24 de jan de 2016

PF mantém presa em condições precárias para forçar a delação premiada do marido


Desde terça-feira passada, 18, a empresária Cristina Mautoni Marcondes Machado, 53 anos, está presa na Polícia Federal (PF), em Brasília.


Tudo indica que é o “o troco” dado ao seu marido, o lobista Mauro Marcondes Machado, 79, por ele não ter aceito fazer delação premiada.


Cristina e Mauro são sócios na empresa Mautoni&Machado.


Em 26 de outubro de 2015, os dois foram presos preventivamente em nova fase da Operação Zelotes – a que investiga a suposta venda de medidas provisórias (MPs) do governo federal.


Parênteses: a Zelotes original, que apurava sonegação de impostos de R$ 21 bilhões por grandes empresas, como Bradesco, Santander, Grupo Gerdau, Mitsubishi, e Grupo RBS, afiliado à TV Globo no Sul, foi abandonada pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF), sem maiores explicações até agora. Fechado parênteses.


Mauro Marcondes é acusado de ter pago valores acima do mercado em contrato de consultoria à LFT Marketing Esportivo, do empresário Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula.


Para os acusadores, os repasses teriam ligação com a venda de MPs. Luís Cláudio sustenta que os valores se referem a serviços de consultoria prestados em sua área de atuação, o esporte.


Cristina foi presa por “ameaça à ordem pública”. Na empresa, ela figurava como sócia do marido e cuidava da rotina administrativa.


“Não é segredo que, com sua prisão, o comando da Zelotes quer forçar seu marido a fechar um acordo de delação premiada”, observou em dezembro do ano passado, a jornalista Teresa Cruvinel


De fato, desde o início, as pressões sobre o casal para a delação premiada são constantes e só fazem aumentar.


Marcondes está preso em regime fechado na Penitenciária da Papuda, em Brasília. Cristina foi autorizada, no final do ano passado, a cumprir prisão domiciliar, em São Paulo, para recuperar-se de cirurgia nas pernas.


Em abril, Marcondes completa 80 anos. E, de acordo com o artigo 318 Código de Processo Penal, a partir dessa idade ele pode requerer a prisão domiciliar. O grifo em negrito é desta repórter.


 “Art. 318. Poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o agente for: (redação dada pela Lei 12.403, de 2011); I — maior de 80 (oitenta) anos; (incluído pela Lei 12.403, de 2011); II — extremamente debilitado por motivo de doença grave; (incluído pela Lei 12.403, de 2011); III — imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 (seis) anos de idade ou com deficiência; (incluído pela Lei 12.403, de 2011); IV — gestante a partir do 7º (sétimo) mês de gravidez ou sendo esta de alto risco. (incluído pela Lei 12.403, de 2011). Parágrafo único. Para a substituição, o juiz exigirá prova idônea dos requisitos estabelecidos neste artigo. (Incluído pela Lei 12.403, de 2011)”.


Daí, acreditam alguns, a obsessão do delegado Marlon Oliveira Cajado, um dos responsáveis pelas investigações da Zelotes, e do procurador José Alfredo de Paula Silva pela delação premiada de Marcondes antes do seu aniversário de 80 anos.


Na segunda-feira retrasada, 11 de janeiro, o “incentivo” pela delação atingiu o seu ápice.


Nessa data, sem a presença dos advogados, o lobista foi visitado de surpresa na prisão pelo delegado Cajado para uma “conversa”.




O advogado do casal, Roberto Podval, disse ao Estado que, no encontro, o policial “chantageou” seu cliente para que fizesse acordo de delação premiada. Conforme o defensor, a colaboração foi proposta como uma forma de Mauro Marcondes evitar a transferência de Cristina para uma unidade prisional.


Procurada, a assessoria de imprensa da PF informou que o delegado não comentaria as declarações do advogado.


Mauro Marcondes não aceitou a proposta.


O “troco” veio na terça-feira 18.


Cristina, mesmo de cadeira de rodas e com mobilidade reduzida devido à cirurgia nas pernas, foi tirada da prisão domiciliar, em São Paulo, e levada novamente para o regime fechado.


Ela foi transferida para Brasília, mais precisamente a superintendência da PF.


No final da tarde dessa sexta-feira 22, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, recebeu várias denúncias sobre a situação de Cristina Mautoni, custodiada na Polícia Federal:


* Ela foi colocada num quarto sem janelas e banheiro, onde esteve preso o senador Delcídio do Amaral. Um local limpo e “decente”, que antes era utilizado como alojamento para os agentes de plantão.


* Devido aos medicamentos que utiliza, ela urina muito mais vezes que o normal.


* Ainda no dia em que chegou, pediu ajuda para ir ao banheiro, o que só veio acontecer cerca de duas depois. Cristina não aguentou e urinou na roupa, sujando-se, bem como o chão. Teve quem lhe dissesse que ela teria feito isso “por gosto”.


* Cristina foi transferida imediatamente para uma cela, onde não existe vaso sanitário. Tem um buraco no chão – o chamado “boi” – e um cano por onde sai água para que tome banho.


* Por estar ainda com mobilidade reduzida devido à cirurgia, Cristina não consegue se agachar para usar o “boi” ou tomar banho sozinha. Na superintendência da PF, muitas vezes, os agentes de plantão são todos homens, não havendo uma agente mulher que possa auxiliar para que faça as necessidades fisiológicas ou tome banho.


“Imediatamente, fui à PF para inspecionar o local da detenção e saber se era verdade ou não tudo o que acabara de ser denunciado a mim”, revela com exclusividade ao Viomundo o deputado Paulo Pimenta. “Só que não me foi permitido nada.”


Eram aproximadamente 18hs da sexta-feira.


Paulo Pimenta pediu para falar com o delegado de plantão.


Solicitaram-lhe que aguardasse um pouco. Depois, que se dirigisse a outra sala e lhe passaram um telefone. Era a delegada plantonista, que já estava de sobreaviso.


Mesmo não estando presente na superintendência da PF, foi atenciosa e cordial, mas não autorizou que ele vistoriasse a cela ou conversasse com Cristina Mautoni: “Deputado,  não posso!”.


Pimenta retrucou:  “Estou dentro da minha prerrogativa, sou presidente da Comissão de Direitos Humanos.  Nem na época da ditadura, a Comissão era impedida de visitar um preso federal. Eu não quero ouvir a pessoa, quero ver a cela”.


Não adiantou.


O deputado ligou então para o Ministério da Justiça explicando o que pretendia e que a fiscalização dos locais de detenção por órgãos e entidades de defesa dos Direitos Humanos era uma prerrogativa que não foi afastada sequer durante a ditadura militar.


Vários telefonemas foram trocados entre Pimenta e assessores do Ministério da Justiça:


— Expliquei-lhes que havia recebido a denúncia de que eram inadequadas as condições em que a presa Cristina Mautoni  se encontrava devido às particularidades da sua situação de pós-operatório.


— Em cadeira de rodas, com mobilidade reduzida, ela não estava conseguindo fazer as necessidades no “boi”. Que ela ainda não podia pode ficar em pé para tomar banho e que teria feito necessidades fisiológicas na roupa.


— Expliquei que gostaria de ver as condições da cela, que teria o final de semana pela frente e que não me foi autorizado o contato.


— Questionei o que fariam, se ela precisasse ir ao banheiro? Disseram-me que havia colegas de sobreaviso e, quando necessário, seriam chamados.  Só que os três agentes que estavam na carceragem no final da sexta-feira eram homens!


Até que veio a resposta definitiva, repassada a Pimenta: “A direção geral da PF está irredutível, não autoriza a inspeção, a menos que tenha ordem judicial, pois a presa está incomunicável”.


Resultado: Após quase duas horas na superintendência da PF – sendo que durante uma o local ficou sem energia elétrica – a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados não teve acesso à cela ou a Cristina.


