleitores mineiros dispostos a votar tanto na reeleição de Lula como na sua própria — o que, em São Paulo, foi interpretado como sabotagem a Geraldo Alckmin.

Em 2008, Aécio e o petista Fernando Pimentel lançaram um candidato comum, Márcio Lacerda, do PSB, à prefeitura de Belo Horizonte.

Em 2010, o mineiro poderia até ter tido o apoio de Lula na disputa presidencial, caso trocasse o PSDB pelo PMDB.

O mais importante, no entanto, é o fato de Aécio ter sido citado por mais um delator, que o ligou ao caso Furnas. Antes, o próprio Alberto Youssef afirmou que recolhia propinas em Furnas, da ordem de US$ 100 mil/mês, na diretoria comandada por Dimas Toledo, indicado por Aécio (leia aqui). Agora, Fernando Moura reforça as mesmas suspeitas.

No 247
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Governo tucano em Santos (SP) é acusado de patrocinar esquema de ‘chequinhos’


Reportagem de jornal local revela suposto sistema “praticamente institucionalizado” no qual apoiadores do governo de Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) estariam recebendo um valor mensal das secretarias municipais de acordo com o “padrinho” e a “capacidade de liderança”

Uma matéria do jornal Diário do Litoral divulgada nesta quinta-feira (4) revela um suposto esquema de benefícios pagos à apoiadores da prefeitura de Santos (SP) que ficou conhecido como “chequinho”. De acordo com o jornal, já há anos que dezenas de pessoas — entre comerciantes, líderes de bairro, assessores de vereadores e outras figuras com influência política — recebem, mensalmente, quantias que variam de mil a 2 mil reais que seriam pagas pela maioria das secretarias municipais. Entre os beneficiários estariam, segundo a reportagem, até mesmo dirigentes do Santos Futebol Clube, além de apoiadores do governo de Paulo Alexandre Barbosa.

O esquema funcionaria como uma espécie de “moeda de troca política”, com pessoas trabalhando de forma irregular para a prefeitura. Segundo as denúncias, o “colaborador” tinha que apresentar na prefeitura o RG, o CPF e seus dados bancários para que, mensalmente, fosse feito um depósito como se fosse o próprio titular da conta que o fizesse.

“O depósito é feito de forma como se eu mesma efetuasse. Há um cabide de emprego muito grande e isso ocorre em todas as secretarias. Tem pessoas que trabalham em dois lugares distintos — em um como comissionado e no outro como ‘chequinho’. O valor depende do ‘padrinho’ e da capacidade de liderança”, revelou ao jornal Diário do Litoral, em condição de anonimato, uma suposta beneficiária. Ela afirmou ainda que teria sido ameaçada de perder o dinheiro por se recusar a se filiar a um partido político que seria estratégico para a sustentação política do governo de Barbosa.

Até mesmo um vereador do mesmo partido do prefeito, José Lascane (PSDB), já citou o esquema em uma sessão na Câmara dos Vereadores. “É muito difícil ser base do governo porque tem suas benesses. Repito e registro: eu não tenho nenhum, absolutamente ninguém, contratado por qualquer tipo de lei 650, ‘chequinho’ ou o que for”, disse em uma discussão com outro parlamentar.



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Tucanos são famintos por merenda escolar — Parte 8


Funerária de sobrinho de Alckmin é citada na máfia da merenda


Ex-funcionário da Velório e Funerária Pindamonhangaba, empresa de Lucas César Ribeiro, que administra o serviço na cidade, o agente funerário Vicente Ricardo de Jesus, de 52 anos, relatou ao Jornal da Tarde que, no período em que trabalhou no local, fazia transporte de merenda escolar para a Verdurama durante o dia com o mesmo veículo que transportava cadáveres à noite. A prefeitura classifica o fato de "mentira". Lucas é filho do lobista Paulo César Ribeiro, cunhado do governador Geraldo Alckmin.

A Verdurama é investigada pelo Ministério Público Estadual por suspeita de fraude em licitações e pagamento de propina a prefeitos paulistas e outros três Estados. Paulo César, conhecido como Paulão, é suspeito de comandar o esquema no Vale do Paraíba, onde fica Pindamonhangaba, cidade natal do tucano. Ambos negam as acusações.

Em depoimento à promotoria no fim do ano passado, o ex-secretário de Finanças de Pindamonhangaba Silvio Serrano disse que empresa do filho de Ribeiro "fazia transporte de gêneros alimentícios para a Verdurama".

Segundo o Ministério Público, Serrano foi indicado por Paulão ao prefeito João Ribeiro (PPS), apadrinhado de Alckmin que está no segundo mandato — a vice, Myriam Alckmin, é sobrinha do governador. Serrano foi demitido em outubro, após a denúncia vir à tona.

Além da funerária, Lucas também é dono de uma microempresa de transportes, a Lucas CR Transporte e Logística, segundo dados da Junta Comercial. O endereço informado é o mesmo onde outro filho de Paulão, Thiago, declara residência.

Segundo o agente funerário, o transporte da merenda era feito com os carros da funerária, uma caminhonete e uma van. "Todo mundo sabia. A secretaria de saúde, e, claro, a prefeitura também sabia. É porque transporta aquelas panelas meio grandes, aí é fogo, né?", disse.

Ele deixou a empresa em 2008 e hoje trabalha em outra funerária na cidade. "Isso é fácil de levantar. É só ligar na Verdurama e pedir as notas, porque a gente tirava as notas, a quilometragem, a escola, quantidade de merenda que entregava. Tudo por escrito."

Verdurama

O JT tentou, na sexta-feira, contato com o dono da Verdurama, Vilson do Nascimento, na sede da empresa, e pelo celular, mas não houve retorno. O advogado que defendia a Verdurama, José Maria Trepat Cases, deixou o caso em 2010.

A reportagem também tentou contato telefônico com Lucas na funerária e em sua residência, em Pindamonhangaba, mas não o localizou. Gilberto Menin, advogado de Paulão no caso, disse que só tem procuração para defender o pai de Lucas e não se manifestaria sobre o assunto, porque o inquérito corre sob segredo de Justiça.

"O que posso dizer é que o Lucas não é alvo de nenhum inquérito e o inquérito do Paulo é sigiloso. Inclusive, o MP já noticiou que vai averiguar por que houve vazamento de informações à imprensa", disse Menin.

Por meio da assessoria de imprensa, a Prefeitura de Pindamonhangaba negou o relato do agente funerário. "Isso é mentira. Nunca houve transporte de merenda escolar em carro funerário. Isso é boato que surgiu desde 2006. A gente foi atrás e já desmentiu. Houve confusão porque o carro que transporta a merenda é do mesmo modelo e da mesma cor do carro funerário", afirmou.
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Inspirada em Marx, esquerda palestina quer Estado único e fim da violência de Israel, diz sociólogo

Marcelo Buzetto, autor de 'A Questão Palestina', diferencia atores políticos na região e critica contradições brasileiras por acordos com Israel

Marcelo Buzetto é autor do livro 'A Questão Palestina - Guerra, Política e Relações Internacionais'
“Há na Palestina uma interpretação à esquerda para o conflito com Israel”. Para o sociólogo Marcelo Buzetto, essa é uma definição fundamental para diferenciar as forças políticas que atuam no movimento nacional palestino.