Nesta segunda-feira 25, na primeira hora, Paulo Pimenta relatará formalmente ao Ministério da Justiça o corrido e solicitará ao juiz da operação Zelotes que autorize a inspeção do local de custódia de Cristina.


“Se a Polícia Federal não tem nada esconder, qual o problema de me deixar ter acesso à cela? Por que eu não poderia vê-ela?”, questiona Pimenta.  “Eu não iria tomar depoimento. Fui lá para ver as condições dela e não me deixaram vê-la.”


“Na ditadura militar, quando as entidades de defesa dos Direitos Humanos recebiam uma denúncia, era possível ver como o preso estava. Por que, agora, não me deixaram vê-la?”, insiste.


“Não é verdade que ela está incomunicável”, rebate a versão da PF.


“Disseram para fazer petição e marcar hora  para Comissão de Direitos Humanos visitá-la”, exalta-se. “Não tem sentido hora marcada! O elemento surpresa é para ver o que, de fato, está acontecendo e não a cena montada para inglês ver.”


“Os investigadores da Zelotes querem por toda a força que o marido de Cristina faça a delação premiada, para isso estão jogando pesadíssimo, submetendo a presa a uma situação de crueldade, humilhação e tortura, como diz o seu advogado no pedido de habeas corpus”, atenta Pimenta.


“Surpreendentemente, cada vez mais a prática é prender  os  parentes, especialmente as mulheres, para constranger os maridos e ameaçá-las de ficar longe dos filhos, para arrancar confissões e delações premiadas”, denuncia Paulo Pimenta. “Isso é o modus operandi da época da ditadura.”

Conceição Lemes
No Viomundo
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Proteção à criança dos efeitos da publicidade começa no berço

Exposição: basta a criança se aproximar dos 3 anos para começar a receber diretamente a carga publicitária
Ainda estamos longe da Suécia, que já baniu a publicidade dirigida ao público infantil, com apoio de 88% da população. Mas, pelo menos, fechamos o ano com alguns avanços na legislação

A publicidade não poupa ninguém. Nem mesmo os recém-nascidos, alvos das campanhas publicitárias desde os primeiros dias de vida. São apelos para o consumo de fraldas descartáveis, papinhas, mamadeiras, chupetas, bicos e outros produtos, alguns de utilidade duvidosa.

Um decreto do governo federal pode ajudar a reduzir os efeitos negativos desses produtos à saúde dos bebês. Publicado recentemente, restringe qualquer ação promocional desse tipo, incluindo publicidade, descontos, brindes, exposições especiais em supermercados e outras ações semelhantes.

Fica também proibida a utilização de fotos, desenhos e ilustrações que induzam ao uso, com expressões como “baby”, “kids”, “ideal para o seu bebê”, além da utilização nas mensagens de personagens de filmes e de desenhos animados. No caso específico dos bicos, mamadeiras e chupetas, deverá ­haver sempre um aviso aos pais sobre os prejuízos que o uso desses produtos podem causar ao aleitamento materno.

Também aqueles potinhos de alimentos industrializados consumidos por crianças de menos de três anos estão na mira da regulamentação. Autoridades da área da saúde recomendam que os bebês sejam amamentados por até dois anos ou mais e que o leite materno seja o único alimento da criança até o sexto mês de vida.

Pesquisas mostram que o leite materno protege as crianças contra diarreias, pneumonias, infecções de ouvido e alergias. Contribui também para diminuir as chances de desenvolverem, quando adultas, doenças como diabetes, obesidade, hipertensão arterial e vários tipos de câncer.

Claro que na faixa inicial da vida a propaganda é dirigida aos pais. Mas bastou a criança se aproximar dos 3 anos para começar a receber diretamente toda a carga publicitária. Com a agravante de ainda não poder discernir entre o que é propaganda e o que é entretenimento e lazer.

Quantas gerações foram induzidas ao consumo precoce atraídas por apresentadoras simpáticas e afetivas que conquistavam a criançada com esses atributos para, em seguida, mostrarem a sua verdadeira face de vendedoras das mais variadas quinquilharias, de sandalinhas a brinquedos eletrônicos.

No caso dos alimentos, o cuidado que agora se verifica em relação aos bebês deve ser urgentemente estendido aos mais velhos. Os dados em relação ao crescimento da obesidade infantil no Brasil são assustadores. Segundo o Ministério da Saúde, o ­excesso de peso já atinge 52,5% da população adulta do país. O índice de obesidade é de 17,9%. Entre as crianças, uma em cada três, na faixa dos 5 aos 9 anos, está acima do peso.

Em novembro, o Senado deu um passo importante para proteger também as crianças mais velhas da publicidade. Foi aprovada a atualização do Código de Defesa do Consumidor, explicitando como abusiva a publicidade que “se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança” e as que induzam diretamente ao consumo, causem sentimento de inferioridade ou usem crianças e adolescentes como porta-vozes diretos da mensagem de consumo.

Estamos ainda longe da Suécia que baniu totalmente a publicidade dirigida ao público infantil há mais de dez anos. A decisão foi tomada após a divulgação de uma pesquisa nacional mostrar que 88% da população apoiava a medida. Por aqui, ainda não se fez esse tipo de pesquisa, mas acredito que, apesar de todas as diferenças econômicas e culturais entre os dois países, os resultados seriam semelhantes.

Apesar disso, neste momento, cabe aplaudir os pequenos avanços ocorridos ao final do ano passado, esperando que sirvam de sustentação para ações mais ousadas que levem ao final a resultados pelo menos próximos aos obtidos em países com a Suécia.

Laurindo Lalo Leal Filho
No RBA
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Mayoría venezolana apoya modelo económico socialista, revela encuesta

Solo el 19% de la población se muestra en desacuerdo con la construcción del nuevo modelo productivo,
propuesto por el Ejecutivo nacional para hacer frente a la crisis económica
El 79% de los venezolanos está de acuerdo con la construcción de un nuevo modelo económico productivo y socialista, en el que convivan empresas del Estado, empresas privadas y empresas de propiedad social, según un estudio realizado por la encuestadora Hinterlaces entre el 11 y el 17 de enero de este año.

La encuesta realizada entre el 11 y 17 de enero de 2016 fue aplicada a mil 200 personas mayores de edad y cuenta con un nivel de confianza de 95 por ciento, ante un margen de error máximo admisible de 2,7 por ciento.

De acuerdo con los resultados, sólo el 19% de la población se muestra en desacuerdo con la construcción del nuevo modelo productivo propuesto por el Ejecutivo nacional para hacer frente a la crisis económica, ocasionada por el descenso de más del 80% en los ingresos petroleros del país.

El estudio consultó 1.200 hogares y arrojó que el 90% está de acuerdo con la alianza entre el Gobierno nacional y la empresa privada para buscar soluciones a la situación económica.
El 90% está de acuerdo con la alianza entre el Gobierno nacional y la empresa privada para buscar soluciones a la situación económica.

El 90% está de acuerdo con la alianza entre el Gobierno nacional y la empresa privada para buscar soluciones a la situación económica.

El 90% está de acuerdo con la alianza entre el Gobierno nacional y la empresa privada para buscar soluciones a la situación económica.
El 90% está de acuerdo con la alianza entre el Gobierno nacional y la empresa privada para buscar
soluciones a la situación económica.
Entre otros datos, arroja la investigación que el 56% de la población está de acuerdo en que la economía debe conducirla el Estado y no la empresa privada, mientras que el 41% se muestra en desacuerdo.

Entre otros resultados de la encuesta, se encuentran estos:

— 85 por ciento de los venezolanos está de acuerdo con que “se debe promover la inversión privada, nacional e internacional, mientras 13 por ciento está en desacuerdo.

— 67por ciento de los venezolanos está aprueba que “hay que aumentar el precio de la gasolina” mientras que 32 por ciento no.