Doutor em Sociologia pela PUC e professor do Centro Universitário Fundação Santo André, Buzetto esteve três vezes na Palestina representando os setores de Relações Internacionais do MST e da Via Campesina. Ao lado de militantes palestinos, participou de manifestações contra o exército de Israel na Cisjordânia.

A experiência o motivou a organizar uma série de pesquisas sobre os diferentes grupos políticos e sociais que atuam na região. “Não podemos achar que é mesma coisa”, reitera.

Entre as conclusões, publicadas no livro "A Questão Palestina - Guerra, Política e Relações Internacionais" (Expressão Popular, 223 pgs., R$20), Buzetto explica que a esquerda palestina busca olhar particularidades do mundo árabe “a partir de conceitos fundamentais do materialismo histórico e dialético”.



"É muito comum ouvir no Brasil sobre Hamas e Fatah, dando a impressão que o movimento nacional palestino se resume a essas duas forças. O livro ‘Questão Palestina’ mostra e quer divulgar que existe uma esquerda na Palestina, inspirada nas ideias de Karl Marx, nas revoluções anticolonialistas e socialistas”, afirma.

Buzetto questiona em seu livro a validade da resolução da ONU de 1947 que propõe a solução de dois Estados para a região. Além de ilegal, Buzetto acredita que partilhar o território nesses moldes foi uma das causas do conflito.

“Será que a solução de dois Estados não está superada? A maioria do povo palestino deseja a existência de uma única Palestina, um estado único, onde todos possam viver em condição de igualdade. Um espaço democrático onde muçulmanos, judeus, cristão, ateus, drusos, enfim, todos possam ter direitos políticos iguais, onde não exista sem cidadãos de segunda categoria. Essa é a defesa da esquerda palestina, assim como o fim da violência de Israel”, analisa.

Além da análise dos movimentos sociais palestinos, Buzetto também faz duras críticas ao governo israelense e à política sionista, condenando o que considera “ataques sistemáticos aos direitos básicos dos palestinos”.

“O Estado de Israel é racista e pratica apartheid contra a população palestina, desrespeitando resoluções da ONU. Por exemplo, o governo de Israel se nega a discutir o direito de retorno dos refugiados palestinos. Atualmente, são quase 6 milhões de refugiados no mundo. E Israel afirma que nunca irá cumprir as orientações internacionais, pois não reconhece essa pauta. Em 2016, vamos [movimentos de solidariedade à Palestina] intensificar a campanha de denúncia às agressões israelenses, principalmente sobre o direito de retorno”, critica Buzetto, que integra a Campanha Global pelo Direito ao Retorno à Palestina.

“O que nos deixa otimista, por outro lado, é que o povo palestino, por conta dessa crescente violação dos direitos humanos, tem um poder de resistência e de luta muito grande. Quando estive na Palestina, pude notar já nos jovens, crianças e em todas as famílias um alto nível de consciência de que eles estão em uma luta justa”, relembra.

Contradições brasileiras

Marcelo Buzetto fala em “tristeza e indignação” quando cita os acordos comerciais e militares feitos pelos governos de Lula e Dilma nos últimos 15 anos. Para o autor, em uma perspectiva de esquerda, não faz sentido preterir o parque industrial brasileiro e o apoio à causa palestina para firmar acordos para compra de armamentos de Israel.

“Em 2015, o ex-ministro da Defesa, agora Ministro da Casa Civil, Jacques Wagner, firmou um acordo solicitando ao governo federal a compra de mísseis e bombas para serem colocados nos caças suecos Gripen. O custo dessa operação é de R$870 milhões. Agora nos perguntamos: por que ajuste fiscal? Precisamos cortar verbas na saúde, educação e reforma agrária, aumentar a prestação do programa Minha Casa, Minha Vida, mas temos R$ 870 milhões de mísseis e bombas israelenses”, questiona.

“A compra de aparato militar israelense é um absurdo, pois Israel representa a desnacionalização da indústria de defesa brasileira. Não estamos discutindo se o Brasil precisa ou não de um veículo aéreo ou aparato militar para garantir a soberania nacional. Mas por que não convocamos um grupo de empresários brasileiros para produzir essa tecnologia? Temos no Estado de São Paulo, na região do Vale do Paraíba, um complexo industrial capaz de suprir essa demanda. Por que temos de comprar de um país que mais desrespeita as resoluções da ONU e mais ataca os direitos humanos, explodindo hospitais e escolas?”, questiona.

Marcelo Buzetto também acompanhou a repercussão da visita do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) a Israel. Para ele, o caso exemplifica como há contradições sobre o posicionamento da esquerda no Brasil sobre a causa palestina.

“Ao mesmo tempo em que temos o crescimento de organizações e pessoas que apoiam a causa palestina e a campanha de boicote a Israel no Brasil, temos situações inusitadas, como, por exemplo, a recente visita a Israel do deputado Jean Wyllys, uma figura progressista, que por completo desconhecimento do conflito Isarel-Palestina teve uma interpretação equivocada, rompendo o bloqueio cultural e acadêmico a Israel, que é uma orientação de um movimento internacional de solidariedade ao povo palestino”, critica.

A Questão Palestina - Guerra, Política e Relações Internacionais
Editora: Expressão Popular
Páginas: 223
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Dodô Calixto
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A direita teme as urnas


A Direita passou a temer as urnas. Adquiriu verdadeiro pavor desde que os resultados não se mostraram mais favoráveis para si. A democracia exige, sim, de nossas forças políticas o respeito à vontade do povo expressa a cada eleição. De quatro em quatro anos votam no projeto e nos candidatos que consideram mais aptos a conduzir a nação, como ocorreu com Lula e Dilma Rousseff nas últimas eleições presidenciais. Por conta disso, iniciou-se uma caçada fora da lei contra seus possíveis futuros oponentes, que é o caso de Lula.

O que vem ocorrendo desde o resultado de 2014 é mais um capítulo da saga que domina as grandes corporações midiáticas e os núcleos de comando de vários partidos de oposição. Depois de anunciarem aos quatro ventos que queriam "ver Dilma sangrar", oficializando o quanto-pior-melhor, agora embarcam na tentativa de atingir o ex-presidente a qualquer custo. Primeiro o pedido desesperado da oposição em recontagem de votos, depois recorrem ao TCU, em segundo o TSE e aí, sim, o impeachment. Agora é o vale tudo mentiroso contra o ex-presidente.

A cada manchete, uma notícia mal explicada, denúncias sem provas e delações seletivas que vazam ao ritmo da sanha golpista. Do apartamento tríplex que comprovadamente nunca foi de Lula, a um pequeno barco de R$ 4 mil, reportagens tendenciosas pretendem desconstruir sua imagem e pavimentar o caminho da oposição até 2018.