— 95 por ciento de los venezolanos está de acuerdo con “sincerar los precios de algunos productos agrícolas para que sea rentable producirlos”, frente a 4 por ciento que no coincide con esta propuesta.

— 60 por ciento de los venezolanos quiere que “el Gobierno fije el Precio Máximo de Venta de los productos” mientras 38 por ciento está en desacuerdo.

— 60 por cierto de los venezolanos desea “llevar el dólar preferencial para importar alimentos y medicinas de Bs. 6,30 a Bs. 100″ mientras que 37 por ciento no.

— 75 por ciento de los venezolanos está en desacuerdo con “eliminar el cupo en dólares para viajeros al exterior” mientras que 23 por ciento está de acuerdo.

— 74 por ciento de los venezolanos está en desacuerdo con la privatización de Petróleos de Venezuela, mientras que 23 por ciento está de acuerdo.

— 71 por ciento de los venezolanos está en desacuerdo con la privatización del servicio de electricidad frente a 28 por ciento de acuerdo.

No Cuba Debate
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Exposição no Memorial do RS retrata cultura palestina pelo olhar das mulheres

Uma das atrações da mostra são os 23 vestidos de diferentes regiões da Palestina
Foto: Joana Berwanger/Sul21
Parte da cultura milenar da Palestina está retratada na exposição “Memórias e Identidade: raízes palestinas”, aberta na noite da última quinta-feira (21), na Sala dos Tesouros do Memorial do Rio Grande do Sul, no centro da Capital. A escolha da data de abertura da mostra não foi por acaso. Embora não fizesse parte da programação do Fórum Social Mundial Temático, realizado em Porto Alegre de 19 a 23 de janeiro, a ideia era aproveitar a realização do evento para inaugurar a exposição. “A questão Palestina é uma questão internacional”, justificou Fátima Ali, secretária da direção da Federação Árabe Palestina do Brasil, referindo-se ao conflito travado há décadas com Israel pela conquista do seu território.

Distribuídos em três salas, os objetos e peças revelam um pouco dos costumes, hábitos e da arte da comunidade palestina do ponto de vista das mulheres do país. “A exposição funciona toda na lógica da mulher”, explicou Fátima. Logo na entrada da Sala dos Tesouros, há uma família palestina vestida com as roupas típicas do país, bem como a bandeira do país nas cores verde, vermelho e preto enrolada em um ramalhete de flores secas, que representa vida e a esperança

A bandeira enrolada a uma ramalhete de flores secas representa vida e esperança|Foto: Joana Berwanger/Sul21
A bandeira enrolada a uma ramalhete de flores secas representa vida e esperança. Em segundo plano, a foto
de criança palestina em um campo de refugiados
Foto: Joana Berwanger/Sul21
Já na sala maior, está uma das principais atrações da exposição: 23 vestidos típicos de diferentes regiões da Palestina, como de Ramallah e de Belém, colecionados pela embaixatriz do país no Brasil, Nahida Tamimi Alzeben, ao longo de mais de 12 anos. “Eu venho fazendo essa exposição desde a Colômbia”, contou Nahida, sobre o início da mostra, em 2001, época em que era embaixatriz da Palestina no país vizinho.

Todos os vestidos são bordados em ponto cruz, uma especialidade das mulheres palestinas, em que as linhas entrelaçadas formam belos desenhos. Por serem de diferentes regiões do país, alguns vestidos são mais coloridos do que outros. Lenços ajudam a compor o traje típico feminino. A habilidade para trabalhos manuais ainda pode ser observada no artesanato feito de palha, nos jarros e bacias produzidos com o barro de Jericó, cidade mais antiga do mundo, e na pintura em cerâmica. Todos esses elementos também compõem a exposição.

Os bordados de ponto cruz é uma especialidades das mulheres palestinas e embelezam os vestidos | Foto: Foto: Guilherme Santos/Sul21
Os bordados de ponto cruz é uma especialidades das mulheres palestinas e embelezam os vestidos
Foto: Foto: Guilherme Santos/Sul21
A religiosidade do país também está presente na mostra com a exposição da Bíblia Sagrada e do Alcorão, já que a Palestina é constituída por cristãos ortodoxos, romanos e muçulmanos. Os dois livros são revestidos de madrepérola, material feito a partir das conchas tiradas do mar e lapidadas. Há também rosários feitos do caroço da azeitona. “Os rosários foram feitos pelo meu pai, que deu um para cada filho”, recordou Nahida, que é gaúcha, mas filha de palestino. Também está exposto um rosário muçulmano feito de madrepérola.

A religiosidade também está presente na exposição com exposição por exemplo do Alcorão e do rosário em madrepérola|Foto: Foto: Guilherme Santos/Sul21
A religiosidade também está presente na exposição com exposição por exemplo do Alcorão e do rosário em
madrepérola
Foto: Foto: Guilherme Santos/Sul21
Outro objeto que faz parte da mostra são chaves de casa, que tem uma simbologia para os palestinos. Em 1948, quando foi criado o estado de Israel, informou a embaixatriz, os palestinos deixaram a região para campos de refugiados carregando as chaves das casas. “Eles foram com suas chaves com a esperança de voltar algum dia”, explicou.

Além dos vestidos, objetos e peças típicas, integra a exposição “Memórias e Identidade: raízes palestinas” uma coleção de fotos do país sob o olhar de fotógrafos brasileiros que retrataram, em 2013, a rotina do povo e a situação de conflito vivido pela Palestina. As imagens mostram mesquitas, mulheres trabalhando no campo, o muro que divide o país de Israel e soldados judeus ocupando as fronteiras entre os dois territórios. “Nós chamamos o muro da vergonha que está tomando muito o espaço da Palestina”, disse Nahida, sobre a estrutura de concreto de oito metros de altura. Hoje, conforme ela, o país está fragmentado. “A Palestina não é mais um espaço contínuo”, acrescentou a embaixatriz. Há também fotos de crianças. Uma delas retrata um menino chorando próximo a uma cerca. “É a história de uma criança palestina nos campos de refugiados”, frisou Nahida.

Uma coleção de fotos feitas por fotógrafos brasileiros mostra a rotina da Palestina|Foto: Guilherme Santos/Sul21
Uma coleção de fotos feitas por fotógrafos brasileiros que mostra a rotina da Palestina também faz parte da
exposição
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Com entrada gratuita, a exposição “Memórias e identidade: raízes palestinas” pode ser visitada até o dia  8 de marco, de terça à sexta-feira, das 10h às 18h. Já nos sábados, domingos e feriados, o horário é das 12h às 17h. Nos dias 23 e 24 de janeiro, a visitação será das 9h às 18h. “A exposição é uma homenagem às mulheres palestinas, mas a todas as mulheres”, conclui a embaixatriz sobre o fato de a mostra encerrar no Dia Internacional da Mulher. A exposição, que está na 11ª edição no Brasil, já passou por outras cidades do Rio Grande do Sul: Passo Fundo, Região Norte, Canoas e São Leopoldo, Região Metropolitana.

Jaqueline Silveira
No Sul21
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O macarthismo como álibi para o lobby


Já tinha anotado isso na série que escrevi sobre a revista Veja, anos atrás (https://sites.google.com/site/luisnassif02/). Cria-se primeiro o macarthismo. Depois, esconde-se atrás deles todas as jogadas. Basta revestir uma jogada comercial de anti-PT — como foi a parceria de Veja com Daniel Dantas — para justificar politicamente uma nítida jogada de apoio comprado. Basta reverberar o discurso anti-PT, como o faz Gilmar Mendes, para todas suas arbitrariedades jurídicas e comerciais serem ignoradas.

Mais que a Folha, o Estadão — que não é de jogadas — tornou-se prisioneiro desse maniqueísmo fazendo o jogo mais primário de lobby do grupo de operadores que joga no mercado de taxas.