O alvo é um homem público forjado na luta operária, que teve coragem para enfrentar de frente a pobreza no Brasil e com políticas públicas reconhecidas mundialmente. Um líder popular que mora no coração do povo, principalmente daqueles que tanto precisam. Tornou-se presidente do Brasil e maior liderança da História contemporânea.

Ao mirar suas armas para o ex-presidente, as forças da Direita querem minar um projeto à Esquerda e um possível oponente forte de 2018. Esculpido pela fome, criado com sólidos valores por Dona Lindu, e batizado politicamente no genuíno chão de fábrica, Luís Inácio Lula da Silva é um fenômeno que a oposição tenta a todo custo implodir. O único ex-presidente reverenciado mundo afora por grandes conquistas sociais e de reconhecimento histórico da ONU.

O luxuoso apartamento em Paris de FHC jamais atraiu tanta atenção como o "tríplex" de 80 m² que dizem ser de Lula. Os crimes públicos do Governo de São Paulo em seu metrô, em parceria com a francesa Alstom e alemã Siemens, nunca foram tão explorados como as sucessivas manchetes que usam o nome do ex-operário.

Assim como o promotor de Justiça de São Paulo Cássio Conserino interpelou Lula, porque o juiz Sérgio Moro não cobra respostas de FHC para as delações que surgem na Lava-Jato? É o caso das denúncias de beneficiamento de R$ 100 milhões em seu governo por propina na Petrobras. Ou então recorrer ao STF para fazer o mesmo com o senador Aécio Neves sobre as denúncias de R$ 300 mil em propina na UTC ou ouvir Alckmin pelo desvio de verba na merenda escolar.

As urnas de 2018 virão e conservadores se preparam para elas com a única arma que tem: a farsa, violações do Estado democrático de Direito, apoio às manifestações fascistas e de desqualificação da política. Tem razão em ter medo das urnas. Quem tem propostas de exclusão, retirada de direitos e redução da democracia só consegue um bom resultado eleitoral quando elimina os concorrentes previamente. Mesmo que às custas de artimanhas golpistas. A Direita tem todos os motivos para ter muito medo das urnas.

Jandira Feghali, Médica, deputada federal (RJ) e líder do PCdoB
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Paulo Pimenta: A manipulação do Estadão e de um delegado da PF


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O Brasil e os caminhos da China


Uma das saídas para a crise atual pode estar no Oriente. Mais precisamente na China. E a infraestrutura é o setor chave.

Desde o ano passado há um grupo interministerial analisando os próximos passos da aproximação do Brasil com a China. Nas primeiras rodadas, sem contar o Banco dos BRICs e o Banco da Infraestrutura, a China já disponibilizou US$ 70 bilhões de crédito ao Brasil.

Do lado brasileiro participam das discussões o Itamaraty, o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), Fazenda e Planejamento. Do lado da China, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reformas.

Na fase preliminar, foi elaborada uma lista preliminar de projetos nas áreas de infraestrutura, telecomunicações, logística, mineração e energia e agricultura.

Há alguns projetos objetos de atenção especial, como a ferrovia transoceânica, um projeto polêmico, mas que, se se mostrar viável, viabilizará o modelo ferroviário brasileiro, funcionando como uma espinha dorsal complementar à Ferrovia Norte-Sul.

Entre maio e junho deverão ficar prontos os estudos de viabilidade. Do lado chinês, acredita-se piamente na sua economicidade, devido ao potencial anual de 50 milhões de toneladas de carga.

* * *

Os chineses apostam que, em breve, o Brasil evoluirá para uma visão sistêmica das ferrovias. Em vez de trechos isolados, um planejamento estratégico encarando o setor como um sistema interligado.

Com isso, não haveria como não incluir a chamada Bioceânica como vetor estratégico. A Bioceânica tem um traçado Leste-Oeste. Pode ser interligado com a Norte-Sul. Com isso haveria uma estrutura em cruz cobrindo todo o território nacional e viabilizando a construção de ramais.

Do lado brasileiro, a Bioceânica teria 4 mil km. E, de imediato, conseguiria interligar Campinorte e Lucas do Rio Verde, zona de expansão agrícola.

* * *

Outro projeto que não está descartado é o do trem-bala ligando o Rio a São Paulo. A ideia surgiu em 2008, a partir de um telefonema de Lula para o presidente chinês.

Apesar do lado brasileiro não ter dado continuidade, a banda chinesa continua a postos. As empresas que se instalaram por aqui continuam trabalhando. E, na embaixada da China, acredita-se que poderá ser viabilizado mediante um novo modelo de negócios, uma concessão a a ser integralmente assumida pelo lado chinês.

A proposta já foi apresentada ao Ministro da Fazenda Nelson Barbosa, assim como a alternativa de uma ferrovia de média velocidade. Os chineses aguardam apenas o consentimento das autoridades brasileiras para relançarem o projeto.

* * *

Do lado chinês, a visão preponderante é que meramente financiar é uma forma ultrapassada de parceria. Os investimentos precisam ser pensados estrategicamente.

No modelo proposto, as próprias empresas chinesas aceitam bancar todo o investimento.

Mas há óbices burocráticos a serem vencidos. Um deles é que, mesmo se a empresa chinesa bancar o investimento, o TCU (Tribunal de Contas da União) quer controlar o investimento.

* * *

Enfim, há uma longa agenda, com dois desdobramentos relevantes. O primeiro, a parceria com a China. O segundo, a possibilidade de jogar com os interesses diplomático-comerciais dos Estados Unidos.

Nos tempos em que o país sabia pensar estrategicamente, essa dualidade — na época EUA-Alemanha — foi essencial para o salto de desenvolvimento dos anos 50.

Luís Nassif
No GGN
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O estranho processo que um diretor da Globo está movendo contra Paulo Nogueira

Qual á a visão de imprensa livre de Bretas?
Qual o conceito de jornalismo livre de Erick Bretas, diretor de novas mídias da Globo?

Bem, jamais esperei grande coisa de Bretas, e por isso não posso dizer que me decepcionei ao saber que para ele “imprensa livre” não admite críticas.

Bretas, fui informado dias atrás, está me processando por difamação etc etc.

Sou, como todos sabem, um defensor de que você busque na Justiça reparação contra calúnias. Aplaudi Lula e Chico Buarque por abrirem processos.

Agora: o que fiz para ser processado por Bretas?

Nada parecido com coisas que sua empresa faz costumeiramente. Não disse que ele é dono de um imóvel suspeito, não disse que alguém pagou as contas de alguém de sua família e por aí vai.

Não é este o tipo de jornalismo que pratico, e os leitores do DCM sabem disso.

Não invadi sua vida privada, não o chamei de coisas como desonesto — como ele, aliás, fez em relação a Dilma em seu Facebook.

O que fiz foi criticá-lo estritamente sob o ângulo profissional.

Reli tudo que o DCM publicou sobre ele antes de escrever este artigo.

A primeira vez que tomei conhecimento de sua existência foi quando recebi uma mensagem: olhe o que o Bretas está escrevendo no Facebook.

Fui ver quem era ele e o que estava postando. Era um post defendendo o impeachment — portanto a cassação de 54 milhões de votos. Não parava aí: Bretas conclamava seus leitores a ir para uma manifestação pelo impeachment. E avisava: estarei lá.