* * *

Antes da reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), tentou de todas as formas caracterizar as pressões pela redução da Selic como manobra do PT. Isso em um dia em que até o Prêmio Nobel de Economia, Jospeh Stiglitz, criticou a rigidez do BC. Recorreu à velha chantagem sobre o presidente do BC Alexandre Tombini, de que qualquer vacilo na definição da Selic seria tratado como rendição ao PT.

* * *

Na véspera da reunião do Copom, quando Tombini acenou que a alta de juros poderia não se concretizar — invocando as projeções do FMI — o jornal escancarou suas páginas para que o mercado saísse batendo em Tombini. Inclusive com a velha jogada do hiperdimensionamento do episódio. O jornal supostamente entrevistou dois supostos ex-diretores do BC que supostamente teriam afirmado que nunca, jamais houve supostamente uma declaração tão inoportuna de dirigente do BC.

Enfim, no dia da reunião do Copom, Tombini foi reduzido a pó.

* * *

Consumada a decisão de não aumentar os juros, o mercado — como se diz no jargão — "realizou o prejuízo", isto é, tratou de lamber as feridas e pensar no futuro. Pior que Tombini é o BC sem Tombini.

Na edição de hoje, essa obra prima da tergiversação, da parte do grupo da renda fixa, usando o jornal como cavalo de umbanda:

Uma das manchetes principais diz: "Manutenção do juros fortalece Tombini, diz o mercado". E o lide é um primor: "A decisão do Copom de manter a taxa de juros em 14,25% ao ano, enquanto o mercado esperava elevação, afetou a credibilidade do Banco Central, mas não enfraquece o presidente Alexandre Tombini, segundo analistas consultados pela Broadcast".

Entenderam? A força do BC — e do seu presidente — reside na sua credibilidade, já que seu poder é medido pela facilidade com que induz o mercado a caminhar na direção pretendida. Como pode a credibilidade do BC ter sido afetada e seu presidente se fortalecer? A explicação é um clássico do nonsense: "Ele está politicamente forte, já que a mudança de posição atende a uma pressão do governo". Como assim? O sinal de que uma pessoa está politicamente forte é sua capacidade de resistir às pressões. Se o suposto mercado acredita que Tombini cedeu às supostas pressões, por definição ele está politicamente fraco.

* * *

Não ficou nisso.

Pela undécima vez o jornal espalha terrorismo sobre o câmbio com uma manchete incorreta: "O dólar atinge o maior valor desde o Plano Real". Mais uma vez trata valor nominal como valor real. É a mesma coisa que afirmar que a assinatura do Estadão atingiu o maior valor desde o Plano Real.

Qual a intenção desse jogo? Quem está conduzindo a redação é uma jornalista de economia de larga experiência. O jornal conta com três belos (e honestos) colunistas de economia: Celso Ming, José Paulo Kpuffer e Fernando Dantas.

Mesmo supondo que quem redigiu a manchete não domine a economia, ainda assim há o precedente de poucos meses atrás, em que o próprio jornal admitiu como incorreta a comparação de valores nominais do câmbio.

* * *

Na quadra atual das redes sociais, das profundas transformações da mídia, o único trunfo de que dispõem os jornalões é a seriedade e o discernimento. Quando a militância ideológica afeta até a objetividade da cobertura, para quê comprar? Melhor seguir o perfil de Revoltados On Line no Facebook.

Luís Nassif
No GGN
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Operadoras perdem quase 1 milhão de assinantes e estudam 'ataque' à Netflix

Após perder quase 1 milhão de assinantes desde 2014, as operadoras decidiram centrar fogo naquela que consideram sua nêmesis e culpada maior da fuga de clientes: a empresa Netflix, serviço de streaming que oferece na internet filmes e programas variados.

As operadoras acionaram um megalobby em Brasília, que vai atuar em várias frentes:

1 — Querem que a Ancine exija da Netflix o pagamento da Condecine (taxa em torno de R$ 3.000 por cada filme do catalogo); 

2 — Querem que o governo obrigue a empresa a ter pelo menos 20% de produção nacional em seu inventário;

3 — Defendem que todos os Estados da federação passem a cobrar ICMs das assinaturas (leia-se: dos clientes);

4 — Estudam uma forma de cobrar ou da Netflix ou de assinantes de banda larga uma taxa "extra" quando o cliente usar streaming; a justificativa é que o serviço "consome muita banda larga".

Pode não parecer, mas, com exceção da última — mais difícil de ser imposta e possivelmente ilegal — a pior das medidas acima, se de fato implantadas, seria a obrigatoriedade de a Netflix disponibilizar 20% de conteúdo nacional.

Isso porque a maior fornecedora de conteúdo nacional hoje é o Grupo Globo, que se recusa a fazer parceria com a empresa. A Band, "parceira" histórica da Globo no esporte, também tem se recusado a conversar com a empresa estrangeira.

Outro problema é que produtoras menores que aceitassem fazer parceria poderiam ser "boicotadas" pelos canais do Grupo Globo (mais de 35 na TV paga).

Ou seja, a Netflix teria de fazer parceria rápida com emissoras como SBT, Record e SBT.

Além disso, se o serviço de streaming tiver de oferecer 20% de conteúdo nacional, o conteúdo estrangeiro total causaria diminuição radical do acervo — para obedecer a proporção.

A Netflix não revela o tamanho de seu acervo disponível no Brasil. Nos 160 países em que se encontra hoje, entre filmes, programas e capítulos de seriados e séries, estima-se que haja um milhão de peças.

Derrocada

Em dezembro de 2014, as operadoras somavam quase 20 milhões de assinantes no Brasil. Em dezembro esse número havia caído para quase 19 milhões.

Enquanto as operadoras cobram pacotes que variam de R$ 70 a mais R$ 300 (a média nacional de mensalidade estimada por assinante é de R$ 166), a Netflix oferece filmes e programas por mensalidades de R$ 19,90 e R$ 29,90 (qualidade HD).

As ações da Netflix são negociadas na Bolsa nos EUA e tiveram valorização de quase 140% (em dólar) no ano passado.

No Brasil estima-se que a empresa tenha algo próximo de 4 milhões de assinantes e tenha faturado mais de R$ 1 bilhão no ano passado (cerca de US$ 250 milhões).

Não se sabe a audiência ou consumo da Netflix no Brasil ou em outros países porque a empresa não disponibiliza seus dados para empresas como a Kantar Ibope.

Se as operadoras tiverem sucesso em fazer a empresa pagar as taxas de Condecine, no entanto, o acervo da Netflix no país deixará de ser oculto.

Ricardo Feltrin, é colunista do UOL, onde apresenta o programa Ooops! às segundas. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros.
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A defesa das mamatas de juízes do novo secretário de Alckmin versus a realidade sueca

Nalini ao lado de Alckmin: dinheiro para comprar ternos em Miami
Um vídeo circula intensamente pela internet. Nele, o desembargador José Renato Nalini defende numa entrevista à TV Cultura  a aprovação de R$ 1 bilhão em “auxílio-moradia” para os juízes.



Nalini acaba de ser nomeado secretário da Educação por Alckmin.

Disse ele: “Esse auxílio-moradia na verdade disfarça um aumento do subsídio que está defasado há muito tempo. Hoje, aparentemente o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem de pagar plano de saúde, ele tem de comprar terno, não dá para ir toda hora a Miami comprar terno, que cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro”.

Não foi tudo.

“Espera-se que a Justiça, que personifica uma expressão da soberania, tem que estar apresentável. E há muito tempo não há o reajuste do subsídio. Então o auxílio-moradia foi um disfarce para aumentar um pouquinho. E até para fazer com que o juiz fique um pouquinho mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome de pânico, tanto AVC etc.”

É tamanho o descaro na defesa de mamatas e privilégios que não surpreende que o vídeo tenha viralizado nas redes sociais.

Como funcionam as coisas numa sociedade menos iníqua?

Pouco tempo atrás, a jornalista e escritora Claudia Wallin, brasileira residente na Suécia, escreveu um texto para o DCM sobre a vida de um juiz sueco.

Você lê o artigo de Claudia, confronta com a realidade nacional e tem duas opções: ou ri ou chora da miséria humana de Nalini e, por extensão, do Poder Judiciário nacional. A escolha é sua.

Um trecho:

Qualquer democracia consequente sabe dos perigos que o descrédito da justiça acarreta — e por isso os evita.

Tome-se, por exemplo, a Suécia.

Em nenhuma instância do Judiciário sueco, magistrados têm direito a carro oficial e motorista pago com o dinheiro do contribuinte. Sem auxílio-aluguel e nem apartamento funcional, todos pagam do próprio bolso por seus custos de moradia.

Para viver em um país que tem um dos mais altos impostos do mundo, e um dos custos de vida mais elevados do planeta, os juízes suecos têm salários que variam entre 50 e 100 mil coroas suecas — o equivalente a cerca de R$ 16,5 mil e R$ 33 mil, respectivamente.

Para ficar no exemplo dos vencimentos máximos de um magistrado sueco: descontados os impostos, um juiz da Suprema Corte da Suécia, que tem um salário de 100 mil coroas, recebe em valores líquidos o equivalente a cerca de R$ 18,2 mil por mês.

No Brasil, um juiz federal recebe salário de 25,2 mil, e os ministros do STF — que ganham atualmente 29,4 mil — aprovaram proposta para aumentar os próprios salários para 35,9 mil. Isso sem contabilizar os diferentes benefícios e gratificações extras disponíveis para as diferentes categorias do Judiciário: no tribunal do Rio de Janeiro — por exemplo —, entre proventos e benefícios, há juízes recebendo 150 mil mensais.

Na Suécia, não se oferece qualquer tipo de benefício extra a magistrados. Auxílios de todo tipo, abonos, prêmios e verbas de representação não existem para juízes suecos. Nenhum magistrado tem direito a plano de saúde privado. E todos sabem que um juiz, por dever moral, não aceita presentes ou convites para viagens, jantares e passeios de jatinho.

Também não há Excelências entre os magistrados suecos. Assim me lembra Göran Lambertz, juiz do Supremo Tribunal da Suécia, quando pergunto a ele sobre suas impressões acerca dos recentes benefícios reivindicados pela Corte brasileira.

”Claudia, mais uma vez peço a você que me chame de Göran. Estamos na Suécia”, ele diz, quando o chamo mais uma vez de ”Sr. Lambertz”. E prossegue:

”É realmente inacreditável saber que juízes se empenham na busca de tais privilégios. Nós, juízes, somos pagos com o dinheiro dos impostos do contribuinte, e temos que ser responsáveis. Juízes devem ser elementos exemplares em uma sociedade, porque é deles que depende a ordem em um país. E é particularmente importante que não sejam gananciosos.”

Na concepção do sueco, buscar benefícios como auxílio-moradia é uma atitude ”terrível e perigosa”, pois faz com que o cidadão perca o respeito por seus juízes. Com graves consequências para toda a sociedade:

”O Judiciário de um país deve ter o respeito inabalável dos cidadãos”, alerta Lambertz. ”Porque uma das consequências da perda de respeito do cidadão pelos juízes, é que as pessoas também acabam perdendo o respeito pela lei.”

Göran Lambertz faz o que diz: todos os dias, pega a bicicleta e pedala até a estação ferroviária da cidade de Uppsala, a cerca de 70 quilômetros da capital. De lá, toma o trem para o trabalho na Suprema Corte sueca.

A casa do juiz, que já tive a oportunidade de conhecer, é confortável, mas surpreendentemente modesta. Na ocasião, enquanto Göran fazia o café na cozinha, perguntei se ele tinha direito a benefícios como auxílio-alimentação. A resposta foi cortante:

”Não almoço à custa do dinheiro do contribuinte”.

De lá, seguimos — ele de bicicleta e trem, eu de carro — para seu pequeno gabinete na Suprema Corte da Suécia. Não há secretária na porta, nem assistentes particulares. Os 16 integrantes da Corte dividem entre si uma equipe de cerca de 30 assistentes jurídicos, e 13 auxiliares administrativos.

”Luxo pago com o dinheiro do contribuinte é imoral e antiético”, me disse na época o magistrado sueco, em reportagem que foi exibida na TV Bandeirantes.

Paulo Nogueira
No DCM
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Cuidado: uma epifania pode revelar o injusto


Ora, aconteceu que, indo eu já de caminho, e chegando perto de Damasco, quase ao meio-dia, de repente me rodeou uma grande luz do céu”. (Atos 22:6)
Merecer la vida, no es callar y consentir/Tantas injusticias repetidas/ Es una virtud, es dignidade/Y es la actitud de identidade/Más difinida!
- Honrar la vida, Eladia Blázquez
É Saramago, em uma das primeiras páginas mais belas da literatura, quem abre o livro Levantados do Chão com uma pérola: “O que mais há na terra, é paisagem”. O capitalismo faz com que se possa adaptar o mestre português para dizer que o que mais há na terra é a sua tentativa de estabelecer o egoísmo e a indiferença para com o outro como tônica da relação entre homens e mulheres.

O contrário do egoísmo é a alteridade. Da indiferença, o amor [1]. O amor é uma experiência transfomadora e revolucionária, não à toa Che Guevera dizia que “todo verdadeiro revolucionário é movido por grandes sentimentos de amor”. Nas relações humanas é a consciência do outro, no sentido do respeito e compreensão (cuidado), quem deveria conduzir os encontros cotidianos. O capitalismo risca a alteridade, a ternura e o cuidado do mapa. Em seu lugar, faz com que o medo ocupe lugar de destaque.

Isso faz com que nos tornemos indeferentes à dor alheia, aos seus dramas e formas de ver a vida. Incapazes de ocupar o lugar do outro, passamos a naturalizar processos e situações de violência e injustiça. Mas ainda há esperança.

* * *

No início dos anos 2000, em um acampamento sem-terra no Pontal do Paranapanema, interior de São Paulo, um coronel da polícia militar, após realizar uma ação de busca e apreensão nos barracos de lona à procura de carne e macarrão — produto de dois caminhões saqueados no dia anterior por aqueles trabalhadores e trabalhadoras — chegou em casa e teve um daqueles momentos a que podemos chamar de epifania.

Algumas horas antes da transformação, durante o dia quente, adentrou naqueles casebres e viu a situação daquelas famílias. Já tarde da noite, pegou o telefone e discou para uma das lideranças do MST. Ligou porque não conseguia dormir. Ao ver os próprios filhos em casa, depois de ter visto os filhos daqueles homens e mulheres que quase nada possuíam além da própria dignidade, perdeu o sono, mas ganhou algo revelador: a consciência ética da alteridade.

Durante quase uma hora quis saber sobre realidade da vida cotidiana de Josés e Diolindas, donos das casas as quais havia entrado em cumprimento a ordem judicial. Queria saber como poderia fazer para ajudar.

Aquele homem treinado durante décadas com o rigor das academias militares a comandar, sufocar sua alteridade e enxergar no outro um inimigo, rompeu numa tarde de sol forte no interior de São Paulo muitas das amarras que foi formatado a ter. Desprendeu-se e encontrou o que sempre esteve ali ao lado ou mesmo dentro de si. Nunca mais foi o mesmo.

* * *

Procuro há muitos anos por uma reportagem do JN. A cena era o cumprimento de uma ordem judicial que determinava a destruição de uma casa. O oficial de justiça acompanhava o trabalho do motorista da máquina que transformaria em entulhos a sala, quarto, cozinha e a memória de uma família que viveu durante muitos anos naqueles poucos metros quadrados.