Ora, ora, ora.

Como um jornalista duma posição elevada como a que Bretas ocupa na Globo pode fazer este tipo de coisa? É a negação do jornalismo. A missão do Jornal Nacional usa a palavra “isenção”.

Bretas estava se comportando como um militante do impeachment e do golpismo, e não como um jornalista.

Afirmei que este tipo de profissional na Globo explica a cobertura desequilibrada da casa em suas várias mídias.

Há muitos outros, como Diego Escosteguy, da Época. Nos últimos anos, a Globo se cercou de antipetistas em todos os seus veículos, como de resto toda a grande mídia.

O maior atributo de um jornalista hoje não é o texto, a sagacidade, a capacidade de jogar luzes onde há sombras. É, simplesmente, atacar o PT, Lula e Dilma.

Você tem licença para matar. Lauro Jardim sobreviveu a uma barrigada fabulosa quando escreveu, em sua estreia, que uma empresa pagara contas de milhões de reais a uma nora de Lula.

Um blogueiro do UOL também sobreviveu depois de afirmar, meses atrás, que Lula estava com um novo câncer. Não um câncer qualquer, mas o mais rapidamente letal dele: o de pâncreas. Fosse verdade, há meses Lula já estaria morto.

Mas Lula está vivo, como vivo está o blog do jornalista que anunciou o câncer que seria fatal.

Os jornalistas das empresas jornalísticas sabem que nada lhes acontecerá se errarem massacrando os alvos certos. Mino Carta recentemente os definiu como “grilos falantes” dos patrões.

Notei também, em outras postagens, a falta de discernimento de Bretas. Numa delas, ele citava a Veja como um muçulmano cita o Corão, com fé absoluta.

Aí, ele foi mais Marinho que os Marinhos. Lembro-me, numa reunião do Conselho Editorial da Globo nos tempos em que eu trabalhava na empresa, de João Roberto Marinho recomendando cuidado com a Veja.

Faz uns oito anos isso. João já percebera que a Veja ultrapassara todos os limites de irresponsabilidade e leviandade para tentar derrubar o governo.

Durante muito tempo, havia uma parceria — não declarada — entre a Veja e o Jornal Nacional. A Veja denunciava, a seu modo frequentemente criminoso, e o JN repercutia no sábado com demoradas reportagens.

Uma vez, naqueles dias, perguntei numa reunião do Conselho: “A Globo tem centenas de jornalistas em tantos veículos e ainda assim toda semana é a Veja que publica sempre os furos que vão dar no JN?”

Mas, enquanto a Veja não se desmoralizou, foi uma relação ganha-ganha. O JN promovia a revista — e as intermináveis denúncias. E a Veja retribuía com uma cobertura vasta e adulatória da TV Globo.

O avatar no Facebook com o qual Bretas anunciou o fim de Dilma
O avatar no Facebook com o qual Bretas anunciou o fim de Dilma
Uma outra postagem de Bretas para a qual me alertaram dizia respeito aos protestos dos secundaristas de São Paulo. Bretas acusava-os de “brincar de Primavera Árabe”.

Mais uma vez: que tipo de coisa você podia esperar da cobertura da Globo sobre os secundaristas quando um homem de sua alta hierarquia jornalística se sentia à vontade, publicamente, para atacar a garotada?

Em outras ocasiões, Bretas voltaria a se comportar como militante, e não como jornalista. Numa delas, colocou a foto de Bicudo em seu avatar no Facebook. Em outra, pôs uma imagem, também no avatar, na qual estava escrito game over. Acabou. (O governo de Dilma, naturalmente.)

A rigor, eu poderia criticar, mais que Bretas, a Globo, por sua permissividade abjeta quando se trata de dar paulada nos suspeitos de sempre.

(Eu poderia falar também em ingratidão, porque a crise da Globo seria ainda mais grave do que é se não recebesse 500 milhões de reais por ano em publicidade  ligada ao governo federal, a despeito de audiências em queda livre na Era Digital.)

Não sei qual a noção de jornalismo dos irmãos Marinhos para deixar que jornalistas como Bretas façam o que façam publicamente.

Mas sei que os danos à reputação de Bretas se devem a ele mesmo, e talvez à ausência de uma orientação na Globo — e não a mim.

Paulo Nogueira
No DCM
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Delator afirma que um terço da propina de Furnas era para Aécio Neves


O nome do senador e candidato derrotado à Presidência da República, Aécio Neves (PSDB-MG), voltou a aparecer nas delações da Lava Jato. Desta vez, contudo, o lobista Fernando Moura recuperou o caso de Furnas e disse que a estatal era controlada pelo tucano, durante o governo do ex-presidente Lula, e que o esquema de corrupção se assemelhava ao instalado na Petrobras. "É um terço São Paulo, um terço nacional e um terço Aécio", revelou ao juiz Sergio Moro.



A afirmação foi concedida nesta quarta-feira (03), durante novo depoimento prestado ao juiz da Lava Jato de Curitiba, após questionamentos do Ministério Público Federal. Moura citou uma reunião em 2002, onde selecionariam nomes para "cinco diretorias" de diversas estatais, com o objetivo, segundo o lobista, de alimentar o caixa de campanhas eleitorais futuras. "Foi conversado sobre Petrobras, Correio, Caixa Econômica Federal, Furnas, Banco do Brasil", listou. 

As indicações deveriam ser de nomes com 20 anos de carreira na empresa. Neste sentido, o lobista citou o nome de Dimas Toledo para a diretoria de Furnas e que, de imediato, o então ministro José Dirceu recebeu a indicação com ressalvas: "Dimas, não, porque se entrar em Furnas, se colocar ele de porteiro, ele vai mandar em Furnas, ele está lá há 34 anos, é uma indicação que sempre foi do Aécio", teria dito Dirceu.

Após um mês e meio, explicou o lobista, Dirceu o questionou qual era a sua relação com Dimas Toledo. "Eu respondi que o achava competente, profissional. Então ele me respondeu: 'Não, porque esse foi o único cargo que o Aécio pediu para o Lula. Então você vai lá conversar com o Dimas e diga para ele que vamos apoiar [a indicação de seu nome]'", disse Moura.

Quando Toledo assumiu a diretoria de Furnas, teria dito a Moura que o esquema de propina era igual ao da Petrobras. "Ele disse: 'Não precisa nem aparecer aqui. Vai ficar um terço em São Paulo, um terço nacional e um terço Aécio'", relatou o lobista.

O PSDB respondeu, em nota oficial, que a declaração de Fernando Moura era "requentada e absurda" e uma "velha tentativa de vincular o PSDB aos crimes cometidos no governo petista". "O senador Aécio Neves não conhece o lobista, réu confesso de diversos crimes, e tomará todas as providências cabíveis para desmontar mais essa sórdida tentativa de ligar lideranças da oposição aos escândalos investigados pela Operação Lava Jato", informou a sigla.