O motorista, surpreendendo a todos, antes mesmo de dar a estocada fatal, paralisou. Abaixou a cabeça sobre o volante da máquina e se recusou a destruir. O oficial então mandou que a polícia o obrigasse. Tentou mais uma vez e estancou em sua própria consciência. O homem que comandava a máquina, um simples operário, foi mais humano e teve a dignidade que faltou ao magistrado que decidiu.

Preso por desobediência à ordem judicial, foi conduzido aos prantos até a viatura policial. Recebeu, porém, enquanto caminhava, aplausos. Sinal de que a humanidade não residia somente nele ou naquela casa, mas também era compartilhada por quem acompanhava a cena. Aquele obreiro não somente viveu uma epifania como a irradiou.

São essas cenas que vez ou outra nos surpreendem e resgatam certo otimismo em meio à insensibilidade que se firma como tônica do sistema de produção capitalista. Sistema que não somente sufoca a existência do outro, como faz com esses exemplos sejam quase que uma clarividência em meio à cegueira reinante.

É que com o o fim da história defendido pelos neoliberais o sentido da existência não passa pela ideia do justo, bom e belo da vida. A solideriedade é vista como algo pontual.

Pouco importa se a ordem judicial para destruição da casa era justa ou se a fome impingiu aqueles trabalhadores a buscarem comida. A engenharia burocrática do sistema de justiça costumeiramente ignora essas nuances.

O ensino jurídico não trabalha com a ideia de justiça, mas sim com o positivismo mais tacanho. O estudante é treinado, assim como o policial, a não se questionar.

A falta de estímulo ao estudante de direito para criticar a realidade diante de si fabrica futuros atores jurídicos que não pensam, apenas aplicam o que imaginam ser a lei. A lei, não a justiça.

* * *

Em um vídeo postado nas redes sociais sobre o processo de ocupação das escolas em São Paulo, uma das crianças deu aula de direito a um policial que, sem mandado judicial, quis entrar e retirar os estudantes.

Em que pese a nobreza das epifanias individuais pelas quais todos temos a oportunidade de passar, são os processos coletivos de tomada de consciência que possuem maior capacidade de transformação da realidade.

O trabalhador sem terra que decide ocupar o latifúndio percebe, no processo, que o fazendeiro é atendido sem demora pelo juiz que determina a ação policial de despejo e que a mídia o tratará como bandido. Se dá conta que a engrenagem do Estado protege o proprietário e que isoladamente não é nada, apenas força de trabalho. Daí porque o termo “Uni-vos” ganha destaque no em um dos documentos políticos mais significativos dos últimos séculos.

As lutas coletivas por moradia no espaço urbano revelam as contradições de uma cidade pensada para poucos e, ao se retirar o véu que encobre as suas nódoas, aquele trabalhador ou trabalhadora entende porque só pode acessar a cidade, com tudo o que ela tem de melhor a oferecer, para trabalhar.

É por isso que a ação coletiva dos pobres desperta tanto medo nas classes dirigentes e são demonizadas pela grande mídia. A luta pela redução do preço das passagens é perigosa ao sistema porque questiona o poder de grandes grupos empresariais junto aos governantes. É a polícia, portanto, quem deve receber os manifestantes e com eles tratar se valendo da sua usual cordialidade.

* * *

Outro dia, em um desses vídeos da internet, uma mulher sozinha protegia um ladrão no Rio de Janeiro da sanha de linchadores. Ouviu muitos impropérios e quase foi agredida. Mas ficou ali, entre a irracionalidade daqueles homens, o ladrão e sua temerária decisão de agir de acordo com a sua consciência e ética. Foi repreendida inclusive pelo policial que tardou a chegar. Aquela mulher é uma metáfora da tragédia dos nossos tempos, mas também, esperança de que o capitalismo ainda não nos roubou tudo.

Atordoado, me concentrei na análise daqueles homens que agrediam a mulher e buscavam o sangue do ladrão. Por que agredir alguém já rendido, indefeso e mais fraco? De onde irradia esse ódio para tamanho desiderato? Falhei na tentativa de compreender.

Talvez estivesse a mirar o lado errado da cena. Era aquela mulher, corajosa, e íntegra que deveria tentar compreender. O que a levou a arriscar sua integridade física pelo ladrão? O que levou Saulo, aquele que perseguia os cristãos a se tornar Paulo no caminho de Damasco? Por que aquele motorista da máquina se recusou a cumprir a ordem judicial?

São essas as perguntas que devem feitas e essas as pessoas que merecem uma análise profunda por que nos devolvem aquilo que temos de mais pleno e merecedor no sentido de honrar a vida.

[1] Vale ler o texto de Leonardo Boff “Há que se cuidar da amizade e do amor”: https://leonardoboff.wordpress.com/2013/10/26/ha-de-se-cuidar-da-amizade-e-do-amor/

Patrick Mariano, é escritor.
No Justificando
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O ultracapitalismo tem nome: TPP

Agora que podemos ver o texto da Parceria Transpacífica (TPP), sabemos porque foi mantido
secreto
O texto da TPP [acordo comercial fechado entre Estados Unidos, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Japão, Malásia, México, Nova Zelândia, Peru, Cingapura e Vietnã] agora pode ser visto pelo público, graças ao governo da Nova Zelândia, e é tão ruim quanto alertavam os ativistas.

A TPP, se adotada, promete ser uma corrida ao fundo do poço: mais empregos nos países de menores salários, o direito de corporações multinacionais de vetarem qualquer lei ou regulamentação que seus executivos rejeitarem, o fim do direito de saber o que tem na sua comida, preços mais altos para os remédios e a subordinação da privacidade na internet a interesses corporativos.

Esta é a razão para ter sido negociada em segredo, com consultas apenas a executivos e lobistas da indústria durante a definição do texto.

A ameaça da TPP vai muito além dos doze países que negociam — ela pretende ser um acordo “porto”, a que outros países podem aderir a qualquer momento, desde que aceitem o texto negociado previamente.

Além disso, a TPP é modelo para dois outros acordos: a Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) entre os Estados Unidos e a União Europeia e o Trade In Services Agreement (TISA), um acordo ainda mais secreto negociado entre 50 países, que eliminaria qualquer controle sobre a indústria financeira.

A eliminação de proteções é precisamente o que as corporações multinacionais dos Estados Unidos pretendem ver na Europa ao replicar os termos da TPP na TTIP, um processo que se torna mais fácil pela natureza anti-democrática da Comissão Europeia, que negocia em nome dos governos europeus.

Atualmente, os padrões mais altos do Canadá em saúde, meio ambiente e proteção do consumidor estão sob ataque no NAFTA, o North American Free Trade Agreement.

A TPP é um presente sem precedente às corporações, indo muito além do NAFTA, que prejudicou trabalhadores e agricultores no Canadá, Estados Unidos e México.

Mais de 300 mil empregos seriam eliminados nos Estados Unidos pela aprovação da TPP. O Wall Street Journal, celebrando a vitória do capital multinacional, estimou que 330 mil empregos na manufatura serão extintos, baseando sua estimativa em um aumento de U$ 56 bilhões no déficit comercial. A previsão segue o cálculo do Departamento do Comércio, segundo o qual 6 mil empregos são perdidos a cada U$ 1 bilhão de aumento no déficit comercial dos EUA.

[…]

Democracia cancelada pelo poder corporativo

Sob a TPP, as corporações são elevadas ao nível de governos nacionais e, na prática, pode se dizer que estariam acima dos governos. O texto da TPP obriga que “normas internacionais” sejam aplicadas em benefício do “investidor” — tais normas estabelecidas previamente por tribunais secretos, ao interpretar o NAFTA e outros tratados de “livre comércio”.

Pior, a TPP não coloca qualquer limite em quem pode ser qualificado como “investidor”, que deve ser financeiramente compensado pelos governos se seus lucros potenciais não se materializarem por causa de regulamentações ou normas de segurança locais.

Embora as regras que beneficiam o capital multinacional estejam escritas em linguagem firme, não há a mesma garantia para a proteção de direitos. O grupo ambiental Sierra Club informa que o TPP obriga que apenas um dos sete acordos ambientais citados em acordos de “livre comércio” anteriores seja cumprido, o que é alarmante, considerando que os requisitos ambientais para corporações têm sido rotineiramente ignorados.

[…]

A TPP nem menciona as palavras “mudança climática”!

Mais de 9 mil corporações teriam novo poder para processar governos se uma lei ou regulamento prejudicasse seus lucros. Pior, a TPP obrigaria o Departamento de Energia dos Estados Unidos a automaticamente aprovar as exportações de gás liquefeito para todos os países signatários. Isso garantiria mais fracking; sob o NAFTA, a província de Quebec foi processada, numa tentativa de derrubar a moratória ao fracking imposta pelo governo local.

Seria apenas o começo, de acordo com o grupo 350.org:

“O acordo daria às empresas de combustíveis fósseis o poder extraordinário de processar governos locais que tentem manter os recursos no solo. Se uma província adotar moratória no fracking, corporações poderiam ir à Justiça; se uma comunidade tentar evitar uma mina de carvão, as corporações poderiam derrubar o veto. Resumindo, as regras solapariam a capacidade dos países de fazer o que os cientistas dizem que é o mais importante para combater o aquecimento global: manter combustíveis fósseis no solo”.

Sem direito de saber o que você come

A segurança alimentar não teria melhor futuro. A TPP adotaria os padrões mais baixos de qualquer país signatário e o fim da proteção contra os organismos geneticamente modificados (OGM). Segundo a Food & Water:

“A TPP inclui novas provisões desenhadas para questionar os inspetores governamentais que monitoram a importação de comida… A indústria da comida e o agronegócio exigiram — e receberam — regras que vão tornar mais difícil defender padrões domésticos de segurança alimentar das disputas de comércio internacional… O agronegócio e as empresas que produzem sementes poderiam usar as novas regras para desafiar o banimento de OGMs, os testes para contaminação por OGMs, países que não aprovam novos OGMs ou que requerem etiquetas nas embalagens. A TPP dá à indústria um poderoso instrumento contra os movimentos nacionais que lutam pela identificação de OGMs nas embalagens. A linguagem da TPP é mais poderosa e expansiva que a de acordos anteriores, que já foram usados para enfraquecer a proteção aos golfinhos na produção de atum e a exigência da identificação de país de origem nos alimentos importados”.

Os serviços de saúde também sofrem um ataque direto, forçando os países a se moverem na direção do sistema dos Estados Unidos, segundo o qual a Saúde é um privilégio dos que podem pagar por ela, em vez de um direito humano. Programas de governo voltados para reduzir o preço dos medicamentos são um alvo da TPP.

Os Médicos Sem Fronteiras, que há anos soaram o alarme, dizem:

“Os países da TPP concordaram com as exigências do governo dos Estados Unidos e das companhias farmacêuticas internacionais que representam o aumento do preço de remédios, a extensão desnecessária de monopólios e o adiamento da competição dos genéricos… A TPP vai entrar para a História como o pior acordo comercial para o acesso à medicina nos países em desenvolvimento, que serão forçados a mudar suas leis para incorporar a proteção à propriedade intelectual das farmacêuticas. Por exemplo, a proteção adicional a drogas biológicas será estendida pela TPP aos países em desenvolvimento que aderirem. Estes países vão pagar um alto preço nas próximas décadas e ele será medido pelo impacto nos pacientes”.

O texto da TPP terá de ser aprovado pelas casas legislativas de diversos países e embora o tempo seja limitado e o processo encurtado para facilitar a aprovação em vários deles, a TPP pode ser derrotada. Não é uma questão nacional. Os trabalhadores serão prejudicados em todo lugar, com o desaparecimento de empregos nos países desenvolvidos e condições de trabalho miseráveis nos outros — é por isso que o capital, de onde quer que venha, está apoiando a TPP. Se houver chance de derrotá-la, será através de ativistas dos dois lados do Pacífico. Não temos tempo a perder.

Para mais sobre a TPP (em inglês) clique aqui.

Pete Dolack, no Counterpunch, 13 de novembro de 2015

Reprodução parcial, para íntegra em inglês clique acima

No Viomundo
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Thomas Sankara. "...e naquele dia mataram a felicidade"

Thomas Sankara
Um documentário de Silvestro Montanaro, produzido pela Rai 3 (emissora pública italiana) em 2013.

Há 29 anos um pequeno homem de pele negra desafiou os poderosos do mundo.

Ele disse que a política fazia sentido somente se trabalhasse para a felicidade dos povos.

Ele afirmou, com o seu próprio exemplo pessoal, que a política era serviço, não poder ou enriquecimento pessoal.

Ele apoiou as razões dos pobres, dos diferentes e das mulheres.

Ele denunciou o domínio criminoso do mercado financeiro.

Desrespeitou as regras de um mundo baseado numa competitividade que sempre pune os humildes e os que trabalham. E que sempre enriquece os monetaristas desta estúpida arena.

Gritou que o mundo era para as mulheres e homens, todas as mulheres e todos os homens, e que não era justo que a maioria deles só pudessem olhar para a vida de poucos e tentar sobreviver.

Foi assassinado e tentaram apagar qualquer lembrança dele.

Mas Sankara vive!

Tradução: Ednea Sales e Carlinho Utopia com a colaboração de Ana Lidia Lopes
Legendas: Carlinho Utopia



Poucas pessoas da esquerda conhecem Thomas Sankara. Ele, que é considerado o Che Africano por suas semelhanças com o guerrilheiro argentino (desde a boina até o fato de falar francês e a amizade com Fidel), comandou um pequeno país africano por menos de uma década, mas fez ele progredir de forma extremamente rápida.

Em 1983, ele — então um capitão de 33 anos — liderou um golpe popular contra o governo do Alto Volta (antiga colônia francesa) e mudou completamente a política daquele país empobrecido.

http://edugeography.com/images/burkina-faso/burkina-faso-06.jpg 
A primeira ação foi mudar o nome do país para Burkina Faso ("Terra dos Homens Justos" na língua local) para tornar o país independente e destruir o odiado passado colonial. Não só isso, mas ainda livrou o país das dívidas e da influência do FMI e do Banco Mundial.

Suas políticas domésticas focaram em evitar a fome com uma reforma agrária com ênfase na autossuficiência, priorização da educação com uma campanha nacional de alfabetização, e promoção da saúde pública ao vacinar milhões de crianças contra doenças como meningite e febre amarela. Ainda fez uma ambiciosa campanha de construção de estradas e trilhas.

Sankara também fez coisas maravilhosas para as mulheres. Mulheres conseguiram cargos em seu governo, que proibiu a mutilação genital, a poligamia e os casamentos forçados. Fez muito mais: encorajou-as a permanecer trabalhando e estudando mesmo se grávidas. Leia aqui o discurso de Sankara sobre as mulheres em espanhol.

Para combater os corruptos, Sankara chegou a instituir tribunais revolucionários e mesmo Comitês de Defesa da Revolução (baseando-se na Revolução Cubana, que ele admirava).

Tais atitudes enfureceram os imperialistas franceses. 4 anos depois de tomar o poder, foi deposto e assassinado em um golpe financiado pela França.

Uma semana antes de morrer, declarou: "você pode matar um revolucionário, mas não pode matar ideias".

Enquanto revolucionários como indivíduos podem ser assassinados, você não pode matar ideias.