A defesa de Dimas Toledo também disse que as informações do lobista são "absolutamente inverídicas". "É lamentável que no desespero de buscar credibilidade perdida em meio a diversas contradições e inverdades, o delator insista no uso da mentira para confundir autoridades e tumultuar importante investigação em curso no país", disse.
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Tucanos são famintos por merenda escolar — Parte 7


Esquema da merenda foi verdadeira farra, diz Polícia Civil

Propina apreendida pela polícia com funcionário da Coaf
Os delegados da Operação Alba Branca, que apura fraudes na merenda escolar no Estado de São Paulo, afirma que as fraudes eram uma "verdadeira farra como o dinheiro público". A expressão aparece no pedido de prisão de sete pessoas ligadas à Cooperativa Agrícola Familiar (Coaf), da cidade de Bebedouro, documento que foi base para a deflagração da operação.

De acordo com a polícia, o esquema se aproveitou da lei federal que prevê incentivos para a compra de até 30% de produtos da merenda escolar de pequenos produtores rurais. Segundo os delegados, o esquema envolvia propinas nos contratos com o governo estadual e prefeituras. A Coaf participava das chamadas públicas simulando disputa com outras cooperativas ligadas a ela e combinando preços superfaturados. Em janeiro polícia apreendeu R$ 95,6 mil reais na cidade de Taiuva, vizinha de Bebedouro.

Pouco espaço na capa

Apesar dos documentos e da apuração dos repórteres do jornal, a capa do site do Estadão dava pouco destaque para a matéria. No começo da manhã de hoje, ela tinha apenas uma linha, aparecendo abaixo da chamada sobre a delação de Fernando Moura, na Operação Lava Jato. Erroneamente, a notícia sobre o delator do esquema da Petrobras aparecia sob o 'chapéu' Operação Alba Branca, que é a investigação que apura os crimes relacionados à merenda escolar.



Polícia diz que esquema da merenda foi ‘verdadeira farra com o dinheiro público’

POR RICARDO BRANDT, FAUSTO MACEDO E PEDRO VENCESLAU

Em janeiro, Polícia Civil prendeu com um dos funcionários da cooperativa Coaf, que fraudava contratos de merenda com Estado e prefeituras, R$ 95 mil em dinheiro vivo que seria entregue a lobista foragido

Os delegados da Operação Alba Branca afirmam que o esquema mantido pela Coaf (falsa cooperativa de produtores rurais) na venda de produtores para a merende escolar no governo do Estado, em São Paulo, e em prefeituras era “uma verdadeira farra com o dinheiro público”.

O termo consta do pedido de prisão de sete pessoas ligadas à Cooperativa Agrícola Familiar (Coaf), de Bebedouro, assinado pelos delegados da Polícia Civil Mario José Gonçalves, Paulo Roberto Montelli e João Vitor Silvério. O documento foi a base para deflagração da Alba Branca, no dia 19 de janeiro, que desmontou um esquema de corrupção e fraudes em contratos do governo do Estado e de 22 prefeituras. O esquema, segundo a polícia, se aproveitou da legislação federal, que estipula e prevê incentivos para compra de até 30% de produtos da merenda escolar de pequenos produtores rurais.

A representação dos delegados aponta que o esquema envolvia propinas, chamadas pelos investigados de “comissões”, que giraram entre 10% e 20% em contratos com governos de estado e prefeituras para fornecimento de produtos para merenda, como suco de laranja e arroz. A Coaf participava das chamadas públicas simulando disputa com outras cooperativas ligadas a ela, combinando preços, que eram superfaturados – um litro de suco de laranja, que para a entidade custava R$ 3,70, era vendido a R$ 6,80. Para garantir os contratos com o governo e prefeituras, era feito a certo de “comissões”.

“Tais valores, via de regra, são entregues em dinheiro ao representante do órgão público participante do esquema, no caso, alguém que funcionava como um ‘lobista’”, informa relatório da Alba Branca.

Apreensão de propina. Com base em horas de escutas telefônicas e nos depoimentos de pelos menos seis funcionários da Coaf, incluindo o presidente da entidade, Cássio Chebabi, foi possível detalhar como eram feitos as entregas de pacotes de dinheiro vivo, depósitos em contas e acertos em postos de combustível às margens de rodovias.

Num dos trechos do documento, a Polícia Civil aponta que foram identificados a “entrega de valores, sendo uma no valor de R$ 130 mil, uma segunda de R$ 80 mil e, uma terceira, que iria ser efetuada no valor de R$ 95 mil”.

Considerada pela Alba Branca “importante prova material da efetiva existência dessa organização criminosa”, a polícia apreendeu R$ 95,6 mil reais em notas de R$ 50 e R$ 100, no dia 9 de janeiro, na cidade de Taiuva – vizinha a Bebedouro, sede da Coaf.

O dinheiro estava com Cesar Bertholino, funcionário do setor financeiro da Coaf, que em depoimento admitiu fazer entrega de propinas. No seu depoimento, no dia 19, ele afirmou que “os R$ 95.600 apreendidos na rodovia” “seriam entregues para Marcel, fruto da última parcela do contrato com a Secretaria Estadual de Educação”.

O dinheiro seria a propina paga a Marcel Ferreira Julio, filho do ex-deputado Leonel Julio, que atuaria como lobista que fazia a ligação entre a Coaf e os agentes públicos do governo do Estado e das prefeituras. Ele está foragido.

“Junto com o dinheiro, os policiais ainda localizaram uma anotação com o montante transportado, como ainda divisão de porcentagem e ainda a inscrição “pai” com a anotação de valores na frente”, informa o relatório. A Alba Branca acredita que “seria referente ao montante que seria destinado ao estranho personagem Leonel Julio, pai do investigado Marcel”.

Nos depoimentos, os funcionários e o dirigente da Coaf disseram que Marcel ficava com 10% de comissões nos contratos fechados com o poder público. Seu pai teria uma cota de 2% dessa comissão.

trecho alba relatorio 1

trecho alba relatorio 2

Pressão

Bertholino detalhou como foi a tentativa de entrega frustrada pela polícia. “Naquela ocasião foram sacos da conta da Coaf R$ 181 mil”, diz ele apontando os nomes dos funcionários responsáveis pela retirada no banco. “R$ 1 mil se destinavam a cobrir suas despesas de viagem, já que visitaria prefeituras também (Mairiporã e Barueri), R$

60 mil foram repassados para o vendedor Carlos Luciano que os repassaria para Joaquim, de Campinas, que havia feito vendas para a Coaf e R$ 120 mil se destinavam a Marcel, dois quais a pedido dele segurou parte consigo, que depositaria na conta da esposa dele, onde havia cheques a cobrir e lhe levaria pessoalmente os R$ 95,6 mil apreendidos.”

Depois da apreensão da última parte da propina pela polícia, Marcel ligou para o declarante (Bertholino) e para o vendedor Adriano, pressionado-os para lhe entregasse o dinheiro que julgava devido, pois ele alegava que apreensão não era problema dele.

A entrega, segundo o funcionário da Coaf, foi efetivada. “Em razão da pressão de Marcel, posteriormente o declarante e Adriano com carro alugado da Localiza, levaram-lhe os aludidos R$ 95,6 mil, entregues numa padaria de São Paulo.”

Marcel Julio está foragido, foi o único só sete alvos da Alba Branca a não ser localizado no dia 19. Ele foi flagrado nas escutas telefônicas feitas pela operação com autorização judicial e teve seu nome citado.

“Essa apreensão, obviamente somente ocorrera em razão do andamento do procedimento especial de interceptação telefônica”, escrevem os delegados.

No GGN
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Podemos falar em “judeus da vez” ou é palpite infeliz? Pra quem?

Tarso Genro
Guilherme Santos/Sul21
Publiquei uma nota no Twitter comparando a situação de Lula, atualmente — pela perseguição e discriminação política que vem sofrendo da maioria da mídia e de setores do Ministério Público — com a situação de perseguição que comunistas, sociais democratas e judeus, sofreram, pela direita fascista durante a República Weimar e após a ascensão de Hitler ao poder, em 1933. A Federação Israelita logo publicou uma nota indignada, rapidamente apoiada pela colunista Rosane de Oliveira, designando minha posição sobre o assunto como “palpite infeliz”. Como se eu comparasse o cerco de Lula ao assassinato de seis milhões de judeus! Atribuíram-me, portanto, uma posição digna de uma pessoa ignorante ou insana, posição que não tenho e jamais dei qualquer indício de tê-la. Talvez queiram para passar alguma mensagem que eu ainda não compreendi muito bem: que não gostam de Lula? que não gostam da esquerda? que não gostam de se misturar com outros tipos de perseguidos? ou acham que é falsa, a afirmação sobre a perseguição midiática contra Lula?

Testemunhas de Jeová, homossexuais, deficientes físicos e mentais, comunistas, sociais-democratas, ciganos, eslavos, todos foram alvo da fúria insana do nazismo, na sua busca de “criação” do homem alemão “total”. A comunidade judia foi seu alvo mais amplo e preferido, com uma bestialidade que não tem precedentes. E ela foi uma bestialidade política, o que lhe redobra a gravidade. Foram ações de barbárie cometidas para tentar consagrar uma “raça” e uma nação, através de violências pensadas e executadas a partir de partidos e do Estado, como programa e como estratégia. Hitler programou apropriar-se dos bens da comunidade judia e escravizá-la na economia de guerra (e o fez), também utilizando o argumento de que grandes intelectuais e políticos judeus, tiveram um papel importante na formatação da República Weimar, que ele considerava como símbolo da decadência ocidental. Eles foram mortos, perseguidos e assassinados pela direita fascista, inclusive antes de Hitler chegar ao poder: o Holocausto teve atos preparatórios, políticos e de ação direta, não foi um mero acaso racial.

As perseguições foram combinadas com ações físicas de malfeitores fardados contra os judeus, sociais democratas, intelectuais de todas as origens, comunistas e sindicalistas, e contra todos os que lutavam pela democracia e pela República. Quando eu disse, no  Twitter, que Lula era o “judeu da vez” estava me referindo claramente a estas perseguições preparatórias ao que foi o Holocausto, como barbárie “científica” e coletiva. Por que a Federação quer proibir esta analogia? Não temos direito de fazê-la, porque ela, a Federação, detém o monopólio da dor, ou porque somos de esquerda e somos solidários com Lula? Não sabem que, quando Flavio Koutzii era torturado na Argentina, os militares torturadores diziam que a situação dele era mais grave porque “era, além de comunista, judeu?” Seria errado ou ofensivo à Federação Judaica, dizer que ali Flavio Koutzii “era o judeu da vez”? Ou não? Aliás, seria ofensivo dizer que os negros, na África do Sul, do “apharteid”, foram os “judeus da vez” dos racistas de todo o mundo? Creio que a Federação Israelita não assimila o fato de que a tragédia do Holocausto é uma tragédia universal e não uma tragédia somente de uma comunidade racial ou religiosa.

Faço estes esclarecimentos em respeito a vários amigos meus, judeus, de diferentes posições políticas, com os quais tenho dialogado por muitos anos, em torno de vários assunto políticos, filosóficos e históricos, e com os quais tenho aprendido muito e quem sabe também ajudado um pouco nas suas reflexões. Em homenagem a eles, lembro outros “judeus da vez”: Walter Rathenau, ex-Ministro da Reconstrução e das Relações Exteriores (1921) da República de Weimar, assassinado -primeiro na sua reputação- depois fisicamente (24 de jun.1922), cujos sicários Hitler, quando chegou ao poder (em 1933), declarou “heróis nacionais”; Hugo Preuss, jurista de renome internacional, “pai da Constituição Alemã”, que serviu de “judeu da vez”, para que a direita fascista apontasse a democracia da Constituição como encomendada pelo Presidente dos Estados Unidos (Wilson), pelos judeus e pelos comunistas, para “destruir Alemanha”; Mathias Erzberger, “judeu da vez” que negociou o armistício no fim da Primeira Guerra, apontado na mídia direitista e em milhares de cartazes nos muros de Berlim, como “o gênio mau do povo alemão”, assassinado num segundo atentado em 26 de agosto de 1921, pelo Oficial da Marinha Tillesen, logo exilado na Hungria e também declarado “herói nacional”, por Hitler, em 1933.

Acho que a expressão “judeu da vez” deveria ser consagrada como homenagem aos milhões de mortos pelo nazismo, sejam eles judeus ou não. Para que nunca mais aconteça. Independentemente de que a Federação Israelita o permita.

Tarso Genro
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Jornalista processado por Lula contra-ataca em nova reportagem


Adriano Ceolin, ex-repórter da revista Veja e um dos autores da matéria-capa "A Voz Dele", de julho de 2015, que motivou a abertura de um processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por calúnia, no ano passado, mais uma vez induz ilegalidades nas relações de Lula com seu advogado, Roberto Teixeira. A reportagem "Uma história de amizade que virou moradia", agora no Estadão, insinua suposta troca de favores entre Teixeira e o ex-presidente para a compra de imóveis, desde 1989.

Apesar de, ao final da reportagem, o jornalista mencionar que possíveis dúvidas levantadas pela Justiça em investigações foram arquivadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com o consentimento da Procuradoria-Geral da República, por falta de provas, o tom dado por Adriano Ceolin é de impunidade: "Nem Teixeira nem Lorenzoni sofreram ações", conclui após o detalhamento das supostas ilegalidades. 

"O provérbio 'amigos, amigos, negócios à parte' não vale para a família do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde o fim dos anos 1980, ele e seus filhos se utilizam de amizades para emprestar ou adquirir imóveis. Quase sempre, nos negócios, surge alguma relação que gera suspeita de órgãos de fiscalização", introduz Ceolin.

Roberto Teixeira conhece o ex-presidente Lula antes de o sindicalista subir a pleito eleitoral. Teixeira teria emprestado uma casa para ele morar quando disputou, pela primeira vez, a Presidência da República. Longe de qualquer suspeita a nível judiciário, o advogado afirmou que o imóvel, como de sua propriedade, "poderia e posso livremente dispor para a finalidade que desejar".