Publicado aqui em 20/7/2011: Quem foi Thomas Sankara?
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Governo dos EUA é a mais completa organização criminosa da História da humanidade


Único entre os países da Terra, o governo dos EUA insisite em que as suas leis e ditames têm prioridade sobre a soberania das nações. Washington assevera o poder dos tribunais estado-unidenses sobre estrangeiros e reivindica a jurisdição extra-territorial dos tribunais dos EUA em relação às atividades estrangeiras que Washington ou grupos de interesses americanos desaprovam. Talvez o pior resultado do pouco caso de Washington para com a soberania de países seja o poder que tem exercido sobre estrangeiros unicamente com base, destituída de qualquer evidência, nas acusações de terrorismo.

Como os Estados Unidos exerce seu poder contra a soberania dos países.

Considere alguns exemplos. Washington primeiro forçou o governo suíço a violar as suas próprias leis bancárias. A seguir forçou a Suíça a revogar as suas leis de segredo bancário. Alegadamente a Suíça é uma democracia, mas as leis do país são determinadas em Washington por pessoas não eleitas pelos suíços para representá-las.

Considere o “escândalo do futebol” que Washington cozinhou, aparentemente para embaraçar a Rússia. A sede da organização do futebol é a Suíça, mas isto não impediu Washington de enviar agentes do FMI à Suíça para prender cidadãos suíços. Tente imaginar a Suíça a enviar agentes federais suíços aos EUA para prender americanos.

Considere a multa de US$ 9 mil milhões que Washington impôs a um banco francês por deixar de cumprir plenamente as sanções de Washington contra o Irã. Esta afirmação do controle de Washington sobre uma instituição financeira estrangeira é ainda mais audaciosamente ilegal, tendo em vista o fato de que as sanções que Washington impôs ao Irã e que exige que outros países soberanos obedeçam são as próprias estritamente ilegais. Na verdade, neste caso temos uma tríplice ilegalidade pois as sanções foram impostas com base em acusações cozinhadas e falsificadas que eram mentiras.

Ou considere que Washington afirmou sua autoridade sobre o contrato entre um estaleiro naval francês e o governo russo e forçou a companhia francesa a violar um contrato com um prejuízo de milhares de milhões de dólares para a empresa francesa e de grande número de empregos para a economia do país. Isto fazia parte do ensinamento de Washington aos russos, uma lição por não seguirem as ordens de Washington na Criméia.

Tente imaginar um mundo em que cada país afirme a extra-territorialidade das suas leis. O planeta seria um caos permanente com o PIB mundial gasto em batalhas legais e militares.

A Washington dos neocons afirma que como a História escolheu a América para exercer a sua hegemonia sobre o mundo, nenhuma outra lei é relevante. Só a vontade de Washington é que conta. A própria lei não é sequer necessária pois Washington muitas vezes substitui ordens por leis, como quando Richard Armitage, vice-secretário de Estado (uma posição não eletiva) disse ao presidente do Paquistão para fazer como ele lhe dizia ou “nós o bombardearemos até [levá-los] à idade da pedra”.

Tente imaginar os presidentes da Rússia ou da China dando uma ordem dessas a uma nação soberana.

De fato, Washington bombardeou grandes áreas do Paquistão, assassinando milhares de mulheres, crianças e idosos aldeões. A justificação de Washington era a afirmação da extra-territorialidade das ações militares dos EUA em outros países com os quais Washington não está em guerra.

Tão horrendo como tudo isto, o pior dos crimes de Washington contra outros povos, é quando Washington sequestra cidadãos de outros países e transporta-os para Guantanamo em Cuba ou para masmorras secretas em estados criminosos, tais como o Egito e a Polônia para serem ali mantidos e torturados em violação tanto da lei estado-unidense como do direito internacional. Estes crimes chocantes provam, para além de qualquer dúvida, que o governo dos EUA é o pior empreendimento criminal que alguma vez existiu sobre a Terra.

O império americano como ele é de fato no século 21.
Quando o criminoso regime neoconservador de George W. Bush lançou sua invasão ilegal no Afeganistão, o regime criminoso em Washington precisava desesperadamente de “terroristas” a fim de providenciar uma justificação para uma invasão ilegal que constitui um crime de guerra grave sob o direito internacional. Contudo, não havia quaisquer terroristas. Assim Washington despejou folhetos sobre os territórios dos senhores da guerra oferecendo milhares de dólares em prêmios de dinheiro por “terroristas”. Os senhores da guerra respondiam a essa oportunidade e capturavam qualquer pessoa desprotegida, vendendo-as aos americanos em troca do prêmio. A única evidência de que os “terroristas” eram terroristas é que as pessoas inocentes foram vendidas aos americanos pelos senhores da guerra como sendo “terroristas”.

Ontem, foi libertado depois de 14 anos de tortura pela “América da liberdade e da democracia”. O oficial dos EUA, Cor. Barry Wingard, que representou Al-Kandari disse que “simplesmente não há evidência além de que ele é um muçulmano no Afeganistão no momento errado, além de duplas e triplas declarações de rumores, algo que nunca foi visto como justificação para o encarceramento”. Muito menos, disse o Cor. Wingard, era causa para muitos anos de torturas num esforço para forçar uma confissão das alegadas ofensas.

Não espere que a mídia presstituta do ocidente o informe destes fatos. Para descobrí-los deve ir à RT ou ao sítio web de Stephen Lendman ou a este sítio.

A mídia presstituta do ocidente faz parte da operação criminosa de Washington.

Paul Craig Roberts
Traduzido para publicação em dinamicaglobal
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Scola aqui

Minha mulher consegue conversar com qualquer um. Até comigo. Língua não é problema. Ela teve italiano suficiente para contar ao Ettore Scola, em Porto Alegre, que tínhamos sido vítimas de um dos “feios, sujos e malvados” do seu filme com este nome, em Roma. Andávamos pelo Trastevere, enlevados, pré-saboreando o almoço que comeríamos dali a pouco, quando passou um scipatore de lambretta saído do filme do Scola e levou a bolsa da Lucia com tudo dentro.

“Tudo” mesmo. Nossa viagem estava naquela bolsa: passagens, passaportes, dinheiro, cheques. Com as últimas liras que eu ainda tinha num bolso, pagamos um táxi até a embaixada brasileira na Piazza Navona. O setor de socorro a brasileiros scipatados da embaixada só abriria depois do almoço. Sentamos num banco da praça, desolados. Nunca a beleza de um lugar foi tão desperdiçada como a beleza da Piazza Navona por nós, naquela manhã. Na embaixada fomos tratados simpaticamente, e ninguém perguntou o óbvio: de quem tinha sido a brilhante ideia de carregar “tudo” numa bolsa, ainda mais no Trastevere?

Estávamos em 1977. Tempos de ditadura no Brasil. Passaportes brasileiros eram valorizados por refugiados políticos, substituí-los levaria tempo. Mandarem dinheiro do Brasil para nos salvar também era complicado. O que fazer? Esta historia tem um final feliz que compensa todo o resto. Da embaixada telefonam para o Araújo Netto, correspondente do “Jornal do Brasil” em Roma, e contam o que nos aconteceu. Marcamos um encontro com o Araújo e a Maria Eunice numa pizzaria perto do Pantheon, naquela noite. Nunca tínhamos nos visto antes e tornamo-nos amigos de infância instantaneamente. O Araújo e a Maria Eunice nos levaram para seu apartamento e, literalmente, nos adotaram. Até hoje me emociono quando lembro aquele mês que ficamos com eles e suas meninas. Há scipatadas que vêm para o bem.

Claro que a Lucia não contou tudo isto ao Scola. Eu só contei aqui porque queria lembrar o Araújo e a Maria Eunice, nós que nos amávamos tanto. O Scola estava no Brasil, a convite da Casa de Cinema de Porto Alegre, e comeu um churrasco conosco. Não me lembro se pediu desculpas à Lucia pela ação do seu personagem de Lambretta.

Luis Fernando Veríssimo
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