Entre 1996 e 2001, na condição de advogado do ex-presidente, Teixeira orientou Lula na compra de três imóveis em São Bernardo do Campo. Teixeira nega que houve a intermediação como "amigo", e afirma que trabalhou como advogado nesses casos. "Em todos os casos, há o envolvimento de empresas em situação falimentar para as quais Teixeira prestou serviços advocatícios", disse o repórter.

Entre os casos mencionados, o jornalista citou Dalmiro Lorenzoni, dono da empreiteira de um dos edifícios que o ex-presidente tem apartamento, e suposto envolvimento do então vice-presidente nacional do PT, Luiz Eduardo Greenhalgh. Com a ampla divulgação midiática, à época, investigações a pedido do Ministério Público foram abertas, mas encerradas anos após sem nenhuma comprovação de ilegalidade. 

"Não houve nenhum problema jurídico na aquisição dos imóveis mediante minha assessoria jurídica", afirmou Teixeira em nota oficial. O processo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o jornalista Adriano Ceolin está em andamento na 4ª Vara Criminal do Distrito Federal. O advogado Roberto Teixeira e Lula não se manifestaram se irão abrir outra queixa-crime a respeito da nova reportagem.

Eis a nota na íntegra:

Nota de repúdio             

Repudio publicamente o claro movimento que busca atacar minha honra e imagem e qualificar como espúrias ações que cercam a relação de amizade que mantenho com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bem como minha atuação profissional na condição de seu advogado. No presente, o ataque se centra em questões formuladas pelo repórter Adriano Ceolin, do jornal “O Estado de São Paulo” — hoje a mim enviadas —, que decidi tornar públicas pelo inaceitável nível de afrontamento:

1.    Empréstimo de uma casa ao ex-presidente Lula, entre 1989 e 1998:

O imóvel em questão é de minha propriedade e, nessa condição, poderia e posso livremente dispor para a finalidade que desejar. À época, é preciso registrar que proprietários de imóveis enfrentavam inúmeros problemas com a retomada de unidades locadas — tema ao qual a mídia dedicou amplo espaço —, de forma que o empréstimo foi o caminho juridicamente mais seguro até que houvesse a venda almejada;

2.    Intermediação da compra de três imóveis em São Bernardo do Campo para o ex-presidente:

Nunca houve tal intermediação. Desde o início da década de 80, atuo como advogado do ex-presidente e foi nesta condição que o orientei na aquisição dos referidos imóveis;

3.    Negócios envolveriam empresas em situação falimentar, como a Dalmiro Lorenzoni e a FGS Engenharia e Construções: Não houve nenhum problema jurídico na aquisição dos imóveis mediante minha assessoria jurídica;

4.    Sócios da FGS Engenharia e Construções alegam ter sido por mim enganados, bem como me acusam de repassar imóveis da referida empresa para meus familiares: O sócio Cesário Gebram Soubhie retratou-se em 1º/08/2014, após tomar conhecimento dos fundamentos apresentados nos autos da Ação Revocatória – Processo nº 0327173-05.2009.8.26.0100 – 2ª. Vara de Falências e Recuperação Judicial de São Paulo (petição de fls. 1.681/1.688), o que invalida as demais ilações;

Torno igualmente pública a informação que existe queixa-crime promovida pelo ex-presidente contra o referido repórter – processo nº 0026745 23.2015.8.07.0001 – 4ª. Vara Criminal do Distrito Federal, que também subscrevo como um dos advogados.

Roberto Teixeira

Arquivo

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No GGN
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Em defesa da autonomia da EBC e da comunicação pública brasileira — Nota Oficial do FNDC

Em nota oficial divulgada nesta terça-feira (2/2), a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) informou que seu diretor-presidente, jornalista Américo Martins, entregou o cargo ao ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Edinho Silva. O desligamento da EBC, diz a nota, teria sido motivado “por questões pessoais”. Américo esteve no cargo por pouco mais de cinco meses. O diretor-geral, Asdrúbal Figueiró, também pediu demissão do cargo.

Independentemente das reais motivações que possam ter levado à rápida e surpreendente saída do diretor-presidente e do diretor-geral de seus cargos — que, inclusive, possuem mandato definido por lei —, o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) e suas entidades filiadas vêm a público manifestar grande preocupação com o crescente processo de degradação da autonomia da EBC. Essa degradação tem sido caracterizada pela falta de transparência e de diálogo com a sociedade, por parte do governo, acerca do projeto de comunicação pública a ser implantado no país. Nos últimos tempos, como denunciado fortemente pelos trabalhadores e trabalhadoras da EBC, especialmente durante a greve de novembro do ano passado, cresceram as interferências e ingerências políticas indevidas, tanto na nomeação de cargos de direção quanto na programação das emissoras e veículos geridos pela EBC.

Temos reafirmado que nessa ainda curta história de vida, a EBC padece da falta de um projeto real de comunicação pública que contemple autonomia de gestão, independência editorial e sustentabilidade econômica. E não foram poucas as oportunidades que as entidades da sociedade civil se manifestaram a esse respeito. Nas duas mais recentes, o seminário promovido pelo Conselho Curador da empresa para discutir seu modelo institucional, em 2015, e o Fórum Brasil de Comunicação Pública, em 2014, propusemos um conjunto de medidas para enfrentar esses desafios, sem que o governo abrisse sequer um canal de diálogo sobre essas propostas.

Não custa ressaltar que os episódios de ingerência política denunciados evidenciam uma das incompreensões mais graves sobre a EBC, que é a confusão entre comunicação pública e comunicação governamental. O produto dessa confusão traz um enorme prejuízo à própria sociedade brasileira, que se vê impossibilitada de realizar sua experiência de comunicação pública, baseada numa programação educativa, cultural, artística, informativa e científica que promova a cidadania e desenvolva a consciência crítica das pessoas. Mais do que isso. Num país que sempre privilegiou a massificação da mídia privada-comercial, que trata a comunicação como mercadoria e a população, como mera consumidora, o papel da mídia pública nunca foi tão crucial para o aprofundamento da nossa democracia. Não podemos perder essa oportunidade. A luta pelo fortalecimento da EBC é a própria luta pela democratização da comunicação no Brasil, uma luta indispensável à construção de um país justo, plural e diverso.

É fundamental que a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR) traga os esclarecimentos necessários sobre essa importante mudança de comando na EBC. Além disso, mas principalmente, que garanta à nova direção da empresa pública — independentemente dos novos nomes a serem anunciados – as condições para definir os rumos da EBC com autonomia e independência, transparência, diálogo e participação social.

Brasília, 3 de fevereiro de 2016.
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CarnaCUT 2016 - Balança Povo que o de Cima Cai


Curitiba — Nesta quinta-feira (4), às 16h30, na Praça Santos Andrade, será realizado o tradicional CarnaCUT, o carnaval da Central Única dos Trabalhadores do Paraná. Neste ano os foliões estarão reunidos para lembrar o massacre do dia 29 de abril.

O bloco “Balança Povo que o de Cima Cai” terá camisetas, leques e até mesmo o samba enredo com referência à violência sofrida pelos servidores públicos e os principais responsáveis pela irresponsabilidade que deixou centenas de pessoas feridas.

“Está é uma data para nunca ser esquecida. Portanto, nada mais natural, que possamos utilizar o Carnaval para lembrar este episódio, um dos mais tristes e violentos da história do Paraná”, explica a presidenta da CUT Paraná, Regina Cruz.

Além dos deputados federais, eternizados na figura do camburão utilizado para que pudessem entrar na votação que violentava a previdência dos servidores públicos, estão em destaque o secretário de segurança pública, Fernando Franschini, o presidente da Assembleia Legislativa do Paraná, Ademar Traiano e o governador Beto Richa.

Richa, inclusive, ainda tem um pedido de impeachment travado no legislativo estadual por conta do crime de responsabilidade cometido pela violência contra os servidores públicos.

Serviço: CarnaCUT com o bloco “Balança Povo que o de Cima Cai"
Data: Quinta-feira, 04 de fevereiro
Horário: Concentração às 16h30
Local: Praça Santos Andrade, no Centro de Curitiba.



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Históricos

A eleição do novo presidente americano em novembro se encaminha para ser tão histórica quanto foi, há oito anos, a eleição do Barack Obama, um afrodescendente (de primeira geração, seu pai era africano) nascido no Havaí. O Baraca está chegando ao fim do seu segundo mandato e, nos Estados Unidos, ainda tem gente que discute se sua biografia não foi forjada e se ele tinha condições legais de ser presidente, tamanha a reação àquele fato impensável, um negro na Casa Branca. 

Se Hillary Clinton for escolhida como candidata do Partido Democrata à eleição, será a primeira vez na história que uma mulher chega tão alto na política americana. Já o mesmo ineditismo não se aplica à candidatura de Bernie Sanders pelo mesmo partido.

Outros socialistas, com ou sem aspas, como ele já chegaram perto da presidência, notadamente Eugene Debs, que, no começo do século passado, mobilizou sindicatos e outros insatisfeitos com o capitalismo selvagem que rugia na época e alcançou votações respeitáveis em duas eleições presidenciais. 

Outros candidatos progressistas ou francamente esquerdistas que passaram do traço nas pesquisas de intenção de voto foram Robert La Follette e Norman Thomas. Este último foi o candidato do Partido Socialista da América em seis eleições consecutivas. Teve a má sorte de ser contemporâneo de Franklin Roosevelt, que, na presidência, com suas medidas econômicas contra a recessão e sua legislação social, apelidadas de “New Deal”, sequestrou o voto de esquerda e tornou-se imbatível. 

A novidade da candidatura de Sanders é, antes de mais nada, ter chegado onde chegou, muito mais longe do que os “progressistas” de antanho (está praticamente empatado com a Hillary nas pesquisas) e o fato de a sua pregação contra a desigualdade e o poder de Wall Street ter encontrado ressonância entusiasmada — esta sim, inédita — entre os eleitores mais jovens. Um crítico declarado do capitalismo na Casa Branca seria sem dúvida histórico.

Donald Trump na Casa Branca não seria inédito. Uma presidência pela qual já passaram Richard Nixon e George Bush, só para ficar em recentes, não tem nenhum tipo de seriedade a ser ameaçada por outro bufão. Trump eleito seria histórico porque ele incorpora tudo que é lamentável na política — do poder do dinheiro à demagogia mais rasteira — na forma de autocaricatura, mas diz a verdade: se o que acontece na Casa Branca não nos afetasse tão diretamente, a perspectiva de Trump e sua cabeleira dourada na presidência não seria a mais divertida de todas?

Luís Fernando Veríssimo
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O retorno

Eduardo Cunha recomeçou com a autenticidade conveniente: sua primeira decisão na reabertura da Câmara consiste em abuso de poder. E, de quebra, em desafio ao Supremo Tribunal Federal.

A presidência da Câmara não inclui o poder de impedir o funcionamento das comissões permanentes apenas por vontade pessoal — a rigor, vontade proveniente de interesse pessoal, o que caracteriza a decisão também como ato em causa própria.

A pré-estreia preparou e explica tudo: um golpe que invalidou o decidido pelo Conselho de Ética contra Eduardo Cunha, praticado pelo vassalo que o presidente da Câmara pôs como seu vice. Sendo o conselho componente do conjunto de comissões permanentes, está impedido pelo próprio réu de reiniciar os trabalhos para concluir pelo afastamento, ou não, do presidente da Câmara.

Exigir, como mínimo para autorizar atividades nas comissões, que o Supremo decida sobre seu embargo ao rito de impeachment definido pelo tribunal, é o complemento de um abuso que se sobrepõe a dois dos três Poderes — o Legislativo e o Judiciário. Se por essa atitude de Eduardo Cunha já se tem a negação de um regime político constitucional e democrático, ainda há mais na aberração política e moral: Eduardo Cunha está apoiado pelo PSDB e pelo DEM. Os peessedebistas até examinam sua adesão solidária à ação de Eduardo Cunha no Supremo. A baixeza não tem fundo.

Mas tem sua lógica. De cada vez que Dilma Rousseff, ao discursar na reabertura do Congresso, defendeu medidas neoliberais e antissociais, o PSDB comandou a vaia. Aécio Neves, em entrevistas de chefe da turma, logo depois verbalizou as vaias. Ou seja, em vez da inteligência de explorar a adesão de Dilma, o PSDB vaia as medidas de que é o representante.

À atual bancada do PSDB, que nasceu em recusa à degradação do PMDB, sem dúvida falta o que, quando existe, está na cara.

Em vão

Para o programa de medidas que apresentou no Congresso, Dilma não precisava ter induzido a substituição de Joaquim Levy por Nelson Barbosa. O novo ministro não é apenas o eco do antecessor. Além disso, deixou de trazer a percepção política dele esperada, para suprir a escassa sensibilidade demonstrada por Levy em sua busca do inviável no Congresso.

Investir tudo em improbabilidades, ou no mínimo dificuldades altíssimas, como as mudanças na Previdência, não é um modo de buscar a correção da economia e da administração pública. É um modo de torná-la mais distante. O alcance de Dilma e Barbosa no Congresso dá, em prazo razoável, para medidas paliativas. Para remendar os rasgos e buracos. Não entender a dimensão e complexidade dos problemas no Congresso e fora dele é aumentar esses e todos os outros problemas.

Duas boas

Um alento: novo livro de Emília Viotti da Costa, "Brasil – História, Textos e Contextos" (Ed. Unesp), em que reúne ensaios datados desde meados dos anos 1950, que se tornaram raridades, até alguns recentes. Como adendo, entrevistas da historiadora, que fez, ela mesma, toda a seleção.

Um sucesso: Adauto Novaes prepara um site para a leitura gratuita das mais de 800 palestras que compõem os ciclos temáticos, sob o título geral "Artepensamento", por ele organizados nos últimos 30 anos. A série "Mutações", que já deu livros esplêndidos, ainda continuará.

Janio de Freitas
No fAlha
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